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Jinnie's Body

Chapter 2: Where's Jinnie?

Notes:

Oie! Demorei um pouco (bastante) pra trazer outro cap, mas eu tenho outras histórias (au no twitter) e mt coisa aconteceu, enfim!! Vou tentar não demorar tanto pra trazer essa fic pq adoro ela!

Me digam o que acharam, isso me ajuda muuuuito <3
Beijos, até a próxima
elle.

Chapter Text

A volta para casa foi um completo borrão. Não tinha noção de como havia entrado no carro e voltado para casa, não sabia se alguém havia o ajudado — o que era totalmente improvável —, mas não conseguia tirar a cena de Hyunjin sozinho naquela Van, rodeado por estranhos. Sentia seu corpo inteiro inquieto, seu coração apertado e uma culpa enorme em seu peito. Era culpa dele, é claro que era. Deveria ter lutado mais pelo amigo, ter sido firme em sua decisão de levá-lo para casa ou então, pelo menos entrar naquele carro com ele e sofrer o que Deus fosse para acontecer. Era um covarde por deixar Hyunjin, sabia disso e se odiava por aquilo. Se Hwang voltasse — isso se estivesse vivo, claro que Felix pensava no pior — iria o odiar para sempre, nunca mais iria olhar na sua cara e no fundo, Lee sabia que era o que merecia. Era um covarde, apenas um merdinha covarde que deixou na mão a pessoa que mais amava. Era patético. 

Andava de um lado pro outro em seu quarto, roendo as unhas em um sinal claro de ansiedade e medo. Não havia tomado banho, não tinha cabeça para isso e então, o cheiro de fumaça e carne queimada ainda se fazia presente em suas narinas. Na verdade, sabia que mesmo com o banho mais demorado do mundo, aquele cheiro não sairia de si por um longo tempo. Estava sozinho, seus pais continuavam no plantão e Jisung já estava em casa, provavelmente dormindo tranquilamente em sua cama, sem sequer imaginar a noite infernal que Felix estava tendo. Não queria acordar o namorado, não mesmo, mas era sua única opção. Bom, ele poderia acionar a polícia e faria isso, depois dele mesmo procurar por Hyunjin, era o mínimo que poderia fazer. 

— Merda, atende! — Lee disse frustrado, tirando o celular do ouvido mais uma vez depois de escutar o som tão conhecido da caixa postal de Jisung. 

Era tarde e Han acordava cedo, seu sono era o mais pesado possível, mas precisava dele. Precisava conversar com alguém e esse alguém era seu namorado. Não sabia o que iria dizer ou o que ele poderia fazer para ajudá-lo, mas precisava de Jisung naquele momento. Discou o número do namorado mais uma vez, ainda andando de um lado pro outro no quarto escuro, sozinho e assustado. Soltou um suspiro de alívio, quase em tom choroso, quando ouviu a voz do amado do outro lado da linha. 

Alô? — O namorado disse sonolento e confuso, Felix tinha certeza que o mesmo estava com os olhinhos quase fechados e um biquinho, uma cena fofa se não estivesse completamente desesperado. 

— Hanji. — Choramingou, sentindo as lágrimas em seus olhos e só naquele momento se permitiu chorar de fato. Estava apavorado. — Hanji, o Jinnie…

Felix?! — Parecia mais acordado naquele momento, mas o sono ainda se fazia presente ali. — O que aconteceu? O que tem o Hyunjin? Ele te largou de novo?! Eu falei que isso ia acontecer, Lix. 

— Não! Não foi nada disso! — Resmungou, fungando forte e as lágrimas continuavam a rolar pelo seu rosto como um rio desgovernado. — Eu deixei ele, Hanji! Eu que deixei ele, ele precisava de mim e eu deixei ele. 

Felix soluçava enquanto com a mão livre puxava os fios descoloridos, na esperança que a dor física fosse maior que a dor sentimental, sem sucesso. O loiro escutou um barulho do outro lado da linha, como se Jisung estivesse se ajeitando na cama, soltando alguns suspiros. 

 — Lix, como assim?  

— Eu deixei ele, Jisung! Eu deixei ele ir com aqueles caras estranhos e agora eu não sei onde ele tá! 

Calma, calma! Me explica direito isso, Lix. O que aconteceu?! 

Felix respirou fundo, tentando se acalmar, algo que parecia impossível naquele momento. Como poderia? Hyunjin estava desaparecido e por sua culpa ainda por cima. 

— A gente foi naquela merda de bar, certo?! Um lugar podre Hanji, mas o Jinnie parecia tão feliz ali e eu não consegui dizer nada, não queria ser um estraga prazeres pra ele. E bom, tava tudo bem, até a porra daquela banda chegar. — Disse entre dentes, a lembrança o deixava puto. — E sei lá, o Hyunjin ficou encantado com eles, por serem da capital. 

Hm… — Jisung não parecia surpreso, como se fosse algo normal, como se estivesse acostumado com tal comportamento. — Certo, e o que tem demais nisso, Lix? 

— Eles só queriam ele por acharem que ele fosse virgem, Hanji! — Felix exclamou e Jisung soltou uma risadinha, mas logo cobriu aquele ato com uma tosse. Felix resolveu ignorar, não tinha tempo pra isso. — Uns nojentos, Hanji, completamente nojentos. E eu tentei avisar o Jinnie, eu falei, mas ele não me escuta nunca! E daí, o bar começou a pegar fogo, eu não sei, foi do nada e todo mundo ficou desesperado…

O que?! Pegar fogo?! — Jisung interrompeu o namorado e pelo barulho que Felix estava ouvindo, era como se o mesmo estivesse dando um pulo de sua cama. — Você tá bem?! Você se machucou?! Meu Deus, Felix, isso é grave!  

— Me escuta! Isso não é importante! 

Oi?! Como não é importante?! 

— Foi uma situação horrível, mas a gente conseguiu sair de lá. A gente não se machucou nisso, mas o Jinnie parecia em choque, eu não sei dizer o que aconteceu. 

