Work Text:
O vento fresco tomava o quarto do hotel enquanto Giorno observava a lua cheia, iluminando as águas do rio em volta dos prédios.
Golden Experience Requiem era um mistério para Giorno Giovanna. O jovem, chefe da maior organização criminosa da Itália, tinha muito poder conquistado desde o início de seu reinado, mas o fator decisivo para essa conquista, seu stand, ainda era um mistério para ele. Poucas vezes ele o usava, dificilmente enfrentando qualquer perigo imediato a sua frente – sua mão direita na organização e seus subordinados cuidavam desse tipo de coisa. Ele se lembrava, entretanto, de uma conversa com Polnareff sobre as enormes possibilidades que seu Requiem podia ter. Isso sempre o fazia recordar de uma conversa do passado sobre suas habilidades, com o cenário em sua mente um tanto apagado, mas a voz viva, assombrosamente cheia de tudo que mesmo, agora, ele não conseguia alcançar.
Tudo aquilo começou em um dia típico – um encontro com um dos mafiosos proeminentes de outra região que ao que tudo indicava, era um possível traidor. Pensando em retrospectiva, Giorno sabia que se colocar em frente a um homem de poder como aquele poderia ser perigoso, mas o sentimento de medo ou temor tinham se esvaído do seu ser pouco a pouco, sem que ele os identificasse dentro dele. Mesmo assim, o ataque frontal do inimigo, tão as claras, numa das festas organizadas pela organização, aconteceu muito mais perto que qualquer perigo tinha ocorrido – ele habilmente ativou seu Golden Experience Requiem, revertendo uma bala mirada perfeitamente para seu coração e retornando a ação ao nada, como todos os tolos que ousavam desafiar sua verdade.
Refletindo agora, Giorno pensou se aquilo tinha sido só um capricho do destino ou a mais perfeita sentença que um homem com o poder que ele possuía.
A ação de Golden Experience Requiem ocorreu como nas poucas vezes que ele a ativara, mas havia algo de diferente – Giorno viu, como uma dupla visão o homem sentado na mesma cadeira, conversando com outros. O dia era ensolarado, o que não acontecia em semanas e a cena desenrolou-se como se ele estivesse assistindo a um filme, mero espectador das maquinações de outros capos a mais, que confabulavam sua queda.
Golden Experience Requiem desativou seu poder e o homem a sua frente, chocado pela bala que fora direcionada ao homem a sua frente ter voltado-se ao seu peito. Mista e Fugo rapidamente se aproximaram, se assegurando da segurança de seu chefe.
Giorno era um homem movido por suas intuições, e mesmo que aquela cena parecia estranha, ele pediu para que investigassem aqueles outros capos que ele reconheceu no momento da ação de seu stand. Como premeditado, foi confirmado o encontro dos homens um mês antes do evento naquele mesmo espaço e, com certa facilidade, foram retiradas confissões dos traidores.
Depois de que tudo foi encerrado, Giorno teve uma conversa com Polnareff. O homem vivia numa área mais aberta do jardim da mansão de Giorno, dizendo ser agradável ver tantas flores e plantas, considerando que aquilo era provavelmente coisa da tartaruga que ele habitava. Ao ouvir o relato do chefe da Passione, o homem ficou alguns minutos em silêncio.
- Nunca saberemos a extensão real de um stand no modo Requiem. Talvez ele desenvolva mais habilidades com o tempo? Não há como saber.
Giorno acenou, deixando o homem se recolher em seus próprios pensamentos. Outra coisa a que ele tinha que simplesmente aceitar. E ele fez, como tinha feito tantas vezes antes.
Giorno não pensou muito sobre sua nova habilidade por muito tempo – ele tinha uma organização a gerir, inimigos a eliminar, poder a tomar. Aquilo deixou sua memória, os dias se passando com a cotidianidade que ele tinha se habituado com uns anos.
Até um dia. O sol estava quente sobre sua pele, mas a briza era refrescante. Ele tinha se esquecido como Nápoles poderia ser agradável.
