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Do You Wanna Dance?

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Era verdade que Sergio pouco sabia sobre o amor. Tinha se apaixonado, em sua totalidade, apenas três vezes. A primeira vez foi no hospital em que estivera internado; tinha oito anos, e ela se chamava Julieta, irmã de um menino que, à época, era tratado da mesma doença de Sergio. Aquele ligeiro romance infantil era resumido em dois acontecimentos: a vez que tinham tomado sorvete juntos, e ao dia em que ela lhe levou um livro emprestado que nunca devolveu, e Sergio também nunca perguntou - ali tinha percebido que estava apaixonado. 

A segunda vez foi já mais velho, ainda no hospital; tinha quinze anos e o nome dela era Carolina, uma enfermeira de trinta. Ela lhe era muito gentil e sempre sorridente, e Sergio era apaixonado por seu cheiro e doçura. Este romance platônico também era resumido em dois acontecimentos: o abraço que ela lhe dera em seu aniversário, e o choro clandestino na noite do dia em que ela foi transferida para outro hospital. A terceira vez em que Sergio se apaixonou ele já estava na faculdade, no auge dos seus vinte e três anos, e lembrava claramente do momento em que tinha se apaixonado - ela tinha levantado a mão numa aula e feito uma pergunta absurdamente inteligente. Seu nome era Isabel, e ela tinha cabelos escuros e lábios grossos. O amor deles durou duas noites, e Sergio só percebeu que seu estado de paixão era crítico quando voltou a frequentar as festas da faculdade, esperando voltar a vê-la, já que ela nunca atendia suas ligações, e só depois veio a saber que ela tinha desistido da faculdade. Por muitos meses desejou encontrá-la em uma esquina, ou num café, só para vê-la pela última vez sabendo que seria a última. Sergio odiava más despedidas. À Isabel, Sergio tinha dedicado em segredo alguns poemas e muitas músicas, e nunca mais tinha conseguido escutar Celine Dion sem lembrar, mesmo que vagamente, dela. A última vez que a viu foi no metrô, anos depois, e soube que ela estava casada pelo anel que levava no dedo, mas ela não o tinha visto. Ele tinha ao menos ficado contente de poder contemplá-la uma última vez antes que o trem passasse e ele a perdesse de vista.

 

E por isso, Sergio sabia que tudo o que tinha aprendido em sua vida sobre amor e relacionamentos tinha sido construído de experiências rápidas e quase sempre rasas - sem contar os livros e filmes que o fizeram criar todo um imaginário a respeito desse sentimento. Não era um homem a quem consideravam muito romântico, justamente pela falta de experiência nessas questões. Com o passar dos anos, Sergio simplesmente tinha parado de procurar por elas, contentando-se com as experiências fracassadas do irmão como parâmetro, e voltando-se cada vez mais para dentro de si. Isso nem era mais uma questão a ser resolvida quando ela chegou. Foi aquela mulher aparecer e todo o sistema operacional de sua mente entrou em curto circuito, porque tinha sentido, finalmente, uma ligação natural e sem absoluta razão aparente. Algo o chamou para ela, e Sergio foi caindo cada vez mais dentro do olho do furacão Murillo, sem saber onde se segurar para não se machucar. Todas as suas decisões e ações tinham sido tomadas no coração e no instinto: nunca tinha vivido algo tão intenso e real com alguém, e estava de verdade disposto a aceitar qualquer coisa por mais um pouco daquilo que era indescritível. 

 

Mas o fato mais importante sobre Sergio Marquina era que ele não sabia amar. Não sabia controlar suas ânsias - e em tudo o que via tinha Raquel Murillo. Tudo o que ela era e representava era o mais absoluto caos na vida dele: ela chegou e o envolveu na primeira noite, num amor furioso sem identidade. Depois, lá estava ela, em sua casa, nua e rindo de suas piadas, sem medo ou receio dele. E a cada nova ação e reação dela, Sergio foi cavando mais esse sentimento que crescia, deixando que ela largasse os gostos e os sorrisos dela ali com ele. Deixou as coisas caminharem aos poucos, nunca exigindo nada dela, sempre esperando que ela lhe viesse com a solução porque - porque ele mesmo não sabia como prosseguir com aquilo. Não sabia lidar com as mini taquicardias que surgiam quando a olhava no escritório, nem com o sorriso involuntário que aparecia quando lembrava que ela existia no mundo. Poderia ter sentido medo da força com que aquele sentimento se desenvolvia a cada dia, mas preferiu sentir-se esperançoso - o que aquela criatura tão pequena e bonita poderia lhe fazer de tanto mal?

