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My Girl

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850

 

Inverno

 

           Um beijo discreto no meio dos corredores, ser puxada para dentro de uma sala vazia para poderem sentir um ao outro, uma mão que descia pela mesa durante uma reunião, apertando firmemente seu joelho mostrando que mal poderia esperar para saírem dali e mais uma vez se afogarem no sorrateiro aconchego.
           Pieck estava feliz, feliz como nunca esteve, uma garota adolescente normal, algo que dificilmente achou que conseguiria ser algum dia, até havia esquecido tudo o que lhe cercava. Totalmente absorvida naquele segredo, não conseguia mais falar com Zeke ou mesmo olhar para ele na presença de outras pessoas, ficava corada, sem graça, perdia a fala e temia que isso pudesse chamar a atenção dos demais. Ficando curiosa em saber se o mesmo ocorria com ele, porque notou que o loiro também costumava evitar olhá-la diretamente, e quando o fazia rapidamente virava o rosto.
           Encarava a xícara de chá fumegante que mantinha firme em suas mãos enquanto estava de frente para Zeke, separados pela mesinha de chá que ficava no escritório dele, quando a chamou ela criou várias situações naquela cabecinha repleta de romance adolescente, agora tudo parecia muito comprometedor visto que não estavam sozinhos, entrar lá e encontrar Magath e um menino loirinho e educado a fez se sentir deplorável.
-Colt Grice-disse ele com o rosto repleto de admiração ao conhecê-la, como poderia ficar decepcionada com sua presença em meio a tamanha recepção?
-Já estão escolhendo quem vai nos devorar? Ainda tenho muito anos pela frente-Zeke brincou para tentar desviar a atenção de todos da expressão de descontentamento que Pieck fez ao conhecer o candidato a guerreiro
-Não se preocupe Finger, o futuro portador do Bestial foi escolhido em um recrutamento especial, o seu ainda estamos planejando-Magath alfinetou enquanto ela sorria sem graça e procurava um lugar para poder fazer parte daquela reunião
           Assim ela terminou ali, ouvindo o pequeno Colt, mais novo do que ela era quando se tornou guerreira, dizendo o quanto os admirava, era sempre bom ter fãs.
-Deve estar ansioso, afinal, não vai só se tornar um guerreiro, como também líder da próxima geração-disse depois de se recompor da vergonha que sentia diante da situação
-Sim, é uma honra, ainda mais poder estar lado a lado do célebre Zeke Yeager. Sou muito ciente de minhas habilidades e quero com elas fazer Marley permanecer como a maior potência mundial, mas quando soube que passaria os próximos anos aprendendo ao lado do atual portador do Bestial mal pude me conter de felicidade
-Isso é verdade, deveria ter visto quando eu o conheci alguns minutos atrás, foi o aperto de mãos mais agitado e longo que já recebi-o homem loiro flexionou o braço direito enquanto ria do rosto corado do menino
-Fico contente em ver que estão todos muito amigáveis, diferente de quando eu introduzi Zeke aos antigos guerreiros, mas deixando as brincadeiras à parte. Grice, você ainda está sendo testado-todos se viraram para ouvir atentamente as palavras de Magath-Os guerreiros não estão aqui para te fazer se sentir em família, e sim para ver como você se sai na prática, ou seja, primeiro vai aprender com Zeke como liderar, depois vai fazer isso por si mesmo, entendeu?
-Sim, senhor-agora sua expressão era séria, não mais a de um menino de dez anos de idade, Pieck levou mais tempo até perder a infância, mas isso parecia ter sido tirado dele ainda mais cedo
-Também passei por isso antes de me tornar guerreiro, foi uma época difícil, não que agora seja mais fácil. Estou aqui para te orientar, e dar uns puxões de orelha, vou avisando, sou bem exigente
-Sim, senhor
           Repetiu, mas agora com uma admiração que fazia aqueles olhinhos verdes brilharem.
-Tudo encaminho, vou indo, preciso resolver alguns assuntos, mesmo que fosse adorar ficar aqui, o aquecimento do meu escritório não é tão bom quanto esse-Magath olhou pela janela uma grossa camada de neve acumulada-Grice, você vem comigo
-Sim, senhor
           Deu um pulo do sofá, uma última despedida e outro aperto de mão animado antes de saírem, Pieck continuou sentada no sofá enquanto Zeke os acompanhava até a porta. Logo que o loiro a fechou a garota pensou se deveria ter ido também, afinal, toda vez que costumava ficar assim com Zeke as coisas tendiam a esquentar, mas era um dia frio de Fevereiro, então não havia motivos para desprezar um pouco de calor.
-Você tem um fã
-Eu tenho um fã
           Aquele sorriso, nossa, Zeke sabia como deixá-la vulnerável.
-Agora, senhorita Finger-se sentou ao seu lado no sofá, tirando a xícara de sua mão e a colocando na mesinha-Posso saber quais eram suas intenções quando entrou nessa sala?
-Como assim?
-Parecia que esperava algo muito específico e ficou visivelmente decepcionada
           Desviou o olhar enquanto mordia os lábios para não sorrir, sempre soube que Zeke era mais experiente, então ela costumava ficar muito afetada com qualquer tipo de interação mais íntima ou proximidade excessiva.
-Agora estamos sozinhos, Pieck-chan-afastou uma mecha de cabelo para ter acesso a seu pescoço, sabia que ela ficava arrepiada quando a beijava ali
-Zeke-disse em um suspiro enquanto sentia seu lábios tocar seu ponto fraco
-Quem diria que a minha Pieck estaria com esse tipo de pensamento, pensei que você fosse a inocente
-Não sou mais tão inocente assim, já disse
-Não nesse quesito, ainda é inocente sim
           Haviam tantas coisas que queria fazer com ela, quanto mais se beijavam mais queria prosseguir, porém havia pouco mais de um mês desde a primeira neve do ano, iria com calma, ousando gradativamente e sem pressa.
-Se você não me ensinar, como vou poder saber?
-O que quer que eu te ensine, Pieck-chan?
           Puxou-o pela gola da camisa, agora ela já sabia beijar, e beijava tão bem que nenhum dos dois queria parar, mas a menina então se lembrou que a ida ao escritório era apenas um desvio para outro compromisso.
-Preciso ir-interrompeu o beijo, se sentindo culpada pelo olhar de desamparo no rosto de Zeke
-Entendo, acho que sou o único que não está muito ocupado hoje
           Pieck se levantou, abanando o rosto para espantar o calor repentino, Zeke tirou do casaco um maço de cigarros, como era inverno e abrir a janela era impossível e congelante, toda a sala tinha uma aparência nebulosa e o cheiro de cigarro era mais intenso que o normal, porém Pieck já estava acostumada.
-Que horas você deve sair de lá?
-Não sei, vou na artilharia, o sniper que me acompanhava na armadura se aposentou, estamos a procura de novos candidatos
-Ser o atirador do Carroça não é para qualquer um
-Enquanto você orienta apenas um candidato a guerreiro eu tenho que dar atenção a dezenas de soldados da artilharia
-Se sentindo injustiçada?-provocou
-Ainda quero saber porque só você tem escritório e eu não, você pode ficar aqui enquanto eu preciso vagar de um lado para o outro
-Pieck, você sempre ficou mais no meu escritório que eu mesmo
           O loiro sorriu com a lembrança de entrar no escritório e a encontrar dormindo no sofá, ou lendo encolhida na poltrona, girando feliz a cadeira que ficava atrás de sua mesa, tudo quando ela ainda era apenas uma criança que ficava entediada de ser cortada do trabalho administrativo, ainda assim precisando marcar presença, hoje uma pequena pilha de papelada na mesa de Zeke pertencia a menina.
-Zeke-sua voz deu um aviso a ele, estava já perto da porta quando ele começou a se aproximar
-Apenas vou apagar a luz, já que todo mundo está muito ocupado vou embora
           Estendeu o braço até o interruptor que estava ao seu lado, apagando a luz deixando o ambiente em um tom escuro azulado e frio, durante o inverno toda hora parecia ser o início do anoitecer.
-Já?-sua voz pareceu mais decepcionada do que gostaria que tivesse
-Quer que eu te espere?-perguntou enquanto se inclinava para estar na altura dela
-Não, eu devo demorar mesmo-focou os olhos no fogo que queimava o cigarro
-Também tenho algo a fazer
-Então porque perguntou se eu queria que me esperasse?-olhou desconfiada para ele-Iria cancelar?
-Se você pedisse, sim
           Uma última tragada antes de apagar o cigarro ainda pela metade em um cinzeiro que ficava na mesinha ao lado, tinha cinzeiros espalhados por todo lugar, fosse no escritório ou em casa, mas Pieck não poderia saber daquilo, nunca foi na casa dele.
-Zeke, não vou conseguir ir assim
           Se referia a ele ter agora ambos os braços ao seu redor, a impedindo de sair, mas para ser sincera, estava gostando.
           Quando ele fisgou seus lábios para outro beijo ela ponderou se realmente precisava ir até a artilharia, ali estava bem melhor.


           Desceu com cuidado a escadaria congelada da entrada do quartel, dando um animado aceno de despedida para os guardas que faziam vigia aquela tarde, um pouco por educação, um pouco para verificar se ainda não haviam morrido congelados. Andava distraída por Libério, pouca gente na rua, alguns aventureiros, os limpadores de neve e Pieck.
           Em passos lentos para poder admirar um pouco a capital no inverno, o lado de fora da Zona de Internamento era bonito, principalmente na neve que cobria os prédios como cobertas brancas de macias, os rastros de pneus deixadas nas ruas escuras e enlameadas, mas ela gostava seguir as pegadas das pessoas, se divertindo em encaixar seu pequeno pé na pegada de um transeunte que minutos antes fez o mesmo trajeto que ela, infelizmente uma de suas lojas favoritas, uma que nunca teve ou teria a oportunidade de entrar, a floricultura, estava com as portas e janelas fechadas, mas tinha certeza que quando o tempo melhorasse a proprietária voltaria a deixar o aroma das flores fluírem para a calçada, se não houvesse uma placa escrito "Proibido Eldianos" ela gostaria de poder comprar um vaso de suculentas coloridas para decorar seu quarto.
           Seu devaneio foi interrompido quando avistou alguns metros à frente na calçada oposta Zeke, o reconheceria em qualquer lugar, mas imaginou o que ele fazia ali, já que fazia algumas horas que havia ido embora e ainda estava por Libério, era proibido ficar vagueando fora da zona. Por algum motivo Pieck achou melhor não se aproximar, não deixar ser vista, ele não estava sozinho, havia alguém ao seu lado, um homem alto, mais alto que Zeke, de cabelos loiros pálidos cortados em formato de cuia, tentando puxar na memória alguém de aparência semelhante, mas ninguém veio em mente, e o mais estranho era a pessoa não usar uma braçadeira.
           Tentou acelerar o passo para acompanhá-los, da melhor forma que suas pernas curtas conseguiam, não poderia correr, mesmo se quisesse, se vissem um eldiano correndo ela seria abordada por algum guarda, então fez o possível para não os perder de vista mesmo que a distância fosse aumentando, até eles dobrarem em uma rua estreita. Pieck atravessou rapidamente a rua, os olhos fixos no ponto onde Zeke foi, mas ao chegar lá a única coisa que encontrou além de um beco cheio de lixo do comércio ao lado foi uma grande parede de tijolos, no começo pensou que eles tinham evaporado, mas havia uma pequena porta de madeira para onde dois pares de pegadas levavam.
           Voltou pelo mesmo caminho, verificando agora na rua principal que lugar era aquele para onde Zeke havia ido.
-Que merda é essa?
           Uma modista, o que aquilo significava, não fazia ideia alguma, olhou pela vitrine, havia uma adolescente da sua idade provando um vestido de debutante para a próxima estação enquanto a costureira alfinetava a bainha, uma senhora elegante sentada em um recamier usando um cachecol de raposa e outra mulher mais jovem onde sua função parecia entreter a matrona, cujo olhar de espanto foi seguido de um gritinho que Pieck conseguiu ouvir do lado de fora, chamando a atenção de todas enquanto apontada a piteira de ouro para a janela em direção a guerreira como se ela fosse uma assombração.
-Não sou eu quem estou usando um animal morto no pescoço-murmurou para si mesma
           A outra mulher, a que estava ali para agradar, foi até a porta e a abriu com brutalidade, apontando em silêncio para uma placa igual a dezenas de outras que adornavam as fachadas dos comércios, "Proibido Eldianos".
           Como ninguém ali parecia muito simpático e disposto em esclarecer a dúvida de para onde a porta lateral do prédio levava, Pieck voltou a seguir o seu caminho em silêncio, gravando bem aquele lugar e sem saber o que diabos Zeke foi fazer ali acompanhado de alguém que ela não conhecia, não que ela precisasse conhecer todos com quem Zeke conversava, mas aquilo era não só estranho, como suspeito.


