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Homem Aranha: 4ª parede

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                Foi quando estavam saindo abraçados, rindo e conversando de outra visita ao Empire State Building, dessa vez apenas os dois, que tudo começou. O horário foi mais tardio que da última vez, o que os permitia evitar melhor fãs agitados e fotógrafos inconvenientes. Emma e Andrew realmente amavam seus fãs, mas ainda eram humanos, e havia momentos em que só queriam chegar em casa e descansar para continuar as gravações de O Espetacular Homem Aranha no dia seguinte. E costumavam se dar relativamente bem com os fotógrafos espiões, até chamavam alguns para conversar às vezes ou aproveitavam a atenção repentina para erguer placas indicando instituições de caridade que mereciam atenção e ajuda.

                Estavam um tanto disfarçados, pretendendo ir tão longe quanto seus óculos, toucas e casacos permitissem antes de serem percebidos. Caminharam de braços enlaçados para um ponto mais deserto a fim de localizar algum táxi.

                - Você é maluco – Emma falou rindo – Tirar fotos de uma altura daquelas daquele jeito... De novo.

                Ele riu junto com ela.

                - Eu sou o Homem Aranha. Faz todo sentido tirar uma foto do alto do Empire State Building fingindo que estou suspenso por uma teia como Peter faria.

                - Acho que eu ficaria tonta sem os cabos de segurança.

                - Bom ponto. Por isso pedi pra você e pro guia segurarem minhas pernas por precaução. Nenhum de nós quer acordar com a morte do Homem Aranha estampando a primeira página do New York Times porque estava sem lançadores numa foto.

                - Andrew! – Emma exclamou gargalhando junto com ele.

                Ele estendeu o braço para chamar um dos dois táxis que surgiram entre os carros, ainda meio distantes, recebendo um aceno positivo de um dos motoristas pela janela.

                - Vou deixar você em casa primeiro.

                - Sua casa é mais perto daqui.

                - Não interessa. Só vou dormir tranquilo com minha garota devidamente segura em casa.

                Ela sorriu e o beijou nos lábios, interrompendo o contato quando ouviu Andrew inspirar fundo, e pelo som que escapou de sua garganta, ele parecia sentir dor.

                - Você tá bem? – Perguntou ao se afastar dele, que tinha os olhos meios arregalados, entre susto e confusão.

                - Ai! – Andrew exclamou levando a mão para o lado direito do pescoço como se quisesse capturar um inseto – Mas o que foi isso? – Perguntou para si mesmo abrindo a mão para ver que capturara uma pequena aranha negra e marrom avermelhada, diferente de todas as que já vira em sua vida.

                - Ai, meu Deus! Ela feriu você?!

                Emma soltou seu braço e seguiu para o outro lado, puxando a gola do casaco para tentar enxergar a pele de seu pescoço entre as sombras noturnas geradas pelas luzes em volta.

                - Não sei, mas doeu.

                - Ela morreu?

                - Sim, não tá se mexendo.

                Olhando para o suposto local da mordida, Emma viu uma marca vermelha saliente e passou os dedos por ela, fazendo Andrew saltar por instinto para se afastar do toque, coisa que normalmente ele nunca faria com ela.

                - Desculpe, Em. Tá doendo.

                - Não se livra da aranha, guarda.

                - Mas...

                - Se isso te fizer mal, vai ser útil saber que animal foi. Esqueça nossa merecida noite de descanso, melhor irmos a um hospital.

                - Em, estou bem. Só dói.

                - Está bem agora. E mais tarde? E se você morrer dormindo?

                - Bem que você disse que seu pior hábito é se apavorar por nada.

                - Nada? Andrew Russell Garfield! É da sua vida que estamos falando. E nem vou falar sobre um filme que milhões de pessoas estão esperando e muitas outras trabalhando duro por ele, porque a sua vida ainda é mais importante que essas outras duas coisas.

                Ele sorriu para ela enquanto via Emma resgatar uma embalagem vazia de plástico em sua bolsa e tirar a aranha de sua mão para guardar. E se eles iriam mesmo para casa ou um hospital, teria que ser decidido já, pois o táxi acabara de parar na frente deles.

