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My Girl

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845


           O sol que raiava pelo amanhecer cegou Zeke logo que saiu do ambiente escuro do bordel, não era seu momento de maior orgulho, ainda mais após pernoitar bebendo e desfrutando os prazeres de uma profissional até anunciarem estarem fechando, algo que só faziam quando a luz do dia começava a iluminar os cômodos pelas frestas das janelas e transformar os desejos em vergonha. Lá dentro ele não era um guerreiro, era só um jovem com dinheiro para gastar, era bom fugir de alguma maneira, mesmo que aquela não fosse uma solução como prometia ser de início. Com sua reputação para proteger, era um lugar discreto onde poderia entrar sem ser visto e sair tranquilamente pela porta lateral, iria andar pelos becos dos fundos até chegar na rua principal aonde iria se misturar com as pessoas que acordavam cedo para iniciarem suas vidas diárias.
           Logo após se tornar titã, ele saiu da casa dos avós, se mudou para um apartamento bem localizado onde tinha uma cama nova que foi só sua e de mais ninguém, não haviam reclamações do cheiro de cigarro, poderia descansar sossegado sem ser perturbado por uma casa cheia de memórias. Chegar ao amanhecer não acarretava perguntas constrangedoras cujas respostas verdadeiras não seriam bem recebidas, e mesmo que para ele o significado de "lar" fosse onde nos podemos ter um canto do mundo para ter tranquilidade, sabia bem que jamais encontraria isso em lugar nenhum porque os problemas o acompanham para onde quer que vá, ainda assim, poder fechar a porta e fingir que o restante das pessoas não existiam era reconfortante.
           Parou curioso ao ver saindo do prédio onde morava a figura tão familiar de Pieck logo cedo olhando em volta a sua procura, por que razão iria até seu apartamento? Nunca esteve lá antes, já que por mais íntima e fraternal que a relação deles fosse, não ficava bem uma menina estar no apartamento de um homem que mora sozinho.
-Zeke!-correu até ele logo que o viu parado no meio da rua-Preciso da sua ajuda
-Aconteceu algo?
-Mais ou menos-o analisou dos pés a cabeça, deveria ter virado a noite em algum lugar, mas não questionou nada-Pode vir comigo?
-Pra quê?
-No caminho te explico
           Agarrou sua mão e o puxou pelas ruas, Zeke estava cansado, ainda cheirava a bebida e adoraria um bom banho, sabia que o perfume barato da mulher com quem esteve exalava em sua pele, mas ela o conhecia bem suficiente para saber que se desse uma oportunidade dele delongar o que quer que estivesse planejando pedir o loiro iria tentar escapar pelo visivel cansaço, então não deu tempo para ele pensar.

 

           O suor fez com que os fios loiros começassem a grudar na testa, suas mãos queimavam com o atrito das cordas e ele realmente não estava de bom humor, quando Pieck disse precisar de ajuda com a mudança ele imaginou que iria carregar algumas caixas, e não que teria que erguer os moveis pela janela do apartamento que ficava no segundo andar de um complexo residencial.
-Como você me convenceu a fazer isso?
           A menina entrou pela sala segurando uma caixa cheia de utensílios domésticos, a colocando em um canto enquanto olhava para Zeke cheia de divertimento.
-Meu pai não pode se esforçar, e eu precisava de alguém que pudesse ajudar
           Não deu a resposta que queria porque precisou segurar a perna da pesada mesa de madeira e a puxar para o interior da janela. Já havia trago o aparador da sala, a estante de livros que ficava no quarto de Pieck e a cama de ferro da menina, mas ele estava realmente preocupado com o restante dos moveis, dali de cima aquele sofá parecia muito pesado.
-Por que escolheram um lugar onde as escadas são tão estreitas que não da para passar nenhum móvel sem desmontar?
-Tem dois quartos, o aluguel é justo, e também...
           Foi até a janela, olhando para a rua que não ficava muito longe do lar anterior, mas tinha uma aparência mais agradável.
-Lembra da viuvá que te falei?-Zeke afirmou com a cabeça enquanto acompanhava o olhar da menina-Ela mora naquele predio
-Pieck, preciso ter algumas aulas de estratégia com você-havia surpresa e divertimento na sua voz
           O olhou de esgueira, parecia que cada vez que via Zeke ele estava diferente, começou a deixar uma sombra de bigode crescer, loiro e quase invisível, também gostava dos óculos que passou a usar dês de que se tornou portador de titã, ela até chegou a comentar algumas vezes, mesmo que não conseguisse mais ver com tanta clareza aqueles olhos cinzas como discos de prata que às vezes ficavam tão sem brilho quanto metal sem polimento. Sentia que ele usava os óculos tanto como homenagem quanto como proteção, para criar uma barreira visível e discreta entre ele e as pessoas a sua volta, Zeke estava mudando, notou isso havia um tempo, e cada vez que essa constatação vinha surgia ela sentia um pesar no peito, nunca quis tanto estar errada.
-Pieck!-seu pai gritou da rua
           Deu um pulo, assustando Zeke mais com sua reação que com a voz do homem que a chamava.
-Já vou!-respondeu antes de se virar para o rapaz-Vou ficar lá em baixo cuidando das coisas, meu pai disse que vai pedir ajuda de um amigo
-Uma ajuda seria bem-vinda-secou o suor da testa com as costas da mão
-Está reclamando de fazer uma mudança? Justo você, jovem, forte, portador do titã bestial
           Fez uma pose, colocando os punhos na cintura e o encarando com desdem, isso fez uma veia de irritação saltar na testa de Zeke.