 

Afinal de contas, que mal faria se apaixonar perdidamente por Raquel Murillo?

 

O máximo que poderia acontecer era ela ir embora, certo? E ele voltaria a ser solitário como sempre foi. Esse era o pior que poderia acontecer, certo?

 

Errado.

 

Sergio levantou-se da cama naquela sexta feira, com quarenta e três anos nas costas e sem uma puta ideia de como faria para superar aquele amor avassalador que corría seus ossos. Ele nunca tinha estado tão triste em toda a sua vida, e aquele amor doía em todas as partes do seu corpo e em feridas que ele nem sabia que tinha. Ter vivido aquele pouco com ela tinha lhe mostrado que ele, sim, era apto ao amor, e que era possível amar e ser amado de volta. 

 

Respirou fundo diversas vezes, sentindo que o ar lhe faltava. Pela primeira vez em muito tempo, não sabia como prosseguir - não tinha nenhuma mísera resposta. Não sabia lidar com ela, com o que sentia por ela. E não sabia entendê-la. Uma hora ela sumia e depois voltava lhe pedindo sexo. Depois aparecia em seu aniversário e lhe roubava um beijo e, chorando, o deixava de novo. E ainda tinha todos aqueles olhares enigmáticos que trocavam, carregados de dor e mais dor, cheios de sentimentos não ditos. A cabeça de Sergio trabalhava sem parar tentando criar cenários em que todas as ações dela fizessem sentido, buscando uma lógica interna que nunca lhe aparecia solucionada. Ela não lhe fazia sentido algum, mas seu beijo ainda tinha o poder de desestabilizar completamente. Sergio estava fora dos eixos, e sabia disso. Estava muito mais do que inquieto: estava em pura aflição e desespero, querendo arrancar o próprio coração do peito. O diretor tentava pensar racionalmente, entender o que ela estava tentando dizer com tudo aquilo, quais os sinais que ele deveria interpretar. Cada pequena ação passava pela cabeça dele, tentando encaixar em algum quebra cabeça. Mas nada vinha. 

 

E essa falta de sentido o deixava em pânico. Não sentiu fome quando encontrou o irmão na cozinha tomando café, só um cansaço imensurável, e sentiu vontade de voltar para a cama e nunca mais aparecer na frente de outra pessoa. Desde sua crise de ansiedade na quarta-feira, Sergio tinha se permitido receber Andrés em sua casa, para acompanhá-lo nos dias e para fazer com que ele não desistisse de se levantar e de ir trabalhar. Estava tudo muito parecido com um período na faculdade em que Sergio tinha entrado num processo de quietude imensa, a ponto de quase desistir do curso, mas Andrés o ajudou, como o estava ajudando agora. Mas, por muito que estivesse grato ao irmão, já sentia que precisava superar aquilo o quanto antes. Faria tudo voltar ao normal, pelo bem de todos os amigos que viviam preocupados. Não aguentava mais os olhares preocupados em sua direção. Por isso, pediu que o irmão fosse embora e não passasse o fim de semana ali. Disse a Andrés que sairia no fim de semana. Disse que estava bem. E o irmão, mesmo contrariado, carregou suas roupas para fora do apartamento de Sergio, não sem antes alertá-lo de que se ele não o atendesse ao telefone, voltaria. 

 

E a sexta-feira começou, com um Sergio Marquina exausto de seu próprio reflexo no espelho, desejando que o fim de semana chegasse logo e nunca mais terminasse. 




 



Raquel tinha um plano. Deveria estar trabalhando para conseguir se preparar para a entrevista que tinha de fazer com o candidato a vice-diretor. Entrevistaria o melhor candidato até agora e, muito embora estivesse mais inclinada a achar uma mulher para a vaga, o currículo do homem era invejável. Alicia a aconselhou a entrevistá-lo numa sexta-feira, como se ele tivesse sido o último de uma longa semana de entrevistas, para ver se o ego não lhe subiria à cabeça, já que era possível que ele soubesse que tinha, de fato, o melhor currículo para o trabalho. O homem chegaria às 10h, e Raquel estava lá desde às 7h.