                - Hospital! – Emma falou quando o empurrou para dentro do táxi, e pediu que o motorista os levasse com urgência ao centro de saúde mais próximo.

                Entre sinais e algumas ruas meio cheias de carros, eles conseguiram se divertir quando de cara o motorista os identificou, sendo ele e seus filhos fãs de longa data do Homem Aranha, se mostrando calmo e alegre, e perguntando se estavam bem. Sabendo do que acabara de acontecer, ele fez seu melhor para chegar o mais rápido possível, em segurança, ao Mount Sinai Beth Israel. Os dois tiraram uma foto sorridentes com o homem antes de agradecer, pagar a corrida e seguirem para seu destino.

******

                - Viu? Medicação e compressa quente. Eu vou ficar bem, não encontraram nada de errado no exame de sangue também.

                - Mas podia não ficar. Como saberíamos que aranha é essa e o que pode fazer?

                - Não posso discordar. Não sei quase nada sobre aranhas na vida real.

                Ele não insistiu pelo contrário quando Emma decretou que passaria a noite com ele e cuidaria da lesão, ainda avisando à equipe de filmagens o que tinha acontecido, que Andrew estava bem, e provavelmente não teriam mais problemas.

                A equipe do hospital tivera dificuldades de identificar a aranha quando Emma a mostrou, e sugeriram algumas espécies compatíveis, orientando ambos a retornarem imediatamente se algo acontecesse.

                - Tire esse monte de roupas, precisamos cuidar disso – ela falou se livrando de touca, óculos, casaco, bolsa, deixando tudo na mesa e seguindo para a cozinha, onde Andrew a ouviu pegar uma panela nos armários e enchê-la de água.

                Ele seguiu o gesto da amada, removendo suas vestes de frio, óculos, e abrindo os primeiros botões da camisa, para facilitar o acesso à picada em seu pescoço. Indo até o espelho do banheiro, puxou a roupa para observar a lesão. Estava começando a clarear, talvez por efeito do medicamento recebido no hospital, mas ainda com um pouco de inchaço e dor. Se arrependeu imediatamente ao tocar o lugar e sentir a dor correr por sua cabeça.

                - And, onde você está?

                Ele voltou ao quarto ao ouvi-la chamar, vendo Emma segurar a bolsa térmica envolta numa toalha para proteger suas mãos e a pele dele da alta temperatura.

                - Sente-se, vamos cuidar logo disso.

                Andrew tirou os sapatos e se arrastou para o lado dela na cama. Emma abriu o restante dos botões de sua camisa e puxou o tecido para longe de seu pescoço, aplicando suavemente a compressa ali. Gemeu rapidamente de dor ao sentir o contato, e virou o rosto para olhar para ela, que sorria para ele enquanto mantinha a compressa no lugar.

                - Que coisa, não, garoto inseto?

                Andrew riu.

                - Acho que isso é um sinal, eu nasci pra ser o Homem Aranha, até as próprias aranhas sabem disso.

                - Sim, você é espetacular!

                Os dois riram juntos e entrelaçaram os dedos de uma das mãos.

                - Tá doendo muito?

                - Menos. Você não pretende passar a noite toda me vigiando, não é? Precisamos dormir, ainda que amanhã só retomemos as gravações à tarde.

                - Você espera que eu deite e durma tranquila depois disso?

                - Se fosse perigoso teriam me deixado internado. Tem que ter esperança, Gwen.

                Ela sorriu de novo, e Andrew sorriu de volta. O sorriso dela era uma das coisas mais lindas que já tinha visto, e uma das que mais amava.

                - Você quer fazer alguma outra coisa além de cuidar de mim? Não jantamos ainda, e podíamos assistir alguma coisa.

                - Vamos pedir comida daquele restaurante maravilhoso, não tô com coragem de cozinhar hoje.

                - Nem eu – ele respondeu – Eu aceito a sugestão.

                Meia hora depois os dois estavam sentados na cama, comendo e conversando sobre assuntos aleatórios, a ideia dos filmes e a compressa esquecidas no momento.

