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Feéricos - Conto com Angie

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Tinha dessas nos dias mais frios

O de ficar sentada na frente da janela da sala de sinuca, a algazarra do grupo discutindo a próxima missão, a vitrola tocando algo melancólico, o elevar de vozes quando alguém errava a tacada na caçapa, um suspiro qualquer pra janela meio embaçada da condensação do ar gelado e sua respiração. 

 

Mensagens na janela que nunca mais iria ter. 

 

A única herança era essa lembrança de dias frios, carpete fofo, música festiva em volume aceitável, dança espontânea no meio da sala, o rosto afogueado pelo esforço de seus passos nada ensaiados, a companhia de gatos, familiares, e um único fio prateado que a unia com a única pessoa que a salvou de um destino doentio. 

 

Nos dias frios ele reclamava da falta de chuva e de ficar trancafiado em casa sem poder fazer muita coisa. Sentavam então no chão, abriam as cartas de adivinhação e contavam lendas e estórias de antigamente um para o outro. Os familiares felinos se aconchegavam em seus colos, ronronantes em suas formas, escondidos de tantos olhos que os destruiriam por serem quem eram. 

 

Nas cartas, nada de prever o Futuro, mas o de assegurar que o Passado estava feito e ali mantido onde deveria ficar. Teve uma vez só, em uma tarde boboca de frio, em que tirou a figura do Tolo e deixou escapar que a ilustração parecia muito com ele. O sorriso cansado a deixou intrigada por dias, até entender que a única carta que puxara despretensiosamente havia predito aquilo que não deveria ser dito.

 

A vida solitária era algo que acostumara quando criança, mas estar sozinha na maior parte do tempo fora sua sina. Rain já havia perguntado o que a incomodava nos dias frios, ela dava a desculpa de que sua pele era extremamente sensível para temperaturas assim, pura balela, pois quando criança suportava coisa pior debaixo dos viadutos, nós vagões de trem abandonados, debaixo da asa da dona Alcidez. 

 

Sentia falta do Posto 2.

 

Todas as pessoas que conheceu naquele aterro sanitário estavam mortas agora, enterradas, ou na velhice. Eram poucos que sobreviviam tanto tempo pra contar história. Como explicar isso para a Rainer que amava tanto os dias chuvosos e frios? Não queria estragar a animação de todos com suas picuinhas com o Passado, aquilo que já estava escrito, o que as cartas liam. 

 

A verdade é que se sentia uma alma antiga trancada em um corpo tão jovem que não se sentia tão bem quanto antes. Anos convivendo com sua consciência e seus medos traziam muitos problemas para feéricos como ela. 

 

Qual fora a última vez que encontrara um nomade como ela na Metrópole?! Ninguém mais suportava ficar naquela cidade de concreto, lixo e fuligem. Ela nascida no meio dessa imundície, permanecia. E isso não era para ficar tagarelando com o grupo, não, não... Estava virando uma ranzinza, só podia...

 

Esfregou a testa com vigor, ajeitou a franja no lugar e bufando impaciente deu a desculpa que iria caçar algo na cozinha para comer. 

 

A turma de caçadores de quimeras continuava em sua bagunça de falas arrastadas, protestos de jogo, apostas e provocações. Seus pés descalços na madeira escura do Hotel provocou uma reação que ela não esperava vir de uma coisa inanimada: aconchego, pertencimento, segurança. Tudo que apenas uma criatura em todos os mundos poderia e lhe ofertou enquanto estava ao seu lado. Um lugar que ressoava  com uma presença antiga e amistosa. Um lugar quase gente. 

 

Caminhou devagar até a cozinha, agora ladrilhos gelados de cores diversas e opacas pelo tempo, ali o lugar-gente também a confortava com um convite mudo a acender o fogão velho, esquentar água na chaleira, tomar chá de morango. Preparou tudo sem sentir frio ou tristeza. Na bancada de mármore esticou uma toalhinha de estampa florida e manchada de café, um pratinho lascado a beirada com biscoito amanteigado, duas xícaras de fina porcelana. 

 

Absorta em seus pensamentos, não ouviu a chaleira parar de apitar. Debruçou-se no balcão, cabeça enterrada entre os braços, cansada de tudo e de todos certa vez ficara há 40 anos atrás presa na Terra dos Sonhos de Ninguém. Irônico pensar que um limbo catatonico feito pelos restos dos sonhos de vários alguéns fosse uma terra de ninguém. Bufou impaciente de novo e quando retirou a cabeça de entre os braços, os olhos tão cinzentos ajustando a visão para a luz fraca de uma lâmpada que estava ali desde sempre. 