-As vezes você esquece que sou seu superior, Finger
-Não estamos de serviço
-Um militar está sempre de serviço
-Sim, senhor Yeager-bateu continência
           Sem resistir a tentação, Zeke bagunçou seus cabelos, dando a menina o ar desgrenhado que ele tanto gostava.
-Pieck!-seu pai gritou mais uma vez
-Preciso ir-segurou a mão do loiro que ainda estava pousada em sua cabeça-Já volto
           Saiu correndo pela porta aberta do apartamento, seus passos apressados sendo ouvidos por Zeke até sumirem e depois olhou pela janela, Pieck encontrou seu pai que saiu logo em seguida, deixando a menina vigiando as caixas e moveis que ainda faltavam serem levados até o novo lar. Se sentou no sofá e ficou balançando as pernas despreocupadas, olhando ao redor para a nova vizinhança.

           Deixou a bituca do cigarro cair nas telhas que formavam a fachada do prédio, era fácil avistar o senhor Finger na multidão pela braçadeira vermelha que parecia naturalmente atrair os olhares alheios, e ali não eram apenas uma braçadeira, eram quatro que estavam vindo pela rua a esquerda.
           Quando o senhor Finger foi até a filha com os irmãos Galliard e mais outro homem que Zeke não conhecia, mas deduziu ser o pai dos meninos, ela apontou para a janela, e todos ali viram que Zeke os observava. Marcel lhe entregou um aceno respeitoso e sorridente, já Porco apenas virou o rosto ao cruzar os braços mostrando visível irritação.
           Os homens começaram a amarrar as cordas na geladeira, enquanto isso as crianças pegaram cada um uma caixa e sumiram ao passar pela entrada do prédio. Continuou encostado na janela até Pieck surgir mostrando o caminho aos irmãos, era bem estranho encontra-los longe do quartel, até um pouco constrangedor. Como esperado Marcel o tratou exatamente com a mesma formalidade que o tratava sempre, isso fez Zeke olhar de relance para Pieck, que precisou conter um risinho, às vezes apenas com um simples olhar poderiam passar para o outro uma pequena mensagem.
-Porco, quanto tempo...
           Qualquer tentativa de interação foi evitada, o menino se virou e saiu pela mesma porta que entrou, ignorando a presença de Zeke.
-Desculpe-seu irmão estava totalmente constrangido, as faces vermelhas que mostravam estar realmente espantado com tal atitude-Ele ainda está um pouco indignado
-Bom, diga a ele que esse tipo de atitude mostrar exatamente o porquê ele não ter se tornado guerreiro-se inclinou para o garoto, primeiro com uma voz ríspida, depois mudando para um tom mais casual, afinal Marcel não era culpado pelo irmão que tinha-Mas antes vamos trabalhar, quanto mais cedo terminarmos mais cedo podemos ir
-Sim senhor-saiu em disparada
           Aproveitando a ajuda extra, Pieck iria dar uma pequena arrumada nas caixas, que começaram a tomar muito espaço e ficando no caminho, as pessoas não costumam perceber a quantidade de pertences que tem até precisarem fazer uma mudança. Como seu pai não trabalhava mais na ferraria o dono aumentou o aluguel, se era para pagar a mais pelo menos que fosse em um lugar melhor.
           Começou a empurrar uma das muitas caixas repletas de livros em direção ao seu novo quarto, agora teria espaço suficiente para eles.
-Não sabia que era amiga dos Galliard
-Nós conhecemos dês de que eramos crianças
-Como se você fosse adulta
           Franziu a testa para Zeke.
-Quis dizer que os conheço dês de sempre, nossas mães eram muito amigas. Quando minha mãe morreu, a senhora Galliard cuidava de mim para meu pai trabalhar, e eu acabei crescendo com o Marcel e o Porco
-Não sabia disso
-Nunca te contei?-pelo seu semblante era possível ver que ela realmente não notou que nunca entrou naquele assunto-De qualquer forma eles me ajudaram a entrar no programa de guerreiros, meu pai não estava muito contente, e eles o convenceram
-Com tanta familiaridade é de se estranhar que nunca tenha percebido, seu relacionamento com eles não parecia diferente que com os outros
-Não é como se nós conversássemos muito, o Marcel é amigo de todos, e o Porco é exatamente o contrário-riu discretamente com uma lembrança-Ele ficava puxando minhas tranças e uma vez arrancou a cabeça da minha boneca preferida
-Infelizmente eu consigo imagina-lo fazendo isso
-Sejamos sinceros-abaixou o tom de voz, como se fosse contar um grande segredo-Eu nunca o perdoei por isso e ele sabem muito bem
           O senhor Galliard entrou no apartamento, timidamente cumprimentando Zeke, agora teria outra pessoa para lhe ajudar a subir os moveis. Com o trabalho distribuindo, o senhor Finger vigiando a mudança posta na rua, as crianças trazendo as caixas e o pai dos meninos o ajudando a subir os moveis, tudo andou mais rápido.

           Regeneração era uma dadiva maravilhosa, logo enquanto descia as escadas para respirar um pouco de ar a cada degrau que pisava a dor nos músculos ia sumindo, já o senhor Galliard que estava logo atrás parecia só sentir dor e mais nada, quase poderia ouvir seus ossos rangendo.
-Não tenho mais idade para essas coisas, mas o Finger me prometeu cerveja, e você, o que prometeram?
