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Caramelo Macchiato

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Wade estava olhando para o mesmo quadro há uns cinco minutos – toda vez que ia à cafeteria toda hipster do seu amigo isso acontecia. Ele havia sentado na mesa mais próxima possível do balcão e ficou encarando aquele longo quadro com nomes que mal conseguia decorar tentando decidir por qual iria escolher quando tudo que queria era um simples café preto, mas os jovens dessa geração adoravam tornar coisas simples em produtos artesanais caros – com embalagens coloridas, modernas e sustentáveis e ingredientes orgânicos – vendidos por homens do Brooklyn com longas barbas e gostos musicais estranhos. Será que o Steve ficaria bem com uma barba dessas?

Outro dia mesmo, encontrou uma loja apenas de achocolatado ao vagar sem destino pelas ruas de Nova Iorque e a criança adormecida dentro dele o obrigou a ir lá por curiosidade só para em seguida se chocar com a barbaridade desses hipsters em transformar a combinação de leite com chocolate num produto mainstream consumido em imitações daquelas velhas garrafas de leite feitas de vidro acompanhado de canudos listrados nas mais diversas cores e, para completar a atmosfera retrô, o achocolatado era vendido em uma loja de tijolos vermelhos com direito a um quadro de giz na porta de entrada fazendo marketing de guerrilha com uma frase engraçadinha – "leite tão gelado quanto o coração da sua ex-namorada" (desenho de um coração partido ao meio), dizia a lousa – que não só realmente atingiu seu objetivo ao clamar sua atenção e o fazer rir como fez com que se simpatizasse com a pessoa responsável por escrever aquilo, afinal Wade tinha um histórico pra lá de notável no quesito relacionamentos ruins.

-x-

"Sério, Wade? Não é tão difícil assim." Wade foi retirado de suas divagações de repente enquanto o Steve se aproximava dele o provocando, visto que, sabia a enorme dificuldade que ele enfrentava para escolher uma simples bebida.

Não, não dá pra imaginar ele com uma barba tipo a do Gandalf.

"Isso é pior que aquele maldito restaurante italiano!" Wade olhou sobre o ombro e viu Rogers só balançar a cabeça rindo – com certeza recordando do famoso episódio entre eles que ficou conhecido como 'o incidente da ervilha' – antes de dar dois tapinhas por trás dele de leve em seu ombro esquerdo e sentar no banco de frente ao dele assumindo uma expressão pra lá de séria.

Poucos meses depois de obter dispensa, Wade começou a frequentar uma academia e não demorou a ser contratado pelo dono, James "Bucky" Barnes, para dar aulas de defesa pessoal lá devido à sua experiência com os mais diversos tipos de luta adquiridas enquanto fuzileiro.

Barnes assim como ele havia se alistado ainda novo e estava tendo dificuldades para se adaptar à vida de civil o que fez com que os dois logo se tornassem amigos e foi graças a seu chefe que todas as noites de quinta-feira dos últimos 2 anos se tornaram sagradas, pois esse era o dia oficial da semana em que Wade na maior parte das vezes servia de vela para Bucky e o marido dele, Steve Rogers, ao jantar na casa deles, além de sempre estarem fazendo algo juntos nos outros dias da semana e toda essa convivência explica o porquê dele saber bem o que iria acontecer após ver Steve com aquela cara digna do seu tempo de capitão da 107ª Infantaria e geralmente reservada para momentos que exigiam seriedade igual a esse – se bem que ele esperava um pouco de rodeio antes disso acontecer, mas, pelo visto, parecia que seu amigo queria ir direto ao ponto.

"Wade, eu-" O loiro tentou começar, porém se interrompeu e apoiando os braços em cima da mesa se aproximou o que pôde dele sem ter que se debruçar na mesa, abaixou mais a voz e reiniciou, "Eu sei o por quê de você ter me chamado aqui."

Wade realmente achou que ninguém sabia que andava pior nos últimos dias, contudo descobriu ali que as olheiras que carregava e a irritação constante foram alguns dos sinais que não passaram despercebidos pelos seus amigos.

