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Pickpocket and the Rich Girl

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           Diariamente era desperta pela voz doce e educada de sua aia, com palavras de incentivo para mais um dia monótono em sua vida. Noi decidiu fingir que continuava dormindo, procurando nas macias cobertas de estampa florida uma forma de ignorar tudo a sua volta, mas assim que ouviu as cortinas do dossel deslizarem pelas barras de madeira viu que sua tentativa de permanecer na cama seria infrutífera.
-Ojou-sama, seu banho está pronto. Por favor, levante antes que a água esfrie
         A jovem criada aguardou alguns minutos por algum sinal de vida vindo do montinho debaixo das cobertas. Conhecendo sua senhorita como apenas ela conhecia, sabia que aquela seria uma longa manhã até conseguir faze-la se arrumar.
—Bom dia Ojou-sama!-disse em plenos pulmões enquanto puxava as cobertas, deixando a jovem desprotegida contra o frio
—Turkey!-rosnou entre os dentes
 Com os cabelos formando um ninho prateado em sua cabeça, Noi se sentou irritada na cama, encarando a figura sorridente a sua frente.
—Seu banho está pronto
           Noi puxou um dos muitos travesseiros de penas que compunham sua cama e escondeu o rosto inchado de sono entre eles. Turkey sentiu uma veia saltar na testa, respirando fundo, dobrou as mangas do uniforme e estalou os dedos, aquela realmente seria uma manhã difícil.

           Encarava o próprio reflexo na penteadeira, acompanhando como os fios brilhavam a cada escovada recebida por sua aia. Havia substituído seu pijama pelo elegante uniforme do colégio feminino que frequentava. O penteado foi finalizado com um laço azul de seda que impedia que seu belo rosto fosse envolto pela cascata prateada.
-En-sama está lhe aguardando para o café-da-manhã
           Bufando, pegou a mochila jeans cheia de tachas jogada na poltrona branca e dourada de seu quarto, e saiu do único lugar no mundo onde se sentia minimamente confortável. Andou sem pressa pelos longos corredores da mansão onde morava, passando por dezenas de quadros de seu primo e peças de arte de gosto duvidoso que valiam milhões. Sentindo o sol entrar pelas gigantes janelas de vidro, pulando apenas nos quadrados pretos do piso que havia acabado de ser encerado. Conforme passava pelos muito empregados que serviam ao primo, Noi era cumprimentada com educadas referências e desejos para um bom dia e boa aula.
           O caminho entre seu quarto e qualquer outro lugar da casa era sempre longo, nunca entendeu o motivo de uma mansão tão grande para apenas duas pessoas, talvez mais, visto que alguns hospedes acabavam por se tornar moradores temporários. Mas o entra e sai de convidados era tão grande que ela nem fazia questão de memorizar seus nomes e rostos. O terceiro andar era exclusivo dela e de En, onde ficavam seus respectivos quartos, se o dela era grande o de En era ridículo, e o primo tinha seus quartos privados para quando queria descansar. O segundo andar era para hospedes, onde dezenas de quartos prontos para receber visitantes estavam sempre impecáveis, havia também areas comuns para socializar e onde ficava a sala de treino, onde Noi recebia suas aulas de luta, dadas por atletas profissionais.
           Noi parou no alto da escadaria dourada que dividia o segundo andar e o térreo, o vitral iluminava os degraus com cores pálidas, ainda assim Noi conseguia ver pelo vidro colorido os fundos da propriedade, onde um enorme jardim simétrico desabrochava em primavera. Jogou a mochila nas costas e se sentou no corrimão, sentindo a temperatura fria do mármore enquanto escorregava.
           O primeiro andar era um local que se assemelhava a cena de um filme, mas claro, decorado pela breguice de En. Havia além do salão de jantar com capacidade para receber 150 pessoas, também um salão de baile anexado que permitia que durante as festas quase semanais que recebiam fosse possível ver as estrelas pelo teto de vidro. Sem contar a grande biblioteca onde o primo passava quase a maior parte do tempo, que ocupava dois andares e tinha tantos livros que parecia impossível que mesmo o leitor mais dedicado pudesse lê-los em uma única vida.
