Chapter Text
Constantinopla, 338 d.C.
Um Imperador era doutrinado para resistir.
Desde muito cedo, aprendeu o seu papel no mundo. Havia nascido para liderar, mesmo que sua missão inicial não começasse em um trono. Antes, teria que tomar o poder à força, e, para isso, foi doutrinado.
Sua história teve início muito antes de seu nascimento, com a linhagem de senadores mortos pela sede de liderança, seus antepassados trilhando o caminho que deveria seguir, no momento apropriado. Mirae, sua mãe, tinha cuidado de cada detalhe para que nada saísse dos planos. Era uma mulher esperta, quiçá mais inteligente do que todo o Senado que levou Júlio Cesar à morte. Sem sobrenome, pois nunca fora reconhecida, e sem nada a perder, numa vida sem propósito, jamais desperdiçaria a noite em que o Imperador Constantino a avistou entre mais de cinquenta mulheres, em um acampamento religioso que cruzava o Oriente Médio.
Veja. Mirae não era religiosa. Era uma sobrevivente. Deitar-se com um Imperador, que prezava por sua imagem e, ainda assim, usava o corpo de uma jovem sem rumo como ela, foi seu modo de executar o que todos acreditavam ser a única forma de ser útil. Por muitos anos, foi considerada feiticeira, mas Mirae apenas tirou a sorte grande ao engravidar – um pequeno milagre em seu ventre, que teria uma vida real, e não o que sua mãe fingia ter.
Seu filho seria um líder.
Batizou seu pequeno milagre com o nome do pai que nunca conheceu, Chanyeol, e se dedicou a prová-lo que um sobrenome não significaria nada quando crescesse. Ninguém iria perguntar seu nome quando cortasse gargantas, invadindo territórios e tomando o que era seu (seu por direito, seu por bem ou por mal).
No início, tudo o que Chanyeol tinha era um pequeno exército e uma grande vontade, um desejo de concretizar os planos de sua mãe, dos que acreditaram em sua jornada e sequer sobreviveram para vê-lo partir. Mas, logo, ele carregava apoiadores por onde passava, com uma energia confiável e um discurso fácil de ler e de crer, este que se espalhava pelos quatro cantos.
Quando avistou Constantinopla, dias depois do falecimento do pai que nunca soube de sua existência, com seu corpo cansado e o peito apertado, ansioso pelo o que lhe aguardava, tinha mais do que homens ao seu lado. Tinha o povo, uma legião que ansiava pelo seu poder, pois acreditavam fielmente que não haveria outro sucessor para Constantino além deste, que tampouco sabiam ser sangue de seu sangue.
Claro, embora não tenha erguido a lança, ordenou muitas mortes até alcançar o que lhe pertencia. Se o preço do poder era ter seu trono manchado de vermelho, assim o faria, pois o início da vida, a juventude, fez de Chanyeol inconsequente. Acreditava que poderia tudo, no momento em que assumisse seu posto, que todos os relatos sobre o governo de Constantino, como o declínio do Império Romano, eram falsos. E ainda se fossem reais, Chanyeol daria o seu jeito.
Faria Mirae se orgulhar, de onde quer que o observasse.
Seria melhor do que o pai, melhor do que sua mãe sonhou, melhor do que a imagem que seu povo enxergava ao olhá-lo.
Não demorou a perceber ser apenas uma ilusão.
— Com todo o respeito, Vossa Majestade… Realmente crê no que diz ao seu povo? — Na sala do trono, mantinha apenas Solano, seu braço direito. Nem mesmo seus homens, que cuidavam de sua segurança a cada segundo do dia, permaneciam durante suas discussões. O homem havia sido um dos primeiros a marcharem a seu favor. Devia muito a ele, a ponto de permitir que testasse sua paciência. — Quanto tempo até perceberem que podem desafiá-lo? Sem terra, sem plantio. Sem plantio não há comida. Se não mostrá-los que detém o controle, enquanto busca uma forma de se ajustar à situação… Temo que não irá durar no poder, meu senhor.
Solano tinha idade elevada quando o conheceu, mas, agora, com o fato nítido em seu olhar cansado, na pele preta pálida, no modo de agir, sem mais papas na língua, notava que, logo, necessitaria de um sucessor. Era fervorosamente religioso, cristão e, por isso, o grande admirador de Constantino. Descobrir que Chanyeol era filho do Imperador, do seu soberano, foi apenas uma das razões para que o seguisse fielmente. Contudo, enxergar honestidade nos olhos melancólicos e exaustos de Solano era o motivo para o Imperador confiá-lo com a vida.
Eram idênticos. Homens humildes, mas obstinados, que pecavam em piedade.
— O que sugere, então? Que saia pelas ruas degolando todos os que me contrariarem, que reclamarem desse cenário? Diga de uma vez, se o que quer é ver um Ditador no poder ao invés de mim.
— Sabe quais são as minhas opiniões políticas. Vossa Majestade.... O povo, de fato, ama seu líder, mas tão somente quando de barriga cheia, com um teto sobre a cabeça. Ainda que caridoso, nenhum líder seria amado se deixasse seu povo à beira da fome. — Disse, com sua túnica marrom se arrastando pelo chão, acumulando poeira, ao que se aproximava de seu Imperador. — Olhe para trás. Vossa Majestade conquistou mais terras do que todos os seus antecessores, do que vosso pai... — Sussurrou o que nenhum outro homem com vida sabia, o segredo de sua existência. — Cabe enxergar, desta vez, o fim da linha. Sem invasões e sem escravos, temos um gigantesco problema. Com as tentativas de invasão em vosso território, precisamos de um exército maior, mas com as finanças enfrentando tempos sombrios… É a hora de mudar a vossa abordagem.
Todo o seu império ia de mal a pior, mas Chanyeol estava certo de que podia cuidar da situação. A pressão exercida por si próprio, pelo Senado e pelo povo, bastava para motivá-lo dia após dias. Tinha a corda em seu pescoço a dar leves puxões, lhe recordando de todas as suas obrigações como Imperador, seu dever.
