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EROS

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— Minha vida é uma desgraça.

O barman riu, provavelmente pensando que eu já estava bêbado demais.

— Não, sério mesmo, nada dá certo pra mim. — Eu insisti.

Como ele pode se divertir enquanto eu me lamento sobre os infortúnios da minha existência deprimente?

— Calma lá, Sr. Minha-vida-não-presta. — Ele disse, usando a coqueteleira para preparar o drink de algum outro cliente menos mala que eu. — Você tem as chaves de um carrão, suas roupas são de marca, parece ter boa saúde e é bonito o suficiente pra fazer seis caras te abordarem desde que chegou. Não parece que você é um sofredor.

Eu virei o resto da bebida em meu copo, sentindo meus movimentos mais lentos por conta de todo o álcool que já ingeri.

— O carrão é da minha mãe, as roupas de marca estão molhadas por causa da chuva, e tá, minha saúde é boa mesmo, mas não use o fato de eu ter sido abordado por seis caras como algo bom, porque é sério, eu sou hétero.

— E é por isso que você está num bar gay. Faz sentido. — Ele provocou, se afastando para servir o coquetel.

Quando voltou, eu expliquei, ansioso: — Eu não sabia que era um bar gay. Só entrei no primeiro que vi e aconteceu de ser esse. Mas eu gosto de mulher, só de mulher, eu amo mulher.

— Ok, hétero, eu já entendi. Você gosta de mulher. Parabéns.

Eu deixei minha postura relaxar sem muita elegância, e o bartender me serviu uma dose de sei-lá-o-que.

— Mas você parece meio idiota, — Ele recomeçou, sorrindo com deboche — então olhe ao redor. Não existem muitas mulheres por aqui.

— Qual é, Calvin! — Eu bati o copo no balcão, fazendo um pouco de bebida respingar no mesmo. — Eu estou aqui porque acabei de pegar minha namorada com outro cara, a última coisa que eu quero agora é arranjar mulher. Eu só quero beber, porque bebida não trai!

— Isso aí, gostoso! — O cara sentado no banco ao lado do meu bradou, e eu apenas o olhei com preguiça antes de voltar a olhar o bartender.

— Calvin? — Ele perguntou, levantando as sobrancelhas como se estivesse incomodado com o apelido que tomei a liberdade de usar.

— Quando você se abaixou, eu vi sua cueca. É Calvin Klein. E eu preciso te chamar de algum jeito, então vai ser assim, Calvin.

— Perguntar meu nome não passou por sua cabeça?

Eu respirei fundo e ergui os ombros com algum desleixo quando estiquei minha mão. — Eu sou Jimin. Como você se chama?

— Eu não digo meu nome a clientes chatos, Jimin. — Ele rebateu, ignorando minha mão estendida, e eu suspirei sabendo que me encaixo nessa categoria.

Mas antes que eu pudesse reclamar, outra coisa me chamou a atenção. Um grupo reunido nos sofás do outro lado do bar começou a fazer muito barulho, entre gritos e risadas, e, curioso, eu olhei para eles tentando descobrir o motivo do alarde. Entretanto, não havia nada de incomum acontecendo por lá.

Quer dizer, nada de incomum para o que eu imagino que seja normal num bar gay.

Dos seis, quatro estavam sentados nos sofás agrupados, e dois estavam de pé. O maior deles encostado na parede, o menor em sua frente e seus corpos estavam tão próximos que pareciam estar prestes a se fundir, como se estivessem se comendo por cima das roupas.

O estranho na cena é que o cara que estava encostado na parede tinha seu pescoço sendo devorado pelo que estava em sua frente, e suas mãos estavam segurando o mesmo, mas ele estava olhando para mim.

Quando percebeu que eu o olhava de volta, ele sorriu com tanta malícia que eu me vi obrigado a virar meu rosto com rapidez, meio tonto.

— Ei, hétero — Calvin me chamou, e eu o olhei um pouco atordoado. — Você já disse que só gosta de mulher e tal, mas eu me sinto na obrigação de te avisar, então fica longe daquele cara.

— O que? — Questionei, um pouco confuso.

— O puto que você estava olhando — Ele disse. — Não chame a atenção dele, porque se aquele cara te quiser... sua heterossexualidade está condenada.

Eu apertei os olhos, ofendido. — Até parece.

Calvin ergueu os ombros — Só avisei mesmo.

Eu o vi caminhar detrás do balcão para servir outro cliente, e virei o resto de bebida no meu copo antes de ceder ao impulso de virar o rosto para olhar o grupo barulhento outra vez.

Quando o fiz, eu vi que dois dos caras que estavam sentados olhavam para mim, e eles riram depois que um deles fez algum comentário, mas eu não dei muita bola e deslizei meus olhos até encontrar o safado que me olhava da primeira vez.

Ele ainda estava encostado na parede, mas agora uma de suas mãos estava apertando com força a bunda do outro cara e sua boca parecia muito ocupada em chupar a pele do pescoço dele.

Eu não queria perder tanto tempo olhando para aquilo, mas acho que o álcool tirou um pouco do meu controle, e então não consegui desviar os olhos.

Eu conhecia a música que estava tocando, The eve, do EXO, e o ritmo dela parecia ter sido feito para aquela cena.

O cara encostado na parede tinha os cabelos escuros e bagunçados cobrindo sua testa enquanto ele chupava o pescoço do outro, mas eu vi quando ele levantou os olhos apenas o suficiente para me olhar por baixo dos fios pretos, como se soubesse que eu estava observando-o outra vez.