-Estou aqui de graça
           O homem soltou uma risada que foi virando um gemido de dor, provavelmente ficaria alguns dias dolorido.
-O senhor está bem, pai?-Marcel estava no final da fila que descia as escadas
-Nada que uma massagem da sua mãe não resolva
           Marcel sentiu um calafrio percorrer seu corpo ao imaginar a cena, e como de costume, ao ser mencionada, sua mãe apareceu, como se menção a ela fosse algum tipo de invocação. A mulher deixou o senhor Finger falando sozinho no meio da conversa quando viu o marido e filho aparecerem, acompanhado de Zeke, que foi o alvo para onde a mulher andou animada e sorridente.
-Senhor Yeager, prazer, sou a mãe do Marcel e do Porco
-Prazer-deu um leve aceno de cabeça enquanto tirava o maço do bolso
-Sempre quis perguntar pessoalmente, mas como tem ido o meu filho?
-Marcel é um bom menino-olhou para o jovem que estava logo ao lado da mulher-Quando não estou presente é o melhor para liderar os guerreiros
-Que orgulho-alisou os cabelos de seu primogênito-Como se já não fosse a honra de ser mãe de um dos guerreiros, ainda ouço um elogio desse
-Um merecido elogio-sabia ser amistoso as vezes
-Marcel, perguntou aquilo que pedi para o senhor Yeager, não foi?
-Sim mãe, ele não sabe de nada-o menino corou violentamente, mostrado nervosismo nas intenções da mãe-O senhor Yeager não tem tempo para essas coisas
-Que bobagem, se alguém vai saber o que aconteceu, esse alguém é ele-a mulher direcionou toda atenção ao loiro, sacudindo o braço enquanto o filho mais velho tentava tira-la dali-Uma curiosidade, quando o titã é passado adiante, os familiares do guerreiro anterior permanecem como maleyanos honorários, correto?
-Sim, sempre foi assim
           Não deu muita atenção a pergunto tola com resposta obvia, tragando lentamente seu cigarro.
-Entendi-abanou a mão como se o menino que a rodeava fosse uma mosca-Sabe, essa parte do distrito é bem familiar, todos se conhecem, somos uma grande comunidade, e podemos até dizer ser a região dos guerreiros
-Sim, parece um bom lugar-sorriu desconfiado, tentando entender onde ela queria chegar
-Até pouco tempo tínhamos outra guerreira morando por aqui, deve tê-la conhecido… Quieto Marcel!-o menino começou a suar frio-Eliza Alvin, ela era portadora do titã blindado
-Sim, a conheci, grande mulher
-Em todos os sentidos-fez uma pose como se quisesse mostrar os músculos que não tinha-Sabe, eu fiquei nessa dúvida porque quando ela passou a posse do titã, sua família perdeu o posto de marleyanos honorários
-Mesmo?-pelo visto o assunto era de certa maneira curioso
-Sim, o marido e o filho, aliás, são eles ali
           Acompanhou o olhar, um homem jovem segurava a mão de um garotinho que não deveria ter mais que cinco anos, se realmente fossem parentes de Eliza, as braçadeiras que deveriam usar eram para ser vermelhas, e não brancas. Assim que viu a criança sabia ter algo estranho.
-O menino é filho dela?
-Ah, não, ele é filho da primeira esposa do senhor Alvin, a mãe morreu no parto, mas ela se casou com o pai dele quando ainda era um bebê, e ele a chamava de mãe, e ela dizia ser seu filho, até conseguiu uma honraria para ele, um relacionamento bonito de se ver
           Havia uma série de regras extremamente rígidas que os guerreiros precisavam seguir, uma delas era voltada especificamente para as mulheres, não era permitido engravidar, motivo: não é possível se transformar com exito durante a gestação, o que acarretaria nove meses de inutilização para aquele titã. Dizem que nem a própria Ymir conseguia se transformar durante a gestação, então era uma regra que ocasionava em desqualificação, se ele bem sabia anos antes houve um caso da titã fêmea que engravidou, ela foi devorada com seu bebê ainda no ventre e os poderes passados para outra pessoa.
-Viu Marcel?-se virou para o filho-Pela reação dele dá para perceber que é algo bem estranho de ter acontecido
-Bom, acredito que o viúvo pode ter a resposta
-Acha que eu nunca perguntei?-pareceu ofendida com suas palavras-Ele fica desconversando
-Mãe, vamos, está ficando tarde-Marcel se colocou entre a mulher e o seu superior, totalmente constrangido pela situação
-Ok, ok-apertou a mão de Zeke em uma despedida, para a felicidade do primogênito-Foi um prazer falar com o senhor, mesmo não tendo conseguido responder minha dúvida. Apareça lá em casa de vez em quando, o Marcel fala muito bem do senhor, o Porco nem tanto, mas está convidado para vir jantar um dia desses, não pode dedicar sua atenção toda aos Finger, não demonstre favoritismo entre os jovens guerreiros
-Pode deixar, senhora Galliard, adoraria conversar mais-nem fez questão de disfarçar muito a mentira
-Porco!
           Os transeuntes viraram os olhos para eles, até o senhor Finger levou um breve susto, já os dois Galliards ali não se surpreenderam, pelo visto a mulher gritava constantemente.
           Zeke olhou para cima, em direção aonde a senhora Galliard gritava, Porco surgiu pela janela ao lado de Pieck.
-Vem, vamos para casa!