— Vossa boa imagem não irá alimentar o povo e suas famílias, nem tampouco calar todos os senadores que discordam de vosso método. Porém… Se ao menos concordasse em nomear um novo general…
— Insistirá neste assunto? — Revirou os olhos, afastando-se, com seu vinho em mãos. Solano era um artista. Fazia um grande espetáculo a cada vez que visitava sua sala, como se gostasse tanto do som da própria voz que fizesse questão de encontrá-lo tão somente naquele salão, com o teto alto, o que tornava seu tom ainda mais grave, denso.
— É um homem firme, de confiança, que conhece o regime interno e compreende sua política, e não um brutamontes armado. Vossa Majestade deveria dá-lo uma oportunidade. O homem bastardo, de origens asiáticas, orgulhoso… Conheço Vossa Majestade. Não há pessoa em quem acredite mais para ajudá-lo.
Chanyeol ajeitou-se sobre a maciez de seu assento, dando fim ao álcool rubro, quente, sedento por mais. Quando alcoolizado, os mosaicos nas paredes saltavam para acompanhá-lo entre seus questionamentos. Percebia, nestes momentos, que era solitário (e bebum), mas não deixava de admirar as pinturas espalhadas pelo salão, nem tampouco de beber. Olhava para o seu conselheiro e enxergava o amarelado das pinturas, o olhar de quem se importava, e quase lhe doía pensar que era a última pessoa em quem confiava, em todo o mundo, bem diante de si.
Se não confiasse no julgamento de Solano, em quem confiaria?
Um Imperador era doutrinado para resistir. Contudo, no instante em que Chanyeol lhe cedeu pela primeira vez, contrariado, enfim, amedrontado pela realidade, viu-se cedendo sem cessar, sem hesitar.
— Traga o homem. Espero encontrá-lo no banquete futuro.
— Mas.. Não há tempo para tamanha espera por parte de Vossa Majestade Se...
— Isso ou nada, Solano. Está dispensado. — Sacudiu a mão adornada pelas jóias e se fez claro, virando-se em seu assento, admirando a pouca luz adentrar ao que o sol se punha, o ignorando até tê-lo distante.
— Não irá se arrepender. — Despediu-se em uma longa reverência.
Arrependimento era um sabor que Chanyeol desconhecia.
Não esperava conhecê-lo tão tardiamente.
Embora Solano considerasse tempo demais até seu encontro com o possível general, o momento chegou tão rapidamente que, na tão esperada data, o Imperador apenas não se sentia pronto. Banquetes em sua homenagem eram corriqueiros, porém, ter um convidado além dos familiares dos senadores, alguns de seus homens de confiança, era novo – novo a ponto de se sentir pressionado a impressionar o visitante, ainda que não fosse ele o homem cujo trabalho estivesse prestes a ser posto a prova, naquela noite.
O trabalho de Chanyeol era posto à prova a cada instante, porém, nunca ao longo dos seus banquetes, não. Nestes, a única atenção que o Imperador recebia era positiva, e foi com este pensamento que decidiu erguer sua cabeça. Claro, para isso, precisaria de ajuda. A noite regada a vinho cortou pela metade toda a sua capacidade de raciocinar logo pela manhã, e os membros de seu corpo entendiam o que isso significava – e, por isso, sequer tentou se erguer.
Somente aguardou.
— Vossa Majestade irá me perdoar se afastar as cortinas? Sei que está acordado e que precisa se levantar em breve. — Pelo ruído, soube que a luz lhe cegaria assim que abrisse os olhos. Suspirou, aproveitando a calma na voz que ecoava por seu cômodo. Era relaxante dar espaço para seu servo cuidá-lo. Gostava de ser cuidado. — O banho está pronto, assim como as vossas vestes. Mas… Vossa Majestade gostaria de se alimentar antes ou precisará de mais tempo para se recompor?
Jamais havia caçoado diretamente do Imperador, mas era inevitável enxergar o sorriso de canto, bem humorado, do servo ao confrontá-lo, desperto e revestido pelos cobertores que lhe foram feitos especialmente.
— Um sim para todas as perguntas, Kai. E um bom dia.
— Um bom dia, meu senhor.
Via graça na forma como o servo e seu conselheiro, vez ou outra, se referiam a ele. O homem nunca havia sido senhor. Sua escalada de bastardo a Imperador fora muito mais curta do que grande parte do Senado considerava justo. Porém, não valia preocupar-se com o fato, ao menos enquanto não tinha uma lança apontada para seu peito.
Pelo contrário, ao invés de incomodar-se com o tratamento, gostava do modo como se assemelhavam em algo, os dois homens que o enxergavam além do Imperador, ainda mais se fosse Kai.
O servo carregava a luz consigo por onde quer que fosse. Era iluminado, de fato, fosse pela melanina ou pela radiante energia que o perseguia, deixando seu rastro. Havia escolhido Kai antes mesmo de permitir que se apresentasse. Solano dizia que, na verdade, era apenas o inevitável se concretizando, pois se Kai havia escolhido servi-lo, então seria seu destino.
Era uma escolha, afinal.
As largas entradas do Grande Palácio de Constantinopla estavam abertas para Kai, se fosse de sua vontade abandonar seu posto. Chanyeol jamais lhe impediria. Mas olhando para aquele jovem que caminhava por seu cômodo com familiaridade, empurrando os cabelos tão finos e castanhos para trás das orelhas, o Imperador jamais lhe pediria para ir.
Haviam escolhido um ao outro.
— Pensa que sobrevivo a essa noite? — Respirou fundo, dentre as cobertas, enrolado de tal forma que apenas as mãos delicadas de Kai seriam capazes de auxiliá-lo, antes que ele partisse para a brutalidade e as afastasse aos rasgos.
