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My Girl

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841

 

           Seu pai nunca a incentivou a entrar para o Programa de Guerreiros, diferente de seus colegas, o homem não tinha tal ambição para a filha "Vá para a escola, estude, tenha uma vida tranquila e um trabalho honesto", foi o que ele disse quando ela surgiu com a ideia naquela tarde depois do oficial de Marley apresentar diante dos alunos da precária escola na zona de internamento a oportunidade de terem fama, prestigio, dinheiro e acima de tudo, se tornarem marleyanos honorários. Porém, tal perspectiva não sairia de sua cabeça mesmo que as ruas dentro daqueles muros não estivessem repletas de cartazes, não somente ela, mas seus parentes teriam o mesmo beneficio, foi isso que fez Pieck desejar se candidatar.
           Muito nova percebeu precisar ajudar seu pai, o homem que com o passar do tempo desenvolvia problemas de saúde e não muito futuramente ficaria impedido de cuidar da filha se permanecesse levando o corpo ao limite, Pieck viu isso acontecer com sua mãe, estava na beira da cama quando a mulher deu o suspiro final, e logo ocorreria o mesmo com seu pai se não pudesse impedir. Eram apenas os dois, a família foi trazida para Marley de um campo de eldianos no estrangeiro, os demais parentes ficaram para trás, Pieck estava enrolada em uma manta cor-de-rosa quando cruzou pela primeira vez o portão da zona de internamento e de início tudo parecia promissor, e foi nos primeiros anos. Se ao menos tivesse alguém para cuidar de seu pai, ajuda-lo a criar a filha, talvez o homem não se forçasse tanto.
           Quando ele assinou a autorização para a filha, e a acompanhou para a primeira etapa rezava para ela ser logo eliminada, o que não aconteceu. Pieck nunca o deixou ciente do verdadeiro objetivo por trás, mesmo após sua morte, o pai teria assistência do governo de Marley e não perderia os benefícios, era o melhor que uma criança conseguiria, eldianos não tinham muita expectativa de futuro, não era possível enriquecer, mesmo profissões prestigiadas se viam subjugadas e se tornar guerreiro era a única forma viável de ter conforto. Via com seus próprios olhos como os atuais guerreiros eram tratados pelo povo de Marley, exibindo suas braçadeiras carmins, notava que não só eles como seus parentes tinham mais fartura, quando passava alguma mulher com a cesta repleta de alimentos não precisava verificar a cor da braçadeira, era obvio que veria a estrela de nove pontas brilhando no céu de sangue.
           Ciente de suas habilidades e pontos-fracos, Pieck sabia que não iria ter chance em testes de aptidão física, por isso no dia do exame de intelecto ela foi com tudo, estando muito acima de qualquer outro.
           O grupo inicial era composto por dezenas de candidatos, e assim foram sendo eliminados gradualmente, agora não poderia contar somente com seu cérebro, correu o máximo que podia, tirou força de onde não sabia existir, treinou pontaria no tempo livre, até começou a ler sobre o patriotismo para enfiar na cabeça dos demais que fazia isso por Marley e somente por Marley.
           A primeira vez que viu Zeke foi quando o grupo tinha pouco mais de vinte, ele se apresentou a todos e disse ser o futuro portador do Titã Bestial, ela não ficou imune a admiração, o mesmo com os demais colegas, e conforme o grupo ficava menor ele se aproximava mais, talvez para não ter muito contato com aqueles que no final não serviriam para nada.