Aquele era o momento certo para virar o rosto outra vez e nunca mais olhar naquela direção, mas, antes que eu o fizesse, ele inverteu as posições num movimento muito rápido e um pouco bruto, empurrando o outro contra a parede.

A mão dele subiu pela perna do menor, e depois empurrou seu quadril contra a barriga do cara que parecia completamente entregue, com os olhos fechados e os lábios entreabertos.

Não precisava de muito para perceber que ele estava gemendo graças aos movimentos imorais do mais alto.

Eu respirei fundo, percebendo que estava há tempo demais sem respirar, e involuntariamente desci meus olhos.

O filho da puta estava usando uma calça de couro extremamente apertada que marcava suas pernas fortes e uma bundinha bem bonita.

Um pouco chocado por perceber que isso me provocou uma reação quando não deveria provocar nenhuma, eu voltei a desviar o olhar, dessa vez prometendo a mim mesmo que não olharia nunca mais para aqueles dois.

Eu tomei o resto da bebida no meu copo num fôlego só. É isso. Eu bebi demais e estou tendo pensamentos estranhos.

— Calvin, me dá uma água, pelo amor de deus — Eu pedi, vendo que o bartender me olhou com um riso preso nos lábios.

— Tá precisando se hidratar mesmo depois de babar tanto, né? — Ele provocou quando colocou a garrafa descartável na minha frente.

— Não sei do que você está falando — Respondi, tomando quase metade da água de uma só vez.

Calvin não disse mais nada, mas o sorriso idiota continuou em seu rosto.

Eu preciso sair daqui. Esse lugar definitivamente não está me fazendo bem.

Talvez eu devesse ir sofrer as dores da traição recém descoberta na casa do Taehyung. Taehyung sempre está disposto a ouvir minhas lamentações.

— Calvin — Chamei de novo, já puxando a carteira para fora do bolso. — A conta.

Antes de confirmar, Calvin fez uma careta como se decretasse minha derrota, e então percebi que alguém sentou no banco livre do meu lado esquerdo.

Quando virei o rosto, ainda um pouco lerdo, eu vi que é ele.

Não parecia uma ameaça quando ele estava do outro lado do bar. Mas então o cara da calça de couro, dos cabelos escuros e do sorriso malicioso estava, de repente, perto demais, e ele não parecia disposto a parar de me olhar.

Ainda um pouco atordoado, eu engoli minha saliva com alguma dificuldade, vendo que ele se debruçou sobre o balcão e uma fenda na parte superior de sua blusa branca deixa boa parte de seu peitoral exposto.

— Quanto deu, Calvin? — Eu insisti virando para o bartender, irracionalmente afetado pela presença desse cara promíscuo logo ao meu lado.

Mas antes que Calvin respondesse minha pergunta ansiosa, outra voz se fez ouvir, e eu sei que é a voz dele, porque esse timbre safado combina com tudo em sua forma de agir.

— Não vai agora, amor — Ele disse, e eu quase gritei e pulei para o lado quando se inclinou em minha direção e eu senti sua boca tocar minha orelha e sua mão tocar minha coxa. — Eu posso te dar um pouco daquilo que você estava olhando com tanta atenção.

❥ [Continua...]

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A mão desse safado estava em minha coxa e logo continuou subindo em direção à minha virilha.

Assustado, eu dei um tapa em seu braço e virei para ele com os olhos arregalados. Mas ele ainda sorria, e ergueu uma linha branca com a mão que me assediava um segundo antes.

— Tinha um fiapo solto na sua calça — Ele disse, cínico, quando afastou seu rosto do meu.

Eu senti meu coração bater muito rápido, e isso não fez sentido nenhum. Eu não deveria sentir nada além de raiva.

Então, com as mãos mais frouxas que antes, eu abri minha carteira, tirei mais dinheiro do que sei ser necessário para pagar minha conta e joguei as notas sobre o balcão.

— Pode ficar com o troco — Eu disse para Calvin, e no instante seguinte levantei com pressa, me atrapalhando na hora de guardar minha carteira de volta no bolso.

Meus pés também ficaram atrapalhados, mas eu não parei de caminhar até que estivesse fora daquele bar.

Quando cheguei em meu carro, estacionado no quarteirão seguinte, eu praguejei por ver que ele ficou preso entre uma caminhonete e um sedan.

Porra. Parece que as pessoas sentem prazer em prender o carro dos outros!

E não que eu esteja em condições de dirigir, mas também não estou em condições de ponderar minhas ações. Eu só quero sair daqui.

Então tateei meus bolsos para pegar meu celular e pedir um táxi, mas me desesperei quando percebi que não o tinha comigo.

— Mas que droga...?

— Procurando isso?

Eu olhei para o lado num sobressalto quando reconheci a voz do tarado, e sério, não é possível que esse cara tenha me seguido para fora do bar.

De qualquer forma, ele está com meu celular na mão, e eu travei meu maxilar antes de caminhar até ele e estender minha palma para pegar o telefone de volta, mas ele levantou o braço, deixando-o fora do meu alcance.

Esse seria um ótimo momento para ter uns centímetros a mais.

— Me dá. — Eu disse, tentando afastar esse nervosismo sem sentido ao mesmo tempo em que tento não explodir de raiva.