 

Olhou no relógio: 8h30. 

 

Sobrava-lhe tempo. Saiu da sala e encarou o lado oposto. A porta de Sergio fechada como era de costume, uma movimentação silenciosa de Ágatha e Mônica. Estava tudo tão quieto por ali desde a última quarta feira que Raquel sabia que só passaria com o tempo. Todos estavam tristes, quase miseráveis, e ela se sentia super culpada de ter causado tudo aquilo. Porque não só tinha se infiltrado na vida dele, fazendo dos amigos dele também seus, fazendo parte da rotina dele mesmo sem querer. Se não tivessem se gostado, já seria suficientemente doloroso. Mas não. Os dois, caso não se resolvesse, teriam que se olhar todos os dias da semana e se lembrar do quase-amor perfeito.

 

Raquel se apaixonou diversas vezes na vida, pelo menos umas sete. Duas no jardim de infância, uma numa viagem de Natal que fizera ao interior em sua adolescência, três vezes na faculdade: Escobar, seu professor do primeiro período; Alejandro, o rapaz que era seu vizinho na moradia estudantil - e que a ensinara muito sobre música, poesia e sobre como enrolar um cigarro perfeito; e, por último mas não menos importante, Alfonso, a quem conheceu após um ano de formada. Alfonso, que tinha olhos azuis e dizia que Raquel seria a mãe de seus filhos. Quando terminaram, Raquel chorou por uma semana e decidiu que o procuraria novamente para desculpar-se e dizer que sim, queria casar-se e ter filhos com ele o quanto antes, mas ele não estava em seu apartamento quando foi procurá-lo. Raquel então, sofrida e com dor no coração, tinha ido afogar suas mágoas no bar perto do trabalho, onde conhecera o último: Alberto, o amor mais mal feito de todos.

 

Não tinha tido uma vida amorosa particularmente tranquila, mas sabia reconhecer o amor quando o via de frente. A questão era que, depois de Alberto, os sinais tinham ficado embaçados. Mas agora sabia que todos os sinais sempre apontaram para Sergio, sempre ele. Em outro universo, quem sabe, poderia ter cruzado com ele em outra oportunidade e selado seu destino ao dele sem problemas e sem impedimentos. Queria ter fugido para uma ilha com ele, e teria sido feliz sem medo.

 

Mas a realidade era bem diferente de seus sonhos e desejos, e seus problemas não seriam resolvidos com um passe de mágica. Por isso, um passo de cada vez: e um plano. Olhou para a bolsa que estava em cima do balcão em sua sala e respirou fundo.

 

Primeiro a entrevista. Depois o resto da sua vida.

 


 

Enquanto isso, a única partícula de alegria do oitavo andar caminhava alegremente pelo hall do elevador; Andrés ajeitou sua gravata e seguiu para o cubículo de Ágatha e Monica que pareciam completamente drenadas de energia - tal como Sergio. 

 

"Olá olá! Como estão minhas gatíssimas?"

 

O olhar de desprezo de Monica e de raiva de Ágatha foram resposta suficiente. Andrés, como bom taurino, não se deixou abalar. 

 

"Então, deixa eu te perguntar..." Ele começou sonso, se inclinando para a mesa de Ágatha. "Vocês, erm… já sabem quem vai entrar pra vaga do falecido ali do lado?" 

 

Os olhos de Monica se arregalaram num pulo, como se ela tivesse levado um choque. "QUEM MORREU?!"

 

Seu tom foi tão alto que até Suárez do outro canto deu uma espiada curiosa. Ágatha revirou os olhos e encarou a amiga. "Ninguém morreu, boba, ele tá falando da vaga do Ángel..." Sua explicação entredentes fez Monica se sentir em Harry Potter, quando não se podia falar o nome de Lord Voldemort. "Mas respondendo sua pergunta, seu Maria Fifi," Ela continuou "Ainda não sabemos. O último candidato deve chegar daqui a pouco, pelo que eu ouvi. Raquel acabou de entrar do cafézinho, não quer entrar lá e perguntá-la não?"

