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Pickpocket and the Rich Girl

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           Tudo era demais, exagerado, ela não conhecia ninguém, mesmo sendo sua festa, onde desde o início deixou claro que não queria, mas En nunca dispensava a oportunidade de encher seu salão com pessoas elegantes, lhes servir a melhor comida e bebida, e usar roupas ainda mais extravagantes que o normal. A escolha da ocasião era um terno verde-esmeralda e purpura feito exclusivamente para ele, na opinião de Noi ele parecia o vilão Charada dos quadrinhos do Batman.
           Furtivamente se escondia nos cantos do salão, para piorar sua situação havia um considerável número de "pretendentes" em sua festa, que iam de garotos de treze anos até homens na casa dos trinta. Quando baixava a guarda ou se distraia por um momento, surgia um desconhecido que se apresentava e clamava por sua atenção, dispensou diversos convites para dançar e ignorou as taças de bebida que lhe eram oferecidas, saindo andando e deixando a pessoa sem reação. Exposta como um troféu, quem a conquistar se torna intimamente relacionado com o maior grupo mafioso da costa leste, certo que ela e En estavam se entendendo, e concordou a contragosto ao menos conhecer aqueles homens, rapazes e meninos, assim como o primo estava abrindo concessões ela também precisava, porem em nenhum momento concordou em ser simpática ou receptiva
           Noi se perguntou, sem muita pretensão, o que aconteceria com a Família quando En morresse; iria sumir, ser conquistada por algum membro de confiança, usurpada por algum inimigo oportunista ou o homem decidiria como um bom líder escolher alguma candidata para formar um afamilia, no sentido mais literal da palavra, e passar o comanda para um herdeiro direto? Não que Noi se importasse, mas às vezes se espantava ao ver como os negócios de En eram grandes e lucrativos, ele tinha um monopólio, ninguém na região comandava um grupo criminoso daquela magnitude, apenas pequenas gangues miseráveis que viviam de maneira medíocre, tão insignificantes que En nem se dava ao trabalho de reconhecer sua existência, e eles mesmos se mantinham na discrição com medo de En.
           Percebeu que estava divagando, mas voltou a realidade a tempo de fugir quando viu um homem de aparência suspeita vindo em sua direção com um sorriso pretensioso, se escondendo em meio as pilastras de mármore do salão.
-Boa noite
           Deu um pulo ao ouvir a voz com um carregado sotaque do meio-oeste perto demais, como se tivessem sido transportados por uma porta, um homem de bronzeado alaranjado e rosto repuxado de cirurgia plástica sorria para ela enquanto empurrava um jovem que deveria estar na faculdade ainda. Não era cega, até que o rapaz era bonitinho, mas dolorosamente comum, nem por isso deixou de dar uma olhada mais atenta no garoto.
-Meu nome é Hugh Thompson, este é meu filho, este é meu filho, Elijah
           O rapaz deu um leve cumprimento sem entusiasmo.
-Feliz aniversario-tinha o mesmo sotaque carregado do homem mais velho
-Estamos maravilhados com a festa, e é um prazer conhece-la. Até hoje só havíamos ouvido falar de você, viemos da boa e velha Chicago só para matar a curiosidade
           Outro pretendente, Noi bufou e revirou os olhos sem nenhum pudor.
-Queriamos poder ter entregue o presente pessoalmente, mas não acho que ele ficaria confortável em meio a movimentação
           Franziu a testa, que tipo de presente havia recebido? Como que lendo seus pensamentos, o homem completou:
-Elijah foi quem teve a ideia-bateu no ombro do filho com orgulho-Que presente melhor que um belo crejoá? O maravilhoso pássaro de cores vibrantes que ele trouxe direto da América do Sul. Até mesmo me arrisco em dizer que trouxemos o presente mais diferente
-Entendo-Noi colocou uma mão na cintura enquanto apoiou a outra no queixo-Você é traficante de animais
           Viu uma veia saltando de sua testa e seu filho direcionando ao homem um olhar cômico enquanto mordia os lábios para não rir.
-Comercializo animais sim, isso está na minha família muito antes dessas leis ambientais, só estou continuando os negócios. Inclusive conheci seu primo quando ele quis comprar um tigre-de-bengala-se defendeu, como se pudesse ter uma desculpa plausível para o que fazia
-Ah sim-uma divertida lembrança veio a sua mente-O Champignon, En o doou para um santuário depois que ele comeu o braço do jardineiro
           Encerrando a conversa ali, Noi se afastou, ouvindo resmungos do homem conforme ela ia para a outra ponta do salão.
           Verificou sua aparência, dando uma leve chegada na parte de trás do vestido, observando suas costas expostas e se sentindo muito bonita nele.
