Work Text:
"Eu acho que deveríamos sair. Em um encontro. Romântico ."
Atsumu quase cuspiu sua água na cara dele. Eles estavam no intervalo do treino do MSBY, com Hinata e Bokuto a apenas um metro de distância. Se Kiyoomi falava sério, ele tinha escolhido o pior momento possível para aquele tipo de proposta.
Ele apenas o encarou em silêncio. Kiyoomi talvez estivesse confuso, poderia ter trocado as palavras ou se dirigido ao membro errado do time. Algo estava muito errado. Ele abriu e fechou a boca algumas vezes. Kiyoomi tomou a frente. "Você pode pensar a respeito, claro. Me avise quando decidir." Ele terminou seu ponto assim e sorriu, mas não uma risadinha sarcástica. Era um sorriso aberto e sincero, quase sedutor, e então seguiu seu caminho, como se tivesse apenas pedido que Atsumu levantasse a bola mais alto da próxima vez.
Que. Diabos. Estava. Acontecendo?
Kiyoomi havia remoído aquilo por meses. Foi após Atsumu ser convidado para uma curta temporada como instrutor de levantadores de alto potencial em outra cidade que ele percebeu. As duas semanas sem Atsumu ao seu redor, que ele inicialmente pensou que seriam de paz e conforto, haviam sido quase insuportáveis.
Ele se pegou mais de uma vez visitando os perfis de Atsumu nas redes sociais e se perguntando o que ele estaria fazendo. Olhou fotos dele sorrindo e apreciou o quanto seu peito se aqueceu com aquela visão. Ele era maduro o suficiente para saber o que aquele combo de comportamentos estranhos significava. Mas era péssimo com palavras ditas em voz alta.
Depois de refletir em algumas alternativas, ele decidiu então fazer uma lista .
Possíveis motivos para considerar convidar Miya Atsumu para um encontro
Por: Sakusa Kiyoomi
1 - Eu realmente gosto dele.
O primeiro motivo por si só já é grande e embaraçoso o suficiente, mas eu quero argumentos, provas, algo científico para justificar os fins e até mesmo os meios.
2 - Ele é talentoso, dedicado e disciplinado.
Ótimo, soa coerente. Como profissional, Miya é impecável. Ele amadureceu e evoluiu drasticamente. É um atleta olímpico de ponta. Isso tem que valer como motivo.
3 - Ele é uma boa pessoa. Melhor que a maioria.
Miya Atsumu tem todos os motivos para ser um perfeito idiota, e por vezes ele é. Mas só na superfície. No fundo, ele é o cara que sempre tem um casaco extra, lenços, até mesmo máscaras (!!!), conselhos, abraços, sorrisos e que oferece seu guarda chuva aos outros e sai sob a tempestade desprotegido depois. Sempre está pronto para ajudar, acolher, ensinar e apoiar a qualquer um que precise dele. Isso é odiosamente incrível .
4 - Ele é gentil.
Esse motivo parece com o anterior mas é diferente. Esse aqui diz respeito a ele ser sempre o primeiro a lembrar dos aniversários, a visitar os colegas doentes e a brincar com as crianças que aparecem encantadas por ele após os jogos. E a nunca dizer não para um favor, mesmo quando deveria.
5 - A voz dele.
Parece um argumento supérfluo, mas julgo ser importante pontuar isso. Ele tem o tom de comando, um timbre rouco e grave na medida certa. Até mesmo quando está falando alguma grande besteira ele pode ser convincente se escolher isso. É um motivo razoável.
6 - Ele sabe como cozinhar e gosta de fazê-lo.
Isso é bom para a lista por ser um complemento. Eu sei o básico, claro, faço minhas refeições mas odeio tudo no processo. Eu poderia facilmente viver das marmitas que vez ou outra, Miya leva para todo o time porque se empolga na cozinha e exagera na porção.
7 - Enfim, o sorriso.
