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My Girl

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848

 


           Tentava entender como ele terminou sentado durante horas em um carro a caminho de um destino bem distante de Libério, não estavam indo para o campo de batalha, não era nada que parecia precisar se preocupar, mas Zeke estava tenso e incomodado. Quando Magath contou que havia milionários estrangeiros com muito dinheiro e pouco entretenimento querendo investir na artilharia de Marley, mais especificamente no programa de titãs o loiro não deu importância, não era seu trabalho se preocupar com o volume dentro dos cofres, ele só tinha que destruir o que mandavam, matar inimigos e o que fosse feito depois não era mais de seu interesse, porém sabia que quando o comandante chamou a dupla de guerreiros para conversar alguns dias antes eles precisariam fazer mais que o inicialmente era proposto.
-O senhor Gutierrez, um generoso investidor, deseja conhecer os guerreiros de Marley, e nos convidou para um final de semana em sua propriedade
           Dessa maneira, Zeke arrumou suas coisas e entrou naquele carro com Pieck a seu lado, ela parecia mais tranquila, lendo distraidamente um livro com tanta concentração que não deveria ver o tempo passar, ele então aproveitou para dar uma olhada nela, a jovem vinha perdendo as feições infantis e seu rosto se tornava mais feminino e maduro, com maçãs do rosto levemente salientes, lábios carnudos e olhos cobertos por cílios longos e grossos, seu longo cabelo negro estava preso por um elástico que cada vez que ele olhava ia escorregando pelos fios negros e lisos.
-Me encarando novamente Zeke?
           Sua voz saiu serenamente sem desviar a atenção do livro, o loiro desviou o olhar constrangido.
-As únicas opções que tenho são as árvores da estrada, a nuca do motorista ou você, de todas você parece a mais interessante
-Fico honrada que em meio a tanta concorrência eu tenha sido a felizarda
           Lhe direcionou um olhar de esgueira, puxando os cantos dos lábios levemente para cima em um sorriso discreto. Decidiu ser mais seguro olhar pela janela, ultimamente ele vinha se pegando encarando-a, de uma forma que o deixava incomodado, um breve momento de deleite ao admirá-la se seguia por vergonha e culpa em não conseguir vê-la mais como a menina de antes.
           Quando Magath disse “propriedade” pensaram ser uma casa grande ou mesmo mansão, e não um castelo jacobina cercado por centenas de acres particulares, com criados a postos na fachada para a comitiva de Marley que chegou, Magath estava no carro da frente e logo no de trás Pieck e Zeke saltaram, cada um com sua mochila, olhando em volta e pensando em como um lugar tão bonito e próximo a fronteira nunca havia sofrido com as inúmeras guerras em que Marley acabava se metendo. Ao se aproximarem Magath já conversava com um mordomo, que por um instante olhou por cima do ombro do convidado e encarou a dupla com espanto, como se fossem fantasmas, ou eldianos, o que dependendo da pessoa era ainda pior, parando um tempo a mais em Pieck antes de voltar a falar com o oficial.
           Magath concordou com o que quer que o homem estivesse falando, ao mesmo tempo duas empregadas se aproximaram dos guerreiros e pegaram suas mochilas, o superior se aproximou, arrumando uma insígnia presa na farda.
-Vamos indo-com um simples gesto de mãos os soldados que faziam parte da visita manobraram o caminhão que carregava a armadura de Pieck para os fundos da propriedade
-Pensei que iríamos conhecer nosso anfitrião primeiro-Zeke comentou enquanto seguiam o mesmo caminho
-O senhor Gutierrez deseja conhecer os titãs
           Zeke e Pieck se entreolharam, os titãs eram eles, mas não iriam questionar, andando pela grama verde-esmeralda por muitos minutos até uma clareira que curiosamente tinha vários alvos de metal formados por carcaças de tanques de guerra. Assim que chegaram, cumprindo as ordens de Magath, a menina correu até onde o caminhão havia estacionado, sumindo atrás do veículo e depois surgindo um raio de transformação.
-Você ainda não Zeke-disse o homem-Eles estão vindo
           Se referia a um grupo de cinco homens bem vestidos, seguidos por criados segurando sombrinhas para lhes protegerem do sol, exalando riqueza com jóias brilhantes e ternos de três peças.
-Senhor Gutierrez-Magath deu seu melhor sorriso quando eles se aproximaram-Estamos honrados pelo seu convite
-Eu é quem agradeço a visita
           O anfitrião era o mais jovem do grupo, porém deveria ter a idade de Magath aproximadamente, um fino bigode lápis bem penteado e um ar maroto, algumas rugas ao redor dos olhos denunciavam levemente sua idade. Gutierrez deu um forte aperto de mão em Magath, depois direcionando a mão para Zeke, mas a parando no meio do caminho quando seus olhos foram puxados para a braçadeira vermelha que o loiro carregava.
           Zeke nunca estendia a mão ao cumprimentar alguém, sabia que algumas pessoas evitavam ao máximo contato com eldianos, aprendeu isso depois de várias situações onde ficou com o braço estendido no ar.
           Enquanto Magath era apresentado aos outros estrangeiros, Zeke percebeu a aproximação de soldados marleyanos que guiavam um jovem adolescente, cujas mãos e pés estavam acorrentados, uma mordaça o impedia de gritar. Um prisioneiro cuja função era óbvia para Zeke, mesmo que ninguém tenha lhe dito nada de antemão, o menino deveria ter a idade de Pieck, muito novo para fazer intencionalmente algo que merecesse tal castigo, ou era apenas igual Zeke, nasceu com os pais errados.
-Podemos começar?-Gutierrez perguntou a Magath, evitando olhar para Zeke
           O loiro estalou as articulações do pescoço, nem mesmo o poder de regeneração poderia estar lutando contra a tensão que sentia depois de tanto tempo sentado na mesma posição. O menino estava parado no meio da clareira, chorando e desesperado, sua mordaça estava úmida por saliva e fluido espinhal que deveria ter sido empurrado goela abaixo, antigamente Zeke se sentia culpado em ser responsável pela transformação de eldianos em titãs, hoje ele não sentia absolutamente nada. Um grito gutural foi o suficiente para o menino ser envolto por uma luz dourada, se tornando um humanoide com pequenos resquícios do humano que foi um dia, agora uma caricatura deformada que ao longe poderia ser reconhecido como quem era antes, mas ninguém realmente prestou atenção nele suficiente para memorizar seu rosto, ficando na memória apenas a imagem gigante de destorcida que arrancou suspiros de admiração e surpresa da plateia.
-Pare!
           O comando de Zeke impediu que o titã, que se aproximava em passos irregulares até onde estavam as pessoas, seguisse seus instintos e os devorasse.
-A habilidade de Zeke em controlar titãs é uma arma muito útil, semelhante a coordenada, porém menos abrangente, ele só pode controlar os que foram transformados com seu próprio fluido espinhal-explicou Magath, mas não acreditava que estivessem prestando atenção nele
-Nunca tive a oportunidade de ver um titã pessoalmente-Gutierrez foi se aproximando, ignorando o aviso de Magath para manter distancia-O que mais você consegue mandá-lo fazer?
-Qualquer coisa
           Zeke se arrependeu de suas palavras depois que o homem mandou ele tratar o titã como um cachorro adestrado, correndo de um lado para o outro, dando pulos que tremeram o chão, o titã não foi muito bem sucedido em uma cambalhota, mas arrancou risadas do público. Se sentia como uma atração de circo, olhando para Magath de esgueira esperando uma ordem para se transformar, enquanto isso precisaria continuar ali sendo ignorado a não ser quando pedissem por mais um pouco de entretenimento com o titã.
-Não tem outro titã?
-Sim, ela está vindo
           Pieck surgiu com sua armadura, carregando dois atiradores de elite de Marley nas costas, somente os melhores tinham a honra de lutar com o titã Quadrúpede.
-Não é muito impressionante-Gutierrez cruzou os braços decepcionado
-Cada titã tem sua função-respondeu rapidamente, mantendo o tom educado
           Mesmo sendo marleyano, Magath não permitia que desprezassem os titãs e seus guerreiros, sabia que em muitos momentos Pieck era mais útil que Zeke, mas aquelas pessoas estavam ali para serem impressionados. Notou que pelas várias janelas do castelo, muitos rostos se espremiam para dar uma olhada.
           Por mais que esperassem um titã gigante, a forma como a artilharia conseguiu perfurar tranquilamente a blindagem de tanques de guerra deixou-os de queixo caído, a mobilidade somada ao poder balístico era surpreendente.
-Zeke, sua vez
           Quase deu um suspiro de alívio enquanto se afastava para poder se transformar, o Bestial sempre foi líder da nova geração de guerreiros, e vê-lo pessoalmente era incrível, principalmente por não precisar temer por sua vida. Estar a mais de quinze metros de altura era confortável, ver aquelas pessoas esnobes pequenas aos seus pés o fazia se sentir poderoso, e o desejo de pisar neles só aumentou. Não sabia bem como mostrar suas habilidades sem causar muito estrago, enquanto pensava em como fazê-lo, Zeke viu um flash surgir de seus pés, Gutierrez estava posando para uma fotografia, mandando o fotógrafo enquadrar os três titãs ao fundo, Zeke bufou, o que para quem viu achou ser apenas um grunhido do Bestial, mas Pieck percebeu que ele estava irritado, a menina então procurou atrair as atenções para si, ultimamente Zeke estava um pouco estranho, assim a menina fez questão de mostrar porque o Quadrúpede não perdia em nada para os outros titãs maiores e mais imponentes.

