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My Girl

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843


           Nunca se importou pela maneira como as pessoas o tratavam, ou as piadas que recebia, porque mesmo ele sendo um eldiano, os superiores, aqueles que valiam a pena, consideravam sua opinião, lugar de fala era algo tão raro para seus semelhantes que a primeira vez que foi convidado para falar diante dos oficiais ele achou ser algum tipo de teste ou cilada.
-Não acha que eles dão muita atenção pra esse moleque?-era definitivamente a voz da titã Blindada, ela era a líder da atual geração, afiada como sempre-Estamos aqui a muito mais tempo, mas eles nos tratam como mercadoria velha
           As respostas eram quase todos concordando com sua opinião, com comentários maldosos dos demais, exceto por um.
-Ele vai liderar a próxima leva de guerreiros, é esperado que o queiram entre eles-o Mandíbula argumentou
           Estava sentado em um banco fumando embaixo de uma janela aberta em um dia de verão, a conversa flutuou até ele pelo vento quente. Nunca se sentiu parte daquela geração de guerreiros, mas dois fatores o levaram a ser introduzido prematuramente entre eles: o desejo dos oficiais de treina-lo para um cargo de liderança, e a deterioração da saúde do senhor Xavier, ocasionando no medo dele sucumbir antes do tempo e o titã bestial ser perdido.
           Estar sozinho ali era mais solitário que estar sozinho em qualquer lugar, não havia espaço para amizade com os militares maleyanos, e aqueles onde poderiam ter algum companheirismo o tratavam como um intruso, por isso ele se acostumou e aceitou. Havia acabado de voltar de sua primeira missão, foram longos três meses lutando pela primeira vez com seu titã, estava exausto, mais mentalmente que fisicamente, e dês de que se tornou portador, infelizmente se viu divergente aos caminhos da única pessoa que sentiu saudade nesse período.
           Nunca foi sua intenção criar vinculo com alguém, menos ainda com candidatos que amanhã poderiam ser eliminados, mas quando ele viu aquela garota, a menor dentre as crianças que fingiam ser adultos, diariamente sentada na grande cadeira da biblioteca mergulhada entre as paginas de um livro ele sentiu que ela era tão solitária quanto ele, mas a diferença é que ela se sentia muito bem com isso.
           Foi por impulso pegar o livro para ela, em casa aquele dia ficou pensando se fez o certo, teve certeza ao ver seu rostinho alegre e agradecido, então se tornou corriqueiro.
           Pieck era uma companhia agradável, poderiam não dizer nada, apenas ficar sentados no pátio, cada um com seu livro, ele fumando e ela prendendo a tosse da fumaça, ele iria apagar o cigarro, mas acabaria esquecendo e acenderia outro. Era bom não ir embora sozinho, era divertida a maneira como ela contava o que havia acontecido no livro que leu, era bom ter a certeza de que a deixou na porta de casa, era bom dividir um guarda-chuva no meio da chuva, ela não ocupava muito espaço, mas ele sempre chegava com o ombro molhado porque não queria deixar cair uma única gota nela.
-Ei, está nos espionando?
           Seus pensamentos foram abruptamente interrompidos. Zeke ergueu o rosto para ver a careca brilhante do portador do Colossal.
-Só estou fumando
           O home clicou a linguá e voltou para dentro do comodo, logo depois quem apareceu foi definitivamente a maior causadora da hostilidade que recebia, Eliza tinha uma eterna expressão de deboche no rosto.
-Estamos indo ver o treinamento dos candidatos, vamos terminar na barriga deles mesmo, então quero me certificar se eles merecem a refeição
           Deu de ombros e se levantou para acompanha-los, cruzando o prédio e os encontrando no meio do caminho, a portadora do Blindado era forte, musculosa e intimidadora, não precisava estar no formato de titã para quebrar um pescoço, Zeke testemunhou isso recentemente, nunca viu alguém conseguir esmagar a cabeça de um inimigo com as próprias mãos, Xavier havia lhe avisado sobre ela.
-Tome cuidado com essa ai, garoto. Ela fará o que for preciso para sobreviver
           A imagem de uma portadora de titã no auge que via sua vida chegando ao fim prematuramente, sentia que ainda poderia fazer muito mais, seu corpo era quase uma armadura, uma versão humana do titã que carregava, mas não importava para Marley, após treze anos você ira morrer e isso é indiscutível.
-Até que parecem descentes-a titã fêmea estava recostada contra uma pilastra, acompanhando o treino ao longe-Você os conhece melhor que nos, o que acha?-perguntou à Zeke
-São perfeitos, todos são talentosos e estão dedicados
           Conforme Zeke enchia as crianças de elogios, os demais guerreiros se viam satisfeitos, pelo visto a próxima geração era adequada e poderiam ir tranquilos. Menos Eliza, que saiu brutalmente dali, em passos pesados fazendo tremer o chão, por um segundo, fazendo os companheiros se silenciarem, incomodados por sua atitude, mas preferiram ignorar.

