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Escapism

Chapter 9: The Killing Moon

Summary:

So cruelly you kissed me
Your lips a magic world
Your sky all hung with jewels
The killing moon
Will come too soon
(Nouvelle Vague)

Notes:

Faz tanto tempo, que eu devo a vocês um resumo rápido. Enid e a Wednesday foram juntas para a mesma universidade, chamada Lagune (localizada em Vermont), e são colegas de quarto. É basicamente a única universidade nos Estados Unidos que aceita os sobrenaturais, tem um programa especial para eles, e também promete manter sigilo e proteção. O que Enid não imaginava era que Wednesday foi não só para estudar e viver a vida como uma pessoa comum, e sim para investigar o diretor. Suspeita que ele é um pesquisador que faz experimentos ilegais e secretos nos sobrenaturais. Enid não acredita nela. Yara Lagune, uma morena bonitona, que Enid se aproximou, é a filha do diretor. Enid também se aproximou do seu grupo de amigos: Mia, Speed e Dennis. O último cap diz que vem aí uma festa da Yara, na casa dos Lagune.
Vamos lá,

(See the end of the chapter for more notes.)

Chapter Text

Wednesday 

Na mansão de Yara Lagune. A festa.

 

Olhos marejados, ela os vê. De um garoto, não muito mais jovem. Cabelos loiros, cílios molhados, pescoço protegido por um estranho cachecol vermelho. Uma lágrima descendo de sua têmpora. Calor, pelos a arrepiar. Ele sentia calor em pleno inverno. O aquecedor, o culpado — tinha que ser.

 

Pequeno brinco cintilante pendurado de sua orelha, nublado, pois era observado a canto de olho, capturado em visão periférica. Wednesday não ousava fitá-lo diretamente. Ela existia ali apenas como sombra; um espectro indecente, ao que deflagra sofrimento alheio e perpetua sua presença inóspita ao optar pelo silêncio. O garoto, próximo à pia, fitava diretamente a bancada, debruçado sobre a mesma. Mãos apertando a borda, o pálido de sua pele denunciando-se. Esteatite, Wednesday pensou. O material dessa bancada é esteatite. Suave ao toque, como veludo mergulhado em óleo, lisa como cetim frio; escura e densa; fios pálidos correndo pela pedra como os rios nos mapas antigos enquadrados na sala-de-estar daquele casarão, ou… como cicatrizes sutis. A luz da luminária não batia sobre a superfície — sumia nela, como se a pedra a engolisse em silêncio.

 

E fria, fria… fria ao primeiro toque, perdurando ao segundo, terceiro… a quantidade de vezes que Wednesday encostou e desencostou sua barriga da borda, de maneira discreta. O gélido permeava o tecido de cetim de seu vestido, atingia sua pele. Tingia, de alguma cor.

 

“Vai te engolir.” Murmurou para si mesma, apenas o desenho mudo das sílabas dentro da boca. Seguido por silêncio, mas… algo escapou. Um sopro bastardo espalhando o som pela cozinha. Ele escutou. 

 

O garoto levantou a cabeça em lentidão, atordoado. Suas íris, azuis; fios pálidos correndo em seu pequeno diâmetro. Um olhar inóspito, tanto quanto a bancada, tanto quanto o de Wednesday. Ele despertou do transe, perguntando, também, dentro da própria boca. “O quê?” 

 

Pela última vez, Wednesday desencostou a barriga da beirada da bancada, e virou o corpo para a tremenda festa que acontecia para além das paredes, para além da porta. A encarou. Depois que entrou, a fechou atrás de si. Lembrava disso. 

 

Escolheu estar ali, sozinha, com este garoto. Sem Enid.

 

Enid estava para lá da porta. Talvez rodopiando pela pista, ou… já cansada, sentada no sofá, uma bebida em mãos, um sorriso largo para algo que falavam; esperta ao complementar algum comentário numa velocidade perspicaz que ela, apenas após muitas semanas passadas com seus novos amigos, aprendeu a ter. Wednesday optou pelo segundo cenário. O corpo de Enid estava jogado naquele sofá. Pernas esticadas adiante, talvez sobre o colo de Yara— engoliu em seco.

 

Ponderar sobre o paradeiro de Enid lhe atingia como sopro de mareio. Temia voltar para a festa. Era repelida. 

 

“Que horas são?” Ouviu o garoto perguntar. A abrupta clareza em sua voz fez com que Wednesday voltasse a observá-lo, ponderando o momento exato em que o garoto havia tomado tamanha consciência. Para concedê-lo a graça de alguma resposta, se pôs a vasculhar por um relógio. Nada pelas paredes próximas— somente um, distante, na extremidade da cozinha.

 

 Era pequeno, antigo, via dali.

 

Antes que se pusesse em movimento para descobrir o horário, Wednesday descobriu ter demorado; o garoto já voltava a murmurar, “não era pra eu saber”. Estava drogado, provavelmente. O viu limpar a própria boca com as costas de sua mão, e logo a mesma agarrava o cachecol em volta de seu pescoço. Não o afrouxou, como Wednesday pensou que faria, ele somente segurava o tecido. “Tão… tentando esconder de mim.” Murmurou, outra vez. 

 

Wednesday apertou os lábios, observando-o por mais um segundo antes de se mover. Andou por trás do garoto. Imediatamente, ele abaixou a cabeça, esperando por algo. Ela pausou, percorreu o olhar pelas suas costas. Pelo cachecol apertado. Mechas loiras, suadas. Piscou, uma, duas vezes. Optou pelo silêncio. Percorreu curtíssimo caminho para a bancada adjacente. Pegou a bebida aberta.

 

Sentia o suor frio em sua própria nuca. Já havia bebido um pouco — talvez demais.

 

Ela não era de beber. Nunca havia bebido tanto, não a esse ponto. 

 

As palavras daquela carta martelavam sua cabeça. A visão. A carta.

 

Um licor de creme maple. Estava em suas mãos um licor de creme maple — uma bebida tão, mas tão barata, enquanto em uma casa tão cara. Uma mansão. A evidência de sua própria limitação: Wednesday ainda estava longe do que buscava, tateando somente a superfície. Algo a tirou da rota. 

 

E a pergunta do garoto: que horas são? 

 

“A festa começou há duas horas,” ela disse e arrancou a rolha da garrafa, esta, já violada e em sua metade. Teve a decência de não beber do gargalo: se ia beber a própria derrota, que fosse num benquisto copo de conhaque. Derramou o líquido pegajoso e deu um gole. 

