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4 Patas

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Dirigindo furiosamente debaixo de uma chuva forte, Stiles não conseguiu manejar seu carro bem o suficiente para salvar o enorme animal que surgiu no meio da estrada. Arregalou os olhos, correndo para ver o que tinha atropelado.

Estava desacordado, porém, vivo. Com a consciência pesando mais que tudo, o levou para o veterinário mais próximo que encontrou.

Obviamente pagou por todas as despesas, mas quem disse que isso evitou os olhares incriminadores que a equipe de plantão dava sempre que passava por ele? Isso contribuiu e muito para o sentimento de ser o mais vil dentre os vis do mundo.

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Com certo trabalho Stiles arrastou todos os apetrechos comprados num petshop para cuidar do cão em sua casa. Com uma das patas quebradas pelo seu descuido, Stiles não pôde fazer outra coisa além de implorar pra cuidar dele no período de recuperação.

Quanto a culpa... Pelo menos agora sabia que o cachorro não o odiava. Nem rosnou em momento algum.

Despejou um bocado de ração num potinho rosa e botou perto do animal. O cão apenas cheirou e bufou, se afastando.

Bem, Stiles não o culparia. A ração parecia pequenos pedaços de greda ressequida.

Ou talvez fosse pelo pote rosa.

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Sofrer um acidente certamente não era um exemplo de serendipidade, mas Stiles tinha quase certeza que o cachorro não tinha se dado conta disso. O animal andava tranquilo, apesar de mancar por causa da tala numa das patas traseiras, e se habituara a casa em pouquíssimo tempo. Também já tinha escolhido seus lugares preferidos, onde tirava cochilos ocasionais.

Contudo, o mais surpreendente, era quando Stiles pegava o analgésico para que ele conseguisse dormir sem dor, disfarçada dentro dum petisco, e o encontrava em sono profundo, como se nem sentisse incômodo.

Mas porque ele dormia justamente no meio da sua cama?

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Da televisão ecoava vozes do filme da Mulher Maravilha que passava. Stiles, no entanto, nem prestava atenção nisso. Com o cachorro muito bem acomodado ao seu lado no sofá, ria com o nariz gelado dele encostando em seu pescoço. Não sabia o porquê dele lhe cheirar tanto, mas não conseguia achar ruim também.

De súbito lembrou-se de algo: Ele precisava de um nome!

Encarava o imenso cão negro quando uma ideia lhe ocorreu, super consentânea com a imagem dele, na sua opinião.

“Seu nome agora é Batman! Perfeito, não?”

Curiosamente teve a ligeira impressão do cão ter rolado os olhos.

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Stiles apertou a ponte do nariz e ajeitou os óculos no rosto, voltando a concentração para tela do notebook. Como tinha pedido para ficar em casa por duas semanas, acabaram o responsabilizando pela revisão de um dos livros mais difíceis da editora. Era cheio de palavras estranhas e acontecimentos acelerados que combinavam bem com a idiossincrasia do autor.

O som de metal caindo cortou sua concentração e logo Stiles se viu correndo para ver o que Batman tinha feito. O encontrou sentado inocentemente do lado da pia, quase angelical.

“O que foi que você fez?”

Bom. O cachorro não respondeu.

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Mesmo sendo um papai de primeira viagem, afinal quando mais jovem fora impedido de ter qualquer bichinho já que sua mãe era muito alérgica, estava conspícuo em todo seu ser o contentamento daquela oportunidade.

Já tinha até se acostumado a dividir a cama com Batman, por isso não impediu o sorriso ao mirar sonolento as belas costas largas dele antes de virar para o lado oposto e cochilar um pouco mais antes de acordar definitivamente.

“Peraí!”, sentou rápido, agora completamente desperto, apenas para mirar o cachorro dormindo normal como sempre.

Coçou os olhos. Devia estar mais cansado do que imaginara.

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Assim que terminou de ler a última sextilha da profecia do capítulo dezenove, Stiles decidiu que merecia uma devida recompensa pelo feito. Afinal, não era pra qualquer um acompanhar o linguajar daquele autor. Abriu a geladeira quase sentindo o gosto do pedaço de bolo que guardara, mas foi com surpresa que não o encontrou.

Estranhou.

Aliás, naqueles dias parecia que a comida vinha acabando rápido demais. Sabia que era chamado ”magro de ruim”, contudo não era tão poço sem fundo assim.

Até pensou em arranjar câmeras para desvendar esse mistério, mas eram tão caras...

Desistiu e foi comer uma maçã.