 - GAAAAAAAAAAAAAH!!!!!!! - exclamou ela assustada e dando passos desajeitados para trás, alcançando a parede e se sustentando ali com as pernas bambas. 

 - Olá, você vem sempre aqui? - a voz tão baixa da jovenzinha de estatura mediana, aconchegada em grosso casaco de lã de um rosa bebê e pés descalços de unhas pintadas de vermelhas. Uma fina camada de areia estava depositada em volta dela. 

 - Queijinho fritinho na chapa quente, cê quer me matar do coração que não tenho?! 

 - Oh desculpe-me, donzela... Assustei-a com minha beleza? - respondeu Lenore segurando o riso. 

 - Humildade tá batendo forte no tambor, hein? Quê cê veio fazer aqui? - a ninfa estalou os dedos e a chaleira leitor para próximo delas ainda esfumaçando vapor. Colocando as mãos dentro dos bolsos externos do casaco pesado, ela tirou vários objetos, frutas cristalizadas, peões de cristal, um pente com dentes quebrados, fones de ouvido de cor berrante. Com uma expressão triunfante achou o que queria, dois morangos intactos, tão vermelhos e lustrosos que Angie achou que eram de mentira. 

- Companhia. 

 - Quê?! 

- Chá de morango, biscoitos açucarados, momentos de introspecção e solidão? Um nômade não deveria se sentir tão triste assim...

- Não gosto de dia frio, entope nariz, faz mal pra minha cútis abençoada de pele de nenê... - gracejou a menina e vendo que a ninfa preparava a mesa com cuidado, cantarolando baixinho, Angie bateu com dois dedos na mesa -  Okay, não, não te chamei e não, não vou dividir os meus biscoitos com... - uma grande bandeja com muffins, bolinhos e doces apareceu na frente dela. - Tudo bem, me convenceu, divido os meus biscoitim, sim... 

 - O concreto da cidade está endurecendo seu coração generoso, donzela dos ventos? - a água quente encheu as duas xícaras e os morangos foram dissolvidos nelas assim que tocaram a superfície. Angie tentava se manter no lugar, já havia levado um susto maior, o que viria era apenas a reação usual de não se surpreender. Ou assim tentava aparentar. Aparições de Lenore sempre a deixavam fora de seu estado de vigilância normal. 

- Você está pálida demais, donzela. Creio que não estão te alimentando bem...? 

- Oba, tá fazendo chá aí? - perguntou Raine passando pela porta da cozinha, moletom fofo preso na cintura e abrindo a geladeira para mais outro engradado de cerveja para o grupo. 

- Chefia, fala pra essa fada dividir os bolinhos com a gente ou você fará algo nada agradável? 

- Ameaças contra mim?! Ai, pobrezinha de mim... - comentou Lenore botando uma das mãos em seu pescoço, fingindo estar amedrontada. 

- Tá falando de quem, Angie? - Raine falou de dentro da geladeira. Angie se virou para a ninfa a sua frente na bancada de mármore, Lenore beliscava um muffin de cobertura esverdeada e com muito caramelo. 

- Oh ótimo, cê tá fazendo aquele truque de novo né? Haha, muito engraçado, bora parar que isso não funfa mais comigo, não! - Raine passou pela bancada e pegou um biscoito sem muito interesse. 

- Vamos pro Porão depois da chuva, tem reunião com o Bastião. - disse em sua voz de chefia, mas se preocupou com o olhar confuso da sua hóspede definitiva. - Sério Angie, tá tudo bem? 

- Tem uma fada aqui na minha frente. Com bolinhos extras. 

 - Fada... - a líder do grupo deu uma dentada no biscoito e mastigou um pouco. 

- É, fada, com purpurina, asinha, coisinhas delicadinhas, voz de sininho... 

- Eu não tenho voz de sininho...! - disse a meliade com indignação. 

- Não estou vendo ninguém, Angie... Tem certeza que...? - a mais nova na cozinha apontou para a ninfa e depois para a dona do Hotel. Fez uma careta de pura incompreensão e com mais indignação, estapeou a própria testa. Era o que faltava, estar alucinando com alguém que não travava conversa há um bom tempo. 

- Que cê quer, fala logo e te escapa. Não tenho mais paciência com... - Raine deu de ombros e sem perceber o que estava acontecendo em sua cozinha, voltou para a sala de estar para apostar mais aquele engradado que ganharia a próxima rodada. 

- Com bolinhos e uma bela companhia para o chá? - o aroma do chá de morango tomou conta da cozinha velha, a ninfa deu o primeiro gole com delicadeza, sempre olhando Angie diretamente nos olhos. 