Ele apertou os olhos, como se estivesse ofendido. — Não vou ouvir um "obrigado"?

— Obrigado. — Murmurei, azedo. — Agora devolva meu celular.

Ele inclinou o rosto, como se estivesse pensativo, e abaixou um pouco o braço, mas voltou a erguê-lo assim que eu tentei pegar de volta o que era meu.

Irritado com sua falta de noção, eu pulei, tentando alcançá-lo, mas a ebriedade me fez perder o equilíbrio e eu quase desmontei no chão quando aterrissei. Entretanto, uma medida um pouco precipitada me fez lançar meu corpo na direção do dele para encontrar algum sustento em meio à embriaguez e então meu peitoral se chocou ao seu, nossos rostos ficaram terrivelmente próximos e eu inspirei devagar quando senti seu braço me segurando, vendo seu sorriso sacana reaparecer quando minhas mãos hesitaram em segurar seus ombros para me equilibrar melhor, depois do susto.

— Você não acha que fica melhor assim? — Ele perguntou, apertando ainda mais o braço ao redor da minha cintura enquanto o outro ainda erguia meu celular longe do meu alcance.

Eu pisquei, percebendo o que está acontecendo aqui, e tentei me soltar na mesma hora, mas o safado não só parece ser forte. Ele realmente é.

— Me solta!

— Me solte você primeiro. — Ele rebateu.

Eu demorei um pouco a entender, mas então percebi que as desgraçadas das minhas mãos venceram a relutância do meu consciente e estavam apertando seus ombros.

Deus, ele é tão firme, tão...

Homem.

Eu estou apalpando um homem.

Eu balancei minha cabeça para os lados, tentando me livrar desse efeito estranho do álcool ao mesmo tempo em que o soltei, como se seu corpo estivesse em chamas.

— Puta que pariu, que merda tinha naquela bebida que Calvin me deu? — Eu esbravejei, sozinho.

Calvin só pode ter me drogado. Porra, Calvin!

— O que foi? — Ele perguntou em tom de provocação e eu dei um pulo, quase empurrando meu quadril contra ele, quando senti sua mão descer de minhas costas e tocar minha bunda.

Que abusado!

— Ok, eu não sei qual é a sua, mas você passou dos limites! — Protestei, ultrajado, conseguindo me livrar do seu abraço forte quando dei um socão em seu peitoral e ele pareceu perceber que eu fiquei ofendido de verdade, só então me soltando.

Eu respirei fundo, até sentindo que parte da embriaguez se dissipou, e então passei minha mão pelos cabelos, jogando-os para trás.

— Devolve meu celular. Sem tocar em mim. — Eu ordenei, incisivo, recuando um passo e estendendo minha mão outra vez.

Ele desceu os olhos até minha palma aberta, à espera, e depois olhou para meu rosto. Sob a luz fraca da iluminação porca da rua, eu me desespero com minha própria incapacidade de ignorar a beleza dele, então logo balanço minha mão num gesto impaciente e me surpreendo quando, ao invés de fazer mais gracinhas, ele só colocou meu telefone sobre minha palma.

Entretanto, ele deixou sua mão sobre a minha e eu não tive tempo de reagir quando me puxou suavemente, ainda com meu celular impedindo o contato direto entre nossas palmas. Atordoado, eu só consegui arregalar os olhos quando, com uma mão segurando a minha e com a outra segurando meu rosto, ele me deu um beijo na bochecha.

Por alguns instantes eu não senti nada além de sua boca pressionando minha pele, e algum tempo depois ele se afastou, ainda me segurando, para olhar em meus olhos com os seus escuros, que são meio safados, mas também são surpreendentemente... fofos?

Ainda totalmente pego de surpresa, eu continuei parado, com os olhos arregalados, respirando devagar demais diante do seu silêncio.

Um homem me beijou. Um homem realmente me beijou. Foda-se se foi na bochecha.

O único homem a me dar beijinhos na bochecha foi meu pai, e isso deve ter acontecido uma única vez já que o homem quase abertamente me odeia. E Taehyung, mas nós tínhamos sete anos na época.

Depois de piscar como um idiota, eu voltei a me situar e apertei minha mandíbula, atordoado.

— Eu disse pra não me tocar — Relembrei, com o choque domando até mesmo a fúria em minha voz.

Ele inclinou o rosto levemente para o lado, quase brincalhão, e puxou o lábio para dentro antes de soltá-lo com um sorriso divertido.

— Eu não vou te impedir se você tentar se afastar. — Ele rebateu, quase em tom de desafio, e eu ofeguei vergonhosamente quando seu polegar afagou minha bochecha como num lembrete de que sua mão ainda estava em mim.

Eu respirei fundo, sem conseguir me mexer enquanto meu peito subia e descia dolorosamente devagar, e engoli em seco quando percebi que, na verdade, não quero me afastar dele.

Santa mãe de deus, o que está acontecendo comigo?

Sem uma resposta, eu continuei paralisado, olhando-o ainda com os olhos bem abertos, e não tive reação nem mesmo quando sua outra mão serpenteou traiçoeira até minha cintura, e então me apertou com um pouco de força, me puxando mais contra ele. Por último, fazendo meu peitoral tocar o seu outra vez.