           A primeira conversa veio dias depois, uma das vantagens de ser recruta era o acesso (limitado) a biblioteca do quartel de treinamento, a bibliotecária foi muito enfática no que ela poderia e o que não poderia ler, a seguindo pelos corredores e resmungando quando a menina parava diante de um livro que ela definitivamente não tinha autorização. Nunca a deixavam levar o livro, por isso todo dia lia um pouco antes de ir para casa, sentando em frente a uma janela, a vista da recepção, como a maioria dos livros que conseguia sendo curtos, às vezes lia todo o conteúdo de uma vez, às vezes a leitura era tão hipnotizante que só saia de lá na hora de fecharem, memorizando o título e numero da pagina para no dia seguinte ir direto naquele.
           Como aquele, que contava a respeito de um ladrão que encontrou uma lampada magica e agora um gênio lhe concedia três desejos. Porém, diante de um parágrafo sentiu-se observada, ou melhor, sentia que alguém estava realmente perto.
           Pieck olhou para cima, onde acima de sua cabeça estava um adolescente loiro, lendo com ela a aventura daquele ladrão honesto e sortudo.
-Lembro de ler esse livro aqui quando era mais novo, acredito que foi esse mesmo livro-lhe concedeu um sorriso gentil diante do silêncio-Um dos meus preferidos. Está gostando?
-Sim
           Pensou que ele iria ir embora, mas puxou uma cadeira e se sentou ao seu lado.
-Está biblioteca é muito boa, pena que você é a única que vem aqui
-Meus colegas não parecem ser muito fãs de livros
-Mas creio que você já faz valer por todos-colocou na mesa o livro que trazia consigo-Vem todos os dias
-Eu já li todos os livros que tenho em casa, então...
           Sorriu sem graça, tanto por admitir seu entusiasmo, quanto por ele revelar notar sua presença constante ali.
-Nunca vi o senhor aqui, na verdade
-Só venho escolher o livro-mostrou a capa-dura azul, pelo título deveria ser algo histórico-Vou te contar uma coisa
           Quase que instintivamente se afastou quando ele foi se aproximando, mas não o fez, não queria parecer indelicada.
-Quando você já tem uma vaga garantida como guerreiro, eles te deixam levar os livros para casa, e liberam qualquer livro, não ficam mais limitando nossas escolhas
-Mesmo?-seus olhinhos negros brilharam, haviam tantos que ela adoraria ler
           Zeke abriu a boca para dizer algo, mas foram interrompidos pela bibliotecária que apareceu ao lado da mesa, como sempre mal-humorada e os olhando com nojo, Zeke nutria um desprezo por ela tão grande quanto ela tinha por ele, mas precisava ser educado, então sorriu falsamente a sua presença.
-Boa tarde Eugenia, cortou o cabelo?
-Estamos fechando-ignorou Zeke, já o aturava havia muito tempo para saber quando ele era sarcástico
-Já?-Pieck olhou para o relógio pendurado na parede, ainda faltavam algumas horas
-Sim, estou fechando e não posso deixar vocês aqui-puxou o livro diante de Pieck, fechando-o pesadamente-E você, vai levar o quê?-perguntou à Zeke
-Posso pegar minha mochila?-a pequena garota perguntou
           A rabugenta bufou, e deixando Zeke sentado sem aguardar uma resposta para a pergunta, foi até o balcão, tirando de lá a mochila surrada da menina, não a deixavam juntasla lá dentro por medo dela esconder algum livro.
-Foi um prazer senhor Zeke-se levantou e fez uma breve despedida
-Igualmente...-notou como ele ficou sem graça-Desculpe, eu sou horrível em nomes
-Pieck, Pieck Finger
-Pieck-gostou de como soava-Pode me chamar só de Zeke, ainda sou muito novo para o "senhor"