Era um dos inumeráveis encontros que ele tinha que fazer. Havia uma exposição no museu napolitano e como o loiro tinha se envolvido financeiramente para expandir o lugar ele foi especialmente convidado. Era curioso, Giorno pensava, como todos o sorriam e o cumprimentavam – um encontro com o homem que verdadeiramente controlava o país, ele ponderava, com muito sangue a ser derramado e certa dureza em suas ações, era tão admirado. Ele simplesmente sorriu, cumprimentando a todos – sua máscara, enraizada nele de um jeito que ele sabia não poder se retirar, era mostrada a todos.
Um barulho foi ouvido e logo Mista se colocou ao seu lado, posicionando Sex Pistols até que ele ouviu outro barulho vindo de seu lado e por instinto, Giorno ativou seu stand, esperando o perigo a sua frente.
No presente, ao olhar para as luzes que pintavam toda a cidade agora, Giorno suspirava, real Giorno Giovanna a aparecer ao olhar de ninguém. Coincidências, destino…?
Seu peito doía, o fazendo tremer.
Golden Experience Requiem se ativou e além de ver uma bala em sua direção ele presenciou aquele mesmo acontecimento daquele dia, mas--
Mas.
Por muito tempo, Giorno pensou não ser capaz de sentir muitas emoções humanas. Ele sorria, se preocupava com seus amigos: Mista e, mesmo que ainda incertamente, Fugo. Ele sempre se comunicava com Trish quando podia e ele até ria de seus relatos sobre a indústria da música, feliz por ela.
Mas aquilo… Aquilo foi pior que qualquer golpe que ele tinha recebido antes.
Observando um quadro do museu, ele logo reconheceu aquele homem de costas, que parecia admirado pelo trabalho do pintor. Ele se virou, expressão tranquila, como se olhando para ele.
Aqueles olhos, tão sérios, mas tão serenos, resolutos. Aquele olhar, que fazia como se todo o sangue em suas veias parassem de correr, pior que qualquer morte.
Aquele sentimento foi cortado quando ele viu uma figura conhecida a ele se aproximar do outro, olhar entediado no rosto.
- Buccellati, como você pode gostar dessas coisas? As cores são tão escuras…
- Mista. - a voz era melodiosa, perfuradamente perfeita. - Seria bom você apreciar a arte dos nossos artistas. Você é napolitano como eu, não é?
Sentindo demais, Giorno desativou sua habilidade, com Mista a conseguir atirar no outro homem segundos depois, com o outro atirador caído no chão, atingido pelo stand do chefe da Passione. Os organizadores do evento tentavam acalmar os convidados e Giorno pode ver Sheila E. e Fugo se assegurando que ele estava a salvo. Mas Giorno mantinha uma expressão neutra, sem reagir as palavras dos outros.
Muitas vezes Giorno, no silêncio do seu imponente escritório, deixava alguns pensamentos desimportantes virem a sua mente. Ele tinha tanto a fazer, seu sonho dourado a dar seus primeiros resultados… Pensar em outra coisa que não na organização que comandava era até difícil, com tanto tempo que ela o ocupava, mas quando ele fazia, ele pensava em que prato ele poderia escolher dos restaurantes mais bem conceituados da cidade, das plantas que ele iria criar em seu jardim, de um novo terno modelado por um estilista exclusivo que se atentava aos seus caprichos com total prazer – coisas assim.
Nunca nele.
Não era proposital – Giorno considerava – a organização tinha novas faces, novos aliados, incontáveis nomes para decorar, para fingir contentamento as reuniões demoradas, as negociações que ele sempre orquestrava para o melhor benefício da Passione e das pessoas que estavam sobre suas asas. Com tanta coisa na cabeça, como ele poderia pensar em mais algo?
Não era como se ele fosse mencionado muitas vezes, também. Mista nunca o mencionava e depois da entrada de Fugo na organização, ele também não o fazia – Giorno sabia que eles tinham diferentes razões, mas talvez, sentimentos semelhantes. Já Trish – Trish falava de suas visitas ao seu túmulo, das flores novas que sempre apareciam a cada visita da ocupada celebridade italiana ao local. Giorno acenava e sorria, brandamente, mas não dizia muita coisa.
O que havia para dizer, afinal?