 

"E correr o risco de apanhar ou fazê-la pensar que alguma coisa aconteceu com meu irmão? Não, obrigado." Inclinando-se ainda mais para Ágatha, ele sussurrou. "Vai fala logo, eu sei que a ruiva já te contou tudo mesmo!"

 

Ágatha se fingiu ofendida e gesticulou para irem à área do café. Monica nem os notou sair, tão distraída que estava. "Ok, pronto. Mas eu só vou te falar se você me disser o porquê dessa sua curiosidade mortal ai..."

 

Andrés a olhou com uma cara de ' haha, você jamais saberá', mas a amiga nem se abalou. "Merda, odeio quando você é insistente..." Ele reclamou, e ela sorriu vitoriosa. "Ok, tá. Eu quero saber porque eu talvez já tenha tido um, envolvimento … com um candidato, e… enfim..." 

 

Ágatha se sentiu fazendo aniversário. Era um triunfo ter alguma coisa contra Andrés, e isso deveria valer no mínimo uns três próximos babados em primeira mão. "Seu danado! Quem foi o bofe?" 

 

Ele riu um pouco diabólico mas ficou logo quieto. "Não interessa, não ainda pelo menos..." Com um suspiro, apoiou o braço na copa, e a encarou com um olhar sincero. "Eu tenho medo, sabe… de ficar como... " Gesticulou ao escritório de Raquel, e ágatha entendeu. "Sergio está um trapo. Não me deixou nem ajudar hoje de manhã. Fazia tempo que ele não tinha uma crise dessas e, ai… me corta o coração não poder ajudar."

 

"Eu sei..." Ágatha respondeu. Se sentia da mesma forma, talvez de um jeito menos íntimo quanto Andrés, mas sabia exatamente o que ele temia, já que ela e Alicia se encontravam cada vez menos capazes de ficar longe uma da outra, e o espectro da relação de Raquel e Sergio as assombrava todas as vezes que mencionaram compromisso. "Ok, certo. Vou te contar, mas saiba que vou cobrar depois, ein?!"

 

"Fechado. Desembucha." 

 

Ágatha olhou para os cantos antes de sussurrar. "Um tal de Martín Berrote. Bam bam bam do direito, aparentemente já passou pelos melhores escritórios do país… tão cobiçado que pra não inflar o ego do cara colocaram ele no último dia de entrevista, veja só..."

 

Andrés apenas assentiu. Merda. "Hmm… que mais?"

 

"Que mais o que, criatura?! Já te falei tudo o que sei, agora você que lide com essas informações ao seu favor." Ágatha levantou o queixo e saiu de volta a sua mesa, bem na hora que os olhos de Andrés avistaram o sujeito de sua última conversa entrando pelo hall do elevador em direção à sala de Raquel. 

 




“Opa… bom dia!” Disse o homem ao abrir a porta do escritório. Usava um terno de cor marsala extremamente espalhafatoso, e seu perfume amadeirado fez Raquel sentir náusea em um primeiro momento, mas logo se acostumou. 

 

“Bom dia, dr. Berrote. Sente-se, por favor, fique à vontade! Seja bem vindo à Piñero-Marquéz.” 

 

Ele sorriu, tomando a mão de Raquel e beijando seu torso. Ela riu, surpresa com a audácia mas pensando que aquele gesto fazia total sentido com o que já tinha atestado da personalidade do advogado. 

 

“Obrigado, senhorita…?” 

 

“Murillo. Raquel Murillo.”

 

“Certo, Raquel.” Ele se sentou, e logo ela também, assumindo sua pose de chefe. Martin, contudo, não parecia nem um pouco intimidado pela advogada, aliás para ela, até que confortável demais, de um jeito arrogante – que Alicia justamente previu que ele teria

 

“Bom, doutor, me conte um pouco da sua experiência prévia em direito tributário.” Ela disse de forma cordial, empinando uma caneta para possíveis anotações. 