Dolorosamente clichê, quase ridículo. Mas essa lista toda é completamente ridícula, então vamos aos fatos: poucos sorrisos no mundo tem esse poder. De iluminar o ambiente, confortar, aquecer, fazer crianças pararem de chorar, etc, etc. Ok, é isso.
8 - Dane-se, afinal é a minha lista: ele é atraente.
Ele aprendeu o que fazer com aquele cabelo e com todo o resto. Os vestígios do sotaque e do jeito de garoto do interior. Os olhos dourados. A boca. As coxas e tudo ligado a elas. Fim do argumento.
9 - Último e talvez, o pior: eu sinto falta dele.
E isso não se refere apenas a essas 2 semanas mas sim a todas as vezes em que por alguma razão, ele não estava por perto como de costume. Quando ficou gripado e faltou dois dias ficando sem falar direito por mais três. Eu quase, quase , me ofereci para sem motivo algum, ir até a casa dele ver se estava bem. Mesmo com todos sabendo que Osamu estava lá. Mesmo eu tendo horror a germes, bactérias e vírus. Nessa época eu já estava condenado.
P.S.: ou 10 - Sou obrigado a adicionar isso depois do que disse no 9. Eu realmente me importo com ele.
***
Kiyoomi olhou a lista por 3 dias, lendo, relendo, negando e aceitando. Era suficiente. Se ele tomasse um fora, poderia imprimí-la e queimá-la como vingança. Imaturo, pouco seguro, nada eficiente, mas com certeza, satisfatório.
*
Depois da proposta, Atsumu entrou em choque pelo resto do dia. Ele tinha muitas perguntas antes de poder oferecer uma resposta. Usando muito mais bom senso do que Kiyoomi, ele esperou o final do treino e estrategicamente seguiu atrás dele até o estacionamento, falando quando teve certeza que ninguém estava perto suficiente para ouvir.
" Hmm… Omi, eu- aquilo foi sério?" Ele parou de andar e esperou Kiyoomi fazer o mesmo, eles se encararam sérios. "Se você perdeu uma aposta ou algo assim, eu juro, pode me contar, não precisa fazer isso."
E aqui estava ele evocando o motivo 4 da lista. Kiyoomi suspirou e abaixou a máscara para que Atsumu não tivesse dúvidas sobre o que estava ouvindo. "Sim, foi sério . Mas eu usei palavras horríveis, então considere isso: Miya, você quer ir a um encontro comigo?"
Atsumu tinha certeza que dois minutos de conversa direta e sincera resolveriam suas dúvidas e problemas. Agora ele não tinha mais certeza de coisa alguma.
"Omi, você-" Ele fez uma pausa e buscou palavras educadas, afinal estava perto de depreciar a si mesmo. "Você tem certeza do que está propondo? Digo: você quer mesmo ir a um encontro ... comigo ?" Atsumu usou toda mímica possível, apontando para si mesmo em cada letra de sua frase para tornar os fatos claros.
Kiyoomi estava a um passo de perder a paciência. Um 'não' direto seria melhor do que todo aquele teatro. "Sim eu tenho. E você pode dizer não . É um pedido, não uma ordem."
Atsumu estava surpreso, atônito, talvez um pouco honrado (?), mas acima de tudo isso: curioso. "Eu… talvez . Mas, porque , Omi? Você acordou hoje e decidiu desafiar a lógica, a física e as leis do universo em nome de um bem maior?" Ele terminou em tom de brincadeira, mas a dúvida era genuína.
Kiyoomi já havia chegado até ali. A verdade talvez resolvesse a situação para o bem ou para o mal de uma vez por todas. "Eu fiz… uma lista ." Algum senso de autopreservação o fez vasculhar ao redor, ninguém estava por perto, era seguro continuar. "Uma lista, sobre motivos pelos quais eu deveria considerar te convidar para um encontro. Com nove… ok, dez motivos. E eu estou convencido. É isso."
"E eu posso ver a lista?" Atsumu simplesmente abriu a boca e falou. Pareceu narcisista mas era apenas pura e absurda curiosidade em seu estágio mais primitivo.