           Pelo menos ele deixou Noi escolher sua roupa, mas quem a visse não diria que era a aniversariante devido à discrição, optou por um vestido simples, preto, frente única que se estendia até o chão de forma reta, seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo deixando os pequenos brincos de diamantes da Tiffany's brilhando já que eram os únicos acessórios que usava além da pulseira feita da mesma pedra preciosa.
           Sua presença não faria muita falta, a maioria das pessoas nem tinha ciência que era seu aniversário, embora tivesse uma grande pilha de presentes que crescia na biblioteca conforme os convidados chegavam, entre eles um crejoá que ela esperava ter água e comida suficiente até o final da noite. Estava tentada a ir se isolar em seu quarto, mas sabia que Turkey, sob as ordens de En, iria busca-la e a obrigaria a ficar até o final.
           Pegou uma taça de champanhe, o garçom lhe olhou torto, mas não se atreveria a negar, Noi bebericou a bebida, sentindo as bolhas fazerem cocegas na parte interna de suas bochechas. Observava o salão de longe quando sentiu alguém parar ao seu lado, ali estava uma figura que já não via fazia bastante tempo, bem diferente da última vez que o viu, ainda assim o reconheceria em qualquer lugar, já que, independente da aparência, sua presença era totalmente diferente de qualquer outra pessoa.
-Parabens-Shin disse enquanto tomava um gole de vinho, parecendo tão entediado quanto ela
-Obrigada-sentiu as bochechas queimarem, colocando a culpa na bebida-Você está diferente
           Noi o olhou dos pés a cabeça, ele havia crescido bastante, não somente em altura, seu corpo estava mais largo, parecia impossível ele ter mudado tanto, mas aquele definitivamente era Shin, o rato de rua que roubou sua mochila, agora usando terno, óculos e estranhas tatuagens de costura nas mãos que eram estranhamente atraentes, Noi sentiu um formigamento ignoto no ventre, uma reação que nunca viu antes em seu corpo, e sua falta de conhecimento e inocência a fez acreditar que era por estar bebendo champanhe de estomago vazio.
-Já você não mudou muito
           Queria dar uma resposta afiada, mas ainda estava admirando seu novo visual, agora parecia mais como um capanga de En, porém estranhamente isso não a incomodava.
-Soube que seu período em Zagan foi um sucesso
-Sim, mas um distrito totalmente controlado por En
-Vi na televisão noticias sobre membros de gangues que eram mortos a marteladas
           O loiro apenas deu de ombros com um leve sorriso envergonhado, tomando suas palavras como elogio, ele realmente havia feito um trabalho tão bom que En imediatamente lhe premiou com seu próprio apartamento na mansão, sim, uma pequena quitinete no segundo andar, mas melhor que viver em uma casa compartilhada com outros cinco criminosos onde seu colega de quarto roncava como uma motosserra.
           Havia voltado no dia anterior, e estava ansioso para reencontrar Noi, não aguentava mais apenas trocar mensagens e contrariando sua própria personalidade, quis lhe fazer uma surpresa e ver a reação da garota com seu retorno. Mas as coisas andavam um pouco agitadas, ficou surpreso ao descobrir através de cochichos dos empregados que o vai e vem que acontecia era por conta de sua festa de aniversário, não tinha um presente, mas sabia que ela não ligava para essas coisas, não é como se fosse fácil presentear alguém que tem tudo.
           Ficaram em silêncio, com olhar fixo no salão, mais concentrados apenas na presença do outro. Mesmo sendo uma festa elegante, e ele usando um terno um pouco mais alinhado que o normal, ele ainda calçava seus Air Jordan levemente surrados.
-Está gostando da festa?
-Nem um pouco-tomou o último gole de champanhe, largando a taça dentro de um grande vaso que estava próximo, ouvindo o som de vidro estilhaçado ecoando pela peça
           Shin escondeu o riso em sua própria taça, notando que o salão estava cheio de pessoas de uma faixa etária totalmente diferente dela, era seu aniversário de dezesseis anos, e tocava música italiana, serviam vinho rosé e bruschetta de cogumelo com alcaparras, tinha algo bem errado naquela festa.
           Já a estava observando fazia algum tempo, seu aborrecimento com tudo aquilo era visível, mesmo para quem não a conhecia, aquele era definitivamente o último lugar onde queria estar.
-Quer sair daqui?
-O que?
           Pensou que tinha ouvido errado, e Shin não acreditou em suas próprias palavras, mas de qualquer forma repetiu.
-Quer sair daqui?
           A aniversariante olhou dele para o salão e então de volta para o loiro, deu um sorriso animado enquanto acenava afirmativamente com a cabeça, Shin estava com saudades daquele sorriso.
           Todos estavam ocupados e distraídos demais para notar a dupla saindo do salão, porem os olhos atentos de En viram quando sua prima saiu por uma porta lateral enquanto seguia seu capanga, pelo visto teria que cancelar o bolo.