Onde você tá, Felix? 

— Hanji, me escuta! Eles levaram o Jinnie, eu não sei pra onde, mas eles levaram e eu deixei isso acontecer! 

Eles quem, Lix? 

— A banda! Aquele… — Respirou fundo, frustrado. — vocalista de merda. Ele viu a gente e levou o Jinnie. 

Como?! 

— E-ele colocou o Jinnie naquele carro, no meio daqueles caras e eu vi Hanji, eu vi como o Jinnie tava assustado, como ele pedia minha ajuda, mas eu não fiz nada. 

Ele pegou o Hyunjin à força?! Felix, ele fez algo com você?! Onde você tá?! 

— Em casa, eu to em casa. Ele não fez nada comigo, mas ele levou o Hyunjin pra longe! Eu preciso ir atrás dele, Hanji.

Amor, não. Calma, vamos pensar com calma, tá bom? Como isso aconteceu? 

— Ele chamou o Jinnie pra Van, me chamou também, mas eu não fui. Mas o Jinnie foi, ele me chamou e eu deixei ele sozinho! 

Ele entrou por vontade própria? 

— Não existe vontade própria, Jisung! Ele tava em choque, ele não tava pensando direito! A culpa foi minha! 

Ei, ei, ei… A culpa não foi sua, ok? O cara se aproveitou da situação, do Hyunjin, do fogo… Não foi culpa sua. 

— Eu devia ter sido mais duro, e-eu…

Lixie, você também devia tá em choque. Quer dizer, um incêndio é algo grave, sim? Você não tava pensando direito e era um cara estranho, você ficou com medo. 

— Não justifica, Jisung! Eu deixei meu melhor amigo sozinho! Eu não sei nem se ele tá vivo nesse ponto! — Voltou a soluçar, desesperado. A culpa ia crescendo cada vez mais em seu peito, o pavor de pensar em nunca mais ver Hyunjin era real e doloroso demais. — Eu preciso ir atrás dele, eu não sei. Pegar o carro e rodar pela cidade, não sei. 

O que?! Claro que não, Felix! É perigoso, olha a hora que é! 

— E eu vou ficar em casa sentado?! Esperando pelo corpo dele? 

Jisung soltou um suspiro, entendia o namorado, é claro que entendia e se preocupava com Hyunjin, mas sabia que não tinha nada para ser feito naquele momento, ainda mais por Felix. 

Olha, eu sei que é frustrante, mas não adianta sair agora, Lix. Você não sabe onde ele tá, se ele sequer tá na cidade ainda. E você sabe que a polícia não pode fazer nada até 24 horas depois. E bom, até onde a gente sabe, o Hyunjin entrou por conta naquele carro. 

Por conta?! Será que Jisung não ouvia nada que Felix falava? Se aproveitaram da vulnerabilidade de Hyunjin no momento e Lee havia deixado acontecer. Estava com medo, mas sabia que Hwang deveria estar muito mais assustado, ele apenas escondia melhor que o loiro, mas Felix sabia que estava tão apavorado quanto ele. 

— Ji, eu não posso deixar ele sozinho. — Sussurrou, completamente exausto. Já estava sozinho, mas iria se agarrar nas pequenas coisas. — E se… se ele não estiver mais vivo? Eu nunca vou me perdoar. 

Lix, vamos com calma, tá? Você disse que a banda era da cidade, talvez eles estejam em algum hotel perto do bar? E se aconteceu um incêndio, a polícia vai ser envolvida e os caras vão ser interrogados. — Jisung tentava se manter o mais calmo possível, mas o choro alto e quebrado de seu namorado não ajudava. 

— Mas até lá muita coisa pode acontecer! E se eles voltaram pra cidade? Com o Hyunjin, Hanji! — Tentava dizer entres soluços, esfregando os olhos com a mão livre com força. Estava cansado, mas sua mente não parava nem por um segundo. 

Amor, eu não acho que algo tenha acontecido com o Hyunjin. Eles parecem ser caras estranhos, mas às vezes são só isso, caras estranhos. — Suspirou, conhecia o amigo que tinha, se é que naquele ponto poderia o chamar de tal título. 

— Hanji, eu vi e eu escutei eles. Eles não são boas pessoas e com certeza não estão sendo boas pessoas com o Jinnie agora e é por isso que eu preciso… — Felix pausou no momento que escutou um barulho alto vindo de sua cozinha. 

Lix? — A voz de Jisung soou aflita, como se também tivesse escutado aquele tal barulho. 

Felix continuava sozinho em casa, apesar de ser tarde da noite, seus pais só chegariam pela manhã, então a chance de serem eles era extremamente baixa. Seus vizinhos? Não fazia sentido, uma vez que com certeza já estavam dormindo e caso precisassem de algo, usariam a campainha. Antes que pudesse fazer qualquer coisa, escutou novamente aquele barulho e daquela vez ainda mais alto, como se estivessem batendo nas paredes. Era completamente estranho e assustador. Felix queria dizer que era apenas sua imaginação pregando uma peça em sua mente, que era o cansaço e por isso, estava ouvindo coisas pela noite traumática que teve, mas a voz assustada de Jisung dizia o contrário. 

Amor? Ei, me responde . — Falava rápido, nervoso e sequer sabia o porquê daquilo. — Tá tudo bem?  

— Não sei. — Sussurrou com medo de que se falasse mais alto a possível pessoa que estava ali iria escutá-lo. — Eu to ouvindo alguma coisa. 

Que coisa? Você trancou as portas quando chegou? 

Trancar as portas era um hábito que Lee certamente não tinha. Morava em um bairro tranquilo, conhecia todos por ali e bom, cidades pequenas não costumam ter grandes tragédias. Era um lugar seguro e em grande parte das noites, quando seus pais não estavam ali, Jisung sempre o fez companhia, mas não era como se não estivesse acostumado a ficar sozinho, não tinha medo. Mas, dada sua situação, naquele momento, estava completamente apavorado. Desejava desesperadamente que Han estivesse ali com ele. 