— Sobreviveu a muitas desde que tomou o poder. Vossa Majestade é mais forte do que acredita. — Disse, com um voto de confiança que Chanyeol simplesmente não sabia precisar ouvir.
— Precisa parar com os elogios tão cedo… E de alimentar o meu ego antes mesmo de me alimentar.
— Nada que Vossa Majestade desconheça. — Kai lhe sorriu, o reverenciando ao que enfim se pôs de pé. Sua túnica branca, sempre alinhada e límpida, quase se confundia com o lenço derrubado, jogado ao chão. — Vá, ou o vosso banho irá esfriar.
Por último, encarou os olhos estreitos que jamais desviavam dos seus. Respeitosos ao permanecerem distantes do peitoral nu, embora nudez não fosse uma questão relevante. Para Chanyeol sempre fora, até perceber-se demasiadamente confortável com seu corpo quando a privacidade passou a existir em sua vida.
E, ali, o conforto apenas existia por Kai fazer parte dele.
Um banho frio foi o que encontrou, decidido a banhar-se sozinho, e era exatamente o que precisava, de cabeça quente e pensamentos avoados. Precisava de seus dois pés no chão, caso a sua noite terminasse do modo que Solano tanto desejava, e nenhum deles encontraria solidez se continuasse a flutuar em outra realidade.
Após o pôr-do-sol, o Imperador se banhou outra vez e, dessa vez, deixou que Kai lhe ajudasse. Sentia a tensão em seus ombros ao esfregá-lo, massageando seu couro cabeludo e o amansando para a longa noite que teria. O vestiu com sua toga mais suave e lhe cobriu com uma das suas medalhas mais queridas, deixada por sua mãe. Em branco e vermelho, ainda se enxergavam os adereços. Quis perguntar ao servo se ele gostava do que via, como forma de certificar-se de que estava apropriado, mas aceitou o sorriso carinhoso de Kai, prendendo os seus cabelos, que lhe cobriam a nuca.
Muitos relataram que um Imperador não deveria usar cabelos tão longos, mas estes o desconheciam com a nuca descoberta, aparentando ter a metade de sua idade real. Sem seus cabelos, Chanyeol era um garoto, e seu povo precisava de um homem que os resgatasse e os liderasse.
O primeiro vinho da noite, na taça de ouro que pertenceu ao seu pai, foi à sua jornada. Era um homem, agora. Precisava tomar decisões como um.
Isso, no entanto, requeria mais do que uma única taça.
— Vossa Majestade não crê que seria melhor guardar o vinho para depois de recrutar vosso novo general? — Sorrateiro, Solano sequer permitiu que lhe cumprimentassem ao vê-lo com a taça em mãos.
— Não, não creio. E seu homem deveria estar me aguardando, Solano, e não o oposto — Disse, se ajustando ao seu lado. — Não tem a obrigação de se manter sóbrio, não hoje ou por acreditar que me importaria.
Com os senadores presentes, e alguns de seus sucessores, o único a não beber era seu conselheiro.
Quase se sentia mal por vê-lo, noite após noite, se privando dos únicos prazeres que o Imperador conseguia enxergar pelo palácio. Não sucumbia a mulheres, não bebia, quase não deixava Constantinopla e, para completar, perseguia Chanyeol por onde quer que fosse. Não lhe soava como a melhor das vidas, mas Solano vivia como se nada pudesse felicitá-lo mais.
Era impressionante.
— Estou presente aos seus serviços e não para comemorar. Nem mesmo compreendo como Vossa Majestade bebe com tantas questões a serem resolvidas em mente. Me parece o impossível.
E era, pensou Chanyeol. Bebia por isso, igualmente.
— No dia em que não houver mais preocupações a me assombrarem, Solano, te juro não derramar uma única gota de vinho até o resto de minha vida. Mas, até lá, não vejo outras opções.
— Não vejo como vinho pode salvar a situação do império, Vossa Majestade.
Ora. Chanyeol não era feliz em encontros como aquele. Não havia batalhado para que fosse bajulado. Não lhe agradava sentir que apenas lhe apoiavam por não terem opção. Havia uma opção, de fato, mas esta envolvia enfiá-lo sob a terra e o pensamento de morrer tão cedo era desconfortável. Mas, ainda assim, gostava dos instrumentos de corda preenchendo todo o vazio com música, das bebidas e comidas, de alguns senadores, até (preferencialmente, os que não eram radicais – poucos). Havia aprendido a lidar, embora relutasse até o último segundo antes de adentrar seu salão.
Agora, o que não aceitaria era desrespeito em uma noite que apenas ocorria porque… Estava vivo. Era uma comemoração a mais uma vitória: respirar, dia após dia. Era humilde e simpático, mas com ressalvas.
Não deu-se ao trabalho de se virar.
— E quem me importuna com opiniões indesejadas?
Ouvia a lira tocar ao fundo do salão, mas tudo o que sua mente registrava era um som de tambores, anunciando que nada de bom poderia seguir o toque em seus ombros, daquele que teimava ser encarada quando lhe falavam.
Impressionou-se com a ousadia, e não escondeu o fato. O rosto se torcia quando virou em sua direção, seguindo os olhos de Solano, como um mudo, rígido, a pele preta tomando o tom fantasmagórico de susto.
— General Oh, ou apenas Sehun. Como Vossa Majestade preferir. — Apresentou-se a esticar sua mão, prontamente ignorado pelo Imperador, que voltava a olhar para seu fiel e tão cuidadoso conselheiro.
Antes que pudesse dizer algo, porém, Solano lhes sorria, afastando-se vagarosamente, como se não fosse o guia do encontro entre os outros dois: — Vossa Majestade, se puder me perdoar, prefiro deixá-los à sós, para que discutam em privado. — Não houve tempo para lhe retrucar ao que se foi, sem mais.
Não gostou nada daquilo.