 

           Com toda a segurança concentrada nas áreas de circulação dos convidados, não foi difícil para eles descerem até a garagem subterrânea e entrarem no carro que Shin havia recebido recentemente para cumprir seus trabalhos, um Dodge Charger 1969 que ele havia ganho como parte da recompensa por seu tão belo serviço. Noi não reclamou quando precisou se esconder no porta-malas, mas prendeu a respiração quando passaram pelos portões da mansão, como se cada pequeno movimento pudesse ser ouvido e ela ser descoberta, pedindo para o coração parar de bater tão alto por estar quebrando sua parte do acordo feito com o primo.
           O porta-malas foi aberto varias quadras depois, e a aniversariante viu iluminado pelos portes de luz o rosto de Shin a saudando e silenciosamente dizendo que havia dado tudo certo. Correu para se sentar ao seu lado no banco do passageiro, saltitando de ansiedade por um dia tão sem expectativa ter se tornado uma promissora aventura.
-Onde vamos?
-Não sei, não é como se eu tivesse uma programação, te sequestrar não estava nos meus planos
           Shin apenas estacionou o carro no centro da cidade, estranhamente perto de onde se conheceram e ao passarem pelo mesmo fliperama onde Noi passou quase um ano antes ela o puxou pelo braço, e fazendo gastar bastante dinheiro com dezenas de fichas e apostando quem fazia mais pontos. Shin tinha uma péssima pontaria, então Noi sempre ganhava nas maquina que exigiam precisão, porem de maneira cômica, Shin bateu o recorde na maquina cujo objetivo era acertar os crocodilos com um martelo.
           No final nem eles mesmos sabiam qual havia sido o resultado, esqueceram de anotar, juntando suas fichas e as trocando por prendas aleatórias no balcão de recompensas, Noi andou pelas ruas da cidade usando seu vestido Givenchy soprando uma língua de sogra enquanto Shin tentava se livrar das algemas chinesas que a adolescente havia colocado nele quando estava distraído.
-Ainda bem que aquela gangue não tinha algemas chinesas-debochou enquanto chutava uma latinha com seu d'Orsay da Miu Miu
-Como tira essa merda?
           Noi parou em frente ao cinema, quase fazendo o homem tropeçar nela, aos dezesseis anos nunca havia ido ao cinema, então nem perguntou, puxou Shin pelo braço, e como estava incapacitado tirou a carteira de seu terno e comprou dois ingressos para a proxima sessão, sem se importar com o filme, por sorte era um de ação, pouca historia, muitas explosões e pancadaria, exatamente como eles gostavam, e enquanto Noi devorava a pipoca, Shin sofria porque seu indicador esquerdo ainda estava preso, conseguiu se livrar antes da metade do filme, mas reclamando porque Noi comeu a pipoca toda, ela o compensou com um doce de alcaçuz.
-Que fome-disse assim que saíram da sala do cinema
-Pensei que tinha se enchido de pipoca-provocou
-Estou em fase de crescimento-deu um soco em seu braço-Vamos, me leve para comer, hoje é meu aniversário, você tem que fazer o que eu mandar
-Sim, ojou-sama
           Foi impossível conter a risada, era tão comum ser chamada assim, mas ouvir dele era cômico, ele era Shin e ela era Noi, e era isso.
           Terminaram a noite em uma pizzaria que prometia ter a melhor pizza de abacaxi da cidade, porem nem Shin e nem Noi estavam dispostos a provar aquele crime culinário, se sentando em um canto do salão e comendo uma pizza cheia de queijo e pepperoni.
-Foi assim que eu arranquei o olho dele com o martelo
           Shin finalizou a história enquanto a aniversariante ouvia tudo fascinada com a boca suja da gordura do queijo derretido.
-Parece tão legal, queria ter visto
-Não queria não-ergueu a sobrancelha em desconfiança
-Queria sim-insistiu-Sua vida é mais interessante que a minha
-Isso é verdade-admitiu-Mas não é como se eu devesse me orgulhar em matar pessoas, mesmo que eu não me incomode
-É um trabalho como qualquer outro
-Pode-se dizer que sim-deu de ombros-E você, como tem ido suas aulas de japonês?