           Espera, o loiro olhou a sua volta, contando todos, o senhor Finger conversava com Galliard, Marcel estava passando um dos momentos mais vergonhosos de sua vida ao lado da mãe, o que queria dizer que Pieck e Porco estavam sozinhos lá em cima esse tempo todo.
           Quando o jovem menino se juntou a família tinha um rosto corado e cabisbaixo, Pieck veio logo atrás com uma expressão mais neutra, porem mantinha os olhos fixos em Porco.
-Que cara é essa, não estavam aprontando, né?
-Não mãe!-pelo visto o costume de falar alto foi algo que Porco herdou da mãe
           A família foi embora, com a senhora Galliard sendo usada de apoio ao marido que andava um pouco torto, parecia uma família bem estruturada, algo difícil de se encontrar entre os guerreiros. Para Reiner faltava um pai, Annie e Pieck não tinham mais suas mães, já Zeke não tinha nenhum dos dois, mas aquela família poderia ter seguido junta e feliz sem precisarem sacrificar um dos filhos.
-Precisam de mais ajuda?
-Não, já foi levado tudo para cima-o senhor Finger se aproximou
-Mas se quiser ajudar a arrastar os moveis...-disse a menina olhando diretamente nos olhos cinzas do rapaz
-Pieck, o senhor Yeager já ajudou muito
-Não tem problema-Zeke se adiantou-Já estou aqui de qualquer maneira, e a Pieck não vai conseguir sozinha
-Sei que estou meio debilitado-o pai da menina respondeu sem graça-Mas consigo fazer alguma coisa
-O melhor que o senhor pode fazer é descansar, não custa nada-o loiro sorriu, querendo saber onde estava todo o descontentamento de mais cedo, ah sim, Pieck lançou aquele olhar novamente
-Prometo que irei recompensa-lo-o homem mais velho se curvou levemente em agradecimento-Fico feliz em saber que temos amigos tão solícitos
           Jogou o cigarro no chão antes de voltarem os três para o apartamento, agora mobiliado, mas totalmente desorganizado, a primeira coisa que pai e filha fizeram foi abrir caminho para Zeke começar a levar cada móvel a seu devido lugar.

           Minutos mais cedo, Pieck fazia uma lista mental de onde começaria a arrumar, a cozinha era o primeiro passo, deixar tudo preparado para poderem fazer as refeições e manterem a energia enquanto arrumavam o restante da casa. Procurava em meio as caixas espalhadas pelo apartamento aquela catalogada com o que precisaria para equipar o comodo.
-Ai!
           Gritou ao sentir alguém puxar seu rabo de cavalo, segurou o couro cabeludo que latejava enquanto encarava irritada Porco que mantinha um olhar aborrecido como se ela é quem tivesse feito algo contra ele.
-O que foi? Tem feito cara feia dês de que não foi eleito guerreiro
-Nada-fazia biquinho enquanto cruzava os braços
-Não tenho tempo para isso, estou ocupada
-Muito ocupada lutando na guerra-suas palavras fariam a guerra parecer uma grande festa onde ele não foi convidado
-Porco, o que foi?
           Deu de ombros, fazendo a menina bufar enquanto voltava a sua tarefa.
-Vou continuar no exercito
           Parou de repente, olhando para ele por cima do ombro.
-Sabe o que isso quer dizer, né?
-Que como eldiano estarei sempre na linha de frente, os primeiros a morrer, mas que escolha eu tenho aqui dentro? Ser igual meu pai e vender sapatos a vida toda? Ralei muito durante o treinamento, não vou jogar esse conhecimento fora
-Porco, você não precisa disso-se virou para ele, às vezes era tão cabeça-dura, mas precisava tentar-Marcel já é guerreiro, você pode ter uma vida tranquila, indo para o exército vai durar bem menos que os treze anos
-Pra mim tanto faz, não consegui o que queria, então não ligo muito
-O que você queria?
-Essa braçadeira-segurou o pedaço de tecido que estava no braço de Pieck
-Sua braçadeira é igual à minha
-Mas não é a mesma coisa. Eu sou quem deveria ter recebido o blindado
-Já tentou encontrar o que levou a isso?
-Não haviam motivos para escolherem o Reiner ao invés de mim-rosnou
-Talvez a sua infantilidade? Ou seu temperamento? Você é horrível para trabalhar em equipe, não podemos esquecer-colocou as mãos na cintura-A briga que você provocou aquela vez é um bom exemplo de tudo o que falei. Zeke ficou muito irritado pela sua atitude
-Sei que ele tem algo a ver com isso-olhou pela janela pensativo
-Por isso tem agido de forma tão grosseira com ele? O Zeke não decide quem vira guerreiro
-Pode não decidir, mas ele tem influência-lhe direcionou um olhar acusador-Falar para ele sobre coisas de anos atrás não teria ajudado também
-Estava ouvindo?-franziu a testa-Pelo visto agora é enxerido, mais uma coisa pra adiconar a sua lista
-Não foi de proposito, estava trazendo uma caixa e...-foi interrompido
-Bom, posso garantir que o que quer que tenha feito eles não te escolherem, não tive nada a ver
           Bufou para tirar um fio de cabelo claro que caia em sua testa, batendo o pé pesadamente no piso de madeira.
-Nunca entendi sua amizade com ele, foi do nada, quando vi era Pieck-chan, e Zeke, como se fossem muito amigos
-E somos, mas nunca criei amizade com ele para tentar ter vantagem
-Nunca disse que foi por isso, só é meio irritante
-Sinto muito, mas não posso fazer nada em relação a isso
           Talvez encerrando ali a conversa ele fosse embora, então voltou a sua tarefa de desempacotar, mas era a primeira vez que ia ser sincero sobre o que sentia dês de que foi descartado, então Porco não iria perder a oportunidade, porque duvidava que fosse ter essa coragem novamente.