           Estava agindo diferente, Zeke percebeu isso logo de cara, haviam se passado uma semana desde que Pieck simplesmente começou a olhá-lo daquela maneira desconfiada, desviando de seus beijos ou fugindo de seu encontro, pensou que duraria mais tempo antes de terem problemas.
-Pieck, o que aconteceu?
-Nada
-Pelo o que te conheço quando fala "nada" é porque tem alguma coisa
-Só um pouco preocupada com o meu pai, ele não tem dormido bem
-Não acredito em você
-Não posso fazer nada quanto a isso
           Acelerou o passo o deixando para trás no longo corredor do quartel, Zeke quis segui-la e tentar tirar a verdade dela, mas não tinha tempo para alimentar aquele tipo de atitude infantil. Parecia que tudo estava dando errado ao mesmo tempo, logo após se sentir feliz como nunca havia estado, tudo veio para baixo, não só com Pieck que adotou tal atitude inesperada, como com seu plano oculto que passava por um período difícil.
-Porra! Onde está todo mundo?-gritou no corredor sem medo de ser ouvido
           Zeke olhou em volta, os corredores lhe davam a impressão de ser a única pessoa ali, rodou por todos os cantos até achar Pieck e nesse período não encontrou ninguém, nem mesmo Colt para lhe distrair com suas perguntas incessantes.

           Olhava atenta pela janela uma imensidão branca e agitada que dançava pelo lado de fora, a neve caía haviam horas, naquela manhã ao sair de casa um pouco mais cedo que de costume para evitar fazer o caminho com Zeke, já havia uma grossa camada de neve que cresceu pela madrugada e os flocos despencavam sem cessar. O quartel estava quase vazio, quem poderia se dar ao luxo de ficar em casa ficou, nem mesmo Magath apareceu, o que fez Pieck se perguntar o que estava fazendo ali, sabia que faltas não justificadas acarretavam em punição, mas ela só encontrou meia dúzia de pessoas pelos corredores, andando de um lado para o outro procurando onde poderia ser útil, sem encontrar as pessoas com as quais normalmente trabalhava, assim ela ficou aquele dia enfurnada na biblioteca lendo, nem mesmo Eugenia, a bibliotecária estava lá, aparentemente sua bengala não era feita para dias de neve.
-Se ficar aqui esperando passar vai ficar dias sentada na janela
           Virou o rosto rapidamente para a voz que surgiu de súbito, nem notou sua aproximação, Zeke já estava ao seu lado segurando o casaco que Pieck deixou largado em seu escritório porque era o lugar mais pessoal que ela tinha naquele quartel, onde poderia guardar suas coisas e ter sua própria bagunça. Por mais que ela o estivesse evitando, era prática o suficiente para continuar usando o local.
-Acabei de ouvir no rádio, essa nevasca não deve parar tão cedo
           Ainda o estava ignorando, era uma atitude idiota, ela sabia, fazer cara feia sem nem ao menos tentar questiona-lo ou tirar alguma informação do que ele fez naquela tarde, mas Pieck não sabia como abordar o assunto, ou melhor, ela tiha medo de ter uma resposta, verdadeira ou falsa.
-Vamos Pieck, eu vou embora e não vou te deixar voltar sozinha no meio da nevasca
-Ainda não está na hora de irmos-pegou o casaco da mão dele, mas permaneceu olhando pela janela
-É quem está aqui para verificar isso? Magath está em casa, provavelmente sentado em frente a lareira bebendo whisky, de qualquer maneira se ele perguntar eu falo que eu te dei permissão para ir, sou seu superior de qualquer forma
           Nenhuma resposta, ele estava perdendo a paciência.
-Pieck-aumentou o tom de voz-Acabei de ver lá fora, a neve está na altura do joelho, se você não for agora vai ter dificuldades de voltar, ou prefere ficar presa sozinha no quartel?
           Bufou como uma adolescente rebelde e começou a vestir o pesado casaco por cima de seu sobretudo enquanto passava por Zeke em direção a saída, o loiro procurou ver aquilo como uma vitória. A contragosto a menina ficou agradecida por Zeke tê-la obrigado a ir embora, a neve cobria completamente os três primeiros degraus da escadaria da entrada, a menina abraçou o próprio corpo ao ser atingida pelo frio cruel, seria um caminho longo até a Zona de Internamento, colocou o capuz na cabeça e enfiou as mãos nuas dentro do casaco enquanto descia os degraus acompanhada de Zeke, sentindo os flocos de neve a atingindo com força.
-Tome-ele disse por cima do vento que rasgava o ar
           Pieck olhou para o par de luvas que ele oferecia.
-Não precisa, você vai ficar com frio
-Eu aguento-insistiu-Você costumava ser mais obediente quando era pequena
           Aceitou as luvas, elas ficavam tão largas que Pieck continuou a optar por deixar as mãos dentro do casaco para não as perder.
-Venha atrás de mim, eu vou abrindo caminho
           Em fila, Pieck ia seguindo a trilha aberta por Zeke, o loiro arrastava as pernas criando uma abertura em meio a grossa camada de neve, mesmo se não o estivesse ignorando uma conversa era improvável, o som agudo do vento de inverno era tudo o que conseguiam ouvir, o hálito quente formava uma nuvem esbranquiçada que por vezes cobria sua visão, toda Libério estava coberta por uma grossa camada de neve, e eles eram o único sinal de vida além das chaminés que tossiam fumaça.
           Pieck tentava se orientar, já havia feito aquele mesmo trajeto milhares de vezes, mas não se lembrava de nenhuma nevasca impedindo seu caminho, ainda que escondidas pela neve ela poderia reconhecer os prédios, até notar a modista que naquele dia, como esperado, estava fechada.
-Zeke-o chamou, mas sua voz não foi ouvida-Zeke!-gritou por cima do assobio do vento
-Sim?
           O loiro se virou, encarando curioso, abraçando o próprio corpo, haviam flocos de neve presos em sua barba.
-O que você estava fazendo naquela loja semana passada?
-Hã?
           Acompanhou onde a menina apontou o dedo enluvado, por um instante ela percebeu que havia um olhar de espanto nele, mas voltando ao olhar tranquilo de sempre.
-Por isso tem estado zangada comigo? Pieck, não é o momento para discutirmos isso
-O que estava fazendo lá?-insistiu
-Se eu disser que fui encomendar um vestido para você vai estragar a surpresa
           Nenhum sinal de diversão nela, pelo visto o Zeke  divertido não funcionaria naquele momento.
-Quer mesmo saber? Se eu mostrar vai parar de me ignorar?
           Acenou com a cabeça, mantendo um olhar determinado sem se importar em como os sentimentos de neve pela rua iam crescendo.
-Encontrei um antigo colega do exército, um marleyano que serviu na época em que eu havia acabado de me tornar guerreiro, ele me pediu ajuda para pegar algumas ripas de madeira, não sei o motivo porque não me era relevante
           Pieck continuou a encará-lo, notando como apenas alguns segundos parados foi o suficiente para formar uma fina camada de neve em seus ombros. Zeke bufou, exalando uma grossa nuvem de calor semelhante a quando fumava, só que mais densa.
-Vem comigo
           Segurou seu braço e desviaram o caminho, atravessando a rua com dificuldade e cuidado com o meio fio, a menina se deixou levar, como sempre fazia quando Zeke tomava a dianteira. Como esperado a porta lateral estava fechada, claro que estaria, ele sabia disso, ela sabia disso, o grande cadeado era mais que suficiente, porém Zeke continuou andando até a porta. A menina estava em silêncio esperando para ver o que ele pretendia, quando o homem passou a manipular o trinco, puxando um parafuso mal colocado, a tranca se desprendeu da madeira.
           Espantada com tamanha ousadia, ainda mais sendo feita fora da Zona de Internamento, olhou automaticamente para o próprio braço, havia colocado o casaco com tanta pressa que esqueceu de pôr a braçadeira por cima, o mesmo com Zeke, então quem os visse não os identificariam como eldianos, e o tom escarlate de suas braçadeiras os tornavam facilmente reconhecidos.
-Olhe lá dentro
           Pieck deu alguns passos em direção a porta, vendo um longo e estreito corredor repleto de ripas de madeira, tantas que quase parecia impossível seguir para onde quer que o corredor levasse.
-O que imaginou que eu estivesse fazendo?
-Não sei-abaixou o rosto envergonhada
-Achei que nos conhecêssemos o suficiente para evitar esse tipo de coisa
-Desculpe
-Podemos deixar esse assunto de lado e voltar ao normal?
           Afirmou com a cabeça, seu rosto estava quente, um único sinal de calor no meio daquela neve.
-Agora vamos indo
           Pieck seguiu em silêncio, Zeke costumava dizer sempre que ela estava certa, mas talvez não fosse sempre, por mais que ela ainda achasse que sim.
           Entraram na Zona de Internamento, o guarda escondido dentro de sua cabine comentou que eles foram os únicos eldianos corajosos o suficiente para saírem de lá aquele dia.
           Não existe nada mais triste que aquele aglomerado cercado por um muro durante o inverno, tudo parecia morto, mesmo com as luzes das janelas indicando que ainda havia vida dentro deles, Zeke nunca gostou de lá, mas gostava menos ainda no inverno, existe uma diferença entre ser solitário por si mesmo, e ser solitário ao seu redor.
-Vamos dar uma pausa aqui
           Zeke interrompeu o passos quando estavam em frente ao prédio dele, o apartamento onde Pieck morava ficava algumas quadras a frente, nunca recebeu um convite para entrar, sempre ansiou por isso, e a eterna expectativa lhe fez parecer que nunca conheceria aquele cantinho que Zeke chamava de lar, mas estar ali em frente com ele a chamando para entrar pareceu tão absurdo, não era um dia diferente de tantos outros onde ela passou por ali, então não tinha motivos para entrar.
-Posso ir sozinha o restante do caminho
-Não perguntei, vamos
           Sua mão queimou na maçaneta gelada, deixando uma grande quantidade de neve entrar ao abrir a porta, Pieck notou como seu corpo estava frio quando saiu do meio da nevasca. Os corredores e escadas não estavam muito bem aquecidos, ela mal conseguia ouvir o som dos vizinhos, como se aquele prédio não tivesse muitos inquilinos.
           Subiram lentamente os vários degraus até o andar onde Zeke morava, aquelas escadas não eram estranhas, porém o máximo que já foi, era até a porta, ela sabia qual era, algumas vezes até deu uma espiada do lado de dentro, mas ter a porta aberta esperando sua passagem tornou tudo diferente.
           Deu espaço para a garota entrar, ela o ouviu fechar a porta, seus olhos curiosos foram direto para uma porta de madeira branca, ela não precisaria pensar muito para adivinhar qual cômodo ficava do outro lado. Prendeu a respiração ao senti-lo andando atrás dela, sua presença fez seu corpo ficar tenso, eram apenas eles dois ali dentro, e mais uma vez sua imaginação estava aflorada, quando ele se aproximou, levando a boca perto de sua orelha, Pieck sentiu um arrepio profundo que fez todo seu corpo tremer.
-Bem-vinda
           Não sabia bem o que sentir ao entrar no apartamento de Zeke, tinha um cheiro forte de cigarro, as paredes eram cobertas por um papel de parede amarelado de tabaco com padrões hexagonais, o sofá parecia novo, o rádio nem tanto, porém um modelo de aspecto caro, o chão de madeira estava com alguns arranhões, havia um grande mapa mundi pregado na parede e uma escrivaninha cheia de papelada.
           Sua roupa estava pesada, a neve derreteu e a deixou molhada, mesmo por dentro, sua calça estava encharcada e seu corpo tremia, agora de frio, não ficaria doente, mas era horrível. Enquanto Zeke ligava o aquecedor ela tirou o casaco e sobretudo, mesmo sua camisa por baixo estava úmida de flocos de neve que penetraram as camadas superiores de roupa.
-Vou preparar um banho quente para você
-Não precisa-respondeu quase com um grito de espanto
-Estou morrendo de frio e vou tomar banho, se só eu o fizer ficarei me sentindo culpado
           Não a esperou responder, tomou as peças de suas mãos, as colocando penduradas ao lado do aquecedor para secar, logo então desaparecendo para dentro de um cômodo, a menina continuou parada perto da porta sentindo suas calça irem gelando aos poucos, o aquecedor não parecia ser muito rápido em dominar o ambiente. Ouviu o som de água corrente vindo do que ela constatou ser o banheiro, depois Zeke passou rapidamente para outro cômodo, ouvindo o som dele mexendo em gavetas.
           Suas pernas tremiam e ela suspeitava que não fosse de frio, nunca havia estado em seu apartamento, e agora ele queria que ela tomasse banho, alguns anos, ou melhor, meses antes, ela não teria visto nada alarmante nisso, hoje era diferente, o relacionamento deles mudou muito no último mês, ou será que Zeke estava certo em imaginar que Pieck adquiriu o costume de ver segundas intenções em tudo o que acontecia?
-Roupas e toalhas para poder tomar banho-apareceu segurando algumas peças dobradas
           Lhe entregou a pilha, Pieck não viu o sorriso dele porque estava muito ocupada analisando um risco na madeira do chão, seu rosto ainda estava rosado, ela queria acreditar que era alguma queimadura de frio que logo iria curar.
-A banheira vai levar um tempinho para encher, os canos costumam congelar, mas por sorte ainda tem água
-Obrigada
-O que foi Pieck-chan?
           Se inclinou para estar a sua altura, procurando seus olhos escondidos pelo rosto que encarava o chão, estava totalmente corada e ele queria muito lhe dar um beijo.
-Outra vez pensando coisas inapropriadas?
           Tirou uma mecha que cobria seu rosto, enrolando os dedos no cabelo preto e brilhante, o prendendo atrás da orelha, o movimento já feito tantas vezes naquele momento pareceu mais íntimo que nunca.
-Por que me chamou para entrar? Você nunca fez isso?
-Para sairmos da nevasca e também porque queria ficar um pouco com você, feriu meus sentimentos a maneira como estava me tratando-colocou a mão no peito fingindo dor
-Desculpe, é que eu...
-Tudo bem, eu entendo, só estou magoado por ter suspeitado de mim, e por ter optado por me ignorar ao invés de perguntar diretamente. Achei que confiança era algo que tivéssemos de sobra
           Desviou o olhar constrangida, parecia que ele queria fazê-la se sentir culpada.
-Está com fome? Vou preparar alguma coisa para comermos
-Você sabe cozinhar?
           Sua provocação era uma tentativa nervosa de consertar a situação que causou.
-Claro que sim, afinal, sou um homem solteiro que mora sozinho
           "Solteiro" a palavra ecoou por sua mente, mas não era como se ela tivesse como contestar.
           Quando Zeke tocou seu rosto ela percebeu que seus dedos estavam gelados, tão gelados que era como ser tocada pelo próprio inverno, ainda usava as luvas que ele emprestou, o que a fez se sentir ainda pior já que suas mãos pareciam a única parte do próprio corpo que estavam quentes.
           Abraçou as roupas dobradas que recebeu enquanto Zeke lhe dava um doce beijo, um beijo que ele queria ter dado havia muito tempo e ela recebia com fervor, foi uma semana sem sentir verdadeiramente os lábios um do outro, não percebeu que estava com tanta saudade assim.