E o tempo passou – como ele sempre fazia e não pensar nele foi se tornando seu normal. Ele já não era o jovem de quinze anos com um sonho, nem mesmo o mesmo que tinha acabado com Diavolo. Pessoas mudam, seja por experiências, por decisões. Era algo que Giorno considerava orgânico.
Até aquela visita no museu.
Dessa vez, ele não comentou nada com Polnareff, nem com os outros. Mista o olhava preocupado pela sua falta de resposta, mas ele voltou rapidamente ao seu jeito usual, tranquilizando aqueles a sua volta. Depois, no silêncio de seu quarto, na escuridão, janelas fechadas, cortinas a cobrir qualquer iluminação, Giorno tremeu, recordando o ocorrido.
Mera ilusão? Algo o dizia que não e ele precisava confirmar isso. Se lembrando de um detalhe da cena que ele vira, uma placa com o nome do quadro e seu pintor, Giorno pesquisou em seu computador se algum evento naquele museu tinha tido aquela peça – e tinha.
Novembro de 2000.
Giorno desligou com pressa o computador, se dirigindo a sua cama. Ele se deitou, tentando controlar sua respiração sem sucesso. Ele não sabia, mas em meio a aquele turbilhão de sentimentos, ele dormira, sem sonhos.
Na manhã do dia seguinte ele se apresentara aos seus subordinados como sempre, profundo controle e calmaria em seu semblante, certeza em suas palavras.
Sua máscara era a mais perfeita, que ninguém poderia desmascarar.
Nos dias seguintes, tudo correu como sempre e a rotina tomou conta de todos. Mais papéis, mais acordos, ligações com políticos proeminentes, encontros com a elite italiana. Era como sempre.
Mas havia um comichão em Giorno. Uma inquietude, num órgão que ele só reconhecia como bombardeador de sangue para o resto do seu corpo.
Ser um don tinha suas vantagens, como suas desvantagens. Sua privacidade era quase nula, sempre com alguém a protegê-lo. Mas Giorno era inteligente como furtivo e muitas vezes ele conseguia, como queria, ter seus momentos. Ir ao cinema sozinho, ver uma peça…
Nápoles não era perto de sua base em Roma, mas ele era Giorno Giovanna. Que desafios poderiam se colocar contra ele?
Com a discrição necessária, Libeccio foi somente dele quando ele quisesse. Ele passava as mãos pelas paredes do conhecido restaurante, chegando a uma mesa, que mesmo só vista uma vez, tinha marcado sua memória. Ele se sentou e, parado por um momento, não pensou em nada. Fechando os olhos minutos depois, ele ativou seu stand e, como ele imaginava, uma cena começou a se revelar aos seus olhos.
- Sabe Buccellati, acho que você deveria pedir mais tipos de peixe pro chefe. - Giorno sorriu muito mais honestamente do que em anos, ouvindo aquela conhecida voz. O jovem moreno brincava com uma batata em seu prato, com Fugo ao seu lado a anotar alguma coisa.
- Pare de pedir mais comida, Narancia. Você mal entrou na equipe!
- Ai, Fugo, como você é chato!
Olhos verdes se encontraram com aqueles conhecidos azuis, que se iluminavam com tudo que acontecia.
- Eu posso pedir sim, Narancia. - o moreno disse num tom centrado, mas Giorno reconhecia o afeto nos traços do outro. - Mas você tem que fazer a lição que o Fugo mandou.
- Ai, até você Buccellati…
A cena se apagou lentamente e Giorno piscou os olhos lentamente, absorvendo o que tinha presenciado. Tão misterioso como seu stand, essa habilidade também o era. O que engatilhava aquilo? Giorno ponderava que nunca saberia ao certo, mas aquilo de alguma maneira bastava a ele.
Encaixar uma rotina de escapulidas foi até que simples – Mista e Fugo não pareciam se incomodar com suas cada vez mais frequentes visitas a Nápoles, não tecendo comentários sobre aquilo.
Era melhor? Giorno não sabia.