-Estou quase fluente, embora às vezes me confunda com os caracteres-desviou o olhar dele, querendo não encara-lo ao lhe contar a novidade-Mês que vem vou me mudar para Tóquio, fazer os dois últimos anos do colegial lá
-Ah-derrepente a pizza ficou mais difícil de engolir-Pensei que só iria ano que vem
-Sim, mas En não viu motivos para adiar. Tenjin já até viu um apartamento para mim e vai ficar comigo no início até me adaptar. Essa festa de aniversário também foi um pouco festa de despedida
           Para que, com sucesso, Noi pudesse enfim viver uma vida tranquila como desejava, sua mudança era um segredo de conhecimento apenas de En, Tenjin e Turkey, agora também de Shin, mesmo as aulas de japonês de Noi eram sigilosas, o professor ia direto para a biblioteca dar a lição do dia, e saia sem falar com ninguém, se alguém perguntasse ela estava tendo aulas de reforço de química, ninguém poderia saber seu destino.
-Você vai voltar?
-Não
           Tudo seria novo, como se Noi nunca tivesse existido, nasceria uma nova pessoa, em um novo país, com um novo nome, embora adorasse o seu, pôde escolher sua nova identidade.
           Sua mãe havia se casado com um japonês e havia se mudado para o país asiático, mas quando recebesse os amigos, esperava fazer amigos, eles nunca estariam em casa. Repassou a história de sua nova vida tantas vezes para memorizar e não deixar algum fio solto que agora até parecia verdade.
           Estava preparada para isso, deixar tudo e ir embora, mas agora com Shin na sua frente sentia uma angústia no peito, talvez pudesse adiar, pedir mais um ano ou ir somente na faculdade como o plano inicial, mas sentia que se o fizesse iria desistir, e desejou tanto isso que quis ser um pouco egoísta. Mas o que era mais egoísta? Deixar Shin ali sozinho para seguir uma vida onde ele não tinha espaço, ou jogar fora os planos que fizeram para ela pelo simples prazer de ter a companhia do homem a sua frente?
           Mesmo com o clima estranho que ficou durante a refeição, não se lembrava de já ter se divertido tanto em seu aniversário, realmente queria que aquele dia não acabasse, mas sabia que precisava voltar, ou não só acabaria com todas as concessões que havia ganho com En, também colocaria Shin em problemas, agora imaginando se sentiram sua falta. Mais uma vez Noi se escondeu no porta-malas de onde saiu somente dentro da garagem, se despedindo de Shin e voltando para seu quarto onde encontrou uma pilha de presentes, estranhamente, enquanto tomava banho e se preparava para dormir, ninguém apareceu e questionou seu sumiço, como imaginava, sua presença na propria festa de aniversário não era tão importante assim.
           Enrolada na toalha notou pela primeira vez em cima da mesinha ao lado da janela um presente de formato estranho que estava separado dos demais. Embrulhado por uma capa azul-royal com um laço de camurça vermelho no topo, já sabia o que era, então com cuidado abriu a capa, acordando o pássaro que estava preso na gaiola dourada.
-Que tipo de gente dá um pássaro para quem nem conhece?
           Suas penas brilhavam como se tivessem sido cromadas uma a uma, porém, ele parecia tão fatigado, como se estivesse anestesiado, havia sido uma longa viagem até ali.
-É uma merda ficar preso, né?
           Abriu a porta da gaiola, mas a ave não se mexeu, continuando parada, Noi desejou que ele estivesse mais animado de manhã, depois veria o que fazer com ele. Colocou seu pijama e se jogou na cama, encarando a pilha de presentes, só de pensar em abrir todos ficou com preguiça, reconheceu um papel de embrulho da Chanel e uma caixinha azul da Tiffany's amarrada com um laço branco, aquilo brilhando era um chaveiro da Bentley?
           Fechou os olhos cansada, já havia recebido o melhor presente de todos, e nem foram as luvas autografadas por Muhammad Ali que Tenjin lhe deu, foi algo bem mais simples, mas caiu no sono antes que pudesse concluir o pensamento.