— Não, eu acho que não. — Respondeu fraco, sentindo suas pernas cada vez mais moles. 

Lix, a gente já conversou sobre isso. — Jisung não queria dar um sermão numa hora como aquela, claro que não, mas era um assunto tão recorrente que esperava que o namorado prestasse um pouco mais de atenção.

— Será que me seguiram até aqui? — Murmurou engolindo em seco, olhando para a porta de seu quarto como se fosse seu pior inimigo. 

Os caras da banda? Eles não saíram antes de você, Lix? 

— Sim, mas… e se eles me esperaram numa esquina e me seguiram? Eles podem ter matado o Hyunjin e voltado pra me matar, eu sou uma testemunha! — Falou rápido, afoito e mais uma vez, o mesmo barulho se fez presente. — Hanji!

Ei amor, calma! Não acho que seja o caso, ok? Deve ser o vento ou algum animal que tenha ficado assustado pelo fogo e saiu por ai. 

— Eu vou ver. — Parecia decidido, respirando fundo. 

Oi?! 

— Fica comigo no telefone, tá? Se eu gritar você chama a polícia. — Tentou dizer o mais calmo que conseguia, mas na verdade estava tremendo de medo. 

Felix não era bom em confrontos, paralisava como uma criança assustada, então sabia o que iria fazer caso fosse um intruso. Rezava firmemente — apesar de não acreditar em Deus — para que fosse de fato só algum animal assustado procurando abrigo. 

Lix, eu não acho isso uma boa ideia. E se eu for praí? Eu olho a casa e fico com você. — A voz de Jisung era suave, tom manso que sempre usava para convencer Felix de algo. 

Era uma proposta tentadora e por um segundo, o loiro até pensou em aceitar, mas não era justo trazer Jisung para aquela bagunça, mesmo que o menino já estivesse mais do que envolvido. 

— Não, Hanji. Eu já to descendo de qualquer forma. — Sussurrou o mais baixo que conseguiu, tentando dar forma aos borrões que via em seu caminho. 

Sua casa estava toda apagada, apenas com a iluminação da rua e da lâmpada que ficava do lado de fora da casa, iluminando a porta traseira. Não era um breu total, o que Felix agradecia mentalmente, mas também não conseguia enxergar 100% com nitidez. E além de tudo, o medo o cegava. Lee descia as escadas com cuidado, apertando o celular contra a orelha e a palma da mão com força, escutando Jisung falar alguma coisa que não se importava no momento. Sentia suas mãos suando pelo nervoso e sua garganta fechando a cada passo, mas tudo parecia bem. O barulho, por sua vez, parecia ter cessado de uma vez. Sua cozinha parecia igual à  quando chegou, sua porta não parecia arrombada e não parecia que ninguém estava ali além do loiro. Talvez fosse algo de sua cabeça. 

— Eu… eu acho que não era nada. Acho que… que imaginei isso, sabe, pelo nervoso. — Soltou uma risada nervosa, coçando a nuca e olhando em volta. 

Mas… — Jisung parecia querer falar algo, respirando forte. — Eu escutei também, Lix. — Não queria assustar o namorado, longe disso, mas estava preocupado. 

— Talvez fosse algo na rua? — Uma pergunta que talvez não fosse de fato uma pergunta, mas estava exausto. — Acho que não foi… — Pausou quando sentiu uma mão suave em seu ombro, o que foi o suficiente para que o loiro desse um pulo e um grito agudo, se virando rapidamente em direção do toque. 

Felix?! Ei, o que foi?! O que é?! Eu vou até aí, ok? Me espera! — Han disse rápido demais e Felix ouviu vagamente o barulho dos lençóis sendo jogados longe. 

— Puta merda… — Estava com os olhos arregalados, nervoso, assustado e com o coração na boca. — Hyunjin?! 

Lix?! Como assim, Hyunjin? — Jisung não parecia mais calmo, apesar da voz suave. 

— Han, eu te ligo depois, ok? É o Jinnie, tá tudo bem. Te ligo depois, te amo. — Falou rápido, já tirando o celular do ouvido, ainda com os olhos presos no garoto em sua frente e pôde escutar Jisung chamar seu nome antes de de fato desligar aquela ligação. 

E lá estava Hyunjin, bem no meio de sua cozinha, com um sorriso sinistro no rosto. Sua aparência era a pior de todas, suas roupas estavam todas rasgadas, sujas de lama e algumas folhas e para piorar tudo, estava coberto de sangue. Muito sangue. Seu rosto estava machucado, seu nariz sangrava sem parar e em sua boca havia um corte, sangue por todo o lado. Pequenos roxos já se formavam em seus joelhos e rosto, ensanguentados também. Era uma cena de filme de terror e Felix sequer sabia dizer se todo aquele sangue era de Hyunjin ou de um terceiro. O moreno continuava parado em sua frente, com aquele sorriso macabro, dentes sujos de sangue e o olhar parado, como se estivesse fora de si. Aquele não era Hyunjin, Felix recusava a acreditar no que estava vendo. 

O loiro sentiu as lágrimas se acumulando em seus olhos, implorando para rolarem livremente por seu rosto. Não sabia o que havia acontecido, mas sabia que era culpa sua. Hyunjin estava naquele estado porque Felix havia o deixado sozinho naquela noite, porque era um covarde e não sabia proteger quem amava. A culpa tomava conta de seu peito mais uma vez e teve uma vontade enorme de gritar, mas não era justo. O que era o sofrimento de Felix perto de Hyunjin? Céus, o mais velho estava acabado. Não sabia se existiam outros ferimentos pelo seu corpo, mas dada a quantidade de sangue, não duvidava nenhum pouco. 

— Jinnie, o que houve com você? — Sua voz saiu trêmula, assustado como sempre, se aproximando de Hyunjin em passos lentos. — O que eles fizeram, Jinnie? 

