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Promisse you will be there

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                Gwen era muito saudável. Era mais raro vê-la ficar doente do que Peter chegar na hora certa para a primeira aula da manhã.

                Helen entendeu o que tinha acontecido quando a filha ficou diferente, até mesmo em casa. Quieta, triste, perdida em pensamentos, anormalmente cansada, crises de choro repentinas quando não havia algo a distraindo, embora toda a família Stacy tivesse ficado assim nas primeiras semanas após a morte de George. A princípio ela pensou que tinha a ver unicamente com a perda dele, quatro meses atrás, mas foi quando Helen buscou sua primogênita na escola, num dia em que decidiu almoçar num restaurante próximo com os filhos, e viu os olhos de Gwen se encherem de lágrimas e desviarem quando acidentalmente se depararam com os de Peter Parker na saída do prédio, que ela confirmou suas suspeitas. Helen sabia que Gwen chorava quando ficava sozinha em casa, e que algumas vezes que chorava pelo pai, não era esse o único motivo.

                Gwen Stacy era forte como uma rocha, mas seu lado doce era tão sensível com o que ela realmente amava que ambas as coisas eram equivalentes. E era firme e decidida o suficiente para não querer envolver ninguém em seus sofrimentos pessoais.

                Naquela mesma noite Gwen adoeceu. Ela ficou dolorida e cansada, e sua pele começou a aquecer. Helen entrou em seu quarto após já verificar que os três filhos mais novos estavam dormindo, e estranhou a cena da filha parada, sentada em sua cama, olhando fixamente para as janelas do quarto, todas abertas, e parecendo ter dificuldades para respirar.

                - Gwen...? – Chamou, indo até ela para ver seu rosto.

                Os olhos verdes pareciam cansados e perdidos, e a pele clara estava corada. Helen se assustou ao tocar a testa da filha.

                - Você está queimando!

                Como se reagindo ao comentário, Gwen estremeceu e se encolheu, se abraçando em seguida enquanto sua mãe fechava as janelas.

                - Tava tão quente. Mas agora, tão frio.

                - A temperatura hoje está estável, Gwen. Você tem febre. Estava ótima horas atrás. Desde quando isso começou?

                - Não tenho certeza. No jantar talvez...? Não pode ter sido a comida do almoço, ou vocês também teriam adoecido.

                - Sente dor de estômago ou algo parecido?

                - Não.

                Dizendo isso os tremores pioraram, e Helen correu até a filha por instinto.

                - Eu tô cansada – Gwen reclamou enquanto sua mãe parecia refletir.

                - Troque de roupa. Vamos a um hospital.

                - Me deixa só tomar banho frio, mãe. Cansada demais.

                - Gwen, sua febre está muito alta. Eu não quero correr o risco de você piorar durante a noite. Por favor.

                Olhando nos olhos de sua mãe, e finalmente entendo a súplica em sua voz, Gwen compreendeu. Helen estava sofrendo muito mais do que qualquer um deles com a partida de George. Quatro meses parecem poucos dias para uma dor tão grande, é claro que ela estava paranoica com a segurança de todas as pessoas importantes que ainda tinha.

                Gwen assentiu, mas sem sair do lugar. Helen a ajudou a escolher uma roupa e se trocar, e deixou um bilhete para os meninos na cozinha antes de levar Gwen para fora do apartamento, depois seguindo para o elevador e o estacionamento do prédio. A jovem pareceu pegar no sono assim que entrou no carro, tremendo e gemendo às vezes.

                - Querida, tente ficar acordada.

                Ela murmurou alguma coisa em resposta, ainda de olhos fechados.

                - Ainda bem que amanhã não tem aula – disse baixinho quando Helen parou para olhá-la no último sinal antes da rua do hospital.

                - Mesmo se tivesse, é com sua saúde que você tem que se preocupar agora.

                Quando as duas chegaram, mesmo o horário tardio não favorecia muito a possibilidade de um atendimento rápido num pronto socorro, que parecia quase tão cheio quanto ao longo do dia. Mas a febre alta de Gwen lhe forneceu a prioridade urgente que precisavam, e logo Helen a estava levando pelo corredor para uma sala de exames, seguindo uma médica gentil.

                - Realmente parece um sintoma sem explicações olhando o hemograma – ela dizia observando os resultados algum tempo depois – Me desculpe por perguntar, mas vocês passaram por algo difícil recentemente? Algo que gerou um abalo emocional muito forte?

                - Perdi meu marido há quatro meses. Outras coisas aconteceram também, e está difícil achar um caminho.

                Imediatamente Gwen soube que sua mãe estava falando dela, que ela sabia o quanto seu término com Peter a estava afetando, só estava deixando o caminho livre para que a filha desse seus próprios passos.

                - Eu sinto muito – a mulher respondeu – Gwen, dores musculares, fraqueza e calafrios são sintomas comuns que acompanham a febre, embora nem sempre estejam presentes. Você sente mais alguma coisa?

                - Um aperto no peito. Às vezes é difícil respirar.

                - Tem certeza que suas roupas não estão te machucando sem que perceba?

                - Sim.

                - Desde quando você sente esse último sintoma?

                - Eu não sei... Algumas semanas, eu acho. Foram só algumas vezes. Passou rápido. Achava que era estresse.

                A médica assentiu.

                - De fato esse é um sintoma de estresse e ansiedade, quando a situação começa a fugir do controle ou fazer muita pressão emocional. Não sei o que você acha disso, mas recomendo que converse sobre o que está te afligindo com um profissional se quiser, vai ajudar.