           O titã puro evaporava em fumaça, surgindo um esqueleto que depois também iria sumir, Pieck saiu de seu titã depois de tirarem a pesada armadura, Zeke ainda tinha algumas marcas no rosto, e esperava pela menina ao lado do caminhão onde guardariam sua armadura. Pieck arrumou sua saia que sempre ficava um pouco amarrotada depois de uma transformação, como esperado Zeke já tinha um cigarro na boca.
-O que fazemos agora?-perguntou para ele
-Você ainda não se apresentou
           A dupla andou sem pressa até onde Magath estava com os outros cinco homens, conversando em alto tom de voz, querendo saber mais agora sobre as habilidades dos outros guerreiros, querendo detalhes do poder de destruição da transformação do Colossal e a força de uma mordida do Mandíbula.
           Gutierrez ao sentir a presença deles olhou brevemente por cima do ombro sem interesse, mas seus olhos castanhos se arregalaram e um sorriso muito animado marcou seu rosto beirando o assustador, se virou rapidamente para Pieck, que soprava alguns fios de cabelo que caiam em seus olhos.
-Olá, Você! Não me diga que é a guerreira do Quadrúpede
-Pieck Finger, senhor
-Fernando Gutierrez-estendeu a mão, a menina olhou para os dedos cheios de anéis, nunca haviam lhe oferecido um aperto de mão, mas ela o aceitou, as mãos dele estavam suadas e isso a incomodou-Quem diria que havia uma jovem tão bonita e encantadora dentro daquele titã
-O-obrigada
           Abaixou a cabeça constrangida, não era o tipo de elogio que costumava receber, e estarem na presença de outras pessoas a deixou sem graça.
-Estávamos indo comer alguma coisa, deve estar com fome depois de uma viagem tão longa até aqui
           O homem de pele dourada colocou sua mão no ombro da menina e a guiou pelo jardim, deixando os outros ali parados e confusos, os outros estrangeiros tinham um olhar incomodado e constrangido, já Magath e Zeke se entreolharam sem entender nada.
           Enfim todos seguiram o líder, onde longe da clareira, em um jardim externo repleto de flores e abelhas, uma tenda branca e aberta estava armada, ao redor empregados aguardavam a chegada dos convidados, puxando cadeiras para eles sentarem, Gutierrez fez questão de ter Pieck ao seu lado, a menina ficou impressionada com a mesa bem posta, com sanduíches cortados em triângulos, doces e aperitivos mais que suficiente para alimentar a todos. Zeke ficou em pé ao lado da mesa junto com Magath, não havia mais cadeiras disponíveis, mostrando que não era a ideia inicial chamar os guerreiros.
-Comandante Magath, sente aqui-Pieck ia se levantando para dar lugar ao superior
-Não se preocupe, os empregados vão trazer cadeiras para eles-segurou seu ombro e a empurrou de volta para a cadeira com força-Então Pieck, quantos anos você tem?
-Catorze-respondeu olhando para Magath que ainda estava em pé
-Que idade boa, cheia de juventude-apoiou o cotovelo direito na mesa e pousou o queixo na mão-Gostou da minha humilde residência?
-Sim, é muito bonita
           Chegando as cadeiras, os outros ocupantes precisaram se afastar para dar lugar ao redor da mesa de metal branco, Zeke notou como aquele que estava ao seu lado se afastou ainda mais que o necessário. Conversavam com os rostos virados contra Gutierrez, não querendo ver o que se desenrolava entre ele e a menina eldiana.
           O guerreiro não comia nada, estava sem fome, mesmo a bebida gelada desceu com dificuldade enquanto ele aguçava os ouvidos para pegar trechos da conversa do outro lado da mesa
-O que você gosta de fazer no seu tempo livre?-pegou um macaron amarelo no suporte prateado de três andares e entregou para a menina
-Ler-aceitou o doce, dando uma leve mordida, era tão gostoso, se a situação fosse mais confortável poderia apreciar mais
-Vai adorar minha biblioteca, temos centenas de milhares de livros em todos os idiomas que pode imaginar. Vou te mostrar mais tarde
-Preciso pedir permissão ao comandante Magath
           Seus olhos escuros estavam fixos no tilintar do gelo na taça de cristal onde a limonada de morango esperava ser bebida. Ao que parecia, aquele final de semana seria muito longo.

           Os guerreiros seguiam a governanta da casa até seus aposentos, no último andar da construção, o corredor onde ficavam os quartos dos criados, a mulher abriu uma porta onde um quarto amplo com duas camas os aguardavam, sentia o cheiros dos lençóis limpos, mesmo que parecessem ter pertencido a muitas pessoas até estarem ali. Não comentaram sobre estarem no mesmo quarto, apenas aceitaram a acomodação e entraram, suas mochilas já estavam nas camas, Pieck sentou ao lado de sua mochila, silenciosa e incomodada depois do lanche no jardim.
           Zeke tirou um maço do bolso de sua farda, indo até a janela velha e enferrujada que gritou quando ele a abriu.
-O comandante Magath falou o que faremos depois?-quis quebrar o silêncio
-Eles já tiveram o que queriam, agora creio que vamos ficar aqui com eles fingindo que não existimos
           Duas batidas na porta, se entreolharam enquanto Zeke foi abri-la, uma menina vestida de empregada suava depois de ter que subir tantos lances de escada até o andar que ficava logo abaixo do telhado, respirou um pouco antes de apontar o dedo para Pieck.
-Você, o senhor Gutierrez está te chamando na biblioteca
-Eu?
-Ele mandou chamar a menina eldiana, que eu saiba você é a única menina eldiana por aqui
           Ela não deveria usar aquele tipo de tratamento com as outras pessoas.
-Acho melhor eu ir então
           Arrumou o cabelo e foi em direção a porta, mas quem ia com ela era Zeke, que jogou a guimba de cigarro pela janela sem se importar em acertar alguém e apressou o passo para alcançá-la.
-Ei, ele disse só a menina-foi questionado pela empregada
-Vou junto-disse com firmeza
           Deu de ombros, como se não fosse problema dela, nem ao menos haviam lhe dado tempo de se estabilizar antes de ir incomodá-la, o que deixou Zeke ainda mais alerta, sendo levados por corredores que só poderiam pertencer a um castelo, pinturas com molduras que deveriam ser de ouro, corrimões tão polidos que poderiam ver seus reflexos neles, vasos que provavelmente custavam uma pequena fortuna sempre abastecidos com flores frescas. A menina ficou um pouco distraída ao entrar na biblioteca, com dois andares e vários metros quadrados, todas as paredes eram revestidas por prateleiras cheias de livros, ela nunca havia visto tanto livro junto, ergueu a cabeça para ver o afresco pintado no teto e o lustre de cristal iluminado, era o lugar mais bonito que já esteve em toda sua vida.
-Creio que mandei chamar apenas ela-foi a primeira coisa que Gutierrez disse quando a empregada entrou na companhia dos dois guerreiros
-Sinto muito senhor, mas o rapaz insistiu
           Via que a empregada estava irritada e com medo de ser repreendida, mas Zeke ignorou os dois, permanecendo em pé na entrada enquanto Pieck ainda encarava o teto.
-Senhor Yeager, creio que deve ter se confundido com o convite, ele era apenas para a senhorita Pieck-sua falsa educação era irritante
-Não vejo qual assunto tenha a tratar com ela que não diga respeito a mim
-Quantos livros você tem?
           A menina começou a perceber uma tensão, então era melhor mudar de assunto, a expressão de Gutierrez foi da água para o vinho, lhe direcionando um sorriso animado enquanto respondia sua pergunta, tantos dígitos que seria grosseiro colocar registrado.
-Quais tipos de livros gosta de ler?
-Romance, principalmente aventura
           Aquele homem sabia o que estava fazendo, Pieck poderia ter sido reservada no inicio, porém cerca-la com o que ela mais amava estava fazendo a menina ficar mais aberta para conversar, e com Zeke ali duvidava que ele pretendesse algo. Tentava entender o que ele queria, e as opções que vinham para ele eram piores que as anteriores, por enquanto iria observar.
-Tenho um livro que vai adorar, mas ele está ali em cima-apontou para um livro de capa vermelha a alguns metros de altura-Infelizmente meu joelho está ruim, mas você é uma menina jovem-discretamente ia puxando a escada deslizante até eles-Pegue que é seu
-Pieck...-Zeke começou a falar até ser interrompido
-Sim
           Com uma grande confiança, a menina colocou o pé no primeiro degrau da escada de madeira, um pouco temerosa por ela ir deslizando, mas encontrou firmeza para subir o restante até alcançar o livro de capa vermelha. Ignorando o olhar lascivo que Gutierrez direcionava a ela, o rosto do homem estava na altura de seus tornozelos, o que a fez querer voltar rapidamente para baixo, agora com o objeto nas mãos.
-Obrigada senhor Gutierrez, agora irei voltar para meus aposentos e ler um pouco
-Não quer escolher mais alguma coisa?
-Esse livro é bem grande-o abraçou contra o corpo-Deve ocupar todo meu final de semana, fora os outros que trouxe
-Se quiser mais é só falar
-Irei sim-deu um belo sorriso antes de andar até a porta da biblioteca
           Zeke deu uma última olhada no homem antes de ir tambem, andando apressados e em silêncio, até que ele disse:
-O que foi aquilo?
-O que você iria fazer? Brigar?
-Não te quero sozinha com ele-rosnou enquanto cruzavam um corredor, tentando lembrar do caminho que fizeram até ali
-Também não quero ficar sozinha com ele
-Pieck, você precisa ter cuidado
-Sei disso, diferente das outras vezes eu realmente senti que preciso ter cuidado com ele. Mas não preciso mais que você fique me protegendo
-Da última vez que ouvi isso você tinha se metido na tenda de marleyanos
           A menina virou os calcanhares, impedindo a passagem de Zeke, o fazendo parar bem próximo a ela que lhe dava um sorriso misterioso.
-Sei disso, mas hoje sei algumas coisas que naquela época não sabia
           O loiro abriu a boca para falar alguma coisa, porém nada saiu, talvez Pieck esteja mais madura, não só por fora como por dentro.
-Digamos que hoje eu consigo entender os olhares que as pessoas direcionam a mim, inclusive você
-Do que você está falando?-sentiu a nuca começar a suar
           Não teve resposta, a menina voltou a andar em direção a próxima escadaria, segurando seu novo livro e sorrindo de maneira sorrateira enquanto ficava surpresa com a ousadia das próprias palavras.