Em outra das suas visitas ao Libeccio ele passeou pelo imóvel, subindo as escadas. Ele nunca tinha explorado aquela parte do restaurante, se guiando curiosamente pelo corredor. Ele abriu uma das portas, encontrando um quarto limpo, sem marcas de qualquer usuário em anos. Giorno se sentou na cama, passando a mão pelos lençóis, ativando seu stand uma vez mais.
Em sua frente, um homem dormia na cama, expressão serena que ele sabia que poucos tinham tido o privilégio de ver. Ele dormia tranquilamente e Giorno se virou lentamente, deitando na cama ao lado dele.
Parecia tão real – como se fosse o agora. Giorno sentia a respiração do outro contra sua pele, cabelo desfeito de sua trança e presilhas e por instinto, ele tocou o rosto do outro. Em vão, como de outras tantas tentativas anteriores. Giorno recolheu sua mão, a colocando em seu peito, que retumbava. Segundos depois, ele aproximou mais seu rosto. Cada detalhe marcava e doía bem dentro do seu ser. Ele não sabia como, mas a imagem não era tão real como em sua mente, que lentamente demonstrava a ele que ele nunca tinha se esquecido, mesmo que não pensasse no homem a sua frente. A linha fina na testa do outro, que marcava suas expressões de preocupação. As sobrancelhas relaxadas, tão escuras como seu cabelo. Os cílios, que emolduravam um rosto que naquele instante se mostrava mais suave do que nos dias de guerra, batalhas incessantes.
A boca, entreaberta, com aquele tom rosado leve. Lábios macios, que nem mesmo a cena conseguia traduzir como suas memórias, aquela marca em sua alma.
Giorno não pensava muito naqueles dias do passado fazia muito tempo. Mas agora ele via, como um soco no estômago, que aquilo estava tão vivo em sua mente como nenhum acontecimento antes ou depois daquilo. E aquilo era…
Por um certo tempo, Giorno parou de fazer suas visitas a Nápoles e como sempre, não foi questionado por seus dois homens mais próximos. Ele tentava retornar a rotina de seus dias e sua máscara era perfeita, nenhuma dúvida sobre a força e a precisão sobre don Giovanna.
Mas ela era perfeita somente para os outros e Giorno-- Giorno odiava isso. No silêncio do seu quarto, memórias que tinham sido empurradas para uma parte escondida de seu ser se revelavam, certeiras. Ele também não tinha mais alívio em seus sonhos, que pouco a pouco foram preenchidos de cenas muito mais reais do que as fabricadas por Golden Experience Requiem. Giorno acordava, suando frio, queimado por uma voz, uma ação. Aquele olhar, que era mais vivo que ele via em seu dia a dia, mais concreto e sólido que qualquer coisa do mundo real.
Reviver todos aqueles dias, tudo aquilo – Giorno tremia, chacoalhando sem parar. Sem escapatória, sem um fim. Isso era a habilidade de Golden Experience Requiem, não é?
Com sutileza e maestria – sua máscara funcionava, afinal – ele organizou pequenas férias para si, e como sempre, ninguém o questionou. Já eram sete anos interruptos no poder e seus amigos até se felicitaram, dizendo que ele merecia isso, um pouco de tranquilidade para seus dias tão agitados e cansativos.
O que eles pensariam, o loiro pensou, se soubessem que aqueles próximos dias seriam os mais tortuosos da sua vida?
Giorno não era um masoquista – sentir prazer na dor? Inútil, inútil. Mas algo o compelia a fazer o mesmo trajeto de abril de 2001, traçar os mesmos passos daquele caminho cheio de obstáculos.
A primeira parada foi em Capri. A ilha tinha uma beleza que Giorno não tinha se atentado naquela primeira vez, admirando o mar vasto a sua frente, o azul bonito das águas. Ao chegar ao local, ele recordou da sua subida pela aquela mesma estrada, distraído pela briza que passava pelas janelas do carro que o levava até o topo. Ao chegar ao local almejado, Giorno se sentou no pátio, rindo consigo mesmo ao ver a porta do banheiro e se lembrar dos comentários de Mista e Narancia. Outra vez mais, ele ativou Golden Experience Requiem.