                Gwen balançou a cabeça em concordância, embora tivesse plena consciência de que ignoraria o conselho. Ela não podia simplesmente chegar a um psicólogo e dizer que seu problema era ter um relacionamento com o Homem Aranha. Ela nunca faria isso com Peter, e pensando nesse ponto, lágrimas vieram a seus olhos quando pensou que é exatamente isso que ele estava fazendo por ela, engolindo a própria dor porque achava que a estava protegendo. Apertou a testa com as mãos, conseguindo engolir o choro e fazer as duas mulheres a sua volta acreditarem que era apenas uma dor de cabeça.

                - Meu diagnóstico é que essa febre é emocional. Mesmo pessoas muito saudáveis podem passar por isso alguma vez na vida com abalos muito fortes, e até mesmo crianças. Vamos medicá-la, dar um pouco de soro, e deixá-la ir pra casa quando acabar. Tome banho morno antes de dormir quando chegar em casa, ajuda em muitas coisas. Quando se sentir melhor, tire tempo pra você, relaxe e faça coisas que goste.

                Minutos depois, Gwen estava em outra sala, deitada numa maca recebendo soro, sentindo sua mãe acariciar seu cabelo, até que ela parou abruptamente.

                - Gwen?! – Uma voz familiar exclamou baixinho quando passos entraram na sala – Helen – ela cumprimentou, parecendo sorrir.

                - Como vai, May? – Perguntou, evitando falar em Peter.

                - As coisas estão bem, dentro do possível.

                Gwen imaginou alguns motivos para algo não estar bem, entre eles, Peter. E abriu os olhos para fugir do pensamento, percebendo que agora era May quem estava acariciando seu cabelo e a olhando com preocupação. Peter lhe dissera que ela tinha começado a estagiar num hospital, e que estava até gostando do trabalho ultimamente, mas não imaginava que era exatamente para onde tinham ido.

                - Oi, tia May – respondeu sonolenta.

                May sorriu, claramente feliz por Gwen continuar a chamá-la assim.

                - Você vai ficar bem – a mais velha respondeu, pegando uma seringa com um líquido transparente na bandeja que trouxera.

                - Mais agulhas?

                - Essa é no soro, pra ajudar com sua febre. O soro é pra hidratar seu organismo e levar o medicamento até você de forma mais branda – ela explicou, injetando o conteúdo no aparelho, e fazendo os dois medicamentos se misturarem – Tente dormir enquanto acaba, estará melhor quando acordar.

                Gwen queria saber sobre Peter, mas não sabia como perguntar.

                - Tinha muita gente na recepção. Aconteceu algo na cidade hoje?

                - Uns assaltantes de primeira viagem invadiram um restaurante no último horário de atendimento. Felizmente a polícia e o Homem Aranha chegaram lá rápido. Algumas pessoas se machucaram um pouco tentando fugir, mas nada grave. Ninguém saiu com ferimentos preocupantes de nenhum dos lados envolvidos.

                Gwen relaxou visivelmente ao saber disso, e outra vez se perguntou se May sabia sobre o segredo de Peter, algo que ele também desconfiava às vezes.

                - Eu acho que dormir um pouco é um bom conselho – Helen falou, brincando com seus cabelos novamente.

                - Certo – Gwen murmurou fechando os olhos, mas voltou a abri-los em seguida – Tia May... Não conte a ele que estou doente, por favor.

                As duas mulheres ficaram em silêncio, não esperando ouvir aquilo.

                - Eu acho que mesmo se eu não disser, ele pode sentir isso, Gwen – May respondeu – Mas vou respeitar seu pedido.

                Viram a estudante fechar os olhos, e esperaram até ter certeza de que Gwen dormia para se olharem e falar.

                - Ele está péssimo. Tem alguns meses que voltou pra casa chorando. E apesar de ter ficado tão mais responsável ultimamente, parece que perdeu alguma coisa.

                - Ela também não está feliz. Ficou diferente quando perdemos George, e piorou quando chegou em casa depois do enterro. Eu achei que esse era o problema. E apesar de quatro meses parecerem tão pouco numa situação dessa, estamos tentando seguir, sempre soubemos que isso podia acontecer de repente. Mas a dor dela parece persistir muito mais. Encontramos Peter rapidamente hoje, isso pareceu afetá-la, mesmo que tenha sido de longe e tão rápido que não pudemos falar com ele.

                - O problema é deles pra resolver, seja o que for que aconteceu, mas está me matando vê-lo daquele jeito. Ele não me diz o que aconteceu. Só sofre em silêncio. Nem sequer tem comido e dormido bem.

                - Posso dizer o mesmo. Eu quero que ela mesma resolva, mas não quero que fique assim. Veja a que ponto chegou.

                - Eu também. Que a sorte nos ajude. Eu preciso cuidar de outro paciente agora. Se não nos virmos mais hoje, diga a Gwen que desejei melhoras.

                - Eu direi. Obrigada, May. Espero que Peter fique bem.

                May agradeceu com um sorriso antes de sair, correndo para a cobertura deserta do edifício no intervalo de seu turno, e discando o número do sobrinho no celular.

                - Tia May... – ele atendeu parecendo confuso – A senhora nunca liga pra não me acordar. Algo aconteceu?

                - Não, tá tudo bem. Só queria compartilhar com você uma situação que me inspirou hoje. Achei que podia estar acordado.

                - Eu tive uns sonhos doidos e perdi o sono – ele disse enquanto pousava em silêncio na janela do quarto de Gwen, encontrando-o vazio, e agora ficando realmente preocupado com o motivo do sentido aranha tê-lo levado até ali depois de despachar alguns bandidos para a polícia.

                Sua mente o alertou para o fato de que May não tinha perguntado se ele estava em casa, ou o que poderia estar fazendo, mas questionar isso não traria benefícios.

                - Ainda tá no hospital?