"Você é uma pessoa bastante aberta, fala o que pensa e sente e não tem vergonha de ser quem é, mas eu entendo que falar disso seja difícil." O seu amigo fez uma pausa parecendo estar considerando quais palavras usar para o que queria dizer. "Não há nada errado em precisar de ajuda."

Rogers o olhou como se buscasse algum sinal positivo dele – e essa provavelmente seria uma boa hora para o ex-fuzileiro responder vocalmente alguma coisa, no entanto havia um nó na sua garganta que o impedia de dizer qualquer coisa – e, apesar de só ter ganho um aceno compreensivo de cabeça, aquilo lhe bastou para prosseguir, "Eu conheço um conselheiro do Centro de Veteranos. O Sam é um cara legal, sabe? Ele é meu amigo há bastante tempo. Quando eu voltei, ele me ajudou bastante e você sabe que o Bucky tem ido em reuniões lá há algumas semanas."

Ele podia sentir os olhos pacientes de Steve fixos nele, apesar de estar concentrado nas suas mãos entrelaçadas acima da mesa com seus polegares mexendo inquietamente em algum tipo de batalha sem ganhador.

"E pode ser que escutar outras pessoas com experiências similares te ajude. Você não vai ser obrigado a falar ou mesmo ter de comparecer sempre."

Ficou claro que essa não era a primeira vez que Rogers ajudou alguém com esse tipo de conversa e talvez fosse o tato que ele estava tendo em tocar no assunto ou ele também ter sido militar e já ter lidado com o mesmo transtorno, entretanto o que quer que fosse fez Wade ter certeza que o Barnes acertou em cheio ao marcar esse encontro para ele com o Steve a fim de falar sobre ainda que não tivesse dito uma palavra quanto a isso.

O ex-capitão ia dizer mais alguma coisa até que algo chamou a sua atenção.

"Eu preciso receber aquilo, ok? Mas pensa no que eu te disse, Wade."

Wade olhou vaziamente na direção do entregador que Rogers tinha apontado e se surpreendeu quando o mesmo, que já havia se levantado, colocou a mão em um gesto reafirmador dessa vez em seu ombro direito e acrescentou antes de ir, "Se você quiser ficar, podemos conversar sobre quaisquer outros assuntos depois."

-x-

Wade sempre foi uma negação em assuntos sérios, contudo não era como se ele pudesse fugir deles para sempre – uma grande e injusta desvantagem de ser adulto.

Conforme o significado daquelas palavras começavam a penetrar em seu interior, pior se sentia.

Dificilmente ele falava abertamente a respeito de seu TEPT e se o fazia, era apenas com o Bucky, que sofria do mesmo, uma vez que o ex-fuzileiro não se sentia confortável em se abrir quando esse era o assunto com seus outros amigos que, por sua vez, o conheciam o suficiente para não mencionar nada sobre.

Bufando, limpou as palmas suadas das mãos em sua calça jeans para em seguida as passar pelo rosto como se esperasse que aquilo o fosse tornar capaz de esquecer totalmente a conversa que havia acabado de ter e se levantou indo em direção ao final da pequena fila pensando que realmente poderia fazer uso de algo quente.

Assim que se posicionou como o último da fila, ele sabia que precisava decidir não o que iria pedir, e sim de que maneira iria descobrir qual seria o seu pedido; normalmente, pedia algo escolhido por uni-duni-tê ou exatamente o mesmo que o cliente anterior a ele tinha comprado – o que nem sempre dava certo, pois algumas pessoas possuíam um péssimo gosto para café –, entretanto ao arriscar olhar mais uma vez para aquele maldito quadro que provavelmente devia povoar os seus pesadelos encontrou não algo, mas sim alguém que com certeza estaria estrelando seus sonhos mais tarde. Oi, barista fofo! No instante em que pensou que algo quente certamente viria a calhar, ele quis dizer uma bebida, porém o barista fofo também serviria. Onde você esteve se escondendo esse tempo todo?