Sua mão firme na lateral de minha barriga, apertando minha pele através do tecido da minha blusa, me fez abaixar o olhar, tenso, antes que eu voltasse a encará-lo. Então eu vi seus olhos me analisando e resfoleguei quando, depois de perceber que meu corpo não apresentou nenhuma resistência, ele avançou, sem me soltar, me fazendo recuar até que eu sentisse minhas costas se chocando contra a lataria ainda úmida do carro enquanto meu corpo é pressionado pelo seu.

Quando sua outra mão desceu também, segurando meu quadril com força, eu quase chorei por não querer chorar.

A sensação de ser tocado com tanta precisão foi algo novo para mim, mas o que mais me desespera é perceber que eu gosto.

Pior ainda, a ansiedade me dominou completamente enquanto eu esperei o que viria a seguir, tombando a cabeça levemente para trás para poder ver seu rosto que, de tão próximo, fez sua respiração lenta acertar minha pele.

Meu corpo todo implorou por algo que eu não queria desejar, por isso falhei em controlar minhas mãos, mais uma vez, e no instante seguinte uma delas segurou seu braço, puxando-o mais para perto, enquanto a outra, que quase esmagava meu celular, se apoiou em seu peitoral, tentando empurrá-lo ao mesmo tempo em que o puxava.

O ar fugiu de mim quando entreabri os lábios, sabendo que a queda brusca de temperatura depois de uma chuva inesperada não é o motivo dos meus pelos eriçados.

Ainda sem dizer nada, ele voltou a se inclinar em minha direção, subindo sua mão outra vez para segurar meu queixo. Sua boca tocou a minha bochecha novamente, roçando-a suavemente sobre minha pele sensível.

Meu estômago virou uma bagunça e num movimento impensado eu avancei minha boca na sua, tentando beijá-lo. Entretanto, ele recuou um pouco e sorriu quase vitorioso para voltar logo depois, chupando de leve a pele em meu queixo e trilhando todo o caminho pela linha da minha mandíbula, até pressionar seus lábios no ponto da união do meu maxilar com o pescoço.

Rendido, eu tombei minha cabeça ainda mais para trás e fechei meus olhos com força, enterrando minhas unhas em seu braço quando sua língua deslizou por minha pele, antes de chupá-la.

Seu corpo cobriu completamente o meu, me tocando sem pudor, e eu agradeci por já estar tarde e a rua estar vazia quando gemi baixo depois de sentir seus dentes arranhando minha pele sensível antes de marcá-la com sua saliva quente quando a chupou mais uma vez.

Como numa provocação, ainda beijando meu pescoço, ele passou sua mão para trás e puxou meu quadril, afastando-o do carro para então poder descer sua palma e apertar minha bunda através do jeans.

Diferente da primeira vez, não tinha espaço algum para indignação, e eu só segurei seu braço com mais desespero quando ele apertou ainda mais minha nádega e chupou meu pescoço com mais força.

Meu juízo foi completamente destruído e eu soube disso quando senti a fisgada desesperada dentro de minha calça, com meu membro começando a endurecer. Como se pudesse ler minha mente, ele empurrou seu quadril contra minha virilha, mostrando que também estava com o início de uma ereção.

Meu primeiro reflexo foi gemer mais uma vez porque, puta que pariu, isso é gostoso.

Mas, menos de cinco segundos depois, eu abri meus olhos, em choque, ao perceber o que isso significa.

Ele tem um pau.

— Sai! — Eu bradei assustado, empurrando-o pelo peito e ofegando pela percepção tardia, mas também porque já tinha perdido o controle da minha respiração quando ele começou a me tocar.

Sem avançar em mim outra vez e deixando um passo de distância entre nossos corpos, ele me olhou, em silêncio, enquanto eu me espremia contra o carro como um animal acuado, atordoado demais.

Eu bebi muito. Eu bebi pra caralho. Foi só por isso que eu deixei essa besteira acontecer.

Por favor, deus, diz que foi!

— Eu vou embora. — Anunciei, mas não me mexi.

Meu carro ainda estava preso entre os outros dois e eu sinceramente não encontrei força nenhuma em minhas pernas para me mover.

O desgraçado então sorriu, como se percebesse meu estado.

— Eu moro aqui perto. — Ele disse. Me surpreende perceber que não existe só maldade em seu tom. — Você pode passar a noite comigo.

— Nem fodendo!

Ele revirou os olhos, mas sem se desfazer do sorriso cafajeste.

— Eu te levo até o ponto de táxi, então.

— Eu durmo dentro do carro. — Resmunguei, ainda atordoado, e me virei para destravar a porta da caminhonete, mas senti meu braço ser puxado antes que eu sequer achasse a chave.

— Amanhã você volta pra pegar seu carro. — Ele insistiu, sem afrouxar o aperto quando me puxou pela calçada em direção a uma avenida próxima. — Acredite em mim, você não quer dormir na rua de um bairro como esse.

— Tá bom! — Bradei, quase tropeçando em meu pé quando tentei me soltar dele. — Mas me solta!

Ele me olhou pelo canto do olho com uma expressão que parecia me desafiar, e a única coisa que fez depois foi continuar me puxando.

Quando finalmente chegamos na avenida, ele me levou a um ponto de táxi, onde dois carros já estavam à espera de novos passageiros.

Apesar de segui-lo e de parecer que ele estava tentando me ajudar, eu estava desconfiado, e recuei quando ele finalmente me soltou.

— Eu já vou. — Anunciei, então, mas fui impedido outra vez antes que entrasse no primeiro táxi.