                - Sim, no meu intervalo por enquanto.

                - O que aconteceu que quer me contar?

                - Recebemos pacientes que o Homem Aranha salvou hoje.

                - É mesmo? Foi algo grave?

                - Não, machucados leves. O pior foi o estado emocional em que estavam, ficaram claramente assustados, mas tão gratos que você nem imagina.

                Peter sorriu.

                - E aprendi algo sobre medicamentos hoje.

                - Algo importante?

                - Bastante.

                - E o que seria? – Questionou, tentando abrir a janela de Gwen sem fazer barulho, e felizmente tendo sucesso.

                Conseguiu se esgueirar para dentro em silêncio quando May voltou a falar.

                - Que alguns remédios curam o problema de saúde, mas ao mesmo tempo acabam atacando e debilitando alguma outra área do corpo, o que pode acontecer por motivos diferentes. Então é bom evitar ou pesar muito bem as consequências antes de usá-los.

                - Nossa... Receberam algum paciente que consumiu um desses?

                - Mais ou menos. Mas é só isso que eu queria lhe dizer. Nos vemos de manhã. Tenha cuidado.

                - Tô em casa.

                - Então mantenha o cuidado com as entradas e saídas.

                - Certo, eu te amo.

                - Também te amo.

******

                - Gwen... – sua mãe começou depois de acomodá-la na banheira com água morna, e ver a filha fechar os olhos e se encolher num canto – Eu sei que você prefere não falar sobre o que quer que tenha acontecido entre você e Peter. Mas não está ajudando.

                - Essa não é a única coisa que pode ter me arrastado pra uma febre emocional, mãe.

                - Eu sei. Eu e seus irmãos sabemos muito bem. Mas sou mais observadora do que você se lembra às vezes. Converse com ele, ou siga o conselho de procurar um profissional pra isso. Só não quero que continue assim – falou enquanto prendia os cabelos da filha um coque.

                - Tô com fome.

                - Vou fazer alguma coisa pra você, e avisar aos meninos que você está aqui pra não invadirem o banheiro. Me chame se precisar, não vou demorar.

                - Certo.

******

                Peter ouviu May desligar o telefone e ficou pensativo. As palavras da tia pareciam enigmáticas, e outra vez se viu perguntando se ela sabia sobre sua identidade. Seu sentido aranha o pôs em alerta de novo, e correu para se encolher junto com sua mochila atrás da poltrona perto da janela, recolocando sua máscara, bem a tempo da porta do quarto ser aberta e uma luz fraca ser acesa.

                - Sente-se. Eu vou te ajudar a se vestir – ele ouviu Helen Stacy dizer, ficando intrigado com o silêncio de Gwen.

                Sabia que era ela, podia reconhecer seus passos em qualquer ritmo.

                Peter prendeu a respiração ao ouvir Helen se movimentando pelo quarto, e o som do farfalhar de algo pesado como um roupão de banho ser deixado de lado, e de roupas sendo vestidas.

                - Quer que eu fique até você dormir?

                - Não precisa. Eu já tô bem, mãe.

                Helen observou a filha. Sem tremores ou queixas de dor, febre bem mais baixa, voz mais firme.

                - Me chame se precisar. Coloquei água pra você aqui.

                Gwen olhou para o criado mudo, vendo uma jarra cheia de água e um copo, e assentindo em agradecimento.

                - Boa noite – Helen falou, beijando seus cabelos – Pense. Você não pode continuar assim. E sabe que estou aqui, seja qual for o caminho que você siga.

                Gwen concordou novamente, vendo a mãe sair e fechar a porta.

                Peter continuou em seu esconderijo, querendo ter certeza de que Helen não voltaria, e tentando entender o que tinha acontecido com Gwen. E ali, em silêncio em seu quarto, sem que ela soubesse de sua presença, ele desabou mais uma vez quando tudo que tinham vivido voltou. Mas dessa vez tia May ou sua cama não estavam ali para ajudá-lo com suas lágrimas. Então entendeu o que sua tia queria dizer. George acreditava estar protegendo a filha quando o fez concordar com aquela promessa, assim como Peter acreditou ao pensar nos fatos. Mas só um idiota não veria o quanto Gwen estava sofrendo desde então. Dor. Era tudo que tinham conseguido com isso. E qualquer outra coisa podia acontecer, ela podia estar entre as vítimas que tia May tinha acabado de lhe contar, podia estar entre as vítimas que não voltavam pra casa, com ou sem a intervenção do Homem Aranha.

                Pensando nisso, espiou por cima do braço fofo da poltrona, vendo Gwen deitada de olhos fechados, e levantando-se em silêncio para caminhar até ela.

                Seu anjo de cabelos dourados parecia enfraquecido. Seu rosto estava um pouco pálido, e um band-aid estava grudado em sua mão esquerda. Não tinha ideia do que podia ter acontecido, mas era visível que ela estava passando por problemas, como ele. Isso parecia errado, Gwen era muito saudável. E ver isso foi o fim, seu coração não aguentava vê-la debilitada por o que quer que fosse sem tomar reação alguma.

                Antes que percebesse, Peter se agachou a seu lado, e segurou sua mão, que estava mais quente do que ele se lembrava, fazendo Gwen respirar fundo e abrir os olhos, confusa entre o sono e a realidade. Não estava em seus planos acordá-la, e outra vez ele conteve sua respiração, não sabendo o que viria disso. Ela o olhou confusa, parecendo refletir se estava sonhando ou não.

                - Você tá realmente aqui?

                Peter removeu a máscara, tornando seu rosto ainda mais real, e deixando Gwen ter certeza de que não estava num delírio.

                - O sentido aranha me disse que tinha algo errado aqui. Eu quis verificar. Gwen...

