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CAPÍTULO I

Primeiro Pecado

 

Baekhyun estava entediado.

Na verdade, ele ficava entediado a maior parte do tempo enquanto estava no Inferno. O demônio já havia desbravado todos os lugares mais assustadores de todos os nove Círculos Infernais e enquanto ficava no Segundo Círculo, sua moradia no submundo, Baekhyun se sentia irritado por não ter nada de interessante para se fazer.

O demônio gostava de ir até a Terra porque , pelo menos, ele se divertia. Conhecia novos humanos, os assustava com algumas poucas palavras e expressões maldosas e – além disso – selava pactos. Afinal, esse era o seu trabalho como um Grimório .

“O Minos quer te ver...” Baekhyun murmurou arrastado, com a cabeça encostada contra o batente da porta do quarto de Kyungsoo – seu colega Grimório. Kyungsoo estava deitado em sua cama e parecia irritado por ter sido tirado de seu descanso.

“Mas eu acabei de voltar de uma missão...” O demônio de pele leitosa falou, se sentando enquanto fazia uma careta.

“Você acha que ele se importa com isso?” Baekhyun perguntou entre uma risada fraca. “Os humanos estão a todo o momento querendo fazer pactos, você sabe disso.”

Baekhyun poderia não admitir, mas considerava Kyungsoo como sendo seu único amigo no Inferno. O demônio de cabelos pretos e pele alva havia chegado ao Inferno através de um Grimório que Baekhyun particularmente não gostava e quando este fora morto por um anjo, Baekhyun não sentiu nenhuma pontada de tristeza. O que ele fez foi se aproximar do novo demônio e, desde então, Kyungsoo é obrigado a aguentar o jeito desagradável do Grimório de cabelos castanhos.

O próprio Baekhyun sabia que sua personalidade não era das melhores e o fato era que preferia se manter dessa maneira, pois assim evitava aproximações demasiadas com os outros ao seu redor. Se tinha uma coisa que Baekhyun aprendera durante sua existência como humano era que se apegar a qualquer coisa, ser vivo ou não, sempre terminaria em tristeza e nostalgia para si.

Pois nada dura para sempre .

“Quem mandou nós virarmos demônios Grimório do Segundo Círculo, Kyung?” Baekhyun perguntou retoricamente, usando um tom sarcástico, no meio da conversa que ele e Kyungsoo mantinham enquanto se dirigiam à sala de Minos – o juiz do Inferno e líder do Segundo Círculo Infernal – onde os portais para a Terra se localizavam.

Claro, ninguém os mandou se tornarem demônios de pactos... Ser um Grimório era uma consequência de seus próprios atos e eles teriam que arcar com suas responsabilidades. 

Gostando ou não.

 

 

A Torre do Prazer – onde Minos permanecia – ficava há algumas centenas de metros de distância da Torre dos Ventos. Baekhyun e Kyungsoo caminharam durante todo o tempo tentando se proteger como podiam da ventania feroz que os castigava. O sobretudo negro que os dois vestiam esvoaçava e os cabelos fustigavam em seus rostos.

Estava escuro, mas a ventania levava embora um pouco das trevas, os ajudando a enxergar o caminho entre o deserto. A Torre do Prazer era grande, feita de ouro maciço e haviam dois guardas na porta de entrada, como acontecia normalmente com todos os lugares do Inferno. Sempre havia algum Baal protegendo os acessos aos principais pontos Infernais.

Antes que os demônios Grimório conseguissem entrar na Torre, Baekhyun discutiu com os dois Baal que estavam guardando a entrada. Baekhyun não gostava dos demônios da classe dos guardiões, por sempre andarem com um ar de superioridade por serem os responsáveis pela guarda dos locais do Inferno, achando que os outros lhe deviam algum respeito quando, na verdade, estavam em um dos patamares mais baixos quanto à hierarquia demoníaca.

Baekhyun estava entediado, queria ir logo à Terra, então não pestanejou em discutir com os guardiões até que estes abrissem as portas da Torre do Prazer e saíssem do caminho para que ele e Kyungsoo pudessem adentrar o local. 

Dentro da Torre não ventava. O calor tocou suas bochechas e não havia mais barulho algum. 

“Odeio esses guardiões...” Baekhyun murmurou ajeitando seus cabelos bagunçados pelo vento.

Kyungsoo e Baekhyun tiveram uma breve conversa sobre os demônios Baal e sobre eles mesmos, antes de se dirigirem até a porta da sala de Minos, batendo sem força três vezes e ouvindo um chamado logo em seguida.

A porta se abriu e revelou uma sala grande, espaçosa, com uma mesa no centro. As paredes do cômodo tinham vários portais envoltos em trevas, sendo impossível visualizar o que havia do outro lado. A parede atrás da mesa de centro era coberta de muitos, muitos nomes riscados com uma letra de aspecto desagradável, irregular. Nomes dos mortos que Minos julgou desde que virara líder do Segundo Círculo, provavelmente.

“Vocês demoraram...” O demônio com aparência de um homem adulto, cabelos compridos e escuros, comentou quando os dois Grimório entraram na sala e fecharam a porta atrás de si.

“Desculpe-nos, Minos. Os guardiões da torre nos atrasaram.” Baekhyun falou baixo enquanto pousava um joelho no chão perante o líder, sendo seguido por Kyungsoo.