- Hey esse chá era... Era... 

- Um chá bem ruim, químicos imitando o verdadeiro néctar. Como são tolinhos os filhos mais novos. - comentou antes de sorver mais do líquido. Angie procurava açúcar no armário atrás dela, ao se virar para procurar em outro ponto da cozinha, recebeu um cubinho de açúcar mascavo no nariz,que caiu em sua xícara sem derramar uma gota na toalhinha manchada. Isso derrubou um pouco da barreira que ela tinha montado após tantos problemas com os escorregadios que ficara amiga. 

- É o que dá pra comprar aqui, sossega. - sentou-se e bufou impaciente. 

- Soube das boas novas? 

- Não... - respondeu não interessada nisso, queria saber se o bolinho ali na pilha tinha recheio de doce de leite. 

- O herdeiro de Liam nasceu! - sorriu a ninfa estalando a língua com felicidade. 

- Não quero saber... - Angie respondeu com a boca cheia. Bolinho com recheio de creme. Isso era bom, muito bom. 

- Hibernia tem uma nova chance... Vossa futura Majestade irá adorar saber que... 

- Oh sim, oh Chefia! - gritou a nômade para em direção a algazarra na sala de estar. Raine acertara uma tacada e se vangloriava do feito para o resmungao Smithens - A fada fofurinha aqui tá dizendo que o mendigo do Arges teve filho. 

- Quem teve o quê? - foi a resposta, o grupo estava em outra frequência de gritaria, Smithens errada a tacada e a bola voara para longe. 

- Imagine isso, o Herdeiro da Casa de Liam voltará ao seu posto no Conselho... - Angie fingiu agitar pompons com um sorriso nada agradável. 

 - Urrul, que ótimo. Pelo jeito agora todas as Famílias estão de volta... 

- Angie, você está conversando sozinha? - perguntou Emílio chegando pela porta da frente e tirando a capa de chuva encharcada. Atrás dele o uivo característica de Tobby, era época dele se manter na forma lupina até a estação passar. - Pessoal, reunião do Bastião será no Castelo de Andradas. - mais alvoroço e vozes altas. 

- Mademoiselle Lenore Pierre Della Fontaine, casa de Gwynndon I... 

- Peraê cê é do Guidão?! - Angie quase se engasgou com o outro que enfiava com vontade no canto de uma bochecha. 

- Não fale assim de nosso belo Rei... Ele foi um valoroso... 

- Fadinha, cê é Lenore do Guidão?!

- Gwynndon, Filha dos Ventos... - disse apenas, experimentando o biscoito que Angie iria comer antes dela aparecer. - Você realmente está tentando se envenenar, donzela? Estou mastigando um pesadelo aqui... 

 - Frescolina. 

 - Você saiu das ruas para ser alguém mais sábio do que isso, Maria Ev'Angela. 

 - Eita, chamou pelo nome todo, é treta na certa... 

 - Vim para uma breve conversa, se assim seu orgulho permitir.

 - Miga, cê é do Guidão, nem sou besta de falar não agora. 

 - Oh, me respeitas por eu ser da Casa de valoroso Rei, mas antes não? 

 - Vamos dizer que os pontos de confiança aumentaram após você falar isso. 

 - Não confias em ninguém, aprendiz de Stardancer? 

 - Nem na minha sombra. - e  engolindo o restante do chá com vontade, apontou um muffin para a ninfa. - E  aprendiz é o baraleo, meu nome é Zé Pequeno agora. - Lenore arqueou uma sobrancelha com confusão. - Laranjinha pra Zé Pequeno, sacou? - a ninfa negou com a cabeça - É de um filme...? Ah, pra que perco tempo explicando piada pra... - exasperada com a reação da meliade, Angie enterrou a cabeça nos braços e resmungou para si. Odiava ouvir o nome de Stardancer sabendo que ele não existia mais. Não mais naquele momento, mas imortalizado em canções, contos, fofocas da Corte. Memórias, era isso que todos se tornavam, memórias de outras pessoas, histórias que seriam esquecidas ou mudadas conforme o tempo passava. 

 

Recebeu um tainha nas costas e levantou no pulo. Estava cochilando. 

 - Angie, a chaleira nem apitando tá mais. - disse Emílio deixando muitos ingredientes na bancada de mármore ao lado da toalhinha manchada que ela havia posto antes de cair no sono ali mesmo. - Deixe-me ver isso... - o troll verificou a água da chaleira e com cuidado colocou mais água para refazer o chá. - O dia está bem frio lá fora, o que acha de bolinhos de chuva? Trouxe doce de leite para recheio...