Como mágica, ele se viu sentado um pouco a frente dele e ele sorriu, vendo o garoto que era, tão imponente e certo. Ao seu lado, aquele mesmo homem, que permeava seus sonhos, marcava sua carne nas manhãs seguintes, mesmo que não fosse fisicamente possível.
- Foi bom que Polpo confiava em você, Buccellati. - Giorno reconhecia sua própria voz, que não tinha tanta aspereza como agora. Leve, brilhante – Giorno sorria, se sentindo amolecer. - Isso vai facilitar nossos planos.
- Acho que isso vai ser decisivo para eles. - o moreno acenou seriamente, olhando para o Giorno da cena. - Sorte a nossa que Polpo morreu e que a missão dele foi encaminhada para mim…
Aquela troca de olhares. Giorno ria, recordando que aquela seria uma das primeiras de muitas outras. Mesmo agora ele não reconhecia o que se passava entre eles. Era tão intenso, mas tão indecifrável. A rememoração trazia aquele sentimento antigo em seu peito.
O don seguiu sua viagem, voltando as redondezas de Nápoles. O cuidador daquela antiga casa acenou levemente para ele quando ele entrara. A casa tinha se tornado parte da organização alguns anos atrás e, pela janela de um dos quartos, Giorno via que os campos verdes continuavam com a mesma beleza de antes.
Ele se voltou para atrás, ativando sua habilidade. Ele viu as duas figuras conhecidas e se sentou numa cadeira, observando a cena se desenrolar.
- Eu realmente não acho necessário você cuidar da minha mão, Buccellati. - ele ouvia a si mesmo, percebendo que a incerteza que ele pensava ter escondido esmeradamente saia de qualquer maneira.
- Giorno, você é membro do meu time, então seu estado físico é importante. - o tom sério e comandante do moreno fez Giorno sorrir, se vendo sem saber reagir. Os olhos azuis do outro foram a aquele Giorno e Giorno se viu respirar com certa dificuldade, mas imperceptível aos olhos do outro. - Fico feliz que você se importe tanto com seus companheiros, mas é importante cuidar de você mesmo.
O Giorno da cena se remexia, passando a mão livre pelos cabelos. A mão que era cuidada pelo capo era massageada com um produto e Giorno sorriu, se lembrando como seu coração deu um mínimo, mas tão importante pulo, naquele momento.
- Obrigado por se importar, Buccellati. - o Giorno da cena dizia, e Giorno se admirava, ouvindo a honestidade tão distante dele de agora em sua voz.
A mão do moreno cobriu a machucada do loiro da cena e Giorno não pode deixar de se sentir preso naquele tão belo olhar.
- Você é importante, Giorno.
A cena se desmanchou e Giorno passou a mão pelo seu peito, apreciando as batidas nele. Era tão simplório aos olhos de qualquer um, mas Giorno reconhecia que os primeiros sentimentos de amor pelo outro homem tinha se despertado naquela noite, a luz do meia lua como hoje.
Giorno continuou seu caminho, e mesmo que o pedido tivesse sido um tanto extravagante, o trem parou onde Giorno desejava, no meio do caminho, com ele a agradecer o confuso condutor, seguindo o resto do caminho a pé.
O estacionamento já não era o mesmo da memória de Giorno, tendo sido mais ampliado. Se recostando em uma parte das paredes que ele reconhecia de sua memória, ele ativou sua habilidade uma vez mais.
Lá estava o Giorno da cena, dessossego em todos seus traços. Olhando para atrás de si, ele via o resto do grupo remexendo o capô de um carro. Ele também viu o mesmo moreno de tantas outras cenas se aproximar do loiro a sua frente.
- Giorno. - a voz era controlada como sempre, mas havia uma sutileza, um sentimento suave… Giorno se estremecia, como naquela noite. - Você não precisa ficar preocupado, tudo correu bem.
- Eu sei, Buccellati, mas… - o loiro da cena lançou o olhar para baixo, mordendo os lábios. - Se não fosse a descoberta da minha nova habilidade, você e Trish--
- Estamos bem. - o moreno disse com convicção, se aproximando mais do Giorno da cena. Giorno se viu levantar a cabeça e seu coração se dilacerava, invejando seu eu do passado, mãos do capo da Passione a tocarem o rosto do loiro. - Eu estou bem.