           Quando se aproximou da sala de jantar, a mais simples onde fazia as refeições diárias, as portas se abriram e Noi encontrou sentado na cabeceira da mesa farta seu primo, cujo rosto estava escondido atrás do jornal e era possível ver somente seus cabelos vermelhos por cima da publicação.
           Haviam outros ocupantes na mesa, pessoas que decidiu ignorar conforme passava, indo até seu lugar de costume onde um empregado já tinha puxado a cadeira e outro pegou sua mochila para ela poder se acomodar. Olhou de relance para as outras pessoas na mesa, homens de caráter duvidoso que não deveriam estar ali para resolver assuntos muito decorosos. Por mais que tivesse aquela cara sempre seria, seu primo era uma pessoa incrivelmente hospitaleira, e poderiam dizer o que fosse dele, menos que não era um bom anfitrião.
-Noi-chan, você está enorme!
           A voz conhecida de Chota veio até ela do outro lado da mesa, aquele era um frequentador assídio da mansão, as vezes irritava En ao ponto de ser expulso, mas como era uma pessoa necessária para que os negócios do homem funcionassem, ele sempre voltava.
-Já é uma moça agora. Já está namorando?
           Chota não tinha pudor nenhum, mas a jovem não se abalou pela pergunta feita diante de outras pessoas, encheu a boca de waffles e respondeu despreocupada.
-Não
-Mas já está na idade, tem quantos anos?
-Ela tem quinze

           En abaixou o jornal, de repente os outros ocupantes da mesa ficaram tensos, exceção Noi e Chota, já acostumados demais com o homem para se abalarem.
-Ou seja-olhou seriamente para Chota e então todos os ocupantes da mesa-Não tem idade para essas coisas
           Como a única herdeira de En, Noi era um bom partido, ótimo partido, recebendo propostas de casamento dês dos cinco anos e conforme crescia se tornavam mais frequentes. Dês de moleques ainda nas fraldas até homens maduros, todos de famílias renomadas e fortunas inimagináveis, mimos caríssimos e exóticos eram enviadas a jovem e devolvidos de imediato, por sorte a adolescente não ligava para aquilo, e En ainda achava a prima muito jovem para um compromisso. Futuramente sim, ele admitia, tinha já um livro super seleto com candidatos dignos, mas ela não precisava saber disso.
-Foi por isso que ele me colocou em um colégio feminino-respondeu um pouco para provocar, um pouco para desabafar
           O homem franziu as sobrancelhas para ela e decidiu ignorar seu comentário, voltando a mergulhar o rosto no jornal. Terminou sua refeição e sem se despedir, pegou a mochila que era segurada por um dos empregados que estavam a postos na paredes do cômodo, aguardando por ordens.
           Seu carro a aguardava na entrada, onde somente a ida da porta principal até os portões fosse suficiente para ser necessário uma carona. Como sempre, Noi ia no banco de trás acompanhada de seu segurança, um homem careca que usava sempre óculos escuros, dia e noite. Todo dia naquele mesmo horário, não só Noi saia em seu carro blindado, mas atrás dela outro onde uma equipe de seguranças fazia seu respaldo.
           En não tinha negócios nada legais, então ela era um alvo fácil porque somente o fato de continuar a frequentar o colégio ao invés de ter aulas particulares, como En preferia, já a colocava em risco. Não era como se Noi amasse o colégio, mas anos antes ela pediu que começasse a frequentar um, visto que tinha professores particulares dês de sempre, queria conhecer pessoas da sua idade, e talvez fazer amigos. Hoje a realidade era outra, ela simplesmente não tinha amigos porque as meninas do colégio tinham medo dela, mas era melhor que ficar trancada o dia todo.
           Durante o caminho atravessava a cidade e observava pela janela outras estudantes, de colégios diferentes, fazendo seus trajetos a pé, conversando animadamente umas com as outras e sendo apenas adolescentes, mais tarde veriam-nas em lanchonetes papeando ou em lojas olhando as roupas da estação. Noi queria poder fazer aquilo, ter uma vida mais normal, ir de carro para o colégio para muitos parecia um luxo desejável, mas faria de tudo para um dia andar a pé despreocupadamente pela cidade. Haviam algum tempo que percebeu que, na verdade era um prisioneira, mesmo na mansão nunca estava totalmente livre para ir e vir conforme desejasse. Caso En recebesse convidados para reuniões cheias de tensão, ela era orientada a evitar sair do terceiro andar, e mesmo nos jardins, sempre cheios de seguranças, ela nunca conseguia um momento sozinha.