— Vejo que é o homem que vem perturbando o juízo de Solano. — Suspirou, pesado, erguendo sua toga para que houvesse mais espaço ao seu redor. — Sejamos breves. Por qual razão crê ser bom o suficiente para cuidar de minha segurança, para proteger meu império?
Honestamente, Chanyeol conhecera milhares de homens no curso de seu império. Era de se esperar os mais diversos, de todos os cantos do mundo, diante de seus pés, prestando os devidos cumprimentos, o seguinte sempre mais respeitoso do que o anterior. Conheceu desde os mais sábios aos mais belos. Conversou táticas e políticas com inteligentes estudiosos e, no fim, deitou-se com os militares mais robustos, que pesavam sobre seu corpo e lhe cansavam como nunca. Respeitava as mulheres, as amava com carinho, mas homens eram seu fraco, e ainda que seu segredo houvesse durado pouco tempo, nunca fora repreendido diretamente.
Encarou muitos com a mesma distância que encarava aquele, diante de si, mas o modo seguro que se prostrava, os olhos pequenos como os seus, os lábios finos, vermelhos, nada se fazia comum.
— Porque há mais de trinta adagas voltadas para as suas costas neste salão. Enquanto Vossa Majestade bebe… Com todo o respeito, veja, pois tem todo o direito de fazê-lo, todos eles planejam sua morte.
Sorriu, gentil, concordando silenciosamente com sua fala.
— Planejarão minha morte ainda que seja meu general, Sehun Oh. Precisa de mais do que isso. — Murmurou, desviando os olhos do que poderia ser um sorriso em seu rosto, a se permitir ter sua taça servida.
— Perdão, mas Vossa Majestade é quem precisa de mais do que isso. — Engasgou-se antes mesmo de engolir todo o gole. — Está em constante risco, assim como o vosso império. A essa altura, o Senado tomou conta do vosso exército. Quiçá, esta seja a vossa última noite. Os homens ao seu redor não são confiáveis. Se percebo bem, deve dormir de olhos abertos todas as noites… E Vossa Majestade deve saber que isso não é viver.
Calou-se.
Um nó se formou em sua garganta, como se ouvisse a voz de sua mãe outra vez.
Compreendia o que Solano dizia, com o homem à sua frente. Era atrevido, diferente, e no fundo, Chanyeol até gostaria de rir, brincando com as jóias em seus dedos e seus cabelos, que escapavam das amarradas de Kai, mas o peito apertado não lhe permitia fazê-lo. Apenas encarava de volta o rosto fino, o olhar profundo, escuro e penetrante daquele que agia como detentor da solução de todos os problemas do atual império.
Talvez precisasse de alguém que o confrontasse, como Solano, mas que respeitasse as suas decisões finais.
— É uma posição de risco, Sehun Oh, e de responsabilidade imensurável. Estamos a falar da linha de frente de batalhas das quais, talvez, não retorne, e muito provavelmente não retornará. Há muitos conflitos ocorrendo no momento. Está certo de que deseja prosseguir? Pelo o que me disse, não sei se consideraria viver desta forma.
— Não me importo com a vida se morrer defendendo o que acredito, diferente do que Vossa Majestade parece acreditar. Precisa viver para governar. A verdade é que adoraria viver para defender o povo eternamente, mas se precisar morrer no caminho… Foi para o que nasci.
— Cômico seu modo de falar. É como se me conhecesse, Sehun Oh. — Zombou.
Jamais havia visto aquele homem e, ainda assim, o falava como se Chanyeol fosse um ser previsível, monótono. Havia saído do nada, escalado ao topo, guardando um segredo que faria com que os sucessores legítimos de Constantino, os que não eram bastardos como ele, o tirassem do poder na primeira oportunidade. Matariam, primeiro, a confiança do povo, e logo depois matariam-no. Era o homem mais imprevisível que conhecia, pois somente ele poderia ser Imperador quando tão intolerante a violência, sensível, amedrontado, ansioso com todo e qualquer passo ao seu redor.
Mas Sehun Oh estava certo. Mal piscava os olhos durante a noite, bebia até se jogar no mais profundo dos sonhos, apenas para que pudesse existir em paz. Sua mãe diria o mesmo, caso ainda estivesse viva. Aquilo não era viver.
Bem-humorado, o homem concordou, alisando seus cabelos rentes à nuca: — Algumas pessoas são fáceis de se ler. Vossa Majestade tenta esconder o que pensa e sente, porém, é um alguém expressivo. Basta olhar nos olhos e ver por si só.
Incomodado, Chanyeol desfez as amarras pelo cabelo, deixando que os fios cobrissem seu pescoço nu. Sentia calor, principalmente com o jeito que os olhos do outro homem foram de encontro à sua pele descoberta. Não esperava aquela resposta, tampouco gostava de notar ser fácil de ler. Era preocupante, tão preocupante quanto as mãos de Sehun Oh voltando a lhe tocar os ombros, com uma intimidade que lhe causava um rebuliço na boca do estômago.
— E Vossa Majestade… — Suspirou ele, com os olhos sérios mirando o peito coberto do Imperador, a prata sobre o pano vermelho, cobrindo o branco, destoando de todo o ouro, e completou, se movendo ao redor de seu superior. — Vossa medalha está ao contrário.
Não houve tempo para questionar os cabelos tocando seu rosto, empurrados para que pudesse o desconhecido, com suas mãos calejadas, retirar sua peça pela cabeça, apenas para colocá-la novamente, do modo correto. Breve o bastante para que não se importassem, lento demais para que Chanyeol não ofegasse com a curta distância, voltando a respirar. Não se recordava da última vez em que alguém, que não Kai, se aproximou de seu pescoço.
Não era apenas sensível. Era precavido.
— Eu… Irei refletir sobre o que conversamos, Sehun Oh. — Pigarreou, criando mais distância entre os dois, sendo reverenciado pelo homem de olhar sério e tão distinto.
— Agradeço a gentileza. Seria um prazer defender melhor o vosso império.