                Os dois tomaram seu tempo, sentindo depois de tanto tempo como era ouvi-lo dizer o nome dela. Isso fez os corações de ambos descompassarem, como se o tempo nunca tivesse passado.

                - Você tá bem?

                - Sim – ela respondeu, desviando o olhar dele – Agora você pode ir tranquilo. Vai logo.

                Peter sentiu uma pontada de mágoa no peito, mas nada fez para obedecer, ou soltou sua mão.

                - Por favor – ele pediu, seus olhos agora tão molhados quanto os dela – Me escuta. Eu... Eu realmente vim aqui por causa do sentido aranha, ele me apontou que tinha algo errado com você. Mas na verdade, eu não consigo. Eu não posso fazer isso, Gwen, e não no sentido da última vez que eu te disse isso. Eu fico vendo o fantasma do seu pai nos lugares até perceber que era só alguém parecido com ele, eu tenho pesadelos com ele gritando comigo, com o que pode te acontecer, mas eu também tenho pesadelos com você chorando, com a dor que eu te causei. Eu não consigo mais dormir, e eu não sei o que fazer. Eu te amo mais do que tudo, e eu não consigo fazer o que seu pai me pediu. Eu quero me libertar disso, mas não sei como.

                A essa altura os dois estavam chorando, mas Peter teve que se erguer e sentar em sua cama para trazê-la para seu peito quando Gwen começou a soluçar.

                - Ei... – Peter chamou baixinho, beijando sua testa e sentindo o quanto ela ainda estava quente, ao menos mais do que deveria, e sua mente começou a ligar os pontos, a preocupação de Helen, a ligação de May, o mau pressentimento que o acordou junto ao sentido aranha.

                Peter afagou suas costas, e mergulhou os lábios em seus cabelos louros, esperando que ela se acalmasse.

                - Por favor, se você pretende mudar de ideia de novo, vá embora de uma vez. Eu não aguento mais viver assim – Gwen pediu, embora nada fizesse para afastá-lo, e Peter sentiu o coração doer de culpa, abraçando-a mais forte.

                No fim das contas, nenhum monstro mutante, tiros, batalhas, alturas, nada foi necessário para fazer mal a ela, o próprio Homem Aranha era responsável por suas lágrimas.

                - Eu entendo. Entendo que você não confie mais em mim, mas eu não consigo ficar longe de você, eu não aguento mais ir embora.

                O choro dela aumentou um pouco de novo, e Peter a balançou devagar, embalando-a em seus braços para acalmá-la.

                - Você tá doente – ele finalmente afirmou.

                - Eu não queria que você soubesse. Não queria que viesse por isso e não por mim, e não quero que fique se for só por isso.

                Peter não pode sentir mais uma gota de ressentimento, só tristeza. Ele teria que lutar para recuperar a confiança de seu coração profundamente ferido, e ele o faria, mesmo se precisasse passar o resto da vida o curando para ela. E fazendo a primeira coisa que veio em sua mente, ele a beijou, pouco se importando com que mal a acometia. Se fosse contagioso, ele estaria em paz de acompanhá-la nisso.

                Gwen suspirou e o beijou de volta, como se ainda fosse natural, como se não tivessem perdido isso por quatro meses, mas com uma intensidade que deixava clara a falta que o contato fizera para os dois.

                - Eu te amo. E eu tô cansado, de segurar esse peso, de deixar você segurá-lo sozinha, de sentir dor todos os dias por causa disso.

                A loura finalmente cedeu, assentindo e acariciando seu rosto, algumas lágrimas ainda deixando seus olhos, e se permitiu continuar segura em silêncio no peito dele por alguns minutos antes de Peter voltar a falar.

                - O que aconteceu?

                - Eu comecei a me sentir mal no jantar, fiquei com muita febre. Mamãe me levou ao hospital, fiquei no soro por um tempo.

                - E o que disseram? De onde isso veio?

                - Febre emocional. Tive sintomas de ansiedade e estresse, mas nada mais que explicasse. Tia May estava lá. Ela mesma me medicou.

                - Eu falei com ela essa noite, mas ela não me disse.

                - Eu pedi pra ela não dizer.

                Peter assentiu, embora soubesse que ela tinha sim lhe dito algo nas entrelinhas.

                - Fica aqui comigo. Minha mãe só deve voltar de manhã. E ela também dormiu pouco, vai demorar.

                - Tem certeza?

                - Que remédio melhor eu poderia ter pra isso? Você tá aqui, e de alguma forma não parece que isso mudou.

                Peter concordou, beijando sua têmpora.

                - Mas me acorda se você precisar sair. E prometa que estará aqui de manhã, e me esperando na escola, e me olhando nos olhos da próxima vez que você tiver dúvidas sobre a promessa do meu pai. Ele não tinha esse direito, por mais que tivesse boas intenções. É a nossa vida. Prometa que você vai estar lá.

                - Eu prometo – disse olhando em seus olhos – Eu sei que uma parte de você não acredita em mim agora, mas eu prometo.

                Gwen concordou, e os dois se afastaram para que ele pudesse trocar de roupa, não se importando que Gwen o visse apenas em sua roupa íntima enquanto se vestia com roupas normais e escondia o uniforme em sua mochila, que depois escondeu atrás da cama como costumava fazer por medida de segurança extra. Gwen também não demonstrou desconforto ou constrangimento por compartilharem esse momento, já tendo os dois vivido tantas coisas juntos, e não sendo a primeira vez que ele lhe fazia companhia durante a noite.