“Pare de colocar a culpa de tudo em qualquer Baal que você vê, Baekhyun, antes que eu lhe rebaixe e você se torne um deles.”

Kyungsoo olhou rapidamente para o seu colega, mas não viu reação por parte deste, que se manteve calado à ameaça de seu superior. Os dois Grimório se levantaram e caminharam com calma até aproximarem-se da mesa de Minos.

“Cada um de vocês vai visitar um humano e concluir um pacto. Vocês precisam chegar até o mortal o mais rápido possível, antes que algum anjo o faça.” Minos falou olhando para os dois demônios à sua frente. “Para hoje temos uma mulher e um homem, quem vai querer o quê?”

Baekhyun olhou para Kyungsoo com um meio sorriso.

“Chefe, ele vai querer o homem, Kyungsoo prefere fazer sexo com homens e—”

Baekhyun não conseguiu terminar sua frase antes de receber um chute na canela por parte de seu colega. Os dois Grimório se fuzilaram com os olhos e Minos deu uma risada fraca.

“Que assim seja, então... Kyungsoo, você entra naquele portal e segue a aura frágil do humano que deseja fazer o pacto, como você já está acostumado a fazer.” Minos apontou para um portal à direita de Kyungsoo e o Grimório engoliu em seco antes de se aproximar do pórtico envolto em trevas.

“Espero que seja alguém velho!” Baekhyun falou alto e Kyungsoo revirou os olhos antes de dar alguns passos até atravessar o portal.

Baekhyun ainda sorria quando olhou novamente para Minos, que o encarava com uma sobrancelha erguida. O sorriso no rosto do Grimório morreu e ele esperou o líder lhe dizer o que deveria fazer.

“Baekhyun, você passará por aquele portal.” Minos falou calmo, apontando para um portal à esquerda de Baekhyun. “Tome cuidado, pois você estará indo para uma cidade que já tem um tempo que está infestada de anjos... Mas é imprescindível que consigamos o máximo de almas possíveis, então estou contando com você para que consiga essa humana para nós.”

“Pode confiar em mim, chefe.” O demônio de cabelos castanhos falou com um pequeno sorriso. “Eu sou o melhor no que faço.”

Baekhyun curvou-se mais uma vez diante de Minos, em sinal de respeito, e então se dirigiu até o portal o qual deveria atravessar. Ele respirou fundo e fechou os olhos com força antes de atravessar o pórtico envolto em trevas, esperando uma sensação incômoda invadir suas entranhas, o que era normal de acontecer quando se era enviado para a Terra.

Os demônios enquanto estavam no Inferno não passavam de almas que poderiam tocar uns aos outros sem problemas já que todos não possuíam matéria física. Porém, como no mundo humano os mortais são feitos de carne e osso, os demônios precisavam passar por um processo de materialização quando se transportavam pelos portais negros. A sensação de quando isso acontecia era sempre fatigante.

Não demorou muito antes que um frio se apossasse de todo o seu ser e Baekhyun sentisse todos os seus músculos serem repuxados enquanto viajava entre o submundo e a terra dos vivos, em direção a uma cidade infesta de anjos.

Cidade infestada de anjos.

Isso não poderia ser uma notícia pior para Baekhyun. Ele já encontrara alguns anjos em sua existência como demônio e nunca entrara em uma disputa direta com nenhum, pois a maioria dos seres celestiais que andavam pela Terra eram de categorias baixas e tinham mais medo dos demônios do que os próprios demônios tinham deles. O problema maior seria se algum anjo da classe Arcanjo , Potência ou pior, da classe Dominação decidisse aparecer no caminho de Baekhyun.

Se isso acontecesse, ele estaria acabado antes de perceber.

 

 

Quando os humanos se tornam demônios no Inferno, eles recebem uma breve explicação sobre como funciona o Paraíso e com quais tipos de anjos eles devem se preocupar e evitar quando forem à Terra. Arcanjo, Potência e Dominação são níveis intermediários de seres celestiais que descem até a Terra vez ou outra para verificar como andam os trabalhos daqueles de níveis menores. Essas três classes são as mais perigosas, por serem treinadas exclusivamente para o combate contra demônios.

Existem outras categorias superiores na hierarquia dos anjos, mas estes jamais descem em solo humano e ficam apenas no Paraíso. As classes menores, como os cupidos – por exemplo – vivem na Terra e dificilmente sobem ao Céu, já que o seu trabalho é intenso e nunca tem fim. Baekhyun já encontrara muitos cupidos na Terra quando fora realizar pactos, e achava divertido mostrar seus olhos totalmente negros para aqueles seres inocentes, os vendo gritar de terror e saírem correndo, com medo de serem mortos por um demônio malvado.

Baekhyun só não gostaria de encontrar um anjo de classe superior, porque, convenhamos, ser dizimado não estava em seus planos para o dia.  

 

 

Ao abrir novamente os olhos, Baekhyun se viu em um ambiente desconhecido. Mexendo seus dedos, o demônio os ouviu estalar em seu corpo recém-materializado. Tocando em seu próprio rosto, soprou o ar para fora de sua boca, observando uma fumaça branca se desprender de seus lábios.