-Me conta, qual é a sensação?
           Estavam andando por Libério depois de muito tempo, agora era difícil terem essas oportunidades, felizmente eram só os dois, Pieck o havia esperado no quartel para terem um momento para conversar tranquilamente. Não sabia ao certo, mas ela parecia ter crescido alguns centímetros nesses meses, mesmo que continuasse baixinha.
-Incrivelmente familiar, como se eu já tivesse feito isso antes
-E os guerreiros, eles são legais?
-Depende
-Depende de qual, ou depende de quando?
-Depende de quando-chegou mais um pouco para o lado dela, sim, havia crescido-Acompanhei seu treino de tiro, foi muito bem
-Obrigada
-Melhor que na primeira vez, soube que o ricochete da espingarda te fez voar longe
-Ficou analisando meu histórico?-tinha um sorriso divertido, por mais que a lembrança trouxesse um pouco de vergonha
-Preciso saber a evolução dos futuros guerreiros, Pieck-chan-afagou sua cabeça
           Olhou a nova braçadeira de Zeke, vermelha, ela chamava bastante atenção, e logo que entraram na zona de internamento ele foi saudado pelos guardas e recebeu acenos de desconhecidos, praticamente uma celebridade.
-Zeke?
           Uma senhora havia acabado de sair da mercearia quando os encontrou na rua principal, a mesma braçadeira vermelha.
-Olá senhora Yeager
-Pieck, você está tão crescida-a olhou com encanto-Quando vai ir lá em casa novamente?
           A menina olhou de canto de olho para Zeke antes de responder, tal reação não passou desapercebida pela mulher.
-O treinamento tem ocupado boa parte do meu dia, é a reta final, então estou exausta, mas adoraria um dia ir novamente, gostei muito daquele bolo
-Claro, quando fizer novamente irei mandar o Zeke entregar-agora direcionava sua atenção para o neto-Estou te esperando
-Ok, só vou leva-la para casa
           Se despediram antes de voltar ao caminho, a casa de Pieck ficava em uma área mais no final da zona, em cima da oficina de um ferreiro onde seu pai trabalhava, o senhor Finger o recebeu agradecendo por seu sucesso na missão recém-completada. A constatação de que, assim como Pieck conhecia sua família, ele conhecia a dela, mostrava que a relação de amizade deles se tornou bem próxima, quem os via ao longe até poderia jurar terem algum grau de parentesco, era quase isso, Zeke era o irmão mais velho, admirável e fraternal, e para ele Pieck era uma irmãzinha que não merecia o mundo em que viviam e ele fazia o possível para compensar tal injustiça, cuidar dela era algo que lhe dava prazer, não tinha obrigação nenhuma, fazia porque queria, e estranhamente conseguia ficar um resquicio de felicidade disso.