Estava acostumado a ter seu anel beijado, este que pertencera a Constantino e que, por um milagre, não havia sido levado por seus filhos quando estes deixaram o palácio. Porém, a sensação de ter as costas da mão beijadas, os lábios grudados a ela, os olhos nos seus… Não era protocolo. Era Sehun Oh.
— Aguardo notícias de Vossa Majestade.
Assistiu o homem se afastar em meio à escuridão da noite, apenas para ouvir os passos do outro a se aproximar. Era tão característico de Solano, que Chanyeol nem mesmo se dá ao trabalho de perguntar.
— Eu... Imaginei que fosse simpatizar um pouco mais com o rapaz. — Disse ele, com as mãos atrás das costas e a postura surpreendentemente melhor do que a de seu exército. O olhar preocupado que dizia já saber o que Chanyeol lhe diria.
Quiçá fosse mesmo um homem previsível.
— Ah, me traz um homem de Constantino e espera que eu simpatize. Entendo. — A voz não passava de um sussurro. Poderia espirrar segredos demais em uma única frase, e não estava disposto a arriscar chamar atenção. — Por que confiar em alguém que, até onde eu sei, poderia desejar minha morte, como outros mais?
No semblante de Solano, restava a mesma expressão piedosa que cobria a face de seu Imperador ao deixar seu palácio, ao observar o povo que nele confiava e perceber que faltava muito para que pudesse ajudá-los.
— Se temer a todos, não sobrará ninguém em quem se apoiar. Vossa Majestade… Eu nunca tive filhos, mas o vejo como se fosse de meu sangue. — Confessou, preocupado. — E conheci a família de criação do rapaz. Todos religiosos, todos decentes e respeitosos. Não me familiarizo tanto com ele, mas sinto uma energia boa quanto a ele, assim como a senti ao lhe conhecer.
— Isso não ajuda muito. — Retrucou.
— É preciso desconfiar, mas se isolar neste processo é perigoso. Não ter um aliado ao vossa lado, proteção de qualidade… Pense bem, Vossa Majestade. Não posso exercer todas as funções de confiança ao vosso redor. — As palavras escapavam como súplicas. Pedia com fervor, intensamente, para que repensasse seus conceitos e decisões, agia como um pai para o Imperador órfão, e tudo o que recebeu em troca foi o afago suave sobre o ombro, com a sua mão que não carregava a taça de vinho.
Disse, como se pudesse convencer a si próprio: — Sim, tu podes, Solano. Aceite uma bebida ao meu lado. Estou certo de que te deixará mais positivo como eu. E se continuar com sua água, ao menos desista de uma vez desta ideia. Não irei modificar o comando do exército enquanto não estiver certo desta necessidade.
E revisitando aquele momento entre pensamentos, desejava ter percebido o que jamais notaria. Desejava ter avisado Solano, desejava ter sido mais astuto, desejava sua mãe e todos aqueles que saltavam de acampamento em acampamento, junto a ele, em sua infância e que nunca mais voltou a ver. Desejava refazer seus passos, subindo para seus aposentos, deixando que Kai lhe despisse e colocasse sob os cobertores, como uma criança a ser mimada e ninada.
Recordava-se dos dedos quentes e macios em sua nuca, da voz melodiosa. Contava a história que trouxera consigo da Grécia, onde vira pela última vez seus pais e muitos irmãos, uma história, dizia Kai, que o fazia pensar em seu Imperador.
— E quando conseguem voar, ele se aproxima do sol e sente seu fogo. A luz é bela e seu calor é atrativo. Ícaro, com suas asas de cera, não resiste e se aproxima mais e mais. — O servo contou, mas Kai nunca ouviu o fim, ou não se recordava. Chanyeol nunca quis tomar conhecimento do restante por outra boca que não a de Kai.
Gostava de imaginar um final feliz para Ícaro.
— Vossa Majestade!
Em seus sonhos, voava sobre o sol, uma lua depois, quando Kai lhe acordou aos berros.
— Vossa Majestade, precisa acordar!
A noite anterior havia sido uma daquelas em que Chanyeol se deitava com uma adaga sob seu travesseiro e uma taça de vinho ao lado da cama. Respirava o odor de álcool ao abrir sua boca, com o peitoral dolorido a cada tentativa de sugar o ar para os pulmões, confuso.
— Kai, o que… — Nu sob seu cobertor, viu o mundo girar. Se não estivesse no mais profundo estado de choque, poderia colocar para fora todo o vinho consumido na noite. Não havia surpresa em seu tom, mas nada o livraria do desespero que acompanhava a simples e provável cogitação: — Constantinopla foi invadida. — Supôs.
O sangue gelou em suas veias. Mal conseguia se desesperar, sentindo a corda apertada em seu pescoço, o sufocando, assim como a espada entre suas costelas, cutucando sua carne, testando o quão firme precisaria empurrar até que, de uma única vez, transpassasse seu corpo magro e marcado.
— Eu... Acredito que os estrangeiros tenham invadido a cidade, Vossa Majestade.
Aquele era o medo do que lhe aconteceria quando cortassem a garganta do Imperador que lhe tratava como família, quando os homens maus viessem para tomar de Chanyeol o que tanto lutou para conquistar. Se Chanyeol temia, seu servo temia igualmente, mas ao que teria que se submeter assim que o homem tivesse sua vida ceifada.
— Convoque Solano imediatamente, Kai! Sem parar ou falar com outros homens. — Corria pelo cômodo, vestindo-se às pressas, com a adaga firme em sua mão trêmula, gelada, com tantos pensamentos correndo por sua mente que nenhum permanecia em tela por tempo suficiente para fazer sentido.
Tinha uma das túnicas na cabeça quando percebeu o costume, desfazendo-se dela para buscar sua cota de malha e percebendo, enfim, a presença de Kai, estático, ao lado da porta.
— Kai…
— Temo que Solano tenha acompanhado os legionários em batalha, Vossa Majestade.