Fazia frio e a cidade parecia deserta, provavelmente devido à hora. Uma neblina fraca cobria o chão e a iluminação era precária, fazendo com que o demônio precisasse estreitar seus olhos para poder enxergar o caminho que deveria percorrer.

A aura do humano conseguia ser sentida facilmente e o Grimório deu um pequeno sorriso enquanto caminhava pela calçada de calcário, sentindo o chão fazer cócegas sob seus pés descalços. Baekhyun deslizou as mãos para dentro do sobretudo negro que vestia e se encolheu ao sentir o que pensou ser um pequeno choque de frio percorrer sua espinha.

Mas não era frio.

O demônio se virou rapidamente e olhou para trás, para onde pensou sentir alguém lhe observando. A rua continuava vazia e as luzes das lamparinas a óleo vacilaram algumas vezes mesmo que não estivesse ventando nem um pouco.

Um suspiro escapou por entre os lábios do demônio e ele voltou a virar seu corpo em direção ao caminho que seguia, mas algo o surpreendeu. Baekhyun, ao se virar, se deparou com um homem muito mais alto que si, vestindo um sobretudo negro, sem mangas, e o olhando de cima, com um sorriso minúsculo estampando os lábios bem delineados. 

Baekhyun arregalara seus olhos, surpreso ao ver que não estava sozinho.

Era bastante óbvio que a figura desconhecida era um ser sobrenatural assim como o demônio, já que uma sombra leve de suas asas, quase totalmente escondidas aos olhos, estava em volta de si e revelava sua verdadeira identidade.

O homem era um anjo.

Olá, demônio .” Os cabelos daquele anjo eram castanhos, bem mais escuros que os de Baekhyun, e seu olhar tinha um brilho diferente de tudo que o menor já vira.

Olá, anjo. ” Baekhyun respondeu em um tom irônico, embora todos os seus músculos vibrassem, implorando para que ele fugisse. 

“Você parece meio perdido...” O anjo falou calmo, abrindo um pequeno sorriso sarcástico. “Precisa de ajuda?” 

Baekhyun quase podia se ver correndo e sumindo entre as trevas, chegando ao Inferno logo em seguida para correr para o seu quarto e se esconder. O demônio não tinha a mínima ideia a qual classe esse anjo pertencia, mas definitivamente ele não era um mero cupido. Os anjos da classe dos cupidos costumavam ser pequenos e rechonchudos, além disso, jamais conversariam com um demônio usando esse tom.

O Grimório não tinha como saber a qual classe aquele anjo pertencia e isso o incomodava. O apavorava .

Por mais que Baekhyun quisesse fugir, seu orgulho não estava cooperando no momento, obrigando-o a permanecer parado.

Bom, quase isso .

Ele girou sobre seus próprios calcanhares e começou a caminhar depressa na direção oposta ao anjo, ignorando a pergunta feita. Porém, quando mal dera cinco passos, novamente o ser celestial surgira do nada, sem fazer som algum... E estava lá, em sua frente, o encarando.

“Está com medo de mim?” O anjo perguntou, a franja caindo de leve sobre os olhos, escondendo o brilho destes.

“Claro que não.” Baekhyun riu em escárnio. “Eu só não pretendo ficar perto de um anjo por mais tempo que o necessário. Não é nada pessoal, mas acredite, nem um segundo sequer é necessário.”

Baekhyun deu passadas longas ao redor do anjo e começou a caminhar sem rumo, esquecendo-se por completo de sua missão na Terra. Ignorando a alma que o chamava para realizar um pacto.

“A humana com a qual você veio realizar um pacto não mora para esse lado, sabe...” O anjo falou alto, em um tom irônico, para que Baekhyun ouvisse. “Você está indo pelo caminho errado, o que só me faz crer que você está perdido e precisa de ajuda.”

O mais baixo dos dois parou de caminhar, parecendo que as solas de seus pés simplesmente grudaram ao chão. O demônio de cabelos castanhos engoliu em seco e virou seu pescoço, encarando o aparente inimigo.

“Você ao menos sabe onde está?” O anjo perguntou abrindo um sorriso largo demais. “Vou ajudar você, para que não fique mais perdido do que parece... Isso aqui é uma cidade do interior do que chamam de Estados Unidos da América. Estamos no ano de 1818, segundo a contagem humana, e o progresso está em pleno vapor. Não é incrível como os mortais podem se desenvolver em tão pouco tempo?” O sorriso do anjo foi desaparecendo aos poucos e sua expressão se fechou em algo quase sombrio. “É incrível como conseguem se degradar em tão pouco tempo.”

Baekhyun tinha apenas uma certeza do que aquele anjo era. Aliás, não era. Aquele homem alto demais, com os cabelos escuros demais e um sorriso malicioso demais com certeza não era um Arcanjo , Potência ou Dominação. Se ele pertencesse a qualquer uma dessas classes já teria executado Baekhyun sem pestanejar, mas não o fez. 

O que, mais que tudo, intrigava Baekhyun sobre suas verdadeiras intenções.

“Quem...” O demônio começou, dando passos rápidos, parando a centímetros de distância do homem alto. “Quem diabos é você?”

“Irônico você falar em diabos se referindo a um ser que provém da divindade como eu, sabe...”

Baekhyun revirou os olhos. Aquele anjo conseguia ser mais irônico do que ele próprio e isso o irritava profundamente.

“Desembuche logo, anjo .”