— Eu quero seu número. — Ele disse.

— E eu quero esquecer essa noite desgraçada. Infelizmente não temos tudo que queremos.

Ele suspirou, impaciente, e foi rápido em tirar o celular que ainda estava em minha mão. Ainda lento demais, eu nem consegui impedi-lo quando ele segurou meu dedo para usar minha digital para desbloqueá-lo, e fui facilmente contido quando resmunguei, tentando pegar meu telefone de volta.

— Eu não acredito que você vai fazer isso de novo!

Ele só me olhou por um instante, e então tirou do bolso o que pressuponho ser seu próprio celular, e ligou do meu telefone para o seu, só então devolvendo-o para mim.

— O número da última ligação é o meu, pode salvar meu contato como quiser.

— Vou salvar como não atender. — Respondi, mal humorado. — Abusado!

— Talvez eu prefira que você salve com meu nome. — Ele repensou, com um sorrisinho mal contido.

— Olha aqui o meu grande foda-se pro que você prefere — Eu disse, quase enfiando meu dedo do meio erguido no meio da sua cara.

— Eu honestamente espero que o que você tenha dentro dessa calça seja maior que esse dedo — Ele disse e eu de imediato abaixei minha mão, ultrajado.

— Eu te garanto que é enorme!

— Sorte a minha. — Voltou a dizer, e eu fiz uma careta horrorosa diante da sugestão em sua resposta.

Pior, ele ainda deu um passo em minha direção e eu nem tive tempo de me esquivar antes de sentir sua mão em minha cintura e receber outro beijo na bochecha, antes de sentir sua boca contra minha orelha outra vez.

— De qualquer forma, — Ele disse, baixo. — meu nome é Jeon Jungkook.

Eu respirei fundo mais uma vez e arrumei minha postura antes de olhá-lo com o nariz empinado.

— Ok, Jeon Jungkook. Se deus for bom, te vejo nunca mais.

Depois, não disse mais nada. Só me adiantei para entrar no táxi e passar meu endereço para o motorista, deixando esse tal cara para trás e carregando comigo a certeza de que o que aconteceu essa noite nunca mais vai se repetir.

❥ [Continua...]

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Chegar em casa e entrar sem acordar meus pais foi uma tarefa fácil; conseguir dormir, nem tanto.

Meu corpo continuou quente só com a lembrança do toque daquele abusado e eu revirei na cama por boas horas da madrugada, incomodado pela forma como, ao invés de repudiar, todo o meu ser cedeu às mãos e à boca dele.

Mesmo assim, eu continuei culpando a bebida. Tanto por essa reação estranha do meu corpo quanto pela dificuldade em dormir. Por isso, quando o dia amanheceu, eu mal tinha fechado os olhos e já precisei levantar antes que minha mãe acordasse e percebesse que seu carro não estava lá, como eu prometi que estaria.

Completamente derrotado, eu me arrastei até o banheiro do meu quarto, decidido a tomar uma ducha fria para tentar espantar a sensação horrorosa de cansaço, mas mal passei da porta e quase gritei, assustado, ao ver meu reflexo no espelho do closet.

Não foram as olheiras ou os cabelos loiros bagunçados como nunca que me fizeram inclinar em direção à imagem refletida logo diante de meus olhos. Foi a marca roxa e irregular no lado direito do meu pescoço, que só pode ter uma causa.

— Aquele filho da puta deixou um chupão! — Constatei, sozinho, inclinando meu rosto enquanto observava a mancha.

Completamente desacreditado sobre ter deixado isso acontecer, eu passei as mãos pelo rosto, frustrado, antes de acertá-las contra o espelho, frustrado.

— Porra, caralho, puta que pariu... eu nunca mais vou beber! — Resmunguei, inconformado.

E mesmo ainda querendo gastar mais um bom tempo com minha autocondenação irrefreável, a necessidade de esconder de minha mãe que eu tinha voltado para casa e deixado seu carro na rua foi maior, por isso me enfiei debaixo do chuveiro e esfreguei meu corpo com força, como se isso pudesse apagar os vestígios do toque daquele desgraçado. Depois de me vestir, então, eu peguei minhas coisas e desci até a cozinha, onde Jiwon, nossa empregada, já se ocupa fazendo o café da manhã.

— Que milagre! Caiu da cama, foi, menino? — Ela arregalou os olhos ao me ver passando direto até a geladeira, parecendo perceber a obra de arte em meu pescoço. — Jimin do céu, o que é isso?!

— Bom dia para você também. — Eu disse depois de secar um copo de água e me aproximei só para beijar sua testa, como sempre faço, ignorando sua última pergunta. — Preciso resolver uma coisa. Volto já.

— Não vai comer nada antes de sair? — Ela insistiu, me vendo caminhar em direção à porta de casa. — Saco vazio não para em pé, Jimin!

— Como quando voltar! — Respondi, apressado, e só parei para pegar meus sapatos na sapateira ao lado da porta antes de calçá-los.

Assim que saí, eu coloquei os óculos de sol de armação quadrada no rosto, porque meus olhos estão particularmente sensíveis por conta do pouco sono, mas também porque óculos me deixam irresistível.

Depois, caminhei, ou me arrastei, pela avenida até encontrar um táxi disponível. Durante o caminho até o lugar onde deixei o carro da minha mãe, eu quase cochilei, mas fui arrancado do meu estado de letargia quando meu celular vibrou e, preguiçosamente, o puxei para fora do bolso.

