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Feéricos - Conto com Angie

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Meu cabeção bateu em algo duro, gelado, metálico.
Remexeu coisa aqui dentro, aquela dorzinha básica.
Abrindo os olhos percebo que não sei onde estou, ou como cheguei ali, o gostinho de muito tempo dormindo me diz que passei do ponto.

Qual ponto?!
Nem busão peguei antes de vir pra cá!

Minha primeira reação é fugir.
Rapidamente.
Sem ninguém ver.

A primeira coisa que tropeço são minhas pernas, doloridas, adormecidas como milhares de agulhas invisíveis pinicando infinitamente por debaixo da minha pele.
Droga!

A noite que estou acostumada em minha rotina da escolinha, dá lugar a um dia nublado qualquer.
O silêncio familiar de um lugar onde meus piores pesadelos anunciaram desde que ele foi embora.

A Terra dos Sonhos de Ninguém.
Sem alarmes e sem surpresas.

Estou dentro de um ônibus escolar.
Aqueles amarelinhos horríveis, com cadeiras tão velhas e empoeiradas que parece que estamos aqui há muito tempo.
Agito minha cabeça, quero acordar de alguma maneira, pois não quero acreditar que estou realmente aqui.
Não aqui.
Não justamente *aqui*.

Vou para uma das janelas de vidro embaçado, nada.
Nadica de nada, nem ninguém.

Silêncio.
Silêncio lá fora, aqui dentro, em breve em um cinema perto do meu coração.
Okay sem pânico, sem pânico, as coisas já foram piores antes.
Vida na rua, milico com folga de milícia, coração partido, aquela caçarola de jiló que não foi feliz no meu estômago por dias.

Oh
Por
Meus
Sapatinhos Vermelhos
Dançando
Na pista
Do baile da
99

Noventa e nove com certeza, porque a quebrada era mais chegada e as melhores protegidas estavam lá pros leros, pras responsas, pro que der e vier.
Sem pânico, tá silêncio, mas logo passa.
Apenas mais outro pesadelo ruim de amargar.
Logo eu acordo.
Isso, acordar vai ser bom e daqui a pouco, acordo.

Bora ver até onde esse pesadelo pode me levar.
Caminho devagar para fora do busão, respirando poeira, ferrugem e gotinhas de desespero.

Porfavornaosejaporfavornaosejaporfavairmesalvade...

Okay, pode entrar em pânico.
Tá liberado.
Yep, nem precisa ligar o modo de sobrevivência.

Apenas
Se
Deixa
Levar

Com quantos decibéis de gritos vocês acham que é possível deixar alguém rouco?
Contei 49 meus.
Não eram ritmados.
Sinceramente quem tá aí pra ritmo quando se percebe mesmo que está presa na Terra dos Sonhos de Ninguém?

Momento breve de lucidez em um lugar onde contavam lendas de feéricos exilados ou capturados por supervilões fodásticos.

Adivinha?
Não é nada disso.
É só você, um busão amarelo canário todo estropiado, um vilarejo dos anos 50 de concreto, entulhos e desabilitado.

Você e sua consciência.
Você e seu pior inimigo.

Sem alarmes, sem surpresas.
Apenas o silêncio, você, sua consciência, essa cidade abandonada.

As lendas dos mais velhos não batem o desespero inicial que é sentar ao chão de cimento de um lugar sem glamour algum, jogado no limbo cósmico de um infinito tédio astral.

Não há fio prateado para seguir, apenas você e sua consciência Filha dos Ventos.
Você e seus piores medos.