Houve um lapso de tempo, do qual Chanyeol não se recordava, que eventualmente lhe fazia pensar em todo o percurso até o momento. Deitava-se entre cobertas e voltava direta e involuntariamente ao instante em que deu-se conta de que Solano havia ido e não voltaria. O soube antes mesmo de ouvir a porta do salão se abrir de um modo desajeitado como ele fazia quando se aproximava. Antes de se esbravejar, indagar o motivo para deixar Constantinopla em meio à invasão, indagar se não havia pensado que poderiam precisar deixar a cidade?
Era um fato que Solano se preocupava com a traição de seus homens, que estaria bem no lugar mais propício para ser morto, que monitoraria cada segundo, para o seu Imperador, que morreria o fazendo.
A verdade era que adoraria viver para defender seu povo eternamente.
— Sentimos muito, Vossa Majestade. — Ouviu, mas dispensou qualquer olhar de dó e piedade que pudesse receber de seus servos ao que dispensou os militares, que murmuravam como se trouxessem apenas boas notícias.
Venciam uma batalha, mas despediam-se de homens como Solano.
A adrenalina era tamanha que o corpo não conseguia reagir à tristeza com lágrimas. A última esperança havia sido tomada de si. De olhos apagados e boca sangrando, morria a fé e dedicação de um homem que nunca temeu traí-lo. Estava triste, sim, mas tremia como se seu corpo fosse se juntar ao de Solano naquele dia. Triste, decepcionado, mas mal conseguia usar suas pernas, pois cada passo dado parecia levá-lo diretamente para a morte.
Foi o dia em que percebeu temer mais a morte do que pensava.
— Preparem o corpo para o funeral. E Kai… Prepare um banho escaldante.
Estava sozinho, o que significava não haver tempo para sofrer o luto.
As trinta espadas voltadas para ele, como ouviu no último banquete realizado em sua homenagem, duplicariam, triplicariam, sem a presença de Solano. Não que o homem fosse a figura mais imponente em seu império, mas era olhos, ouvidos e boca. Sem ele, estava cego, surdo, mudo e de coração partido.
Nos últimos tempos, havia perdido peso. Era difícil manter a alimentação quando não podia sustentar dois instantes de paz. O álcool ajudava a mantê-lo cheio, satisfeito, mas era o grande causador de cada refeição recusada. Carregava uma aparência doente e, em breve, não seria apenas o visual. Antes, sentia-se desconfortável na banheira individual, mas parecia que nesta caberiam dois de si, agora, notou , esticando-se enquanto submerso.
Seria seu fim?
Sem família, sem filhos, que legado deixaria, se morresse antes do pôr-do-sol? Seria ele Chanyeol, o Bondoso, ou o Piedoso. Teria sua cabeça fincada à entrada de Constantinopla, o símbolo de como ser bom não bastava. Em sua primeira invasão, segurava uma espada que se encontrava limpa como suas vestes ao chegar ao trono. Seus homens, opostos, cortavam toda pele nua que surgisse em seu campo de visão. Do que havia adiantado privar-se de matar e mostrar ao povo que ele, como líder, não estava a executar os que se recusavam a aceitar seu domínio?
Era um mandante, um assassino. Para onde iria quando lhe assassinassem? Deveria ir embora antes que chegassem? Seu exército havia dado fim aos invasores, mas a preocupação maior estava dentro de seu palácio, dormindo em cômodos abaixo do seu, comendo em seus pratos e bebendo de seu vinho.
Não havia outra opção. Era seu fim, fatídico e certo como a água que lhe tocava a pele ou a falta de ar em seus pulmões. Certa como sua vitória precoce, como a morte de Solano e, logo, a sua.
Bem… Exceto se...
— Senhor! Pelos deuses… — Era a segunda vez que ouvia os berros de Kai em uma mesma ocasião. Os pelos se arrepiaram ao sentir o toque em sua nuca, lhe agarrando por seus cabelos escuros, puxando da banheira o Imperador, este que tossia com a lufada inesperada de ar, cuspindo a água que começava a engolir. — Por que... O que...
— Kai, peça que convoquem o militar Sehun Oh ao palácio. Ordene, se for preciso, e diga que o homem tem até o anoitecer para se apresentar em meus aposentos. — Não hesitou em dar o comando, mas a fala pausada pela falta de ar lhe fazia encharcar o corpo minúsculo do servo a cada vez que lhe agarrava o braço coberto, certificando-se de que ele compreendia cada palavra sua.
Era a resposta para tudo.
Se Solano confiara em Sehun Oh, haveria de fazer o mesmo.
Em cada movimento, invadindo seu cômodo e trancando as possíveis entradas, trêmulo com o frio que arrepiava o corpo ainda úmido, pensava em seu conselheiro, no que ele faria e como realizaria. Havia passado por mais uma invasão, perdido homens e, inclusive, sua mão direita, e sequer poderia contar com seu ombro para apoiar a cabeça e aliviar o pesar, ou sua companhia, ainda que para assisti-lo beber e afogar-se em suas mágoas e preocupações.
Se Chanyeol evitava a sobriedade, antes, sabia que sua maior companheira poderia ser a taça de ouro de seu pai. Ao menos assim, quando o encontrassem vulnerável – pois era um fato, o Imperador não era forte quando sozinho, bêbado ou não –, não sentiria dor, somente o calor se espalhando pelo corpo, junto ao sangue em suas vestes.
Ouviu batidas à porta.
Voltou a empunhar a adaga que antes jazia sob seu travesseiro, aproximando o rosto de sua porta, ouvindo nada além do silêncio perturbador da noite, quando os servos preparavam sua refeição e grande parte de seus homens cuidavam da segurança externa do palácio.
Cuidadosamente, indagou: — General Oh? — A garganta seca, o corpo ainda frio em sua toalha longa e felpuda, embalando seus ombros e escondendo o restante dos membros com sua textura aveludada.