           O carro parou em frente aos portões de ferro da casa georgiana, onde outras jovens e abastadas adolescentes andavam em grupinhos distintos. Bufou enquanto pulava do carro, com o blazer do uniforme amarrado na cintura, ela foi ignorada pela professora que estava fazendo a checagem dos uniformes. Mesmo o corpo docente temia Noi, todos sabiam com o que seu primo trabalhava e tentavam ignorar isso, ainda que ela achasse divertido o nervosismo deles sempre que aparecia no noticiário algum crime cometido pela máfia. Ficavam fofocando e especulando se havia sido obra de En, a maioria das vezes, quase sempre, sim, e isso deixava Noi um pouco metida.
           Conforme andava pelos corredores, as outras estudantes desviavam dela, na semana anterior havia sido notícia nacional o misterioso caso de uma van abandonada com oito corpos dentro, tendo sinais de tortura e alguns pedaços faltando. De acordo com a polícia, tudo levava a crer que havia sido obra d'Família, a máfia que comandava a cidade, criada por En. Bom, Noi se lembrava de ver aquela van entre dezenas de veículos que ficavam na garagem subterrânea, e também que os capangas mais perigosos de En pareciam se vangloriar de algo, agora o assunto esfriou, talvez um pouco de dinheiro tenha alimentado a fome da polícia que tirou o caso da lista de prioridades.
           Mesmo assim, quando Noi se sentou em seu lugar para assistir a primeira aula do dia, sabia que estavam olhando para ela com mais intensidade que o normal. Suspirou cansada, as vezes seria bom ir para outro lugar, um lugar onde En não fosse conhecido, e ela não vivesse com esse estigma. Adoraria ir para outro pais, talvez Europa, poderia viver uma vida normal de estudante, ter amigos e poder sair e se divertir, mas duvidava que En permitisse, mesmo após se tornar maior de idade, ele faria o possível para mante-la por perto, En tinha um grande sentimento de posse, não só nela, sua única parente viva, mas diante de todos os membros de sua 'família', ou você fica ao seu lado, ou morre, duvidava que ele um dia fizesse algum mal a ela, mas não mediria esforços para tê-la a sua vista.


           O horário do almoço era sempre uma aventura nova, ela era excluída e temida devido a seu status, porem, mesmo os excluídas e as bullys tinham suas próprias panelinhas, se juntando para o intervalo nas mesas redondas do refeitório ou nas outras que ficavam ao ar livre. Normalmente comia do lado de fora, confortável em um banquinho de madeira que ficava perto de uma árvore, mas logo que saiu viu o aviso de tinta seca em todos os bancos verdes e brilhantes.
-Cacete-procurou em volta algum lugar onde pudesse ficar, mas todas as mesas estavam ocupadas
           Como estava se sentindo um pouco maldosa, empinou o nariz até uma mesa onde meia-duzia de outras meninas tagarelavam. O assunto se esvaiu quando ela colocou sua bandeja na mesa, sem perguntar se poderia sentar ali. Elas trocaram olhares que iam de desentendimento à medo, e antes que Noi pudesse perfurar sua caixa de leite com o canudo, todas pegaram suas respectivas bandejas e desocuparam a mesa.
           Sacou seu celular do bolso da camisa e procurou pelos comentários a respeito da luta da noite anterior, por isso também acordou tão indisposta, dormiu tarde acompanhando o combate. Apreciando tanto o frescor da manhã quanto um dos poucos momentos que não era vigiada, aquelas horinhas sem seguranças atrás dela eram deliciosas, não sentia os olhos atentos nas suas costas, alertas ao mínimo sinal de perigo, foi a única exigência que o colégio fez, ou melhor, era mais um pedido, visto que se En o recusasse eles não fariam nada contra. De acordo com o diretor as outras estudantes ficariam desconfortáveis com a presença de seguranças daquele porte no colégio, como se a presença de Noi não fosse desconfortável suficiente.
           Logo que passava o almoço o dia seguia rapidamente, e o sinal da saída tocou para alegria de todos. Noi via logo na calçada o carro parado e o segurança lhe aguardando, iria colocar em prática o plano que tanto pensou havia algum tempo e hoje parecia o dia ideal.
