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Você chamou meu nome, então eu chamarei o seu

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            Seus braços envolveram a figura que parecia tão delicada que poderia desaparecer junto do vento que balançava suas asas e suas tranças. A sua respiração já estava falha enquanto lágrimas escorriam pelo seu rosto, contudo não se ouvia nenhuma palavra, nenhum outro som além do vento batendo forte e a respiração de ambos.

 

            Xiao tinha chegado tarde, ele sabia disso. Ele sentiu isso assim que olhou dentro dos olhos que uma vez foram um turquesa tão penetrante, que parecia que podia mergulhar naquela cor tão única, mas que agora estavam púrpura, parecendo corrompidos por uma magia sombria que escurecia o céu e as asas que cobriam seu corpo, o protegendo do vento forte.

 

            —Alatus. — a voz que ouvia em seus sonhos parecia tão distante e estranha aos seus ouvidos agora, um vazio que não sentia a décadas o atingiu no peito.

 

            —Barbatos... Venti, você é mais forte que isso, você consegue lutar contra! Você- —o yaksha interrompeu suas próprias palavras, parecendo ter perdido o ar e a coragem que ele tinha juntado no caminho até ali.

 

            Fazia semanas que ele percebeu que algo estava errado. O vento sussurrava seu nome em uma direção, mas não sabia ao certo o que era, porque não era Xiao que chamavam... Chamavam Alatus.

 

            —Alatus, eu não posso combater isso. —a mesma voz sem emoção respondeu e calafrios percorreram sua coluna.

 

            Xiao ousou levantar o rosto, ainda se recusando a se soltar do ser que ele segurava com firmeza, parecendo até que implorava a benção do deus.

 

            Venti então o encarou de volta, a sensação sendo tão única que se lembrou de Morax o dizendo a seguinte frase " Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você"

 

            O vento batendo, a respiração falha, o vazio, o peso de anos de sofrimento e morte, as batalhas, o sangue que manchava seu passado e ele carregava em suas mãos... Tudo pareceu sumir. O tempo mudou, ao redor estava escuro como o céu de mil noites, porém em sua cabeça estava tão claro como se estivesse em meio a uma enorme constelação. Estrelas pareciam dançar no encontro de seus olhares, mas o sorriso fraco que surgiu no arconte corrompido quebrou seu transe, finalmente voltando à realidade.

 

            Suas asas pareciam decompor à escuridão que rompia e rasgava sua silhueta. Marcas negras e púrpuras com a escrita do abismo enfeitavam sua pele e, o que uma vez pareceu ser a figura de um anjo, se transformava no completo oposto.

 

            Xiao tremeu com a visão do sorriso naquele rosto tão delicado e destruído com as marcas que se proliferavam por todo seu corpo. Finalmente tendo força nos joelhos ele se pôs de pé e ficou cara a cara com o deus da liberdade, que teve a própria liberdade tomada de si.

 

 

            —Você parece tão bem, Xiao. — uma voz diferente da de antes disse, e, como um lapse de uma memória, ele estava de volta até Ilhota de Dihua em que ouvia o som de uma flauta que o trouxe de volta à consciência, que o deu esperança.

 

            —Venti, podemos dar um jeito nisso. Eu posso... Eu posso falar com os adeptus podemos procurar um jeito, alguma coisa, alguém deve saber. Eu prometo, por Morax, eu-

 

            Com uma facilidade, o deus se soltou de seu toque que tinha afrouxado e uma mão tocou em seu rosto, quebrando sua linha de raciocínio.

 

            —Você sempre foi um dos meus favoritos. — turquesa inundou os olhos púrpura e um suspiro paralisou o adeptus que não esperava ver uma parte do arconte ainda viva, resistindo bravamente aquilo que o destruía.

 

            Ainda lembrava do momento que decidiu seguir o vento, com medo do que poderia encontrar. Descobriu pelo caminho boatos de que parte de Mondstadt estava destruída por um enorme redemoinho que surgiu na Toca do Stormterror.

 

            Todas as descrições do caso foram suficientes para Xiao saber com o que estava lidando, ou melhor, com quem ele estaria lidando. Um nervosismo preencheu sua barriga, pensando que talvez fosse enfim sua última missão de proteger Liyue, visto que o redemoinho mudou de percurso com a trajetória dos ventos. Ele supunha que fora a mudança de percurso que o fez ouvir o seu nome verdadeiro a ser chamado, como um aviso ou um pedido de socorro, uma emergência.

 

            —Você não deveria ter vindo. — Venti disse após uma pausa e o turquesa estava sumindo novamente. Desesperado em ver aquela luz azul novamente, Xiao agarrou o rosto a sua frente e se aproximou.

 

            O choque no deus de ter sido tocado de maneira tão íntima pareceu ter causado um efeito nos ventos e inclusive no controle que a magia exercia sobre ele, porque até mesmo o rubor que o viajante sempre dizia que Venti tinha em suas bochechas estava presente em seu rosto.