           Respondeu com um sorriso antes de ir embora, pegando sua mochila e seguindo os corredores até a saída, ouvindo seus passos ecoarem solitariamente pelos corredores bem iluminados, descia as escadas para o térreo quando ouviu passos apressados vindo em sua direção.
-Pieck!
           Gelou entre um degrau e outro, nunca era bom alguém gritar seu nome naquele lugar, rebobinou qualquer coisa que tenha feito que pudesse ocasionar em uma punição, mas às vezes eles não precisavam de motivo. Olhou para trás cheia de receio, mas quem vinha era Zeke, carregando uma bolsa carteiro pendurada no ombro, com seus cabelos esvoaçando conforme ele pulava dois degraus de cada vez.
-Aqui-revirou a bolsa até achar o livro purpura, entregando para a menina que não entendia o porque dele estar ali-Por favor, cuide dele, tem que devolver no final da semana
           A menina não se mexeu, apenas ficou encarando a capa onde o título brilhava em letras douradas.
-Ei, não se preocupe-aproximou o livro mais ainda-Eu posso pegar os livros que quiser, e não tem nada que me impeça de deixar outra pessoa ler
           Pensou mais um pouco antes de pegar o livro, nunca foi uma pessoa muito expressiva, mas a linha de um sorriso trançou seus lábios.
-Obrigada
           O guardou na mochila, entre seus cadernos e roupa extra que levava.
-Está indo para zona de internamento?
           Afirmou com a cabeça.
-Sozinha? Não deveria fazer isso, é perigoso
           Os outros candidatos sempre faziam questão de irem em grupo, atravessar Libério já era muito incomodo, sem eles se tornava uma prova de fogo, mas ela não conseguia resistir a biblioteca, pior era quando precisava fazer isso a noite, marchando em passos largos, o mais rápido que suas perninhas curtas conseguiam.
-Vamos
           Seguiram lado a lado pelas ruas, era preciso certa prudencia, mas Pieck nunca se sentiu tão segura naquelas ruas como naquele dia, e com Zeke pela primeira vez não precisou ter medo, ele transmitia proteção, como um irmão mais velho muito legal que uma criança intimidada usa para se defender dos valentões.
-Sei que é grosseiro perguntar isso a uma senhorita, mas quantos anos você tem?
-Sete
-Ah sim, então tem a mesma idade dos demais, sempre pensei que fosse mais jovem, porem parece mais madura que todos juntos
-Acho que sim-corou levemente pelo elogio
-Quero dizer, você então deve ter total ciência do que ser um guerreiro significa, e o que acontece quando portamos um titã
-Tenho sim
           As frases de ambos eram ambíguas, e isso ficaria no ar para sempre, porque nenhum deles, hoje ou daqui a vários anos, iria se atrever a despir o real significado de suas palavras.
-Que bom encontrar uma jovem que sabe o privilégio que é poder se tornar guerreiro
           Havia acabado de lhe conhecer, mas Pieck sentiu que ele não era totalmente sincero, não havia nada que denunciasse isso, suas palavras pareciam verdadeiras, ou era somente um rapaz que dês de cedo precisou aprender a ser muito convincente em suas mentiras.
-É uma honra-a garota respondeu enquanto soprava um fio de cabelo que prendia em seus cílios
           Ficaram em silêncio até o final do percurso, Zeke sempre julgou que a idade que o governo escolhia para recrutar candidatos a guerreiros era muito prematura, crianças de sete anos não sabem o que isso significa, e em sua maioria eram ilusos pelos pais e forçados por eles para terem sucesso e vencerem a corrida a caminho da vitória, assim como aconteceu com ele, jovem demais para pensar em outra alternativa fora a que seus pais escolheram, ingenuo demais para perceber que ele poderia ter um destino diferente. Pieck realmente parecia saber, o que o fez se perguntar, o que levou aquela menina a querer morrer cedo e lutar uma guerra que não era dela.