Estendeu a mão para o melhor amigo, que continuava na mesma posição e Felix tomou a liberdade de tocá-lo. Segurou sua mão e estava gelado, Deus, estava tão gelado que Lee até pensou que estivesse morto. Suas unhas estavam sujas, debaixo delas como se tivesse lutado contra o seu agressor. Era uma mistura de lama com sangue e naquele ponto Felix não fez questão alguma de esconder o choro pesado, um misto de alívio por ter o amigo ali e de culpa, porque se estivessem juntos, talvez nada daquilo estivesse acontecendo. Se jogou nos braços do maior, o abraçando com toda a força que tinha, mas mesmo assim não foi retribuído. O abraçava como se sua vida dependesse daquilo e mesmo com as roupas que usava, o sentia gelado. Seu casaco antes branco como a neve não era nada mais que um simples acessório em seu corpo, não fazia o seu papel de esquentá-lo. Felix conseguia sentir o cheiro do sangue misturado com a fumaça de mais cedo, um pouco de álcool barato e algo que não conseguia identificar, mas não era bom e aquilo enjoava, tendo uma leve ânsia. Era quase que um cheiro de morte, mas não queria pensar nisso. Hyunjin estava ali, com ele e a salvo. Mas será que estava mesmo? Será que estava a salvo? Felix estava a salvo? 

Em um movimento rápido, Hyunjin empurrou Felix com força contra a parede, o que o fez soltar um grunhido de dor pelo impacto, mas não teve tempo de pensar em mais nada uma vez que logo em seguida Hwang estava em seu espaço pessoal mais uma vez. Ele com uma mão segurava o seu quadril com força, como se não quisesse que o loiro saísse dali e com a outra, traçava algumas linhas delicadas por sua barriga, subindo pelos seus braços, peito até chegar em seu rosto, onde o segurou com firmeza pela mandíbula. A respiração de Lee estava descompensada, aflito com toda aquela situação, Hyunjin não falava nada, apenas mantinha seus olhos nele, mas já não eram os mesmos. Não tinham o brilho de sempre, não tinham o amor que Hwang carregava por Felix. Eram opacos, frios, sem vida. Não era Hyunjin ali. O moreno se aproximou mais um pouco do menor, virando sua cabeça brutalmente para a direita e Felix pôde sentir a respiração pesada e gelada do maior contra o seu pescoço. 

Hwang passou a pontinha de seu nariz naquela região, respirando fundo, como se quisesse sentir o cheiro de Felix, desesperado por aquilo. O loiro, por sua vez, escutou um grunhido quase não humano vindo do fundo do peito de Hyunjin, um som sofrido e esganiçado, o que o fez paralisar. O moreno se aproximou mais e daquela vez passou sua língua da clavícula bem marcada de Felix até o lóbulo de sua orelha, mordiscando o suficiente para machucá-lo. Apesar de ser uma pessoa completamente atirada, Hyunjin nunca havia passado de qualquer limite com Lee e naquele momento, estava passando de todos, mas não parecia algo comum, não parecia algo carnal. Parecia ser algo muito mais profundo, um instinto, um predador atrás de sua presa e aquilo assustava. 

— O que aconteceu, Jinnie? Fala comigo. — Felix tentou mais uma vez, a voz completamente trêmula e imóvel. Não iria se mexer nem se quisesse. 

Hyunjin soltou outro grunhido, pressionando ainda mais Lee contra a parede e seu corpo, afundando seu rosto completamente na curva de seu pescoço. Suas mãos estavam em sua cintura, o segurando com tanta força que Felix sabia que no final de tudo isso teria dois grandes roxos por ali. Hwang continuava mordiscando aquele local, como se testasse seus limites, até encontrar o cordão tão conhecido no pescoço de Felix. 

Ambos desde sempre foram grudados e em algum ponto de sua amizade, Hyunjin insistiu que eles deveriam ter algum símbolo daquela união e por isso, quando os dois tinham apenas 16 anos, Hwang presentou Lee com um par de anéis. Dizia pra todo o canto que eram anéis de casal, apesar de Felix nunca levar a sério, dado que Hyunjin aparecia toda semana com algum casinho novo, e mesmo assim usava com muito orgulho. Não o tirava para nada, era quase que sua religião, mesmo que diversas vezes já tivesse visto Hyunjin sem. Isso tudo até Jisung. Não achava justo usar aqueles anéis enquanto namorava, não era confortável, ainda mais com Hyunjin sempre fazendo questão de dizer que eram sim anéis de casal. Mas Lee também não achava justo simplesmente parar de usá-los, eram um presente do moreno e os amava mais que tudo, então sua solução foi usá-los em um cordão. Hyunjin, é claro, fez o maior show quando descobriu, mas de nada adiantou e no fim, era melhor tê-los em um cordão do que não os ter nunca mais. Hyunjin ainda tinha sua posse sobre Felix de alguma forma. Aquele era o símbolo mais puro do relacionamento dos dois, uma promessa de que nunca iriam se separar e nunca iriam se machucar. Uma promessa do amor entre eles. 

Hwang se afastou rapidamente, como se tivesse levado um choque e sem olhar para o loiro, se virou em direção da geladeira, a abrindo sem educação alguma. Não precisava, era de casa, mas aquilo era um ato quase que animalesco. Revirava tudo que tinha lá dentro, jogando as coisas no chão à medida que procurava e se agachando para ver melhor. Felix piscou algumas vezes, engolindo seco e de uma maneira estranha, decepcionado pelo afastamento tão repentino do amigo. Não estava entendendo nada, continuava com medo e preocupado com Hyunjin, aquele comportamento não era normal, mas ele estava ali. Talvez estivesse em choque com tudo, pessoas tinham atitudes estranhas às vezes, então estava tentando não surtar. 

— É, você pode pegar algo na geladeira, tá de boa. — Tentou brincar, mas Hyunjin não parecia estar escutando, ainda revirando cada parte daquele eletrodoméstico. — Quer ajuda? 

Felix tentou se aproximar mais um pouco, mas logo Hwang achou um frango assado ali, o pegando com pressa e o abrindo da maneira mais desesperada e desajeitada possível, com os olhos arregalados e salivando.