           Vários pares de olhos os encaravam na entrada da cozinha, como esperado eles não iriam comer com o anfitrião, o convite dessa vez era somente para Magath, mas foram chamados para o jantar na cozinha, junto aos criados, infelizmente os mesmos não pareciam muito animados com a ideia.
           As pessoas estavam distribuídas em uma longa mesa de madeira velha, cada um com seu prato e todos pararam assim que eles apareceram, ainda haviam alguns talheres erguidos no ar e bocas abertas tanto para receber a comida como pelo espanto ao verem os dois eldianos ali.
-Vão ficar ai parados?-o cozinheiro resmungou enquanto mexia uma caçarola de ferro
           Como se tivessem alguma doença contagiosa, as pessoas sentadas no banco ao redor da mesa se afastaram, dando a eles espaço para se juntarem, assim os dois sentaram, mas ninguém voltou a comer, pareciam enjoados na presença deles.
-Talvez devêssemos voltar mais tarde-Pieck cochichou para Zeke
-Já está aqui, não é?
           O cozinheiro deveria ter ouvidos bem aguçados, nem ao menos se virou para falar com eles, e talvez também tivesse olhos na nuca, já que a próxima frase dita foi:
-Quem não quiser comer à mesa com os convidados é só se levantar e ir embora
           A mesa ficou quase vazia, alguns pratos foram deixados pela metade, outros levaram a comida consigo, de costas ainda em frente ao fogão quente o cozinheiro soltou um pesado suspiro. Sem saber o que fazer, Pieck ficou encarando a mesa de madeira, Zeke continuou parado ignorando a forma com os que restaram os olharam, algumas cabeças espiavam por uma porta aberta que levava para o lado de fora do castelo, aparentemente crianças curiosas que ouviam histórias de terror sobre eldianos e seus titãs, não muito impressionadas em verem dois deles pessoalmente, mas sabendo que se quisessem poderiam virar monstros gigantes devoradores de gente.
-Aqui
           O cozinheiro depositou dois pratos bem-servidos diante deles, a menina agradeceu enquanto o loiro nada disse, iriam comer rapidamente, nem eles mesmo poderiam suportar aquele tipo de situação, quanto mais rápido saíssem mais rápido poderiam voltar a respirar tranquilamente. Com seu próprio prato, o cozinheiro se sentou diante deles, um rosto carrancudo e bronzeado, mãos com queimaduras eternas de quem passou a vida diante do fogão, ele não parecia incomodado com a presença deles, pelo menos havia alguém amigável naquele enorme castelo.
-Não precisam ter pressa, é uma ofensa ao cozinheiro comerem tão rapidamente sem nem poder apreciar o gosto da comida
           Pieck percebeu então que não estava mastigando, apenas colocando a comida na boca e a engolindo, ignorando a temperatura que queimava sua boca porque afinal ela tinha regeneração. Sorrindo sem graça, ela com mais calma foi cortando os legumes com a faca de latão.
-Obrigada pela refeição-ela disse quando terminou a última garfada, Zeke já havia terminado e a estava aguardando
-Vamos voltar para o quarto agora-o guerreiro mais velho começou a se levantar
-Menina, gosta de bolo?
           Seus olhos grandes e serenos olharam de Zeke para o cozinheiro, acenando afirmativamente com a cabeça. Se levantando vagarosamente, o cozinheiro foi até a bancada, tirando um pano que cobria um meio meio cortado, tirando um belo pedaço e entregando a menina em um guardanapo.
-Maçã e canela, temos muitas macieiras nesta propriedade, então vivo criando maneiras de não desperdiçar
           Indicou com a cabeça uma bacia que transbordava maçãs, Pieck agradeceu o agrado e mais uma vez elogiou a comida, com um grande sorriso que para Zeke era uma arma muito poderosa.