           Ficou tempo demais encarando os azulejos de padrões pontilhados, tanto que já poderia contar quantos eram, a água estava fria e seu corpo começou a tremer, mas ela queria continuar escondida no banheiro. Poderia ouvir Zeke na cozinha, o som das panelas, dele cortando algo na tábua de madeira, até mesmo o sopro do gás que saia do fogão e alimentava as chamas.
           Temia o momento em que Zeke fosse bater na porta e perguntar se estava tudo bem, se ele ainda não havia ido verificá-la então provavelmente não estivesse lá a tanto tempo assim, mas talvez só quisesse lhe dar seu próprio tempo como sempre o fez.
           Pieck se ergueu em um pulo tomando coragem para encarar o lado de fora daquela caixa de azulejos e porcelana, saiu da banheira e enquanto a esvaziava pegava a toalha dobrada que a aguardava, se secando e tentando não imaginar que Zeke provavelmente já havia usado aquela toalha, se secou lentamente antes de pegar as peças de roupa separadas para ela.
           A camisa que vestia era confortável e tinha um cheiro erva-doce, ainda não corrompida pelo fedor de cigarro, usava calções que estavam caindo na cintura, mas apertados no quadril e nas coxas, Pieck odiava usar qualquer peça que não fosse vestido ou saia porque era o que acontecia, se sentia limitada e esperava que fosse atrair olhares.
-Mas acho que se for o Zeke não tem problema
           Disse para seu reflexo enquanto amarrava o cadarço do calção para dar mais segurança. Respirou fundo antes de destrancar a porta e sair, logo que colocou os pés do lado de fora sentiu o aroma de comida, percebeu então que estava realmente com fome, seus pés levavam choques do chão gelado, e conforme ela ia se aproximando parecia que a madeira fazia ainda mais barulho.
-Mais alguns minutos e...
           O loiro se virou para falar com a garota quando parou, seu coração palpitou tão rápido que agradeceu ser um portador de titã, um coração humano não teria conseguido suportar a intensidade.
           Acompanhou cada pedaço dela, dês dos pés bem pequenos descalços, até suas pernas pálidas e tênues, a camisa era grande o suficiente para cobri-la até quase os joelhos, dando a impressão de não usar nada por baixo, mas ele via o contorno de suas coxas que lhe despertou uma necessidade de apertá-las e sentir com as próprias mãos, então indo para a camisa larga sendo vestida por ela e como seus seios estavam marcados no tecido. Sua respiração ficou um pouco pesada, havia um calor no peito que não permitia Zeke de dizer nenhuma palavra, sua intenção era distraí-la um pouco, mas pelo visto ele é quem estava se distraindo.
-Zeke?
           Sabia o que ele estava pensando, seus olhos não só estavam passeando por ela, como imaginando o que queria fazer, e isso só lhe deu mais ciência das roupas que vestia.
-Ah, sim-despertou de seu devaneio, sentindo o rosto esquentar, por sorte a barba conseguia esconder seu desconcerto-Mais alguns minutos e vai ficar pronto, eu vou tomar uma ducha enquanto isso
           Respirou fundo enquanto voltava a atenção para a panela, podia sentir os olhos da menina queimando suas costas.
-Poderia ir arrumando a mesa? Tem pratos naquela prateleira
           Indicou com a cabeça o local, Pieck em silêncio se juntou a ele na pequena cozinha, deu uma olhada na altura em que ficava a prateleira suspensa em cima da pia, precisando ficar na ponta dos pés para alcançar a alça da porta, ela os viu um pouco afastado da beirada alguns pratos. Se esticou o máximo possível para alcançar, quando ficou paralisada ao sentir Zeke lhe cobrindo por trás.
-Desculpe, erro de cálculo
           O corpo dele era grande suficiente para escondê-la por completo, o abdômen musculoso e forte pressionando suas costas, por algum motivo que ela não queria realmente saber qual, inclinou levemente o corpo para trás para sentir mais dele. A proximidade lhe deixou notar que a respiração de Zeke perdeu levemente o compasso.
-Aqui, agora vou tomar um banho, fique a vontade
           Rapidamente colocou a mesa, identificando que aqueles pratos faziam parte do conjunto que a senhora Yeager tinha, ouvia a água correndo no banheiro, então aproveitou para dar uma olhada, não que o lugar fosse grande, mas Zeke morava lá havia anos e era sua primeira vez ali. Deu uma olhada na sua prateleira de livros, só livros geográficos e históricos, nada que a interessasse ao ponto de pedir emprestado, havia um bar com várias bebidas caras, a janela dele ia em direção aos fundos, o que garantia uma certa privacidade, Pieck então foi espiar o único cômodo que não entrou, o quarto. Era uma falta de educação, sabia disso, mas sempre foi muito curiosa, havia uma cama de solteiro, uma cômoda, a mesa de cabeceira onde repousava um cinzeiro transbordando de cinzas e bitucas de cigarro e um guarda-roupa.
           O som da água parou, o que a fez ir rápida e silenciosamente de volta para a sala, se sentando comportada no sofá enquanto esperava.
-Talvez um pouco de som-disse para si mesma ao engatinhar até alcançar o rádio
           Abriu a porta lentamente enquanto a ouvia sintonizando o rádio, deu de cara com a menina em uma posição...tentadora, rapidamente voltou a fechar a porta, se encostando contra a madeira e respirando fundo. Talvez tenha sido muito impulsivo em convidá-la para ir a sua casa, tentar fingir com Pieck era mais difícil que qualquer pessoa, tanto por ela ser observadora e inteligente, quanto por ele baixar a guarda na sua presença, e agora ela estava do outro lado da porta usando as suas roupas de quatro no sofá.
-Zeke, você sempre soube que ela era um perigo para você, mesmo antes de beijá-la, agora aguente as consequências-repreendeu a si mesmo
           Deu uma espiada pela fresta da porta, agora ela estava sentada e o rádio comunicava o noticiário, quando notou sua presença a menina puxou a barra do calção para baixo que ia subindo de vez em quando, mesmo que a peça não fosse visível ela queria poder sentir que estava um pouco mais coberta que parecia.
-Só consegui sintonizar nessa estação
-Acho que é melhor que o silêncio-seus olhos desviaram para um troféu que ficava estrategicamente ao lado do rádio antes de voltar a olhá-la
-Tomou banho rápido
-Não poderia deixar minha visita esperando
           Pieck deu um pulo do sofá quando Zeke a chamou para comer, estava curiosa em experimentar algo preparado por ele.
-Carne com batatas?
-Sei que você adora
-Zeke, assim eu vou começar a querer que você cozinhe para mim sempre
-Por que não? Agora que já conhece meu apartamento pode vir sempre que quiser-disse enquanto a sérvia
-Qual era mesmo o motivo? Ah sim, "Não fica bem uma menina ir até a casa de um homem que mora sozinho"-ergueu uma sobrancelha provocativa
-Posso dar a desculpa que eu te resgatei no meio da nevasca
-Como sempre gostando de ser visto como um herói-apreciou o cheiro delicioso do prato a sua frente
-Sou o principal guerreiro de Marley, é de se esperar, correto?-se sentou na cadeira do outro lado
-Agora sei porque não tenho um escritório, preciso começar a salvar as pessoas
           Quando levou a primeira garfada à boca a menina precisou admitir que ele cozinhava bem, era realmente delicioso, ela não tinha muitas expectativas, mas estava uma delícia.
-Estou pronto para os elogios-seu sorriso maroto a deixava totalmente exposta
-Chefe de Guerra, o senhor está desperdiçando seus talentos no exército
-Fico honrado com o elogio senhorita Finger