                - Não importa quantas vezes você me conte essa história de como convenceu seus pais a se mudarem pra Los Angeles – ele riu junto com ela – Eu adoro ouvir de novo.

                - Que bom que concordaram comigo. Poderia ser outra pessoa cuidando de você agora.

                - Nem brinque com isso! Tinha que ser você.

                Ele nunca se cansaria de ver o sorriso dela. Foi pensando nisso que a beijou demoradamente.

                - Tem certeza que tá melhor? – Emma perguntou depois de inspirar fundo com o fim do beijo.

                - Tenho, Em – garantiu, beijando a têmpora da namorada.

                Andrew levou tudo que estavam usando para a cozinha, separando o que iria para o lixo e para a reciclagem, enquanto Emma tomava banho para dormirem em breve. Eles deixavam pertences na casa um do outro justamente para ocasiões como essa. Vendo-a voltar ao quarto, usando uma camiseta sem mangas e um short, ele a beijou e seguiu para o banheiro, aproveitando a água quente para aliviar o machucado no pescoço. Quando voltou ao quarto, vestindo apenas o short do pijama, Emma estava arrumando os travesseiros e tinha uma nova compressa para ele.

                - Deita aqui.

                Andrew obedeceu, e a viu apagar a luz, deixando apenas a luz fraca da lamparina numa pequena mesa que havia no canto do quarto, para nenhum deles andar às cegas caso acordasse no meio da noite, em seguida deitando ao lado dele, puxando o lençol sobre os dois e recolocando a bolsa térmica em seu pescoço enquanto lhe dava um beijo.

                - Tem que prometer que vai me acordar se sentir alguma coisa – ela disse com firmeza.

                - Eu prometo, querida. Confie no seu amigo da vizinhança.

                Emma riu baixinho e os dois conversaram até a bolsa térmica esfriar e a deixarem de lado no criado mudo.

                - Você também precisa dormir – Andrew disse – Por favor, não vai ficar me vigiando.

                - Eu sei.

                Os dois se abraçaram e ele acariciou os cabelos dourados da amada até reconhecer a respiração calma que o deixava saber que ela estava realmente adormecida, para enfim também fechar os olhos e descansar.

******

                - Andrew...? – A voz preocupada de Emma chegou distante a seus ouvidos, mas ele não conseguiu se concentrar em responde-la.

                Sua mente estava agitada e flashs da aranha que o atacara na noite anterior passavam por sua visão. Cores vibrantes pareciam piscar em volta, e ele sentia algo correndo por suas veias, às vezes o fazendo sentir-se gelado por dentro, às vezes deixando-o em chamas. Se sentiu estremecer e uma mão preocupada de Emma encontrou seu peito quando ela o sacudiu. Por um momento ela não disse nada, e manteve a mão ali, como se procurasse sentir seu coração. Ele soube disso porque ouviu a respiração dela sincronizar com a sua enquanto ela escutava e sentia. Emma falou de novo, e sua voz estava começando a ficar em pânico, mas Andrew não conseguia abrir os olhos enquanto as imagens estranhas continuavam se processando em sua mente. Talvez devesse ter dado mais atenção aos temores de sua namorada na noite anterior. Será que ainda era madrugada? Ele não conseguia ver.

                - Você tem febre – ela falou num tom que parecia com choro – Temos que voltar ao hospital!

                - Em...

                - Estou aqui – ela respondeu segurando sua mão com firmeza.

                - Não chore – Andrew finalmente conseguiu dizer quando sua mente começou a se reorganizar e ele abriu os olhos, sendo ofuscado pela luz da janela aberta, e tendo o impulso de fugir quando a luz pareceu muito mais forte que o normal.

                Antes que qualquer um dos dois tivesse tempo de registrar o que estava acontecendo, seu corpo pareceu reagir sozinho, e num milésimo de segundo ele saltou da cama para o teto. Sim, o teto!! Sem sequer entender como conseguia ficar preso ali, e imediatamente lembrando-se da cena do metrô que gravara dias atrás.