           Que horas eram? Não fazia ideia, Zeke não costumava acordar no meio da noite, mesmo que o quarto em que estivessem fossem tremendamente abafado pelo calor que o telhado acumulava durante o dia de sol, as janelas abertas faziam o máximo possível para melhorar a situação, altas demais para entrarem insetos que incomodariam seu sono e poderiam ser a causa de ter despertado. Seus olhos cinzas foram se adaptando à escuridão, conseguindo distinguir a cama de Pieck logo ao lado, mas o que fez seu sono ir embora por completo foi a cama estar vazia.
           O loiro sentou rapidamente, olhando em volta a procura da garota, poderia ter ido ao banheiro, mas sua intuição dizia que não. Se levantou da cama olhando em volta, não haviam muitos lugares ali onde ela poderia estar, vendo pela janela, não havia nada além da destruição que eles causaram no dia anterior, a lua iluminava a grama queimada onde o titã puro havia morrido, e as placas de tanques de guerra refletem como espelhos quando um vulto passou por ele, poderia ser qualquer pessoa, mas ele sabia que era Pieck.
           Zeke rapidamente colocou um casaco por cima do pijama, sua braçadeira e calçou os sapatos, abrindo a porta lentamente enquanto verificava o corredor, nem um sinal de vida a não ser um ronco timbrado que vinha de algum dos quartos dos empregados. Apressou o passo tentando permanecer silencioso, não queria acordar ninguém, o que quer que Pieck estivesse fazendo era melhor permanecer oculto de outras pessoas.
           Quando saiu do castelo ele começou a correr, olhando para trás e verificando se não tinha ninguém em algumas das dezenas de janelas que poderia estar vendo-o ali, seria muito complicado explicar o que os dois guerreiros faziam do lado de fora no meio da madrugada. Oculto pelo bosque, seus ouvidos captaram o barulho de água corrente, tão forte e próximo de onde estavam na manhã anterior que ele ficou surpreso em não ter percebido.
           Um rio atravessava em meio às árvores, com água cristalina que só se conseguia achar bem longe da urbanização, suas bordas eram formadas por pedras de cascalho, a luz da lua o deixava brilhando como prata derretida em movimento. Zeke viu pendurado em uma árvore o pijama de Pieck, seus sapatos junto das raízes salientes, mas não conseguia encontrá-la, até que emergindo da água, como uma divindade, a garota apareceu, os cabelos molhados e rosto brilhando, a final alça de alguma coisa aparecia em seus ombros e tirou uma dúvida que ele teve, ela estava de roupa, ao menos isso, embora duvidasse que a peça fosse esconder muita coisa, principalmente molhada.
           Deitando na superfície da água, a menina esticou os braços para boiar, não usando nada além de sua braçadeira e a combinete bege que estava transparente, dando a Zeke uma visão de seus seios e uma sombra triangular entre suas pernas, queria desviar o olhar, mas não conseguiu. Os cabelos flutuavam como se tivessem vida própria, criando um halo em volta de sua cabeça, o ar frio contra ela deixava seus mamilos eriçados, e Zeke sem notar soltou um suspiro pesado, era melhor revelar sua presença antes que ela o notasse, ou iria deduzir que o homem fazia exatamente o que estava fazendo, espiando.
-Pieck, o que é isso?
           A menina se espantou, voltando a esconder o corpo na água, as bochechas corando ao ter sido flagrada fazendo algo que não deveria.
-Nadando, eu vi esse rio mais cedo quando estava vestindo a armadura, não resisti e vim nadar um pouco
-Não deveria fazer isso, estamos como convidados na casa de homens que querem investir em Marley, se eles descobrirem podem causar um atrito
-Duvido que o senhor Gutierrez venha a reclamar de eu ter nadado
-E Magath? Acha que ele concordaria com isso?
-Um pouquinho não faz mal, e não tem como ele saber a não ser que você conte, deveria vir também, a água está ótima
-O que é isso, rebeldia adolescente?
-Vem Zeke
           Estendeu seu braço em direção a ele, cada vez mais o loiro começava a duvidar se agora as palavras de Pieck tinham a mesma inocência de antes, ela se mostrava ciente que de alguma maneira conseguiu afetá-lo.
           Olhou em volta, se fosse outra pessoa ele daria meia-volta e fingiria não ver, ou até mesmo iria dedurar, mas Pieck, aquela menina estava cada vez melhor em conseguir o que queria.
           Quando começou a desabotoar a camisa do pijama, ela sorriu vitoriosa, desviando levemente o olhar quando ele surgiu na beira do rio, usando ceroulas e sua braçadeira, sabiam que era preciso usá-las o tempo todo, ou as consequências para o que quer que estivessem fazendo seriam milhares de vezes pior.
           A água estava gelada, dando um choque térmico inicial até ele ir se acostumando, achou ter chutado um peixe que nadava no fundo, mas não deu importância, Pieck estava se aproximando.
-Não está usando óculos
-Pensei que gostasse dos meus óculos
-Não desde que você passou a usá-los para se esconder
           Começou a nadar ao seu redor, ele sentia os cabelos negros roçando em sua pele, queria segura-la, mas temia o que poderia fazer se se deixasse ceder a tentação.
-Tem muito tempo que não nado, às vezes até sinto falta do treinamento militar por isso, eles nos jogadas em um rio com a correnteza violenta, com uma mochila pesando vários quilos, precisávamos sair sem deixar a arma molhar
-Parece intenso
-Reiner se afogou uma vez, mesmo Annie e Marcel tinham dificuldades, menos eu, diziam que eu deveria ter nascido na água
           Sumiu em meio a água, Zeke a acompanhou, molhando os cabelos e sentindo seu corpo relaxar completamente, a água era tão límpida que podia vê-la com perfeição, talvez fosse a correnteza, mas sentia que estavam se aproximando, nenhum dos dois impediu, suas penas se esbarravam enquanto continuavam prendendo a respiração, o primeiro a voltar a superfície foi Zeke, seu hábito de fumar não lhe dava tanto fôlego, mas Pieck continuou submersa.
-Pieck, vamos voltar
           Se ela ouviu ou não, não saberia, mesmo que tenha aparecido logo em seguida, o loiro começou a sair da água, sempre de costas para esconder a vergonhosa reação que seu corpo teve, colocando rapidamente a calça do pijama enquanto ouviu o som de Pieck também saindo da água. Não resistiu em olhar por cima do ombro, a peça colando em sua pele, mostrando que por baixo das roupas largas que sempre usava ela tinha um corpo escultural, cintura fina, quadris largos, seios em um tamanho perfeito para caberem na mão de Zeke...
-Merda-voltou a encarar o tronco da árvore
           Torcia o cabelo, formando uma grande poça em seus pés, Pieck não tinha pudor com a própria exposição, na verdade, queria que Zeke a olhasse, de todas as pessoas, somente o homem não lhe causava incomodo ao admirá-la, acontecia com frequência, mas ele disfarçava, o que a deixava frustrada, não foi sua intenção ir ali e ser seguida, mas não poderia imaginar situação melhor. Ela mesma se pegava as vezes o admirando, seu abdômen definido fazia seu corpo esquentar, ela queria saber qual era a sensação de ter aquela barba tocando seu corpo, os braços musculosos a segurando com força, tentava entender o que era aquilo, fazendo pesquisas em alguns livros e sabendo um pouco sobre a reação que ela tinham, a reação de um corpo feminino a um corpo masculino que a atraía.
-Zeke, pode tocar se quiser, eu também quero
           Seria bem mais fácil se pudesse dizer isso, mas tinham tantos problemas, não queria causar uma situação estranha depois, estragar o belo relacionamento que tinham pelos hormônios adolescentes que vinham lhe atormentando constantemente. Mesmo que ela pudesse matar só para sentir os dedos dele percorrendo sua pele.
-Vamos-ele a despertou de seus pensamentos


           As notícias eram boas, Magath sorria de satisfação enquanto contava a Zeke sobre os elogios recebidos dos guerreiros, o portador do Bestial queria saber se esses elogios eram bem distribuídos ou apenas focados na portadora do Quadrúpede, de qualquer maneira, iriam embora na manhã seguinte, mais uma noite dormindo no mesmo quarto que Pieck, depois que voltaram da aventura no bosque o rapaz não conseguiu fechar os olhos, temia que aquela noite também ficasse com o sono afetado.
-O que achou do senhor Gutierrez?
-Minha opinião é realmente relevante?-deu de ombros antes de continuar-Parece um homem excêntrico, com gostos que não posso julgar corretamente
-Acho que todas as pessoas ricas demais são assim
-Tenho certeza que ele deve ter mostrado um interesse ainda maior no programa de titãs depois de nossa visita
-Se suas palavras tem o significado que acho que tem, irei lhe tranquilizar, ele é inofensivo
           Ergueu uma sobrancelha loira um pouco desconfiado, ele e Magath haviam se tornado mais solícitos conforme o passar dos anos, nem por isso Zeke se via na liberdade de falar o que bem entendia, mesmo que o comandante aparentasse ter a mesma opinião que ele.
-Fernando Gutierrez é conhecido pela infame preferência que tem por garotas jovens, infelizmente isso apaga qualquer outro tipo de qualidade dele
-Sabia disso desde antes de chegarmos-não era uma pergunta
-Preciso de toda informação possível de quem tem interesse em conhecer os guerreiros de Marley, porém não vim totalmente inocente quanto a ele, por isso disse que poderiam deixar vocês dois no mesmo quarto
-Você conversou com a Pieck sobre isso antes de chegarmos?
-Tivemos um breve momento para pontuar esse detalhe. Mas nem eu estava preparado para a ousadia dele, achei que seria mais discreto e relutante pelo fato dela ser eldiana
-Então ela ter sido conivente foi por ordem sua?
-Zeke, você não é o único que se importa com a Pieck, porém ela sabe que como guerreira deve fazer o melhor para a nação, nada inapropriado, porém não vi motivos para impedir que nosso anfitrião tivesse um pouco de satisfação com sua presença
           Ficou encarando as cortinas de seda do quarto de Magath, muito maior, mais bem equipado e decorado que o dele, um verdadeiro quarto para visitas.
-Não se preocupe Yeager, não é como se eles tivessem ido nadar escondidos de madrugada
           Ergueu os olhos, mantendo o rosto plácido enquanto Magath tomava um gole de café.
-Pieck é como uma irmã para mim
-Não estou aqui para me intrometer no relacionamento de vocês, contanto que não afete seus deveres eu realmente não me importo, mas saibam que vocês são o espelho de Marley-virou o rosto em direção a janela que ia do chão ao teto, dando um breve sorriso para depois voltar a olhar para Zeke-Quanto mais atraente o reflexo, melhor para nós
           Franziu a testa antes de olhar também para a janela, Zeke se ergueu da poltrona de camurça indo em passos lentos para lá, a visão dali era do jardim principal, quando ele saiu para encontrar Magath deixou Pieck dormindo na cama, agora a menina estava na companhia de Gutierrez, jogando croqué naquela manhã de domingo, recebendo aplausos do milionário quando conseguiu acertar a bola pelo triângulo fincado na grama.
-Posso me retirar?