 

A bebida, doce, estupidamente caramelizada e quente, descia como uma faca pela sua garganta. Queria arranhar a própria garganta, tirar com as unhas o açúcar de sua língua.

 

De repente, “por favor… quê horas são?” Essa voz masculina, tão fraca, juntava-se a outras vozes, uma delas sendo a sua própria. Estavam martelando sua mente. A insultando. Insultando sua inteligência; sua capacidade de resistir a inúmeros contrapontos. Enid. Linhas de uma carta. Um garoto em apuros. Apenas um garoto, tentou se lembrar,  seja justa. Provavelmente drogado, igualmente frustrado.

 

“Você vê um relógio comigo?” Wednesday respondeu. Soava como um animal selvagem, rosnando entre dentes.

 

O garoto a fitou, olhos cerrados como se tentasse enxergar. A sua respiração era rápida.

 

“Fizeram isso comigo,” ele disse. “Que horas são, por favor?”

 

O frio penetrava por debaixo do vestido de Wednesday. A brisa violentava sua passagem por janelas fechadas, lambia em saliva quente as canelas. As coxas, a barriga. O pescoço, a nuca. A franja, grudando na testa. O corpo querendo ceder. Ela rosnou outra vez: “você vê algum relógio comigo?” 

 

“Mas tem um ali.” Ele se inclinou para ela e apontou para o fim da cozinha. “Tem um ali—”

 

Quase num salto, se pôs à frente do menino. Seus braços como geleia, ao que tentou empurrá-lo para o lado e foi pouca a distância que conseguiu impor entre os corpos. Sua mão trêmula voou para a torneira, girando ao limite. Ombros altos contra o seu; ele estava próximo, encostado nela. Água fria jorrou em suas palmas.

 

A água aliviava seu rosto de todo o suor.

 

Segundos se passaram.

 

Sentiu a alma voltar para o corpo.

 

Até que, bem perto de sua orelha, o garoto murmurou. “Por favor.”

 

Wednesday se virou para ele, o olhar cravou adagas. Agarrou a nuca do desconhecido, o arrastando consigo para o outro lado da cozinha. Ele grunhiu, embora submetido contra o aperto; pequenos lamentos, como um rato na boca de um cachorro, quase em seu fim. Debatia, mas nem tanto. Balbuciava desculpas. Pararam frente a parede. 

 

Wednesday, com a outra mão, agarrou cabelos loiros e levantou sua cabeça. 

 

Para o relógio. 

 

Os ponteiros, finos como agulhas, avançavam com um leve tremor. Um mecanismo fadigado. 

 

Foi ali que Wednesday, desinteressada pelas horas, assistiu o menino observar o relógio com a certeza de que não aguentaria a verdade: a feição despencando ao horror, um grunhido doloroso espremido na garganta. Um rosto antes tão juvenil; a carne contorcida sobre si mesma. Pupilas dilatadas, o olhar fundo, inumano. As sobrancelhas arqueando.

 

O clima de Vermont era terrível, mas não imprevisível.

 

Com um empurrão, fugiu do aperto de Wednesday. Cambaleou para a porta. Escancarou, e saiu.

 

O cômodo vazio.

 

Mãos frias. Respiração contida.

 

Tic-tac. O relógio zombava dela. 

 

Então, a voz. “Wednesday!

 

Denunciando a presença. Ela.

 

Enid—

 

Correndo em sua direção.

 

O sorriso largo. O loiro esvoaçante.

 

O olhar afiado.

 

O contraste cruel.

 

Wednesday, imóvel, percebeu: estava encurralada.





Enid

5 dias antes da festa.

 

“Você já parou pra pensar… o quão raro isso é?” Enid perguntou. Ambas deitadas em sua cama, o teto iluminado por fiapos de luar. A primeira aula em poucas horas, e o sono parecia distante. Enid não parava de tagarelar. Wednesday fingia incômodo, e falava tanto quanto. 

 

“O quê?” murmurou, a voz arrastada pelo cansaço, os olhos perdidos na penumbra aconchegante do quarto.

 

“Nós duas.”

 

“O quê, sobre nós duas?”

 

“Tudo isso… a gente.”

 

“Raro de encontrar, você diz?”

 

Enid riu baixinho— aquele som que aquecia o ar. “É. Raro de encontrar.”

 

-

 

Havia o tempo de passar com seus novos amigos, e o tempo de passar com Wednesday. Os dois, nunca misturados— totalmente insolúveis. A água, pura e serena, em sua fluidez, se espalhava e aos poucos conquistava o coração de Enid; enquanto o óleo, denso, era preso à própria natureza. Forte demais para se diluir.

 

Orgulhosa demais para ceder. 

 

(Enid se recordava do que Wednesday havia lhe dito sobre seus amigos, ainda naquele dia, de madrugada, ambas em sua cama: “Água e Óleo, Enid.” Algo sempre impede que se juntem.)

 

O fato era que Wednesday sempre parecia se esconder.

 

E Enid, como de costume, fazia de tudo para entendê-la. Parou com os questionamentos excessivos e deixou com que as coisas fluíssem. Tinha fé: as coisas fluiriam, Enid se distrairia com suas obrigações e passatempos e finalmente poderia esquecer dos sumiços repentinos de Wednesday… Isso, se não fosse pelo grupo da Yara. Pois, como era de se esperar, perguntavam por ela—

 

A sua amiga, ela não vem?— Wednesday, é esse o nome, mesmo?— ah, é tímida?— não vi mais ela, ela não tá curtindo aqui?— fizemos alguma coisa?— são amigas tem quanto tempo, mesmo?—

 

Onde ela está?

 

Ao que Enid respondia— ou melhor, se forçava a responder: 

 

Não faço ideia.

 

Dennis ria e Speed achava interessante o paradeiro sempre desconhecido da Addams. Yara ficava em silêncio, como se entendesse. Mia provocava, você não se incomoda com isso, não?

 

Não. Não mais. 

 

Em parte, servia como verdade. Uma quase, quase verdade. Enid, com sua capacidade incomum de se convencer de algo, tentava se convencer de que não era possível controlar outro alguém. 

 

Muito menos Wednesday. 

 

Água e Óleo, Enid resmungou para si mesma ao despertar de manhã, e resmungou de novo enquanto caminhava sozinha para sua primeira aula. Resmungou em tom estoico, seco, como o da Addams, ao mesmo tempo que ainda tentava compreendê-la.