           Seus avós moravam na mesma casa havia anos, apos se responsabilizarem pelo garoto, Zeke se viu dormindo no quarto que um dia foi de seu pai, e isso causava um incomodo que crescia com o passar dos anos, para evitar, acabava passando o máximo de tempo possível fora de casa. Talvez um dia aquela residencia tenha sido calorosa e iluminada, não duvidava disso, mesmo que hoje fosse bem diferente.
-A deixou em casa?
           Sua avó estava na cozinha preparando o jantar, ele podia ouvir vindo do quarto do casal, o som do rádio, e quase poderia imaginar seu avô sentado ao lado do aparelho hipnotizado pela música.
-Pieck é uma garotinha tão encantadora, fico muito orgulhosa em saber que você cuida tão bem dela-cortava os legumes para adicionar a receita-Ela lembra sua tia Faye
-Toda menina te lembra minha tia Faye-sua voz saiu mais rude do que pretendia
           A faca parou no meio do caminho por alguns instantes, como sempre sua avó gostava de mencionar a filha morta, mais como uma tortura que como lembrança, Zeke já estava cansado de ouvir lamentos por alguém que nem conheceu.
-Zeke, precisamos conversar-se virou para o neto que estava parado na soleira da cozinha-Sobre o seu avô, ele...
-O que a senhora decidir está bom para mim, agora somos maleyanos honorários, podemos ver a questão da internação
-Mas eu queria ver se tem alguma alternativa
-Sinceramente, duvido muito, ele está piorando e a senhora não tem mais como cuidar dele, principalmente quando ele fica agressivo
           Seus olhos foram até o braço da mulher, as mangas do vestido dobradas até o cotovelo revelava um hematoma no formato perfeito de uma mão, ao notar seu olhar, voltou a descer o tecido e esconder a marca.
-Você vai mesmo embora?
-Não vou embora, vou me mudar, suponho que já sou grande o suficiente para ter meu espaço
-Entendo, vou ficar sozinha
           Não iria ficar para ouvir os lamentos, Zeke se retirou para o quarto, deitando na cama que um dia foi de seu pai, cruzando os braços atrás da cabeça e encarando o teto enquanto acendia um cigarro.

 

844

 

           Pela primeira vez, Zeke, filho único, criado por avós apos mandar os próprios pais para o Paraíso, se ver injetado no sistema falsamente privilegiado de Marley, obrigado a comer vivo a única pessoa que o fez se sentir querido e satisfeito, pela primeira vez ele sentiu vontade de fazer algo por alguém. E mesmo que Pieck não soubesse, ele sempre estaria lá.
-Temos enfim nossos guerreiros
           O oficial estendeu diante dele as fichas dos cinco candidatos restantes, cada uma com uma foto presa por clipe, a de Pieck foi a primeira que lhe chamou atenção, precisou conter o sorriso, descabelada como sempre.
-Resta apenas distribuir os titãs
           Zeke estava na sala quando, após eliminarem o pobre Porco, as cinco crianças foram comunicadas que haviam enfim finalizado o árduo treinamento. Viu como os olhinhos dela brilharam de alegria, embora tenha, igual a todos, se contido para não pular de felicidade em ver seu esforço sendo recompensando. Para ele era triste, vê-la sacrificando sua vida pelas ambições de uma nação que os tratam como demônios, mas mesmo assim foi o primeiro a lhe parabenizar assim que consegui um tempo a sós com ela.
-Como se sente?
-Cansada-sua sinceridade infantil era tão encantadora-Foi muito tempo de treinamento, eu quero só dormir e relaxar até o dia da posse
-Tem alguma preferencia? Ainda não sabemos quem vai receber qual titã
-Nenhuma, não me importo qual vai ser, mas tenho uma ideia, talvez o Colossal ou o Quadrupede, não tenho perfil de batalha para nenhum dos outros
           Seu rosto estava sujo do sorvete que ele havia lhe comprado em Marley, sabia quais lojas aceitavam vender para eldianos, e ele precisou ser rápido para as casquinhas não derretessem enquanto voltavam para o quartel, suas mãos estavam grudentas de sorvete derretido, mas Pieck adorou a delícia gelada, mesmo não muito firme em cima da casquinha.
-Acho que agora podemos ser mais honestos um com o outro-a menina o encarou curiosa com tais palavras-Por que você quis se tornar guerreira?
           Um longo suspiro gelado saiu de seus lábios, realmente, nunca haviam falado sobre isso, talvez já fosse a hora.
-Como você sabe, meu pai tem sérios problemas de saúde, como guerreira eu posso dar uma boa vida para ele, além de um atendimento medico melhor. Suponho que entende o que quero dizer
           Sabia que recentemente Zeke havia internado seu avô em um asilo, se não fosse seu estatuto o homem provavelmente não teria a assistência necessária.
-Ele vai poder ficar em casa, e mesmo após eu morrer ainda vai ter os privilégios
-Mas e quando você morrer, quem ira cuidar dele?
-Essa é a segunda parte do meu plano-seu rostinho estava repleto de intriga-Vou arrumar uma esposa para ele
-O que?-dar uma de cupido não parecia algo que Pieck faria
-Quando eu morrer ele ainda vai viver por vários anos-esperava que sim-Tem uma senhora, viuvá, que parece interessada nele, e eu sempre falo que ele pergunta por ela
-Isso é verdade?
-Não, mas ela não precisa saber
-Pieck, não pensei que fosse capaz desses esquemas ardilosos-sua risada incrédula mostrava o quanto estava surpreso
-De que adianta eu me tornar guerreira para poder tratar a saúde do meu pai, se depois que eu morrer ninguém vai estar lá para cuidar dele?-encolheu os ombros
-Você está totalmente certa