                Após beber água, ela se afastou um pouco na cama para dar espaço a ele. Peter se acomodou com ela sob as cobertas e Gwen se aconchegou em seu peito enquanto ele a abraçava. Ela fechou os olhos se sentindo no melhor e mais confortável lugar do mundo, sentindo o afago suave em seus cabelos, e o abraço de Peter envolve-la, suas pernas meio entrelaçadas.

                - Então... Estamos namorando de novo?

                - Se você quiser – Peter respondeu.

                - Então estamos.

                Ela não o viu sorrir, mas sabia que é o que ele estava fazendo pela mudança em sua respiração.

                - Me desculpa.

                Gwen abriu os olhos para olhá-lo, não encontrando as palavras certas para responder isso.

                - Por te deixar sozinha, por te ferir duas vezes no dia que você mais precisou de mim. Por todos os dias de tristeza que você viveu até aqui, por todos os dias felizes que deixamos de passar juntos. Por te deixar doente. Mesmo se eu não for a única causa.

                Gwen fechou os olhos por um segundo, e ele achou que ela fosse chorar de novo. Mas apesar de seus olhos brilharem, ela não o fez. Ergueu uma mão para entrelaçar os dedos em seus cabelos castanhos e puxá-lo para um beijo.

                - Só não faça isso de novo. Eu também tenho limites, apesar do quanto eu amo você.

                Peter assentiu, não sabendo o que responder, desejando do fundo de sua alma que eles conseguissem voltar a ser como antes, e fazendo uma promessa a si mesmo de que não a magoaria mais uma vez, que de alguma forma encontraria força para lidar com seu medo de perde-la.

                - Você precisa dormir.

                - Você também – Gwen respondeu – Seus pesadelos vão te deixar em paz hoje. Tenta descansar.

                - Como você sabe?

                - Intuição feminina.

                Peter riu, lhe dando um último beijo antes dos dois fecharem os olhos.

******

                Peter odiou se afastar dela pela manhã, mas nenhum dos dois queria que algum outro membro da família Stacy os encontrasse dormindo juntos daquele jeito, por mais que estivessem fazendo apenas isso, dormindo. Cedo demais para esse passo deixar de ser privado. Lentamente ele se soltou do abraço em que tinham passado toda a noite, exceto por poucos minutos em que os dois acordaram e ele insistiu em verificar a temperatura da amada, feliz em ver que a febre estava cedendo mais conforme a noite avançava. Segurando-a em seus braços, ele a moveu para o centro da cama novamente, e beijou seus cabelos para que a loura continuasse dormindo, explicando suas intenções e prometendo que não a deixaria. Assentindo, ainda sonolenta, Gwen voltou a dormir enquanto Peter massageava o topo de sua cabeça.

                Helen abriu a porta em silêncio por volta das sete da manhã, não conseguindo não se derreter um pouco com a cena. Gwen estava dormindo, bem acomodada debaixo do cobertor, Peter sentado à beirada de sua cama, com uma mão estendida para os cabelos dela, e igualmente adormecido. Helen supunha que eles poderiam estar bem agora.

                Entrou em silêncio no quarto, vendo que havia menos da água que deixara para Gwen, e que o termômetro digital estava ao lado do copo. Se aproximando e tocando o pescoço da filha, não sentiu qualquer sinal de febre ou calafrios, Gwen dormia tão pacificamente quanto em qualquer dia normal. Parecendo acordar em um susto, Peter arregalou os olhos e olhou para ela.

                - Bom dia, Peter – ela sorriu, não querendo assustá-lo – May estava preocupada com você ontem. Espero que tenha dormido bem.

                - Eu... Eu tive um mau pressentimento, eu queria vê-la... Eu cheguei...

                - Tudo bem – Helen ergueu a mão para tranquilizá-lo – Você não tem me explicar. Mas nós podemos conversar?

                Ele assentiu, e olhou para Gwen antes de seguir a mais velha para a sala de estar da casa.

                - Os meninos ainda estão dormindo. Somos só nós – ela disse quando os dois se sentaram no sofá – Eu sei que o quer que tenha acontecido entre vocês, você nunca faria mal a ela. Tem sido difícil. Gwen não é de guardar o que sente, a não ser quando é extremamente importante e pessoal, mas não foi um bom momento pra ela lidar com isso.

                - Eu acho que não a mereço. Mas...

                - Não diga isso. Se não a merecesse, não estaria aqui com ela agora. Você é o melhor remédio que Gwen poderia ter depois da noite de ontem. Ninguém da idade de vocês está pronto pra passar por certas coisas difíceis. Não é um erro não saber o que fazer, e às vezes tomar a direção errada. O problema é continuar evitando a direção certa por ter medo dela.

                Ele ficou em silêncio, percebendo agora de onde viera o lado doce de Gwen. Seu lado decidido, teimoso, forte, certamente de seu pai. E o amor, a gentiliza, a compreensão, de sua mãe.

                - Eu não perguntei a ela o que aconteceu, e não vou perguntar a você. Mas eu conhecia meu marido, e eu imagino o que ele pode ter lhe dito em algum momento antes de morrer. George sempre soube o que queria fazer, e dos riscos que isso representava pra ele e pra família que tivesse, sempre foi um pouco paranoico com isso, e às vezes perdia a noção de até onde podia ir pra nos proteger. Eu não sei porque ele poderia achar que um menino tão doce como você é perigoso pra Gwen, mas se esse for o problema de vocês, lembre-se que só estar vivo já é perigoso, Peter.

                - Como assim?