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Enquanto Stiles dormia profundamente no sofá com o notebook no colo, o canídeo ali presente aos poucos foi ficando anomalamente em pé, até que assumiu uma forma humana. O homem nu, então, foi pra cozinha se livrar novamente da ração em seu pote.

Dias antes quase se entregara ao derrubar a vasilha metálica no chão, mas Stiles era tão lerdo que nem precisou se desquietar com isso.

Suspirou coçando a barba, pensando no quão conveniente tinha sido ter arranjando um refúgio naquele momento de necessidade. Deu de ombros, comendo o resto de pizza e voltando pra carregar Stiles pra cama.

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Como um verdadeiro sucateiro, Stiles colava o que parecia ser o milésimo pedaço de silver tape num rádio velhíssimo quando Peter Hale, seu superior, apareceu para lhe entregar uns livros. Peter e Batman trocaram um significativo olhar assim que perceberam a presença um do outro.

“Acolhendo vira-latas agora?”, sorriu sardônico. O cachorro o fuzilou.

“Hey, vira-latas também tem sentimentos! Não fale mal na cara dele”

“Oh, mas não seja por isso. Que tal falarmos de outra pessoa?”

Stiles ficou interessado.

“Sabe o meu sobrinho Derek?”

“Conhecer pessoalmente, não. Mas a fama...”

“Pois eu tenho histórias inéditas sobre ele pra contar...”

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Duas da manhã. Batman corria de uma sêmita a outra até que encontrou a casa que procurava e entrou por uma das janelas abertas. Seu tio já o esperava, sorrindo, sentado numa poltrona.

“Tinha alguma necessidade de falar tanto?!”, esbravejou tão logo se transformou em humano.

“Olá para você também, Derek.”

“Falou até da minha fase vergonhosa!”

“E sorte sua que eu não mostrei a sua foto sem sobrancelhas.”, Derek piscou surpreso até porque não sabia da existência dessa foto. “E até quando pretende se esconder com o Stilinski?”

“Ela ainda está lá?”

Peter anuiu.

“Então continuarei fora do mapa.”

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Era quase como se tivesse um anátema gravado em si, pois só assim para justificar tanto azar. Uma evidência disso era que tinha passado quase uma hora debaixo do chuveiro com o cabelo cheio de xampu, esperando a água voltar. Aí quando voltou percebeu que esquecera a toalha.

Saiu molhado e com raiva. E nem se incomodaria com a nudez caso não tivesse Batman o mirando fixamente. Constrangido sem nem saber porquê, tentou andar mais rápido para chegar ao quarto. Mas é claro que ele escorregou e caiu de pernas pro ar.

As bufadas do cachorro pareceram muito com risadas.

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Quando Scott, seu amigo de longa data, apareceu com uma cara bravíssima, Stiles soube que o jeque da amizade não estava hasteado naquele dia. O visitante alternou o olhar entre Stiles e Batman, incrédulo.

“Então foi realmente você que fugiu com um lobo ferido da clínica?!”

Stiles deu de ombros.

“Eles não queriam deixar que eu cuidasse dele... Espere aí! Lobo?! Do tipo selvagem?! Sério?”

Scott nem prestou atenção ao seu escândalo, mais preocupado em examinar o lobo.

“Por que a tala está tão folgada?! Você ficou tirando ela?”

“Hey! Sou inocente!”

“Então como isso aconteceu?”

Ele não soube responder.

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A bronca durou tanto tempo que o lobo quase desejou estar em catáfora para se poupar de ouvir aquilo. No fim, acabou sendo levado – após o horário de funcionamento da clínica – para tirar um raio X, por exigência de Scott.

Contudo, para surpresa dos dois humanos, não havia qualquer sinal de que o lobo tivesse quebrado algo. Era quase como se tivesse curado por mágica. Stiles, obviamente, continuou sem saber explicar, mas implorou com sua melhor cara de cãozinho sem dono para que Scott o deixasse continuar com Batman.

O lobo pareceu tão inocente que... Scott acabou cedendo, suspirando resignado.

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Depois de descobrir que Batman estava bem, Stiles resolveu levá-lo para passear no parque. Ignorando a possibilidade de alguém chegar a ilação de que se tratava de um lobo e não de um cachorro, ele admirava a coleira azul no pescoço do animal enquanto andavam.

Não tinha se passado nem meia hora quando surgiu um cara chamado “alguma coisa Greenberg” – acompanhado de seu cão – que começou a dar em cima de Stiles. Mas o papo dele era tão ruim que o lobo se viu na obrigação de salvar o humano dessa.