           Quantos pratos comeu? Bom, não importava, ainda bem que Zeke havia feito bastante já que eles esvaziaram o conteúdo da panela, agora Pieck precisou afrouxar um pouco a corda do calção que apertava sua barriga, a menina se levantou e levou os pratos para a pia, abrindo a torneira e recebendo a água gelada.
-Não precisa fazer isso
-Você cozinhou, eu devo ao menos limpar
-Deixa isso
           Zeke fechou a torneira e a puxou em direção a sala, sentando-a no sofá antes de seguir até onde ficavam suas bebidas, servindo dois copos cheios de conhaque, Pieck já havia visto isso acontecer antes e o desfecho foi interessante. Ao retornar para o sofá, desviou um pouco o caminho, levando um troféu que estava ao lado do rádio um pouco mais para perto da saída do som.
           Entregou um copo para Pieck antes de sentar ao seu lado, a menina deu um pequeno gole enquanto notava pelo relógio na parede que já era tarde, mais tarde do que o horário em que ela normalmente chegava em casa.
-Preciso ir, meu pai deve estar preocupado
-Ele deve achar que você está presa no quartel por conta da neve, o que seria verdade se eu não a tivesse tirado de lá
-E que horas pretende me deixar ir, Chefe de Guerra?
           O homem virou o rosto em direção a janela, a neve não havia parado desde que chegaram, depois voltou a encará-la com um sorriso jovial nos lábios.
-Quando o tempo melhorar-podia sentir uma fagulha de travessura brilhando em suas iris azuladas, isso a fez sorrir enquanto bebericava o conhaque
-Sabe que isso pode não acontecer hoje ainda
-Que pena, assim você precisaria dormir aqui
           Seu espanto foi visível, tudo bem que já estavam "juntos" havia mais de um mês, porém ele sempre foi bastante sutil com ela, tirando na primeira vez ele não costumava tocar onde não achava que deveria tocar, por mais que ambos quisessem sentir sua mão explorando aquele corpo, e uma vez ou outra, durante um beijo mais intenso, sentiu algo rígido a pressionando, sabia bem o que era, mas logo Zeke se afastava e interrompia tudo. Foi um passo bem grande para ser tomado do nada, se perguntou se era efeito da semana em que ficaram sem qualquer tipo de contato físico ou se sua atitude era intencional.
-Pieck-chan, seu rosto é tão precioso quando fica pensando essas coisas impróprias
           Tentou procurar uma posição mais confortável no sofá, olhando em volta para ignorar como Zeke a encarava, aquele era o Zeke que ela gostava, o Zeke que a deixava indefesa e boba, que fazia seu corpo esquentar e anuviava seus pensamentos.
-Se não quiser beber não precisa-comentou ao notar que ela encarava muito a bebida
           Em resposta deu um longo gole no conhaque, Pieck havia pego um gosto por bebidas alcoólicas, se escondendo com Zeke no escritório e provando um pouco de cada garrafa que ele tinha na gaveta.
-Vai com calma-disse aos risos
-Pensei que sua intenção era me embebedar
-De forma alguma, o que quer que aconteça, a quero bem consciente
           Seus dedos tiraram o cabelo do caminho, o ponto fraco, ele era tão injusto, a menina mordeu os lábios em antecipação enquanto sentia ele se aproximar. A barba roçando por sua pele, a maneira como ele gostava de dominá-la, segurando seu rosto a impedindo de se mexer enquanto fazia o que queria, e ela ali, tão necessitada de seu toque.
-O que pretende?-conseguiu reunir forças para formar uma pergunta
-Não tenho nada planejado-depositou um leve beijo em sua pele pálida-Pode não parecer, mas as vezes gosto de ser espontâneo
           Zeke deu um gole na própria bebida, Pieck o acompanhou, agora sentindo a lembrança daquele dia na tenda, quando o álcool aqueceu seu corpo e purificou sua mente.
-Precisou eu te ignorar para receber um convite-olhou em volta, o apartamento era como ela imaginou, ainda assim prendia sua atenção em cada detalhe-Deveria ter feito isso antes
-Não somos os mesmos de antes, Pieck, você sabe disso
-Sim, realmente-concordou
           Dois meses antes ela provavelmente teria uma sensação mais plácida e menos tensa ao estar sozinha com Zeke, suas expectativas seriam outras, por mais que a atração mútua já estivesse ali, eles não seriam afetados da mesma forma.
-Quando eu o vi lá, eu pensei...
-Não vamos falar disso-a interrompeu rapidamente, seus olhos tinham um alerta estranho, como se temesse o que ela fosse dizer-Vamos esquecer, ok?
-Ok
           Os olhos de Zeke demoraram demais nela, se prendendo a cada detalhe daquele rosto que conhecia tão bem, ele queria sempre tê-la bem marcada em sua memória caso um dia não se vissem mais, caso um dia ele precise ir e deixá-la para trás. Inconscientemente lembrou da pequena Pieck, a menina que lutava para se tornar guerreira, com seu rabo de cavalo bagunçado, um olhar entediado que enganava os desavisados que julgavam que ela não pensava em nada especial quando na verdade era uma grande observadora, seu ódio velado por qualquer tipo de treinamento físico e em como ela sempre mantinha a postura muito ereta diante dos superiores para parecer alguns centímetros mais alta. Isso arrancou uma risada deliciosa do loiro que com toda certeza não saberia o que seria de si caso Pieck tivesse ido para a missão em Paradis com os outros, pela primeira vez Zeke foi grato a Marley.
-O que foi?
-Você é tão linda, Pieck. Você é a melhor coisa que me aconteceu em muito tempo
           A declaração inesperada a fez se sentir perdida, corando violentamente sem saber como responder, tentou desviar o olhar, mas ele pegou seu queixo e o segurou para que o olhasse diretamente.
-...-Zeke abriu a boca para falar algo, mas o que quer que fosse foi deixado de lado, preferindo o silêncio
           Acariciava seu rosto com o polegar, como se estivesse tentando provar que ela era real, que estava ali, e não um fruto de sua imaginação.
           Pieck deu um último gole em seu conhaque antes de deixar o copo na mesinha, também para tentar sair do olhar tão intenso que recebia de Zeke, ele fez o mesmo, sem nem ao menos terminar sua bebida.
           Antes mesmo que a garota pudesse reorganizar os pensamentos vindos das palavras de Zeke, o loiro se aproximou, sorrindo em como ela em expectativa arfou antes mesmo de tocá-la. Sentindo a barba dele arranhar sua pele enquanto inalava o cheiro doce da pele entre o pescoço e a nuca.
           Queria ser beijada diretamente, mas Zeke parecia tão dedicado em fazê-la sofrer um pouco, sentia seus mamilos duros pressionando contra a camisa e um calor já conhecido no ventre, porém nunca foi tão intenso quanto agora. Uma mão chegou até sua coxa, ela poderia sentir com precisão como seus dedos traçaram por cima do tecido, bem no ponto em que ele estava mais apertado, ela sentiu um sorriso contra seu pescoço.
-Acho que minhas roupas não estão preparadas para seus atributos físicos
           A manejou com delicadeza, ela parecia um fantoche em seus braços, puxando suas pernas até estar em seu colo, continuando a alisar suas coxas, sua respiração ficou irregular, não sabia o que fazer com as próprias mãos, assim repousou uma no joelho de Zeke e a outra segurava seu ombro para manter-se firme enquanto o homem se deliciava com a garota sentada em suas pernas.
           A mão dele foi subindo, encontrando o cadarço da peça e brincando um pouco com ele, por um momento Pieck achou que ele fosse desamarrar, mas Zeke continuou a ir mais para cima, a jovem sentiu um arrepio quando ele tocou a pele de sua barriga por baixo da camisa.
-Tão macia-sussurrou em seu ouvido-Quer que eu continue?
           Afirmou com a cabeça, impossibilitada de dizer algo no momento. Segurou seu rosto com aquelas mãos que ela tanto desejava, lhe dando um longo beijo que poderia ter levado uma eternidade que não estariam satisfeitos, aproveitando que ainda tinha a mão dentro da camisa, Zeke percorreu mais seu caminho pelo corpo de Pieck, a mão dele continuou a subir, muito lentamente, querendo sentir cada centímetro daquele lugar nunca visto nem tocado, ele demorou em chegar ao tórax, podia sentir com precisão os cinco dedos pressionando sua pele se arrastando um pouco mais para cima, antes de parar, chegando tão próximo aos seios que sentiu a garota tremer por completo. Esperou, imaginando que ele fosse continuar, mas as mãos se afastam, achando que estava indo um pouco rápido demais, ele recuou, voltando a mão para fora da camisa, a segurando pela cintura sem interromper o beijo, mas quem o fez foi ela.
-Não pare-sua voz saiu em um suspiro quase inaudível
           Zeke encarou aqueles olhos negros e brilhantes como tumalinas, nunca viu tal expressão nela, era suplicante, como se fosse impossivel ela seguir em frente caso ele não prosseguisse, a garota conseguia sentir entre as pernas dele aquele volume duro e firme que normalmente ele fazia questão de disfarçar, abaixou levemente os olhos, notando envergonhada que sua calça estava extremamente apertada na virilha, ela desceu a mão que estava no ombro dele, arranhando o tecido da camisa com as unhas, sentindo por baixo o abdomen firme que tantas vezes a fizeram acender um estranho calor no ventre quando ainda não entendia bem o que era aquele efeito, mas no momento o que lhe chamava era aquela protuberancia mais abaixo, Zeke notou para onde ela estava indo, queria deixa-la continuar, mas precisavam de mais privacidade.
-Vamos para o quarto
           Não foi uma pergunta, a tirou de seu colo e a puxou do sofá, colocando a menina entre seus braços em frente ao seu corpo enquanto a guiava para o cômodo onde achou que ela ainda não havia visto, a luz estava apagada, ele não fez questão de acender.
           A indicou o caminho até a cama, a garota se sentou timidamente, o rubor de seu rosto era suficiente para iluminar o quarto.
-Me diga, Pieck-chan, alguma das vezes que ficou imaginando como seria meu apartamento, imaginou que terminaria na minha cama?
           Não respondeu, estava muito nervosa para dizer qualquer coisa, Zeke a encarava de pé, era uma situação de explícita dominância, a tensão no cômodo era sufocante, ela podia sentir que Zeke sentia a mesma necessidade dela em seguir em frente, em se deitarem e não pensarem nas consequências, porém o loiro continuou em pé, até que ela se viu obrigada a levantar o rosto e verificá-lo. O escuro não lhe deixava distinguir seu rosto com precisão, mas viu como sua respiração estava pesada, parado a encarando, como uma criança que acabou de receber um brinquedo tão incrível que nem sabe como brincar.
-Já pensei várias vezes nesse último mês o que faria se tivesse essa oportunidade, porém agora que estou aqui me sinto um pouco perdido-confessou em uma rara admissão de fragilidade
           Pieck estendeu o braço para ele, o chamando para se juntar a ela, Zeke tirou os óculos e os colocou na mesa de cabeceira antes de aceitar sua mão, sendo puxado pela garota para a cama enquanto ela lentamente ia se deitando, o lembrando a posição em que ficaram na tenda dele no acampamento durante o primeiro beijo, parecia que ela queria voltar no momento em que pararam aquela noite e seguir com o que não foi permitido por Zeke. Ela era ótima em lhe guiar quando ele estava perdido, mostrar o caminho, o levando por uma estrada onde conseguia se sentir vivo por mais que essa fosse uma rota que lhe desse medo.
           Mas não aquela noite, ele se libertaria em ignorar quem era, o que pretendia, qual era seu destino e objetivos. Não queria saber quem foi ontem ou quem seria amanhã, só importava quem era agora.
           Seus olhos o prendem com mais poder que qualquer Coordenada, imaginou se ela tinha ciência do tamanho controle que conseguia exercer nele.
           As mãos da garota continuaram a trazê-lo ao seu encontro, afastando levemente as pernas para deixá-lo se encaixar, conseguindo sentir contra o quadril o resultado que provocou nele, sua ereção pressionava-a com firmeza
           Prendeu a respiração quando levou a mão do homem em direção a camisa, colocando ambas por baixo do tecido, e levando a dele mais para cima, próximo aos seios que ela queria que fossem tocados.
-Sou eu quem deveria estar te mostrando o que fazer-brincou enquanto imaginava o quão determinada ela estava sendo, já que era a primeira vez que chegando naquele tipo de carícia
-Desculpe-soltou a mão dele, colocando os braços estendidos ao lado do corpo-É que eu quero muito fazer isso
-O que tem passado por essa sua mente nesse último mês?
-Não foi só no último mês que tenho pensado nisso
           Aquelas palavras abalaram Zeke, pelo visto toda aquela impaciência foi por conta de muito tempo de espera, mas ele sabia que não era tão longo quanto o dele.
-Quer que eu toque aqui?-sussurrou em seu ouvido
           Sua mão ainda estava no lugar onde Pieck a deixou, dentro da camisa, a poucos centímetros dos seios da jovem, a mesma acenou com a cabeça enquanto mordia os lábios, as mãos de Zeke tinham uma delicadeza e suavidade que muitos duvidavam existir, mas o modo como ele se preocupou em controlar os próprios desejos e ser carinhosos foi percebido pela jovem.
           Quando enfim ele os acolheu em concha a menina prendeu um suspiro, com a outra mão o loiro aproveitou para puxar o tecido para cima, lhe revelando um par de seios lindos, empinados e orgulhosos, tão macios que ele poderia ficar se divertindo ali por muito tempo. Depositou um beijo no espaço entre eles, sua barba fazendo cócegas na pele sensível.
-Você é perfeita
           Abocanhou um seio na boca ao mesmo tempo que Pieck esqueceu como respirar, não sabia bem receber as reações de seu corpo, estava deitada deixando Zeke agora no comando, se condenou por não ter procurado saber melhor, porém não acreditava que saberia o que fazer de qualquer forma, ele era muito bom naquilo. O seio direito era acariciado por sua língua, desenhando traços firmes e saborosos no mamilo rosado, enquanto o outro recebia uma sedenta massagem, Pieck mantinha os olhos abertos encarando o teto, mas só conseguia se concentrar na sensação eletrizante que percorria seu corpo.
           Sorrateiro, Zeke deslizou a mão livre por seu corpo, arranhando a pele de suas costelas avisando para onde estava indo, chegando na barra da bermuda, pensou em pedir permissão, mas a própria Pieck se adiantou e desamarrou o cordão, deixando a peça frouxa e fácil de ser retirada, em resposta a sua ousadia, Zeke deu uma leve mordida em seu mamilo, sentindo em si o calafrio que percorreu por todo o corpo de Pieck.
           Se ajoelhando na cama, Zeke pegou a barra da bermuda com ambas as mãos e a abaixou, Pieck lhe ajudou erguendo o quadril enquanto o loiro mantinha os olhos fixos naquele ponto entre suas pernas, cobertos por pelos escuros e ralos formando um triângulo tentador. Sua expressão era lasciva enquanto voltava a se deitar sobre Pieck, fisgando seus lábios ao mesmo tempo em que sua mão começou a apertar suas coxas, macias e grossas, tão forte que provavelmente estava deixando a pele marcada.
           Enterrou o rosto em seu pescoço, mordendo seu ponto fraco enquanto sua mão afastava delicadamente suas pernas, procurando espaço para se enfiar no meio delas, quando seus dedos encontraram a abertura pode sentir como ela estava molhada. 
-Respire-disse a beirada de seu ouvido
           Sua ordem a fez notar que estava prendendo a respiração, ainda com os olhos fixos no teto, Pieck era invadida por uma confusão, estava em um misto entre prazer e o nervosismo de ser tocada pela primeira vez.
           Seus dedos abriram caminho entre suas dobras, encontrando aquele ponto de prazer que a fez se arrepiar.
-Feche os olhos, sinta meu toque
           Encantava-o como ela era obediente naquela situação, a recompensou com um leve beijo nos lábios, depois descendo pelos ombros, seios, barriga e chegando já perto de sua virilha ela abriu um pouco mais as pernas, dando a ele caminho.
           Substituiu o dedo pela boca, alisando o clitoris com a lingua até em baixo, em sua entrada molhada, seu gosto era delicioso, doce e aromático, Zeke teve poucas oportunidades de dar esse tipo de prazer a uma mulher, e nenhuma delas se comparava a Pieck, por isso se dedicou em seu melhor. Enquanto sua boca chupava com deleite seu clítoris, ele usou os dedos para estimulá-la mais abaixo, tentou colocar um dedo dentro, mas foi contido pelo selo de virgindade que a garota ainda carregava, por enquanto. Isso só o deixou mais excitado, a ideia de ser o primeiro de Pieck, o primeiro homem a tocá-la, sua língua quente explorou aquele espaço intocado, ansiando para estar dentro dela.
           Com o polegar iniciou movimentos circulares em seu ponto de prazer, fazendo a jovem menina se contorcer alienado, cravando as unhas no colchão e mordendo os lábios para conter os gemidos que mesmo assim acabavam escapando, o loiro conseguiu identificar quando ela se aproximou do clímax, o tornando obstinado em dar a ela uma sensação inesquecível, ela começou a tremer, elevando o abdômen formando um arco com o corpo, gemendo e se contorcendo em um frenesi incontrolável, soltando um leve grito longo e abafado enquanto explodia em gozo bem na boca de Zeke que não parou até ela voltar a cair silenciosa no colchão.
           Pieck respirava pesadamente, tentando entender o que era aquilo, nunca havia se tocado, sabia que orgasmo era uma sensação de prazer incrível, mas nada a havia preparado para aquilo, ao mesmo tempo que seu corpo ficou dormente sentia leves arrepios dos dedos dos pés até a ponta do nariz.
           Lambia os lábios enquanto a aguardava se recompor, ainda estava com as pernas abertas, sua vagina brilhava de gozo, Zeke se sentou na ponta da cama, estava tão duro que chegava a doer, alisou levemente a si mesmo, dando um alívio ao pau que latejava pedindo por atenção, o movimento não passou despercebido por Pieck.
-Quero fazer isso em você também-se sentou na cama, engatinhando até ele em busca de seu corpo-É muito injusto você continuar vestido
           Segurou a barra de sua camisa, a puxando pela cabeça para ser recebida pelo abdomen incrível de Zeke, querendo senti-lo diretamente, traçou cada músculo definido, sentindo os pelos de seu peito, loiros e finos quase invisíveis, acariciou seus ombros largos, os braços firmes, ela achava os braços de Zeke tão bonitos. Parecia ter sido todo esculpido pelas mãos de algum grande artista antigo, que criava estátuas de mármore muito anos antes, uma criação que ganhou vida e agora estava diante dela.
           A deixou se divertir um pouco, traçando as veias salientes de seu antebraço, sentindo seus músculos trabalhados, segurando seu rosto com ternura e lhe dando um leve beijo, sentindo seu gosto nele. Pieck delineou a linha em V de seu quadril, depois parou na barra da roupa, olhando com cobiça o volume pelo tecido.
           Entendendo o que ela queria, Zeke se levantou levemente da cama, tirando o último obstáculo para estarem ambos nus, ela mantinha o olhar surpreso no órgão, era a primeira vez que via um de perto, era grosso, rígido e ao mesmo tempo macio, a ideia de tê-lo dentro de si, no lugar onde Zeke mal conseguiu colocar um dedo lhe trazia dúvida e prazer. Como passou os últimos anos constantemente em meio a homens em zonas de guerrilha, ela sabia muitos nomes para aquela parte do corpo, mas não lembrava de nenhum que fizesse jus ao de Zeke. Explorou cada centímetro dele com os dedos, da base até a ponta onde saia um líquido quase transparente que o fazia brilhar, seus toques acabaram fazendo Zeke soltar um suspiro.
-Assim está bom?-ela perguntou, embora ele parecesse gostar
-Um pouco mais rápido-sua voz estava embargada-Firme
           A orientou em como masturba-lo, sua mão pequena mal conseguia dar a volta ao redor, ela olhava com tanto vislumbre que Zeke começou a ficar sem graça, mas para sua surpresa, a garota foi aproximando o rosto até tocar a cabeça com os lábios rosados, fazendo o loiro perder ligeiramente a estabilidade das pernas ajoelhadas no colchão.
-Pieck-gemeu-Merda, isso é muito bom
           Seguindo suas orientações, ela foi cuidadosa com os dentes, não conseguindo colocar tudo na boca, mas o suficiente para levar Zeke próximo ao clímax, chupando, lambendo, deslizando a língua pelo comprimento. Ele precisou suprir a vontade de agarrar seus cabelos e testar até onde ela conseguia, queria sentir bater fundo em sua garganta, queria ser profundo dentro daquela boca, queria gozar, mas controlou seus instintos. Zeke acariciou o topo de sua cabeça, isso fez com que a garota olhasse para cima, diretamente para ele, ainda com seu pau na boca, aquela visão foi o suficiente para fazer o loiro sentir que estava prestes a gozar, porém ainda não.
           A puxou com delicadeza para longe, o som do estalo que sua boca fez ao ser separada de seu pau ecoou pelo quarto, o encarou insatisfeita, pelo visto estava gostando do que fazia.
-Ainda não-a acalmou com um beijo na testa
-Mas eu não quero parar-disse pirracenta, realmente, Zeke a havia mimado demais
-Não se preocupe, Pieck-chan-sussurrou contra seu rosto-Agora deita que eu vou te foder
           Agora obediente, ela se deitou rapidamente em expectativa, Zeke deu um leve sorriso, vê-la deitada nua em sua cama esperando por ele parecia um sonho se tornando realidade. Afastou suas pernas, verificando sua lubrificação, perfeita.
-Vai doer um pouco, mas me avise se for muito
           Concordou com a cabeça enquanto espiava o homem ir se ajustando entre as pernas dela, calculando mentalmente o tamanho dele e comparando com o que imaginou ser o seu próprio. Zeke alisou um pouco o pau, o preparando para o próximo passo, abrindo caminho entre suas dobras até a entrada quente e molhada, se posicionou antes de dar uma olhada em Pieck, que silenciosamente o pediu para continuar.
           Começou a avançar devagar, introduzindo aos poucos, mas foi difícil, ela era apertada, intocada, parou quando percebeu que ela continha em baixo tom gemidos de dor.
-Tudo bem?
-Sim-sua resposta parecia planejada
           Zeke nunca tirou a virgindade de uma garota, ainda assim imaginou que com Pieck parecia mais áspero que deveria, ela estava acostumada com dor, anos como titã, se cortando, lutando em guerras, sendo cobaia de testes, mesmo assim sua testa estava transpirando.
-Não pare, por favor
-Precisa relaxar-levou o dedo para seu clitoris, o massageando e procurando dar a ela um pouco de prazer-Talvez seja melhor você gozar outra vez
           Fez menção em seu afastar, mas Pieck o segurou pelos ombros, pelo visto ela não iria desistir tão fácil, ela abriu ainda mais as pernas, talvez assim pudesse lhe dar mais espaço para entrar.
           Ainda trêmula, tentou relaxar, abrindo as pernas lentamente, quando conseguiu chegar um pouco mais fundo sentiu uma resistência, pressionou um pouco mais e conseguiu romper a barreira, sentindo a membrana se partindo e liberando passagem para ele entrar.
           Pieck arfou ao senti-lo enfim dentro, não totalmente, mas sentia que o pior havia passado, a expressão de dor virou um sorriso.
           Dando a ela um tempo para se acostumar, Zeke voltou a se mexer, pouco a pouco indo mais um centímetro adentro, era acariciado pelas camadas internas, uma massagem quente e pulsante. A garota se arrumou abaixo dele, procurando uma posição mais confortável diante da nova sensação, seus movimentos enviavam uma onda de prazer arrepiante ao loiro, que precisou respirar fundo para não terminar antes mesmo de terem começado.
           Começou com movimentos lentos e suaves, a sensação de estar dentro dela era indescritível, precisava controlar seus instintos, Zeke sempre optou pelo forte e selvagem, mas se deleitava com prazer em ser paciente. Quando Pieck inundou a sala com gemidos de prazer, o loiro entendeu que era hora de ser mais intenso, aumentando a velocidade, sentindo a cama abaixo deles balançar.
           Afastou as pernas para lhe dar mais liberdade, se antes pensou que não caberia agora se encaixava perfeitamente, uma sensação nova de ser preenchida, ela e Zeke unidos de uma maneira tão íntima. O homem encarava o lugar onde estavam ligados, notando alguns filetes de sangue indicando a virgindade que havia retirado da companheira.
           Mesmo no frio do inverno, o quarto se tornou quente e abafado, Zeke sentia alguns fios de cabelo grudando em seu rosto, a visão de Pieck nua em sua cama, revirando os olhos de prazer enquanto gemidos tímidos chegavam aos seus ouvidos era uma situação mais comum em seus sonhos que ele não gostaria de admitir, mas em seus sonhos não tinha o calor de seu corpo, ou a sensação dela apertando seu pau, uma pressão inebriante que por vezes precisava fazê-lo respirar fundo e não gozar.
           Quando os sons de prazer saídos de sua boca ficaram mais altos, ele notou que a garota estava se aproximando mais uma vez do ápice, levando assim a mão de volta ao seu clitoris, o massageando até ela soltar um grito fino e perdido quando mais uma vez gozava, a sensação de gozar sendo totalmente preenchida era bem diferente, uma explosão inundou seu corpo de dentro pra fora, pulsando no pau de Zeke quando ela tremeu logo abaixo de seu corpo. O enlaçando com as pernas para prendê-lo enquanto, o deixando enterrado até o fim, sua mente e corpo se separaram quando ela gozou novamente, perdendo a razão sem se importar se seus sons seriam ouvidos.
           Zeke não conseguiu segurar mais, logo que Pieck terminou ele se libertou, mais duas estocadas antes de sair de dentro dela, não foi preciso se estimular, alguns segundos e acabaria gozando dentro dela, jatos grossos indo tão longe que atingiram seus seios, não lembrava de já ter sentido tanto prazer antes, foi a melhor noite de sua vida.
           Boca aberta procurando respirar, pernas ainda afastadas sem conseguir se recompor, Pieck encarava o teto querendo entender o que havia acontecido. Zeke se jogou ao seu lado, procurando algum espaço na cama de solteiro, ninguém conseguiu falar nada pelos próximos minutos, até que Pieck quebrou o silêncio.
-Isso é bom demais-confessou em meio a uma risada atordoada
-Que bom que gostou
           Estava rindo a toa, então aquilo era sexo, uau!
-Podemos fazer novamente?-virou o rosto para Zeke que apoiava o cotovelo na cama e o rosto na palma da mão
-Quantas vezes você quiser-sorriu orgulhoso no próprio desempenho-Apenas preciso me recompor
           A garota olhou discretamente para o membro entre as pernas do loiro, deslizando timidamente a mão até ele, o toque foi suficiente para fazê-lo acordar, e enquanto Zeke calmamente observava seus próximos movimentos, Pieck engatinhou na cama até alcançá-lo com a boca, mostrando a ele que tinha um talento natural.