                - Pessoas morrem todos os dias, o tempo todo, por incontáveis razões. De repente alguém sai de casa pra trabalhar num dia normal e é atropelado, ou sofre um infarto no meio do caminho, ou um acidente de trânsito, ou morre num confronto com criminosos antes que a polícia ou o Homem Aranha cheguem. Pessoas que nenhum de nós tem ideia de quem são. Qualquer coisa pode acontecer, e não vale a pena perdermos o tempo que temos uns com os outros ficando com medo disso. Foi isso que eu disse ao pai de Gwen, muitas décadas atrás, quando ele disse que tinha medo de ficar comigo por causa de seu trabalho. Ele entendeu na época, mas costumava esquecer com tudo que enfrentava no dia a dia. Eu sempre tinha que lembrá-lo.

                Ela parou de falar ao ver os olhos do adolescente se encherem de lágrimas e Peter esconder o rosto com as mãos enquanto seus ombros tremiam. Se isso confirmava sua teoria de que George o fizera prometer manter distância da filha por alguma razão, não importava agora, no entanto.

                - Peter – ela chamou baixinho, e ele sentiu a mulher abraçá-lo enquanto chorava, exatamente como tia May faria – Tudo bem, tudo bem. Chorar é bom.

                Ele a abraçou de volta, grato por todos os outros habitantes da casa ainda estarem dormindo, e sentindo emoções confusas brigarem dentro dele, ao mesmo tempo que um alívio enorme o inundou. Helen o segurou e afagou suas costas, como faria por qualquer um de seus quatro filhos, e encarou Gwen quando ela apareceu na entrada da sala, e se apoiou na parede observando a cena. Seu olhar pareceu se ferir com o que viu, como se a dor de Peter a atravessasse, que era exatamente o que estava acontecendo. Apesar disso, ela parecia melhor. Seu rosto não estava mais pálido, e nem corado de febre, seu olhar mais vivo, e suas pernas mais firmes.

                Gwen não sabia exatamente o que fazer, mas aceitou o chamado da mãe para se juntar aos dois.

                - George cumpriu seu tempo aqui, mas Gwen ainda tem você, e vocês têm muito pra viver – Helen disse ao jovem, agora olhando em seus olhos, repousando uma mão em seu ombro e outra em seu rosto.

                Ele assentiu, sentindo o sofá atrás dele afundar, e um beijo em seu ombro o deixou saber que era Gwen. Secou os olhos e se virou para ela enquanto Helen se levantava.

                - Pareço patético? – Ele perguntou baixinho ao aceitar o abraço da namorada, ouvindo as duas mulheres rirem suavemente.

                - Não – Helen respondeu – Parece humano.

                As duas puderam vê-lo sorrir, apesar de estar com o rosto enterrado no pescoço de Gwen.

                - Obrigado, Helen.

                - De nada.

                - Você não tem mais febre – ele disse a Gwen dessa vez.

                - Como você se sente? – Helen perguntou à filha.

                - Melhor. Meu corpo ainda tá meio pesado, mas melhor.

                Helen assentiu.

                - Você vai ficar pra tomar café com a gente? – Gwen perguntou – Avisou tia May que tá aqui?

                - Avisei mais cedo.

                - Vou deixar pra acordar os meninos daqui a pouco. Conversem enquanto preparo tudo – ela disse sorrindo e saindo para a cozinha

                - Me desculpa – Peter sussurrou – Por não estar lá quando você acordou.

                - Eu sei – Gwen respondeu no mesmo tom – Você pode me dizer o que aconteceu? Nós ainda estamos bem?

                - Nossa, estamos! Estamos! Eu te amo! – Garantiu, beijando o ponto em seu pescoço onde ele estava se escondendo antes – Nunca mais eu vou deixar você. Eu vou seguir você pra sempre. E não me importo de repetir isso o resto da vida até você acreditar.

                Gwen respirou fundo, sentindo os olhos marejarem e um sorriso surgir em seus lábios. Ela o deixou beijá-la outra vez, como era antes, como sempre deveria ter sido.

                - Ei... – ele sorriu – Sua mãe é tão parecida com você.

                Gwen riu baixinho, e ouviu atentamente enquanto ele relatava os últimos minutos para ela.

******

                May olhou para a porta quando a ouviu ser aberta, sentindo o coração se encher de alegria ao ver um Peter totalmente diferente do que ela tinha deixado em casa na noite anterior. Retribuiu o sorriso do sobrinho quando ele deixou o skate na sala e veio radiante até ela, a abraçando e depois tirando da mochila uma embalagem com os ovos orgânicos que sabia que ela gostava tanto. May deixou o item no balcão e voltou a abraçar o filho adotivo enquanto ria junto com ele.

                - Então você e Gwen estão bem agora?

                - Sim.

                - Mesmo? Resolveram tudo? Sem pontas soltas?

                Ele assentiu.

                - Eu acho que ela ficou com medo quando fui embora. Por isso eu quis tomar café com eles. Ela ainda tá se recuperando, e... Preciso de tempo pra recuperar completamente a confiança dela depois de tudo isso.

                May concordou.

                - Vai acontecer. Ela ama você. E eu admiro o que Helen fez por você. Eu nunca quis te dizer antes, mas tenho pensado nisso.

                - O que?

                - Lembra quando seus pais te deixaram aqui, e às vezes você jurava tê-los visto na rua até perceber que eram só pessoas parecidas?

                Peter apenas balançou a cabeça em concordância, tentando manter sua surpresa por ela tocar nesse assunto, justamente agora, sob controle.

                - Quando Ben partiu, às vezes isso acontecia comigo.

                - Tia... Por que não me disse? – Perguntou, sentindo uma pontada de dor no coração por ela ter passado por isso sozinha, mas feliz em saber que não era o único que tinha passado por isso também.

                - Você estava péssimo.

                Peter assentiu, e a puxou para se sentarem à mesa.

                - Eu devia ter dito antes. Vocês sabem muito mais do que nós.

                - Vocês quem?

                - Vocês... Os mais velhos.