                - And... – Emma falou chocada num fio de voz olhando para ele, algumas lágrimas ainda deixando seus olhos.

                - Em... – sussurrou, olhando para os próprios membros e vendo que estava preso exatamente como Peter Parker na cena do metrô, suas mãos e pés estavam grudados no teto – Como...?

                A primeira coisa que ele temeu foi assustá-la o suficiente para que ela corresse e não quisesse mais ficar perto dele.

                - Eu não sei – ela respondeu, secando o rosto com as mãos – Você tá bem? Sente dor?

                Andrew sentiu seu coração queimar de amor por ela mais uma de tantas vezes. Ele devia tê-la apavorado agora, mas ela estava preocupada com ele.

                - Consegue descer daí?

                - Não sei... Me desculpe, Em.

                - Pelo que?

                - Te assustar. Não tenho ideia de nada agora...

                - Eu sei. Eu sei, amor. Desça daí, e vamos cuidar disso juntos.

                - Não sei como descer.

                Emma pareceu pensar por um instante antes de falar.

                - Tente andar pelo teto até chegar na parede.

                Andrew olhou mais uma vez para as mãos presas ali e tentou movê-las, mas sem sair do lugar, só depois de várias tentativas conseguindo mover uma delas para outro ponto no teto.

                - Sem teias você vai se machucar... – Emma tentava refletir, e sem sequer perceber entrando no perfeito raciocínio do herói interpretado pelo namorado – Ainda bem que está bem em cima da cama. Você tá nervoso... Peter sempre diz nas histórias que nessa situação é só se acalmar. Tente fazer isso. Com cuidado.

                Andrew assentiu, e fechou os olhos por um instante, respirando fundo por alguns minutos, começando a sentir a pressão dos pés e mãos no teto aliviar. Ele desprendeu os pés primeiro, depois uma das mãos, conseguindo mirar a cama e cair sobre ela quando soltou a outra. Emma correu imediatamente para abraça-lo com força e acariciar seu cabelo. Andrew encolheu as mãos e pés, tentando evitar tocar nela.

                - Tá tudo bem – ela disse beijando sua testa – Tudo bem.

                Andrew fechou os olhos enquanto Emma ainda o abraçava contra o peito e afagava suas costas, a outra mão dela ainda enredada em seus cabelos.

                - Eu achei que você tava morrendo – ela falou num fio de voz.

                - Eu também.

                Os dois ficaram assim, abraçados e mudos por vários minutos que pareceram uma eternidade.

                - O que é que foi isso? – Ele finalmente perguntou – Eu morri e vim parar num universo paralelo? Quebra da quarta parede como o Deadpool fala nos filmes dele?

                - Eu não sei... Você... Foi picado por uma aranha esquisita não identificada, e... Virou literalmente o Homem Aranha. Como...? Se alguém quebrou a quarta parede, foi aquela aranha.

                - Acho que teríamos mais respostas perguntando a Stan Lee ou Steve Ditko.

                - Como eles saberiam disso?

                - Eles o criaram.

                - Mas... Andrew... Eu não sei nem o que pensar.

                - Nem eu.

                - Algum maluco fanático pode ter criado essa aranha? E deixado solta assim? Ou ter deixado escapar? Isso é muito perigoso.

                - Emma, não vamos achar respostas aqui. E não podemos sair perguntando a qualquer pessoa. Você guardou o cadáver da aranha, vamos tentar descobrir alguém confiável pra analisa-lo. E não, não vamos voltar ao hospital, eu seria detido como experimento vivo, ou pela polícia, isso é uma coisa dos filmes e séries que não é tão mentirosa. E se eu fosse morrer acho que teria acontecido durante a madrugada.

                - Eu não sei o que fazer... Talvez seja mesmo uma boa ideia falar com o Stan Lee, ele vai aparecer pra gravar no set esses dias. Quem sabe? É um ponto de partida de qualquer forma.

                - Você já ouviu aquelas histórias reais de pessoas que passaram por acidentes ou doenças e quando se recuperaram desenvolveram alguma habilidade sobre humana? Talvez tenha sido só isso.