- Buccellati, eu--
Um gesto. Ínfimo, comum a tantas outras pessoas. Seus lábios queimavam, como se recordando os do outro, que o tinham o tocado pela primeira vez naquele dia.
- Eu sei que não é hora disso, mas-- - o moreno exalava com dificuldade, capturando o olhar cheio de diferentes emoções do outro Giorno. - Mas--
- Buccellati…
Outro tocar, mais um corte em sua alma. Giorno pensava como aquilo era possível… Mas simplesmente o era. Lábios tão doces, como se fossem feitos para aquele momento com ele. Era um sentimento tão bonito, como tão doloroso…
A cena se esvaeceu e Giorno respirava com dificuldade, segurando seu pulso que tremia visivelmente. Alguns minutos foram necessários, mas ele se recompôs, seguindo em frente.
A rota desviava do caminho original, mas Giorno achava aquilo necessário, coração ainda pesado demais em seu peito. Era contraditório, mas lá estava ele em Roma, no coliseu. Sua visita foi permitida sem muitos pormenores – se ele quisesse, podia tomar semanas só para ele daquele lugar, mas o patrimônio histórico o causava reações, ainda hoje. Ele se abaixou ao chão, vendo outra cena se materializar outra vez mais.
Parecia estranho, mas Giorno sentia que aquela era uma das cenas menos complicadas para ele. Ele se observava a observar o corpo morto do moreno, se vendo passar uma de suas mãos pelo cabelo do outro, seu rosto. O sentimento daqueles toques era uma coisa que Giorno tinha se acostumado naquela missão quase suicida. Gelado, frio. Sem vida. Ao se observar tocar com carinho o corpo morto do outro, Giorno pensou que aquela foi uma das últimas vezes que ele sentiu algo além daquele tão presente oco. Era fraco, imperceptível – sua mente naqueles tempos já estavam tralhando o caminho que deveria ser seguido, a organização que os dois tinha lutado tanto para construir. O rosto do moreno era pacífico e ele alcançou a mão do Giorno na cena, sentindo o oco no seu ser aumentar ainda mais. O rosto dele naquela cena, impassível, como seria nos dias e anos a seguir.
Com aquele sentimento ainda no peito, Giorno retornou aquela cidade, tão odiosa como amada. Veneza parecia intocada pelo tempo, bela demais para alguém que finalmente reconhecia o vazio que tinha tomado conta do seu corpo, de sua alma. Ele se dirigiu ao hotel simples, um dos poucos que aceitaram hóspedes tão cedo como naquela manhã no passado. Adentrando o lugar, ele ativou sua habilidade, ouvindo vozes conhecidas, animadas com um futuro que não viria.
- Só podemos descansar um pouco. - o líder dizia, com o ele do passado ao seu lado. - Trish, você vai ficar com um quarto só seu, o resto da equipe vai se dividir nos restantes.
- A gente podia beber um pouquinho para comemorar, não é? Falta pouco para completar a missão!
- Por favor, Mista. - o tom era tão rabugento quanto ele se lembrava e Giorno se viu sentindo saudade do outro. - Vamos descansar um pouco e pronto, okay?
- Para o Abbacchio recusar bebida é que a coisa é séria! - um barulho de reclamação foi ouvido da parte do jovem moreno. - Ai, Abbacchio, eu estou só brincando.
- É bem feito para você, Narancia. - Fugo dizia e Giorno podia perceber o brilho no outro, apagado nos dias de hoje.
- Podemos dividir aqueles biscoitinhos, pelo menos?
- Tudo bem, tudo bem. - o loiro disse, sendo abraçado pelo jovem moreno. Um sorriso surgiu nos lábios do jovem Fugo e Giorno sentiu-se melancólico por um momento.
- Giorno. - a voz do homem de longos cabelos foi ouvida e Giorno riu do que viria a seguir. - Vê se não perturba o Buccellati, tá bom?
Giorno viu os dois homens se entreolharem, sorrisos finos nos lábios dos dois. - É claro, Abbacchio.
