Chapter Text
— O que aconteceu com esse arquivo? Alguém pode me explicar? Parece que vocês voltaram para o início da faculdade! — Pran esfrega as pontas dos dedos na testa, exasperado, enquanto repreende os estagiários após o susto que teve ao abrir o arquivo do projeto e encontrar blocos de todo tipo de mobiliário e símbolos espalhados pela tela. E linhas soltas! Muitas linhas soltas!
— Desculpe, Sr. Parakul! Nós dois estamos corrigindo o Projeto Legal e temos que fazer muitas coisas de uma vez. — Reclama Aiko, dando um passo à frente, mantendo as mãos juntas, fechadas em punho, tentando simular o wai que tanto vê o superior fazer.
— Tudo bem, não falei tão sério. Mas... como? — Pran os encara, um tanto cismado com o esforço mínimo que eles tiveram para manter organizado o arquivo que ele os entregou de maneira impecável duas semanas atrás, mas corrige o tom duro do início da conversa. Eles estão ali para aprender, afinal.
— É que o Sr. era nosso supervisor em tempo integral. Conseguíamos fluir melhor. Agora temos dúvidas o tempo todo e dificilmente o encontramos por aqui. — Stacey esclarece, e Aiko continua:
— Isso! Estamos fazendo tudo de uma vez, e não temos tanto tempo. Posso organizar esse arquivo em casa hoje, e amanhã estará como o senhor gosta, prometo.
Stacey está com com lábios franzidos, e as sobrancelhas bastante expressivas do Aiko, quase emolduram seu desespero. Pran lembra que trilhou o mesmo caminho tortuoso poucos anos atrás no seu primeiro estágio em Bangkok.
— Não, não! Isso jamais, jovens! Vocês precisam descansar a mente de vocês. Trabalho é trabalho, casa é casa. — Fala com empatia, olhando em seus olhos. — Vou pedir para que Max os auxilie próxima semana, OK?
— Por favor, Pran! Digo, Sr. Parakul! — Stacey clama e Pran sorri.
— Olha, eu gosto de saber que vocês me respeitam dessa forma, mas por favor, me chamem de Parakul mesmo, ou até de Pran. Prefiro. — Se ajeita na cadeira, relaxando um pouco a postura ereta coberta pelo seu melhor blazer caqui, enquanto apoia os cotovelos na mesa e tenta encontrar um lugar na sala para encarar. — hm... quando falam "Sr. Parakul", me sinto como um senhor. E eu aparento quase a idade de vocês, não?
— Fora as olheiras e as roupas do senhor, parece sim!
— Stacey... — Pran aperta os olhos para a garota, enquanto ela lhe solta uma piscadela, sorridente. Bom, eles estão mais calmos, pensa Pran, confortável com a provocação da estagiária.
— E esse relógio infantil, Sr. Pran, definitivamente, traz o equilíbrio. — Aiko brinca, se desfazendo do pavor que estava há poucos minutos. Pran é um bom chefe. Um líder. Todos acham isso.
— Vocês dois, saiam daqui! — Expulsa eles, com um gesto caricato, deixando que suas covinhas aparentes sejam como um consolo para a bronca de antes. — Agora vou ligar para o Max e explicar a situação de vocês para ele.
— Obrigada! AH, senh-... Pran! Descobrimos agora há pouco que hoje é o aniversário dele, estamos pensando em nos encontrar no Pub aqui em frente para comemorar. Umas oito ou oito e meia.
— Jura? Que legal Stacey. Se eu sair cedo da obra, vou lá sim. — Ela comemora, contida, e Aiko a acompanha até a porta.
— Certo, Pran. — Fala o nome do superior, evidenciando a atenção em acertar o vocativo correto. — É surpresa, então, obviamente, ele não sabe!
— Pode deixar.
Pran volta a atenção ao arquivo bagunçado no computador e sabe que não vai conseguir ir para a obra enquanto se lembrar do estado em que este documento se encontra. Pran precisa arrumar.
Ele até compreende a confusão na cabeça dos estagiários, mas não entende como qualquer ser humano consiga não ser organizado. Organização é algo tão simples para Pran, sempre foi. É só colocar as coisas onde elas devem estar. E mantê-las lá. Não há nada mais fácil a se fazer. Isso não significa que as coisas não devam mudar de lugar. Elas devem, mas apenas quando for preciso e para que haja evolução — algo que ele aprendeu com o Pat, mais precisamente, quando ganhou aquele beijo inesperado, que havia sonhado em roubar por muitos anos, mas não soube lidar ao senti-lo em seus lábios. Tudo iria mudar, afinal. Mas deveria mudar. E Pat soube desde o principio.