 

Nunca na vida ela tinha se arrependido tão rápido de dizer qualquer coisa quanto naquele momento. Martin começou a falar, e falar, e falar, de como tinha se formado brilhantemente na universidade, trabalhado com inúmeros processos desafiadores e bla bla bla que ela não conseguia mais prestar atenção. No meio da tagarela do candidato teve um pequeno flash na memória de seus tempos como caloura na faculdade, e de como teria sido sua vida caso tivesse conhecido Sergio naquela época. Sua terapeuta tinha razão; Ficar se remoendo dos e / ses da vida era ainda pior que remoer o passado. 

 

Sua mente retornou ao presente quando Martin pigarreou alguma coisa, e lembrou que era uma profissional em horas de serviço. Ah, sim. Depois de mais 40 minutos incessantes de jubilação e respostas longas a perguntas simples, Raquel se levantou da cadeira. Ele é intoxicante de chato, mas é exatamente o que precisamos para a PM.




 

 

Sergio só queria que o dia acabasse. Os números não iriam distraí-lo, e ele estava cansado de tentar fugir dos próprios pensamentos, por muito que quisesse desligá-los. Sempre o último a sair do andar, pensava em nada quando desceu no elevador já tarde da noite.

Mas seu estômago pareceu revirar quando a viu parada no saguão do prédio. Um casaco pesado ia até perto de seus pés; ela abraçava seu próprio corpo e apertava um pequeno pacote contra o peito. Ele pôde perceber que a respiração dela parou por alguns segundos quando seus olhos se encontraram, mas Sergio sentiu-se encher de uma ternura imensa quando viu os olhos dela lhe chamarem quase carinhosos. Andou devagar e desconfiado até ela, que não desviou os olhos dos dele nem por um segundo, mais forte e decidida do que tinha planejado ser. Sergio estava tão exausto que não tinha energia sequer para ignorá-la. Se fosse ter o coração apunhalado, que fosse de uma vez, estava cansado de lutar.

 

Raquel, por sua vez, sentia que precisava ser incisiva - mas, acima de tudo, precisava ser verdadeira. Sergio parou perto dela, sem se atrever a sorrir, mas ela lhe ofereceu um riso calmo e lhe cumprimentou.

 

“Oi, Sergio.”

 

“Olá, Raquel.”

 

A tensão tão nítida transparecia no corpo de Raquel, que tinha os dedos tremendo levemente. Ela olhou para os próprios pés por um segundo até que olhou para ele de novo.

 

“Escuta, eu tava pensando que a gente tinha umas contas pra acertar, e daí pensei em começar por isso…” Ela estendeu o pacote. Sergio olhou desconfiado, mas pegou o embrulho das mãos dela, desfazendo-o em silêncio enquanto era observado por ela atentamente. Tirou o papel, abriu a caixa de papelão e puxou uma caneca branca com bolinhas pequenas vermelhas. Sergio não conseguiu evitar uma risada, mantendo o sorriso no rosto enquanto olhava para ela. Raquel sentiu seu coração esquentar ao receber aquele sorriso dele.

 

“Muito obrigado, mesmo, eu tava sentindo falta de uma, já estava quase trazendo uma de casa… Muito obrigado.” Ele sorriu mais uma vez, guardando a caneca dentro da caixinha mais uma vez e colocando o pacote aberto dentro de sua bolsa, fechando-a em seguida. 

 

Mais uma vez, ficaram em silêncio apenas encarando um ao outro, Raquel escondendo as mãos nos bolsos do casaco, Sergio apertando os nós dos dedos na alça da bolsa de couro. Ela tomou fôlego e começou a falar, colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha.

 

“Ei, então, eu precisava falar com você, e eu percebi que talvez você nem queira falar comigo, mas eu pensei que eu podia te acompanhar até em casa e ir te falando dessas coisas... “ Ela engoliu a própria saliva, sem conseguir olhar nos olhos dele, desviando para a boca, a barba, o pescoço, a gravata… Tudo menos os olhos. “Mas se depois disso você não quiser mais falar comigo eu vou entender, só preciso… Só preciso dessa chance, pode ser?” Sergio respirou fundo, seu corpo perdendo toda a força, preenchendo-se de um enorme afeto e, ao mesmo tempo, uma enorme preocupação. Respirou fundo. Como ele não respondeu, ela tentou de novo. “Posso só te acompanhar até em casa?”