-O que estão fazendo?-seu olhar de desentendido foi tão bem interpretado que até mesmo o do homem a sua frente, que era real, parecia falso
-Ojou-sama?
-Eu disse que iria fazer compras, ou seja, não preciso do carro no momento-cruzou os braços os encarando com irritação
-Não fui informado disso-o homem franziu a sobrancelha, suspeitando da situação
-Vou comprar roupas, não entendeu?
           Virou para ir em direção as ruas principais, como a maioria das outras estudantes costumava fazer após as aulas.
-Ojou-sama, esse é o trabalho de Turkey-se colocou em frente a jovem-Além disso, tenho ordens para leva-la direto para casa
-Se quiser ligue para o En-apontou o celular em direção ao homem, que mesmo com quase dois metros não a intimidava-Falei com ele hoje de manhã, pode ligar
-O senhor En deve estar muito ocupado no momento-qualquer funcionário ficava tenso ao falar pessoalmente com En
-Não me importo, vou ligar pra ele e mostrar que ele deixou-desbloqueou o celular e selecionou um dos poucos contatos que tinha-Nunca consigo sair, e quando ele deixa me impedem
           Assim que colocou o celular na orelha o homem abanou os braços, sua testa suando de nervoso.
-Perdão Ojou-sama, deveria ter me informado melhor. Não devemos incomodar o chefe com essas coisas
           O viu suspirar de alivio quando ela abaixou o celular e encerrou a ligação. Seu plano estava dando certo, nunca que En iria deixa-la andar pela cidade, mas era bom usar o medo que ele impunha nos outros contra o próprio, dava um gostinho mais saboroso a sua trama.
           Reiniciou sua caminhada pela calçava larga, como se aquilo fosse comum, mas por dentro estava muito animada, tanto que durante a maior parte do tempo ignorou os dois homens que a seguiam e o carro preto de vidros escuros que andava em baixa velocidade na rua pouco atrás.
-Podem me dar licença?
           Olhou por cima do ombro, parando de repente e quase os fazendo tropeçar em cima dela.
-Precisamos garantir sua segurança-o careca rebateu, não olhando para ela, mas por cima de sua cabeça, em direção a um grupo de estudantes que vinha
-Dez metros
-Três
-Nove
-Três
           Noi virou totalmente o corpo e colocou os punhos na cintura, a cena da menina baixinha desafiando os dois seguranças chamou a atenção na rua.
-Seis metros
-Quatro
-Seis
-Quatro
-Cinco?-disse a terceira voz
           O outro segurança, mais jovem e um pouco mais baixo que o segundo falou pela primeira vez, Noi nem sabia que ele falava, visto que só costumava se dirigir ao careca.
-Cinco!-disseram os outros dois em uníssono
           Com cinco metros de distância entre ela e os seguranças, parou para comprar sorvete e viu a vitrine de uma loja de roupas um belo vestido de vinil, imaginando se um dia teria um corpo curvilíneo suficiente para poder usar algo do tipo. No quesito desenvolvimento estava bem atrás das jovens da sua idade, ainda aguardando ansiosamente o dia em que seus sutiãs teriam algum tipo de preenchimento.
           Jogou o papel do sorvete em um lixeira quando parou a fim de aguardar o sinal abrir. Quando atravessaram a rua, mais a frente tinha a avenida movimentada que dividia o centro da cidade, como uma lampada, uma ideia ainda mais ousada veio a mente de Noi. Diminuiu o passo, concentrada no timming do sinal, fazendo hora em frente a vitrine de uma loja enquanto aguardava o momento certo.
           Quando chegasse em casa iria ser descoberta de qualquer maneira, provavelmente seria a primeira e única vez que conseguiria andar livremente pela cidade, não tão livremente devido a equipe que a seguia, mas iria dar um jeito nisso.
           O sinal piscava indicando que logo os carros teriam caminho para prosseguir e deveriam aguarda-lo abrir novamente. Cerrou os punhos e preparou os pés para a arrancada que daria, olhou por cima do ombro, com a distancia de cinco metros iria conseguir, diminuiu o passo no inicio, fazendo parecer que pararia junto a multidão que aguardava, mas direcionou toda sua concentração nos membros inferiores, seus treinos não seriam em vão.