Não atender
|Bom dia (:

Eu revirei os olhos furiosamente ao perceber quem enviou a mensagem e devolvi o celular ao bolso imediatamente, sem nem ponderar a possibilidade de responder.

Se eu o fizesse, de qualquer forma, seria para xingá-lo até a décima quarta geração por ter feito o que fez em meu pescoço.

Se eu tivesse um death note, o nome Jeon Jungkook certamente seria escrito lá.

— Moço, é aqui? — A voz do taxista alcançou meus ouvidos, e só então percebi que passei o resto do percurso inteiro perdido em minha própria mente, amaldiçoando aquele safado do bar.

— É aqui, sim. — Respondi, tirando da carteira o dinheiro para pagar a corrida. Depois de pegar o troco, eu finalmente desci do táxi e caminhei até onde a caminhonete de luxo de minha mãe estava estacionada desde a noite anterior.

Aliviado por vê-la inteira e com folga o suficiente para ser tirada dali, eu destravei as portas e sentei no banco de couro, cansado demais para dirigir.

Por isso, fiquei parado por um bom tempo, com o corpo reclinado no assento e as mãos apoiadas no volante, olhos fechados. Quando os abri outra vez, cometi o erro de olhar para o lado e então as lembranças da madrugada que antecedeu essa manhã desgraçada voltaram com força total.

Inconformado, eu chacoalhei meu corpo ao lembrar que deixei aquele cara me pressionar contra esse mesmo carro, e depois deixei sua boca morder e chupar meu pescoço até deixá-lo nesse estado.

Se eu o encontrar novamente, eu juro que passo esse carro por cima dele, dou ré e depois passo por cima de novo.

Mas mesmo com a vontade de atropelá-lo até transformar seu corpo em uma papa nojenta e irreconhecível, na verdade eu preferia nunca mais olhar para aquele rosto e, lembrando que ele disse morar por perto, eu finalmente juntei minha coragem esparsa e dei partida no carro, saindo desse lugar para evitar qualquer chance de encontrá-lo.

Entretanto, não me afastei muito antes de ouvir meu estômago vazio roncar vergonhosamente alto. Eu não como nada desde as quatro da tarde de ontem — porque o jantar, que era para ter sido aproveitado com minha namorada, ou ex, nem sei mais, foi completamente estragado quando eu a ouvi gemendo para outro em sua casa.

Faminto e quase sem energia depois de gastá-la completamente em minhas crises de ódio e arrependimento, eu decidi que poderia pelo menos passar em algum lugar para comprar algo para comer antes de voltar para casa, e então parei na primeira cafeteria que encontrei no caminho. É meio que uma espelunca, na verdade, ou talvez eu só esteja acostumado a lugares muito mais luxuosos.

De qualquer forma, os doces exibidos na pequena vitrine do balcão de pedidos parecem tão gostosos que me fizeram ter a confiança de que não me arrependeria de ter escolhido o lugar.

Ainda como um zumbi, eu nem tirei meus óculos e mal olhei para a funcionária que me atendeu quando paguei meu pedido, sem me preocupar em ter comprado uma fatia de torta de morango para comer no café da manhã. Sentado, eu comi distraidamente enquanto mexia no celular, tentando decidir se mando mensagem xingando minha ex ou se a bloqueio em todas as redes sociais e aplicativos de comunicação possíveis, mas uma notificação no topo da tela me interrompeu antes que eu tomasse minha decisão, e eu bufei ao perceber quem era.

Não atender
|Eu poderia ficar ofendido por você não responder minha mensagem, mas você fica tão gracinha com a boca toda suja de chantilly assim... não dá pra ficar bravo ): 

Eu quase joguei o celular, assustado, antes de passar os olhos nas mesas ao redor, procurando pelo tarado. Depois de não encontrá-lo, eu peguei meu celular novamente e o respondi, finalmente.

VOCÊ É UM STALKER???|

Não atender
|Eu sou muito lerdo pra ser stalker

Não atender
|Sou só um trabalhador comum lutando pra sobreviver nesse país capitalista

Não atender
|Mas você é muito bonito, me tira a concentração

Não atender
|E limpa esse chantilly no canto da sua boca, pelo amor de deus, que covardia

A primeira coisa que eu fiz foi usar as costas da mão para limpar a boca, depois voltei a levantar meus olhos, procurando-o, e então vi o tal Jeon Jungkook alguns passos à frente, atrás do balcão dos pedidos e acenando discretamente para mim assim que nossos olhares se cruzaram.

Pare de me importunar ou eu vou falar com o seu gerente!!!!|

Não atender
|Você é meio estressado, né? :x

Eu tive uma noite de merda, precisei acordar no meio de uma ressaca infeliz, estou tomando meu café da manhã nessa espelunca e ainda tenho que aguentar um inconveniente como você|

É CLARO QUE EU ESTOU ESTRESSADO|

Não atender
|Não chama de espelunca :/

Não atender
|Mas me desculpa por te incomodar tanto assim... vou fazer uma coisa pra me redimir, ok?

Eu levantei os olhos outra vez e o vi começar a preparar o que pressuponho ser um latte, e ele demorou algum tempo finalizando a arte no café com a espuma do leite, sem olhar para mim uma única vez enquanto o fazia, completamente concentrado.