— Minha mãe ia levar isso pra igreja amanhã, mas eu acho que você pode pegar um pe... — Felix parou no momento que Hyunjin começou a destroçar o frango, completamente desesperado, enfiando tudo na boca de uma vez só e quase não mastigando. Era como se tivesse ficado anos sem comer. — Ou ele inteiro, tudo bem. 

Aquela cena continuou por alguns segundos, até Hyunjin parar por completo, congelado. Estava agachado, de pernas abertas e com os mesmos olhos perdidos de antes. Era uma cena assustadora. 

— Jinnie… 

Lee tentou, mas logo foi interrompido por Hwang, que se virou em sua direção e deu um grito agudo, ensurdecedor e esganiçado, como uma animal encurralado, machucado. Felix deu um pulo para trás pelo susto e em seguida, com um solavanco forte, o moreno vomitou por todo o chão. Era uma substância gosmenta, preta e com alguns espinhos que se mexiam. Vomitou em duas goladas, caindo de joelhos e algumas lágrimas escorriam por seus olhos, respirando com dificuldade. 

Lee, daquela vez, se mantinha imóvel. Observava toda a vez sentado no chão, corpo travado e apoiado pelas mãos. Seus olhos arregalados e boca entreaberta não ajudava, estava completamente apavorado. Já havia lidado com Hyunjin doente várias vezes, não era um problema, mas aquilo era outra coisa. O cheiro de podridão tomou conta do lugar, fazendo Felix ter duas ânsias de vômito, mas por um milagre nada saiu. O que estava acontecendo? O que haviam feito com Jinnie? Aquela noite não parava de ser estranha e cada vez que pensava nisso, sentia seu coração doer. A culpa era dele. 

— Hyunjin… — Tentou mais uma vez, mas o moreno foi mais rápido, se levantando em um pulo e saindo da casa de Felix correndo. 

O loiro até tentou o acompanhar, mas Hyunjin era rápido demais e suas pernas estavam moles, completamente em choque com tudo que havia presenciado. 

— Hyunjin! — Gritou assim que saiu em sua varanda, mas como um passe de mágica, o garoto não estava mais ali. Apenas a noite fria, escura e cheia de neblina. 

Voltou para sua casa, derrotado e daquela vez, trancando a porta. Encarou sua cozinha completamente destruída, o rastro de sangue junto com aquela gosma preta por todo o lado. Naquele ponto, não existia mais espinho algum, apenas aquele líquido nojento e o cheiro de morte que parecia acompanhar Hyunjin. Sua geladeira era uma bagunça, todos os alimentos e produtos jogados no chão. Queria correr dali, se esconder debaixo de suas cobertas e esquecer aquela noite. Queria que tudo fosse um sonho, ou melhor, um pesadelo. Queria seu melhor amigo de volta, queria Jinnie ali com ele, rindo de sua cara e dizendo que tudo não passava de uma brincadeira de mal gosto, mas o tempo passava e a única coisa que ficava eram as lembranças tão vivas quanto antes. 

Passou então o restante da noite limpando toda aquela sujeira, aos prantos, soluçando alto enquanto esfregava o chão que não parecia adiantar de nada. O cheiro ruim já estava impregnado em suas narinas, se misturando com o cheiro do incêndio de mais cedo e o sangue. Estava quebrado. Estava confuso. Estava com medo.

E pior ainda, estava sozinho. 



[...]

Dizer que havia passado a noite em claro deveria ser a coisa mais óbvia naquele momento. As grandes olheiras roxas e bem marcadas debaixo dos olhos de Felix não mentiam, olhos que pareciam cansados, assustados, tristes. Aquela manhã não era como as outras, o luto se fazia presente pela cidade inteira e pelas pessoas que haviam perdido seus entes queridos. A notícia do incêndio logo se espalhou, Lee não esperava menos, uma tragédia como aquela não passaria despercebida, ainda mais numa cidade tão calma. Nada acontecia ali, nada de especial ou até mesmo as coisas mais normais do mundo, estavam presos em um looping infinito de tédio e rotina, nada acontecia ali. 

Então, ter centenas de repórteres, policiais e bombeiros era algo inédito. Parecia um grande circo, se Felix fosse honesto. Sabia que ninguém se importava realmente, só as pessoas que estavam no momento ou aqueles que perderam alguém, mas de resto, ninguém se importava, mas as manchetes e falsa empatia online era o que contava, certo? Felix se perguntava se um dia esqueceria daquilo e por mais que já soubesse de sua resposta, gostava de se enganar e fingir que sim, claro que esqueceria. Mas ele esqueceria a cena de Hyunjin? Afinal, onde estava Hyunjin? 

Depois de todo o fiasco em sua casa e dezenas de ligações perdidas para o melhor amigo, Felix não teve mais nenhuma notícia do moreno. Pensou em ir até sua casa, mas não queria alertar seus pais, até porque, em teoria, Hyunjin estava bem e vivo. Jisung não demorou para aparecer na casa de Felix mesma noite, pouco tempo depois de Hwang fugir dali e pegar Felix sozinho aos prantos limpando sua cozinha. Não comentaram sobre, Lee não conseguia e Han certamente não forçaria o namorado a  falar nada naquele momento, apenas terminou de o ajudar e lhe deu um banho demorado, dando todo o apoio e carinho que o loiro certamente precisava. 

Jisung com ajuda dos pais de Lee, tentou convencer Felix a ficar em casa naquela manhã, estava virado e certamente traumatizado, precisava descansar, mas o loiro se recusava. Ficar naquela casa, mesmo que acompanhado, era o mesmo que lembrar do terror que foi ver Hyunjin naquele estado e não poder fazer nada. Ainda sentia o cheiro amargo e pesado da noite anterior, conseguia até sentir seu gosto, então precisava sair dali. Esperava que sua faculdade estivesse no pior clima possível, com pessoas chorando pelos corredores e fotos dos alunos que infelizmente não conseguiram sair daquele pesadelo, com flores e homenagens, mas era melhor que sua própria casa. Era mórbido? Talvez, mas não se importava.