           Pieck entrou no quarto, encontrando o colega sentado na beira da janela fumando, a menina foi até sua cama, deixando na cabeceira um novo livro e uma caixa de bombons caros, o detalhe não passou despercebido por Zeke, que entre uma tragada e outra a questionou.
-Mais um livro, e até chocolate dessa vez
-Sim. Quer?-estendeu a caixa para ele, bombons bem decorados que deveriam custar mais do que eles poderiam imaginar ser apropriado para uma caixa de chocolate
-O que exatamente Magath te mandou fazer?
           Seu rosto corou de vergonha, já era muito ruim fazer aquilo, com Zeke ciente era pior ainda.
-Entreter o anfitrião, fazê-lo investir ainda mais em Marley
-Desculpe-disse em um longo e cansado suspiro no meio da fumaça
-Hã? Pelo o que?
-Se eu soubesse antes, teria dado um jeito de impedir que você viesse-nenhum dos dois conseguia encarar o outro
-Quero ser útil também, nos últimos anos você tem carregado sozinho o fardo de ser a vitrine de Marley, os outros ainda estão na ilha, e eu sempre fui deixada nos bastidores
           Como falar que era exatamente o que ele queria? Pieck atrás das cortinas, escondida, apenas para ele.
-Quero dizer; eventos, jantares, viagens, é sempre você, deve ser muito cansativo, e dividir o trabalho não faz mal
-Mas fazer o que te colocaram para fazer é diferente
-Talvez seja um pouco-pegou um bombom na caixa-Mas não tem uma frase que é assim "Feche os olhos e pense em Marley"? Bom, acho que não é exatamente dessa forma, mas a ideia é a mesma
           Colocou o doce todo de uma vez na boca, era delicioso, a melhor coisa que já comeu na vida, dava até pena continuar comendo, queria guardar para sempre.


           O dobro, sim, Gutierrez dobrou o capital investido em Marley, e Magath deveria ser a pessoa mais feliz do mundo, mesmo que ele tenha sido ignorado durante a despedida, Gutierrez passou por ele direto para Pieck, lhe prometendo algo bem divertido na próxima vez que ela fosse visitá-lo, usando o singular em sua frase.
-Vai aceitar o convite?-Zeke sussurrou em seu ouvido
-Nem pensar-respondeu entre os dentes sem tirar o sorriso do rosto
-Não esqueceu nada? Você sempre esquece alguma coisa
-Não, acho que não
           Tentou puxar na memória, pegou suas roupas, sapatos, os livros que levou e os que ganhou, o pente nem havia sido levado para ter esquecido, mas lembrou de ter deixado algo guardado na gaveta da cômoda, pela expressão no rosto Zeke já sabia.
-Vai lá pegar, vou dizer que foi ao banheiro
-Volto rápido-passou a mochila para ele
           Indo pelos cantos, tentando não chamar muita atenção, Pieck entrou pelos corredores cheios de pinturas e carpete, correndo os vários lances de escadas até o sótão, apoiou as mãos nos joelhos para pegar o fôlego, duvidava que fossem embora sem ela, mas não queria atrasar a viagem de todos. A porta do quarto onde se hospedou estava aberta, lembrava de tê-la fechado antes de sair, ao se aproximar distinguiu duas vozes femininas vindo de dentro, deveriam estar arrumando o quarto.
-O que vamos fazer com essa roupa de cama?
-Queimar ou dar para os cachorros dormirem
           Nunca iria se acostumar com aquele tipo de tratamento, mas tentava deixar de lado, se acabasse guardando para si cada comentário maldoso ou hostilidade que recebia iria se tornar alguém que não queria ser.
-Com licença
           Sua voz fez as duas empregadas darem um pulo, estavam tirando os lençóis das camas, não disseram nada nem se moveram enquanto Pieck entrava no quarto.
-Desculpe atrapalhar, esqueci algo
           Abriu a gaveta da cômoda, tirando a caixa de bombons que ainda não tinha terminado, pretendia usar depois a caixa para alguma coisa, era tão bonita que não jogaria fora. Um sorriso tímido foi usado para se despedir das mulheres que como estátuas mal respiravam, quando chegou no corredor, alguns passos depois, elas voltaram a falar.
-Viu como ela estava com o patrão? Soube que na primeira noite ela saiu do quarto de madrugada
-Deve ter ido para o quarto dele, sabe como as mulheres eldianas são
           Não foi tempo suficiente dela estar longe a ponto de não ouvir, e as mulheres sabiam disso, Pieck suspirou e tentou deixar isso de lado, ela sabia quem era, e não iria se abalar por isso.
-Estávamos indo sem você
           Zeke disse quando ela entrou no carro.
-Me deixar aqui com o Gutierrez? Tem certeza?
           Ao menos poderia tentar achar graça naquilo tudo, mesmo que fosse difícil. Uma grande fila de carros e um caminhão formavam a caravana que voltaria para Libério, era estranho, porque parecia que só haviam ido os guerreiros e Magath, ela até esqueceu que havia muito mais gente de Marley ali.
-Quantas horas de viagem?
-Muitas, minhas costas já estão até doente só de lembrar
           Pieck abriu a boca para dar um comentário provocativo quando alguém bateu na janela ao seu lado, reconheceu o cozinheiro que deve ter sido o mais próximo de amigável lá dentro, Pieck desceu o vidro, olhando para o homem que usava um lenço na cabeça e avental sujo de farinha.
-Aqui garota, para a viagem, levem senão vai estragar
           Enfiou pela janela uma cesta de vime repleta de maçãs, Pieck não teve como recusar ou agradecer, ele foi rápido em se afastar do carro, voltando para seus afazeres.
-Obrigada-gritou pela janela aberta
           Nem todos eram iguais, ainda havia pessoas gentis com os eldianos, era isso o que ela sempre procurava ter em mente.

 


849

 