If you change your mind

I'm the first in line

Honey I'm still free

Take a chance on me



Sergio Marquina parou de funcionar por aqueles segundos. Estava extremamente machucado, seu corpo ainda doía daquele turbilhão de emoções mas, ao mesmo tempo, não podia negar a ela uma chance de dar uma explicação. Estava exausto de pisar em ovos com ela e com os outros. Se o que ela dissesse fosse suficiente, o que aconteceria? Sergio pensou na caneca que ela lhe dera, um claro sinal de paz. E imediatamente pensou no primeiro pedido dela a ele, o de irem se encontrar num banheiro. Ele podia ter hesitado e não aparecido e, talvez, o rumo dos dois tivesse sido mudado completamente. Decidiu apostar o pouco do que lhe restava: seu coração. Estava apostando seu coração com ela. 

 

“Claro.” Ele assentiu “Podemos inclusive fazer o caminho mais longo, se você quiser.”

 





Ela ficou com muita vergonha de falar, ele percebeu. Mas Raquel tinha sua última chance agora. Precisava arrancar tudo aquilo do peito. Os dois andavam a passos lentos, como se fossem parar a qualquer momento, mas não paravam. Talvez a relação deles tinha sido assim desde o início, sempre na iminência do fim. Ela tinha a chance de mudar aquele padrão.

 

"Sergio eu sei que eu te machuquei muito. Eu devia ter te contado logo no começo o que estava acontecendo, e devia ter tido uma conversa mais honesta com você quando comecei a perceber que… Que a nossa relação era algo a mais. Eu te coloquei do meu lado mas sem te fazer ciente de tudo o que estava se passando, entende?"

 

Ele não respondeu. Andaram mais um pouco, ele remoendo os primeiros dizeres dela, querendo que ela talvez não escolhesse as exatas palavras que ele queria ouvir. Raquel tinha a voz menos trêmula, mas estava assustadíssima.

 

"E eu sei que eu agi mal quando pedi pra… Sair com você, aquele dia. E sei que eu devia ter levado em consideração o que você estava sentindo por mim. Sergio eu sabia o que estava acontecendo e não queria enxergar nem lidar com isso."

 

Isso ele entendia. Que as fugas eram para ignorar os clamores desesperados do peito dele, que era tudo para não voltar àquele assunto relação.

 

"Eu sei que eu fugi e eu não sabia o que mais fazer, eu sei que fugir te fez se sentir muito pior porque quando eu precisei de espaço você me deu e me ajudou quando eu te pedi colo e ajuda mas depois disso eu nunca mais te dei satisfação nenhuma e isso é injusto, eu sei." As lágrimas já caíam e ela encarava o chão enquanto andava. Sergio tampouco tinha coragem de olhá-la. Estava absorvendo aos poucos. "E quando eu te beijei no seu aniversário, aquilo foi…"

 

Ela perdeu a respiração, estava começando a soluçar, mas se controlou e continuou andando. Afundou as mãos nos bolsos dos casacos.

 

"Aquilo foi desespero. Eu não sabia como te dizer que eu estava arrependida, não sabia como te pedir desculpas nem sabia te encarar pra dizer essas coisas." Ela riu sem força "De certa maneira eu nem sei ainda te encarar e dizer isso…"

 

Foi a vez de Sergio perder a respiração, levantando os olhos pela primeira vez e percebendo que estavam há uma quadra de casa. Seu coração acelerou de novo. Ela não parecia ter se dado conta. Continuou andando.

 

"Eu agi muito mal, todas as vezes. Algumas eu tive a bebida pra por a culpa, como no seu aniversário, e eu me sinto horrível de ter estragado seu dia. Eu sinto muito por ter te machucado e por ter envolvido todos os nossos amigos nisso, eles andam muito preocupados com você e eu sei que a culpa é minha."

 

Eles finalmente pararam na frente do prédio de Sergio. Mas ela não parecia ter terminado suas falas. Desta vez, de frente para ele, ela se atrevia a buscar os olhos do engenheiro.

 

"Eu ter sofrido tudo o que sofri não me dava direito de te machucar. Eu não fiz de propósito, foram momentos em que eu estava confusa e quando tive que escolher que atitude tomar eu escolhi mal. E quando tinha medo da consequência eu fugia."