           Já no andar de baixo, em um quarto pequeno e ainda vazio, tanto por acabar de se mudar, quanto por não ter muita coisa, Shin se jogou em sua nova cama e atirou os tênis longe. Sabia que estava com saudades de Noi, mas haviam acabado de se separar no corredor depois de passar horas juntos e ainda assim não foi suficiente. Sentia que havia proporcionado a Noi algo melhor que roupas de grife e joias caras, talvez ela não tivesse tudo afinal.
           Tentou ignorar a frase que ecoava pela sua cabeça, mas era impossível, ela logo iria embora, tinham pouco tempo juntos, nunca poderia realmente agradece-la por tudo o que fez por ele, mas ele iria se dedicar em tornar esse ultimo mês dela ali o melhor possível.
           Na manhã seguinte acordou com o barulho vindo do corredor, instintivamente pegou sua arma para verificar o que estava acontecendo, mas era somente os empregados correndo atrás de um pássaro exótico que sem motivo aparente estava solto dentro da mansão, um deles com uma grande rede de caçar borboletas. Shin decidiu ignorar aquilo e voltar a dormir, existem coisas que só acontecem naquele lugar, bem-vindo ao caos.

 


 

           Quase que diariamente, exceto nos dias em que Shin tinha algum trabalho para fazer, Noi se escondia no porta-malas e eles saiam pela cidade, a jovem conheceu mais a cidade nos últimos dias que em todos os anos que morou ali, Shin a levou desde o mercado de pulgas onde revelou sua alma consumista, até ringues clandestinos de luta-livre. Em meio a conversas casuais, a maioria de frente um para o outro devorando alguma coisa, Noi descobriu que o aniversário de Shin se aproximava, claro que como boa amiga, e para poder mostrar sua gratidão por ele tê-la lhe proporcionado o aniversário mais simples e incrível que teve, no nono dia do mês de setembro, uma semana antes de viajar, porem fingindo que não, Noi se encontrou na companhia de Turkey na cozinha.
-Precisa bater o bolo delicadamente, ou a massa fica pesada-disse Turkey enquanto acompanhava sua ojou-sama se aventurando na cozinha
           Noi havia decidido fazer um bolo de aniversário por si mesma, e como sua aia tinha um talento natural para culinária pediu sua ajuda, porém decidida em fazer tudo sozinha, apenas contando com a jovem de cabelos azuis para lhe orientar.
           Curiosos, os empregados criavam desculpas para ir à cozinha e dar uma olhada no que a jovem estava fazendo, estranhando seu súbito interesse em cozinhar e tentando lembrar se um dia ela chegou realmente a ir ao local, até um copo d'água lhe era servido na bandeja.
           Mesmo com Turkey lhe passava instruções precisas e compreensíveis, confeitaria exigia uma delicadeza que Noi não tinha, deixando Turkey aflita ao ver que a senhorita batia a massa como se estivesse em um combate de UFC, espalhando boa parte do conteúdo do bowl pela bancada, fazendo a garota mais velha precisar recalcular o tempo de cozimento do bolo.
           Turkey nunca viu alguém tão entretida na porta do forno, vendo pelo vidro como aquela massa cresceu e se tornou um bolo macio e quentinho. Precisando conter a ansiedade dela de ter que esperar o bolo esfriar antes de desenformar e decorar, escrevendo com glace de maneira descoordenada de quem nunca fez trabalho manual.
-Ficou ótimo!-gritou logo que finalizou o último redemoinho de glacê
-Sim...ficou...interessante
           Sem se importar com o rosto sujo de farinha, ou a massa que havia voado em sua roupa, Noi marchou orgulhosa com a sua criação pela mansão, sem se importar em atrair olhares por onde passava, apenas concentrada em não tropeçar e perder todo o trabalho que teve.
           Com ambas as mãos ocupadas, Noi bateu na porta do quarto de Shin com o pé, sabia que ele estava ali, ela sempre sabia onde ele estava sem precisar perguntar, quase como se pudesse sentir sua presença, da mesma forma o homem sabia exatamente quem estava batendo antes mesmo de abrir a porta, mas não era como se recebesse muitas visitas.
           Queria ter fotografado a expressão de Shin ao encontra-la suja de ingredientes segurando um bolo na porta de seu quarto. O homem não era muito expressivo, por isso cada nova feição que via em seu rosto era uma recompensa que guardava na memória.
-Feliz aniversario
           Ergueu rapidamente o doce, perdendo o equilíbrio por um momento, mas logo voltando a estabilizar o bolo em cima do pedestal que segurava.
           Mesmo antes da morte de seu pai, seu aniversário não era uma data que exigia muito exagero, apenas uma refeição especial e um bolo comprado, nada de mais, o último aniversário passou desapercebido, morando na rua não tinha muita noção de data, por isso quando viu já havia passado e ele nem notou.
           Abriu a boca procurando o que falar, mas nem um "Obrigado" saiu, Noi não se importou, se convidando para entrar em seu quarto pela primeiro vez. Olhou em volta notando que era visível que ele havia se mudado havia pouco tempo, ainda não tinha muita coisa, na sala do apartamento tinha apenas o sofá, a televisão e uma mesinha. Colocou o bolo ali e virou para o loiro, que ainda estava um pouco paralisado ao lado da porta, precisava procurar mais maneiras de deixa-lo surpreso, porque adorou a sensação.
           Se aproximou, vendo que no topo do bolo havia a frase "Feliz Aniversario", escrito em garrancho com glacê azul.
-Noi, não precisava
-Que isso, foi divertido fazer o bolo
           Pela decoração imaginou que era um bolo caseiro, mas ouvir isso vindo dela lhe deu uma sensação agradável.
-Só não trouxe velas-sorriu se desculpando enquanto andava até a cozinha
           Embora o apartamento não fosse grande, apenas o suficiente para ele, tinha algo que outros poucos alojamentos da mansão tinha, uma cozinha que lhe dava independência e conforto de fazer uma refeição sem precisar de ninguém. Noi abriu os armários vendo que havia apenas um talher de cada e dois pratos, um raso e um fundo, Shin obviamente não estava pretendendo receber visitas.
           De qualquer maneira eles se serviram, e fizeram o que mais lhes agrada, aproveitar a companhia um do outro enquanto comem, assistindo um filme de suspense em silêncio, porque eles realmente não precisavam falar nada. Embora o bolo tivesse alguns erros de principiante, estava delicioso, Shin nem comentou que havia encontrado uma casca de ovo no meio da massa e Noi ficou ali até o anoitecer, quando seus olhos já estavam pesados e foi para seu quarto dormir sem nem se importar em ainda estar suja de farinha.