-Sabe o que me deixa mais zangado?-Pieck respirou fundo e se virou para ver o que ele ia falar-Ninguém pareceu se importar por eu não ter virado guerreiro a não ser eu mesmo, nem você, ou o Zeke, Bertholdt ou Annie, nem mesmo o Marcel ou meus pais pareceram se importar, eu fui totalmente desconsiderado, mas quando pareceu que o Reiner ia sobrar todo mundo ficou com pena
-Sua família já ia ter um guerreiro, não posso negar que seja meio injusto
-Realmente acredita que eu queria ser guerreiro para minha família ter o dobro de chance?
-Não, acho que você fez isso porque, como sempre, não poderia se ver inferior a alguém, então se o Marcel ia ser guerreiro você também tinha que ser
-Você não sabe de nada-seu rosto corado de vergonha contradizia suas palavras
           Foram interrompidos por um grito retumbante que vinha até eles, Pieck deu um pulo e Porco não foi diferente, o menino andou até a janela a procura da dona da voz que conhecia muito bem, Pieck fez o mesmo sem saber muito bem o motivo, mas seus olhos encontraram brevemente os de Zeke, que arregalou levemente as sobrancelhas ao vê-la.
-Vem, vamos pra casa!
           Como se o grito os tivesse trago novamente para a realidade, Porco corou violentamente ao perceber o que fizera, falou demais, e ele odiava isso, duvidava que Pieck fosse compartilhar aquela confissão com alguém, mas só dele saber já era gente demais.
-Por favor, não fale nada disso para ninguém, esqueça tudo
-Não posso prometer esquecer, mas de mim ninguém vai saber de nada
           Acenou a cabeça mais tranquilo pela promessa de manter em segredo sua pequena revelação, saiu as pressas pela porta com Pieck logo atrás.

           Zeke arrastou o último móvel com sentimento de vitória, ainda haviam caixas espalhadas, mas pelo menos a cama proporcionaria uma noite de sono para no dia seguinte colocar tudo no lugar. Tinha que admitir que aquele apartamento era mais bonito que o anterior, mas não comentaria por parecer grosseiro, antes Pieck e o pai moravam em um lugar bem pequeno, suas camas dividiam o mesmo quarto e o cheiro de metal derretido vindo do ferreiro causava dores de cabeça a menina como ela já havia confessado algumas vezes; após a braçadeira aquela era a maior conquista que a menina conseguiu e deveria estar muito orgulhosa. O novo quarto de Pieck parecia ainda maior porque ali só tinha a cama e uma estante de livros, o guarda-roupa que antes dividia com o pai ficou no quarto do homem e ele se perguntou se agora ela iria comprar um para si mesma, mas se bem conhecia a menina ela iria preferir uma nova estante, só pela quantidade de caixas com livros espalhadas pelo piso mostravam que uma única e estreita estante não era suficiente.
           Espiou em uma das caixas abertas, reconhecendo com surpresa um dos livros que estava logo no topo, o pegando com uma mistura de nostalgia e angustia, a capa verde um pouco surrada foi aberta, e logo na parte de trás dela estava escrito "Tom Xavier" com a caligrafia ornamentada que ele bem conhecia. Zeke fez jus a promessa que o senhor Xavier deu a Pieck, a levando para escolher os livros que queria, bem mais do que ele pensou que seria, precisando de três viagens para levar todos ate a menina. Guardou o livro novamente na caixa e saiu do quarto bem a tempo de ver Pieck entrando pela porta da frente segurando uma sacola de compras enquanto poderia ouvir o pai dela no quarto fazendo algo que não deveria ter importância para o loiro.
-Vou indo, parece que já podem seguir daqui
-Não quer ficar para comer algo, é meio tarde para o almoço e cedo para o jantar, mas vou tentar um meio-termo-mostrou a sacola parda que carregava
-Não, eu estou exausto, só quero tomar banho e dormir
-Obrigada Zeke, ajudou muito-seus olhinhos o encaravam com carinho, era exatamente aquele olhar que o colocava naquele tipo de situação
-Sei que vou me arrepender do que direi, mas qualquer coisa é só chamar
-Tá bom
-Senhor Finger, estou indo!-gritou para o homem que estava fora de vista
-Certo jovem, obrigado!-foi a resposta
           Pegou o casaco que estava jogado no sofá, Pieck deixou as compras na cozinha e o acompanhou até a porta. Zeke tropeçou em algo logo que saiu do apartamento, uma sacola de estopa amarrada com uma fita rosa.
-Isso é seu?-pegou o objeto e mostrou a Pieck
-Não
           A menina pegou a sacola curiosa, desfazendo o laço e relevando lá uma boneca pano, com cabelos trançados de lã marrom e um chapéu florido laranja que combinava com sua jardineira. Os dois ficaram um pouco perdidos com aquilo, até que Pieck pareceu entender primeiro a origem da misteriosa boneca deixada em sua porta e deu uma leve risada que fez suas bochechas corarem, em seguida Zeke também entendeu o que era aquilo, franzindo a testa com a conclusão.