O cérebro funcionava rápido, mas o corpo não obedecia. Percebeu que, enquanto o sol se punha, imaginava os piores cenários nos quais poderiam forçá-lo a se encaixar, com a sua pele secando naturalmente, o que provavelmente o adoeceria, enfim.
Não houve tempo para raciocinar mais do que o bastante, entreabrindo a porta ao ter a sua confirmação.
— Vossa Majestade. — Conhecera pouco do militar de seu pai, com seu pouco tempo de combate, mas grande ambição de liderar. Não era dos que se curvavam facilmente, mas o cumprimentou assim que a porta se abriu, curvando-se diante do Imperador até que as costas formasse um arco, por longos segundos, prestando o máximo de respeito que esperaria dele.
Não esperava reverências naquele momento.
— Com sua permissão. — Pediu o general, encarando os guardas prostrados em cada lado seu. Chanyeol poderia exigir a entrada deles, junto ao homem, mas apenas reforçaria sua imagem. Empurrou a porta, cedendo novamente. Se não o fizesse, terminaria da forma que o conselheiro cansou de avisá-lo: sozinho. — Soube a respeito de Solano... E sinto muitíssimo por vossa perda.
Costumava sentir um conforto ao ouvir Solano dizer que a relação entre os dois era o que tinha de mais próximo de uma família. Porém, agora, precisava preparar seu emocional para os olhares de dó, como se perdesse sua mãe mais uma vez, fragilizado, amedrontado. E por mais que pretendesse se esconder nas sombras, o bastante para que todos voltassem a se preocuparem com suas vidas, ainda sentiria os olhares sob sua pele, assim como Sehun Oh o mirava.
— Bem, é triste perder um homem insubstituível como Solano. — Deu de ombros, do modo mais frio e indiferente que encontrou. — Mas há outras preocupações a serem tratadas, agora, com sua ausência.
Ausência. Como se, logo, o conselheiro fosse retornar.
— Imagino que seja o motivo pelo qual me encontro aqui.
Tentou esconder as mãos trêmulas, mas a toalha cobria somente o bastante para não se revelar diante do outro. Certificava-se de que cada canto estava coberto, recostando-se à sua mesa de centro. Era incômodo saber que os olhos do general o seguiam pelo cômodo, mas a bem da verdade, entre todos os problemas ocupando sua mente, sua nudez não era um deles. Quis, porém, servir-se de uma taça de vinho ao sentir a frieza da garrafa contra seu cotovelo, mas apenas tomou cuidado para não derrubá-la, voltando sua atenção para o homem, em sua postura mais do que exemplar, em seus aposentos.
Respirou fundo, encorajando-se.
— Presumo que imagine o motivo. A partir de agora, irá assumir a liderança de meu exército, assim como desejava. — Decretou, embora estivesse certo de que o general não se oporia. — Mas… Ouça bem, general Oh. Fará o que for preciso, o possível e o impossível, para evitar o declínio de meu império. Será meu braço direito e, se preciso for, o esquerdo, de fora e de dentro do palácio. Será meu novo general, mas irá, também, me aconselhar como… Solano. — Ainda que ninguém fosse compreender a sua caminhada como Solano, que esteve presente ao longo da trajetória, precisaria dar um voto de confiança ao homem. Ainda que se encontrar diante de uma decisão tão conflitante, substituir um grande confidente, fosse como arrancar um membro seu, uma dor excruciante. — Fará seu melhor trabalho, correto?
Demorou a ouvir a voz do general outra vez, mas não voltou a erguer os olhos em sua direção. Mal havia conseguido encará-lo quando alcoolizado, em seu banquete, então arriscar ir de encontro à sua intensidade, em momento tão sensível, sóbrio, não o deixava confortável.
— Sem sombra de dúvidas. Vossa Majestade não irá se arrepender desta decisão.
— Não, não irei. Não sou um homem de arrependimentos, general Oh. E, pela manhã, iremos falar sobre seu papel. Creio que conheça bem grande parte dos legionários, mas irei o apresentar como general, com as devidas substituições necessárias. — A voz falhava e, pela posição do sol, atribuiu ao cansaço, à fome. Havia sido uma noite ruim e, desde a notícia, se privou de comida e bebida. Não havia o que pudesse preencher o vazio que sentia. — Até o amanhecer, pode preceder como desejar. Terá um aposento no palácio, e meus servos podem buscar seus pertences e trazê-los. Preciso que esteja próximo, sempre que possível. Por isso, peço que não deixe o palácio, não esta noite.
Não seria capaz de dormir sabendo estar só.
— Como desejar. — Respondeu, curvando-se outra vez. Esperou, desta vez, que fosse embora, que o deixasse para trás, para amargurar e encolher-se em seu próprio sofrimento, do modo que havia sido ensinado. Esconder seus sentimentos, reprimi-los, curar a dor com o seu silêncio.
Mas Sehun Oh não se foi.
Pelo contrário. Quando enfim ergueu seus olhos em sua direção, o general estava mais próximo. Embora o Imperador fosse um pouco mais alto, sentia-se demasiadamente pequeno, inofensivo, frente ao homem. Era o cabelo raspado nas laterais, a boca estreita, a fala direta e dura, que fizera Chanyeol questionar sua própria autoridade e, por força do hábito, reafirmar sua posição de líder, quando se encontraram pela primeira vez. Tentava repetir o feito, como fizera antes, para lembrá-lo quem era, seu superior, porém, toda a vez que sentia-se seguro e olhava em seus olhos, sua resistência caía por terra.
Suspirou, sem forças para muito.
— Vossa Majestade... — Sutil, cortou a distância com mais um passo. A energia que dele emanava não era como a dos homens que o desafiavam para, com satisfação, assistir sua queda, mas de quem verdadeiramente acreditava nas críticas que fazia, pelo bem maior, e se manteria fiel a isto, ainda que significasse enfrentar seu Imperador. — Talvez não seja o mais indicado para sugeri-lo, mas… Caso precise de suporte, para além de sua segurança pessoal e de seu império, esclareço que estou presente para servi-lo, como desejar.