 

            —Isso não me impede de ficar, muito menos você de continuar aqui comigo. Se você não pode combater, ao menos me deixe compartilhar a sua dor, eu já sofri o bastante, eu... Me acostumei. — Venti andou passos para trás após essa declaração, como se pra afastar Xiao do eminente sofrimento que passaria, contudo o adeptus alcançou suas mãos, o impedindo —Meu dever é proteger Liyue por uma dívida, e você me salvou de uma certa forma, eu também tenho dívida com você. Deixe-me aguentar isso por você, mesmo que só metade. Por favor, Barbatos. — Lágrimas voltaram a escorrer pelo seu rosto e olhos púrpura encontraram com o âmbar, as pupilas que pareciam felinas encararam de volta o abismo que contaminava o ser divino.

 

            —Isso te destruiria, Xiao. Não completamente, mas metade, assim como metade de mim já foi tomada. —Venti explicou, na sua voz sombria enquanto apontava para os destroços que voavam ao topo de suas cabeças, o redemoinho ainda acontecia aos céus, afinal — O abismo sequestrou e abusaram de uma estátua com a minha imagem, imagens tem poder, você vê. Eu sou ligado a elas e parte de mim se encontra em cada uma. A magia, contudo, é diferente do que eu estou acostumado, não consigo combater com a minha, apenas aceitá-la como um corpo estranho.

 

 

            Por um breve momento, um silêncio se fez entre os dois novamente e nesses pequenos minutos em que Venti limpava as lágrimas que escorriam do rosto de Xiao, esse percebeu algo.

 

1) Ele não ligava para si mesmo desde que cumprisse seu dever

2) Ele tinha um contrato com Rex Lapis e faria o que fosse preciso

3) Ele ajudaria Barbatos, não importasse o que, ele o ajudaria

 

            Lentamente, Xiao entregou sua visão para o arconte que a aceitou de bom grado e as mesmas escrituras de seu corpo apareceu brevemente na sua Visão. A pele do adeptus começou a arder e o vazio que sempre pareceu estar ali cresceu, foi como se ele, Xiao, estivesse caindo num abismo de anos do passado, como se ele estivesse novamente sujo de sangue e sem comida, apenas com neve aos seus pés.

 

            Dor confundiu todos seus sentidos, rasgando seu peito e queimando sua boca. Sua fala, contudo, pareceu ter sido tirada, como se sua expressão também tivesse sido roubada, toda sua liberdade fora.

 

            Venti estava isento de tais efeitos agora, ele fez parecer que era muito menos dolorido. Contudo, o deus se abaixou e ficou à sua altura, só então Xiao percebeu que tamanha dor que sentir que caiu de joelhos novamente.

 

            —Deixe tudo passar e vai ficar bem, eu prometo. — o adeptus levantou o rosto franzido, irritado pensando ter sido enganado até que viu uma piscada de olho e sentiu dois braços o envolvendo num abraço.

 

            Em choque, não soube o que fazer se não o deixar continuar. Com o tempo, o vento não era tão mais agressivo, assim como a dor de Xiao, tudo desapareceu com uma brisa e destroços caíram em sua volta, porém nenhum os atingiu.

 

            Parte de seu corpo parecia dolorido e uma marca de letra das criaturas do abismo enfeitavam seu braço que antes era límpido de qualquer marca. Barbatos se encontrava da mesma forma, o braço marcado sendo oposto do seu.

 

            Nenhum deles ousou sair do abraço, apenas aproveitaram o momento que juntos eles pareciam completos, porque naquele dia, ambos doaram suas metades para que pudessem continuar uma jornada que lhes foi imposta. Responsabilidades que não podiam ser passadas a outra pessoa, não até que fossem fielmente cumpridas e resolvidas.

 

            —Chame meu nome, se precisar. Assim como eu chamarei o seu, se precisar. — Venti disse e riu assim que enxergou o rosto do adeptus, tão carrancudo quanto qualquer outro — Você possui dois arcontes te protegendo, não está nada mal. Ehe.

 

            —Você podia ter morrido. Você iria se deixar ser corrompido desse jeito. — Xiao falou sério e a risada sumiu do rosto do arconte, que desviou o olhar para outro lado.

 

            —Ninguém merece ser tomado a liberdade, se eu precisasse assumir o papel de consumir o poder sombrio da estátua no lugar de outro ser, que fosse eu. Você tem seus deveres com Liyue, eu tenho deveres comigo mesmo.

 

            E Xiao apenas suspirou com essa resposta, ele sabia, melhor que ninguém, que Barbatos fazia o que bem entendia, e o que ele achava melhor pra ele e todos ao seu redor. Então era esse o fardo que o deus da liberdade carregava, apesar de livre, ele prezava a liberdade da maioria, não importasse o estado da sua.

          

            —Você chamou meu nome pelos ventos porque confiava que, se você fosse corrompido, eu entenderia melhor que ninguém que seu último desejo seria ser liberto de algo que te controlaria. — disse alto, como uma realização.

 

            A ausência de uma resposta verbal foi o suficiente para a compreensão de ambos os lados e, Xiao, estendeu a mão para Venti.

           

            —O que é isso? Por quê?

 

            — Você chamou meu nome, então chamarei o seu, Venti. Eu posso não poder dançar livremente ao som de uma flauta, porém não quer dizer que por um momento, um dia, eu não possa tentar.

 

            Um brilho que estava ausente apareceu novamente nos olhos do outro, e, sorrindo, o deus pegou na mão do adeptus, que o guiou para terras com sonhos e histórias em pedra.