           O barulho de seus corpos suados batendo ecoava pelo quarto, havia descoberto uma posição favorita, como portadora do titã Carroça ela tinha uma naturalidade em ficar de quatro, e Zeke adorou a visão privilegiada que tinha, aquela bunda era uma preciosidade, e ele fez questão de deixar as marcas de suas mãos nela, sua pele era tão branca que facilmente ficou o contorno de seus dedos. Mesmo que a visão de seu rosto fosse incrível, ele sentia que iria se viciar em colocá-la naquela posição.
           Perdendo as forças nas pernas enquanto gozava, Pieck enfiou o rosto no travesseiro para suprir os gemidos, estavam em sincronia quando Zeke finalizou em suas costas, ela já havia recebido uma boa quantidade de sua semente no corpo, estava grudenta, mas não se importava.
           O loiro se inclinou sobre seu corpo, sentindo se sujar com uma mistura de suor e esperma que revestia as costas dela. Levou a boca bem próxima ao seu ouvido, ainda a sentia tremer, queria ver sua expressão, mas ainda estava com o rosto escondido no travesseiro.
-Satisfeita?
           Sua resposta foi um aceno de cabeça preguiçoso.
-Vamos tomar banho?
           Agora ela negava com a mesma lentidão, estava a poucos passos de um sono tranquilo e pesado.
-Pieck-chan, deixe de ser desobediente, eu vou encher a banheira
           Pulou da cama à procura de sua roupa, encontrando a bermuda jogada no chão, a vestiu antes de ir à procura de um cigarro. O acendeu ao lado da cama, admirando a visão de Pieck totalmente exposta, via o brilho pegajoso entre as pernas fruto de seu próprio gozo, Zeke estava exausto, mas se ela pedisse mais não conseguiria negar.
           Uma rápida ida ao banheiro enquanto esperava a água quente preencher a banheira, depois foi se arrastando pela sala, olhando o cômodo em volta por poucos segundos até sentir uma onda de culpa, ele havia levado Pieck a uma experiência extrema e única pela simples intenção de distraí-la de suas suspeitas.
           O rádio ainda estava ligado, mas ele não fez questão de desligar, ainda assim, o loiro se aproximou do móvel onde o aparelho estava, preferindo ao invés dele, encarar o prêmio que ganhou logo que assumiu o cargo de Chefe de Guerra, um troféu prateado com um grande pedestal escuro onde uma placa com o holograma de Marley brilhava junto a seu nome gravado.
-Espero ter lhes dado um bom entretenimento-pensou com nojo
           Estava curioso para saber como seria na manhã seguinte quando Pieck acordasse e estivesse consciente, quase sorriu ao imaginá-la sem graça como provavelmente estaria.
-Droga, amanhã-sussurrou em silêncio para si mesmo
           Grunhiu baixinho ao se lembrar do compromisso no dia seguinte, provavelmente ouvia mais e mais problemas que estava surgindo junto a impaciência de seus aliados pessoais, isso foi o suficiente para espantar seu estado de satisfação, havia se dado o privilégio de deixar momentaneamente de lado, mas uma hora precisava voltar a realidade.
           Ao menos com Pieck ele poderia, nem que por um instante, se esquecer daquilo, mesmo que fosse um pensamento constante, fingir que vivia uma vida próximo da normalidade, sabia que ela pensava o mesmo, dava para ver na maneira como agia, porém ele admitia, a conhecia bem, mas não a permitia o conhecer por completo, era injusto, só que ela já tinha visto muita coisa para saber que a vida não é justa, principalmente quando você tem que andar por aí com uma braçadeira.
           Voltou ao quarto para acordá-la, ou o mais próximo disso, a guiando ainda sonolenta para o banheiro.
-Consegue tomar banho sozinha?
           Perguntou enquanto ela entrava na água com um biquinho irritado, confirmou com a cabeça enquanto usava uma esponja para limpar-se. Enquanto isso no quarto ele trocou a roupa de cama, vendo a mancha vermelha de sangue nas cobertas e marcas umidas de suor, todo o quarto cheirava a sexo e a Pieck, ele queria poder ter aproveitado um pouco mais antes de se deixar abater pelos proprios problemas.
-Posso dormir agora?
           A garota surgiu na porta enrolada em uma toalha enquanto esperava ele colocar as novas cobertas limpas, assim que terminou a menina tirou a toalha, deixando de lado qualquer tipo de pudor, e se deitou no cantinho junto a parede. Zeke não conseguiu deixar de rir, tirando um grosso cobertor da cômoda e os embalando enquanto se deitava ao seu lado.
           Enterrou o rosto em seu peito, Zeke ainda não havia se limpado, mas a menina não pareceu se importar, então ele também a abraçou, acariciando seus cabelos com carinho.
           Pieck queria dizer alguma coisa, mas estava tão cansava, mesmo assim o encarou com seus olhos pesados tentando transmitir algo através deles, talvez Zeke tenha entendido, porque lhe depositou um delicado beijo na testa, então tão rápido que nem notou, acabou sendo embalada pelos sonhos, Zeke sorriu pela maneira plácida como seu rosto ficou enquanto dava o primeiro suspiro adormecida.