Estava acostumado a ser servido. Desde o primeiro dia no palácio, com a recepção tão receosa daquelas que não sabiam o que esperar do sucessor, aceitou rapidamente que teria um alguém ao seu lado a indagar, a todo o tempo, se precisava de algo. Evitava exigir, pois tinha completa ciência de que precisava manter seus pés no chão, se não quisesse se perder em sua essência, mas… Com um tom límpido e solícito, quase preocupado de Sehun Oh, não pensou duas vezes antes de deixar-se tombar contra seu ombro, recebendo braços fortes ao redor de seu corpo, bem como havia desejado durante todo o dia.
O general não se controlou. Abraçou com força, até que o Imperador sentisse os ossos cutucando suas costas, até que não restasse opção a não ser encostar o rosto em seu ombro e, usando-o de apoio, umedecendo as vestes do homem, perceber que o rosto corado não era o único modo de exposição que este lhe apresentava.
— Ao meu ver, lágrimas não representam fraqueza, mas coragem, Vossa Majestade. Não se prive de derramá-las somente por estar diante de mim. — Disse ele, com suas palavras sopradas contra a franja desajeitada do Imperador. Pensou ter sentido o hálito quente em seu couro cabeludo, mas sabia ser um delírio seu, esgotado. O general estava sendo bondoso com seu líder, com o homem que Solano seguiu fielmente até o fim e que, por isso, mostrou ser confiável. — Quando chora, tudo o que enxergo é bravura. Não se esconda em vosso privado. Já basta precisar representar esta figura imponente diante de vosso povo. Requer bravura.
Verdade fosse dita, Chanyeol era um rapaz simples. Cresceu em um grupo religioso, de acampamento em acampamento, com apenas uma crença para se agarrar: era seu destino ser grandioso. Acreditou nas palavras de sua mãe e batalhou para chegar à posição que ocupava, inspirou confiança em outros e, por isso, sentia o peso de cada decisão em seus ombros.
Era simples, com gostos simples, um rapaz que deslumbrou-se com Constantinopla ao conhecê-la, com cabeças voando ao seu redor e almas sendo ceifadas. Soube que jamais seria aquele jovem andarilho, que jamais voltaria a passar fome até o dia de sua morte, que não se arrependeria das decisões tomadas até ali. Era um rapaz que acreditava facilmente em curtas palavras quando cuidadosamente calculadas, e deveria ter sentido a verdade enquanto as suas lágrimas salpicavam o pescoço leitoso do general.
Não era tão ingênuo, mas havia perdido parte de si naquela manhã. Não era bobo, não, mas há tempo não sentia mãos lhe acariciando a nuca. Há tempo não lhe era permitido chorar na presença de outro alguém, sem culpa, sem vergonha. Sehun Oh lhe deu tudo aquilo que o trono lhe tirou em questão de segundos.
Bastou uma carícia e, de pé, Chanyeol caía no sono, completamente destruído..
— Vossa Majestade… Dormirá sem se alimentar?
— Sem apetite. — Respondeu, curto, acomodando-se contra o general como se fosse o seu travesseiro.
Jurou ter ouvido seu riso, mas estava muito sonolento para erguer os olhos, confirmar tal informação. Pareceu-lhe inútil fazê-lo. Como se general Oh fosse rasgar os lábios e sorrir, gélida como era sua presença.
— Certo, certo. Pedirei para que não lhe incomodem.
Imaginou que, cedo ou tarde, Kai apareceria em seus aposentos para confirmar se não precisava de algo mais, mas, principalmente, para certificar-se de que estava bem sem Solano ao seu lado. De todo modo, deitando-se entre os cobertores, permitindo que o general tivesse um espaço ao seu lado ao que se ajustava, não pôde resistir a pergunta que fazia sua garganta coçar, como um pigarro incômodo.
Sentado contra a luz, mal podia ver seu rosto, mas imaginou os olhos firmes, grudados em seu rosto, quando entreabriu os lábios e dedilhou sua armadura, tentado a segurá-la, firme, caso tentasse se erguer.
Precisava perguntá-lo, senão não conseguiria pregar os olhos.
— General… Pode dormir aqui esta noite? — Quando deu por si, as palavras haviam saltado para fora da boca gigantesca e amedrontada. Não uma ordem, mas um pedido honesto. — Há espaço na sala ao lado. Apenas… Sinto que… Sinto...
Medo.
— Não preciso de explicações. Estarei no cômodo ao lado, Vossa Majestade.
Mas Sehun Oh não deixou sua cama até que o Imperador estivesse apagado, com suas lágrimas secas e boca úmida, entreaberta. Não acordaria por nada, enrolado em sua toalha, se permitindo descansar por saber que nada seria fácil, a partir da manhã seguinte.
Percebeu, porém, ser a primeira vez que chorou até dormir desde a morte de sua mãe.
O pequeno Chanyeol, agarrado à manta da única mulher que realmente daria sua vida para protegê-lo, estava ciente do caminho que ela havia escolhido para que trilhasse. Cobrir seu corpo em flores e deixá-la para trás, em coordenada desconhecida, foi o seu modo de se desvencilhar das amarras do luto. Por ela, precisava ser forte. Por pessoas como Solano, suas lamúrias necessitavam de data final.
Mas deixou-se sofrer àquela noite, prometendo a si mesmo que seria a última. Não iria chorar, se deixar derrubar pelos próprios sentimentos, pela sensibilidade. Seria homem e não haveria quem pusesse defeitos em seu império. Daria tudo, fazia tudo, entregaria tudo, depois que o coração curasse e o aperto no peito aliviasse.
Seria, seria. Muito havia de ser, tratando-se dele.
No fundo, deveria ter imaginado que não seria a última vez, não.
Muitas lágrimas ainda rolariam pelo rosto do Imperador.