           Nem mesmo os reflexos dos seguranças estavam preparados para aquilo. O som das buzinas ecoou quando correu em frente aos carros que apressados não diminuíram a velocidade quando a jovem atravessou de uma ponta a outra.
-Ojou-sama!
           Ao ouvir ser chamada correu mais ainda, desviando das pessoas e tentando perceber se haviam passos apressados atrás de si, não soube o quanto correu, mas só parou quando estava pingando de suor. A primeira coisa que fez logo ao olhar para trás e não ver ninguém, sentiu o celular tocar no bolso quase imediatamente, sua manobra foi tão impulsiva que esqueceu que a achariam facilmente se ficasse com ele, mas não queria ter que joga-lo fora, por isso ao passar em frente a arara de um bazar jogou o aparelho dentro do bolso de um casaco de peles que naquele tempo quente não seria vendido tão cedo.



           Se enfiou por ruas aleatórias, a fim de desviar completamente do caminho para casa, caminhou por vários minutos, parando agora em uma área menos nobre da cidade, onde as lojas tinham grades nas vitrines e diversos moradores de rua a obrigavam a desviar de moradores de rua que traziam nas costas, como capas, grossos cobertores e cada um tinha um recipiente cheio de moedas, alguns latas, outros caixinhas de papelão vazias.
           Obviamente sua figura era atípica, chamando a atenção por onde passava, também sua curiosidade em olhar para todos os lados, tanto para não ser pega, quanto para admirar o novo ambiente indicava que estava bem longe de casa.
           Parou para comer cachorro-quente em uma barraquinha imunda, era o pior cachorro-quente que já havia comido, mas decidiu apreciar toda a experiência. Ignorou um grupinho de delinquentes que estava parado em frente a uma lanchonete e direcionaram a menina convites para se juntar a eles. Prendeu a respiração quando passou em frente a um açougue que tinha em sua vitrine patos pedurados pelo pescoço, e parecia ter mais moscas que os montes de lixo espalhados pela rua.
-Ei, menina, ta perdida?
           Foi chamada por um tipo suspeito, que usava sobretudo, mesmo no dia abafado de primavera. Noi o olhou por um momento, no exato momento que ele abriu a peça e mostrou uma verdadeira loja de drogas ilícitas pendurada na parte de dentro.
-Faço um precinho especial pra você
           Se ele achou que ela fosse se sentir impressionada ou tentada, achou errado, ela era prima de En, não é como se produtos como aquele fossem uma novidade, Noi nunca usou nada do tipo, mas sabia que aquelas drogas haviam sido refinadas no galpão que En tinha nos limites da cidade, distribuídas pelos seus capangas para os fornecedores e depois vendidas para algum traficante onde com certeza aquele tipinho havia conseguido, e agora seu nível de pureza era tão baixo que chegava a ser burrice alguém comprar.
           Trafico de drogas, prostituição, jogos ilegais, trafico de pessoas, de armas, órgãos.. Tudo isso era utilizado pela Família para tomar controle da cidade, agora En estava se modernizando, utilizando meios mais tecnológicos como fraude e crimes virtuais. Noi tentou expulsar a ideia de sua cabeça, de que, eram esses crimes que a vestiam, a alimentavam e lhe davam do bom e do melhor, não era do tipo que tinha consciência pesada, mas era um pouco irônico que ela, com tão boa aparência e vida cheia de conforto tivesse seus caprichos pagos por meios criminosos. Ninguem que a visse ali com seu uniforme de colégio privado, exalando dinheiro fosse a prima do maior criminoso da cidade.
           A rua onde estava agora era quase completamente tomada por lojas de penhores, ficou impressionada com o que as pessoas se desfaziam, imaginando que iria querer comprar a dentadura em exibição na vitrine de uma delas. Mas em sua maioria tinham coisas curiosas, porem o que lhe chamou a atenção foi um belo par de luvas de couro azul-escuro que estavam expostas de forma elegante em uma caixa de veludo vermelha que ressaltava o brilho do material.
           Ficou por alguns segundos admirando o acessório, desejando, por algum motivo desconhecido, aquelas luvas, Noi não era consumista, ao menos não se considerava consumista, mesmo com suas caras aventuras em lojas online, mas queria aquelas luvas, que por coincidência combinavam com seu uniforme.