Ele não sabia que uma armação de óculos poderia deixar alguém tão fofo e gostoso ao mesmo tempo. E aquele cabelo? Wade já podia se imaginar bagunçando aquele cabelo castanho escuro perfeitamente arrumado para parecer desleixado ao passar os dedos por ele começando pela nuca e subindo lentamente enquanto o via de joelhos habilmente fazendo um -

"Senhor?" Wade piscou duas vezes. Suas mãos de repente ficaram suadas de novo e sua voz simplesmente havia sumido.

Muito bem, Wade.

Não só era a sua vez e ele não tinha a menor ideia do que pediria por não ter prestado atenção no pedido da pessoa da frente como ainda iria passar vergonha justamente com o Peter. Deus abençoe Steve Rogers por colocar crachás nos seus funcionários e contratar esse barista ridiculamente fofo.

A sua boca abriu uma, duas vezes, porém o que falar quando não se sabe o que dizer? Para a sua sorte não havia mais nenhum outro cliente na fila provavelmente por conta do horário.

"Qual o seu pedido?" Só lhe restou engolir em seco diante daquela pergunta que o fez parecer um estudante que teve um branco justamente na hora da prova – a única diferença era que seu conhecimento sobre café sempre foi praticamente nulo mesmo.

Assim como ele, o rapaz de óculos verificou se existia mais alguém esperando para realizar um pedido antes de tentativamente lhe perguntar, "Talvez eu possa te ajudar a escolher algo?"

Wade se sentiu grato pela existência do Peter, afinal desde que tinha voltado definitivamente do Iraque e descoberto que café havia virado algo descolado que podia ser feito de milhões de maneiras diferentes só conheceu baristas que funcionavam tão automaticamente quanto robôs e que só sorriam com a finalidade de ganhar gorjetas ou nem isso faziam uma vez que pareciam ocupados demais em enviar ondas de desprezo que diziam 'não flerte comigo, ok?'

"Isso seria ótimo." A sua voz saiu como se respirasse aliviado e ele fez uma nota mental de agradecer ao seu cérebro por não ter falhado naquele instante.

"Que tal começarmos pelo básico? Você prefere algo quente ou gelado?"

Quente como você tá bom pra mim. Wade (in)felizmente não disse aquilo, apesar de ter tido vontade.

Ele era conhecido por ter uma boca – e não só por causa das atribuições físicas ou habilidades dela, mas por falar demais também – e precisou se controlar, afinal não queria espantar o funcionário do seu amigo em pleno trabalho dele.

Se teve algo que aprendeu em suas suas idas esporádicas a cafeterias, foi a não flertar abertamente com os funcionários; não que ele já o tivesse feito – Wade, que estava no início dos seus 30 anos, simplesmente não via mais graça de sair flertando a torto de direito como quando era adolescente –, todavia já havia assistido um punhado de clientes levarem cada fora e olhares atravessados dignos de vídeos para serem postados na internet – coisa que ele, Rogers e Barnes disputavam arduamente em quem era uma negação maior.

"Quente." Seu cérebro mais uma vez colaborou só que graças a experiências anteriores ele já sofria por antecipação temendo que logo falhasse, entretanto, ao invés de ficar parado esperando o pior, o homem mais velho testou a maré de boa sorte que estava tendo ao acrescentar corajosamente, "O que você recomendaria, Peter?"

O garoto realmente pareceu surpreso; pelo visto isso era algo que ele não ouvia muito. Outro acerto? Hoje com certeza é o meu dia. Ele lhe deu um pequeno sorriso antes de trazer a mão livre ao queixo e olhar para baixo mordendo o lábio inferior claramente pensando a respeito. Ele não é a coisa mais fofa do mundo?

"Caramelo Macchiato." Peter sorriu satisfatoriamente com a sua resposta e Wade só conseguia pensar em como ele era adorável.

"Esse é o seu favorito?"