 

           No dia seguinte se viu incontinentemente a procura de Zeke enquanto treinava, estava curiosa, precisava admitir, ele sempre pareceu um rapaz legal, mesmo assim sua gentileza a havia surpreendido.
-Está meio avoada hoje-Porco fez questão de salientar
           Treinamento de combate era o que Pieck menos gostava, não importava o quanto tentasse, nunca vencia, porque era todos no mínimo meio palmo mais altos que ela, sempre acabava no chão e estar suja de terra com os joelhos e cotovelos ralados em um dia de sol escaldante nunca a deixava de bom humor.
-Posso ir ao banheiro?-ergueu o braço enquanto ainda estava caída após ser derrubada por Annie
           O homem serio e parrudo que os instruía no treino apenas acenou com a mão, a menina realmente precisava se refrescar, nunca gostou de calor, o verão a deixava molenga e nem mesmo as sombras das árvores aliviavam o ar abafado que era soprado pelo vendo fraco.
           Se arrastou pelos corredores até o vestiário, tomaria um banho se pudesse, mas precisaria resistir a tentação, por mais que as gotas escassas do chuveiro parecessem tentadoras. Se tivesse entrado no vestiário cinco segundos antes, não teria visto Zeke saindo da porta do lado do vestiário masculino, ele também a viu, e sorriu logo que a notou.
-Oi Pieck-chan-a analisou dos pés a cabeça, pingava de suor e seus joelhos ralados indicava que a haviam colocado para alguma atividade que não foi muito agradável-Dia puxado?
-Luta não é meu treinamento preferido
-Preciso admitir que o meu também não, eu treino no pátio leste, suponho que seria muito desanimador para os candidatos me verem levando uma surra dos meus superiores
           Tentou ver através de suas expressões se ele estava brincando ou não, parecia não condizente com Zeke não ser nada menos que bom em tudo o que fazia. Um pensamento chegou a sua mente, a fazendo arfar levemente.
-Pode esperar um instante? Já volto
           Entrou correndo no vestiário feminino, deixando Zeke parado a aguardando no corredor, sorrindo em como ela parecia fofa ao mostrar um pouco de emoção naquele rostinho cansado. Retornou rapidamente, como o prometido, segurando o livro como um escudo diante do peito, o estendeu em meio a uma reverência.
-Obrigada pelo livro, eu realmente apreciei muito poder ler em casa
-Já terminou?-recebeu o objeto-Devo ter levado dois dias inteiros lendo
-É que eu não consegui dormir até terminar-corou
-Você lê muito para alguém da sua idade
-Não é como se tivesse muita coisa legal para fazer fora daqui
-Então-lhe direcionou um sorriso jovial-Quais seriam seus três desejos?
-Meus desejos?
           A pergunta a pegou desprevenida, pensou que fosse apenas algo para ser deixado no ar, mas o loiro a ficou encarando aguardando uma resposta. "Desejo que meu pai seja saudável", "Desejo viver para ler todos os livros que eu quero", "Desejo...", não, não tinha mais nada, só queria duas coisas, nem usaria todos os pedidos, coisas simples, não estava pedindo muito.
-Não sei, não pensei nisso-mentiu-Quais eram seus desejos?
           Por um segundo o rosto de Zeke perdeu o brilho, como se lembrasse de algo muito ruim, ou assim como ela percebesse que o que queria não iria se realizar. Na mesma rapidez ele se recompôs, voltando a sorrir.
-Desejo que a Pieck-chan seja uma guerreira forte por suas próprias habilidades-afagou sua cabeça, não era possível bagunçar seus cabelos mais do que já estavam-Agora preciso ir e você também, e se alguém te derrubar não deixe de se levantar o mais rápido que conseguir
-Sim, tchau sen...Zeke
-Tchau, Pieck-chan

 

           Mudar um habito era difícil, principalmente quando estava se sentindo muito realizada por burlar o esquema securitário da bibliotecária grosseira que logo que a viu ergueu a grossa sobrancelha grisalha.
-Aqui novamente?
           Pieck franziu a testa, sem entender o que ela queria dizer, ia la diariamente, então acreditou que suas visitas já eram esperadas.
-Li rápido demais
           Se virou rapidamente, dando um pulo pela voz inesperada que surgiu atrás de si, Zeke conseguia ser sorrateiro quando queria.
-Vai levar mais hoje?
-Claro que sim-sua resposta foi feita olhando para a menina a sua frente, que logo entendeu o que ele queria dizer
           Andava pelos corredores com a bibliotecária em seu encalço, propositalmente tocando a capa dos livos nas estantes que sabia que não poderia ler, recebendo uma bronca, mas não se importando, logo atrás, Zeke recolhia aqueles que ela tocou, e para disfarçar, enquanto Pieck se sentou no lugar de sempre com um livro qualquer, Zeke largou no balcão a pilha de livros.
-Pra que tantos?
-Sou um leitor fervoroso, Eugenia
           Precisou contar uma risada ao ouvir a resposta que ele deu, mas Pieck estava de costas, passando os olhos pelas linhas sem ler. Ao sair da biblioteca algum tempo depois, bem menos do que costumava ficar, foi até o pátio leste, onde estava certa de encontra-lo, fumando, com sua bolsa ao lado que parecia bem pesada.
-Obrigada mais uma vez-se sentou ao seu lado, guardando os livros na própria mochila quando ele os entregou
-Quando quiser-se levantou e jogou o cigarro no chão, o apagando com a sola da bota-Vamos?
           Sua mochila estava tão pesada que ao colocar nas costas quase caiu para trás, recusando a oferta de Zeke para carrega-la até o gueto, voltaram juntos para a zona de internamento, e os dias restantes ela voltou com o grupo de cadetes, não precisava mais ir à biblioteca, tinha sua própria lista de leitura a aguardando em casa.

