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Fecharam o negócio na quarta-feira. Ouvi Ricardo contando pra Conceição na cozinha.

- Mas meu filho, de onde você tirou dinheiro pra comprar um trator? - Perguntou Conceição.

- Não preocupa com isso não, tia. O Manuel me contratou pra fazer uns serviços, descontou o pagamento do preço. Vou precisar de um trator para a fazenda, ele quis ajudar.

Já tinha um tempo que ele vinha falando nesse Manuel, que depois descobri que era primo da Tia Daniela, quando o conheci no velório. Eles se conheceram num bar. Passaram-se dois meses entre a primeira e a segunda vez que Ricardo mencionou Manuel. Dissera que ele só ia ao bar quando a esposa estava viajando.

- Mas que romântico! Você não acha romântico, Ducha? - Conceição me perguntara.

- Para mim, parece que ele está tentando esconder que bebe.

Ricardo rira, e minha face havia ficado mais vermelha que um tomate.

Mas Manuel figurava com mais frequência nas histórias de Ricardo esse mês; parecia que tinha perdido o medo de sair quando a mulher estava em casa. Bom para ele, acho eu.


Ricardo apareceu há seis meses, pedindo abrigo para Conceição, dizendo apenas que teve alguns problemas na cidade onde morava antes, e que era só até ele conseguir arranjar outra coisa. Até ele aparecer, nunca havia pensado que Conceição tinha uma família. Ela deixou o sobrinho dormir no seu sofá, claro, e ele pegou o hábito de aparecer na cozinha quando Conceição estava trabalhando. Ficava sentado à mesa, conversando à toa. Tia Pombinha não se importava; se importava com pouco desde que Tio Ed morreu. Comecei a inventar desculpas para ficar na cozinha quando ele estava lá; gostava de ouvir a voz dele.


Na quinta-feira, Ricardo apareceu na cozinha como de costume, mas com uma grande mochila nas costas.

- Vim me despedir, tia.

- Mas já? Não pode ficar pelo menos até o fim de semana, talvez me apresentar pra esse Manuel que te ajudou tanto?

- Não posso, tia, tenho coisas pra resolver na fazenda. - A tal fazenda fora uma herança inesperada, que Ricardo recebera há uma ou duas semanas. Conceição havia me dito que era a única família que Ricardo tinha, então ficamos ambas surpresas com a notícia. - E Manuel vai estar ocupado esse fim de semana. Assunto de família. Mas venha me visitar quando tiver uma folga! Você também está convidada, Ducha!

Fiquei triste de vê-lo partir, mas o convite me consolou.


Na manhã seguinte, Tia Pombinha me acordou e ordenou que vestisse meu vestido preto; iríamos a um velório.

- Mas velório de quem, tia?

- Fernanda, era esposa do primo de sua tia Daniela. Nunca cheguei a conhecer, mas Daniela sempre falou tão bem dela…

Foi neste dia que encontrei Manuel pela primeira vez. Não o vi chorar uma lágrima pela esposa. Parecia estar em choque, pobre coitado. Uma pena que Ricardo não pôde estar presente para confortar seu amigo. Se tivesse ficado só mais um dia...


Um mês depois, ouvimos de Tia Daniela que seu primo Manuel tinha decidido se mudar para uma fazenda.