 

Sergio balançou afirmamente a cabeça. Ela viu que ele estava chorando e que mantinha os olhos baixos, sem olhar para ela. Aquilo lhe partia o coração. Já nem notava mais que estava chorando junto. Nenhuma de suas palavras tinha recebido resposta dele. Ele simplesmente ouvia. Talvez só quisesse se livrar dela e daquela dor de uma vez. Raquel suspirou.

 

"Desculpa, eu não vou mais importunar você. Eu só queria que você soubesse disso tudo e que soubesse que você não fez nada de errado. Você… Você é um cara incrível, de verdade. Me desculpa e…"

 

"Raquel…" Ele chamou, pela primeira vez desde que deixaram o saguão da PM, e ela gelou. "Ai, eu não gosto de ficar chorando no meio da rua…" Ele riu sem força, enxugando os próprios olhos "Hoje foi um dia muito doido."

 

Ele rolou os olhos para cima, buscando qualquer coisa para olhar que não ela. Raquel já não emitia nenhum som. Os intervalos entre as falas dos dois foi se estendendo, talvez esperando magicamente que um entendesse a lógica interna de raciocínio que tinham na cabeça, como telepatia.

 

"Foi…" Ela suspirou

 

"Você falou tanto em fugir… E eu mesmo fugi de você esses tempos" Ele falou, simplesmente. Enquanto Raquel tagarelava sobre o que tinha no coração, Sergio deixava uma sentença sucinta no ar. Mas ela sentia. Talvez não fosse telepatia, talvez fosse só o sentimento de um falando com o do outro. Talvez as palavras fossem inúteis e só o que precisavam era se abraçarem. Talvez os corações se acalmassem, juntos. Em vez disso, Raquel levou uma mão ao rosto dele, enxugando algumas lágrimas que corriam. Os dedos dela tremiam e ela prendeu a respiração quando seus olhos se encontraram com os dele. 

 

"Me desculpa." Ela sussurrou, já mais perto dele. Sergio segurou a mão dela sobre seu rosto, não conseguindo controlar mais uma vez as lágrimas que desciam. Raquel queria romper aquela tensão e simplesmente beijá-lo, dizer que estava apaixonadíssima e que queria que ele dissesse que também estava. Queria pedir para tentar de novo e mais uma vez.

 

Gonna do my very best

And it ain't no lie

If you put me to the test

if you let me try

 

Sergio não sabia o que dizer. Estava atordoado e finalmente deixava se descontrolar perto dela. Mas porque era tão difícil deixar as palavras saírem? Ele afastou a mão dela, abrindo os olhos de novo. Tirou os óculos e respirou fundo. 

 

Era a vez dele de falar. Ela já não se atrevia a dizer nada. Raquel achou que ele ficaria em silêncio para sempre, sem dizer nada a ela. Talvez ela merecesse aquilo, pensou. Um total silêncio dele depois do que houve. Meu Deus, será que conseguiria encará-lo depois daquilo? Raquel achou que teria que se refugiar para dentro de sua sala na PM todos os dias. E foi então que aconteceu. 

Ele perguntou se ela não queria subir.

 





Entrar naquele apartamento nunca lhe pareceu tão difícil. A tensão continuava latente, mas talvez fosse só medo. Porque se ele a tinha convidado para subir, era porque a estava deixando entrar em seu espaço confortável novamente. E talvez ele precisasse estar em um ambiente seguro para dizer o que precisava dizer. Raquel entrou e se sentou no sofá. Ficou observando ele andar de um lado para o outro, arrancando os sapatos, tirando o blazer e a gravata, abrindo alguns botões dela… Via que ele precisava respirar . Ele abriu a janela da sala e, por mais que o vento lá de fora viesse frio, ela não reclamou. Ficaram em silêncio por bastante tempo, mas toda vez que Raquel sentia vontade de falar ela se interrompia. Ele andava de um lado para o outro talvez construindo em sua cabeça o que diria a seguir. Os minutos foram se passando e pareceram-lhe horas. 

 

"Sergio…" Ela chamou e ele a olhou prontamente "Senta." Ela disse apontando para o sofá ao lado dela. O engenheiro então sentou-se ao lado dela, olhando-a. Mas nada disse, de novo. "Você quer que eu vá embora?" Ela tentou, mais uma vez, estabelecer qualquer contato. Precisava que ele abrisse a boca.