           Zeke jamais interferiu na trajetória de Pieck e a garota tinha muita ciência disso, raramente falavam a respeito de seus futuros como guerreiros, já que juntos eram um dos poucos momentos em que poderiam fugir disso.
           Estava presente quando aquelas crianças, uma a uma, foram entrando na sala de posse, uma última vez viu os rostos dos guerreiros que brevemente o acompanharam, alguns sorriam com a sensação de dever cumprido, outros estavam cabisbaixos. Zeke estava em um mezanino a uma distância segura de onde os cadetes se transformavam, para evitar que seus titãs fossem atrás da presa errada. Seu coração apertou quando Pieck surgiu no piso de baixo, olhando de relance até ele antes de pegar a seringa e injetar em seu braço, Zeke desviou o olhar, nem mesmo o grito de dor do antigo portador do Carroça o fez tirar os olhos do ponto aleatório do chão para onde olhava, só retornando ao sentir a fumaça de titã subir até ele, Pieck parecia um pouco desorientada, as vezes acontecia, agora ela também era uma portadora, igual a ele, os grãos de areia de uma ampulheta invisível começaram a cair, treze anos, era o que lhe restava agora.
           Por fim foi a vez de Eliza, a sala foi limpa, e ela subiu no pedestal, sendo presa pelas correntes, a todo momento o rosto estava escondido na cortina chocolate de seus cabelos longos, logo veio Reiner, acanhado, não escondendo o nervosismo, ele foi o mais devagar de todos, não parecia ter a mesma frieza dos demais, a sala estava dolorosamente silenciosa até vir o primeiro soluço, que se tornou maior pelo eco que aquelas paredes lisas proporcionavam, então uma lagrima pendurou em seu queixo antes de cair no chão. Reiner hesitou, a ponta da seringa já havia furado sua pele, mas ele a afastou, encarando a mulher que chorava diante dele.
-Algum problema, Braun?-Magath franziu a testa
           Reiner não respondeu, logo veio outro soluço e o último antes dela quebrar, em um som rouco de quem nunca chora, envergonhada foi escondendo ainda mais o rosto nos cabelos, era possível ver como seus braços acorrentados tremiam, desejando ter como secar as lágrimas e limpar o rastro salgado de vergonha que marcava suas bochechas.
-Braun!-Magath gritou, fazendo o menino pular
           Outra vez ele tentou furar a si com a seringa, mas o choro ficou mais alto, e agora quem também tremia era ele, não conseguindo manter a seringa estável na mão.
-Anda moleque!-ouviram a voz embargada vindo do alto-O que está esperando? Termina logo com isso!
           Reiner pingava de suor, iria para sua terceira tentativa, mas as mãos suadas deixaram a seringa cair. Agora uma gargalhada ecoava, atingindo Reiner como agulhas.
-Serio que logo eu fiquei com o covarde?
           Eliza não sabia se ria ou chorava, ficou em um meio-termo assustador que beirava a loucura.
-Eu falei Magath, depois que eu for, ninguém mais sera digno do Blindado!
-Merda-Magath rangeu os dentes-Ainda temos o Galliard mais novo, certo?
           A frase chegou a Reiner, que de repente se viu falhando novamente, ele não poderia ter chegado ali e fracassar por um simples surto de consciência. Como explicaria a sua mãe? Estava bem ali, diante dele, só precisava tomar o soro, o titã puro faria todo o trabalho sujo, quando retornasse a si estaria acabado. De uma vez enfiou a ponta afiada da seringa na pele, e ignorando a dor ao sentir o líquido entrar tão rápido no corpo, Reiner pressionou êmbolo de uma única vez.
           Zeke viu quando o titã puro se aproximou de Eliza, que parou de gargalhar e agora tinha os olhos verdes cheios de medo, no final só sobraram os braços presos nas correntes, o restante foi todo consumido por Reiner. Até que se surpreendeu, achou que ela fosse tentar lutar, se perguntou até porque Magath não colocou uma mordaça nela, ela entendia, mas não concordava, no final era obediente a Marley, independente da sua revolta pela morte.
-Agora é com você Yeager-Magath se virou para ele