 

842

 

           Um ano se passou com os dois realizando seu 'trafico' literário, criando estrategias para despistar a bibliotecária que notou a falta de visitas da garota a biblioteca, sempre surgindo com o loiro que levava uma grande pilha de livros, e após a criança ler quase nada também ia embora. Agora algumas coisas haviam mudado, Pieck estava ditando seus dados para a muito inconformada Eugenia que preenchia uma ficha para colocar em seu arquivo, finalmente a jovem teria seu cartão de biblioteca, já tinha uma garantia quase certa entre os próximos guerreiros, e quem a acompanhava era Zeke, que mantinha os olhos nos pequenos pés calçados com coturnos, se equilibravam na ponta do calçado para olhar por cima do balcão, o queixo apoiado na madeira fria enquanto via seu cartão ser preenchido com os dados do primeiro livro que levaria em seu próprio nome.
-Como se sente?
-Realizada
           Pieck abraçava o livro como se fosse o seu bem mais precioso, Zeke não entendia como uma criança de oito anos poderia estar tão interessada em um romance de quinhentas paginas sobre um marinheiro que persegue um cachalote.
-Guarde na sua mochila depois venha comigo, preciso ter uma conversa com você e os outros
           Depois de uma passada no vestiário, Zeke incumbiu uma preciosa missão a Reiner, o mais animado do grupo de futuros guerreiros, que havia acabado de sair do vestiário vizinho como que um sinal, lugar certo na hora certa.
-Me faça um favor-aquela frase fez o menino dedicar total atenção as seguintes palavras-Chame todos os outros e me encontrem no pátio leste
           Viram quando o loirinho saiu correndo muito animado, tinha certeza que ninguém mais faria tal tarefa com tanto fervor quanto ele. Assim Zeke pôde seguir tranquilo pelos corredores, sem precisar se apressar, esperando chegar com o grupo já reunido a sua espera, mas um ronco que pareceu retumbar por todo o prédio lhe tirou dos pensamentos onde citava um pequeno e inspirador discurso que daria a seus ouvintes. Pieck segurava o abdômen, corando e sabendo ser impossível a manifestação de seu estomago não ser percebida, por mais que desejasse que fosse.
-Está com fome?
           Para alguém que parecia tão diligente, Zeke tendia a gostar de testar pequenos limites, como uma forma de rebeldia tipica de um adolescente de dezessete anos, Pieck não sabia que isso tendia a acontecer quando estava na sua companhia. Entrando com tanta casualidade na cozinha, onde Pieck nunca foi, e saindo de lá com as mãos nos bolsos da bermuda sem parar, andando direto e rapidamente, a menina precisou acelerar o passo, e quando pararam longe o suficiente da cozinha, Zeke tirou duas maçãs dos bolsos, entregando a maior e mais vermelha para Pieck.
-Agora vamos antes que eles se matem
           A maçã era crocante e doce, do tipo que só se encontra do lado de fora da zona de internamento, como haviam duas, pensou que ele iria comer também, mas não o fez.