 

           Não queria acordar, por isso decidiu continuar deitada na cama que parecia diferente do normal, mesmo as cobertas não pareciam as suas, mas Pieck não se importou e rolou para o lado, se aconchegando mais contra o travesseiro, então veio a memoria da noite anterior que a fez abrir os olhos rapidamente e perceber que aquela não era sua cama, aquele não era o seu quarto, e definitivamente aquelas não eram suas roupas. Virou para o lado encontrando a cama vazia, não como se alguém tivesse dormido ali e acordado antes dela, vazia como se apenas ela tivesse dormido na cama.
           Se sentou lentamente enquanto procurava escutar o som de outra pessoa, um leve ressoar vindo pela porta do quarto entreaberta, se desvencilhou das cobertas enquanto notou que a camisa que usava estava torta, lembrou que ao dormir não vestia absolutamente nada, provavelmente Zeke a havia vestido no meio da noite, embora não vestisse mais nada além disso.
           Andou receosa para fora do cômodo, encontrando Zeke dormindo no sofá, o rádio estava ligado na mesma estação da noite anterior, um cinzeiro cheio de bitucas de cigarro estava no chão ao lado do sofá e o homem dormia em uma posição que não parecia muito confortável, isso de alguma forma a deixou magoada, por que Zeke não foi dormir com ela?
           De supetão, o homem abriu os olhos e se ergueu do sofá, espantando Pieck que ainda refletia sobre o afastamento que ele criou durante a noite, o loiro a encarou um pouco espantado, como se tentasse entender o motivo dela estar ali, mas logo pareceu mais relaxado enquanto espantada o sono dos olhos com as costas da mão.
-Bom dia, Pieck-chan
-Te acordei?
-Não, eu é que sempre acordou quando tem alguém por perto
-Ah, sim
           Queria perguntar porque ele tinha dormido no sofá, mas a menina sentia uma sensação estranha na maneira como ele sorria, não era mais o Zeke da noite anterior, aquele era outro, e isso a desanimou. Silenciosamente ele foi até o banheiro o deixando sozinho na sala.

           Quando saiu do banheiro, vestindo suas próprias roupas deixadas lá na noite anterior, a garota notou que Zeke também estava vestindo algo diferente, na verdade parecia prestes a sair, ele se aproximou dela, lhe depositando um beijo na testa antes de sussurrar em seu ouvido.
-Eu preciso ir ao quartel, como não pretendo voltar até a neve dar uma trégua vou pegar o necessário para trabalhar pelos próximos dias
           Não era como se ele precisasse dar uma satisfação a ela, mas tinha que ter uma desculpa.
-Tudo bem, eu vou indo para casa então
           O homem segurava o casaco dela, já seco depois de uma noite ao lado do aquecedor, Pieck notou que o rádio ainda estava ligado e seu volume foi aumentado, a menina abriu a boca para comentar algo a respeito, mas Zeke apenas lhe deu um sorriso enquanto a conduzia pela porta, a fechando tão lentamente como se não quisesse fazer barulho.
-Acha que seria muito ousado eu pedir um beijo de despedida?
           Perguntou enquanto a deixava na porta do prédio onde morava, ainda tinha muita neve, mas haviam mais pessoas dispostas a sair de casa, a jovem olhou em volta, não parecia ter ninguém prestando atenção neles, por isso se colocou na ponta dos pés enquanto o puxava pela gola do casaco, lhe dando um beijo rápido nos lábios.
           Isso surpreendeu Zeke, que ficou um pouco espantado, ele pediu, aliás, pedia isso com certa frequência, ainda assim foi a primeira vez que Pieck aceitou a oferta.
-Não fique mal acostumado
           Se apressou em abrir a entrada do prédio dando um leve aceno para ele antes de fechar a porta atrás de si, isso foi o suficiente para dar a Zeke um ânimo para encarar os problemas que o aguardavam.


           Tirou o cadeado aberta pendurado na tranca da porta, encontrando o longo e estreito corredor, Zeke fechou a porta de madeira atrás de si, sendo totalmente envolto pela escuridão onde no final do que parecia infinito enxergava uma luz fraca, desviou das ripas de madeira amontoadas, com cuidado para não cair igual na ultima vez.
           Ao final daquele caminho irregular havia uma sala onde só haviam mais pedaços de madeira, ripas, pallets, caixotes, e uma mulher que estava sentada em cima de um barril virado para baixo, apontando uma arma para a pessoa que se aproximava.
-Pensei que tinha acontecido alguma coisa, estava prestes a ir embora-Yelena disse logo que abaixou a arma
-Desculpe, acordei atrasado-procurou um lugar para se sentar também, sabia que seria uma longa conversa-Não podemos mais nos encontrar aqui
-O que aconteceu? Alguém descobriu?
-Mais ou menos, nos viram saindo daqui
-Posso dar um jeito...
-Não-respondeu rapidamente com um tom ríspido-Não é necessário, já foi resolvido, apenas encontre outro lugar
-Merda, esse aqui é tão bom, levei muito tempo para achar-soprou um fio de cabelo do rosto
-Tenho certeza que conseguirá achar outro rapidamente, confio na sua capacidade
           O sorriso radiante de Yelena ao ser elogiada era o sinal que Zeke precisava para ter certeza de que a loira logo que saísse de lá iria correndo arrumar outro ponto de encontro.
-Me diga, o que aconteceu para querer me ver novamente em tão pouco tempo, não foi somente pelo prazer da minha presença
           Recuperando a compostura, Yelena o deixou a par dos acontecimentos da última semana desde que ela transmitiu as palavras de Zeke aos aliados, um pedido repetitivo de paciência e compreensão, o grupo anti-Marley que estava formando estava agitado, era preciso depender do sucesso da missão de retomada do Fundador para darem início, e de acordo com Yelena era complicado conter os ânimos ansiosos dos aliados.
-Quando um deles dá pra trás precisamos eliminar, não podemos correr o risco da informação escapar, essa semana eu precisei desovar dois corpos, sabe como isso é dificil?-se jogou contra a parede de tijolos vermelhos-Se continuarmos assim vamos ficar sem ninguém
-Não deveria falar isso, mas Marley está cada vez mais pressionada por resultados, uma missão de reconhecimento parece cada vez mais possível
-Então você vai para a ilha?
-Provavelmente, talvez isso os acalme
           Isso o assombrava e amedrontava, deveria ter ido junto para Paradis, fazer as coisas do seu jeito, ele insistiu nessa designação ao ponto de deixar Magath desconfiado, mas mais arriscado ainda ficar tanto tempo longe sem conseguir contato com a incerteza de se ao voltar ainda teria seus aliados unidos, e admitia que nos últimos anos ele conseguiu reunir um bom número de seguidores, Yelena foi um grande achado, um pouco emocional demais em relação ao seu relacionamento com ele, mas era bom dessa maneira, só era um pouco inconveniente precisar recusar de maneira educada suas investidas, nunca realmente precisando corresponder, apenas dando uma breve sensação de "um dia, talvez".