 

(Enid se forçou ao sono naquela noite, ao que sofria pela surpresa de ter o joelho esquerdo de Wednesday decididamente encostado em seu quadril por toda a madrugada. Wednesday, que caiu no sono antes que ela. A confiança crescia.)

 

Confiava na Wednesday, completamente e obstinadamente? Não. Achava que ela ainda procurava por pistas malucas e motivos macabros? Com certeza. Mas, o que fazer? Ela era assim. E Enid aprendeu — com muita, muita força de vontade — a se acostumar.

 

Pela tarde, depois da aula, Wednesday a levou para a feira de livros que acontecia na parte externa do prédio do curso de Música Erudita. Muitas seções ao longo do vasto corredor, prateleiras simples e bambas, pesadas por partituras e livros de não-ficção. O sol escaldante os iluminava e ainda sim, estava frio. Enid percebia que todos estavam simplesmente congelando.

 

Menos ela, que logo pela manhã havia checado a previsão do tempo e se agasalhou de acordo. O clima de Vermont era terrível, mas não imprevisível. 

 

“Tem algum motivo especial por terem feito a feira do lado de fora?” Enid perguntou, se esquivando bem na hora de um estudante apressado. Tentava ajudar Wednesday a carregar todas suas compras, livros e artigos; estes ameaçando cair de seus braços. 

 

“A temática da feira é Natureza. Fizeram de acordo.” Wednesday relembrou.

 

 “Hm. É só isso o nome?”

 

“‘Melodia da Natureza: Harmonia entre Sons e Paisagens.” Wednesday completou, andando um pouco adiante da outra enquanto estabelecia um olhar afiado na distância, ao fim do corredor. Ela procurava por algo específico. “Imaginaram que seria apropriado acontecer do lado de fora.”

 

“Ah,” Enid se esquivou de outra pessoa, “e você… curtiu?”

 

“Se eu curti?” Wednesday franziu o cenho.

 

“É.”

 

“O nome?”

 

“Não—”

 

“A temática?”

 

“Sim, mas em—”

 

“Até agora a coleção não me gerou incômodo, como eu disse, é apropriada ao que se propuseram a fazer. Se eu tivesse sido a responsável, faria ajustes na estrutura, mas pensando que nenhum especialista foi contratado pela—”

 

“Wednesday.”

 

“Sim?”

 

Calma. Deixa eu terminar?”

 

“Desculpe. Estou… focada.”

 

“Eu ia perguntar,” Enid suspirou, “se você curtiu da feira ser aqui fora.” Já previa a resposta: era óbvio que tinha amado. Pele contra imensa friaca enquanto exercitava o seu principal e mais zelado passatempo… havia lá algo mais prazeroso que isso?

 

“Eu achei burro,” Wednesday deu de ombros. 

 

Enid não conteve o riso, olhando em volta, vendo os corpos tremendo e as peles arrepiadas, “tá todo mundo com uma cara engraçada.”

 

“Frescos.” Wednesday murmurou meio a um pequeno sorriso. Beirava certo sadismo. “E, então?”

 

“O quê?” 

 

“Achou algo que interessa?”

 

Enid ia responder que não, que não sabia nada sobre música erudita e que Wednesday sabia disso— mas foi forçada a desviar de mais um aluno apressado. Sentiu a urgência de agarrar o braço do garoto que quase trombou em seu ombro e deferir um arranhão em seu rosto. Talvez isso o tirasse do transe maluco que cada um ali parecia estar. Era tão raro assim, todas essas partituras? Seria o frio induzindo as pessoas à loucura? 

 

“Se continuar rosnando, vão acabar rosnando de volta.” Wednesday brincou mais uma vez, e Enid estava quase perdendo a paciência.

 

“Será que todo mundo não tá vendo que eu estou cheia de coisas na mão?” Seu olhar vasculhou os arredores, grunhindo como se desse uma bronca nos desconhecidos que passavam. Enid parecia uma criança petulante, e talvez ela fosse, pois não era possível que—

 

“Agora você entende meu ímpeto violento.” Wednesday disse. 

 

“Acho que eu estou virando mais violenta que você.” Enid respirou fundo.

 

Os passos de Wednesday ralentaram ao que se virou para Enid e pegou para si alguns dos livros que ela carregava, enchendo ainda mais a pilha em seu próprio colo, este igualmente transbordando. 

 

A Addams sorriu levemente, também, de um jeito diferente— havia gratidão em seu olhar. 

 

Enid amoleceu, um pouco.

 

“Valeu, Wed.” Ela agradeceu, um rosa recorrente colorindo seu rosto. Ia pedir para que a Addams pegasse mais alguns livros de seu colo, até que viu para além das caixas e prateleiras, no gramado: um bando de voluntários da feira engatinhando, loucos, atrás de papéis que insistiam em voar junto à ventania incessante. “Meu deus. Olha isso.” Enid riu, de alguma maneira conseguindo balancear o peso no colo e apontar o dedo para a visão gloriosa. Wednesday sorriu para a cena; aquele sorriso malicioso que ela tanto gostava. 

 

Wednesday deu de ombros, “é rude apontar, Enid,” e murmurou, fingindo falar consigo mesma: “eu apenas imaginava que os Sinclair não perpetuavam os bons modos — você é uma boa confirmação.” 

 

“Como assim?” Enid, ligeiramente envergonhada, fez uma cara de paisagem. Rapidamente recolheu a mão e segurou as compras com mais firmeza. “Apontar? Você decidiu comprar metade da feira e me deu pra carregar,” e ela ainda fez outra careta, como se a carga que levava de repente estivesse insuportavelmente pesada, “e ainda fica me acusando. Isso que é rude.”

 

A Addams levantou uma sobrancelha para ela. “Eu não acuso. Eu observo.” Contemplou um pouco mais o fingimento de Enid, voltando a andar. “…Como se você não conseguisse levantar um trem se tentasse.” 

 

“Ei... fala baixo, alguém pode te escutar.”

 

Wednesday parou, de novo. Fitou seu corpo magricelo e sorriu de canto, “e alguém acreditaria em mim?”

 

“Você é cínica— espera!”

 

“Que foi, Enid?

 

“Não é aquela seção que você tá procurando?”

 

Imediatamente, Wednesday lançou o olhar na direção sugerida. E sim, era a seção. Uma bem reclusa e mal frequentada. Seus olhos simplesmente brilharam, abandonando o tom de provocação ao sorrir maníaca para Enid.