A cena se desvaneceu e Giorno subiu as escadas para o quarto previamente escolhido. O simples senhor daquele estabelecimento o guiou com muita reverência, agradecendo o pagamento vultuoso do don da Passione por um lugar tão simplório como aquele. Giorno simplesmente acenou, adentrando o quarto quando o outro homem partira.
A maçaneta queimava em sua mão e ele engoliu seco, fechando a porta atrás de si.
Suas pequenas férias estavam acabando e Giorno se deitou na cama, vendo em seu celular as mensagens que começavam a se acumular. Fechando os olhos por um momento, o cansaço que tomava seu corpo, não apenas no aspecto físico, mas muita mais mental, ele adormeceu, sem sonhos.
E lá estava ele agora, admirando a vista da varanda. O local podia não ser muito chique, mas tinha uma vista privilegiada das águas da cidade. As luzes da cidade dançavam sobre as águas abaixo com o leve prateado da lua a as tocarem também. E Giorno se virou, sem saber, uma vez na vida, se teria coragem de fazer o que tinha em mente.
O quarto era esparso como ele se lembrava, mas todos os detalhes, desde o velho tapete no chão a mesinha de cabeceira cor de vinho, até o quadriculado que ia do papel de parede do quarto até o teto--
Giorno suspirou com dificuldade, passando a mão pelo rosto. Quem o reconheceria, agora, no estado que ele estava? Dedos a tremer, peito a balançar com a respiração dificuldade e em seu rosto--
A cena se iniciou mesmo sem Giorno chamar seu stand, parecendo que, mais uma vez, Golden Experience Requiem manobrava o que estava no mais íntimo dele.
Ele se via recostado na parede do quarto enquanto o moreno estava ao seu lado, admirando a mesma vista que ele.
- Estamos tão perto, não é? - o Giorno da cena disse, se aproximando do moreno. O moreno voltou o olhar a ele, expressão concentrada no rosto. - Talvez poderemos conseguir informações sobre o chefe e-- a voz do loiro parou com a mão estendida do outro. Giorno viu como o ele daquele passado, incerto, mas cheio de emoção, pegou a mão do outro. O sorriso que surgiu no rosto do moreno era um dos mais belos que ele tinha tido o prazer de presenciar.
- Vamos conseguir tudo que queremos, Giorno. - o capo disse, puxando lentamente o loiro da cena para perto de si, recostando a cabeça delicadamente no ombro do loiro. - E assim, talvez…
- Buccellati. - o loiro da cena disse, e Giorno se sentiu sufocar como naquele dia, mas mil vezes pior. - Nós não precisamos esperar. Nós temos o agora.
Giorno se relembrava perfeitamente do estado que sua mente estava naquela ocasião. O medo, que ele tentava apagar, estava vivo no peito dele depois de ouvir o relato do outro sobre como quase morrera no dia anterior no trem. Dos mais diversos medos, ele era o único que o tocava, adrenalina da caçada do último membro da esquadra de assassinato ainda em seu coração. Eles estavam tão perto, que, por um momento, o totalmente controlado e de posse de si Giorno Giovanna temia o futuro, o que poderia ocorrer dali por diante.
- Giorno… - o moreno se aproximou e o loiro da cena tomou seus lábios para si e Giorno lembrava o tremular que sentia não apenas nele, mas como em todo seu corpo naquele instante. Os braços do amor de sua vida o enlaçaram com força e Giorno sofreu, sentindo mais falta daquilo do que nunca. Os dois se separaram e o moreno tocou o rosto do outro e Giorno sofria mais e mais. - O que posso fazer para se tranquilizar?
Uma tortura, a pior de todas. A cena se desenrolou, sem pausa, reacendendo tudo que ele tinha enterrado. Aquele sentimento de esperança, de certeza, de profundo amor--
- Você tem certeza disso? - o moreno murmurava maciamente, incerteza rara na própria voz. O Giorno da cena acariciava o rosto do outro, passando as mãos pelos cabelos negros do outro que tocavam o travesseiro na cama.
- Eu te amo tanto, Buccellati. - ouvir aquilo ao alto, depois de tantos anos, era a pior das dores, dilacerante. - Eu queria poder gravar esse momento na minha mente, no meu coração – em mim, para sempre.