                - Só isso?! Você grudou no teto!

                - Tem pessoas que grudam em metal, ou o metal gruda nelas.

                Ela o olhou pensativa por um tempo, dando de ombros sem ter ideia do que realmente fazer.

                - Vamos fazer o que podemos agora. Você tem um pouco de febre, vamos cuidar disso, e me deixe ver o lugar da picada.

                Andrew abaixou a cabeça para expor o pescoço para ela, e Emma arregalou os olhos ao ver que ali não havia absolutamente nada.

                - Em... O que foi? Não me diga que minha pele tá começando a parecer com a de uma aranha que nem acontece com o Lagarto.

                - Não... Não tem mais nada, tá perfeito, completamente curado – ela disse deslizando os dedos pelo local, confirmando a cura quando Andrew não demonstrou sentir qualquer sinal de dor.

                - Que loucura...

                - É... Me deixa ver suas mãos.

                Ele sentou-se na frente dela e olhou para as próprias mãos antes de abri-las, recuando-as para trás quando Emma tentou tocar.

                - Isso dói?

                - Não. Só sinto um formigamento, mas já tá passando. É que... Não quero arriscar machucar você caso minha mão fique presa na sua.

                Emma segurou os pulsos dele antes que conseguisse recuar novamente.

                - Você não vai me machucar. Fique calmo, como ficou pra descer do teto.

                Andrew assentiu e permitiu, ainda com receio, que ela deslizasse os dedos pela palma de sua mão direita, sentindo a textura áspera das micro estruturas que o permitiam se prender às paredes e ao teto. Ela fez isso algumas vezes, até que Andrew estava tão distraído observando-a, que seu coração se acalmou, e Emma sentiu sua pele se tornar suave novamente quando a nova habilidade foi desativada.

                - Vê? Nós podemos lidar com isso juntos – ela sorriu – Pelo menos até descobrirmos o que tá acontecendo, ou enlouquecermos tentando.

                Dizendo isso, ela levou a mão dele para o próprio rosto, e Andrew não resistiu a acariciar sua pele, começando a sentir-se confiante novamente e a puxando para um abraço. Emma o apertou contra ela, voltando a acariciar seu cabelo. Oh, ela amava seu cabelo, e Andrew sabia que Emma podia passar horas brincando com os fios castanhos quando tinham tempo para ficar sozinhos.

                - Eu estaria perdido sem você.

                - Todo herói precisa de um apoio no meu ponto de vista. Eu e Gwen concordamos nisso.

                Ele sorriu contra o pescoço da amada e a beijou ali.

                - Eu quero realmente escrever um livro sobre o que eu sinto por você.

                Emma riu, fazendo o coração do amado se inundar de alívio e alegria por tê-la com ele, especialmente agora.

                - Você de novo com essa história.

                - É uma boa ideia, Em. Eu escrevo o volume 1, depois você escrever o 2 como réplica, e podemos escrever o 3 juntos, como peças de um quebra cabeça literário. Se um dia nossas carreiras em Hollywood e Broadway não derem mais certo, já teremos uma profissão extra.

                Emma gargalhou enquanto o abraçava mais forte.

                - Só você mesmo pra inventar isso.

                Andrew sorriu antes de retomar o assunto principal de suas preocupações.

                - O que vamos fazer hoje? Temos que gravar essa tarde. E se perceberem algo? Vão parar tudo.

                - Calma, garoto inseto – a loura falou na voz mais doce que já ouvira dela – Primeiro vamos nos levantar, tomar banho e cuidar dessa febre. Então vamos, com todo cuidado do mundo, testar essas suas habilidades pra você se acostumar com elas. Ainda são sete da manhã, temos tempo até às duas da tarde.

                Durante a próxima hora, eles tomaram café da manhã juntos e se arrumaram para o dia. A água morna do chuveiro ajudou a reduzir a febre em quase 100%, e Emma observou o namorado testar as novas habilidades subindo por uma das paredes do quarto, e sorriu ao ver que ele não ficava mais preso quando começou a se divertir com isso.

                - Eu tô começando a gostar disso.