 

E voou pela multidão, em direção ao tesouro.

 

Enid fez apenas o que lhe restava fazer: rir, e tentar acompanhar o seu passo. 





4 dias antes da festa.

 

Dennis! Passa pra mim! O frisbee voou e quase pegou no seu rosto. “Eu disse pra passar, não pra tacar!” Mia gritou.

 

Ao longe, Dennis, o culpado. Ele tentava disfarçar a risada. Correu para a menina, conferindo o possível estrago em seu rosto. Nada aconteceu, Enid concluiu aliviada, pois logo Dennis ria abertamente e Mia o empurrava. Brava, mas nem tanto. Um sorriso se escondia no canto de seus lábios.

 

Era a discussão mais divertida de assistir: quando Dennis fazia algo que Mia definia como insuportável e ela contra-atacava com uma voz irada, o cinismo no ponto. Lembravam Enid de seus irmãos. Da falta que sentia deles, às vezes. 

 

Não tão distantes da disputa, estavam Enid e Yara. Speed existia em seu sétimo sono ao lado da canga das garotas. 

 

Era mais um dia de sol e frio, exatamente como havia sido segunda-feira e exatamente como era esperado para hoje. Como que os opostos coexistiam tão perfeitamente? Era delicioso estar ali, no gramado, especialmente após a primeira aula, no intervalo; a pele gelada logo aquecida pelo fervor de uma manhã sem nuvens, salva da ventania que costumava rondar. O cinzeiro de Yara e dois salgadinhos acompanhavam o entorno. Um suco de uva era passado de um lado para o outro, como um pequeno ritual. Azedava a língua e refrescava a garganta.

 

Havia uma sensação pontiaguda no peito de Enid.

 

Precisava entender o que exatamente estava acontecendo. E precisava fazê-lo antes da lua cheia, agora há poucos dias de distância.

 

Ela ainda não havia se transformado em Lagune e existia todo um protocolo secreto e complicado que deveria seguir, quando acontecesse. Mas a coisa era… eles ainda não a contataram para explicar como seria, nem por e-mail, nem pessoalmente. Toda vez que alguém com o emblema de Lagune no peito vinha em sua direção, Enid jurava que a puxaria para um canto e diria algo, qualquer coisa. Mas, não. Passavam reto. Ninguém se tocava que, se algo desse errado… seria catastrófico. Cada um neste campus, em perigo. 

 

Enid não conseguia sequer se colocar a mercê de um momento tranquilo como este, com Yara. Esperava que a qualquer segundo algum funcionário viria, seja lá o tipo; professora, faxineiro, secretária— até mesmo o jardineiro, e lhe diria as palavras secretas.

 

Talvez… até mesmo Yara poderia saber e ser quem contaria para ela. Isto era, se seu pai tivesse dito a verdade sobre ela. Será mesmo? Não, provavelmente não. Não fazia sentido—

 

Seu coração batia rápido. Precisava relaxar.

 

“Eu vou morrer cedo, comendo desse jeito.” disse Yara, de repente. 

 

A interrupção era bem-vinda. Sua cabeça estava infernal… preocupada em esconder as mãos trêmulas, em não transparecer os calafrios que rasgavam a pele dolorida. À beira de explodir.

 

Fraca, sorriu para Yara e olhou o caderno de desenho logo ao seu lado. Antes, Enid apenas rabiscava o papel para não denunciar que estava pensando demais, até que, de repente, a cabeça de Yara repousou em sua coxa… por mais que doesse um pouco contra a pele sensível, o peso era bem-vindo. A mantinha no chão. Quase uma carícia, ao que Yara virava suavemente sua cabeça de lá para cá, observando o campus e conversando com Enid. Uma boa distração, essa de temerosamente tocar em seu cabelo castanho, sentir as mechas entre seus dedos.

 

Yara estava deitada e não precisava de disfarces… respirava tranquilamente, observava sua volta. Fazia piadas e olhava para Enid como se aquilo bastasse.

 

Enid a invejava. “Você vai morrer de tanto fumar, isso sim,” respondeu, observando como o castanho coloria sua coxa. Pensava se poderia mexer neles com mais intenção, talvez puxa-los levemente, ver como Yara reagiria—

 

“Ah, é?” Yara rebateu, leve, gloriosa em seu estado sereno. Pegou o salgadinho do seu lado, enfiando uma porção na boca, “câncer ou colesterol alto. Qual você prefere?”

 

“Salgadinho também dá câncer.” Enid levantou a sobrancelha. 

 

“Ok,” Yara revirou os olhos, “você não respondeu a pergunta.”

 

“Se eu preciso escolher, mesmo…”

 

Yara cerrou os olhos. “Já até sei o que você vai falar—”

 

“Colesterol alto.” 

 

Ela grunhiu, limpando o canto da boca. “Como ela é certinha.”

 

“Como isso me faz certinha?” Enid riu. “Você me conheceu agora e já decidiu que eu sou certinha.”

 

“Hm-hm.”

 

 “Assim, tão fácil?”

 

“Eu sou ótima em ler pessoas,” Yara sorriu, “eu acho, pelo menos.”

 

“Bom… se você tem tanta certeza, então.” Enid deu de ombros, forçando indiferença.

 

“Hm.” Yara saiu da posição em que estava. Apoiou o peso em seus cotovelos, de barriga para a canga. Yara sempre tinha uma expressão curiosamente rebelde, como se estivesse à procura de algo, e, quando o encontrasse, iria prontamente contradizê-lo. Seu sorriso era levemente torto, sua franja caia provocantemente sobre seus olhos escuros. E o jeito que ela falava, era… diferente; um prazer inconfundível em cada palavra dita, e, ainda sim, soava descontraída. “Não tenho mais,” ela disse.

 

Enid sabia que Yara guardava a carta em sua manga, mas a segurava por tempo demais. O caminho sempre livre para o xeque-mate, mas optava por outra jogada, apenas para ver como seria enfim encurralada. Se seria encurralada.

 

Olhando como se desesperadamente quisesse ser encurralada. 

 

Fingia ser a presa e disfarçadamente preparava o rebote.

 

Ou, Enid inventava toda essa fantasia e Yara apenas existia inofensivamente, sendo qualquer outra coisa mas essa visão que a cabeça doentia de Enid cismava em conjurar.

 

A lua cheia estava chegando. 

 

Ela precisava cravar os dentes em algo, fazê-lo chiar, se contorcer, tentar escapar.

 

Queria perseguir.