                Ela sorriu.

                - Eu vi George morrer naquela noite. Eu tava com a Gwen. Ele não achava que eu era bom pra ela, mesmo com a mãe dela e os irmãos gostando de mim. Antes daquilo acontecer, ele me fez prometer que eu a deixaria fora de perigo.

                May inspirou fundo, já sabendo perfeitamente porque, mas não tendo ideia se seria bom falar sobre isso com Peter agora.

                - Eu teria muito a lhe dizer sobre isso agora, mas acho que Helen já resumiu muito bem. O que eu deveria fazer mais é lembrar a você do grande homem que está se tornando, como eu e todos da nossa família nos orgulhamos de você, não importando onde estamos. Coisas acontecem, Peter, e nem tudo está no nosso controle. Ninguém tem o direito de decidir o futuro de outra pessoa, especialmente de pessoas tão jovens como você e Gwen. Eu sinto muito por tudo que você já viveu. Mas ninguém cresce ficando o tempo todo na zona segura. E eu sei que você fará algo bom com tudo que já aconteceu.

                Ele concordou.

                - Gwen está bem?

                - Bem melhor. Ainda se sente meio fraca, mas a febre passou durante a noite.

                May voltou a sorrir, apenas imaginando como Peter também havia ajudado nisso.

******

                E Peter cumpriu sua nova promessa. Ele sempre estava lá, fosse para vê-la, buscá-la para passarem o dia com May, para lhe fazer companhia durante a noite, ou até cuidar dela e melhorar seu humor quando estava numa época não muito agradável do mês. Ele também estava lá para levá-la ao baile de encerramento do colégio, e para beijá-la e pedi-la em casamento na frente de suas famílias e de todo o colégio no dia da formatura, logo após ela fazer seu discurso e Peter ser chamado para receber seu diploma, fazendo os gritos de alegria e os aplausos dos que assistiam durarem por um bom tempo até Gwen parar de chorar e libertá-lo do abraço em que estavam para os professores conseguirem continuar a cerimônia.

                O Homem Aranha continuava protegendo a cidade, e alguns outros vilões malucos tinham aparecido, mas eles superaram isso, sempre buscando maneiras de Gwen ajuda-lo à distância e aceitar ficar fisicamente longe dos locais onde ele lutava com pessoas muito perigosas. E assim eles seguiram, até começarem a estudar na SUNNY Empire State College, e se casarem em seu primeiro período de férias, tendo tempo para organizar tudo com calma. Era difícil conciliar estudos, trabalho, família, e ofício de super herói num único dia às vezes, mas eles podiam sobreviver.

                Se casaram num local arborizado da cidade, com suas famílias e alguns amigos, aproveitando sua lua de mel de alguns dias numa cidade próxima, tranquilos de que nenhum super vilão estivesse ativo no momento, assim a polícia daria conta sem o Homem Aranha por um tempo.

                Os anos passaram, e foi na comemoração de sua formatura da faculdade que Gwen disse a ele que estava grávida, enquanto ouviam Love Me Like You Do, de Ellie Goulding, tocando pelo salão. E Peter estava rindo, chorando, e a beijando antes de deixa-la contar a qualquer outra pessoa.

                 - Eu comprei isso pra você ontem – ele lhe disse, lhe mostrando um pequeno Homem Aranha de pelúcia, que Gwen não fazia ideia de como ele estava escondendo até então – Não podia ter sido numa ocasião melhor.

                Gwen pegou o bonequinho, rindo e com os olhos cheios de lágrimas.

                - Ele é tão fofo! Por que demorou tanto pra me dar um desses? Eu nem sabia que existia. E onde você achou?

                - Você já tem o Homem Aranha original. Não achei que seria tão exigente de querer um reserva.

                Gwen gargalhou, e lhe deu um beijo.

                - Eu encontrei naquela loja nova. Excelsior Plush. Quero te levar lá depois, quem sabe ainda hoje.

                - Vamos colocar no quarto dele.

                - Ou dela.

                Os dois sorriram se beijando novamente quando a música mudou para Say You Will Be There, das Spice Girls.

******

                Andrew George Benjamin Stacy Parker nasceu no dia 20 de agosto numa manhã alegre. Seus cabelos castanhos claros eram uma mistura perfeita dos de seus pais, e seus olhos castanhos iguais aos de Peter. Gwen respirou fundo ao finalmente se ver livre da dor e da sensação de que poderia desmaiar a qualquer momento.

                - Ei, já acabou – Peter falou baixinho com ela enquanto viam seu bebê chorar e ser rapidamente limpo e cuidado pela equipe médica.

                Gwen respirou aliviada enquanto Peter puxava a máscara por um instante para beijar demoradamente sua têmpora, e ela deixou as lágrimas correrem por seu rosto enquanto olhava para o marido com um sorriso, ao qual ele já retribuía. Andy, como já o estavam chamando carinhosamente, parou de chorar ao ser colocado no peito da mãe, e ouvir seus pais conversando baixinho com ele.

                - Ele ama você – Peter disse rindo – Olha como ele sorri.

                - Você vai ter sua chance também – Gwen respondeu, vendo o filho, com menos de dez minutos de vida, sorrir para ela, suas mãos o embalando protetoramente enquanto acariciava seu cabelo.

                Andrew cresceu sem muitos problemas, e apesar de todos os receios e preocupações de Peter com o passado, seu filho teve uma infância feliz. O pequeno chamava tia May de vovó, e só um tolo não notaria como isso a deixava feliz. Ele era incrivelmente amado por suas duas avós e por seus tios, e se mostrou ser tão perspicaz em habilidade de diálogo como sua mãe na primeira vez em que um garoto maior tentou fazer bullying com ele na escola, e desistiu em menos de um minuto. Seu filho tinha apenas oito anos, e já tinha o respeito dos colegas por isso.