                - Eu tô vendo.

                - Será que devo sair e frustrar algumas tentativas de crime antes de irmos pra o set?

                - Não! De jeito nenhum, Garfield! – Respondeu com firmeza – Não foi pra isso que você nasceu, vai continuar preservando sua vida enquanto entendemos o que aconteceu, e se isso é ou não permanente.

                - Era brincadeira, Em – ele disse enquanto surgiu ao lado dela na parede, de cabeça para baixo, e lhe roubou um beijo quando a loura virou o rosto para encará-lo.

                - Você é incorrigível – ela falou vendo-o rir antes de tomar o rosto dele nas mãos e beijá-lo de volta – Sonho aranha realizado? – Perguntou enquanto o viu voltar ao chão e ficar de pé.

                - Sempre tive curiosidade de saber como era isso.

                - E o que achou?

                - Não é o ângulo mais confortável, mas beijar você é perfeito de qualquer forma.

                O sorriso dela aumentou, e Andrew a deixou enlaça-lo pelo pescoço e beijá-lo mais uma vez.

                Um som do celular os interrompeu e olharam para o aparelho jogado em cima da cama. Emma o apanhou e olhou a mensagem.

                - É o pessoal do set, querendo saber se você está vivo.

                - Perguntaram literalmente assim?

                - Sim – ela riu enquanto respondia a mensagem – Vou dizer pra não se preocuparem. Nós vamos como previamente acertado.

                Andrew assentiu e decidiu verificar o que levariam ao sair para o trabalho mais tarde. Procurava seu celular dentro da mochila quando o achou da maneira mais inusitada possível, e respirou fundo antes de olhar, já tentando acostumar sua mente a mais essa situação inexplicável, e instantaneamente lembrando-se do Homem Aranha estrelado por Tobey Maguire.

                - Em...

                - O que? – Ela perguntou, apreensiva pelo tom de voz dele – And, o que você tem?

                Ele ergueu a mão em resposta, vendo Emma arregalar os olhos ao ver o celular preso a seu pulso.

                - Isso é...

                Andrew segurou o aparelho e o puxou para longe, revelando um emaranhado de teias de aranha conectando o celular a seu pulso.

                Emma sentou-se a seu lado na cama, agora realmente sem saber o que dizer.

                - Será que isso também aconteceu com Tobey? E ele escondeu do mundo por todos esses anos? – Andrew se perguntou, fazendo a namorada sair de seu transe.

                - O que...? Andrew, são anos, alguém no mínimo desconfiaria.

                - Só quatro anos, Em. Não é tanto tempo assim.

                - Eu não vou enlouquecer agora decidindo com quem falar sobre isso primeiro, e não custa lembrar que você tá proibidíssimo de sair por aí caçando bandidos, deixe isso pra Peter e Gwen. Vamos encontrar uma forma de você aprender a lidar com essas teias até às duas da tarde. Por enquanto é o que podemos fazer.

                Andrew assentiu, quebrando as teias para libertar seu celular e olhando para o próprio pulso, vendo as teias transpassando sua pele. Levantou-se com ideias em mente e tentou lançar as teias para o chão, procurando lembranças em sua mente de como Peter reagira a isso nos filmes de Tobey. Fixou a ideia na cabeça, de simplesmente lançar as teias, como respirar, você só respira, e dessa forma conseguiu lança-las para o chão com as duas mãos de uma vez, sorrindo com seu feito.

                - Acho que vou pegar o jeito rápido.

                Emma sorriu.

                - É bom mesmo.

                Sem avisá-la, Andrew rompeu as teias que acabara de lançar e lançou outra, prendendo-a na roupa da namorada e a puxando para ele, exatamente como Peter fizera com Gwen, e abraçando-a quando ela colidiu contra si.

                Emma riu surpresa e se divertindo ao mesmo tempo.

                - Nossa... Você é o Homem Aranha? – Ela brincou com ele.

                - Cala a boca – Andrew respondeu antes de beijá-la.