As sombras das asas em volta do corpo do homem alto agitaram-se enquanto este sorria. “Desculpe minha falta de tato, demônio... Esqueço como vocês são seres impacientes em sua grande maioria.” Baekhyun abriu seus lábios para retrucar o que havia sido dito, mas fora calado quando o outro voltou a falar. “Me chamo Chanyeol, sou um anjo da classe Virtudes e eu sei que você veio realizar um pacto com a humana que mora no final dessa rua porque, veja bem, eu sou o anjo que veio disputar a alma dela com você.”

 Baekhyun congelou.

 

Virtudes é uma classe intermediária na hierarquia dos anjos e Baekhyun jamais encontrara um pessoalmente, embora já tivesse ouvido falar deles muitas e muitas vezes. São os anjos dos chamados milagres, responsáveis por irem à Terra quando um humano clama por ajuda divina. Realizam pactos semelhantes aos dos demônios, porém, com alguns diferenciais cruciais.

Ao concluir um pacto, os anjos – ao contrário dos demônios –, não retornam em dez anos para reivindicar as almas dos mortais com os quais fizeram o contrato. As almas destes são enviadas diretamente ao purgatório após a sua morte, onde aguardarão em tormento ou paz – dependendo de seus pecados em vida – pelo juízo final.

Quando um humano pede por socorro divino e sua mente está enfraquecida e seu psicológico abalado, um demônio e um anjo são enviados para comprar sua alma, como se fosse um jogo entre o Céu e o Inferno. O trato feito entre Deus e Lúcifer é que o ser que alcançar o humano primeiro é quem fica com a alma

Mas, claro, existe um porém: quando o Demônio e o Anjo alcançam ao mesmo tempo o mortal, eles devem disputar até a morte para ver quem ficará com a alma.

Baekhyun jamais encontrara um Virtudes quando fora à Terra inúmeras vezes realizar pactos, tanto que ele até desacreditava – secretamente – que essa classe de anjos realmente existisse. Se aquele anjo estava em sua frente agora, estava claro o que teria que acontecer.

Uma batalha até a morte .

 

“Seu nome.” Baekhyun se assustou quando ouviu a voz profunda do anjo, Chanyeol, murmurar. Ele parecia estar falando há algum tempo, mas o demônio estava tão imerso em pensamentos que não ouviu uma palavra sequer.

Como? ” Baekhyun murmurou, encarando os olhos amendoados do anjo.

“Você não me disse seu nome, demônio .” Chanyeol falou calmo, em um tom baixo, esperando uma resposta.

“B-Baekhyun.” O menor respondeu, incerto. 

“Você é um Grimório e eu um Virtudes...” Chanyeol falou pausadamente. “Você sabe o que isso significa, certo?”

As asas do anjo se agitaram e deixaram de ser apenas uma sombra em torno do corpo alto. Quando estas enfim se revelaram, brancas e longas, Chanyeol esboçou um meio sorriso.

Baekhyun não poderia fugir, pois sabia que agora só havia uma opção. 

Os olhos do demônio ficaram completamente negros enquanto ele respirava fundo e evocava silenciosamente as trevas para lhe rondarem, aumentando seu poder. O sorriso do anjo só cresceu quando percebeu o que o outro fazia.

“Nós vamos mesmo fazer isso?” Chanyeol riu. “Eu sou muito maior que você... Não prefere fugir para o Inferno?”

Baekhyun não era treinado para a luta como os Iwia, demônios soldados, mas ele era orgulhoso demais para fugir de um anjo de classe média. Chanyeol era um Virtudes, então pensou que não deveria ser assim tão difícil derrotá-lo.

“Cale a boca, anjo .” Baekhyun murmurou estalando seu pescoço, orgulhoso. As escleróticas dos olhos do demônio estavam totalmente negras e seus caninos se tornaram pontiagudos; suas unhas estavam compridas e afuniladas, afiadas como se fossem uma arma branca.

Chanyeol sorriu e estalou os nós dos dedos enquanto olhava para o demônio relativamente pequeno à sua frente. O anjo se perguntava como alguém advindo do Inferno poderia ser tão belo. Seria uma pena eliminar um ser tão interessante, mas esse era o seu dever.

Foi um prazer lhe conhecer, Baekhyun .” Chanyeol murmurou antes levar uma de suas mãos até o pescoço do demônio de supetão, o sufocando. Baekhyun arregalou seus olhos e afundou suas unhas no braço do anjo, tentando se livrar do aperto que o deixava sem ar. As trevas envolviam o demônio, enquanto uma luz incômoda emanava do ser celestial.

O sino de uma igreja soou ao longe, avisando que o relógio marcava exatamente meia-noite e um novo dia chegara.

Um novo dia que começara com uma batalha entre um anjo e um demônio

 

 

Baekhyun não sabia há quanto tempo ele e o mais alto estavam naquela situação. Poderia ter se passado apenas alguns minutos ou horas. E, o fato, é que nenhum dos dois poderia dizer com certeza se seria capaz de matar um ao outro.

A verdade é que nenhum deles tinha muita prática em luta corporal.

O demônio sentia queimar toda vez que o outro tocava em sua pele. A luz que emanava de cada poro de Chanyeol quase cegava Baekhyun, que tentava a todo custo sufoca-lo o envolvendo em trevas. 