Ganiu fingindo dor e Stiles se esqueceu do outro.

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O lobo estava sisudo. Deu-se o trabalho de ajudar Stiles a se livrar do homem no parque, porém, mesmo assim acabaram trocando números. Não dava para acreditar naquilo. O mau humor foi tanto que até Stiles percebeu, apesar de não entender o porquê.

E como que para animar seu pet, Stiles resolveu fazer uma maratona de filmes na companhia de Batman. O gênero escolhido, entretanto, parecia tinha sido o “matar de tanto chorar”, pois Stiles só faltou desidratar ao terminarem de ver Titanic. E esse era apenas o segundo filme.

O lobo suspirou enquanto se deixava abraçar pelo humano chorão.

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Stiles acordou incomodado com algo pesando em seu peito. Considerando que no dia anterior tinha trabalhado até se exaurir ele cogitou a possibilidade de estar ficando doente. Contudo, ao abaixar o olhar, percebeu que apenas se tratava de um forte braço repousado em si.

Precisou de vinte segundos para se dar conta da situação, sair da cama aos tropeços, se afastar as pressas até bater com as costas no pôster plúmbeo de Game of Thrones e agarrar o primeiro objeto que alcançou. Infelizmente sua arma para se defender seria um... Cabide.

O homem acordou, é claro. Seria impossível continuar dormindo com toda aquela gritaria. Contraindo as sobrancelhas numa feição irritada, compreendeu quase de imediato o que tinha acontecido.

“Parado aí, seu invasor de casas!”, tentou soar intimidante, mas apontar com um cabide não contribuía muito para isso.

O intruso deu um meio sorriso, claramente se divertindo.

“E o que pretende fazer? Vai me pendurar no guarda-roupa?”

Stiles ficou boquiaberto. Não pela forma como foi respondido, mas sim por ele ter se levantado da cama e revelado estar do jeito que veio ao mundo. Que espécie de tarado – especialmente agradável aos olhos – era aquele?

Piscou surpreso. Quê?

“Espere aí. Derek... Hale?!”

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Num instante Derek estava do lado da cama e no outro encurralava Stiles na parede. Quase perguntou que tipo de treinamento especial ele tinha feito ou se por acaso participava de alguma academia ninja. Sua mente já conseguia o excruciar de tantas dúvidas que surgiam uma atrás da outra.

“Eu vou ligar pros bombeiros! Ou pra NASA! Melhor, vou ligar pro Scott! Aposto que você não sabe, mas o pai dele é do FBI!”, Stiles tagarelava qualquer coisa tentando não mostrar o quão afetado ficou com a aproximação de Derek. O cabide ainda em mãos.

Derek entreabriu os lábios para falar, mas de súbito Stiles agarrou a coleira azul que ainda estava em seu pescoço e o sacudiu para frente e para trás, exasperado. Aquele humano realmente não tinha a menor noção de perigo.

“O que você fez com meu lobo, seu... seu nudista?!”

Derek suspirou e com uma facilidade imensa fez Stiles largar a coleira.

“Eu sou o Batman.”, disse com o rosto sério.

Uma parte sua até achou legal ele ter falado isso com aquele ar todo sério, mas Stiles não conseguiu evitar cair na gargalhada.

E foi por isso que Derek se transformou bem na sua frente.

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Ao se transformar na frente dele, que parecia nunca ter tido contato com o sobrenatural, Derek imaginava que sua reação seria sarpar dali sem nem se preocupar com malas ou qualquer coisa do tipo. Contudo, não tinha levado em consideração a possibilidade de Stiles ser uma pessoa estranha além da conta e por isso, um momento depois, estavam na cozinha esperando a água ferver para o café.

“Eu nem acredito que domestiquei um lobisomem!”, Derek lhe deu um olhar duro e ele pigarreou antes de continuar. “Então... Quer dizer que você está precisando de um lugar para se esconder?”

Sumir de vista temporariamente.”, corrigiu. “Achei que você ficaria mais surpreso.”

“Fala do lance de lobisomem? Ah, não se preocupe. Estou quase gritando aqui, mas isso respondeu algumas coisas que vinham me perturbando.”

Derek apenas ergueu uma sobrancelha, se apoiando na parede. Teria subestimado a percepção dele?

“Que tal unir o útil ao agradável? Posso te deixar ficar, mas em troca você me responde o que eu quiser saber. Além de me ajudar numa coisinha também e prometer não me morder.”

“Que outra coisa?”

“Meio que nos inscrevi numa competição de pet mais charmoso...”

E, bem, a resposta foi um rosnado.