Caminhava pelos corredores enormes completamente perdido, acompanhado de Jisung que o olhava preocupado. Seu namorado até carregava sua mochila — algo que Felix odiava, se sentia completamente incapaz, mas que naquele momento não se importava nem um pouco. Haviam conversado durante a noite, quando Felix não conseguia pregar os olhos, mas Han não parecia acreditar. O mais velho o olhava como se ele estivesse louco, com pena e com certeza achava que Felix estava em choque, mas Lee sabia o que havia visto. Sabia o que havia passado. Era real e mesmo assim, não havia uma notícia sequer de Hyunjin. Jisung diante a isso não sabia o que dizer, como dizer. Deveria confortá-lo? Perguntar detalhes? Falavam apenas o básico durante aquela manhã, isso quando Felix o respondia, então Han estava perdido. 

— Amor? — Jisung disse doce, tentando chamar atenção de Felix, que continuava andando sem uma direção ao certo. — Ei, amor… — Tocou seu braço de leve, o que o fez dar um pulo e parar de andar na hora, os olhos arregalados e parecia assustado. — Desculpa…

— Não, tá tudo bem. Eu só não prestei atenção. — Deu uma risada sem graça, engolindo em seco. Odiava aquela sensação, odiava não dar atenção para seu namorado, mas sua cabeça só se passava Hwang. — O que foi? 

— Você tem certeza que não quer comer algo? Você tá desde ontem sem comer, não acho que isso vá te ajudar. — Falou preocupado com o loiro, seu coração pesado de vê-lo daquela maneira. 

— Não, eu to bem. 

— Então bebe uma água pelo menos, nem que seja um gole. — Insistiu, não porque queria forçá-lo, mas porque estava preocupado. 

— Não precisa, eu já disse que to bem. — Disse curto e grosso, não tinha necessidade, mas estava irritado. 

Felix sabia que não deveria, que Jisung só queria ajudá-lo da melhor forma, mas ele não acreditava em Felix, claro que não. Como poderia? Hwang agindo feito um animal, no meio da noite? E além de tudo, porque ele iria para Felix se ele estivesse machucado daquela forma? Não fazia sentido, mas Jisung não dizia, mas não precisava. Felix conhecia cada olhar do outro, cada expressão e sabia que Jisung não comprava uma palavra sequer, só era gentil demais para dizer. 

 — Olha, eu sei que você tá preocupado e com medo, mas você tem que se cuidar. Você passou a noite toda naquela cozinha e… 

— E? — Parou mais uma vez de andar, assustando Han que deu um pulo pequeno pra trás, engolindo seco. — Eu sei que você não acredita em mim, então não precisa fingir, Jisung. 

— Eu acredito! É claro que acredito, é só que… — Mordeu o lábio inferior, tentando achar as palavras certas. — Talvez não seja exatamente isso…

— Eu sei o que eu vi! Eu não to maluco! 

— Não disse que você tá, mas você acabou de passar por um evento traumático, seu cérebro pode tá criando situações bizarras. 

— Porque eu ia inventar que o Hyunjin estava na minha casa todo fodido, iria revirar minha geladeira, acabar com o frango que minha mãe leva pra igreja e como se não bastasse, vomitar uma merda preta por toda minha cozinha? — Falou tudo de uma vez, mais uma vez completamente irritado. — Isso não existe, eu sei o que eu vi. 

— Lix, o que eu to dizendo é que pode ser que não seja verdade. Mas isso não é culpa sua, essas coisas acontecem, sim? — Realmente ao ponto de vista de Jisung era complicado acreditar naquilo. 

— Então tudo não passou da minha imaginação? Toda aquela bagunça que você viu é mentira?! 

— Não, é só…talvez tenha sido você? — Não era pra ser uma pergunta, mas soou como uma e Han queria se bater por isso. 

Felix apenas revirou os olhos, pegando sua mochila das mãos do namorado com mais força que o necessário e se virou para sair dali, andando em passos largos até a sala que teria aula naquele horário. Sabia que não era a coisa mais comum do mundo, sabia que era uma história estranha, mas era verdade e esperava que Jisung ao menos fingisse melhor. 

— Felix! — Jisung gritou, mas não fez menção de sair do lugar. Queria confortar o namorado, mas não queria irritá-lo ainda mais. 

— Te vejo depois. — Disse no mesmo tom, virando rapidamente para olhá-lo pela última vez, se virando mais uma vez e continuando seu caminho, antes de murmurar o baixo que conseguiu. — Cuzão. 

Chegou na classe mais rápido do que queria, mas já estava ali e Deus, como se arrependia. Seus colegas estavam todos de cabeça baixa e chorando baixo, mas não era pra menos. Havia sido parado algumas vezes, recebendo abraços e palavras de carinho de pessoas que sequer conhecia e nem imaginava de como sabiam que ele estava naquele bar, mas resolveu não perguntar, apenas concordar com a cabeça e sair daquela situação o mais rápido possível. Se sentou no seu lugar de costume, olhando o lugar vazio que normalmente seria de Hyunjin e sentiu seu coração pesar. Onde estava Hyunjin? Será que estava bem? Queria seu amigo ao seu lado. Sem pensar, pegou o celular e procurou pelo contato de Hwang, mandando algumas mensagens novamente e mais uma vez sem sucesso. Ligou mais algumas vezes e como esperado, caixa postal. Estava desesperado. No meio de tudo, sequer notou a presença ao seu lado, jogando a mochila sem se importar no chão e se sentando ao lado de Felix com um suspiro pesado, o que o fez dar um pulo de sua cadeira e logo voltar atenção para aquele assento. 

— Porra, você tá horrível, Lixie. — Disse enojado, o olhando de cima a baixo. 