Uma risada alta foi ouvida saindo por entre os lábios do mais alto e Baekhyun se irritou. O anjo estava se divertindo.

O rosto de Chanyeol estava marcado com quatro arranhões profundos, causados pelas unhas da mão direita de Baekhyun, e o lábio inferior do demônio estava cortado devido a um soco particularmente forte que recebera do mais alto.

Os dois, anjo e demônio, vez ou outra fugiam um do outro, evitando algum golpe certeiro, o que os levou até um pequeno beco entre dois prédios pequenos. Baekhyun então se encontrava prensado contra a parede, com as duas mãos do anjo o envolvendo no pescoço com força. A pele do demônio queimava com o toque celestial e Chanyeol não sorria mais.

A respiração de Baekhyun começara a ficar rarefeita e ele, em um ato desesperado levou suas mãos até o pescoço do maior, afundando as unhas como podia e vendo as trevas invadirem a pele santa, enquanto sangue brotava dali. As asas de Chanyeol se agitaram, tentando afastar as sombras que o engoliam.

No escuro da cidade, em um pequeno beco, dois seres batalhavam longe dos olhos humanos. As trevas e a luz se misturavam enquanto ambos tentavam eliminar um ao outro. Baekhyun realmente pensou que iria acabar morto, mas sentiu o aperto em seu pescoço ser desfeito e seu corpo cair no chão, já que suas pernas estavam fracas e não aguentavam o próprio peso.

O demônio tossiu algumas vezes e levou uma das mãos ao pescoço, acariciando a carne queimada que já se curava sozinha aos poucos. O anjo estava afastado, de pé, e passava as mãos por seus machucados, os curando instantaneamente com um único toque.

“Isso vai durar uma eternidade.” Chanyeol murmurou, com um pequeno sorriso. “Vamos admitir, somos péssimos nisso.”

“Aposto que você está com medo de morrer e por isso está dando para trás.” Baekhyun falou, se colocando de joelhos e apoiando-se na parede para levantar. 

“Vai sonhando, tampinha...” Chanyeol brincou e suas asas se agitaram, voltando a ficarem praticamente invisíveis aos olhos do demônio. Olhos estes que perdiam as trevas aos poucos e voltavam a parecer humanos. “Essa briga estúpida não nos levará a nada...”

“Mas são as regras!!” Baekhyun falou alto. “Quando o Demônio e o Anjo chegam ao mesmo tempo em um mortal, eles devem disputar até a morte para ver quem cons—”

“Eu sei da regra, Baekhyun.” Chanyeol interrompeu o outro, falando em um tom calmo, como se estivesse conversando com uma criança inocente e confusa. “O que eu quero dizer é que ninguém vai saber que nos encontramos se nenhum de nós não reportar o acontecido.”

Baekhyun ergueu uma sobrancelha, não mais achando o anjo tão estúpido como pensava. “E me diga, Chanyeol , como nós decidiremos quem ficará com a alma humana sem que um mate o outro?”

Chanyeol sorriu.

 

 

Baekhyun estava errado. Completamente enganado.

Chanyeol definitivamente era sim tão estúpido quanto Baekhyun pensou logo que o viu. E não no sentido de ser grosseiro, não. Era no sentido de ser idiota , de ter a pior ideia possível e ainda assim se achar o dono da razão.

Baekhyun estava querendo matar o anjo.

“Você só pode estar brincando.” O demônio murmurou com uma sobrancelha erguida.

“Claro que não!” Chanyeol respondeu com um sorriso largo. “Quando os humanos que vivem em um país da Ásia tem algum problema a resolver, eu vi isso algumas vezes , sério , eles decidem dessa maneira!”

Ambos estavam com uma das mãos em frente ao corpo, com o punho fechado. O demônio ainda se perguntava o porquê de ele estar fazendo aquilo. O anjo ficara durante muitos minutos tentando lhe convencer de que aquela era uma melhor maneira de se resolver os problemas deles ao invés de batalharem. Um jogo humano chamado “San Sukumi Ken” que – segundo Chanyeol – era o melhor método para se resolver qualquer impasse.

Baekhyun sacudiu seu punho algumas vezes, seguido de Chanyeol.

O demônio manteve a mão fechada representando uma pedra, enquanto o anjo esticou dois dedos, representando uma tesoura.

Um silêncio se apossou do ambiente enquanto o anjo parecia petrificado e o demônio se sobressaltava, sorrindo. Se as regras que Chanyeol havia lhe ditado estavam corretas, isso significava que...

“Eu ganhei?” Baekhyun perguntou com as sobrancelhas erguidas. “Gostei desse jogo.” Falou         com um sorriso sarcástico, observando Chanyeol arregalar os olhos e negar com a cabeça.

“Melhor de três, melhor de três!” Chanyeol falou formando um bico nos lábios, sacudindo o punho fechado em frente à Baekhyun.

O demônio revirou os olhos e voltou a jogar o jogo estúpido que o anjo lhe propusera.

“O que aconteceu com o Virtudes sarcástico e ameaçador que eu conheci há pouquíssimo tempo?” Baekhyun perguntou, rindo em escárnio, quando ganhou as duas outras partidas – Chanyeol insistiu que uma terceira deveria ser jogada, mesmo que Baekhyun já tivesse ganhado duas vezes de três tentativas – e mirava o anjo que estava apoiado contra a parede com uma mão no rosto, parecendo insatisfeito.