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“Ahá! Achei meu besante da sorte! Agora, sim, estou preparado para...” interrompeu-se ao entrar na cozinha e se deparar com Derek prestes a devorar o que parecia ser seu último burrito.

Com um grito de revolta Stiles saltou sobre Derek, tomou o burrito da mão dele e enfiou tudo na boca de uma vez só. A selvageria foi tão inesperada que o outro apenas ficou com os olhos verdes bem arregalados enquanto Stiles engolia com aparente sufoco.

“Depois eu que sou o animal.” resmungou, rolando os olhos.

Ainda foi preciso alguns segundos para Stiles conseguir se recuperar, tomando um copo com água para ajudar a descer.

“E você é mesmo! Já não basta todo esse tempo que ficou furtando minha preciosa comida prejudicial à saúde? Aliás, o que você estava fazendo com a ração que eu te dava?”

Derek teve a decência de parecer culpado, mas não respondeu. E nem precisou. Stiles conseguiu incrivelmente interligar rápido os pontos.

“Não me diga que estava jogando tudo na pia do banheiro e que é por isso que ela está entupida!”

“Ok, eu não digo.”

Pela cara insatisfeita de Stiles, Derek percebeu que ouviria umas boas reclamações.

“Mas antes... Veste uma roupa, caramba!”

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Quase venceram a competição online de pets mais charmosos, mas Stiles ficou satisfeito com o segundo lugar. Além disso tinha sido muito divertido fazer Derek, em sua forma lobo, usar dos mais variados adereços (que ele claramente odiou). E o prêmio tinha sido um jantar romântico num restaurante que permitia a entrada de animais, então não tinha do que reclamar.

Por falta de uma segunda opção melhor, Stiles acabou convidando o tal cara do parque para o encãotro. E foi assim que Derek foi obrigado a ouvir mais baboseiras, em sua humilde opinião, do desinteressante Greenberg.

O ambiente era ótimo e se o outro tivesse lábia, certamente teriam um clima puxativo ali na mesa. No entanto, estava evidente na cara de Stiles que nem ele estava mais aturando aquela conversa maçante sobre economia.

Derek, então, resolveu ajudá-lo outra vez. Mordendo a ponta da toalha da mesa e ignorando o olhar alarmado que recebeu de Stiles, ele puxou com tudo e saiu correndo entre as mesas do lugar causando alvoroço. Estimulados pela movimentação e barulho, outros animais se juntaram a algazarra, piorando ainda mais o cenário.

Ao final, foram convidados a se retirarem e, de preferência, a nunca mais voltarem ali.

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Já era o terceiro dia desde o desastroso encãotro e Stiles seguia irritado. Isso para não dizer furioso. Nem as tentativas de aproximação de Derek na forma de lobo funcionaram para a arrefecer a raiva dele.

Aquele clima ruim permaneceu até o quarto dia, quando Derek decidiu que daria um basta naquilo. Afinal, apesar de ter agido intencionalmente, havia uma estranha culpa enleada ao sentimento de satisfação. 

“Você estava tão interessado assim nele?” perguntou, encurralando-o na parede para que não fugisse da conversa.

Stiles cruzou os braços, contrariado.

“Tá, não estava tanto assim, mas não é como se aparecessem pessoas interessadas em mim com muita frequência, oras!”

Derek franziu o cenho. Aquilo nem fazia sentido. O analisou de cima a baixo e aproveitando que Stiles desviara o olhar pro lado, aproximou o rosto do pescoço dele e fungou ali do mesmo jeito que fazia quando lobo.

É, o cheiro continuava agradável.

“Se você saísse mais certamente teria mais pretendentes. Sua rotina é sair de casa para o trabalho e do trabalho pra casa.” disse o óbvio e voltou para sua forma de lobo, indo cochilar em algum lugar.

Stiles ficou estático com os pelos arrepiados e boquiaberto, totalmente desacreditado.

“Quê?!”

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Stiles nunca achou que um dia seria pego naquele tipo de situação até que Scott, após entrar com a chave reserva, os flagrou brigando pela posse do controle remoto. Isso, porém, não seria tão ruim caso não estivesse fortemente agarrado ao tronco de Derek, esticando-se o máximo possível para tirar o objeto de sua mão.

E Sim, Derek ainda estava desnudo.

Stiles até tentou explicar, mas Scott apenas murmurou desculpas por ter interrompido e saiu correndo dali.

“Sério mesmo, qual o seu problema com roupas?” perguntou, apertando uma almofada no rosto. Não existia um limite para o azar?