Quando ele colocou a xícara sobre uma bandeja e saiu detrás do balcão com o avental preto amarrado sobre sua calça, eu me amaldiçoei por sentir meu coração palpitar, vendo-o caminhar em minha direção.

Eu sempre tive dificuldades em reconhecer a beleza de outros homens, sei lá por quê. É como um bloqueio, eu simplesmente não consigo fazer isso sem gerar um pequeno desconforto no fundo da minha consciência. Entretanto, é impossível negar a beleza desse tal Jeon Jungkook.

Eu o vejo caminhando em minha direção com a camisa branca de mangas longas com os dois primeiros botões abertos, evidenciando por baixo uma blusa segunda pele preta, de gola alta, as argolas pequenas em suas orelhas e o cabelo preto alinhado como não estava ontem, deixando parte de sua testa amostra. E tudo isso, combinado aos detalhes de seu rosto que não pude perceber pela pouca iluminação da noite passada, me tornam incapaz de não me render à sua aparência.

E isso me irrita e me desespera.

— Meu pedido de desculpas. — Ele disse, segurando o conjunto pelo pires e tirando-o da bandeja para servir na mesa, ao lado da minha fatia de bolo comida pela metade. Eu olhei para ele e apertei meus lábios quando percebi que quase sorri ao vê-lo com um sorriso bonito, pequeno e orgulhoso no canto da boca. Depois, eu desci meus olhos até a xícara diante de mim, e vi um conjunto contínuo de corações desenhado sobre a superfície do latte que me foi servido.

— Latte art não é minha especialidade, mas eu me esforcei. — Ele anunciou, sorridente. — Gostou?

Eu analisei o desenho feito com leite mais uma vez, antes de engolir em seco ao perceber que sua ansiedade em me agradar me deixou com as mãos suadas. Por fim, incomodado por isso, eu apoiei meus dedos sobre a xícara e voltei a olhá-lo.

— Ficou bom. — Eu disse, mas acabei por empurrar a xícara em sua direção, rejeitando-a. — Mas eu não gosto de café.

O sorriso dele murchou por completo e os olhos pretos e redondos se arregalaram, cheios de desânimo.

Eu não consigo acreditar que essa é a mesma pessoa que me deixou esse chupão horroroso no pescoço.

— Eu... — Ele disse, sem jeito. — Eu posso preparar outra coisa... um chocolate quente?

Eu senti minha garganta apertar ao notar sua decepção seguida de sua tentativa em ainda assim se redimir. Eu não acredito que estou com pena do safado.

— Não precisa perder seu tempo. — Avisei, lutando contra o impulso de retirar o que disse e confessar que, na verdade, adoro café. Depois, fiquei de pé. — Eu já vou.

— Ei...

Ignorando seu chamado chateado, eu peguei minhas coisas sem me importar em deixar o resto da fatia de bolo para trás.

— Ei... — Eu o ouvi me chamar de novo, depois seus passos apressados me seguindo e por último sua mão me segurando quando empurrei a porta de vidro e passei para o lado de fora, fazendo o som da sineta acima dela reverberar por toda a cafeteria. — Ei, espera!

— Me escuta, Jeon Jungkook — Eu virei repentinamente para ele, ainda sentindo sua mão me segurar. — Vamos estabelecer limites, ok? Ontem eu estava bêbado e posso não ter conseguido colocar isso em palavras, mas você não pode simplesmente tocar ou sair segurando pessoas assim, entendeu?

— Desculpa. — Ele pediu, afastando sua mão de mim imediatamente.

Eu arqueei minhas sobrancelhas, surpreso.

— Como é? — Perguntei, desacreditado.

— Desculpa. — Repetiu, coçando a testa num gesto frustrado. — Eu não saio tocando em pessoas sem ter certeza de que elas querem isso, é só que... — Ele hesitou, prestes a dizer algo, mas desistiu. — Não importa, não tem justificativa. Só me desculpa mesmo, principalmente por ontem.

Eu cruzei meus braços sobre o peito num gesto ainda mais incrédulo. Não imaginei que ouviria uma coisa sensata vindo do tarado.

— Então quer dizer que você não é tão safado e sem noção quanto eu achei, é? — Questionei, sem acreditar.

— Não, safado eu sou mesmo.

Minhas sobrancelhas se arquearam ainda mais. — Então por que você está se desculpando? — Pressionei.

— Porque sem noção eu não sou. Na maior parte das vezes, pelo menos.

Eu estou surpreso. Verdadeira, honesta e assustadoramente surpreso.

Um pouco sem reação, eu relaxei meus braços cruzados, depois suavizei minha expressão e por fim desviei o olhar por um segundo antes de voltar a olhá-lo.

— Certo. Tanto faz. — Constatei ainda meio pego de surpresa, e por fim deixei um pigarro sem força limpar minha garganta. — Eu já vou agora.

— Não, espera! — Ele me chamou de novo e adiantou o passo para se posicionar em minha frente, interceptando meu caminho, mas sem me tocar dessa vez.

Ok. Jeon Jungkook aprende rápido.

— Cara... — Eu suspirei, frustrado. — Por que você não me deixa ir embora em paz?

— Porque eu quero você.

Ah. Talvez eu não devesse ter perguntado.

Toda a pele ao redor dos meus olhos se comprimiu e eu abri a boca várias vezes, sem conseguir falar graças à surpresa, até que pigarreei e umedeci meus lábios, atordoado.

