Actions

Work Header

Cabo de guerra

Work Text:

 

 

 

.

A janela estava aberta – era tarde, mas a chuva estava ameaçando, ameaçando e não chegava. O calor estava sufocante. A janela, portanto, aberta. Ainda assim, eles ficavam de olho por causa dos cachorros. A janela do quarto deles não podia ser telada, já que Chanyeol não teria como colocar o telescópio (aquele mesmo, comprado em vinte e cinco prestações, que Kyungsoo suspirava, cansado, pensando em quanta coisa dava para comprar com a mesma quantia) para observar o céu. Kyungsoo poderia dizer não; afinal, era um telescópio profissional e uma janela não telada em um apartamento pequeno com três poodles tão saltadores que poderiam estar no Cirque du Soleil, mas a alternativa era encontrar Chanyeol três da manhã em algum telhado, "Eclipse lunar, Kyungsoo!". Kyungsoo tinha bom senso. Janela fechada, porta fechada e telescópio em casa mesmo.

"Não levanta não," Chanyeol falou, passando pela sala. "Vou fazer alguma coisa."

Ele estava usando uma cueca longa, meio frouxa, antiga. Kyungsoo, deitado na cama, olhou pras costas largas e as pernas engraçadas. O poste de luz era paralelo à janela e eles não acendiam a luz de noite. Era romântico e mais simples. A luz não era forte, mas iluminava a cama, o criado mudo com os livros da NASA e os clássicos do teatro, um contraste entre capas novas e antigas, cheiros diferentes.

Tudo na casa deles era um contraste; um reflexo deles mesmos. Se há sete anos dissessem a Kyungsoo que ele terminaria amarrado ao nerd que falava muito alto, ria com muitos dentes à mostra e que tentava disfarçar o excesso de orelha com cabelos coloridos, ele não levaria a sério.

"Cuidado com a porta," Kyungsoo disse, se virando na cama. O lençol embaixo dele grudou levemente nas costas suadas e eles fez uma careta. "Não deixe eles entrarem."

"Tudo bem," Chanyeol murmurou, abrindo uma frestinha da porta e olhando, arregalando os olhos. "Acho que estão dormindo."

Kyungsoo riu. Ele era engraçado, espontaneamente cômico. Sempre reagia de maneira exagerada, tropeçava, se batia, caía. Kyungsoo tinha que prever seus movimentos desajeitados, catar o que ele deixava pelo caminho, segurar o braço antes que ele batesse em alguém durante seus ataques de riso.

Chanyeol fechou a porta e Kyungsoo respirou fundo. Ele nunca se cansava da sensação de estar confortável – era difícil. Toda vez que subia em um palco, que entrava em sala, que falava em público ou simplesmente interagia com uma pessoa menos próxima, ele estava nervoso. Ansioso. Com medo de cometer um erro, de ser desrespeitoso ou descuidado. Ele sempre pensava em tudo que poderia fazer, o quanto deveria ser gentil e contido. Sem excessos ou faltas.

A simples presença de Chanyeol mudava as cores do ambiente. Ele inconscientemente deixava o corpo mais relaxado, mais mole; ria um pouco mais alto, se dobrava, caía no chão. Era mais simples falar algumas coisas, Chanyeol completando o que ele não conseguia formular, lembrando de cada detalhe como se tivesse uma pequena lista armazenada na cabeça.

Kyungsoo ouviu o barulho vindo da cozinha e sorriu. Cozinhando de madrugada, acordando os cachorros, ainda no meio da semana, como se fosse uma festa particular. E não era, nunca era. Quando eles iam nas festas, sempre soavam como uma extensão de casa, algo familiar demais. Kyungsoo já conhecia alguns dos eventos irrevogáveis das reuniões dos amigos: Baekhyun beberia mais do que podia aguentar, Jongin quebraria algo por descuido e Minseok perderia a compostura depois do terceiro copo com algum sortudo desprecavido. Mas não era só isso – Kyungsoo bebia sempre muito, meio encostado em Chanyeol, que fazia tanto barulho quanto o som da festa e que corria todo o espaço pra voltar pro mesmo lugar.

"Você meio que puxa ele de volta," Jongdae disse uma vez, meio bêbado, mas sóbrio o suficiente pra preparar uma sopa. "Como se fosse a gravidade específica dele."

"Profundo," Kyungsoo bocejou. "Sabemos que a gravidade real não atuou corretamente quando ele estava crescendo."

