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Chuva de Lágrimas

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Ela levantou seus olhos ao céu cinzento sentindo as gélidas gotas de chuva caindo em seu rosto e se misturando as lágrimas que brotavam de seus olhos em rápida sucessão, suprimindo um soluço ela fechou os olhos deixando-se ser lavada pelas pesadas gotas que caiam sobre seu corpo.
Ana estava sentada no topo de uma rocha à beira da praia, a mesma em que se sentara por varias vezes no começo do ano, antes de tudo mudar, antes dele chegar e mudar sua vida. Antes de criar nela desejos e sonhos que nunca antes teve, apenas para vê-la chorar e sofrer ao vê-los cair por terra. E para que isso? Qual a graça em quebrantar um coração? Qual a graça em fazer os outros sofrerem?
Outra lágrima escorreu por seu rosto escondida, misturada, na chuva que assolava o corpo pequeno e delicado que estava encolhido no topo áspero e ponte agudo de uma rocha fria, cinzenta e isolada. Abaixo dela as ondas quebravam violentamente na praia vazia, desolada... E de repente a solidão começou a lhe incomodar e apertar e angustiar e sufocar e... Seu corpo se dobrou com a força dos soluços que lhe arrebataram, lançando-a de joelhos no chão.
Ela se deixou ser tomada pelos soluços que atacaram seu corpo, as mãos em punho apoiadas na pedra serviam de apoio para sua cabeça enquanto ela se culpava por ter sido tão idiota, por ter se deixado acreditar nas promessas vazias e sem significado de um patife que mal era merecedor do ar que respirava, que dirá das lágrimas que ela agora vertia por ele. Ele era apenas um idiota como tantos outros que existiam pelo mundo a fora, como tantos outros que ela conhecera em sua vida. Mas nenhum destes tinha conseguido penetrar seu coração como ele conseguira.
Ana ficou parada ali até que os soluços subsistissem, até que as lagrimas secassem e até que a chuva parasse. Sentou-se na pedra abraçando as próprias pernas, apoiou a cabeça nos joelhos e ficou a fitar o mar revolto e cinzento por causa da chuva. Sentiu o vento soprar ao seu redor e uma corrente mais forte fez com que sentisse como se cada partícula de seu corpo congelasse devido a temperatura e ao fato de estar ensopada, provavelmente pegaria uma gripe mais tarde, na verdade não havia muitas duvidas de que ficaria de cama por no mínimo uma semana depois disso, mas naquele momento não conseguia se fazer importar o suficiente para se forçar a levantar e percorrer o curto caminho de volta a sua casa. Em sua mente tudo passava de forma repetida, como se fosse um filme de uma única cena presa em replay, a cena da maior traição que poderia ser cometida em sua opinião, pois ela tinha visto sua melhor amiga, ou quem ela pensou ser sua melhor amiga aos beijos com seu namorado. E tudo que ela conseguia pensar era 'como você poderia ter esperado uma atitude diferente de um cara como ele?', mas o fato era que ela realmente acreditara quando ele dissera que estava apaixonado por ela, acreditara quando ele dissera que ela era a única... E como pudera ser tão idiota, tão cega, tão pateticamente inocente? Não sabia ela desde o começo o tipo de garoto que ele era? Um jogador... um pegador... um canalha! E não tinham todos os seus amigos lhe avisado que isso iria acontecer?
Engraçado que alguns acharam que este era o melhor momento para lembra-la que haviam lhe avisado que isso iria acabar acontecendo, como se isso fosse o que ela precisava naquele momento. Idiotas. Tinham eles previsto também que sua melhor amiga, em quem confiara desde os tempos de escola iria trai-la daquela maneira? Será que tinham real noção do tamanho da traição pela qual passara? Sabiam eles o que era estar apaixonada e se deixar iludir acreditar em algo só para ter isso tirado de si da forma mais cruel e brutal e dolorosa possível? Será que realmente acreditavam que ela queria ter se colocado nessa situação quando começara aquele relacionamento?
Bando de idiotas hipócritas! Ela bem sabia das varias vezes que eles haviam cometido o mesmo erro que ela ou outros erros semelhantes, mas ela nunca lhes jogara na cara, muito pelo contrario era sempre ela quem estava ali para oferecer um ombro amigo e agora que ela necessitava disso todos lhe viraram as costas como se a culpa da traição que sofrera fosse dela. Deixaram-na para sofrer sozinha, abandonada no momento que mais precisava de apoio e por isso ela se encontrava na posição atual... Chorando sozinha no topo de uma rocha em meio à chuva para que suas lágrimas misturassem-se as gotas de chuva e assim fossem escondidas para que ninguém notasse, para que ninguém descobrisse seu momento de fraqueza e dele se aproveitasse. Não, não faria isso. Não lhes daria essa vitória. Estava decidida a não deixar que ninguém soubesse de sua tristeza quando sentiu braços fortes envolve-la por trás. Michael. Ela e Michael eram melhores amigos desde muito antes dela conhecer a vaca da Camila, as mães dos dois haviam frequentado o colégio juntas e se tornado amigas inseparáveis desde então e, como consequência, seus filhos também compartilhavam uma grande amizade.
—Eu só fiquei sabendo do que houve agora... Você está bem? Quer que eu de uma surra no filho da mãe? Ou que segure a vadia pra você encher ela de pancada? Me diga que você pelo menos fez uso das minhas aulas de luta e deu um soco no meio da cara do idiota? — A voz dele soou em seu ouvido ao mesmo tempo em que os braços fortes dele envolveram-na puxando-a para o colo quente dele e ao mesmo tempo envolviam-na em um grosso cobertor que ele segurava e esse fato mais a proteção e raiva contida que ela pode sentir na voz dele quando ele falou fizeram-na sorrir apesar de tudo e, ao olhar para cima pode ver os raios de sol que bravamente irrompiam pela densa camada de nuvem e soube que, apesar da tristeza o sol tornaria a nascer.
—Sim, eu dei um soco na cara dele... Tenho quase certeza que quebrei o nariz dele, mas não quero mais saber dessa história! — Ela falou dando um sorrisinho orgulhoso quando mencionou o soco. — Que tal uma seção de filmes lá em casa? Pipoca, chocolate quente e todos os seus filmes de ação favoritos... O que acha? — Ela perguntou se aconchegando melhor no cobertor e dirigindo-se a sua casa com ele ao seu lado, um braço envolto protetoramente ao seu redor.
— Garota você me ganhou com as palavras seção de filmes e pipoca. — Ele falou com um grande sorriso apertando-a um pouco contra si em um meio abraço.
É, pensou ela, tudo ficaria bem com o tempo, e se de vez em quando ela precisa-se chorar na chuva o sol sempre estaria lá no final para ilumina-la de volta no caminho da felicidade.