 

           Assumindo o papel de líder, Zeke orientou os cinco novos guerreiros, estava lá quando pela primeira vez Pieck usou os poderes do quadrupede, parecendo um gatinho que dá os primeiros passos, dessincronizados e tropeçando uma ou outra vez ate seu cérebro entender que agora tinha quatro membros inferiores ao invés de dois. Também achou engraçado quando ela, uma expectadora, pela primeira vez o viu na foma do Bestial, tão miúda aos seus pés.
           Os seis guerreiros estavam sentados na traseira de um caminhão do exército, partindo para a primeira batalha, ansiosos e imaginando o que encontrariam, Zeke sabia, encontrariam morte, os seus rostinhos não teriam mais aquele ar infantil, não voltariam as mesmas crianças que eram.
           Pieck, assim como os colegas mais novos, nunca esteve em um acampamento militar, era barulhento e cheio de insetos, duvidava que as noites de sono ali fossem ser tranquilas. A comida servida no quartel nunca foi das melhores, mas nada comparado a ração militar, nem mesmo os mantimentos que lhes davam durante os treinos de sobrevivência na floresta a haviam preparado para aquilo.
-Horrivel, né?-Zeke estava ao seu lado a vendo engolir a comida-Acho que a sortuda aqui é você, vai ficar no seu formato de titã e não precisara comer isso
           Ergueu a colher da sopa rala, água com alguns pedaços de legumes.
-Sempre ouvi dizer que todo acampamento tem alguém que vende comida descente, sabe quem é?-olhou entre os outros soldados, que assim como ela, comiam sem muita animação
-Claro que sei
           Observou por baixo da mesa Zeke tirando uma barra de chocolate e passando para a menina, que a guardou dentro do uniforme.
-Faça um bom trabalho nessa batalha que lhe dou outra
           Após a refeição voltaram para suas tendas, Zeke ficaria mais próximo dos superiores, em um espaço só dele, já os mais novos dividiam duas tendas a alguns metros de distância, Pieck ouviu na tenda ao lado a conversa entre os meninos, imaginando como seria a batalha do dia seguinte, a voz de Marcel repassava com Reiner e Bertholdt como o comandante havia planejado se infiltrar no forte do inimigo, e cada um retrucando em como seria o melhor na luta do dia seguinte.
-Tão barulhentos
           Annie trocava de roupa para dormir, os cabelos loiros caindo pelos ombros enquanto ela dobrava cuidadosamente a farda e a colocava na mesa.
           Sentada em uma das camas, Pieck estava abrindo a barra de chocolate, oferecendo a menina que após pensar um pouco aceitou um pedaço.
-Eles vão levar uma bronca-Pieck ouvia os tons dos meninos ir aumentando, um tentando falar por cima do outro
           Como previsto, a voz zangada de Zeke deve ter ecoado por todo acampamento quando ele entrou na tenda ao lado e mandou os meninos dormirem. Annie correu para sua cama e se deitou, Pieck ainda estava de uniforme, mas assoprou o fogo da lamparida e pulou para a própria cama, levando o lençol até o pescoço para esconder a roupa.
           Quando o silêncio já estava instaurado no vizinho, pode ver um breve feixe do luar atingir o ponto entre sua cama e a de Annie, Zeke espiou para se certificar estarem dormindo, já havia sido muito inconveniente um maleyano ir lhe perturbar porque os guerreiros estavam fazendo bagunça, é o que acontece quando se leva crianças para a guerra, mas por sorte as meninas eram comportadas.
-Temos que acordar cedo amanhã-dificilmente era enganado, sabia que estavam acordadas-Não quero desculpa, ao nascer do sol todos devem estar prontos
-Sim senhor-disseram em uníssono enquanto permaneciam deitadas