Talvez Kiyoomi precisasse de uma lista de motivos para não convidá-lo afinal. Essa inocência quase irritante nos momentos mais inadequados seria o primeiro ponto. "Não, Miya, você não pode."
Atsumu fez um bico. Kiyoomi achou isso adorável . Ele queria morrer .
"Omi, eu… tudo bem se eu pensar sobre isso?" Ele viu algo nos olhos de Kiyoomi se transformando em amargura e precisou esclarecer. Ele imaginava o quanto tinha sido difícil fazer aquela proposta. "Foi apenas, repentino . E eu não quero dar uma meia resposta para uma pergunta que claramente você pensou muito antes de fazer."
Kiyoomi estava pronto para tomar aquilo como um não e seguir sua vida, fingindo que aquele momento tinha sido um delírio passageiro, mas Atsumu tinha um argumento excelente. Mais um motivo para a lista que ele havia ignorado: Atsumu era inteligente, muito inteligente. E emocionalmente responsável. Que. Ótimo .
"Claro, Miya. Tome todo tempo que precisar. Você tem meu número." Assim que terminou de falar Kiyoomi se sentiu idiota, uma sensação já recorrente naquele dia. Claro que Atsumu tinha o número dele. Eles jogavam juntos há anos, tinham um grupo de mensagens com o time todo e lógico: tinham treino no dia seguinte.
Agradecendo por poder enfim colocar sua máscara de volta e se livrar daquela situação embaraçosa, ele se despediu e seguiu seu caminho. Já dentro do carro, Kiyoomi observou Atsumu entrar em seu próprio veículo com uma expressão confusa. Talvez um fora fosse melhor do que aquela expectativa. Ele sequer tinha estabelecido um prazo para a resposta.
*
Uma lista. Atsumu não sabia o que esperar como motivo, mas uma lista era peculiar. E se tratando de Kiyoomi, peculiar suficiente para ser sério. E assim ele consideraria aquela proposta. Um encontro não era exatamente um pedido de namoro, mas estava gerando dúvidas e questionamentos suficientes como se fosse algo assim. Talvez por todas as variáveis improváveis envolvidas.
Enquanto preparava o jantar, Atsumu conseguiu se distrair o suficiente para voltar a pensar no pedido apenas antes de deitar. Ele não queria deixar Kiyoomi esperando uma resposta por dias. Eles não eram dois pirralhos com tempo e paciência para joguinhos.
Ele precisou de pouco tempo para pensar em uma metodologia para resolver aquilo. Nada original aparentemente.
Uma lista.
Ele decidiu começar com os motivos pelos quais não deveria aceitar o encontro e eram poucos na verdade. O maior deles: serem companheiros de time, mas isso era muito mais um problema na cabeça dele. Não era proibido e ele sabia que ambos poderiam ser profissionais com a situação pós encontro, quer fosse um fracasso ou um sucesso. O único outro motivo que ele encontrou foi Kiyoomi ser mal humorado, mas ele se divertia com isso. Não haviam razões coerentes para não aceitar. Ele então, deletou ambos.
Pensando nos motivos para dizer sim , ele discorreu em uma corda bamba de semi insultos, como, por exemplo, ' Omi tem olhos negros profundos e as vezes me olha com eles como se quisesse me matar .'
Parecia uma denúncia anônima, não uma lista de motivos para aceitar um encontro. Péssimo começo.
Atsumu suspirou alto. Um ou dois anos antes, teria aceitado sem pestanejar. Ele admirava Kiyoomi - pausa, vamos colocar isso na lista. Feito. - Mas hoje ele aceitava que eram essencialmente incompatíveis. Que a atração que sentia por ele talvez fosse baseada apenas no desejo de conseguir aquilo que não poderia ter. Ele não sabia se queria reabrir essa velha discussão consigo mesmo.