 

"Não, não…" Ele esticou a mão para pegar a dela, apertando-a "É que foi muita informação, eu…" Respirou fundo. Agora vai . "Eu preciso achar um jeito de perguntar o que eu quero perguntar."

 

"Por favor, pergunta…"

 

"Ok, vou por partes então. Olha, eu sei que você não fez nada por mal. Eu sei que tudo o que você passou não deve ter sido fácil e eu não devia ter te pressionado e nem te dado mais essa preocupação. É que…" Ele respirou fundo "É muito difícil, Raquel… É difícil acompanhar todas as suas mudanças e o seu processo só de fora, entende? Quando eu disse que queria estar do seu lado, era verdade. Eu não ia te exigir nada, eu só queria te acompanhar. Mas quando você só aparece de vez em quando eu fico sem entender o que você quer porque…" Ele já olhava para as próprias mãos, encará-la era difícil quando falava todas essas coisas. "Essa era a pergunta que eu queria fazer." 

 

Sergio levantou os olhos para ela. Já não choravam mais.

 

"Raquel, o que você quer dizer com tudo isso? Você só queria me pedir desculpas? Você quer que a gente tente ser amigo de novo? Você quer me dizer de novo que não quer nada a mais disso? Eu…" Sergio se levantou, e voltou a andar de um lado para o outro. "Eu preciso saber."

 

Raquel se levantou também, parando à frente dele e pegando seu rosto entre suas mãos. Chega de ficar rodando em círculos.

 

"Eu vim dizer que eu estou apaixonada por você."

 

Let me tell you now

My love is strong enough

To last when things are rough, it's magic

You say that I waste my time

But I can't get you off my mind, no, I can't let go

'Cause I love you so








Sergio sentiu-se engolido pelo chão. Não sabia por quanto tempo tinha ficado em silêncio, apenas absorvendo aquelas palavras dentro de si. Raquel esperou pacientemente, vendo as lágrimas rolarem dos olhos dele e sorrindo delicada como se tivesse acabado de contar o segredo mais chocante de todos. Vendo que ele não abrir a boca tão cedo, Raquel recuou as mãos até seu colo e, encarando-o, começou a dizer.

 

“Eu estou apaixonada por você. Completamente, perdidamente apaixonada. Isso me assusta de uma forma… eu sempre encarei a paixão como pular de um abismo de cabeça sem nem ligar pro chão, e aqui, agora eu sinto como se nem precisasse pular pra chegar ao chão. De pensar em você eu queimo em febre, é doido, é bizarro, e em todas as vezes que eu já me apaixonei - e não foram poucas - nunca me senti assim. Nunca.” Ela respirou fundo e sorriu, feliz de ter finalmente posto tudo pra fora. Nem tinha ligado por ter soado tão melodramática; cada palavra era carregada de verdade, e Sergio sentia isso. “Foi muito difícil chegar a essa conclusão mesmo que estivesse bem na frente do meu nariz. Mas é verdade. Eu sei que pode estar muito tarde, pode ser que você não queira mais nada comigo, mas eu precisava te dizer. Eu não queria… Não queria mais guardar tudo isso. Eu devia ter dito antes, eu sei, eu queria que tivesse sido diferente, mas eu não podia fazer diferente antes. Então, eu…”

 

Sergio olhou para ela de uma forma tão terna que ela não conseguia mais falar. As palavras foram morrendo, e ela soube que ele tinha entendido tudo, mas mesmo assim ela precisava falar. Mas para ele nada, absolutamente nada, precisava ser dito. Sergio Marquina finalmente ouviu seu coração voltar a bater depois de todos aqueles dias silenciosos embotados de marasmo. Ele segurou o rosto dela e a puxou para um beijo, talvez o beijo mais bem dado de toda a sua vida. Beijou-a até faltar o ar, e sentiu que chorava. Raquel o abraçou muito forte, sentindo nele o cheiro que lhe trazia paz e aquela sensação de casa que ela por tanto tempo procurou. Ficaram ali abraçados, chorando, deixando que tudo vazasse porque nenhuma palavra bastava.