           A reunião terminou pouco minutos depois, Zeke foi o primeiro a sair, indo agora em direção ao quartel, um tempo depois Yelena surgiu do beco ao lado da modista, completamente coberta a não ser pelos olhos que verificaram em volta antes de seguir seu próprio caminho.
-Por que você continua mentindo para mim, Zeke?
           Do outro lado da rua, escondida entre dois prédios que deixavam um espaço tão estreito que somente uma pessoa pequena como Pieck poderia caber, encolhida como um casulo em um sobretudo marrom estava a jovem que desde que Zeke a convidou para conhecer seu apartamento notou que tal atitude foi feita para distraí-la, sim, Pieck era ingênua, mas não era burra, era triste saber que Zeke subestima sua inteligência com um golpe tão baixo. Mesmo de longe, a jovem procurou tentar gravar a fisionomia da pessoa com quem Zeke se encontrou, deveria ser a mesma de dias atrás, então imaginou uma pessoa loira e extremamente alta, provavelmente um homem, mas não poderia garantir, se um dia a visse novamente esperava reconhecê-la, e assim tentar desvendar aquele segredo que Zeke guardava com tanta suspeita.

 

           O armário de vassouras era tão apertado que mesmo que se quisesse Zeke não poderia evitar a mão boba de Pieck descendo até sua calça, desde a aventura deles não tiveram outra oportunidade, mas sempre que se beijavam a menina se tornava mais ousada em explorá-lo.
-Vamos sair daqui antes que alguém apareça
           Se recomporam rapidamente enquanto arrumavam as roupas, o cabelo bagunçado de Pieck não estava diferente do normal, já Zeke precisou fazer o melhor para arrumar as mechas loiras bagunçadas.
           Pieck não conseguia enxergá-lo muito no lugar escuro, mas sabia que Zeke estava com aquela expressão desconcertada que condizia mais com um jovem adolescente que de um guerreiro de Marley, ela adoraria ter um pouco de luz para captar melhor aquele momento. Estava agindo normalmente, decidindo ignorar a mentira que Zeke lhe contou, ele não diria a verdade e ela não queria ter que ouvir outra mentira.
           Abriu a porta devagar, verificando se havia alguém no corredor antes de pularem para fora, tão rapidamente que poderia dizer que foram transportados de maneira sobrenatural. O mesmo desajuste que vinha depois de se agarrarem sorrateiramente pelos cantos do quartel, não era uma atitude elegível para uma punição grave, só um pouco de constrangimento e uma bronca de Magath, então ambos não se importaria em continuar com aquilo, até porque Zeke nunca mais fez outro convite a ela desde então.
-Estou apresentável?-penteava o cabelo com os dedos
-Parece com alguém que estava se agarrando no armário de vassouras
           Antes que Zeke pudesse dar uma resposta a altura, um chamado por seu nome o fez dar um pulo, o mesmo com Pieck, pelo visto ainda estavam com a adrenalina em alta.
-Senhor Yeager!
           Aquela voz animada que dizia seu nome tão alegremente se tornou bem conhecida por Zeke nas últimas semanas, o jovem Colt Grice para quem ele não tinha nenhuma intenção de repassar o Bestial.
-Colt, como estamos hoje?-Pieck sorriu para o menino
-Bem senhorita Pieck-fez um educado cumprimento a mulher mais velha antes de se virar para Zeke-Senhor Yeager, ontem disse que iríamos aprender mais sobre traçar estratégias baseadas na habilidade de cada um dos titãs
-Vamos começar então
           O casal trocou uma despedida silenciosa enquanto tomavam rumos diferentes pelo corredor, sem antes Zeke dar uma última espiada para apreciar o andar da garota, que estava bem ciente dos olhos dele em si, por isso caprichou no andar antes de sumir em um corredor adjacente.
-Atrapalhei alguma coisa? Nem perguntei se o senhor estava disponível-o menino parecia preocupado, o que divertiu Zeke
           Quando Magath lhe deu um detalhado relatório sobre aquele menino Zeke pensou se a escolha foi feita somente baseada nas habilidades do rapaz, e não pela impressionante coincidência dele ser parente de um dos cúmplices de seus pais, o menino que cresceu vendo a família desgraçada pela rebeldia do tio ocorrida antes mesmo dele nascer, Colt era, genuinamente, o que Zeke fingia ser. Um menino dedicado e patriota que procurava se sacrificar para limpar o nome da família, imaginou se ele quando mais jovem e ávido por conseguir se tornar guerreiro era como aquele menino, submisso e totalmente dominado pelo desejo de agradar aos marleyanos.
           Zeke precisou conter o sorriso ao imaginar o quão patético ele deveria parecer naquela idade, o guerreiro passou mais tempo no banco de espera que qualquer um, muitos anos desde que seus pais lhe inscreveram no Programa de Guerreiros até enfim receber o Bestial, se sentia orgulhoso de ter sobrevivido a lavagem cerebral de seu pai e a de Marley, crescer com uma ideologia patética de revolução e depois ser mergulhado no terror que a nação impunha aos eldianos, procurando em uma idade tão precoce ganhar confiança dos militares para conseguir enganá-los. Estava cansado de jogar pelas regras dos jogos de outras pessoas, não iria se permitir morrer sendo um fantoche.
           A única coisa em sua vida que poderia controlar era a si mesmo, não queria precisar depender de outras pessoas, mas era uma questão de tempo, não estava parado, não estava displicente, só estava esperando.

 

           A neve começou a derreter, agora as casas voltaram a ser vistas e as pessoas voltaram a sair de suas tocas, Pieck estava muito pensativa ultimamente, e isso não passou despercebido por seu pai, que não suspeitou quando a filha chegou na manhã seguinte, segundo ela, por ter ficado presa na neve, mas nos dias depois daquele percebeu algo diferente. Infelizmente, por mais que fossem próximos, Pieck sempre teve o costume de deixar de falar várias coisas, guardando para si mesma, queria acreditar que ocultar era diferente de mentir, mas isso não a faria igual a Zeke? Ou melhor, pior, isso a tornava hipócrita.
           Se sentia terrível consigo mesma em não querer enfrentá-lo, mas tinha medo, principalmente agora que estavam tão próximos, mais que nunca, estava feliz, mas ao mesmo tempo decepcionada.
           Às vezes se condenada por pensar tanto, por teorizar tanto, dizem que esse é o fardo de pessoas inteligentes, quanto mais se sabe pior, às vezes a ignorância é uma dádiva, ela também poderia ter simplesmente entrado em casa aquele dia ao invés de segui-lo, mas também existia a dúvida.
-Merda-rosnou para si mesma-Você se pouparia de muita coisa se tivesse ignorado
           Caminhava por Liberio com destino certo, mas também parecia andar sem rumo, andar a ajudava a esquecer, e era bom se distrair em seu dia de folga, então acelerou o passo para chegar mais rápido, respirando fundo e tentando expulsar aqueles pensamentos perturbadores, até que seus pés pisaram em uma parte da rua coberta de gelo, os reflexos de Pieck não foram rápidos suficiente para lhe avisar até ela já ter caído no chão, o baque refletiu por todo seu quadril.
-Ai!
           Gemeu sentindo o golpe, talvez fosse castigo, ela jogou a cabeça para o alto, procurando entre as nuvens opacas uma resposta divina para tudo o que estava acontecendo, tudo o que recebeu foi o silêncio, abaixou a cabeça encarando os pés projetados paralelos no chão, não tinha muita energia para levantar, talvez pudesse ficar ali e fingir que não existia.
-Pieck, você está bem?
           Reconheceu a voz, um pouco mais grossa que da última vez que a ouviu, ao erguer os olhos viu o rosto preocupado de Porco que se curvou em sua direção para ajudá-la a levantar.
-Sim, só quebrei a bunda
-Sério?
-Não-respondeu rindo enquanto aceitava o auxílio-Foi só minha dignidade mesmo
-Não se preocupe, a rua não está tão movimentada
           A menina olhou em volta, algumas pessoas a encaravam meio desconcertadas, havia sido um tombo bem feio, mas o rapaz estava certo, não haviam muitas testemunhas, seria muito ruim se um grande público tivesse testemunhado a guerreira cair de bunda no chão.
-Não tenho te visto ultimamente-limpou a saia, notando que estava ligeiramente úmida na parte de trás
-Estou trabalhando com o meu pai, mas na primavera começo o serviço militar
-Se decidiu de vez então-o olhou de esgueira
-Sim-respondeu um pouco sem graça, lembrando da conversa que tiveram ao que parecia ter sido um milhão de anos antes
-Você é esperto Porco, se manter à vista
-Como assim?
           Começaram a andar, a menina ia em direção ao distrito vizinho, e o jovem apenas a acompanhou.
-Sabe o que quero dizer, você chegou bem longe para ser esquecido, e é sempre bom ter um reserva
-Nunca me falaram nada a respeito, mas seria bom continuar sendo considerado por Marley
-Afinal, não sabemos o que vai acontecer quando os outros trouxerem o Titã Fundador, se o portador, caso o tragam com vida, não for muito solicito, vão precisar de alguém para recebê-lo, seria ruim uma única pessoa ter dois titãs, isso reduz nosso poder bélico
-Isso é algum tipo de informação?-a encarou com seriedade
-Não, apenas uma teoria que eu criei depois de tanto tempo de espera. Mesmo se fosse, não é como se eu pudesse ir divulgando
-Claro, eu entendo. E como tem estado as coisas? Você e Zeke tem dado conta sozinhos?
-Temos sim, somos uma boa dupla-desviou o olhar, corando ligeiramente
-Entendi, eu tenho acompanhado as notícias, parece que onde quer que estejam a vitória os acompanha
           Não conteve a risada, isso lembrava um pouco os elogios animados de Colt, porém a voz de Porco parecia ter mais provocação que qualquer coisa.
-Quando chegamos a batalha costuma estar 90% concluída, só vamos para finalizar
-Ou salvar o dia
-Não somos heróis, Porco, apenas guerreiros, soldados como os outros, a diferença é que podemos virar titãs
-Mesmo assim, parece ser bem legal
           Pelo visto ele ainda tinha um pouco de mágoa por ter ficado de fora.
-Como estão seus pais? Não tenho visto muito a sua mãe-olhou instintivamente para as botas que usava, compradas na sapataria da família Galliard
-Ultimamente ela tem só falado do Marcel o dia todo, está com muita saudade dele. Digamos que eu nunca fui o preferido. Meu pai, bom, o mesmo de sempre, está zangado porque pelo visto nenhum dos filhos vai herdar os negócios da família
-Poderia ao menos pensar na possibilidade-duvidava que fosse tirar dele a ideia de ir para o exército, mas queria imaginar um destino diferente para o amigo de infância que servir de isca durante as batalhas de Marley
-Passei os últimos anos ajudando ele na loja, eu não quero ter que ficar ajoelhado o dia colocando sapatos nos pés de desconhecidos
-Não deveria falar assim, foi dessa maneira que seu pai criou você e seu irmão-o repreendeu, sabia como ter um negócio dentro da Zona de Internamento era difícil, mas Porco sempre foi um rapaz muito ingrato
-Tsc-clicou a língua, virando o rosto e fingindo ignorar a reprimenda-Tanto faz-a olhou pelo canto do olho-Então, para onde está indo?
-Vou para a casa de uma amiga
-Amiga? Nunca te vejo acompanhada de ninguém
-Eu também tenho vida social, Pocky
-Não me chame assim-corou violentamente, a encarando com irritação-Você não me chama assim desde que éramos bem pequenos
-Parei de te chamar assim quando entramos no Programa de Guerreiros, não ficaria bem se os marleyanos me ouvissem te chamando dessa maneira, agora não tem mais problema-respondeu provocativa-Chegamos-anunciou
           O rapaz olhou para a casa onde estavam, não era de ninguém que conhecesse, o que aumentou sua curiosidade em quem era a amiga de Pieck, mas não iria perder tempo perguntando, tinha algo que queria dizer, e não achou que fosse ter outra oportunidade.
-Então...-coçou a nuca, desviando o olhar enquanto seu rosto adquiria um tom rosado-Aproveitando que estou aqui, sabe,...queria saber se um dia...a gente poderia, sei lá, sair
-Claro, quando?-deu algumas batidas na porta sem realmente prestar muita atenção em Porco
-É, bem, quero dizer, eu e você, tipo, tipo um encontro-encarou os telhados do prédio a frente, não conseguia encara-la
-Ah-não pode conter a surpresa-Claro
           Sua resposta foi automática, não era como se estivesse comprometida, mas não se via como solteira.
-Vou para o exército na primavera, então queria que fosse antes
           Caso eu não volte.
-Sim, é...sim
-Ok então, eu te aviso antes
-Seria bom-deu uma risadinha nervosa
-Vou indo então
           Antes que Pieck pudesse se despedir, o rapaz se apressou, como temendo que se demorasse ela fosse mudar de ideia.
           Parada diante da porta, Pieck estava tentando entender o que havia acabado de aceitar, não imaginou que Porco tivesse esse tipo de intenção com ela, quer dizer, eles costumavam tomar banho juntos quando eram pequenos demais para entender porque seus corpos eram diferentes, conspiravam junto com Marcel para escalar o armário da cozinha e roubar biscoitos antes do jantar enquanto a mãe dos meninos estava distraída e até dividiam a cama quando o pai dela precisava trabalhar dois turnos seguidos para levar comida dentro de casa.
           Nunca imaginou Porco de outra forma que não um irmão irritadiço e implicante, mas pelo visto ele via de outra maneira.
-Pieck, tudo bem?
           A senhora Yeager perguntou logo que abriu a porta e encontrou a garota paralisada do lado de fora.
-Acabaram de me chamar para sair-disse enquanto entrava na casa
-O que? Quem?
-Porco Galliard
-Entre imediatamente e me conte tudo
           A senhora ordenou enquanto puxava a visita em direção a sala.