“Só fiz aquilo para parecer legal.” Chanyeol disse retirando a mão do rosto, dando um meio sorriso. “Acho que você me desmascarou, Baekhyun.”

Com um sorriso no rosto, o menor passou as mãos pelo seu sobretudo, tentando limpar a poeira inexistente, enquanto Chanyeol o observava. Os machucados na pele do demônio ainda estavam presentes e seu pescoço ardia. Ele se curava muito lentamente se comparado ao ser divino e seu lábio inferior pulsava dolorosamente pelo soco que rompera de leve sua carne.

“Bom, como eu ganhei seu jogo idiota, irei pegar minha alma e fazer um pacto...” O demônio murmurou já caminhando para fora do beco em que ambos estavam. “Até mais, Chanyeol.”

O anjo não o respondeu e o demônio sumira entre a noite.

 

 

Baekhyun não conseguira se concentrar muito em sua contratante.

A humana não lhe parecia nada interessante e foi até entediante ouvir sua história de vida, suas explicações eternas do porquê ela estar querendo fazer um pacto, de como seu coração era puro e que ela não merecia ir para o Inferno. O Grimório precisou conquistá-la com seu jeito sedutor e – claro – com um pouco de seus poderes de persuasão, invadindo a mente dela e sussurrando algumas palavras em seu ouvido.

Demorou cerca de uma hora para convencer a humana a pedir tudo o que sempre quis, em troca de ter apenas mais dez anos de vida. Baekhyun não lhe contou como sua alma seria levada, só lhe avisou que ele apareceria na data estimada para vir buscá-la. A humana fez a conta nos dedos e suspirou, murmurando como achava dez anos pouca coisa.

Baekhyun tentou consolá-la lhe dizendo que se ela achava dez anos pouco para uma vida humana, o que diria de uma vida no Inferno, imortal – provavelmente, já que ele jamais vira um demônio morrer de causas “naturais” –, em que se fica perdido no tempo sem saber se passou um dia ou um século. Baekhyun não sabia ao certo se demônios eram imortais e preferia não pensar nisso, pois apesar dos pesares, ele gostava de estar . Morto, mas vivo, ao mesmo tempo.

Porque a verdade era que Baekhyun se sentia muito mais vivo agora como demônio do que se sentira enquanto humano. Porque, enquanto humano, ele havia perdido tudo o que lhe fazia sentir vontade de viver em apenas alguns segundos e vira sua felicidade se esvair entre os dedos quando um último suspiro fora dado.

Como demônio, Baekhyun não precisava se preocupar sobre sua felicidade ser arrancada de si, porque ele não sentia tal coisa. Baekhyun não sentia nada. Ele apenas estava ali, cumprindo ordens e se divertindo como podia, aproveitando os poderes que lhe foram dados.

A humana pareceu concordar, realizando um pacto com o demônio e recebendo um beijo nos lábios, selando o contrato que lhe daria tudo o que sempre quis, mas tiraria sua vida em dez anos.

Porém, o demônio estava irritado.

Baekhyun normalmente se aproveitaria de sua contratante humana para se divertir, mas ele não conseguira nem ao menos se sentir atraído por ela – que, aliás, deveria estar na casa dos vinte anos, com uma beleza invejável.  

O demônio se sentia irritado porque só conseguia se lembrar do anjo estúpido que havia encontrado. 

O rosto com o sorriso grande demais invadia a mente do demônio, a voz grave e profunda lhe falando sobre o jogo “incrível” dos seres humanos... Baekhyun precisava morder seu lábio inferior para não acabar rindo em desprezo pela total idiotice de Chanyeol.

Claro, ao morder seu lábio inferior, Baekhyun acabara acertando o machucado causado anteriormente por um soco, o que aumentava a raiva do demônio.

Por que aquele anjo precisava ser tão estúpido?

O beijo já havia selado o contrato do demônio com a humana e Baekhyun já estava fora daquela casa. Ele não fazia a mínima ideia de que horas seriam e de quanto tempo fazia desde que chegara à Terra, mas – ao contrário do que faria normalmente –não desapareceu de imediato para voltar ao Inferno. Baekhyun começou a caminhar pela calçada de onde veio enquanto pensava pela primeira vez na noite em seu colega Grimório, Kyungsoo.

O passatempo favorito de Baekhyun era irritar Kyungsoo e ele estava pensando em que tipo de piadinhas e perguntas indelicadas deveria fazer sobre o contratante que o demônio de cabelos negros e pele alva fora visitar na Terra. Por um momento, se preocupou com o fato de que Kyungsoo também poderia acabar encontrando um anjo, mas sabia que o outro – apesar de sua aparência frágil – poderia se defender de uma ameaça.

Pelo menos era isso que Baekhyun esperava.

Como seus pensamentos estavam focados em anjos, o demônio acabou se pegando pensando novamente no estúpido Virtudes alto, que primeiramente fingira ser sarcástico e ameaçador, quando na verdade era totalmente estúpido e infantil. 

“Afinal, quem coloca um nome ridículo desses em uma classe de anjos?” Baekhyun murmurou para si mesmo enquanto caminhava lentamente pela calçada. “ Virtudes ... Ridículo...”