                Com a morte de Harry, a Oscorp não existia mais há tempos, para o alívio de Peter e Gwen, ainda que estivessem sempre à espreita caso resolvessem retornar das sombras.

                A pergunta que eles sempre se fizeram quando viria, aconteceu enquanto Andrew ajudava Gwen a dar banho em sua irmãzinha, Emily. A bebê estava com três meses, e era igualzinha à mãe, a não ser por seu cabelo ruivo. Peter brincava que a filha era só dela. Gwen sempre morria de rir e fazia brincadeiras sobre isso.

                Emily morria de rir batendo as mãozinhas na água enquanto o irmão fazia gracinhas para ela, e Gwen ria junto. Peter estava preparando o jantar para eles enquanto isso.

                - Pai.

                - O que, Andy?

                - Você sabe quem é o Homem Aranha?

                Peter o olhou surpreso, parando o que estava fazendo e caminhando da cozinha até eles na área de serviço, onde havia armado a banheira retrátil de Emily hoje.

                - Por que você quer saber? – Perguntou com um sorriso.

                - Porque ele é super legal. E eu queria perguntar umas coisas a ele.

                - Que coisas, amor? – Gwen perguntou, trocando um olhar com Peter enquanto tirava a filha da banheira e a envolvia numa toalha.

                - Como ele se tornou o Homem Aranha? – Andrew perguntou, voltando a pegar o Homem Aranha de pelúcia no sofá, o mesmo que seu pai dera de presente a sua mãe oito anos atrás.

                - Sei lá... – Peter falou – Vai ver ele foi picado por uma aranha radioativa ou geneticamente modificada – disse com um sorriso.

                Então Andrew não perguntou mais nada, e se virou para olhar a porta, como se esperasse algo acontecer. Ele parecia estar apurando os ouvidos também, e de repente sorriu.

                - Vovó May e vovó Helen chegaram! – Ele exclamou, correndo para a porta.

                O casal arregalou os olhos, reconhecendo imediatamente o que havia acabado de acontecer. Peter também tinha percebido a chegada das duas, alguns instantes antes do filho, mas nunca esperou por isso. Trocando um olhar com a esposa, Peter seguiu para abrir a porta, não tendo mais necessidade de esconder sua surpresa de Helen, agora que ela também já sabia que ele era o Homem Aranha.

                - Vovó! – Andrew pulou para abraçar as duas ao mesmo tempo.

                Os três riram e fizeram a algazarra de sempre juntos até as duas mulheres perceberem os olhares do casal.

                - Peter – May chamou – Está tudo bem?

                - Sim, tia. Foi só uma questão sobre... Aranhas. Mas podemos voltar a falar sobre isso depois – ele sorriu, satisfeito por Andrew ter esquecido de seus questionamentos por enquanto, e grato por ele estar no início do período de férias.

                - Aconteceu algo interessante hoje? – Helen perguntou aos dois, que decifraram a mensagem imediatamente.

                - Sim, mãe – Gwen respondeu – De repente Andy ficou curioso sobre o Homem Aranha.

                - O Homem Aranha – ela concordou com um aceno de cabeça – Ele é um grande herói. Tenho certeza que é uma boa inspiração pra Andy.

                - Eu concordo – May falou – Mas agora por que você não nos conta como estão sendo suas férias, querido? – Ela perguntou ao neto.

                - Perdi o último dente de leite ontem – Andrew respondeu empolgado, mostrando às avós o espaço vazio entre seus dentes.

                - Que bom, querido! – Helen respondeu sorrindo.

                Helen e May o mantiveram ocupado e terminaram de organizar a cozinha enquanto Peter e Gwen secavam e vestiam Emily em seu quarto.

                - Ei, Em – Peter chamou enquanto vestia a filha com uma fralda – Você também vai ter surpresas pra nós quando crescer? Além desse cabelo?

                A pequena gargalhou quando o pai lhe fez cócegas beijando sua barriga.

                - Ou vai ser só adoravelmente linda, doce, gentil, teimosa, super inteligente, e perfeita como a mamãe?

                Ele ouviu Gwen rir, e quando se virou para olhá-la, ela o puxou para um beijo demorado.

                - Também te amo – Gwen lhe disse, sorrindo junto com o marido enquanto vestiam Emily com um body temático escrito Mini Spice Girls Fan – Como vamos dizer a ele que o que acabou de acontecer foi o sentido aranha?

                - Andy gosta de observar as coisas pra ver no que vai dar antes de falar sobre elas, que nem você. Se ele começou a nos perguntar isso hoje, eu acho que algo que ele não nos contou pode já ter acontecido sem percebermos. Vamos falar com ele sozinhos primeiro. Depois que tia May e Helen forem pra casa, ou amanhã bem cedo.

                Gwen consentiu.

                - Como vamos começar isso?

                - Perguntando a ele sobre o que aconteceu lá na sala agora. Como isso foi pra ele, e depois explicar o que é – Peter sugeriu.

                - Então ele vai perguntar como sabemos disso.

                - E eu posso começar contanto a história do meu pai até chegarmos em nós. Acha que ele vai ser tão bom em guardar segredo quanto você?

                - Você também é bom nisso, as circunstâncias é que às vezes não colaboram. Provavelmente ele vai. Não fique tenso com isso agora, é só o sentido aranha por enquanto. Deixe pra ficar maluco quando ele começar a subir pelas paredes.

                Peter riu.

                - Vamos tentar jantar tranquilos então – respondeu, beijando os cabelos da filha em seu colo, e os lábios da esposa antes de se juntarem a May, Helen e Andrew.