 

           Às vezes Zeke imaginava se deveria ser um neto mais presente, quanto tempo desde que visitou sua avó? Alguns meses, ou mais, não poderia dizer ao certo, e seu avô? Nunca nem colocou os pés no hospital em que estava internado a não ser no dia em que precisou preencher a papelada para dar ao velho homem os privilégios de ser parente de um guerreiro de Marley, porém, naquela manhã enquanto lia o jornal deitado na cama viu no gancho atrá da porta uma capa protetora de plástico pendurada, o que não lembrava de estar lá na última vez, puxou seu zíper e sentiu um peso na consciência depois de encontrar sua melhor farda, usada somente em grandes eventos, passada e imaculada mesmo que não a tenha usado recentemente, sua avó sempre a deixava pronta para uso, nunca permitindo que a veste ficasse muito tempo esquecida.
           Era tão comum ir trabalhar e voltar encontrando a casa milagrosamente limpa, suas roupas dobradas e alguns potes de comida caseira congelada na geladeira que se esquecia que era ela quem o fazia. Como no dia anterior, os cinzeiros limpos, nem um único grão de poeira, ainda assim ele jogou as roupas no chão e foi dormir fingindo que ao sair o apartamento estava exatamente daquela maneira e que em alguns dias a roupa iria desaparecer do chão e surgir lavada e dobrada dentro da gaveta.
           Foi dessa maneira que Zeke acabou por optar fazer uma visita a sua avó, tirando as chaves do bolso para abrir a porta e ser recebido pelo som de música tocando na vitrola e o som de vozes vindas da sala de estar.
-Você está ficando muito boa nisso, a mãe de Zeke nunca se interessou em bordado
           A menção a sua mãe fez o loiro congelar, era um assunto sensível, e não importava para quem a mulher dizia, não era algo a ser mencionado.
-Ela se achava muito boa para afazeres domésticos, dizia ter outros interesses-ouviu sua avó falar com certo desdém-Se eu soubesse que interesses eram esses...-deixou no ar o restante da frase
-Como era a mãe do Zeke?-o portador do Bestial reconheceu a inconfundível voz, mas queria acreditar estar enganado
-Era uma ótima esposa, Grisha a idolatrava e ela a ele, mas deixou a desejar como mãe, mesmo se não fosse os esquemas revolucionários deles, acredito que ele teria preferido viver conosco de qualquer forma. Coitadinho, o Zeke quando chegou, ele...
           Interrompeu o que iria dizer ao encontrar logo na entrada da sala o neto que mantinha um olhar espantado diante da cena, enquanto sua avó estava no sofá ao lado de uma cesta de agulha e linha, Pieck estava na poltrona segurando um bastidor e criando com linhas verdes um desenho no tecido de linho, notando que a senhora a sua frente parecia encarar com medo algo do outro lado do cômodo, a menina virou o rosto encontrando o rosto de Zeke, que de espanto foi para raiva.
-Zeke...-sua avó levantou rapidamente do sofá, indo de encontro ao neto que desviou da mulher, indo direto para Pieck
-O que está fazendo aqui?
           Não teve resposta, Pieck deixou os materiais de lado antes de se levantar, encarando Zeke de frente.
-Me responda-insistiu
-Vim fazer companhia a sua avó
-Imagino que não dei a sorte de flagrar a primeira de suas visitas, correto?
-Na verdade você demorou bastante para descobrir
-Pieck-a senhora Yeager a advertiu
           Era revoltante para Pieck como a mulher parecia ter medo do próprio neto.
-Não brigue com ela, a ideia foi minha, eu em insisti
-Pieck, com licença
           Procurando permissão no olhar da senhora mais velha, Pieck entendeu que era melhor ir embora, se tivesse qualquer traço de que a avó preferia que ela ficasse não teria se intimidado em brigar por permanecer ali, mas a casa era dela, então, se preferia que fosse embora assim o faria.
           Assim que ouviu o som da porta da frente se fechar, Zeke voltou a atenção à avó, que recolhia todo o material usado para bordado, evitando encarar o neto cuja presença deixava o ambiente pesado.
-Quanto tempo desde que isso começou?
-Alguns anos
-Anos?! E vocês escondiam isso de mim?
-Sempre que tive a oportunidade comentava sobre a Pieck, não foram muitas as chances, quase não vem me ver, mas ao menos deduzi que soubesse que nós víamos
-Pensei que se vissem as vezes por ai, não que a chamasse dentro de para falar dos meus pais
-Ela me fazia companhia-tentou justificar
-Não quero saber, isso é algo pessoal, não pode ir compartilhando com qualquer pessoa
-Pieck não é qualquer pessoa, sabe bem disso, ela é o mais próximo de amizade que já vi você ter em toda a vida
-Isso não justifica nada
           Ficaram se encarando por um tempo, a situação era tão inesperada e surpreendente que Zeke realmente não sabia muito o que falar, ainda estava tentando entender o que aconteceu. Sem dizer mais palavras, o loiro saiu, deixando sua avó sozinha, mais uma vez.

           Encontrar Pieck sentada nas escadas de seu prédio era algo que ele poderia prever, ela não iria simplesmente sumir depois daquilo, se levantou em um pulo logo que o avistou, o loiro não disse nada, passando por ela e seguindo até a porta de seu apartamento, Pieck foi atrás, parando logo que ele entrou, imaginando se iria ou não bater a porta na sua cara, mas felizmente ele a deixou entrar, o que deveria ser um bom sinal.
-Quando pretendia me contar?
           Já estava acendendo um cigarro antes mesmo de terminar de tirar o casaco, sua afobação por tabaco já indicava que ele estava irritado.
-Para falar a verdade, nunca
-Por que achou que tinha o direito de se meter em meus assuntos familiares?
-Não "me meti" em seus assuntos, só quis ser uma companhia para sua avó
-Isso é se meter em meus assuntos
-Nem faz questão de ir vê-la, como pode exigir alguma coisa?
-Perdão? Em que isso é da sua conta?
-É da minha conta sim, você nem se importa
-Você não sabe de nada
-Sei muita coisa
           Cruzou os braços irritada, não estava certa, mas ele também não, e entre os dois o erro dele era maior.
-Que tipo de coisa? O que você achou descobrindo? Me conte-sua voz estava cheia de escárnio
-Sei que você denunciou seus pais, sei que eles queriam que se infiltrasse em Marley para realizar um plano de restauração de Eldia, sei disso tudo-viu com satisfação quando os olhos dele se arregalaram de espanto-Sei sobre sua tia Faye que morreu porque seu pai fugiu com ela para ver um dirigível e que ele sempre se culpou por isso
-Ela não deveria ter te contado essas coisas-jogou a guimba de cigarro em um dos cinzeiros espalhados pela sala, fumando com mais ferocidade
-Você ao menos já tentou falar com ela sobre isso?-era possível ver esperança em sua voz, esperança dele se importar ao menos um pouco
-De que adianta? Já aconteceu, nada vai mudar-deu de ombros
           Viu quando os olhos sempre tranquilos e calmos de Pieck tomaram um brilho de ira, tudo o que oprimiu pelos últimos anos desde que percebeu a solidão da senhora Yeager surgiu.
-Você perdeu seus pais, mas ela perdeu os filhos, os dois. Você não foi a única vítima disso tudo, enquanto você precisava provar para Marley sua lealdade as pessoas simplesmente foram se afastando dela por medo, e só voltaram quando você se tornou guerreiro, durante aqueles anos como candidato sua avó levou tudo totalmente sozinha, não tinha companhia, seu avô ia piorando e você se distanciando cada vez mais...
-O que você entende? Não estava lá, só sabe o ponto de vista dela
-Só sei porque ela foi a única disposta a me contar, eu consegui te entender um pouco melhor desde então, mas não totalmente, eu queria ouvir o seu lado também-deu alguns passos em sua direção, mas ele se afastou
           Zeke Yeager era frustrante, sempre quando a garota chegava um pouco mais perto, ou ele próprio lhe dava uma abertura, logo em seguida fazia isso, se afastava.
-Por isso você sempre tenta ser perfeito? Ou por isso continua mentindo?-viu como ele ficou alerta-Isso tem a ver com o que eu vi? O que você...?
           Foi preciso apenas poucos passos até chegar até ela, a levando contra a porta e tapando sua boca com a mão, a impedindo de continuar. Procurando alguma explicação encarou aqueles olhos cinzas com um ligeiro tom de azul, segurou seu braço para se livrar, mas ele era muito forte, ela sempre soube, mas era a primeira vez que ele usou aquela força contra ela. Estava totalmente escondida por seu corpo, o cigarro agora queimava no piso de madeira enquanto pelo que pareceu uma eternidade Zeke tentava inventar uma desculpa para sua atitude, mas no final preferiu falar a verdade.
           Pieck se arrepiou involuntariamente ao sentir a barba roçar em sua pele e seus lábios tocando a orelha.
-Muito cuidado com o que você vai falar, tem uma escuta aqui dentro
           Primeiro o choque, e então o encarou com nojo, ele sabia o que estava passando pela sua cabeça, a noite deles foi transmitida, olhou dele para o quarto, onde várias noites atrás ele foi o primeiro a tê-la para si, se lembrando dos gemidos, dos sons, dos gritos, tudo isso agora era uma fita gravada no acervo de espionagem de Marley.
           Zeke viu os olhos dela se umedecerem, aquilo foi suficiente para quebrá-lo.
-Não...-disse ele em um sussurro abatido
           Deixou os braços caírem ao lado do corpo, mais que rapidamente Pieck o empurrou e saiu pela porta, passando as mãos com força pelos olhos para impedir qualquer lágrima de cair, estava se decepcionando demais com Zeke ultimamente, mas não esperava isso dele, ainda assim não deixaria uma única lágrima cair por sua causa.
           Desceu as escadas apressada, acelerando logo que ouviu passos vindos atrás, olhou para cima percebendo que Zeke agora descia as escadas atrás dela. Correu até a rua, parando ao notar a movimentação, mas sem perder o objetivo de se afastar dele o mais rápido possível.
           As ruas da Zona de Internamento estavam mais agitadas naquele horário, o que o fez perdê-la de vista rapidamente, mas sabendo que ela provavelmente iria para casa o loiro se adiantou para encontrá-la no meio do caminho.

           Pieck deveria ter desviado por diversas ruas pensando assim cansá-lo de sua perseguição, já fazia algum tempo desde que o despistou, nem por isso Zeke deixou de aguardá-la uma quadra antes do prédio onde morava, encostado contra uma caixa de correios com seu cigarro na mão e olhos atentos.
           Notaram a presença do outro ao mesmo tempo, mas foi ele quem deu o primeiro passo, seguindo pela rua até ela que deu meia-volta e tentou mais uma vez fugir, o que nenhum dos dois esperava era a rua escorregadia que levou a garota direto ao chão em um deja vu vergonhoso, caindo de lado entre a rua e a calçada. Zeke iniciou uma corrida até ela, porém parou quando notou alguém se aproximando antes que pudesse chegar perto.
-De novo?!
           Saindo de uma loja um rapaz adolescente foi ajudá-la, não demorou muito para reconhecer Porco Galliard, a quem não via já havia alguns anos. Ele a ergueu do chão, mas ao dar o primeiro passo a menina vacilou, quase caindo novamente se não fosse o apoio, segurou o tornozelo enquanto tentava se manter de pé, Zeke não conseguiu ouvir, mas Galliard disse algo para ela antes de ajudá-la a entrar na loja de onde havia saído, com o tornozelo aparentemente torcido ela foi mancando para dentro do estabelecimento, não sem antes direcionar ao homem de óculos um olhar enojado.