- Eu também te amo Giorno Giovanna. - o moreno dizia, cheio de amor e Giorno sentiu seu rosto se molhar pela primeira vez na sua vida. - Minha vida, minha existência…
- Shh. - o loiro da cena disse, beijando os lábios do outro como em seus sonhos, toque mais completo e torturoso que o derrotava toda manhã seguinte tendo que lidar com a realidade. - Por favor, só…
Os raios da manhã tocaram sua pele, cama vazia como sua realidade. Giorno passou as mãos por suas bochechas, molhadas com lágrimas, sentindo e não sentindo, vivo apenas porque seu corpo biologicamente o fazia assim. E ele pensou, se sentindo miserável, do porquê de Golden Experience Requiem ter aquela maldita habilidade.
Por que? Por que? Reviver aqueles sentimentos, aquela pessoa--
Giorno se sentiu cair lentamente no chão, chorando livremente, soluçar ao alto no silêncio daquele quarto, como de sua vida. Por que recordar tudo isso? Por que sentir tudo novamente, mil vezes pior do que qualquer sofrimento inimaginável?
- Bruno, por que? - ele dizia ao alto, se sentindo de novo o menino abandonado no escuro de uma casa vazia, a tremer no berço sem resolução. - Por que? - ele murmurou, se sentindo novamente o garoto surrado e ignorado, maltratado além da pele. - Por que? - ele disse com sofreguidão, se recordando do caixão que era abaixado, cercado de flores tão belas, mas que não significavam nada comparado com aquela dor que ele não conseguia processar. - Por que você não está aqui?
Dor. Dor como nunca ele tinha permitido se sentir. Sofrimento, que ele tinha sentido muitas vezes, mas camuflado com seus sorrisos, sua habilidade de ser. E amor, sem resolução, revivido só para demonstrar o quão morto ele estava por dentro.
A volta a sua mansão foi sem acontecimentos. Mista, Fugo e Sheila E o receberam com bons ânimos e Giorno sorriu, como ele sempre fazia. Eles conversaram sobre sua viagem e a organização, almoçando numa conversa animada em conjunto com Trish, que roubou um pouco de seu tempo para se reunir com o grupo. Todos sorriam, contando relatos engraçados e divertidos e Giorno sorria, como sempre.
Depois de uma tarde agitada de jogos, que Sheila E divertidamente não entendia, o grupo jantou, ouvindo uma performance exclusiva da diva do momento. Giorno riu quando Mista começou a dançar e Fugo suspirou exasperado. Adeus foram dados e Giorno se retirou para seu quarto, sorriso ainda nos lábios.
Ao entrar o seu quarto, ele ligou as luzes, olhando em volta. Tudo estava na perfeita ordem, como ele tinha deixado. O loiro foi até a escrivaninha de seu quarto, abrindo uma das gavetas e retirando do fundo falso uma fotografia, a fitando silenciosamente.
Giorno exalou o ar, passando o dedo por uma das figuras e sorriu, deixando uma lágrima solitária percorrer o seu rosto.
Giorno Giovanna não entendia bem seu Golden Experience Requiem – ele era tão misterioso, tão aparentemente sem razão. Mas, como dito por um moreno que marcara sua vida para sempre, aquele homem que nada conseguiria apagar, os stands refletiam muita da alma do usuário.
- Bruno. - Giorno murmurou, beijando a foto com delicadeza. - Eu vou sempre te amar. Sempre.
Capricho do destino ou a perfeita sentença para um homem que construiu seu mundo ideal a base de sangue e tantas irreparáveis perdas? Giorno não sabia ao certo e, pensava, nunca teria uma resposta para aquilo. Mas ele agradecia que a casualidade das coisas tinham feito aquilo acontecer, o fazendo relembrar e guardar no lugar central de sua mente, de seu coração, aquilo. Ter conhecido Bruno Buccellati, ter o amado e o perdido…
Dor e amor sempre o pintavam, mas somente agora ele deixava que essas cores se pronunciassem sobre sua pele, sobre seu ser.