                Nesse momento os dois se permitiram esquecer de seu problema aranha e se entregar aquele carinho até sentirem o coração mais leve, e sem ninguém para interromper dizendo que precisavam ir a qualquer outro lugar. Andrew beijou a testa dela quando Emma o abraçou, e ficaram ali olhando por entre as persianas meio abertas da janela. O clima estava mais alegre que no dia anterior, e havia sol lá fora. Emma olhou para o relógio despertador que havia no criado mudo antes de fazer sua sugestão.

                - Vamos a um parque? Ou andar por aí um pouco? Ainda são nove e meia da manhã, temos tempo.

                - Meu passatempo favorito é ficar com você.

                - O meu também, amor. Mas acho que, dadas suas novas condições, andar por aí entre outras pessoas pode te ajudar a se acostumar com isso, a sentir, entender, encontrar em você uma forma pra lidar com isso em público enquanto descobrimos o que tá acontecendo. Você vai chegar mais seguro no set hoje à tarde, e vamos conseguir fingir que nada aconteceu com mais facilidade.

                Andrew olhou pela janela, parecendo refletir.

                - O dia tá bonito hoje. Eu gosto de passear com você, especialmente em dias assim.

                - Você quer mais meia hora pra treinar com as teias?

                - Acho prudente.

                Emma arrumou o que levariam para o set, caso decidissem seguir para lá direto de seu passeio, enquanto se divertia vendo Andrew tentar arrumar a cama puxando os lençóis para o lugar com as teias, e se saindo até bem, embora não tanto na hora de desprende-las.

                Surpreendentemente meia hora foi suficiente para ele adquirir confiança o bastante para ao menos sobreviverem ao dia de hoje. E seu treino improvisado terminou com ele a surpreendendo de novo a abraçando e deixando os dois suspensos por uma teia forte presa ao teto.

                - Eu não vou voar no meio de prédios com você.

                Andrew riu.

                - Eu não tenho intenções de colocar você em risco assim – garantiu a beijando e os descendo para o chão.

                Emma segurou a mão dele quando estavam prestes a sair, e o encarou.

                - Respira fundo, lembra de tudo que conversamos, se concentra em manter suas emoções calmas, especialmente se encontrarmos fãs agitados e fotógrafos escondidos, principalmente com os fotógrafos.

                Ele concordou com um aceno de cabeça.

                - Se algo acontecer vamos usar uma das desculpas que combinamos pra sair de cena discretamente fugindo pro estabelecimento mais próximo.

                Andrew assentiu outra vez quando saíram e trancaram a porta.

                - O que sempre digo, eu estaria perdido sem você. Você é minha direção, Em.

                - E você a minha – ela sorriu para ele antes de beijá-lo e os dois seguirem para seu passeio.

                O táxi os levou a um parque arborizado mais distante da cidade, onde havia pessoas, mas poucas, e seria ideal para Andrew relaxar e testar como lidaria com suas novas, e secretas, habilidades em público. Encontraram alguns fãs, incluindo crianças loucas por Peter e Gwen, até sentaram na grama com os pequenos para conversar, tirar fotos e brincar com eles, fazendo esse ser um dos momentos mais felizes do dia, no qual, felizmente, nenhuma das habilidades aranha foi ativada por acidente. Quando voltaram a caminhar, perceberam um fotógrafo escondido os seguindo, e Andrew o chamou para conversar quando o jovem tentou fugir. Os dois o tranquilizaram e até o deixaram tirar uma foto, uma vez que logo estariam indo embora para almoçar, também aproveitando para mostrar as placas que sempre carregavam de apoio a instituições de caridade que os dois acompanhavam.

                Enquanto esperavam seu transporte para seguir para o almoço, o casal não percebeu que um senhor de idade, sorridente e usando óculos escuros os observava de longe.

                - Isso não estava nos planos... – o idoso disse para si mesmo – Mas assim como ajudei seu irmão a lidar com isso, também vou ajudá-lo, filho.

                Decidindo que interromper o passeio dos dois não era o melhor momento para tocar no assunto, e que em breve se encontrariam no set, Excelsior sorriu ao vê-los entrar no táxi e partirem dali.