           Se equilibrava na muleta enquanto andava pelo solo de lama congelada do acampamento, o gelo trincando a cada passo, estava encolhida dentro do sobretudo, pensando onde estava com a cabeça quando decidiu fazer uma visita em meio aquele frio. Todos estavam escondidos em suas tendas, ansiosos pelo dia seguinte onde iriam recolher acampamento e voltar para casa, apenas Pieck não estava recolhida e decidiu se aventurar, em passos lentos, no meio do caminho pensou em desistir, mas o mesmo que andaria para voltar seria o que andaria para continuar, decidiu seguir em frente.
           Parou em frente a tenda daquele com quem queria passar um tempo em meio ao tédio, arrumou os cabelos para parecer mais apresentável, havia esquecido de levar o pente, mas para sua sorte o colega preferia seu visual mais bagunçado.
           Do lado de dentro, Zeke tomava um gole de rum, deixando a tenda nebulosa pela fumaça do cigarro, foi tirado de seus pensamentos com uma voz doce e inconfundível do lado de fora.
-Toc, toc-a ponta de uma bengala apareceu por meio da entrada da tenda
-Pode entrar
           Pieck abriu rapidamente as portas de lona, deixando o calor sair por alguns segundos, seu rosto estava corado de frio, e a mão que segurava a muleta não se mexia, quase congelada.
-Soube que o nosso chefe de guerra tem um aquecedor a querosene
-Fique a vontade
           Apontou para o objeto que brilhava incandescente de calor, a menina se sentou na cama de armar, tirando o sobretudo e deixando a muleta apoiada ao lado. Se jogou contra o colchão, apreciando a comodidade que Zeke tinha, a ela só deram um cobertor extra.
-Obrigada Marley por não arrumar mais nenhum conflito, podemos ficar em casa quentinhos durante o inverno
-Não deixe Magath te ouvir falar isso, ou vai arrumar um treinamento de inverno especialmente para você-tomou outro gole de sua bebida
-O que é isso?
-Rum
           A menina passou os olhos da caneca que Zeke segurava para a garrafa pousada na mesa de madeira ao lado do loiro.
-Já bebeu alguma vez?
-Nunca tive a oportunidade
           Um pouco não faria mal, Zeke se levantou e foi até o baú no canto da tenda, tirando outra caneca de alumínio idêntica a sua, a encheu até a metade e entregou a Pieck, fizeram um brinde silencioso. Ele ficou olhando por cima da caneca enquanto a via dar o primeiro gole de álcool de sua vida, ficando surpreso por não mostrar-se muito afetada pela bebida.
-Gostei, é doce
-Realmente nunca bebeu álcool?
-Nunca, é bem forte, mas tem um gosto bom
           Sentiu o álcool aquecer seu corpo, correndo por suas veias e oprimindo o frio.
-Está tudo bem?
           Pieck não estava diferente, não mostrou nada diferente, mas ele sentia que havia algo, ela não iria cruzar o acampamento em meio a temperatura negativa e beber com ele se não tivesse acontecido alguma coisa.
-Matei pela primeira vez nessa batalha
-Ah, sim, como se sente?
-É estranho-outro gole e acabou com o conteúdo da caneca, a estendendo para Zeke, continuando a falar enquanto ele lhe servia mais bebida-Sei que demorou bastante, e que comparado a você ou aos outros não deveria ter ficado tão abalada, mas me sinto culpada, não consigo esquecer do rosto dele
-Você tem todo direito de ficar assim, você é a pessoa mais doce e gentil que conheço, e mesmo sendo um inimigo, o que imagino que ele fosse, não pode ir contra o que você é
-Alguns anos atrás estava totalmente preparada, depois fingi que poderia passar os treze anos sem matar, claro, o portador anterior do Quadrúpede não conta
-Cada um vê de uma maneira, pode parecer errado ir se acostumando, mas é o melhor para você
-Como foi a primeira vez que matou alguém?
-Logo na minha primeira missão, eles me mandaram entrar contra um quartel e destruir tudo, foi tão intenso que não lembro quem foi o primeiro, na verdade matei todos de uma vez, e não tive tempo de me sentir culpado, eu fiquei sim um pouco abalado, mas não me importei
           A menina deu um longo gole de rum, deixando Zeke se perguntar se foi certo oferecer bebida.
-Me conte como aconteceu, não lembro de você ter ido contra o campo do inimigo
-Na verdade ele é quem conseguiu entrar do nosso lado. Só percebi quando ele estava bem do meu lado, atirando contra os soldados da minha armadura, bem no ponto cego das armas. Foi rápido, dois passos e estava na frente dele, o mordi arrancando metade do corpo fora, na hora eu ainda estava com adrenalina, mas quando tudo se acalmou eu consegui refletir o que tinha acontecido-arranhava a unha no alumínio, apreciando o som agudo que saia dele
-Então você matou um inimigo para que ele não matasse os atiradores, afinal ele não conseguiria te fazer nenhum arranhão. Essa é uma maneira bem condizente com você em fazer as coisas, matar para proteger os outros, agora pense Pieck, se não tivesse feito isso, os atiradores teriam morrido, eles e outros que estivessem em volta, você não matou uma pessoa, você salvou outras
-Você sabe como confortar as pessoas Zeke-escondeu o rosto atrás da caneca-Deveria fazer isso mais vezes
-E perder minha pose de durão? Nem pensar, isso é apenas para você, Pieck-chan
           A garota abriu alguns botões da camisa, estava começando a ficar quente, sentia que estava bebendo rápido demais.
-Quantas dessas você já bebeu?
-Estou na quarta dose, não estou bêbado, apenas alegre, e você?
-Acho que estou bêbada, mas quero mais
           Estendeu novamente a caneca, agora ele encheu apenas até a metade, ela não questionou, era como um elixir, não lhe trazia felicidade, mas aliviava um pouco os sentimentos ruins.
           Zeke acendeu outro cigarro, beber lhe dava vontade de fumar, fumar o fazia querer beber mais, um círculo vicioso perigoso.
-Posso?-apontou para o cigarro preso entre seus lábios
           Estava ousada hoje, e por alguma razão Zeke gostava disso. Se levantou da cadeira, indo se juntar a ela na cama, entregou o cigarro para ela, puxou tudo de uma vez, se engasgando com a fumaça.
-Não é assim que se faz-riu com sua crise de tose-Primeiro inspire profundamente profundamente-ela foi fazendo conforme ele mandou, inflando as bochechas de fumaça-Agora prenda
           Parecia um esquilo, Zeke não resistiu em apertar sua bochecha com a ponta do dedo, vendo a fumaça sair entre seus lábios.
-É só isso? Pela quantidade de cigarro que você fuma pensei que fosse algo mais legal. Não tem graça nisso
-Realmente, não tem, mas é reconfortante-pegou o cigarro de seus dedos e deu sua própria tragada
-Pelo menos já completei duas tarefas da minha lista-terminou a bebida em um último gole
-Lista?
-Fiz uma lista de coisas para fazer antes de morrer, beber e fumar faziam parte dela, agora já posso risca-las. Beber eu gostei, fumar não
           Colocou a caneca vazia no chão e pegou seu sobretudo jogado ao lado na cama, depois sua muleta, se apoiando nela para levantar.
-Já vai?
-Quer que eu fique?
-Sim
           Um contato visual, era algo que eles vinham fazendo cada vez mais, como se cada frase dita pelo outro tivesse algo escondido, e o ouvinte tentasse decifrar. Voltou a colocar a muleta apoiada na cama, jogando novamente o sobretudo no colchão, Pieck se jogou em cima dele, deitando com seus cabelos formando um leque ao redor de seu rosto, estava se sentindo um pouco sonolenta.
-Qual o objetivo em fazer uma lista dessas? Não é meio deprimente
-Não, eu quero ter certeza que fiz tudo o que queria
-Quantos itens você já completou
-Contanto beber e fumar-estendeu a palma da mão para cima, contando nos dedos-Já foram dois
-Só dois?
           Não conseguiu resistir em rir dela, a menina o olhou chocada, dando um chute na perna do loiro.
-Não fique rindo, eu só fiz ela recentemente
-Desculpe, é que falei com tanta propriedade que achei que fosse algo de longa data
-Acabei de completar quinze anos, ainda não tinha muitas ideias
-Mas me diga, o que vai fazer quando completar a lista
-Ficar satisfeita por poder passar o titã sem arrependimentos
-E se não conseguir fazer tudo até o momento chegar
-Minha lista não é muito pretensiosa, mas não vou ficar triste, e sim apreciar os que consegui, não posso desmerecer as experiências que tive me lamentando pelas que não aconteceram
-Você fala como uma adulta, está muito madura
-Parece meu pai falando-foi a vez dela de rir
-Acho que seu pai não te daria bebida
-Nessa parte você está certo
           O cigarro ainda estava na metade quando Zeke o jogou no chão e pisou para apagar as chamas, se deitando ao lado de Pieck, com o cotovelo apoiado no colchão e o rosto na mão, olhando brevemente para a pele exposta pelos botões abertos da camisa.
-O que mais falta nessa lista, algo que posso ajudar?
-A maioria eu preciso fazer sozinha
-"Maioria"? Então tem algumas coisas que precisa de companhia
-Sim
           Seu rosto corou ainda mais, desviou o olhar, de repente o lugar ficou ainda mais quente.
-O que é, Pieck-chan? Me conte, agora fiquei curioso
-Coisas de meninas, sabe, coisas que meninas de quinze anos pensam
           Voltou a olhar para ele, a única fonte de luz lá dentro era o aquecedor, que refletia o calor nas lentes de Zeke, ela odiava quando isso acontecia, mas não desviou o olhar novamente porque queria poder transmitir seus desejos para ele, ela não iria tomar a iniciativa, se queria que ele o fizesse esperava estar sendo bem explicita.
-Nunca fui uma garota de quinze anos, pode me dar uma dica?
-Vai ficar me torturando, Zeke?-esticou o braço para tirar seus óculos, ele se afastou no início, mas deixou-Se quiser fazer parte de uma primeira experiência minha, faça agora, porque a bebida está me dando coragem de ser clara, se não acontecer vou ficar tão envergonhada que não conseguirei nem olhar mais para você
           Um tempo se passou com os dois se encarando, tanto tempo que Pieck sentiu que havia perdido, o frio da rejeição a fez se sentir angustiada, agora não sabia o que fazer, talvez tenha errado, errado da pior maneira possível. A garota se sentou rapidamente, ficando um pouco tonta, Zeke fez o mesmo, sentia-se enjoada, seu corpo perdeu o calor e o álcool ia para o cérebro.
-Desculpe, eu...eu vou...
           Não conseguia completar a frase, se levantou com pressa, esquecendo do estado de seu corpo frágil do período de transformação, quase caindo sem estabilidade, até que Zeke a segurou.
-Calma, não precisa ficar nervosa
-Acho que confundi as coisas
           Encarava os botões da camisa dele, duvidava que um dia poderia olha-lo nos olhos novamente, era constrangedor.
-Pieck-ergueu seu rosto delicadamente, mesmo com sua relutância, ela mostrou as faces coradas de vergonha-Se algo acontecer, não tem mais volta
-Sei disso, e não me importo, prefiro me arrepender pelo o que aconteceu do que pelo que não aconteceu
           Precisava de mais alguma coisa? Não, só precisava dela.
           Sentiu os lábios de Zeke tocando os seus, ainda muito perdida em toda a situação, se segurou nos braços dele, sem conseguir manter-se de pé, agora por suas pernas terem virado gelatina. A barba roçando áspera  em seu rosto, diferente do que ela imaginou, mas era gostoso sentir sua pele sendo arranhada.
-Abra a boca-ele ordenou contra seus lábios
           Obedecendo, deu uma breve abertura para ele entrar, sua língua era dura, curiosa, explorando cada canto dentro de sua boca, ela tentou acompanhá-lo, sentindo o sabor de rum e cigarro, o gosto do cigarro nele era melhor do que ao fumar. A guiou de volta a cama, a menina agradeceu a firmeza do colchão, ousando agora em tocar seu peito, sempre quis fazer isso, conseguia sentir o abdômen definido por baixo do tecido, ronronou quando ele acariciou seu rosto, enrolando os dedos no cabelo da nuca e a prendendo firme para deixá-lo conduzir.
           Engasgou quando sentiu uma mão tocar sua cintura, apertando e tentando entender se era mesmo real ou mais um de seus sonhos pecaminosos. Os dedos foram subindo, sentindo o contorno de seus seios, queria agarrar, sentir enfim em sua mão, mas se fizesse não conseguiria parar, e era ainda o primeiro beijo dela, estavam em níveis totalmente diferentes, enquanto ele queria ainda mais, ela já estava se afogando na experiência.
           Se afastaram para recuperar o fôlego, Zeke apreciou o rosto espantado dela, quase deitada na cama, querendo mais, mas não sabendo o que "mais" significava.
-É melhor você ir
-Sim
           Estava perdida, o que quer que ele dissesse ela iria obedecer, e isso era o que temia, temia a si mesmo em seus pedidos realizados aquela menina na ocasião em que estavam.
           Pieck pegou suas coisas, lentamente colocando o sobretudo enquanto Zeke ficou sentando a admirando, ela poderia estar tirando ao invés de colocando, mas ele ainda não havia bebido o suficiente para perder a razão.
           Nenhum dos dois dormiu aquela noite, Zeke continuou bebendo na cadeira porque a cama ficou com o calor e cheiro dela, Pieck estava deitada encarando o teto da tenda, sentindo seus lábios formigarem enquanto sua mente estava nublada, sem conseguir ter linhas de raciocínio, não precisava mais de cobertores ou aquecedor, seu corpo emitia calor próprio, e foi assim até a manhã seguinte.