-Nós vemos outro dia-falou olhando para a boneca que ela agora abraçava contra o peito
-Ok
           No caminho até seu próprio lar Zeke ficou pensativo, onze anos costuma ser a idade em que os meninos começam a ver as meninas de uma maneira diferente, sabia disso porque a primeira vez que percebeu que meninas eram bonitas foi por volta dessa mesma idade, eram crianças, ainda algo inocente, mas isso o deixou extremamente incomodado.

 


           Guerreiros estão em constante treinamento nos primeiros anos, para depois saberem manusear suas habilidades de titã com tanta maestria que era difícil imaginar não terem nascido assim, principalmente para os quatro que estavam selecionados em realizarem a missão de retomar o Titã Fundador. Por uma questão de espaço, tais treinamentos eram feitos fora de Libério, no caminho entre a capital de Marley e a cidade vizinha, onde tempos atrás aquelas crianças realizavam seus treinamentos de sobrevivência, agora ao longe Zeke podia ver Reiner e Annie, cada um em seu titã, lutando corpo a corpo, não era novidade a loira sair vitoriosa, deixando o menino caído no chão.
           Marcel deveria estar entre as árvores da floresta densa, podia ouvir o som das árvores conforme ele pulava de uma para outra; Pieck estava paradinha esperando o pessoal da oficina tirar suas medidas para uma nova armadura, deitada no chão com os olhos fechados, talvez estivesse até dormido; sentado em cima de uma cerca olhando a luta estava Bertholdt, com um titã destrutivo demais para um simples treino de rotina, eles costumavam levar o menino até um local bem mais distante para calcular o caminho de impacto de sua transformação que vinha aumentando conforme ele adquiria experiencia.
           Já Zeke, bom, Zeke sentado na tenda medica observando tudo pelas cortinas abertas tentando ignorar a dor latente que as agulhas furando sua espinha, queimava e uma picada entre as vértebras refletia por toda a coluna, doía tanto que estava suando, mas os militares haviam descobrido algo muito interessante sobre ele, o controle em titãs puros.
-Pronto, acabou-disse a enfermeira após colher uma abundante quantidade de fluido espinhal
           Respirou fundo, às vezes a linha abaixo da cintura ficava um pouco dormente após essas coletas, então ele se permitiu ficar ainda um tempo sentado na maca, sua camisa estava dobrada ao lado e o abdômen transpirava, sabia que isso se tornaria cada vez mais frequente conforme a guerra avançasse, agora deveriam ter estoque para centenas de transformações, e saber que isso não era suficiente o deixava nauseado, mas talvez fosse só efeito da coleta.
-Parece que tudo está andando melhor que o planejado-Magath entrou na tenda, olhando com superioridade para o rapaz que ainda se recuperava
-Sim senhor-Zeke ergueu a cabeça para encarar o superior-Logo estarão totalmente preparados para irem em missão
-Ainda temos outra batalha até lá, vai durar mais que as anteriores, mas é bom eles irem se acostumando com a duração, a missão de Paradis pode levar anos, e sei que ficar tanto tempo longe de casa pode ser estressante
-Da família também, mas creio que estarem juntos vai tornar as coisas menos dificeis
-Como anda o trabalho em equipe?
-Sincronizado, principalmente entre os meninos
-Acho que é natural-o oficial soltou uma leve risada-Quero que todos eles voltem, os quatro, ou melhor, cinco, contando com o Titã Fundador, deixe isso bem claro para eles
-Sim, senhor
-E essa saudade de casa vai ser algo bom, vão querer concluir logo a missão. Vão estar no território do inimigo enquanto seus parentes ficam aqui tranquilamente desfrutando dos benefícios, bem como esperado de eldianos
           O loiro percebeu a maneira como Magath o olhou, procurando algum sinal de revolta por suas palavras, mas Zeke era especialista em camuflar seus sentimentos, não mostrando nada além do mesmo olhar complacente que sabia que os maleyanos gostam de ver nos guerreiros. Talvez fosse um bom momento para perguntar, mentiria se dissesse que não ficou com aquele assunto na cabeça dês de que a senhora Galliard o apresentou a questão, e por mais que perguntar demais fosse perigoso, Zeke sempre soube reconhecer os limites, se Magath demonstrasse descontentamento iria encerrar a conversa.
-Comandante Magath, tenho uma pergunta a respeito do tratamento com nossos familiares após morrermos
-Não sei o que mais é preciso explicar, mas diga
-A permanência deles como maleyanos honorários, é algo garantido, correto?
-Claro, não vê parentes de guerreiros anteriores vivendo na zona de internação?-disse como se Zeke fosse estupido
-Sim, mas foi justamente isso que me deixou curioso. Alguns dias atrás acabei conhecendo o marido e o filho de Eliza Alvin...
-Ah, sim-o interrompeu-Sabe que existem algumas exceções que acarretam perda das honrarias. Quais são?
-Traição, gravidez, tentativa de fuga, conspiração..., existem outras, mas essas são as que não nos dão direito a reavaliação, e impedem que nossos parentes continuem com os beneficios
-Exatamente. Alguns oficiais acham melhor manter essas situações em sigilo, já eu penso que nada melhor como um exemplo para manter os outros na linha-Magath tirou o quepe e olhou pela entrada da tenda, o impacto do Blindado caindo ao levar uma rasteira da Fêmea fez o chão tremer-Dias antes da posse foi descoberto que Eliza Alvin planejava fugir com o marido e o filho
-Isso é realmente surpreendente-já suspeitava, mas não pôde de se espantar-Ela nunca pareceu o tipo que faria algo do tipo, mesmo que parecesse um pouco inconformada em ter que passar o titã adiante
-Eliza poderia ter ido embora com mais dignidade, ela era muito considerada pelos oficiais, e sabia disso, os deixou furiosos com tal atitude
-Sei mais que ninguém o valor que é poder ser ouvido de igual (nem tanto) pelos marleyanos, é vergonhoso ter tentado fugir ao final de seu dever
           Magath concordou levemente com a cabeça, ela sempre foi bem geniosa, mas sua personalidade nunca interferiu no trabalho, eles até deram uma permissão especial para o filho adotivo se tornar um marleyano honorário, foi realmente uma ingratidão.