 


 

           Os dias foram passando, e logo Noi estava sentada no chão de seu closet, ajudando Turkey a separar as peças que queria levar para seu novo lar, até que todo seu quarto estava vazio, sem os pôsteres, os livros empacotados, sua penteadeira que nunca foi muito equipada tinha apenas uma escova, as malas estavam preparadas em um canto e mesmo sua casinha de bonecas havia sido embalada com cuidado e seria levada com cautela para chegar intacta ao destino, os empregados notaram que algo diferente estava acontecendo, Noi iria embora, mas não parecia feliz com isso, estavam confusos, sempre foi claro que seu maior desejo era sair dali.
           Sabiam que aquela seria a última oportunidade de saírem juntos, a viagem de Noi estava programada para dali a três dias, e Shin queria fazer algo especial, por isso logo cedo enviou uma mensagem para ela.
"Qual lugar da cidade você sempre quis ir?"
           Demorou um pouco para receber a resposta, haviam tantos lugares, mas escolheu um que pareceu a maneira ideal de se despedir.
"Nunca fui ao parque de diversões"
"Esteja na garagem em uma hora"
           Exatamente como uma jovem que nunca foi a um parque de diversões, Noi o arrastou de um lado para o outro, perdida em qual atração iria a seguir, indo tantas vezes na montanha-russa até Shin pedir para, por favor, irem para outro brinquedo, não aguentava mais.
           Pouco depois Noi arrumou briga com o atendente do tiro ao alvo porque as armas estavam adulteradas.
-Sou uma ótima atiradora, e se não acerto o alvo é porque isso aqui é uma farsa
           Shin precisou puxa-la de lá quando ela ameaçou bater no homem com a espingarda de pressão. A figura do homem de terno andando no carrossel atraiu alguns olhares, deixando-o vermelho de vergonha, mas apreciou os brinquedos que proporcionavam emoções fortes, dês de subir a vários metros de altura e despencar em alta velocidade, até girar sem parar descontroladamente.
           Tantas horas e atrações se passaram até Noi cansar, Shin conseguiu ouvir por cima do barulho dos brinquedos e vozes das pessoas que ali estavam o ronco da barriga dela, tão distraída em se divertir que esqueceu o que mais gostava, comer.
           Agradecendo por ela ter cansado, se sentindo um pouco velho para parque de diversões, ambos atravessaram para um restaurante do outro lado da rua, onde conseguiram uma boa mesa na varanda do andar térreo, a jovem pediu tudo o que tinha direito, sentiria falta da comida dali quando fosse embora.
           Enquanto aguardavam a chegada de seus pedidos, Shin notou a atmosfera do local, somente casais, um clima romântico com música de fundo, deveria ter prestado mais atenção onde iriam comer, notou que ele estava acompanhado de uma adolescente, que parecia ser mais nova do que realmente era, alguém poderia interpretar errado, flagrando algumas pessoas os encarando pelo canto dos olhos.
           Porém logo sua atenção voltou para o assunto que incomodava ambos, não falaram a respeito o dia todo, e não o fariam agora, nenhum dos dois pronto para uma despedida, mesmo que fosse a última oportunidade.
-Você come rápido-ela comentou enquanto dava uma mordia em seu hamburguer
-Muito tempo morando na rua, não é como se eu pudesse sentar tranquilamente e apreciar uma refeição-recostou na cadeira e olhou como o por-do-sol iluminava o parque do outro lado da rua, realmente, o clima era ideal para um casal de namorados
-Mas você não mora mais na rua
           Levou um tempo para compreender seu comentário, então lembrou sobre o que estavam falando.
-Alguns hábitos nunca mudam
           Olhou o relógio, estava na hora de irem, mas o dia havia sido tão bom, e sabia que En estava ciente já a algum tempo das escapadas deles, por isso ignorou o horário e decidiu ainda ficar na mesa conversando, era surpreendente como poderia falar de qualquer coisa, um estava sempre disposto a ouvir o que o outro tinha a dizer. Sentiria falta disso, Shin nunca perguntou se ela poderia fazer uma exceção, manterem contato, porque sabia que ela iria ceder, e não era esse o objetivo dela iniciar uma nova vida.
           Quando Noi terminou sua refeição acompanhou seu silêncio, sentindo o mesmo que ele, apenas apreciar o momento, cada um absorvendo a tranquilidade da presença do outro, uma última vez.
-Noi?
           Dois homens surgiram ao seu lado, de forma tardia os instintos de Shin lhe alertaram somente a tempo de erguer a mesa de madeira onde estavam enquanto o maior deles tirava a mão escondida no sobretudo. Noi não teve tempo de nada, quando viu ela foi pega por Shin e puxava por cima da grade da varanda, o som de tiros atingindo a madeira da mesa fez com que todos ali gritassem e se iniciasse uma correria.
           Os clientes da lanchonete pularam de seus lugares, assim como os pedestres da rua que em desespero não sabiam para aonde ir, Noi não teve tempo de assimilar o que acontecia, Shin sacou a arma e atirou em direção aos homens, sem se importar com os inocentes que estavam por perto. Para um matador ele tinha uma pontaria terrível com a pistola, se identificando muito mais com um combate corpo a corpo, ter que correr enquanto atirava e levava Noi pelo braço não ajudava. Um grito agudo de mulher surgiu de trás deles, talvez tivesse acertado alguém, mas sua prioridade era tirar Noi dali.
           Entrou em uma rua estreita, precisavam voltar para o carro e fugir, mas o veículo estava do lado oposto do parque e eles precisariam dar a volta, não sabia se eram apenas dois ou haviam mais, a qualquer momento alguém poderia surgir na frente deles, não sabiam quem era o inimigo.
           Quando sentiu o pulso de Noi escapar de seus dedos ele rapidamente se virou, imaginando que alguém a havia pegado, mas a jovem se soltou por si mesma, esticando o braço e com força arrancou a arma que ele carregava na outra mão, uma breve luta pela posse da pistola fez Shin ceder sua posse, temendo um tiro acidental.
-Noi, não!-gritou já sabendo o que ela pretendia-Preciso te tirar daqui-tentou pegar a arma de volta, mas ela a escondeu nas costa
-Eles estão atrás de mim-sua voz era firme-Não vou fugir
-Isso não é brincadeira!
-Sei disso, por isso não vou fugir! Dês de quando você foge, Shin?
           Suas palavras lhe atingiram, se ela não estivesse ali ele não teria corrido, teria iniciado um tiroteio ali mesmo, pronto para matar ou morrer, mas não poderia colocar sua vida em perigo.
-Confie em mim, vamos lutar
           A imagem dela veio a sua cabeça, do dia em que o salvou, a colegial segurando uma arma em meio a chuva. Quase se esqueceu que ela e Noi eram a mesma pessoa, sim, ele confiava nela porque sabia que ela conseguia.