           A reunião não foi como ele esperou, queria um sentimento de companheirismo, mas isso era difícil quando tinham cinco titãs e seis candidatos, decepcionado, mas não surpreso. Era o esperado quando se coloca crianças para crescerem antes do tempo, mesmo sendo filho onico sabia ter uma regra que os adultos seguiam, se não tem para todos não tem para ninguém, porque é difícil para um menino de oito anos entender que mesmo que estejam ao seu lado, por mais que tenha passado pelos mesmos treinamentos, enquanto os colegas eram recompensados, você iria ficar sobrando.
           Estava tendo um bom dia até aquele momento, não deixaria ser estragado por uma briga de meninos.
-Vamos Pieck-chan
           Seguiu para longe daquilo, se eles têm idade para decidirem morrer, tinham idade para aprender serem civilizados, era por esse tipo de atitude que os maleyanos os tratavam como animais, às vezes acabavam agindo como uns.
-Pobre Reiner-Pieck comentou enquanto subiam os degraus até o segundo andar, não sabia para aonde iam, só seguia Zeke-Ele se esforçou mais que todos
-Se esforço definisse quem tem ou não capacidade de se tornar guerreiro, precisaríamos de muito mais que os nove titãs originais
           Não respondeu, ele não parecia muito contente pelo rumo que acabou tomando sua reunião, por isso Pieck optou por ficar em silêncio e continuar andando, mais um lance de escadas. Nunca foi até o terceiro andar, exatamente igual o segundo, mas parecia diferente, porque um lugar onde não podemos ir é sempre mais interessante que o restante. Zeke abriu uma porta e entrou, a deixando aberta atrás de si, cumprimentou alguém que estava lá dentro, uma voz masculina que chegou até os ouvidos de Pieck que continuou parada no corredor, seu constante convívio com proibições a fez sempre pensar bem antes de interagir com algo novo.
-...está é Pie...-Zeke olhou para trás, acreditando que a menina estava junto, mas voltou até a porta, a encontrando parada como uma estatua-O que foi? Vem
           Esperou-a entrar antes de fechar a porta, a pessoa com quem falava era um homem de óculos, sentado em uma poltrona, vestindo terno e usando pantufas, havia uma cama desarrumada no comodo e o lugar mais parecia um pequeno apartamento.
-Como ia dizendo, está é Pieck, uma das futuras guerreiras
-Pieck, então é você quem tem feito companhia ao Zeke dês de que eu fiquei inútil?-levantou da poltrona, se inclinando em direção a menina-Meu nome é Tom Xavier, sou o atual portador do titã bestial, por enquanto, só estou esperando o garotão ali estar pronto para passar meu posto
-Pieck Finger-deu um sorriso tímido, ele parecia bem velho, ou apenas exausto
-Que fofinha, não se preocupe, eu não mordo, só quando estou no formato de titã
-Ei, velho, sai de perto-Zeke o empurrou levemente para longe de Pieck, sabia do seu estado de saúde, era preciso cuidado
-Desculpe, é que faz muito tempo que não vejo um rosto novo, ainda mais um rosto jovem, são sempre as mesmas pessoas que vem me ver
           Havia ouvido falar de um guerreiro que se encontrava residindo no quartel, aparentemente o uso dos poderes de titã havia deteriorado seu corpo mais rapidamente que o esperado, mas era apenas uma lenda urbana que surgiu recentemente entre os cadetes.
-Estava pensando em fazer um chá, se puderem me acompanhar
-Acho que a Pieck precisar ir logo para casa-o loiro disse tentando impedir o homem, que se arrastava para um fogão elétrico e pegou a chaleira, pronto para enche-la
-Na verdade não, adoraria um chá
-Viu Zeke, ela quer chá-desviou das mãos do adolescente, que tentou assumir a tarefa de encher a chaleira-Se quiser ir, pode ir, Pieck me fara companhia
-Como se eu fosse deixar ela aqui com você
           Sabendo onde ficava tudo, Zeke abriu uma prateleira e tirou vários potes com folhas secas de chá. Aquela tarde, Zeke permaneceu em silêncio enquanto o senhor Xavier apontava para um dos livros em sua prateleira e comentava o fabuloso mundo que haviam naquelas paginas, e a menina ouvia tudo com verdadeiro interesse.
-Depois venha aqui com o Zeke para escolher quais você quer, não vou mais precisar deles mesmo
           Zeke nunca mais conseguiu sentir o aroma de chá fresco de mate sem lembrar daquele dia, foi a última vez que apreciou a presença do senhor Xavier, na vez seguinte que se viram foi pouco antes de Zeke injetar em o soro de titã, a imagem de Tom acorrentado em um pedestal era cruel, não havia necessidade disso, mas todo portador de titã morre em um último estado de humilhação, ele não parecia assustado ou triste, ao contrário, estava sorrindo enquanto via diante de seus olhos, Zeke se transformar em titã momentos antes de o devorar.