E lá estava Hyunjin, sã e salvo, como se nada tivesse acontecido. Suas roupas estavam impecáveis, seus cabelos sedosos e seu rosto intacto. Sem nenhum corte, machucado ou sangue como na noite anterior. Seu perfume era o mesmo de sempre, uma mistura de rosas com algo amadeirado, um aroma que Felix era completamente apaixonado. Lá estava Hyunjin, seu Hyunjin, bem e com um sorriso adorável no rosto. Felix o olhava de boca aberta, assustado e com os olhos arregalados cheios de lágrimas. 

— O que foi? Parece que nunca me viu na vida. — Soltou uma risadinha, dando um tapa fraco no ombro do amigo. 

— V-vo-ocê tá vi-ivo… — Gaguejou, ainda de olhos arregalados. Bom, Felix sabia que Hyunjin estava vivo, havia o visto ontem. — E sem machucado… cadê seus machucados?! — Segurou o moreno pelos ombros, passando seus olhos por todo o corpo do amigo, ou então, o que conseguia ver. 

— É claro que eu to vivo, você tem uma tendência de exagerar. — Soltou uma risadinha, feliz com toda aquela atenção, mesmo que seu amigo estivesse claramente nervoso. — Do que você tá falando, Lixie? Eu nunca me machuquei. E não precisa me olhar assim, se você pedir com carinho você sabe que eu te mostro o que você quiser. 

Hwang parecia se divertir com tudo aquilo, seu sorriso estampado enorme em seu rosto e os olhinhos pequenos, felizes de estar ao lado de Felix. Era como se não estivesse naquele bar na noite passada, como se não tivesse ido até sua casa todo ensanguentado depois de horas desaparecido. Era como se tudo estivesse normal. 

— Ontem… ontem você foi em casa, todo machucado. As suas roupas cheias de sangue, você cheio de sangue. — Disse baixinho, entre dentes, mas Hyunjin continuava com a mesma expressão. — O que aconteceu?! 

— Eu não faço ideia do que você tá falando, honestamente. — Parecia entediado, com um biquinho nos lábios. 

— Que porra é essa então?! — Levantou as mãos na altura do rosto de Hwang, mostrando as unhas sujas por toda a limpeza que teve que fazer na noite anterior. 

— Uma manicure muito mal feita. Que coisa tenebrosa, Felix. — Resmungou dando um tapa nas mãos do loiro para que ele as afastasse de seu rosto. — Te levo em algum salão, tá? 

— Isso é vomito seu. Seu, Hyunjin! Você foi até a minha casa, acabou com a minha geladeira e vomitou uma porra preta por toda a minha cozinha e foi embora! Você sumiu, sabe quantas vezes eu te liguei?! Eu tava preocupado pra porra com você, caralho! 

— Primeiro; nojento. — Apontou um dedo no rosto do melhor amigo, com uma expressão de completo nojo. —  Segundo; você tá alucinando, Felix. Deve ter sido a fumaça ou algo do tipo, sei lá, choque. Essas coisas mexem com a cabeça e você sempre foi meio fraquinho, né? 

— Eu sei o que eu vi, eu não alucinei! Você tava na minha casa ontem, completamente estranho e depois você sumiu! De novo! — Esbravejou, com os punhos cerrados e Hyunjin conteve a vontade de rir. Feix ficava adorável com raiva. — Pessoas morreram, Hyunjin. Isso é sério.

— Alguém que a gente conhecia? — Disse curto, simples e Felix não acreditou nem por um segundo no que estava ouvindo.

— Você só pode ta fodendo comigo. 

— Não, mas se você quiser… — Olhou nos olhos do amigo, dando um sorriso sacana. 

— A gente conhecia todo mundo. — Rebateu, completamente incrédulo. 

— Bom… azar o deles. — Disse simples. 

Na cabeça de Felix não fazia sentido a maneira que Hyunjin estava agindo. Escaparam de um incêndio por muito pouco, onde várias pessoas haviam morrido, muitos conhecidos dos dois, a cidade inteira em luto pela tragédia e fora a banda que fez só Deus sabe o que com o moreno e mesmo assim, Hwang agia como se fosse um dia normal em sua vida. Estava animado, alegre, esbanjando sorrisos e fazendo piadas. Não era pra ser normal, não era pra ele estar assim. Sabia que o mais velho não se importava tanto com as coisas ao seu redor, que vivia no seu próprio mundo de fantasias e desejos, mas aquilo era demais. Não se preocupava com Felix? Não se importava com as centenas de mortos? Amigos? Não o reconhecia. 

— O que aconteceu com você? O que que você tem? — Felix disse meio embasbacado, confuso, completamente triste. 

— O que que você tem? Além dessa sua cara de sem graça, hein?! — Disse sério, quase que puto com o loiro. 

— Fala comigo, Jinnie… — Não se importava com a maneira que Hwang o tratava, queria saber a verdade apenas.

Felix disse de forma suave e Hyunjin se virou pra responder, pela primeira vez naquela manhã com uma expressão séria, mas com olhos suaves, como se estivesse arrependido, assustado, da mesma forma da noite anterior. Como se pedisse ajuda do amigo, um pedido silencioso, mas que Felix reconheceria em qualquer situação, mas antes que Hwang pudesse respondê-lo, seu professor adentrou a sala, cabisbaixo, chamando atenção do resto da sala. Um silêncio se instalou ali, o clima pesado e sombrio se fazendo ainda mais presente. Não tinham o que falar, estavam abalados, desacreditados. Como seria diferente? 

— Bom dia, pessoal… Quer dizer, se é que se pode dizer que é um bom dia. — Senhor Park soltou um suspiro pesado, se apoiando na mesa que tinha ali. — Esse é um dia muito triste para nós e acreditem, eu já passei por situações bem feias… Vocês já devem saber da tragédia de ontem, onde alguns de nossos alunos, amigos, se foram. Inclusive Donghae, o calouro de transferência. Que Deus o tenha. 