Pran aprendeu a ser mais relaxado, também. A sincronia dos dois, mesmo em situações completamente diferentes, o ensinou a aceitar a assimetria das coisas. A assimetria da realidade; a assimetria da permanência; a assimetria das relações. Assim como, a das pessoas. Todas elas são diferentes, mas não significa que estão erradas. E Pran ainda luta para aceitar que "falta de organização" também se enquadra nisso, mas pensa que, definitivamente, é a melhor definição — para a assimetria, no caso.
Acontece que, a vida dele está uma bagunça total, e desde que se permitiu naquele telefonema com o Pat, a assimetria das suas reações foi evidente. Pran ficou mais feliz, mais presente e mais disposto, ao passo que Pat desapareceu. Dessincronizou. Eles não estavam mais conseguindo manter aquele contato constante, pois seus horários dispersaram e o Pran não encontrava brecha para falar sobre a promoção, mesmo já tendo a aceitado. Ele nem ao menos cogitou recusar, ignorando complemente a promessa que fez na carta. "Vou passar mais um ano aqui, e é só. Eu prometo, Pat". Pran precisou aceitar e sabe que o Pat entenderia — ao menos espera que sim.
É a oportunidade de uma vida, afinal. E ele sabe que é, porque nessas três semanas que se passaram após ter aceitado à proposta de Patrick, sente que ganhou uns cinco anos de experiência. O contato com os profissionais da obra, somado ao conhecimento extenso que Pran possui sobre todas as coisas, lhe deram coragem para falar — e ele sabe o que desbloqueou essa coragem: o som de todos aqueles gemidos que o Pat o entregava quando descobria pouco a pouco o que o Pran fazia do outro lado da linha naquela mesma ligação. É isso que o Pat faz.
E se Pran aceitou o emprego, e consegue viver como vive, mesmo sozinho, é porque ele sabe que o Pat vai estar a qualquer momento do outro lado da linha, só esperando ele chamar. E tudo valeria à pena. Até que Pat não estava mais disponível. E por três semanas seguidas.
Pran enviou o dinheiro para pagar o apartamento deles — a décima terceira de mais de não sabe quantas parcelas restantes, que na verdade, ele sabe, mas evita pensar —, e Pat apenas o agradeceu, dizendo que completou o pagamento, seguido de alguns emojis de cachorro, beijinhos e nada mais. Pran disse, outro dia, que estava com saudade e um pouco sem tempo, ao passo que Pat lhe enviou apenas: "também estou, pequeno, você não imagina", e nada mais! Também estou o quê, Pat? Com saudade ou sem tempo? Pran choraminga — internamente — dia após dia. Nenhuma ligação. Nenhuma informação nova. Nenhum elogio ao seu sorriso, ou qualquer menção à sua pele ou às suas covinhas. Nada do tradicional, nem nada a acrescentar.
As coisas haviam esfriado, pensou Pran, o que é comum para a maioria das relações, mas essa distância da voz do Pat — da atenção do Pat — estava drenando toda energia restante nele, abrindo espaço para uma solidão confusa, que não sentia há muito tempo. Ainda mais que Pran tem certeza de que Pat recebeu seu "cartão-postal-inventado", porque ele pagou a mais pelo envio, só para ter acesso ao rastreio. E ele também notou que esse foi o dia em que Pat pareceu mais distante. Será que ele havia cansado de vez?
Pran lembra que tudo começou no dia da promoção. Ele havia o xingado de todas as formas e não pensou muito se o outro estava ou não tendo um dia bom. Se lembra que Pat até disse que tinha algo para contar, mas por causa da promoção, Pran o evitou aquela noite. E mesmo que, depois de alguns dias, Pat tenha dito que era sobre o aplicativo — que estava funcionando em todas as lojas, enfim —, Pran sabia que ele não faria aquele alarde por causa de um software. Pat estava "uma zona", Pran tem certeza, pois reconhece uma bagunça de longe.
Tudo estava muito estranho — e parado — e Pran não fazia ideia do que era, até o momento em que chega em seu condomínio, às sete e meia da noite de uma sexta qualquer, apressado para se arrumar à tempo para a festa-surpresa-de-última-hora do Max, com as barras das calças e as mangas da blusa completamente sujas de terra e cimento — menos seu blazer, que ele segurava em uma capa plástica transparente sem nenhuma dobra sequer — e se depara com a cena mais absurda de sua vida: Pat sentado no corredor, escorado em sua porta, rodeado por duas sacolas de viagem, Nong Nao jogado ao lado de seu antigo violão, que estava estirado no chão, apoiado na perna — não de Pat, mas de Dissaya, sua mãe.
— Mas que porra é essa?!
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