-Ela tinha razão no que me disse, já testemunhei varias gerações de guerreiros, e nunca vi alguém usar tão bem o Blindado quanto ela. Duvido que vá viver para ver alguém que use esse titã com tanta maestria
           Reiner estava caído no chão, com Annie lhe aplicando um golpe, o menino emitia rugidos irritados tentando se desvencilhar.
-Eliza não via os treze anos como uma regra, mas uma garantia, porém já houve casos assim, em que o portador estava bem de saúde e do nada ao completar treze anos simplesmente caia duro no chão, uma morte súbita, dormia e nunca mais acordava, o caso mais recente foi do quadrupede, tivemos sorte de conseguir encontra-lo, foi um trabalho árduo sincronizar o horário da morte do portador com registros de nascimentos de eldianos, o pior foi arrancar o bebê recém-nascido dos braços da mãe
           Tirou um pólen amarelo que estava preso na manga de sua farda, ainda lembrando dos gritos do bebê enquanto o guerreiro, o homem que carregou o quadrupede antes de Pieck, injetava o soro no braço em uma demonstração de frieza que nunca viu antes em sua vida.
-Ou seja, é um risco que não podemos correr, foi confiando na saúde de um portador que acabamos perdendo o Titã de Ataque, que esta vagando por aí, talvez quem o tenha não faça ideia, talvez esteja nas muralhas, em uma criança de Libério ou tenha acabado de nascer em uma zona de internamento no estrangeiro
-Como vocês descobriram a tentativa de fuga?
           Agora Magath ponderava se deveria ou não contar, se fosse para outro guerreiro se negaria, mas em Zeke ele tinha mais confiança.
-O marido dela, ele deu o aviso. Quando os soldados chegaram ela estava de malas prontas com a criança, só esperando o marido voltar para partirem. Como falei, ela era muito forte, não só como titã, mas como humana, então precisamos fazer o necessário para evitar outra tentativa e fuga
-Realmente, quem a visse no dia da posse não imaginaria nada assim, ela subiu no pedestal por vontade própria, por isso me pergunto, o que seria "o necessário"?-estava bem perto do limite, sabia, seus pés tocavam a linha
-A levamos para a prisão, como o marido nos ajudou, ele foi liberado, o filho ficou sob nossa vigilância, em um navio ancorado no porto de Paradis
-Então...
-Se ela tentasse alguma gracinha a criança teria que ser punida, ela não teria como impedir, estávamos mantendo comunicação com o navio, se não dessemos sinal eles tinham ordens para mandar a criança para o paraíso. Como conseguimos manter tudo sobre controle não achamos necessário adiantar a cerimónia, nem foi preciso usar a mordaça ou seda-la
           Tanta naturalidade ao contar aquilo, como uma ameaça passivo-agressiva, "Podem tentar o que for, vamos descobrir e as consequências vão ser cruéis".
-Comandante Magath, por que está me contando isso?
-Por que eu reconheço sua realdade a Marley e sei que essa historia pode te lembrar um pouco da sua. Pode até ter achado em algum momento nesses anos que a decisão de mandarmos seus pais para Paradis foi radical, mas sabemos ser compreensivos quando necessário, no caso de Eliza, o filho era muito pequeno para entender, e o marido, de acordo com ele, fingiu concordar para evitar que ela fosse sozinha com a criança. Nós recompensamos a lealdade e temos um certo nível de tolerância
           Foram muito misericordiosos ao fazer uma criança de cinco anos de refém.
-Talvez tenhamos sido muito compassivos com Eliza e isso deu a entender que poderia fazer o que quisesse. Essa nova geração vai ter a missão mais importante da história, tanto quem vai quanto quem fica, ou seja, as recompensas vão ser maiores que qualquer guerreiro já recebeu, saiba disso e transmita para eles
-Sim senhor, embora saiba que para eles somente poder fazer parte disso é suficiente
-Zeke, até parece que você não tem ambição-tocou o ombro do rapaz, o encarando nos olhos com seriedade-Estou falando de uma estatua em praça pública, seus nomes em livros de história, vocês são a geração escolhida para salvar o mundo, salvar Marley
-Comandante eu tenho ciência disso, mas como eldiano tudo o que eu quero é poder compensar os pecados de meus antepassamos e limpar a desonra que meus pais trouxeram para minha família
           O comandante inflou o peito de satisfação, não foi dessa vez que Zeke caiu na armadilha, mas o oficial parecia bem contente com isso.
-Vamos ver o quanto mais ele aguenta-Magath colocou o quepe e viu ao longe Reiner finalmente conseguindo revidar um golpe de Annie, para depois receber um soco endurecido bem no queixo-Talvez possamos usar o Blindado como um titã de contenção de impacto ao invés de ofensivo
-Sim senhor
           Permaneceu sentado na maca, abotoando sua camisa e refletindo a nova informação quando avistou a fumaça tomando o lado de fora enquanto Pieck saia de seu titã, ele decidiu encarar um pouco a parte externa da tenda medica, caminhando até onde a menina enfim terminou de tirar as medidas para a nova armadura.