Sakusa Kiyoomi o intrigava. Era como um saque flutuante que você passa a vida toda estudando a lógica por trás da técnica e ainda assim recebe errado e perde o ponto. Esse saque estava agora talvez pela primeira e última vez, a alguns centímetros do seu alcance. Ele nem sabia mais se queria tentar sua melhor defesa, mas sabia que se arrependeria se apenas assistisse a bola passar por ele sem fazer nada a respeito.
Escrevendo um grande 'QUE SEJA' na lista, ele decidiu parar de pensar naquilo. Por mais que tentasse, não poderia calcular as variáveis e o resultado. Por hora, ele estava decidido.
*
"Eu aceito. Vamos a um encontro. Potencialmente romântico." Deliberadamente Atsumu escolheu dar sua resposta da mesma forma que recebeu o pedido: no intervalo do treino, de maneira inesperada, perto suficiente de outras pessoas que poderiam ouvir se não estivessem distraídas com seus próprios devaneios. Kiyoomi quase engasgou com sua garrafa de água e eles estavam quites agora. Era uma forma justa de começar.
Depois de duas batidas no peito e uma tosse abafada, Kiyoomi olhou para ele com olhos imensos. Sim, ele parecia mesmo perto de assassiná-lo. Atsumu não deveria ter apagado esse item da lista. Ele realmente gostava daquele olhar.
O dia estava terrivelmente quente. Toda situação constrangedora do dia anterior fizeram com que Kiyoomi não tivesse estômago para uma refeição decente e tudo isso se somou. Ele se afastou de Atsumu e quando abriu a boca para falar, sentiu sua cabeça rodar e engasgou novamente, tossindo com força dessa vez e chamando a atenção do time todo.
Bokuto voou sobre ele com a melhor das intenções e a pior abordagem, aplicando um tapa em suas costas que deixaria uma marca, talvez, permanente. E isso foi suficiente. A visão de Kiyoomi escureceu e, antes que pudesse pedir ajuda ou que alguém pudesse entender a situação para segurá-lo, ele caiu desmaiado batendo a cabeça no chão.
Bokuto entrou em pânico e o técnico chegou até eles correndo. Meian sugeriu levá-lo às pressas para a enfermaria do clube e Atsumu, que até então observava tudo em choque, voltou a realidade e concordou. Ele de um lado, Meian do outro, Kiyoomi no meio carregado por ambos.
*
Não tinha como piorar.
Antes mesmo de abrir os olhos esse pensamento cruzou a mente de Kiyoomi e ele voltou a plena consciência apenas para confirmar que estava muito errado. Ele deu de cara com Bokuto , quase colado ao seu rosto, com os olhos marejados e o nariz escorrendo . Ele o abraçou gritando: "O Omi-Omi vive ! Eu não sou um assassino!"
Bokuto não era um assassino, mas Kiyoomi poderia facilmente se tornar um. Ele queria gritar.
Por misericórdia do destino, o socorrista de plantão do centro de treinamento apareceu pedindo que Bokuto deixasse Kiyoomi respirar. Após afastá-lo, explicou que ele tinha apagado por menos de 10 minutos. Após testar os reflexos com uma pequena lanterna, e medir a pressão, ele o ajudou a se sentar, verificou as batidas cardíacas e ofereceu uma compressa gelada, pela qual Kiyoomi agradeceu posicionando-a onde ainda sentia dor. A recomendação era ir imediatamente até um pronto socorro, apenas para se certificar de que não havia nenhuma lesão interna.
"Mas claro, Sakusa-san, não é seguro dirigir, nem ir sozinho. Vou pedir ao gerente do time que o acompanhe."
"Eu posso levá-lo!" Bokuto gritou fazendo a cabeça de Kiyoomi doer ainda mais. O pior era não ter qualquer argumento racional contra a oferta. O socorrista aceitou a ideia, Kiyoomi aceitou seu destino e, se recusando a ser amparado por Bokuto, ele caminhou ao lado dele em direção ao vestiário para pegar sua bolsa e ir até o hospital.