 

Enid levantou a cabeça, fixando o olhar em qualquer outra coisa que não Yara Lagune. Tentou imaginar onde Wednesday estaria, ou onde exatamente naquela distante floresta seria sua transformação. Seria em uma caverna, ou… em uma jaula? Apertada, com grades metálicas e espessas. Permitiriam uma acompanhante? Enid… na festa de Yara, nessa mesmo que estava chegando… conseguiria se distrair— aliviar pelo menos pouco dessa tensão?

 

Precisava se mexer. Talvez… ficar com alguém. Fazia tanto tempo que não—

 

“Ei,” Yara chamou, baixinho. “Você viajou… pra onde foi?"

 

 Enid não podia se render—podia desesperadamente se render. Ah, seria tão fácil. Yara a seguraria na queda. A beijaria, tinha certeza. Enid queria tirar a franja de cima de seus olhos, arfar na sua boca—

 

“Você gosta de me olhar assim.” Enid confessou, seu cenho franzido de maneira que doía. “Toda hora.”

 

Yara se levantou ainda mais, alinhando os olhares, certeira ao vasculhar por todo o rosto de Enid. “Estou curiosa. Você me deixa curiosa.” Disse e desviou vagamente o olhar para a floresta que Enid antes contemplava. Um suspiro inaudível escapou às distantes copas dos pinheiros, “você não tem ideia de quanto tempo faz que eu não me sinto assim”, voltou para Enid, como se já pressentisse seu susto, seu medo, “é… ingênuo, Enid, não significa nada.”

 

“Yara…”

 

“Eu sei que você está na mesma situação que eu.”

 

Havia tanto que ela não sabia. “Não tem porquê você sentir isso.” Enid respondeu, suas mãos levemente trêmulas. Sua voz era estoica, objetiva, como a de Wednesday— refletiu rapidamente que Wednesday também faria isso se estivesse nesta situação: tornaria palavras em pedras somente para esconder o que sentia. Isto, se sequer fosse capaz de sentir coisas assim. O peito de Enid estava apertado. 

 

“Como assim?” Yara perguntou.

 

“Eu não sou isso que você tá pensando, quem você acha que eu sou.” Enid franziu o cenho, temendo magoá-la ou soar clichê demais. “Eu… eu já fiz coisas ruins.”

 

Uma pausa.

 

E Yara sorriu. Simplesmente sorriu, abertamente, como se sim, a conhecesse, como se não acreditasse nela. Isso irritava um pouco Enid: tamanho conhecimento, tamanha noção da vida alheia. Enid era mais rude do que as roupas que vestia, mais bruta do que sua voz suave. Menos certinha do que um dia já foi. Já matou alguém. Já prensou Wednesday entre suas pernas e ameaçou com suas garras. Pensava em atrocidades.

 

Fez atrocidades.

 

“Qual foi a pior coisa que você já fez?” Yara perguntou e Enid nem precisava tomar ar para responder, pois já estava na ponta de sua língua.

 

“Já quase machuquei alguém que eu amo.” Ela disse.

 

Yara, cuidadosa, levantou uma sobrancelha. “Meu bem,” com um dedo, levou a mecha de Enid para trás de sua orelha, “penso em fazer isso todos os dias.”

 

Enid a fitou, surpresa. “É mais complicado que isso.”

 

“O mais comum é querer estraçalhar quem a gente ama,” Yara deu de ombros, “é por isso que chamamos de amor.”

 

“Não quer dizer que é tudo bem.”

 

“Não, mas o que hoje em dia é?”

 

Ela suspirou, frustrada. Havia outra coisa, muito mais sombria que—

 

De repente, Enid confessou, “eu já matei alguém.”

 

Outra pausa, dessa vez, não tão confortável. 

 

Yara respirou fundo. “Como?”

 

Enid inspirava pela boca, em relances olhava a de Yara. “No primeiro ano do colegial. Um homem, na floresta. Eu tava sozinha, ele me achou. Eu… reagi.”

 

Tyler

 

“Você era tão nova…”

 

“Nosso… tamanho não era tão diferente. Sabe? De igual pra igual.”

 

Apenas Nevermore sabia sobre o evento, mas nunca pelas palavras de Enid. Já estavam certos demais logo quando a viram ensanguentada, parcialmente derrotada, andando para a multidão. Quando chorou nos ombros de Wednesday. Especularam sobre o que havia realmente acontecido, elaboraram histórias, disseram todo tipo de atrocidade. Alguns glorificaram seu ato, este suposto assassinato.

 

Monstruosa ou heróica, não havia meio-termo.

 

Pelo menos, em Nevermore, as pessoas sabiam quem ela era. Em Lagune, a vida era forjada. Enid se distanciava de quem realmente era ao mesmo tempo que se aproximava de algo novo; uma parte ainda não descoberta. Não sabia ao certo se gostava desse funcionamento; se algo novo poderia surgir se tão rigorosamente escondia seu passado dessas novas pessoas. A única pessoa que escapava desse mecanismo era…

 

Wednesday. Ela sabia de tudo. Sem meio-termo.

 

Presenciou sua ira contra Tyler, e finalmente, contra ela: quando Enid a derrubou no chão, pressionou o colo contra o dela e ameaçou machucá-la. 

 

Enid estremeceu com a memória. Não saia de sua cabeça. 

 

“É?” Yara murmurou tão docemente. Aparentemente crente. Linda. 

 

Enid não pensava ser amor, mas queria rasgá-la em pedaços.

 

Queria se render. 

 

“Foi… rápido,” Enid mentiu— durou tempo demais. Tyler alastrou cicatrizes por todas as suas costas. Yara precisava saber disso, afinal, se a beijasse, logo descobriria. Enid deixaria que ela agarrasse seus cabelos e grunhisse contra sua boca. Ela tiraria sua camisa e veria tudo, sem meio-termo. Precisava descobrir. Enid precisava disso, sentia baixo, pesado em seu colo, que sim.

 

“Ele te machucou?” Yara perguntou.

 

Me beija e vê. “Ele não durou muito.” Enid disse.

 

“Como você fez?”

 

Garras. “Não importa. Eu só fiz.”

 

“Como você se sentiu?” Yara perguntou.

 

Enid pensou, deixou a mente vagar… e sorriu. Sorriu como nunca havia sorrido quando abordava esse assunto. “Meio louca.”

 

Yara sorriu de volta e beijou sua bochecha, falando deliciosamente contra ela, “você é estranha.”