Ridículo também era o modo como a risadinha daquele que Baekhyun conhecera há pouco tempo ecoava em seus ouvidos, como se estivesse gravada em seus tímpanos. O demônio jamais havia visto um anjo como aquele, já que cupidos eram normalmente mulheres e homens bem baixos, com bochechas redondas e olhos claros, enquanto Chanyeol era... Bem, Baekhyun o achava alto demais.

O corpo do anjo estava escondido por um sobretudo, mas Baekhyun conseguira observar os braços desnudos – com músculos bem desenhados – com muita clareza embora estivesse escuro na rua. Aliás, quem usa sobretudos sem mangas? 

Anjos são ridículos. ” Baekhyun sussurrou para si mesmo, estreitando os olhos, irritado por estar pensando no que não deveria. No que não queria pensar.

O Grimório continuou caminhando até que uma figura encostada na parede de um prédio lhe chamou a atenção.

“Ah, não acredito.” Baekhyun murmurou, revirando os olhos. O demônio correu até o homem que parecia distraído enquanto olhava para o céu. “Que merda você ainda está fazendo aí?” Perguntou em um tom alto, irritado.

Chanyeol desgrudou os olhos do céu estrelado e encarou o demônio vários centímetros mais baixo.

“Estou olhando para o céu e você?” Chanyeol respondeu aparentemente inocente, mas com um tom de sarcasmo em sua voz.

“Não isso, idiota!” Baekhyun falou irritado. “Você não deveria estar olhando para o céu, você deveria ter ido para lá há muito tempo!”

“Minha presença te incomoda, Baekhyun?” Chanyeol perguntou com um pequeno sorriso e o demônio abriu os lábios, sem saber o que dizer.

“N-não me chame assim pelo nome, anjo . Não lhe dei tal direito.”

Chanyeol deu uma pequena risada. “No momento em que você me disse seu nome, você me deu o direito de te chamar por ele, sabe.”

Baekhyun inspirou o ar pela boca, pronto para retrucar, mas o outro o interrompeu antes que as palavras se formassem em sua garganta.

“Eu estava esperando você, se quer saber o que eu estava fazendo...” Chanyeol falou sem encarar o demônio. Seus olhos voltaram para o alto e mais uma vez ele fitava as estrelas. Baekhyun piscou várias vezes, tentando processar o que o outro havia dito e Chanyeol continuou a falar, quando percebeu que o demônio não permaneceria em silêncio por muito tempo. “Eu estava esperando você para saber se ficaria bem... Não sei se sabe, mas como essa cidade era um dos pontos que muitos demônios se encontravam para brincar com os humanos, muitos anjos da classe Dominação estão sendo mandados para cá, e ficam vagando por aí procurando alguém para exterminar.”

“Falando assim até parece que você está preocupado comig—” Baekhyun não conseguira terminar a frase que mal começara, pois Chanyeol avançou um braço contra si, o agarrando pela cintura e o puxando para uma pequena rua estreita e escura, entre o prédio que o anjo estava escorado e o prédio ao lado. O menor tentou se defender e gritar, mas o outro tapou sua boca com força usando uma das mãos, enquanto o obrigava a colar seu corpo contra a parede.

“Faça silêncio, por favor.” Chanyeol falou com uma expressão que misturava surpresa e susto, olhando para os lados, enquanto o demônio tentava se livrar de seus braços. O anjo aproveitou a distração de Baekhyun e forçou um joelho entre as coxas do menor, ao mesmo tempo em que colava mais os corpos. “ Shhh. ” Chanyeol sussurrou contra o ouvido do demônio e este sentiu todo o seu corpo estremecer.

Baekhyun ficara parado, sentindo seu coração bater acelerado enquanto seus olhos arregalados encaravam um Chanyeol nada sorridente. Sua expressão séria permanecia inabalável enquanto ele olhava fixamente para a rua onde ambos estavam alguns segundos atrás.

O demônio decidira acompanhar o anjo e virou como pôde o seu rosto – ainda com a mão grande lhe cobrindo metade da face – para olhar o que Chanyeol tanto observava.

Era outro anjo .

Um Potência , provavelmente, já que uma espada flamejante estava embainhada em sua cintura, mostrando que ele fora treinado para o combate direto. Seu sobretudo também era sem mangas, porém de cor branca – diferente da vestimenta de Chanyeol, que era da cor negra – e suas asas eram muito maiores do que as do anjo que prensava Baekhyun contra a parede daquela rua estreita. 

“Se aquele Potência ver você, ele te exterminará sem pestanejar.” Chanyeol sussurrou contra o ouvido de Baekhyun, fazendo com que seu corpo tremesse mais uma vez. 

Mas não por medo.

Anjo e demônio permaneceram naquela posição por mais alguns minutos. Baekhyun já achava que o Potência estava longe o suficiente e começara a sentir Chanyeol forçar mais o joelho entre suas coxas, causando um desconforto agradável que Baekhyun se recusava a sentir naquele momento. Ainda mais estando c om um anjo .

“E-ei!” Chanyeol falou alto, se afastando de Baekhyun quando o sentiu passar a língua úmida pela palma de sua mão. “V-você me lambeu! ” O maior acusou, olhando para sua própria mão, úmida, limpando-a na própria roupa logo em seguida.