           Seguindo o único caminho provável de seus alvos, dois homens, um enorme de sobretudo e um menor vestido todo de branco andavam com cautela. Quando Shin saiu atirando a esmo pela rua deixou um rastro de pânico por onde havia passado, agora precisavam pegar seu alvo antes das autoridades aparecerem.
-Shin, cadê você?
           Ouviram uma voz jovem e feminina vindo de uma rua sem movimento, Noi estava de costas para a dupla, sabia que eles não iriam atirar nela, por isso não se deixou abalar quando viu que ambos tinham as armas em punho, se ela era o alvo precisariam leva-la viva. O bom de sua aparência frágil era que ninguém imaginava do que era capaz, e ao sacar a arma que trazia por baixo da camisa, nenhum dos dois poderia prever que também estava armada, e principalmente, sabia atirar. Com perfeita pontaria, acertou o grande homem com dois tiros no coração, fazendo seu corpo cair duro que tremeu o chão, e em sincronia, como se o trabalho em dupla viesse de vários anos lado a lado e antes mesmo que o homem de branco soubesse o que aconteceu, tão perto que parecia impossível não ter sido notado, Shin lhe acertou precisamente com o martelo no pescoço, quebrando sua espinha, fazendo o sangue subir pela garganta e jorrar por sua boca, ele era muito melhor com o martelo que com armas, não tem como sentir a vibração do osso sendo estilhaçado com uma pistola.
           Ambos olharam um para o outro, surpresos pelo plano improvisado ter dado certo, Noi correu até o loiro e pulava de alegria, como se tivesse ganho um prêmio na barraca de tiro ao alvo, e não matado uma pessoa pela primeira vez.
-Fazemos uma boa dupla-colocou os punhos na cintura, a adrenalina formigando em seu corpo
           Shin conhecia aquela sensação, ele sentiu aquilo ao matar alguém pela primeira vez, satisfação, aproveitamento, era tão errado, e ainda assim tão certo. Queria dizer para sairem dali antes que aquilo se enchesse de policiais, dificilmente não seriam associados ao ocorrido, centenas de testemunhas para provar que eles eram os alvos da dupla e Shin também havia saido atirando pela rua, En iria saber disso, mas daria um jeito de apagar a presença deles dali, aquilo havia virado uma bagunça.
           Deram ele como morto, não é qualquer um que leva dois tiros no coração e ainda tem forças para fazer qualquer coisa que não seja esperar a morte, mas quase como um zumbi, que estava mais próximo a morte que a vida, o grande homem ergueu seu corpo maciço e mirou a arma para Noi, que prestava atenção no pescoço quebrado do outro inimigo e não notou que havia uma Taurus .44 Mag apontada para suas costas. A única coisa que passou pela cabeça de Shin foi protege-la, usando o próprio corpo como escudo, em um abraço protetor a tempo de ser ele quem recebeu os três disparos dados pela arma.
           O homem nunca recebeu um tiro direto, algumas balas de raspão, consequência de ser um lutador que prefere combate corpo a corpo, doía menos que uma facada, porém ele podia sentir os projeteis atravessando sua carne e se alojando em seus músculos, lhe derrubando com o impacto, ele conseguiu se esquivar para não cair em cima da garota que lhe tomou em seus braços ao notar que ele não só havia sido atingido, mas como o fez para protege-la.
-Shin? O que...Por que?
           Sem conseguir conter o sorriso, como se a situação não fosse grave, ele esticou a mão e afastou uma mecha que cobria o rosto de Noi, vendo que seus olhos vermelhos se enchiam de lagrimas.
-Eu disse que ia agradecer por você ter me salvado
           A última coisa que viu antes de fechar os olhos foi o desespero no rosto dela, então algo atingiu seu rosto, sabia que era uma lagrima, imaginou que Noi deveria ficar muito engraçada quando chora, mas não conseguiu abrir os olhos novamente para constatar.

 


 

           Lentamente seus olhos azuis foram se acostumando com a claridade, algumas pessoas falam que ao morrer se vê uma luz, mas Shin sabia que essa luz não era uma lampada fluorescente, tentou decifrar onde estava, não estava morto, sabia disso, mas sentia seu corpo fraco, deveria ter perdido muito sangue, porque além do soro espetado em seu braço direito, no esquerdo um tubo ligava sua veia a uma bolsa de sangue que era balançada por uma maquina. O lugar era surpreendentemente familiar, ao mesmo tempo que seu cérebro constatou onde estava a porta do quarto se abriu rapidamente, o professor Kasukabe entrou com toda sua energia, fumando um cigarro sem se importar com as leis sanitárias e higiene hospitalar.
-Olha só quem acordou! Shin, a quanto tempo-verificou a bolsa de sangue, anotando algo na prancheta que trazia-Você está enorme, o que tem feito? Está maior que eu-colocou a caneta atrás da orelha
-Kasukabe-olhou em volta, procurando alguém que sabia que não estava ali-Parece que eu não morri
-Quase, você perdeu tanto sangue que chegou em estado hipovolêmico, foi muito sangue mesmo para alguém do seu porte fisico
-E como eu cheguei aqui?
           A risada do médico incomodou Shin, não estava no clima para piadas.
-Como um deja vu, Noi apareceu na minha porta com você-deu uma cutucada na bolsa de soro, fazendo o líquido pingar mais rápido-Tadinha, estava cheia de sangue, ainda bem que não era dela
-Mas como ela conseguiu me trazer sozinha?
-Essa é a melhor parte-o homem se sentou na cama, empurrando as pernas de Shin para ter espaço-Ela sequestrou um carro e obrigou o motorista a te trazer até aqui, o pobrezinho ficou todo o caminho com uma arma apontada para cabeça, e como não podíamos deixa-lo simplesmente ir embora o Vaux o trancou em uma sala por precaução
           Suas palavras puxaram da memória alguns flashs, ouvia o choro de Noi, ela gritando para alguém acelerar, a voz desesperada de um homem pedindo para não atirar, buzinas e por fim passos apressados no chão de metal.
-Onde ela está?
-En veio busca-la, devido ao que ocorreu na última vez quase que imediatamente liguei para En e avisei que estavam aqui-se encolheu um pouco envergonhado, mas não queria testar a paciência de En duas vezes-Mas ele só conseguiu leva-la embora depois te terminei sua cirurgia e consegui te estabilizar. Ela bateu o pé que só iria embora depois de saber que você estava bem, ele também levou o motorista, acho que para garantir que ele ficasse de bico fechado
-Quanto tempo faz isso?
-Bom, tem umas doze horas-verificou seu relógio-Já retiramos os projeteis e agora é só descansar
           Entregou o controle da televisão ao loiro pouco antes de sair da sala, ligou o aparelho e logo no noticiário aparecia a matéria sobre o tiroteio que ocorreu no final da tarde do dia anterior, onde quatro pessoas morrerem e cinco ficaram feridas, entre os mortos dois atiradores que de acordo com o noticiário foram abatidos pela polícia durante perseguição, Shin sentiu o dedo de En nessa parte da história. Os outros dois mortos eram civis que ficaram em meio ao fogo cruzado, assim como os feridos atingidos por balas perdidas, o homem não se sentiu nem um pouco preocupado em saber se foi ele o autor de algum disparo que tenha tirado a vida de algum inocente, Noi estava a salvo e era isso o que importava.
           Viu na cabeceira da cama seu celular e ao verificar as mensagens, não tinha nada novo de Noi, pensou em enviar alguma coisa, mas era melhor não, já havia bagunçado demais a vida dela.