           O sol pálido surgiu para acordar os que haviam dormido, levantando acampamento, animados em poderem encontrar o calor e aconchego de seus lares, terem um lugar decente para tomar banho e sem mais sons de tiros o dia todo. Pieck fez questão de ir até a linha férrea com os soldados marleyanos, com medo de ver Zeke, com medo dele ignorá-la no dia seguinte, mas foi inevitável, foi a primeira a chegar no vagão dos oficiais, onde ela sempre viajava, estava sentada ao lado da janela olhando a movimentação para o transporte quando ouviu a porta do vagão se abrir.
           A primeira coisa que Zeke fez ao vê-la ali sentada foi desviar o olhar, doeu mais que um tiro, mais que muita coisa, porém ela não iria demonstrar, voltando a encarar a janela.
           O lugar foi enchendo, o comandante, tenentes e capitães, barulhentos como sempre, acendendo seus charutos e bebendo suas bebidas em uma atmosfera que lembrava a noite anterior, mesmo sendo totalmente diferente. Zeke estava no meio deles, como sempre precisando usar aquela imagem de chefe de guerra que não lembrava em nada o Zeke que ela conhecia, o Zeke que a beijou na noite anterior, talvez estivesse assim por estarem na presença de outras pessoas, ou fosse só uma desculpa para se enganar.
           Soltou um pesado suspiro, não iria se arrepender do que fez, mas era difícil não saber a reação dele.
           O trem começou a andar lentamente pelos trilhos congelados, seria uma longa viagem.
           O loiro estava de costas para ela, não sabia se era bom ou ruim, nas últimas duas horas revezava entre olhar para a paisagem invernal e a nuca do homem, lembrando de quando ele puxou seu cabelo, mordeu o lábio ao sentir o couro cabeludo formigando.
           Quando Zeke levantou ela sentiu borboletas brigando em seu estômago, mas continuou a olhar pela janela, mesmo quando ele veio em sua direção.
-Tudo bem?
-Sim-respondeu sem encará-lo
           Pensou que ele iria embora logo, mas se sentou ao seu lado, ela parou de respirar, era difícil entender como ele poderia ser tão decoroso, mas queria tocá-lo, senti-lo, assim como na noite anterior.
           Pieck começou a mover a mão direita que estava pousada no espaço entre eles no banco, arrastando os dedos pelo tecido anavalhado. Zeke mantinha sua mão esquerda segurando o cigarro que acendeu, trocou-o para a outra mão sem tirar os olhos dos oficiais no lado oposto, discretamente sua mão esquerda desceu para o banco, fazendo o mesmo caminho de encontro para a mão dela. Lentamente, cada um podia sentir o outro se aproximando, como um imã, devagar para não espantarem, a imagem diante de seus olhos era irrelevante porque cada célula de seus corpos estava concentrada em finalizar aquele toque ansiado.
           Primeiro foram os dedos médios, um choque percorreu de um para o outro, uma pequena reação elétrica antes de voltarem a realizar o caminho, agora os dedos indicadores, mais um pouco e estariam de mãos cruzadas, segurando com firmeza o outro querendo transmitir que não havia arrependimentos na noite anterior.
-Yeager!-o chamado vindo de Magath parecia ter criado uma barreira entre os guerreiros, cada um puxou a própria mão rapidamente-Venha dizer ao Tenente Güller sobre como você acertou uma pedra naquele avião
           Se levantou lentamente, olhando para Pieck de esgueira, notando que ela também o encarava, pelo visto não teriam uma oportunidade para conversarem tão cedo.


           O recesso de inverno, havia um bom tempo que não curtiam esse período de folga, da última vez Pieck passou a virada para o novo ano no formato de titã em meio a um pântano. Agora estava na casa da avó de Zeke, usando avental e com o rosto sujo de fermento, seus cabelos estavam presos com um lápis que usou para anotar em seu caderno a nova receita.
-Quais são seus planos para a virada do ano?-a senhora Yeager perguntou enquanto a ensinava a assar bolo lamington
-Provavelmente irei ficar com meu pai em casa, nunca tivemos o costume de sair
-Os vizinhos aqui costumam fazer uma comemoração de ano novo, é divertido
-Não sei senhora Yeager, meu pai não pode ficar fora durante o inverno-salpicava coco ralado tão fino que parecia neve
-Vai ser uma boa oportunidade de usar aquele vestido que fiz para você
           A senhora Yeager havia entrado para o mundo da costura, e Pieck era sua principal modelo, como não haviam lojas com opções muito bonitas na zona de internamento, a mulher costurava belas peças para a menina, o vestido ao qual ela se referia foi o presente mais recente.
-Lá tem aquecedor, é espaçoso, é bom que o seu pai pode conhecer gente nova, da ultima vez me disse que ele estava muito entediado em casa
-Sim, esta, vou pensar, não prometo
-Me chame de intrometida-começou a aquecer a água para fazer chá-Mas encontrei seu pai semana passada enquanto vocês estavam na missão e comentei sobre isso, ele disse que adoraria, mas dependia de você
-Senhora Yeager!-a repreendeu com um sorriso divertido no rosto
-Ele também concorda que você deve sair mais, na sua idade eu não parava em casa
-O Zeke vai?-tentou perguntar da maneira mais casual possível
-Ele nunca vai, o chamo todo ano, mas ele sempre recusa
           Isso era bom ou ruim? Queria ou não vê-lo?
-Bom, já que meu pai concorda, não vejo porque não ir
           Ofereceu seu melhor sorriso enquanto pegava a panela suja de chocolate derretido e passava o dedo para comer um pouco.

           Precisava avisar a Zeke que logo não conseguiria mais subir tantas escadas até seu apartamento, estava ficando velha e se quisesse que a avó continuasse ajudando deveria se mudar para um apartamento no térreo. Tirou a chave do bolso de seu casaco, abrindo o apartamento e encontrando uma enorme bagunça, a mulher bufou irritada, havia arrumado tudo quando ele estava fora, havia voltado há poucos dias e conseguiu deixar tudo naquele estado.
           Sem sinal de Zeke, foi até o quarto escuro, distinguindo sua figura adormecida mesmo já sendo quase onze horas. Abriu as cortinas deixando a luz entrar, depois puxou as cobertas o expondo ao frio, o neto começou a resmungar enquanto procurava se aquecer.
-Vamos, eu preciso arrumar a casa e não vou fazer isso com você deitado o dia todo-havia aprendido a ser mais impositiva com Pieck, a menina ainda dizia para ela deixar Zeke parar de ser folgado, porém uma avó não pode só virar as costas para o único neto
-Já vou-resmungou enquanto rolava de um lado para o outro na cama
           Começou a catar as roupas jogadas no chão, o cesto de roupa suja deveria ser enfeite, a maioria das pessoas pensa que Zeke é um homem bem organizado, mas era um verdadeiro bagunceiro, o máximo que ele fazia era lavar a louça para não deixar acumular até a próxima visita da avó.
-Bebeu ontem a noite?
           O loiro saiu do quarto, encontrando a avó de olho em uma garrafa de conhaque pela metade e um copo vazio em cima da mesinha da sala.
-Vó, eu estou de folga
-Não deveria beber sozinho, não faz bem para você-pegou um cachecol jogado em cima do abajur-Vamos ter novamente a festa de ano novo da vizinhança
-Sabe que não sou muito sociável
-A última vez que foi você era ainda adolescente, desde então sempre passa o ano novo sozinho
-Não vou-disse com firmeza
           Atravessou a sala, coçando os olhos para espantar o sono enquanto entrava no banheiro e fechava a porta.
-Convidei os Finger para irem esse ano, eles confirmaram
           A maçaneta foi girada lentamente, uma cabeça loira apareceu curiosa pela fresta.
-Eles confirmaram?
-Sim-repetiu-A própria Pieck disse que vai
-Entendi, vou ver o que vou fazer no dia e se estiver livre eu passo lá
           Sua avó parou o que estava fazendo e se virou rapidamente só para ver quando Zeke voltou a fechar a porta, o chamava todo ano, e ainda o fazia por costume, mas não imaginou que ele fosse aceitar.