“Claro que lambi, senão você nunca iria me soltar.” O Grimório sorria cínico. “Aliás, que merda foi essa? Por que me protegeu daquele Potência? Você deveria deixar ele me exterminar, não é seu papel como anjo? Se livrar dos demônios?”

Chanyeol ainda limpava a mão úmida pela saliva do outro em seu sobretudo quando olhou para Baekhyun novamente.

“Meu trabalho não é livrar a Terra dos demônios, é ajudar as pessoas realizando contratos e fazendo milagres. Seu trabalho é praticamente o mesmo que o meu e não vejo motivos para que um Potência te extermine. Você não é de todo mau, Baekhyun.” Chanyeol falava sério, mas não evitou um sorriso logo em seguida. “Além disso, não julgue isso como um ato de preocupação pela sua vida, não é nada pessoal, só não acharia justo você morrer sem ter cometido crime algum.”

Baekhyun ergueu uma sobrancelha, pensando no que o outro dissera. Chanyeol se mantinha com as costas apoiadas na parede e o Grimório até tentou se conter, mas não evitou que seus pés descalços caminhassem pelo chão úmido. Baekhyun não evitou que suas mãos agarrassem o colarinho daquele sobretudo maldito sem mangas e o demônio definitivamente não evitou que seus lábios se abrissem de leve e sua língua deslizasse para fora quando suas mãos puxaram Chanyeol ao seu encontro.

O anjo arregalou seus olhos quando se viu sendo beijado pelo demônio.

A língua de Baekhyun sequer pediu passagem e quando Chanyeol se deu por conta, sua boca já estava sendo invadida e molestada por aquele demônio pequeno. As mãos do anjo agarraram com firmeza os braços do menor tentando – sem muita vontade, para falar a verdade – afastá-lo, mas tudo o que Baekhyun fez foi aumentar o contato entre os lábios.

Chanyeol se viu embriagar por um sentimento até então desconhecido. Beijar outros anjos era muito, muito diferente do que ele estava experimentando naquele momento. As línguas quentes se encontravam e faziam movimentos despudorados, brincando uma com a outra de modo urgente, provocando sons estalados.

O sabor do demônio e do anjo se misturavam em meio a um contato até então desconhecido para ambos, as línguas deslizando uma sobre a outra, não decidindo se brigavam por espaço ou se roçavam em um gesto de carinho. Arrepios cruzavam os corpos enquanto os dois mantinham os olhos fechados e beijavam-se de modo impudico durante longos segundos.

O mais alto gemeu de leve quando Baekhyun lhe mordeu com força o lábio inferior.

“Desculpe te desapontar, Chanyeol, mas só o fato de eu – um demônio – estar vivo , já é um crime.” Baekhyun murmurou se afastando do anjo, que abriu seus olhos devagar, sentindo seu coração pulsar violentamente contra suas costelas.

“Qu-que merda foi essa? ” O anjo perguntou chocado, tapando sua boca com a mão, se dando conta de que ele realmente – realmente – havia beijado um demônio .

“Devo me apresentar apropriadamente, Chanyeol.” Baekhyun falou rindo. “Sou um Grimório, demônio responsável por realizar pactos com humanos. Meu lar no Inferno é o Segundo Círculo, regido pela Luxúria e você não poderia esperar que eu, um demônio que vive pelo prazer, perdesse a oportunidade de trocar saliva com um anjo, certo?”

Chanyeol mantinha os olhos arregalados e os lábios – agora vermelhos e inchados – entreabertos, encarando o outro. Suas bochechas também estavam coradas e algo borbulhava dentro de si, um tipo de sensação que jamais havia sentido.

Algo que ele queria sentir mais.

“Além disso,” Baekhyun continuou. “Não sinta como se isso fosse uma recompensa por você ter me protegido do anjo Potência. Entenda que esse beijo não foi nada pessoal, foi apenas uma vontade que surgiu em mim e que decidi atender, como um tipo de despedida, já que nunca mais nos veremos.”

“Baekhyun...” Chanyeol murmurou, incerto do que deveria dizer. O anjo sugou seu próprio lábio inferior, sentindo um leve sabor adocicado que não lhe pertencia.

“Adeus Chanyeol.” O Grimório falou sorrindo. “Foi um desprazer apanhar de você, mas foi um prazer beijá-lo. Aproveite que não é como se demônios ficassem tão perto assim de anjos e os dois sobrevivessem pra contar a história, certo? Não conte a ninguém sobre isso e eu também ficarei calado.”

Baekhyun sorriu e esperou uma resposta, mas tudo que o maior fez foi acenar de leve com a cabeça. O anjo não sabia o que falar... Ele não queria falar. Chanyeol queria que Baekhyun voltasse a se aproximar de si, que os lábios rosados do demônio se colassem novamente aos seus. Mas isso era tão , tão errado que o ser divino decidira não falar nada antes que acabasse pondo em palavras seus pensamentos errados.

“Adeus, Chanyeol.” O demônio repetiu antes de piscar um de seus olhos, de modo sensual. O Grimório, logo em seguida, evocara as trevas e sumira entre elas como se nunca estivesse estado ali.

O anjo não respondeu ao demônio. O anjo não lhe disse adeus.

Adeus significava que eles nunca mais se veriam... E, de algum modo, não era isso que Chanyeol queria.

 

E esse fora seu primeiro pecado.