           Agora ele sentia pena de Eliza, toda a situação fez sentido, ela realmente parecia dedicada a Marley, leal e pronta para morrer, fosse em batalha ou no termino de seu tempo de serviço, deveria ter sido devastador, viver pronta para a morte e então surgir alguém que a fazia querer continuar vivendo. As lagrimas que caíram naquele dia porem não foram pela vida que ia chegar ao fim, foi pelo filho que não veria crescer, o filho que estava diante de um destino pior que a morte, ela não deveria nem ter conseguido se despedir, era isso, isso é Marley na sua forma mais crua.
           Eliza tinha um plano, todos que se tornam guerreiros tem um, seja para dar um bom futuro para a família, aproveitar o prestígio, ou consertar erros de seus antepassados; porém os dela mudaram no meio do caminho. O atual portador do Bestial não deixaria isso acontecer, estava dedicado em chegar ao seu objetivo, a cada missão conseguia identificar e unir mais pessoas que pensavam igual a ele, que queriam um fim ao sofrimento, tinha seu próprio capricho pela retomada do Fundador, porque ele e somente ele poderia acabar com aquele ciclo de ódio, e não aceitaria que alguém aparecesse com poder suficiente para fazê-lo querer mudar seus planos.
-Zeke?
           Como se tivesse fechado os olhos em um lugar e aberto em outro, o loiro olhou em volta, diante de Pieck que tirava uma mecha de cabelo bagunçado do rosto, com a pele ainda quente de vapor, ele conseguia sentir o calor emanando dela.
-Por que esta me olhando assim?
-Assim como?
-Você parou na minha frente e ficou me olhando
           Aqueles olhos negros e grandes, que quando pediam algo dificilmente ele conseguia recusar, gostava de Pieck, bastante, mas não o suficiente para faze-lo desistir, por mais que sempre tivesse gostado de provocar um sorriso nela.
-Pieck-chan, acabei descobrir que Marley fez algo cruel com alguém que eu não gostava, sorria para eu me sentir melhor-pensou
-O que?
-Nada Pieck-chan-colocou as mãos na cintura-Só pensando em uma maneira de fazer o Reiner parar de apanhar
-Cuidado!
           O grito veio da multidão por perto, todos correndo na direção oposta onde estava Zeke e Pieck, o loiro olhou para trás, um braço gigante de titã voava até onde eles estavam. Segurou Pieck firme enquanto mordia a mão livre, um raio surgiu iluminando o ambiente com mais força que o sol, em uma meia-transformação, um braço repleto de pelos cresceu do ombro de Zeke, com maestria pegando o membro decepado no ar antes dele cair em cima dos dois.
-Tudo bem?
           Com a menina sendo envolvida pelo braço humano, ele viu que ela talvez não tenha percebido tudo com a mesma rapidez que ele, ainda tentando entender o que aconteceu.
-Sim, estou-olhou para cima, onde um braço gigante segurava outro-Você sabe que eu não morreria, não é?
-Isso é maneira de agradecer-inconscientemente a abraçou mais forte-Deveria ter te deixado virar panqueca, e eu não fiz isso só por você
           A frente deles haviam os engenheiros que antes tiravam as medidas do titã de Pieck, a menina olhou para trás novamente, mantendo contato visual com Zeke e decidindo que iria acreditar nas palavras dele. Se desvencilhou do homem, tomando distância para ver melhor o que fora lançado.
-Acho que ele já está parando de apanhar
           Arrancando o braço do titã incompleto, Zeke foi até o lado de Pieck e acompanhou a direção onde olhava, o titã de Zeke caiu levando consigo aquele pedaço de Annie.
-Parece que sim
           Quem assumia o controle agora era Reiner, que tentava quebrar o endurecimento da Titã Fêmea e chegar a nuca, destruindo os dentes em uma mordida desesperada para finalizar a luta ante que voltasse a perder.
           Bertholdt segurava os cabelos, ainda em cima da cerca em dúvida de para quem deveria torcer, as pernas balançando inquietas quando Annie conseguiu retomar o controle apos o membro ter se regenerado, agarrando Reiner com fúria e o lançando para longe em direção a floresta, derrubando algumas árvores e fazendo surgir um grito de dor, que se Zeke não estivesse errado, era do Mandíbula, que caiu das árvores como um esquilo cujo galho se partiu ao meio.
           Respirou fundo e olhou para Pieck, que via com pessimismo para a cena, até notar que Zeke, outra vez, a encarava, mas sem a expressão esquisita de antes.
-Sou um titã de apoio, eu perco até na queda de braço-ergueu as mãos em defesa
           Passou a mão cansado pelos cabelos, pelo visto teria que pessoalmente cuidar daquilo.
           Viu Zeke se afastar enquanto se transformava por completo, Pieck se sentou ao lado de Bertholdt na cerca, agora o esquema da luta era Zeke contra Annie e Reiner; minutos depois Marcel se justou a eles, segurando o braço direito que estava dobrado em um angulo que não constava na anatomia, com fumaça saindo da pele enquanto sua regeneração cuidado da fratura, reclamando em como seu titã foi totalmente esmagado pelo impacto com Blindado somado as árvores que caíram em cima dele. Agora eram três sentados na cerca enquanto acompanhavam a luta que se estendeu até o por-do-sol.