           Não pôde deixar de comentar com Vaux que ele ficava bem melhor de cabeça raspada que com aquele moicano laranja, a resposta que teve foi a promessa de que ele iria cuspir na sua comida da proxima vez.
-O que é isso?-espetou o conteúdo duvidoso do prato com o garfo
           Certo, para alguém que precisou procurar comida no lixo quando as coisas ficavam feias, Shin estava sendo muito exigente, mas era algo totalmente oposto do que teve em sua estadia anterior.
-Eu que fiz. Algum problema?
-Nenhum-levou a primeira garfada a boca, estava tão salgado que ele precisou beber metade do copo de água-Só acho que Haru é melhor cozinheira que você, aliás, não a vi ainda
-Então cara, vou te contar uma coisa-olhou para a porta garantindo que o professor não estava vindo-Eles se separaram
-Ah-tentou processar a informação-Eles pareciam tão bem
-Não é nada de mais-balançou a mão desprezando a reação do paciente-Eles fazem isso a cada três ou quatro meses, brigam, ela sai de casa e depois de dois meses reatam
-Entendi
           Na verdade não havia entendido, mas Shin decidiu que tinha problemas maiores que se preocupar com o relacionamento alheio, como, por exemplo, na reação de En, ainda não havia falado com o chefe e nem queria faze-lo tão cedo. Também se perguntava se a viagem de Noi havia sido adiada, mas não tinha motivos para isso, não é como se ele pudesse interferir nos planos dela, só queria que o último momento deles tivesse sido melhor e ao menos ter se despedido.

 

 

           Quando ganhou alta, ainda um pouco incomodado com os pontos que tinha nas costas resultado dos tiros, Shin meio que esperava que En em algum momento fosse aparecer, o chefe estava encostado ao lado do carro blindado, fumando um cigarro e girando o anel de rubi que tinha no dedo mindinho. Shin arrumou o terno que haviam levado para ele, melhor que o outro cheio de sangue e com marcas de perfuração, respirou fundo imaginando se ouviria uma bronca, aviso de demissão ou seria morto ali mesmo, seria mais fácil simplesmente jogar seu corpo do cais e esperar os peixes lhe devorarem.
-En-san
-Shin-o olhou dos pés a cabeça-Parece bem para quem quase morreu
-Me recupero rápido, além disso, Kasukabe é um ótimo médico
-Ele trabalha para mim, claro que é o melhor
           Queria perguntar como estava Noi, se já havia ido embora, se havia se machucado, se estava bem, mas não ousaria, não depois da confusão que causou.
-Me diga Shin. Por que eu tive que subornar as autoridades para encobrir um tiroteio na área de lazer mais movimentada da cidade, depois de minha prima, que nunca deve sair de casa sem segurança adequada, ter sido perseguida por dois homens armados?
           Se virou para encarar o subordinado nos olhos, em um tom de voz baixo e penetrante. Deu um longo suspiro, talvez fosse morto ali mesmo.
-Noi sempre quis sair e se divertir, mas nunca conseguia, mesmo quando passou a ter permissão, não é como se ela pudesse apreciar as coisas com uma equipe de segurança em volta. Só queria dar a ela essa chance
-Sabe, eu sempre tive conhecimento das escapadas de vocês-deixou a fumaça sair pelas narinas enquanto falava-Porém, imaginava que você fosse um pouco mais cuidadoso
-Desculpe, sei que ela poderia ter se machucado gravemente, ter sido sequestrada ou até ter morrido
-Tanto você quanto ela, sempre menosprezaram o zelo que eu tenho por sua segurança, parece que precisou de um tiroteio e quatro mortos para entenderem que eu não estava exagerando-jogou a bituca no cigarro no chão, apagando com a ponta dos sapatos de couro de jacaré-Sinceramente, estou de saco cheio disso
-Como assim?
-Gastei uma fortuna para encobrir a merda que vocês dois fizeram e ainda envolveram um civil que eu vou precisar ameaçar um pouco mais até ter certeza que vai ficar de bico fechado. Não nasci para cuidar de uma adolescente, mas tenho certeza que adolescentes normais não fazem esse tipo de merda. Noi não é mais problema meu
-En, não estou entendendo o que você quer dizer-ergueu a sobrancelha, temendo pelo o que havia acontecido com a garota, mesmo duvidando que En pudesse fazer algo contra a propria prima, suas palavras eram sem sentido
-Resumindo-se afastou do carro, atravessando para o outro lado do veículo e abrindo a porta-Temos um novo membro na Família, ela é problema seu agora
           O vidro de trás do carro se abaixou, Shin sentiu um sentimento estranho quando viu Noi que com um novo corte de cabelo, tendo os fios até a altura dos ombros, usava um terno semelhante ao seu, sorrindo para ele com uma graça que não condizia a alguém que havia matado pela primeira vez recentemente.
-Por favor, cuide de mim, Shin-senpai
           Não tinha palavras, Shin só soube retribuir o sorriso, Noi estava quase com metade do corpo para fora do carro, e sem cerimónia se inclinou mais para frente, querendo se aproximar o máximo possível do homem, sem quebrar o contato visual.
           Do outro lado do carro, En revirou os olhos enquanto embarcava, fechando a porta com força tentando acreditar que não iria se arrepender.