Jongdae sorriu e continuou na sua tarefa de ser a senhora de idade da festa. Kyungsoo não esqueceu disso; contou uma vez pra Chanyeol, não se lembra o porquê. Chanyeol rabiscou no caderno e não falou nada.

Tinham papéis na cabeceira que eram parte desses rabiscos. Kyungsoo não tocava neles.

"Não lê não," Chanyeol pediu uma vez, vermelho. "Às vezes eu escrevo quando estou chateado com você."

"Eu não me importo," Kyungsoo argumentou, mas nunca tocou em nada que Chanyeol não desse permissão. Pra se viver junto era preciso um pouco de privacidade. Kyungsoo não interrompia as composições de Chanyeol, suas noites em claro observando as estrelas; Chanyeol não fazia barulho enquanto Kyungsoo lia scripts. Viviam bem.

"Aham," Chanyeol anunciou, abrindo a porta do quarto e equilibrando copos em uma vasilha. "Suco gelado e biscoitinhos!"

"Você não cozinhou nada," Kyungsoo riu, levantando-se preguiçosamente. "O suco é de caixa."

"Ingrato," Chanyeol fez piada e sentou na beira da cama. "Vê se não reclama."

Kyungsoo bebeu o suco com gosto, mais pela temperatura do que pelo gosto. Chanyeol enfiou uma mão cheia de biscoitos na boca e Kyungsoo riu. A postura dele era ruim e a barriga definida que ele portava com tanto gosto fazia uma dobrinha mesmo assim. Não era um bom ângulo. Kyungsoo apertou a carne com carinho.

"Saindo da dieta?"

Chanyeol fez uma careta, colocou os copos no chão.

"Não estou me sentindo apreciado," ele anunciou, beliscando de leve a coxa do outro.

"Vem cá," Kyungsoo disse, e já se sentiu meio mole, meio entregue. Chanyeol se virou, pernas sobre a cama e se inclinou. Kyungsoo segurou as orelhas dele com a ponta dos dedos, como uma massagem e fez o resto do caminho pra um beijo. Era pra ser um beijo só, um desses carinhos automáticos, mas Chanyeol deixou o peso do corpo cair sobre Kyungsoo, e eles tiveram que se reacomodar; Kyungsoo deixou as pernas ao redor da cintura de Chanyeol, soltas, relaxadas. Chanyeol fez um caminho de beijos com muita saliva e resto de biscoito pescoço abaixo, dando um arrepio esquisito de calor.

Kyungsoo passou os dedos pelo cabelo maltratado pelas mudanças de cor. Chanyeol era todo mutável, nada ficava por muito tempo. Tinha hobbies intensos e passageiros, entra e sai de cursos, músicas nunca terminadas, instrumentos musicais que aprendia e largava, roupas que usava sem trocar por um mês inteiro e depois esquecia no fundo do armário. Kyungsoo nunca tinha nada a mais e só comprava algo quando estava faltando dentro do seu planejamento. Seguia a carreira que queria quando criança. Acordava religiosamente na mesma hora sem precisar de alarme.

"Desculpa," Chanyeol disse baixinho. "Era pra ser um aniversário incrível..."

Kyungsoo suspirou. Sete anos. Sete anos desde que eles saíram em um natal para comer um pedaço de bolo e Chanyeol segurou a mão dele no caminho. "Estamos namorando, né?", ele perguntou, meio confuso, meio tímido, meio excitado com a situação. "Acho que sim," Kyungsoo disse, querendo morrer. Nada era muito como nos filmes. Ele não teve coragem de perguntar, mas Chanyeol teve, e deu certo.

"Eu prefiro assim," Kyungsoo disse. Chanyeol entupia as redes sociais de declarações de amor, mas Kyungsoo gostava de falar entre quatro paredes. Onde eles eram eles mesmos, sem pressa ou artifícios.

Era tarde, eles iam acordar cedo; não era muito glamouroso, suco e biscoitos em um quarto quente, mas era bom. Era bom ter Chanyeol assim, nos seus braços, pesando e sorrindo, farelo no canto da boca, inteiramente seu.

"Beijo," Chanyeol pediu, fazendo um bico exagerado. Kyungsoo enlaçou o pescoço dele e o puxou pra baixo, no lugar correto, pra que ele não escapasse, como era sua lei.  

 

.