           Pieck penteava o cabelo, puxando um último fio que estava fora do lugar, se o vestido era lindo ao menos deveria pentear o cabelo, escolhendo um rabo de cavalo alto e repartindo o cabelo para o lado esquerdo, tão impecável que a pessoa no reflexo não parecia ela. O vestido que a senhora Yeager fez cabia perfeitamente em seu corpo, o tecido salmão com decote canoa, mangas que iam até os pulsos e o comprimento até os joelhos, as meias de nylon pretas procurava dar um pouco de calor, mas sem sucesso, mesmo em casa já estava com frio, mas ficou tão bonita que não quis trocar de roupa.
-Vamos?
           Saiu do quarto encontrando o pai a sua espera na sala, segurando uma travessa de comida para levar, o homem vestia sua melhor roupa, mas ficou estático quando viu a filha.
-Pieck, você está linda
-Obrigada
           Recebeu com gratidão o elogio, porém era comum seu pai elogiar sua beleza, aos olhos dele ela seria sempre a menina mais bonita de Marley. Ao saírem do prédio e encontrarem o frio da rua, Pieck se escondeu dentro do sobretudo, mais uma vez pensando se deveria ou não trocar de roupa, mas isso provavelmente magoaria a senhora Yeager, então decidiu enfrentar o frio.

           Zeke havia chegado muito cedo, mas fingia total desinteresse em tudo, aceitando uma bebida, porém recusando conversar com as pessoas que iam cumprimentá-lo. O espaço era amplo e bem decorado na medida do possível, a mesa bem servida com uma contribuição de cada um, sua avó papeava com as amigas, estavam falando dele, era visível pela maneira como o grupo o encarava ali parado tentando passar despercebido, algo totalmente impossível para ele.
           Começou a se perguntar se Pieck realmente iria, começou a pensar que poderia ser alguma mentira da sua avó para lhe fazer sair de casa. Ainda não tiveram a oportunidade de conversar desde o beijo, queria vê-la, estava com saudades, e precisavam colocar as coisas no lugar, se dessem um tempo muito grande temia que acabassem perdendo a oportunidade e viverem apenas fingindo que nada aconteceu. Não tinha como bater na porta dela para conversar, o recesso de inverno parou as atividades no quartel, se esperasse voltarem seria tarde.
           Mantinha os olhos na entrada, a cada vez que a porta abria seu coração palpitava um pouco para depois se decepcionar. Decidiu ir à mesa pegar mais uma bebida quando a porta abriu novamente, desta vez seu coração saltou, retumbou tão forte que ele temia que as outras pessoas ouvissem.
           Pieck entrou acompanhada de seu pai, tirando o pesado sobretudo que vestia e revelando um belo vestido que a fazia parecer ser banhada pelo pôr-do-sol, os cabelos bem penteados brilhavam e não haviam olheiras em seu rosto porque agora ela não precisava mais acordar cedo depois de virar a noite lendo ou ficar dias sem dormir no formato do titã, suas faces estavam coradas e enquanto cumprimentava a senhora Yeager a mesma mostrou onde estava o neto, parado diante da mesa de bebidas.
           Diferente dele, a garota não parecia esperar sua presença, porém lhe direcionou um grande sorriso, como se todo esse tempo tivesse se enganado sobre o desejo que tinha em rever o homem.
           Agora depois de tanto tempo esperando, Zeke não sabia como se aproximar, ela estava o tempo todo cercada pelo pai e sua avó, duvidava que fossem conseguir disfarçar diante deles, e o próprio Zeke estava fugindo um pouco, a admirando de longe ainda abalado em como ela estava encantadora. Pieck sorria para aqueles que a cumprimentavam, eram dois guerreiros em uma festa, porém ela parecia mais acessível que o loiro, sempre desviando e dando desculpas para sair de uma roda de conversa que se formava ao seu redor. Seus olhares desviavam sempre porque estavam constantemente observando o outro.
           A menina não suportava mais a situação, se estavam ali era bom conversarem logo, ou não iria sossegar até colocar um fim naquela expectativa.
           Zeke entendeu o que ela queria dizer ao apontar para o lado de fora do salão, onde não deveria ter ninguém pelo frio que fazia.
-Onde vai?-sua avó lhe abordou no meio do caminho
-Fumar
           Deixou o copo vazio em cima de uma mesa e seguiu pelo mesmo caminho de Pieck.
           Estava abraçando o próprio corpo, sentindo os ossos tremerem, mas se aqueceu quando viu Zeke se aproximando, acendendo um cigarro e andando em passos curtos. Quando estavam enfim frente a frente, ninguém falou nada, Pieck pensou se deveria ter colocado um sapato de salto ao invés daquelas botas para complementar a diferença de altura entre eles, mas ela gostava assim.
-Você está linda
-Obrigada-tirou um fio de cabelo que caia em seu rosto
-Como tem passado?
-Colocando o sono em dia, e você
-O mesmo
           Suas vozes morreram, olhando em volta a procura de algo para falar, Zeke consumia seu cigarro rapidamente, já Pieck brincava com o colar de ouro que pegou da caixa de jóias que um dia pertenceu a sua mãe.
-Está nevando
           Anunciou ao ver os primeiros flocos de neve daquele inverno caírem do céu.
-Acho que precisamos falar sobre o que aconteceu aquele dia-mordeu os lábios ao vê-la corar ainda mais-Na manhã seguinte, eu fui até a sua tenda, mas você não estava mais lá, parecia ter fugido
-Fiquei nervosa, não queria ouvir nada que pudesse me magoar, porque, pelo menos para mim, foi algo muito bom
-Por que acha que eu diria algo para te magoar?
-Quando você fica colocando os deveres acima de tudo, iria falar que guerreiros não deveriam se relacionar entre si, e isso poderia prejudicar nosso trabalho, sabe, o tipo de coisa que você fala quando quer impressionar os oficiais. Nunca sei qual Zeke vou encontrar, o chefe de guerra ou o que contrabandeava chocolate para mim
-Acha que foi o chefe de guerra quem te beijou?
-Não-disse rapidamente
-Então porque é ele quem deveria estar aqui resolvendo isso?
           A neve caía rapidamente, lembrando a Pieck as lascas de coco jogadas no bolo que fez dias antes.
-Há quanto tempo você queria aquilo?
-Menos tempo que você, eu vejo a maneira como você me olha, e quando eu percebi qual era sua intenção eu comecei a pensar também na possibilidade. E você, quanto tempo faz?
-Mais do que seria possível dizer sem parecer errado. Você ainda é muito nova, sou nove anos mais velho, e vou morrer em alguns anos...
-Eu também, não fique se martirizando sozinho
-O que espera disso?
-Apreciar a vida enquanto posso, antes de ser devorada
-Então foi apenas uma das suas tarefas da lista?-tentou parecer indiferente, mas a ideia o deixou magoado
-Sim, mas você sabe o que estava escrito na lista?
-"Beijar alguém pela primeira vez"?-ergueu a sobrancelha
-Não, "Beijar o Zeke"-cruzou os braços atrás das costas-Tem outras coisas envolvendo seu nome, mas não posso falar ou vai perder a graça
           Começaram a ouvir o tumulto do lado de dentro, logo daria meia-noite e iniciariam um novo ano.
-Sabe o que eu vim fazer aqui?-questionou enquanto alisava suas bochecha com a ponta do dedo-Tentar te convencer a tentarmos para ver se dá certo, mas parece que você não precisa ser convencida
-5!
-Ainda bem que não, porque seus argumentos foram péssimos
-4!
-Não consigo raciocinar muito bem com você por perto
-3!
-Então, Zeke-deu um passo mais próximo a ele-Pode me beijar se quiser, sempre que quiser
-2!
           A enlaçou pela cintura e trouxe de encontro a si, enquanto Zeke curvou o corpo para alcançá-la, ela se colocou na ponta dos pés, Pieck encontrou calor naqueles braços, e ele sentiu uma paz inexplicável. Não ouviram os gritos de comemoração à meia-noite, o mundo poderia terminar naquele momento, porque estavam juntos, apenas eles e nada mais importava, sentindo o coração do outro bater forte, e depois ambos em sincronia, mais alto que passos de titãs.
           A apertou mais firme em seus braços, temendo que ela fosse embora, que a tirassem dele, brasa ardia em seu peito, queria viver eternamente naquele beijo realizado durante a primeira neve do ano.

 


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