Entrando lá, a visão de Miya Atsumu já em suas roupas casuais, com o cabelo úmido e a bolsa dele e de Kiyoomi nos ombros, parecia uma pintura renascentista do paraíso .
"Ufa, você já está de pé! Estava a caminho da enfermaria preparado pra te levar ao hospital!"
Aquilo quase fez Kiyoomi perdoá-lo por ter deixado Bokuto sozinho com ele. Quase .
"Tsum-Tsum, eu levo o Omi-kun. Eu causei isso, não precisa perder o treino." Bokuto argumentou com os olhos cheios de lágrimas novamente.
Bokuto concordou em ficar para trás depois de um pequeno argumento sustentado por Atsumu. Ele disse que já havia falado com o técnico, tomado banho e se trocado em tempo recorde para cumprir a missão e foi sustentado e apoiado por Kiyoomi em cada sentença. Bokuto ficou apenas com a missão de informar ao time que Kiyoomi estava bem e que mais tarde avisaria a todos do diagnóstico.
Assim que Bokuto saiu dramaticamente se arrastando pela porta, Kiyoomi suspirou alto, fazendo uma careta pela dor aguda que ainda pulsava em sua cabeça.
"Pronto pra ir?" Atsumu perguntou tomando o caminho da saída.
Kiyoomi continuou parado e o encarou. "Um banho. Eu preciso de um banho." Ele estava preparado para ouvir algum protesto sobre ' saúde em primeiro lugar ', ' você quase morreu ' ou qualquer coisa assim, mas ali estava Atsumu, apenas concordando enquanto colocava as bolsas no banco. "Claro, eu vou ficar por perto, ok? Me chame se sentir tontura ou qualquer mal estar." E com isso ele se sentou de costas. De. Costas . Sendo que todo santo dia eles tomavam banho praticamente juntos naquele mesmo lugar, com uma manada de outros homens nús.
Kiyoomi caminhou para um dos boxes com chuveiro, suspirando sua frustração por não poder usar o plano já em curso de odiar Atsumu por ser parcialmente culpado por sua concussão. Ele não cansava de fazer Kiyoomi adicionar novos motivos a sua lista.
*
"Tudo bem eu dirigir o seu carro? Posso ir buscar o meu mas seria perda de tempo." Atsumu perguntou caminhando ao lado dele até o estacionamento. E claro, Kiyoomi concordou, afinal fazia sentido. Atsumu morava perto do centro de treinamento e usava o metrô diariamente. Essa era uma informação pública. Ao menos era o que Kiyoomi esperava.
Em pouco tempo eles estavam no hospital mais próximo. Após uma sequência de exames mais demorados do que gostaria, Kiyoomi repousava em uma das macas esperando os últimos resultados. Ao que tudo indicava, nenhuma lesão interna e nada para se preocupar além de tomar analgésicos e seguir com as compressas. Atsumu que havia se esgueirando para conseguir alguma comida, já que eles haviam saído do treino pouco antes do almoço, voltava agora com uma cara de derrota e duas barras de proteína nas mãos.
"Foi tudo que consegui que não fosse frito ou cheio de gordura dentro da área de atendimento. Se eu sair até a cafeteria não posso mais voltar." Longo suspiro entre ambos. Segurando o nutritivo almoço , eles bateram as barras ainda lacradas como se fosse um brinde, agradecendo pela refeição e comendo quase em luto.
"Eu espero que esse não seja o seu grande plano de primeiro encontro, Omi."
Kiyoomi soltou uma risada sarcástica pelo nariz. Se certificando de mastigar e engolir antes de abrir a boca para não engasgar. "Eu não pensaria em algo tão divertido, Miya."
"Vamos ter que nos esforçar pra fazer melhor que isso." Atsumu sorriu para ele. Era impossível não sorrir de volta.
Arruinando o momento quase romântico entre eles, a médica retornou com os resultados e, após revisarem juntos cada exame, Kiyoomi estava liberado. A única recomendação era o repouso naquele dia e observar se não sentiria nada estranho nas próximas horas. "Se seu namorado puder passar a noite com você, melhor. As primeiras 24h após uma concussão na cabeça podem ser instáveis."