           Quanto tempo se passou? Pieck perdeu totalmente a noção de tempo enquanto estava na forma de titã, a batalha se desenvolvia diante de seus olhos, e mesmo na retaguarda chegava até ela o cheiro de pólvora e sangue, já estavam impregnados em suas narinas. Foram semanas naquela forma dormindo mais afastada do acampamento, onde as únicas visitas eram Marcel e Zeke, que quando possível, iam lhe fazer companhia e conversar, mais eles do que ela, sua voz saia tão alta que todos ouviam o que dizia. Ela não matou ninguém naquela missão, por isso ainda parecia crua em relação aos outros quatro, e quando enfim encerraram vitoriosos fazendo uma nação virar cinzas, Zeke a aguardou após tanto tempo, percebendo sentir falta de sua aparência humana quando ela emergiu da fumaça.
-Bom trabalho-se aproximou, ainda estava no chão, de onde o olhava suada do vapor, sabia que ela odiava calor, seria um novo desafio-Venha, o comandante vai oferecer uma refeição descente, depois de dois meses deve estar com fome
           Nada, ela continuo ali no chão, o que o deixou realmente alerta.
-Tudo bem?-se agachou ao seu lado, tentando procurar algo que o respondesse, algum sinal
-Eu...-até mesmo a voz estava rouca-...eu não consigo ficar de pé, minhas pernas parecem petrificadas
           Todos já estavam adiantados, os outros guerreiros indo se juntas aos demais soldados na fonte dos gritos de vitória. A conhecia o suficiente para saber que estava esgotada e faminta, Pieck deu o primeiro engatinhar, deixando suas mãos sujas da terra, sempre dispensando ajuda, querendo ser independente, talvez pudesse arrumar outra maneira de tira-la dali, ou será que sua autonomia era maior que sua exaustão?
-Venha, suba nas minhas costas
           Pieck estava tão cansada e irritada por estar travada naquela posição que aceitou a carona sem questionar, enlaçando os braços em seu pescoço e colocando uma perna de cada lado da cintura do loiro que cheirava a suor e grama, ela soube porque inspirou profundamente seu aroma quando pousou o queixo no ombro. De onde estava não notou o rapaz corar, sorte que todos estavam tão agitados pela vitoria, um sucesso na primeira missão com a nova geração de guerreiros, que não notaram Zeke trazendo a menina nas costas.
-Não esqueci do meu chocolate
           A voz estava tão próxima que fez cocegas nas suas orelhas, Zeke percorreu o solo traiçoeiro e cheio de altos e baixos com cuidado.
-Está lhe esperando
           Apertou ainda mais os braços em volta dele, em resposta, Zeke a arrumou nas costas com um pequeno impulso, Pieck tentava não prestar atenção em como as mãos dele estavam na parte inferior de suas coxas, nunca estiveram tão próximos.
-Não matei ninguém
-Está feliz ou decepcionada?
-Vim preparada e ciente de que iria acontecer, e agora que não aconteceu eu perdi todo o preparo psicológico que reuni
-Que tal se concentrar apenas na recompensa desta batalha, ansiar pela seguinte nunca é bom
-É, acho que tem razão
-As vezes eu também estou certo, Pieck-chan