Hyunjin se ajeitou na cadeira, mais uma vez revirando os olhos e segurando a vontade imensa de rir naquele momento, Deus, era patético. Em sua visão, nada poderia ser feito, já estavam mortos de qualquer forma. Felix o observava de canto de olho, engolindo em seco de tempo em tempo. Alguns alunos choravam baixinho, sendo consolados pelos colegas ao seus lados. Era uma cena deprimente. 

— Ai, fala sério… — Hwang resmungou baixinho ao pé do ouvido de Felix, que sequer havia se dado conta da proximidade do maior. 

Sua voz era cansada e logo deitou sua cabeça no ombro do loiro, se aconchegando ao seu lado. Não estava triste e sequer ligava para mostrar aquele sentimento, mas queria estar perto de Felix. Sabia que o menor estava preocupado, claro que sabia, então iria mostrar que estava tudo bem. Mesmo que não estivesse. Felix passou um braço pela cintura do moreno, o puxando para perto, como uma confirmação de que ele estava ali mesmo e que não era de fato uma alucinação e Hyunjin, por sua vez, soltou um suspiro satisfeito. 

— Sei que alguns de vocês estavam no bar ontem a noite e é um milagre estarem aqui, uma segunda chance. Agora mais do que nunca vocês devem esquecer de coisas banais, de quem é legal ou quem não é. — Felix ouvia aquilo boquiaberto enquanto Hwang ria baixinho, se divertindo com tudo. — Não podemos deixar que esse incêndio nos vença.

— Bom, eu já venci. — Hyunjin comentou baixo e rindo, completamente despreocupado. 

— Que Deus nós abençoe. — Park disse por fim, se virando para enfim arrumar suas coisas. 

Um silêncio de antes foi tomado pelo choro compulsivo de Yeonjun, que soluçava alto e desesperado, sendo rapidamente consolado por seu amigo Beomgyu, que parecia tão arrasado quanto ele, apesar de não estar chorando na mesma intensidade. Senhor Park ofereceu um lencinho para o garoto, que prontamente aceitou, assoando o nariz de forma exagerada, mas ninguém iria dizer nada.

A aula foi um borrão e Felix sequer se deu conta de quando havia acabado. Hyunjin já não estava mais ali, o mais velho nunca o esperava de qualquer forma. Lee andava pelos corredores mais uma vez, completamente desnorteado. Não entendia como Hwang estava bem, ele sabia que era real. Havia visto o melhor amigo da pior forma possível, parecendo um cadáver ambulante e não conseguia entender como ele estava bem naquela manhã. Não fazia sentido. 

— Não vai ter ensaio da banda hoje. — Jisung disse suave, na tentativa de não assustar o namorado.

— Hm? Não vai? — Fazia sentido, é claro. 

— Não, sabe, em respeito ao que aconteceu. — Murmurou.

— Ah, sim. 

— Você tá melhor? — Perguntou sincero, cuidadoso. 

Ele estava melhor? Não sabia dizer. 

— Acho que sim… 

— Olha, Lix, me desculpa por hoje de manhã. Eu não quero que pareça que eu não acredito em você, eu só me preocupo. 

— O Hyunjin apareceu. — Disse de uma vez, se virando para o mais baixo. — Na aula. Ele tava bem, como se nada tivesse acontecido. Sem um arranhão, fazendo piada. Bem. 

— Bom… — Jisung tentou falar, mas nada saía de sua boca. 

— Hannie, eu sei o que eu vi. Eu sei que não to maluco. — O olhava com os olhos brilhando, a ponto de começar a chorar. 

— Não é, amor. Eu sei que não. — O abraçou com força, o aconchegando em seus braços. — Talvez seja bom você conversar com seu psicólogo, Lix. Eu acredito em você, mas…

— Essas coisas deixam a gente perturbado, não? 

— É. — Jisung concordou por fim e Felix sabia que não era por mal. Talvez, só talvez, estivesse realmente perturbado com tudo e seu cérebro estava o enganando. 

— Ei, Lix… — Uma voz conhecida se fez presente, chamando atenção de de Felix, que rapidamente se desvencilhou de Han. 

— Ah, oi Kai. — Tentou sorrir, mas sem muito sucesso. 

— Fiquei sabendo que você tava no bar ontem… — Coçou a nuca, meio sem jeito. 

— É… — Suspirou e sentiu Han apertando seu ombro de forma carinhosa. 

— Eu to feliz que você não morreu. — Disse direto.

— Ah… valeu Kai. — Lee soltou uma risada meio sem graça, mas também estava feliz. — Eu também. 

— É… a gente se vê. — Não esperou uma resposta, se virando pra sair dali. 

— Eu não sabia que você era amigo do Kai. — Jisung se pronunciou, meio enciumado. — Pensei que ele só falava com os esquisitos emos. 

— Ele é meu amigo. Ele é legal, escreve umas paradas daoras e a gente joga LoL juntos. — Olhou para Han com um pequeno sorriso. 

— Ah, eu também escrevo, mas eu nem fico me gabando por isso, sabe, é chato… E eu jogo LoL também. — Disse como se fosse a coisa mais natural do mundo e Felix conteve a vontade de gargalhar. 

— Claro que sim. — Se inclinou para depositar um beijo na bochecha de Jisung. — Me leva pra casa? 

— É claro que sim, gatinho. — Piscou para o namorado, o abraçando de lado. 

Felix estava bem. Pela primeira vez no dia, não pensava em incêndio nenhum, em morte ou então no encontro bizarro que havia tido com Hyunjin. Estava tentando relaxar, aproveitar os momentos ao lado de Jisung, afinal, havia passado por uma experiência horrível e como senhor Park havia falado, era um milagre estar vivo. O pior havia passado e então iria esquecer daquilo, nem que fosse por algumas horas. 

Mas pobre Felix que sequer imaginava o verdadeiro pesadelo que enfrentaria dali pra frente.

Notes:

Oi! Eu não sei nem o que dizer, não sei dizer se gostei mesmo ou não(?) hahahaha
Se puderem, deixem kudos e comentários, me incentiva muito e eu vou adorar!
Espero que tenham gostado e até a próxima.