Ele e Atsumu apenas arregalaram os olhos, meneando a cabeça em afirmação. Kiyoomi pegou os resultados e eles saíram pela porta em silêncio. A médica os viu trocando olhares por dois segundos e concluiu que eram um casal. Será que isso valia para a lista?
Ao dar partida no carro, Atsumu quebrou o silêncio. "Então… bem . Posso te deixar em casa e chamar um táxi. Ou, se você quiser..."
"Miya, você não precisa dormir na minha casa. Eu estou bem."
Atsumu se sentia responsável. Não tanto quanto Bokuto, mas ele estava preocupado. "Mas você me liga se sentir algo estranho ou precisar de qualquer coisa, ok?"
Kiyoomi estava sentindo uma quantidade insuportável de coisas estranhas e precisava de no mínimo três outras que apenas Miya Atsumu poderia fornecer, mas ele não diria isso. Ao menos não agora.
"Claro, eu aviso."
Com isso resolvido, Atsumu dirigiu até o prédio de Kiyoomi. O táxi solicitado por ele via aplicativo chegou em poucos minutos e eles trocaram um simples ' até amanhã ' na calçada. Depois que ele havia ido embora, Kiyoomi se deu conta de que não tinha sequer agradecido. Se Atsumu tivesse uma lista, aquilo com certeza entraria nos motivos para não aceitar um encontro. Sorte que ele já havia respondido.
Horas depois, deitado em sua cama com a compressa gelada contra a cabeça em uma mão e o celular na outra, Kiyoomi ponderava sobre mandar uma mensagem de agradecimento ou deixar para falar pessoalmente no dia seguinte. A decisão de que uma mensagem seria melhor ficou perdida no momento em que Atsumu ligou por vídeo e ele, por acidente, apertou o botão verde para aceitar a chamada.
O pensamento de que seu azar estava só piorando, foi rapidamente substituído por uma sensação quase sufocante ao ver os olhos imensos de Atsumu combinados a um sorriso quase irresistível encarando-o na tela.
"Hmm... Oi! Apenas checando se está realmente tudo bem por aí."
"Estaria melhor se você avisasse antes de ligar por vídeo ."
Atsumu revirou os olhos. Kiyoomi estava reclamando, mas ele era uma das poucas pessoas que poderia atender a uma chamada de vídeo no primeiro toque sem se preocupar. Mesmo exausto e com uma compressa contra a cabeça, ele parecia apenas… incrível .
Apesar de todas as dúvidas do dia anterior, Atsumu agora não conseguia mais se importar com nenhuma delas. Ele aceitaria sua sorte, seu destino, ou seja lá o que fosse que tivesse feito com que Sakusa Kiyoomi estivesse agora sorrindo para ele enquanto consideravam as opções para um encontro naquele final de semana.
"Está decidido então, nos encontramos lá às 19h no sábado."
Kiyoomi meneou a cabeça em afirmação. O alívio e a exaustão de enfim chegar ao final daquele dia o alcançaram. Ele sentiu que fecharia os olhos a qualquer momento.
"Miya. Obrigado por hoje. Por agora. Enfim."
Ele era mesmo péssimo nisso, mas era sincero e peculiar de uma maneira única. O suficiente para que Atsumu jogasse sua própria proposta agora. "Tudo bem se eu esperar na ligação até você dormir? Só por precaução sabe."
Kiyoomi sorriu para ele. "E depois eu que sou o esquisito. Claro, Miya. Fique à vontade."
Apesar da sequência de desastres, Kiyoomi não estava em seu pior humor. Enquanto caía no sono sendo observado por Atsumu, ele refletiu que tinha enfim conseguido um sim para um dos pedidos mais difíceis e elaborados de sua vida. E que, de maneiras completamente absurdas, havia confirmado para todos os efeitos e para si mesmo, que a lista era só uma desculpa para admitir o óbvio.
Ele estava apaixonado.