 

Enid quase arfou, sentindo o ar quente da boca vibrar em sua pele. Fechou os olhos, roçando levemente a bochecha contra seus lábios de Yara. Doces, quentes. Seu coração estava a mil e desesperadamente pesado. Ela tinha certeza que fazia algo de errado, que deveria parar. Que, estranhamente, havia alguém que não poderia saber sobre isso.

 

Wednesday, largada no chão, boca entreaberta e a sua mercê. Deveria ter arranhado todo seu rosto, deveria ter se deitado completamente sobre ela. 

 

Enid riu, meio louca, fazendo de tudo para não deitar ali mesmo e puxar Yara para cima de si. De olhos fechados, virou o rosto e arrastou os lábios na pele macia de Yara, “sou, sou muito estranha—” concordou, quase delirante.

 

“E violenta,” Yara deslizou os dedos entre seus cabelos, e, delicadamente, puxou para encontrar seus olhos, falando perto e quente contra seus lábios, a um fio de encostá-los,  “quem diria?” sorriu, e meu deus— “Enid Sinclair, louca ao ponto de cometer um crime,” beijou o canto da sua boca, deixando uma marca molhada. Enid suspirou, desejando. “Suja ao ponto de escondê-lo.” Enfim, Yara selou os lábios em um beijo lento, mas superficial. Dolorido, ao que Enid quase furou a canga com o aperto que a segurava. Queria mais. Descolou a boca da sua, arfou, já buscando outro beijo, em busca de aprofundá-lo, de sentir a língua contra a sua. Até que Yara, com a respiração colada à sua, murmurou decididamente— “Você é corajosa.” 

 

Como se tomasse um tapa, Enid abriu os olhos. Não queria reverência. “Não tenta—”

 

“O quê?” Yara sorriu e beijou o outro canto de sua boca, dedos acariciando sua bochecha. “Você é corajosa.” Forçou outro beijo, e Enid estava simplesmente desamparada, prontamente derretida com o toque. “Encantadora, Enid.”

 

Outra pausa, e nesta Enid tivera que mastigar, engolir e processar a porra de um rosnado. Não queria elogios. Não queria o olhar doce de Yara. Queria violenta, queria sujaNunca pensou que se sentiria excitada falando sobre isso. Sobre Tyler. Foi brutal, definiu seu caráter, o seu corpo— o quanto consegue confiar o seu corpo para os outros. Ela já beijou outras pessoas fora Yara, sim. Pouquíssimas, e o desconforto que sentiu foi insuportável. Dedos estranhos de caras aleatórios de Nevermore, acariciando suas marcas. Outros olhos vislumbrando o estrago. 

 

Wednesday, naquele banheiro… logo após tudo ter acontecido. Quente, coração a mil, nuca molhada em suor frio.

 

Foi ali o único momento em que o trágico não era gritante.

 

O gritante era o olhar de Wednesday; a fascinação em seus dedos que alastrava outro tipo de cicatriz. 

 

Enid viu de tudo naquela banheira. Provou da breve ruína.

 

Yara capturou seu suspiro em um beijo dolorido e molhado, apertou seus cabelos entre os dedos e lambeu sua boca em um ato final antes de dizer, “a cicatriz no seu rosto—”

 

Foi interrompida por um toque de celular.

 

Enid, a beira de um desmaio, teve que piscar várias vezes para desembaralhar e entender a sequência de letras na tela do celular de Yara.

 

Anderson Lagune.

 

Lagune como… Enid se forçou à consciência—

 

O pai de Yara. 

 

O rosto de Yara despencou. “Enid…”

 

“Tudo- tudo bem. Tá tudo bem” Enid murmurou, queimando. Suja, envergonhada—

 

Yara colocou uma mecha atrás de sua orelha, tentou arrumar seus cabelos com mãos instáveis. Enid via seu rosto igualmente confuso e queria beijá-la, de novo. Pensava naquele banheiro, em Nevermore. Pensava em Wednesday. Pensava em como seria o quarto de Yara. “Eu preciso atender.” Ela disse, decisiva. 

 

“Sim,” Enid disse, “tá tudo bem.”

 

“Mesmo?”

 

Enid assentiu depressa, “sim, relaxa.”

 

“Já volto, okay?” Yara pegou o celular sobre a canga, bufando baixinho antes de se levantar, “não sai daqui.” E atendeu a ligação.

 

A figura de Yara se perdia na distância. 

 

“O pai dela sempre liga, nesse horário.” Soou a voz abafada de Speed.

 

Speed

 

Enid sentiu, em um calafrio, todo seu peso despencar em horror.

 

O quanto ele havia escutado? 

 

Ela encarou a figura desengonçada do garoto. Seu rosto coberto pelo cachecol, o cabelo castanho esparramado no gramado.

 

“Você… tá acordado faz tempo?” Ela perguntou, cuidadosa.

 

“Relaxa, vai.” Ele se espreguiçou, tirando o cachecol de seu rosto. “Acordei com o barulho.”

 

“Que barulho?”

 

“Do gemido.”

 

“Meu deus—”

 

“Relaxa loira, tô brincando. Acordei com a ligação.” Speed revirou os olhos e sorriu, talvez para acalmá-la. “Você acha que eu tô interessado em escutar vocês flertando?” 

 

Enid sorriu de volta, “não, desculpa.” Nada convencida, nada, nada, nada— mãos assumidamente trêmulas. “Ele liga sempre… no mesmo horário?”

 

“É, falando alto, brigando. Sei lá o porquê. Todo dia a mesma coisa, e ela ainda fica surpresa.”

 

Yara já estava quase no fim do campo, perto da entrada do refeitório. Ela falava seriamente no celular enquanto caminhava lentamente de um lado para o outro, às vezes parando, às vezes voltando a andar. Uma expressão carregada em seu rosto, Enid conseguia ver dali. 

 

Tudo bem, tá tudo bem. Tentava respirar o mais fundo e controlado possível.

 

Speed havia escutado algo.

 

Talvez, a conversa inteira. A sua confissão.

 

Encarou duramente o garoto, ele, que fitava o céu, prestes a cair no sono de novo. Aparentemente relaxado.