A confiança crescente que surgiu no ex-fuzileiro desde que causou o sorriso em seu barista favorito de toda Nova Iorque estava escrita em todo o seu rosto através do sorriso de lado que se formou involuntariamente ali. Controle-se, Wade, seu adolescente com uma paixonite. Como ele podia se sentir agindo feito um adolescente cheio de hormônios e ao mesmo tempo um velho por usar as mesmas palavras antigas que o Steve? Ele tinha certeza de que existia um termo mais moderno do que 'paixonite' só não conseguia lembrar naquele momento.

Foco, Wade! Foca no barista fofo na sua frente!

"Sim..." De maneira adorável, o rapaz de cabelo castanho escuro abaixou os olhos para o copo que segurava desde que tinha dado 'bom dia' a um Wade que se encontrava perdido em seus pensamentos, contudo o rubor que apareceu em suas bochechas não passou despercebido ao terminar de dizer, "Na verdade é sim."

"Então que seja um Caramelo Macchiato." Wade definitivamente ia bem, só precisava lembrar de respirar e pensar antes de falar ou então acabaria dizendo como estava imaginando que se o beijasse poderia sentir o gosto do café com caramelo nele, porém ele sentiu todo o controle que arduamente havia conseguido juntar ameaçar lhe escapar quando olhou para o Peter, que parecia tão concentrado fazendo uma daquelas artes no seu café, e viu que ele tinha uma bunda fofa.

Respira, Wade!

"Espero que você goste."

O professor de defesa pessoal foi novamente resgatado de sua própria mente pelo dono daquela voz realmente sincera que havia acabado de colocar uma xícara de tamanho considerável no balcão ao lado do caixa.

"Com certeza eu vou." Em sua legítima defesa, Wade até deixou essa escapar baixinho se referindo a mais que apenas o café, mas aquele a quem também se referiu, o garoto do outro lado do balcão, não o escutou ou se o fez não tinha esboçado nenhuma reação pelo menos. "E quanto eu te devo?"

"Esse é por conta da casa." Peter sorriu para ele e com um olhar apontou na direção do seu chefe indicando que havia sido uma ordem dele.

Wade avistou o seu amigo e dono da cafeteria, que os observava curiosamente ao invés de estar prestando atenção em sua assinatura no recibo da entrega sobre a prancheta em sua mão, e fez uma versão feminina de uma reverência juntando as pernas e levantando as abas de um vestido imaginário para ele que o respondeu tirando um chapéu imaginário da cabeça com a mão que estava livre para então voltar a sua atenção ao documento ainda que balançando a cabeça de um lado para o outro rindo.

Com o seu foco de volta ao barista, o qual procurava rir baixinho da interação que tinha testemunhado sem parecer querer ser intrometido, seus olhares se encontraram mesmo que brevemente e Wade aproveitou para absorver tudo o que podia naqueles poucos segundos e isso o fez notar o quanto Peter era novo, bem mais novo, provavelmente um universitário ainda. Wade, que nunca foi lá de se importar com a opinião alheia, não podia se importar menos com todo o lance da diferença da idade desde que ele fosse fosse maior de idade, porém ele precisava espantar essas ideias, pois mal havia o conhecido e já se encontrava pensando nisso? Assustador, cara. Sem contar que Peter trabalha para o seu melhor amigo e isso poderia trazer problema a ambos – algo que ele obviamente não queria –,portanto , o melhor era esquecer aquilo tão rápido quanto começou.

"Obrigada, Peter. Espero que você tenha um bom dia."

"Você também."

E com ambos sorrindo, Wade pegou a sua xícara com todo o cuidado a fim de não derrubar e procurou uma mesa diferente daquela em que se sentou anteriormente; ele precisava controlar os pensamentos inapropriados que estava tendo com o barista fofo e ficar próximo do balcão o admirando definitivamente não o ajudaria em nada.

Antes do ex-fuzileiro terminar o seu Caramelo Macchiato, que com certeza era o seu mais novo café favorito, Rogers voltou e eles ficaram conversando por mais algum tempo sobre os mais diversos assuntos que não aquele.

-x-

Quando ele voltou ao trabalho naquele dia, Bucky não deixou passar em branco o fato dele ter voltado tão bem humorado.

Wade certamente teve um bom dia.