-Acho que é bom ter uma lembrança desse dia-pensou em voz alta enquanto empurrava a pesada por de metal
           O sininho tilintou quando entrou na loja escura e empoeirada, cheias de itens tão bregas que tinha certeza de que En faria a festa ali. Havia um balcão de vidro envolto por grades cheias de produtos e do lado oposto dois guichês, um com a placa "Compra" e o outro com a placa "Venda". Além dela e dos dois funcionários, apenas outra pessoa estava ali, um jovem de cabelos loiros bagunçados era atendido por um homem que analisava diversos itens jogados no balcão.
-Moça, eu quero aquelas luvas
           Apontou para a vitrine, a velha senhora muito maquiada não pareceu animada em ter que sair de trás do balcão para pegar algo na vitrine, se arrastou com um grande molho de chaves para buscar a caixa, que ela salientou que não acompanhava as luvas.
-Trinta
-O que?! Só trinta pratas?!
           Virou o rosto curiosa para o barulho, o jovem parecia um pouco revoltado para o valor dado por suas bugingangas. Noi espiou em cima do balcão, eram diversas carteiras, um relógio e uma bolsa de palha.
-Esse relógio aqui, é de marca-esfregou um relógio de autenticidade duvidosa no rosto do homem
-Primeiro que o escudo da Ferrari tá espelhado-indicou o cavalo de costas com o dedo gordo-Segundo que a pulseira está arrebentada
           Balançou o fecho do relogio que havia visivelmente sido arrancado do verdadeiro dono.
-E essas carteiras consigo uns trocados em cada uma, a bolsa também, não vendo por mais que cinco dólares
           Noi desviou a atenção deles quando foi apresentada as luvas que viu na vitrine, mesmo com a iluminação precária ainda brilhavam de tão lustrosas, logo que as colocou, o material se adaptou perfeitamente a seus dedos, como se sua mão tivesse sido o molde utilizado na confecção.
-Vou levar-disse animada
           Sem nem tirar as luvas, foi até o guichê para pagar, dentro do cubículo do lado o homem se espremia na cabine enquanto entregava as notas ao rapaz que pareceu ter se contentado com o valor, e agora contava irritado as notas amassadas que havia recebido.
           Tirou a carteira de grife da mochila e pegou uma das diversas notas que carregava, entregando-a a mulher e recebendo o troco, tão feliz com sua nova aquisição que nem notou o olhar astuto que o rapaz fez para o conteúdo de sua carteira.
           Saiu sorridente da loja, torcendo os dedos enquanto sentia o couro lhes apertando de maneira deliciosa, com a mochila pendurada no ombro, não percebeu que o rapaz saiu logo atrás, e de maneira rápida puxou a mochila por seu braço.
-Ei!
           Demorou alguns segundos para perceber o que havia acontecido, e como as pessoas ali não pareciam surpresas por ela ter sido roubada ou que iriam se manifestar diante disso. Noi não iria deixar aquilo barato, e pela segunda vez naquele dia correu com tudo o que tinha.
-Seu pivete! Devolve minha mochila!
           Correndo como só alguém que precisa da velocidade para sobreviver, o loiro tinha uma boa vantagem, mas esta foi perdida quando um carro o atingiu. O impacto foi leve, o motorista havia freado bem a tempo, mas isso deu a Noi a chance de diminuir a distância, passando logo depois em frente ao veículo ainda parado.
-Noi-sama!
           Sem parar, olhou por cima do ombro e viu pela janela abaixada da pick up um homem de aparência família, que pelo olhar de criminoso só poderia ser um dos capangas de En. O ignorou e continuou correndo, ouvindo o cantar dos pneus e o som do motor acelerando chegando cada vez mais próximo. O ladrão entrou em um beco estreito, e assim que Noi cruzou a esquina da pequena passagem entre os dois prédios o carro parou de forma abrupta e dois homens desceram atrás dela.
           Mas era um beco fechado por uma grande grade de metal, cuja única passagem era uma pequena abertura onde o rapaz passou com dificuldade, Noi foi mais bem sucedida, porem os dois homens ficaram presos do outro lado, robustos demais para passar.
-Noi-sama!
           Os chamados continuaram até não conseguir ouvi-los mais, no momento seu maior problema era que havia perdido o ladrão de vista, não sabia para onde ele havia ido e agora só corria sem rumo.