 

Se ele contasse para alguém… ela teria armas contra ela. Enid sabia que ele se drogava, que levava bebidas escondidas para as aulas. Olhou para a mochila de Speed, largada… devia ter uma ali. Podia esperar para que ele dormisse novamente, e tiraria uma foto da garrafa. Isso seria o suficiente para suspendê-lo ou… ate mesmo para expulsá-lo. Isso o manteria calado. Agora, caso não tivesse nenhuma garrafa, talvez haveria um plástico com pílulas em algum dos bolsos. Enid sabia, também, onde era seu armário. Uma vez passou na frente dele. Tendo boas provas de seu delito, depois somente teria que dizer que, era óbvio… ele estava drogado, que inventou toda essa história sobre Enid. Sobre esse assassinato que ele supostamente escutou ser confirmado. Ela poderia—

 

O celular de Enid soou. Uma notificação. Desbloqueou a tela com rapidez. Viu ser apenas uma mensagem do velho grupo de Nevermore. Voltou para a lista de contatos e conversas, vistas e não vistas, e procurou—

 

Fixada acima de todas, estava Wednesday.

 

Empacotou todas suas coisas. Olhou para Speed, pensou em deixá-lo estraçalhado ali, para Yara encontrar. Fechou os olhos, cobriu a testa com sua palma e apertou. Ela não estava bem.

 

Precisava sair dali. 

 

Wednesday.

 

-

 

Saindo do pátio, percorreu um caminho totalmente automático e cego rumo à sua porta, e frente à ela, Enid tentou se recompor. Limpou a boca. Lembrou de Yara. Ajeitou o cabelo. Lembrou do cinismo de Speed. De como desejava a morte ao bom garoto. Tirou o casaco, prendeu debaixo de seu braço. Alisou a camisa branca, perdidamente amassada. Abriu a porta. 

 

Milhares de partituras espalhadas pelo chão do dormitório. A janela aberta. Um tom de amarelo embelezava o cômodo. Era de manhã que Enid podia constatar a bela composição que fizeram no ambiente: metade em trevas, outra metade, em cores pastéis. Pôsteres de banda e fotos antigas. Pequenos quadros no lado da Addams.

 

Era belo, o que fizeram com este lugar.

 

Avançou para dentro.

 

Fechou a porta atrás de si.

 

Tudo parecia acontecer em câmera lenta.

 

Ali estava Wednesday, corpo levemente desleixado, vestida em seu suéter e calça preta, sentada no chão, no centro do cômodo, cercada pelas partituras. Enid, aliviada, deixou os ombros caírem e um suspiro escapou. Queria correr para ela e afundar o rosto na dobra do seu pescoço. Não o fez.

 

Queria contar como beijou uma mulher, e desejou derramar o sangue de um garoto. Não o fez.

 

Finalmente, Wednesday virou para trás e observou a figura. Começou de seus pés, até seu rosto. Enid permitiu, se sentindo como um coelho morto no canto da estrada, pronto para ser coletado. 

 

Wednesday se levantou do chão, braços pendurados aos lados de seu corpo. Sua feição era curiosa, olhos muito ligeiramente arregalados, boca em pequeno espasmo. Claramente investigava a figura que via.

 

Enid quase soava frio— por que que ela era toda hora tão investigada? 

 

Wednesday arregaçou as mangas, esperou breves segundos, e perguntou, “então?” 

 

“O que é?”

 

“O que aconteceu?”

 

“Eu…” Enid suspirou, uma repentina e estranha sensação de calmaria ditando seus próximos passos, “sei lá. Comecei a sentir uma dor estranha.” Enid deu de ombros, andando para o armário, abrindo-o e pendurando seu casaco. “Deve ter sido alguma coisa que eu comi.”

 

“Certo.” Wednesday murmurou, “dor… em que lugar?”

 

“É…” Enid se virou brevemente para ela, gesticulando, “na cabeça.” 

 

“Você bateu a cabeça?”

 

“Quê? Não. Dor de cabeça.” Enid respondeu e ao que Wednesday assentiu, ela continuou: “mas relaxa. É normal, as aulas tão começando a ficar meio intensas. Eu não tava me dando conta disso até que chegou o intervalo e eu fiquei… bom, assim. Tonta. Meio inútil.” Ela sorriu, “descobri hoje que eu tenho três trabalhos pra entregar até semana que vem, acredita nisso?”

 

“E então… você ficou com dor de cabeça?”

 

Enid franziu o cenho, “você falando assim parece que não é normal. A aula acabou e todo mundo saiu com uma cara…ela deu de ombros, “não sou a única nesse estado, pelo menos.”

 

Wednesday ainda a fitava de um jeito estranho. Enid só queria se jogar no chão e fingir um desmaio. “Você decidiu faltar na aula.” Ela constatou. 

 

“É. Decidi.” Enid respondeu. “Um dia não faz mal.”

 

Wednesday assentiu. O cabelo que trançou pela manhã, agora quase livre de amarras. Estava… bonita e desajeitada, lindamente casual.  Sua pele reluzente por uma fina camada de suor. “Talvez tenha mais trabalhos, e você prefere não saber.” 

 

“Você sabe que tem um grupo on-line pra cada disciplina, né? Eles mandam tudo por lá.” Enid disse. “Você não entrou em nenhum?”

 

“Não acho necessário. Eu vou às aulas.”

 

“Em todas?”

 

“Sim.”

 

Enid assentiu, sentindo uma pontada de irritação crescer dentro dela. Começava a achar que, afinal, ela também tinha o direito de mentir— sabia que Wednesday não comparecia em todas as aulas. Fingia que ia. “Bom, eu tô nos grupos, então é só esperar e logo vão mandar o que eu perdi.” Ela abriu a mochila jogada ao lado do armário e tirou sua pasta de desenhos. “Se não mandarem, então é só pedir. Simples.”

 

Wednesday fitou as mãos que voltavam a tremelicar. Enid rapidamente as escondeu sob outras folhas que puxou da mochila. Colocou tudo sobre sua cama, respirando fundo, encarando a bagunça à sua frente.

 

 “Você então vai estudar?” Wednesday disse, mais enxerida que o habitual.

 

 “Não… agora não. Eu preciso me distrair com alguma coisa… manual, pra desligar a cabeça.”

 

Wednesday entrelaçou os dedos à frente do corpo. “Podemos dar uma volta.”

 

“Manual, Wednesday.”

 

“Movimento repetitivo. Não exige pensar.” Wednesday deu de ombros. “Ajuda.”

 

“Ah, é?” Enid riu, abrindo a pasta. “E você sugere dar a volta onde, exatamente?”

 

“Pela floresta.” Wednesday sugeriu.

 

“Claro que pela floresta.”

 

 “Ou, pelo campus,” acrescentou Wednesday. Fez uma pausa, “mas isso apenas te deixaria mais tensa.”