Derek nem precisou responder, visto que logo foi arrastado para o quarto. Roupas e mais roupas foram tiradas do guarda-roupa, contudo nenhuma deu muito certo. Somente uns rebotalhos de roupas do seu pai, bem fora de moda e meio puídos, couberam um pouco melhor.

“Por que você tinha que ser assim tão... Grande e forte?”

Derek deu um olhar sugestivo.

“Ok, não me responda.”

“Não tenho problema por você ser magro. É mais fácil de levantar.”

Ignorando o sorriso lateral dele e o seu próprio – ridículo – coração agitado, Stiles fez uma importante constatação: eles precisavam ir às compras o mais rápido possível.

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Movidos pela praticidade, resolveram procurar roupas decentes num shopping mesmo. Stiles estava até animado por estar saindo com Derek na forma humana pela primeira vez, mas essa animação logo passou com a visível urgência que o outro tinha para ir embora. Ele ficava olhando ao redor constantemente como se esperasse um ataque surpresa.

“Afinal, você está se escondendo do quê?” perguntou chateado, já no caixa para finalizar as compras.

Derek rolou os olhos.

“Digamos que tive uns problemas com a minha ex.”

Stiles piscou perplexo e logo depois desatou a rir.

“Espera, é sério que isso tudo é só por você estar fugindo de uma mulher?”

“Você não conhece Kate.” retrucou fazendo uma carranca.

Stiles pensou em fazer uma piadinha, mas foi interrompido pela atendente sorridente que lhe chamava a atenção:

“Tem certeza que não vai levar esta peça, senhor? Ela combina perfeitamente com seu tom alabastro!”

“Moça, eu nem sou tão branco assim.”

A vendedora obstinada, contudo, continuou com sua lábia tentando convencê-lo a levar a roupa. Irritado com a ladainha, Derek mostrou um cartão e disse que pagaria pelas roupas.

Stiles olhou do cartão para Derek repetidas vezes.

“Desde quando você tem cartão?! E isso é um celular?!”

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Ao avistar Peter sentado num cybercafé perto do trabalho, Stiles já foi entrando e se acomodando na mesa dele sem ser chamado.

“Se você passou lá em casa pra deixar a carteira e o celular de Derek, por que não aproveitou e deixou umas roupas também?”

Peter abaixou o cardápio sem demonstrar surpresa.

“E atrapalhar a diversão de vocês?”

“Você não sabe o quanto sofri!” lamuriou-se.

“Sei. Agora olhe aquela garçonete ruiva que sopesa uma bandeja cheia de copos. Você está atrapalhando meu flerte com ela.” disse com a falta de sutileza habitual. “Aliás, você está com uma cara péssima. Derek não tem te deixado dormir?”

Não foi preciso muito mais para que Stiles resolvesse ir embora. Não por causa das provocações de Peter, mas sim por estar realmente exausto, querendo apenas o conforto do lar. Ultimamente vinha sofrendo pra dormir, pois tinha se acostumado com a presença do lobo na cama e proibira sua presença ali desde que descobrira todo o lance de lobisomem.

Remexeu-se debaixo das cobertas, reclamando baixinho do frio intenso daquela noite. Foi por isso, e apenas por isso, que fingiu não perceber quando Derek entrou debaixo das cobertas, aceitando de bom grado o calor extra.

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Com uma faixa na cabeça ao estilo Rambo e vestindo um avental com a imagem de um corpo sarado estampado na frente, Stiles cortava legumes tentando o seu melhor para imitar o pessoal do MasterChef. O importante era treinar para o almoço que teria que fazer no fim de semana, por isso que apesar dos pedaços irregulares e do medo de acabar cortando um dedo fora, ele persistia.

E provavelmente continuaria achando estar indo no caminho certo caso Derek não tivesse aparecido na cozinha torcendo o rosto em desagrado.

“O que diabos você está fazendo aí?”

“Um prato autoral. Não está tão bonito, mas o gosto estará melhor.”

Derek encarou a mistura estranha e nada apetitosa que havia dentro da panela.

“E esse tal prato, por acaso, envolve mortalha de cigarro?”

Stiles ficou sem entender, mas quando ele puxou um cigarro quase desmanchado do seu ensopado de carne, o queixo quase foi ao chão.

“Mas eu nem fumo! Foi você?”

Um olhar foi o suficiente como resposta.

“E como soube que isso estava aí, então?”

“Meus sentidos são muito mais aguçados que os seus.”

“Ah. Talvez eu ainda precise treinar um pouquinho mais...”

“Vou pedir pizza.”

“Quero uma de muçarela!”