 

“Não estou tensa.” 

 

Wednesday relembrou, “você está com dor de cabeça.”

 

“Sim, um pouco,” Enid confirmou. “Mas uma hora passa. Sempre passa.”

 

“O ar fresco ajuda com… dores de cabeça.” Wednesday disse e Enid imediatamente identificou o cinismo. Olhou duramente para ela.

 

“Não, não… eu tô de boa.”

 

“Tem certeza?” Wednesday perguntou e Enid apenas assentiu com a cabeça. “Eu iria com você,” completou. 

 

“Quero ficar aqui,” Enid levantou o olhar para ela, sorrindo, grata, “descansando, pra ver se passa. E você? O que você tava fazendo aí?”

 

“Pesquisando.”

 

“Okay.” Enid voltou para a mochila e pegou o estojo, abriu e retirou as canetas que precisava. Se sentou na cama num suspiro e… Wednesday ainda estava ali, de pé, encarando. Enid sorriu, “quê foi?”

 

“Aquela planta que encontramos naquele dia…” Wednesday começou.

 

“Do… pic-nic?”

 

“Você disse que ia desenhá-la”

 

Enid descansou as costas na parede, esticando as pernas para fora da cama. Havia mesmo prometido um desenho para ela, como presente. Cruzou os braços, tentando conter o sorriso que já escapava. Ela se sentia ainda um pouco eufórica e Wednesday parecia ligeiramente sem graça. “Você quer que eu desenhe ela agora.”

 

“Você prometeu que faria, eventualmente.”

 

“Pode ser,” Enid disse, “mas vai ser no meu estilo de desenho. Nada realista”

“Se eu quisesse algo realista, procuraria por uma foto.” Wednesday respondeu, procurando pelo casaco enquanto calçava rapidamente a bota. Saiu do quarto e, o que pareceu segundos depois, voltou com um vaso nas mãos. “É um Trílio.”

 

Enid pegou-a para si, cuidadosa, como se fosse a coisa mais frágil do mundo. Sorriu para a planta, “onde você tinha deixado ela?”

 

“Com o monitor… ele gosta de cuidar de plantas.”

 

“Você podia deixar ela aqui, na janela. É linda, Weds.”

 

“Ela fede.”

 

Enid finalmente se permitiu a rir. Wednesday estava socializando com outras pessoas e… isso era bom. Infinitamente bom. Com quem mais ela estava interagindo, que Enid não sabia a respeito? O monitor do prédio era um cara um pouco estranho e baixinho, mas suficientemente simpático. 

 

“Okay,” Enid posicionou a planta sobre sua mesa de cabeceira, “me dá uns minutos.” 

 

Desenhar era uma prática recente em sua vida. Não era tão boa, admitia. Dependia da abstração para camuflar a pouca habilidade. Era a forma silenciosa que tinha de se expressar, além de escrever em seu diário. Não sabia escrever contos como sabia Wednesday— esta que, minuto ou outro, a observava de canto de olho. Checando. 

 

Enid se compadecia. Vinha percebendo que, tudo que fazia que era em companhia de Wednesday, qualquer atividade simultânea que praticavam no aconchego deste quarto, qualquer longo passeio que faziam na floresta, no campus… Enid prestava meias-atenções: metade destas no que fazia, as outras, no que Wednesday fazia. Enid desenhava sobre sua cama e lutava para que seu olhar não fugisse para o chão, para ela. Para Wednesday, sentada sobre o tapete, concentrada, mãos raramente recalculando a rota ao que mexia as partituras, as organizando em fileiras sempre tão retas, perfeitamente separadas. Observava como a franja preta caía sobre seus olhos; como seu cabelo tão dificilmente livre das tranças, se mostrava longo e em selvageria sobre seus ombros ao que Wednesday em algum momento desprendeu-os dos elásticos; percebia o suéter largo cobrindo seu corpo esguio; seu ombro a mostra; admirava o franzir de boca; assimilava seu perfume suave; se recordava de que aquela era sua amiga— e era sublime, cheia de segredos, manias e prazeres que apenas Enid conhecia.

 

Wednesday chegava a ser uma obsessão para Enid. 

 

Se perguntou qual seria a reação de Wednesday se ela soubesse—

 

Enid respirou fundo, tentou não tremer.

 

Se soubesse que Yara beijou ela. Que lábios roçaram contra sua bochecha e entre destes escapou uma palavra, um nome. Violenta. Que pairou no ar, até ser pontuada por outra. Suja. E, ah… se soubesse que Enid gostou. Que revivia aquele instante na mente, repetindo-o sem parar, sentindo ainda aquelas duas palavras como se tivessem sido sussurradas segundos atrás, como elas reverberam entre suas pernas—

 

“Você está mentindo.” 




Notes:

Este cap foi quase metade de um gigantesco (15k) que já está todo escrito. Mas eu viajo literalmente amanhã cedo então tentei revisar o máximo de texto possível pra deixar pronto para vocês. Quando eu voltar de viagem, posto o resto.
Desculpem que este não teve muitos eventos uauuu, apenas muitos pensamentos e loucuras internas das duas. O próximo vai estar menos pacato, quero esquentar as coisas porque meu deus, não sou tão crente e paciente assim.
Vi todos os comentários que vocês foram deixando ao longo do tempo e eu ficava aiiii meu deus que dor nao consigo escrever. Essa última temporada péssima também não ajudou, desconsiderem ela nessa história, só algumas coisas vou puxar de lá. Bom, agora foi. Não desistam de mim porque realmente eu volto em breve com o resto.
Bjus, feliz natal, ano novo, e quero saber de vocês #comentarios #opinioes
meu twt/x: @hallwaygift — não é tão interessante assim mas adoro interações e mensagens por lá também ;)

Notes:

Esse é o prólogo, portanto está pequeno. Os outros capítulos estarão maiores, em média com 2500 a 4000 palavras cada. E todo início de capítulo que tiver um asterisco ao lado da letra da música, é pq eu recomendo que leiam o capítulo enquanto escutam a música.

Obrigada pela leitura, essa história martelou tanto minha cabeça :,)

Vou postando aos poucos aqui, no wattpad e no spirit fanfic (todos @leftwiththeriver)
Qualquer comentário é muito bem-vindo.

No próximo capítulo:
Salto temporal de dois meses para o início da rotina universitária. Conversas e nuances no novo dormitório. Enid começa a perceber o estranho comportamento de Wednesday.

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