— Eu não gosto de homens. — Anunciei, enfim, ainda sem jeito. — Então guarde suas investidas para outra pessoa porque comigo não tem chance, ok?

— O que aconteceu ontem me faz acreditar que tenho chance, sim.

— Eu estava bêbado.

— Isso não diz muita coisa. Aliás, bêbados costumam fazer o que querem fazer quando estão sóbrios, mas não têm coragem, não é?

— Isso na verdade é um puta discurso perigoso e que estimula uma série de comportamentos nocivos que depois são justificados com a culpabilização de alguma provável vítima caso ele ou ela estivesse sob efeito do álcool. — Resmungo. Os quatro anos que passei no curso de direito me fizeram abrir os olhos para algumas coisas, para não dizer que o tempo foi completamente perdido.

Jungkook suspirou. Coçou a nuca mais uma vez.

— Eu sei... — Confessou. Eu nem sei se ele realmente concorda com o que estou dizendo, ou se simplesmente está fingindo. Antes que eu decida, ele prossegue: — Mas você está sóbrio agora, ciente de cada decisão que tomar. Então aceita sair comigo. Por favor.

Eu franzi minhas sobrancelhas antes de rir, incrédulo. — Que parte do eu não gosto de homens você não entendeu?

— Você gemeu pra mim... e tentou me beijar...

— Você é impossível. — Acusei, irritado. — Acabei de dizer que eu estava bêbado!

— Essa discussão não vai ter um fim. — Ele concluiu, certeiro. — Então por que não poupamos nosso tempo? Eu preciso voltar pro serviço.

— Não estou te impedindo. — Ergui os ombros, displicente.

— Você escolhe o lugar. — Ele anunciou, como se não tivesse escutado o que eu disse. — Eu trabalho até às sete, a partir de então fico livre. Vou esperar você mandar uma mensagem com o endereço e o horário. Nós podemos sair como amigos, mas se acontecer algo a mais...

Eu ri ainda mais, porque esse cara só pode ter alguma disfunção séria.

— Olha aqui—

— Só pensa bem. Se você decidir que realmente não quer, eu te deixo em paz. — Ele me interrompeu ao recuar com um passo, apressado para voltar para dentro da cafeteria. — Eu juro.

— Eu não vou sair com você. — Insisti, agoniado. — Você pode ser um maníaco ou sei lá, eu não sei nada sobre você, nem se seu nome é Jeon Jungkook mesmo.

Ele sorriu, apontando para o pequeno crachá em seu avental. É, Jeon Jungkook.

— Meu nome você já sabe. O resto você descobre quando sair comigo.

Eu abri a boca para continuar negando, mas ele empurrou a porta e só me olhou mais uma vez.

— Vou ficar esperando sua mensagem. E ah... — Ele sorriu, mais com o jeito provocativo, fazendo um gesto para o chupão em minha pele. — Seu pescoço ficou bonito assim.

Quando ele voltou para dentro da cafeteria, eu continuei parado no mesmo lugar, incrédulo, antes de balançar a cabeça para os lados num gesto de desaprovação e finalmente seguir meu caminho até o carro.

É cada uma que eu vejo.

Ele que espere sentado. Até parece que eu vou sair com esse louco.

❥ [Continua...]

Chapter Text

Jeon Jungkook.

Depois de voltar para casa e devolver o carro de minha mãe para a garagem, esse nome foi a única coisa que continuou se repetindo em minha mente enquanto eu o amaldiçoava e ria, sozinho, achando-o um idiota por acreditar que eu o procuraria.

— Daqui a pouco ele manda mensagem tentando me convencer, tenho certeza. — Debochei depois de checar meu telefone pela terceira vez, vendo que ele ainda não tinha me procurado de novo.

— Deu pra ficar falando sozinho agora? — Jiwon perguntou, risonha, enquanto arruma minhas roupas limpas no closet.

Eu fiz a cadeira de rodinhas girar até poder vê-la melhor, e então cruzei os braços, convencido.

— Estava divagando. — Eu disse, antes de suspirar falsamente. — É difícil ser tão bonito, Jiwon, eu acabo atraindo todo tipo de gente, inclusive babacas.

Ela riu, fechando a porta espelhada quando saiu do closet e parou diante da minha cama, arrumando a colcha como sempre faz toda santa vez que entra no meu quarto.

— Nara deve passar por maus bocados com um namorado tão bonito e tão convencido assim. — Ela disse, batendo as mãos num dos travesseiros.

Eu apertei os olhos, me livrando do sorriso. — Kang Nara é um nome proibido nessa casa a partir de agora.

Ela me mirou, desconfiada. — Vocês brigaram?

— Ela me traiu. — Eu disse, simplesmente, girando minha cadeira outra vez até virar para a escrivaninha, onde estava meu notebook.

Eu ouvi seu ofegar surpreso, mas continuei fazendo pouco caso, fingindo estar mais preocupado em analisar o site da agência de modelos.

Mas a verdade é que, no fundo, eu ainda estou fervendo de ódio.

— Jiminie, eu não acredito que ela fez isso com você! Que coisa feia!

Eu ergui os ombros, arrastando o botão de scroll do mouse abaixo do meu indicador, em busca de um link para me inscrever para o próximo processo seletivo para modelos fotográficos.

— Ela quem sai perdendo. — Eu disse, sem tirar os olhos da tela.

— É verdade! — Jiwon concordou e eu me assustei quando senti suas mãos dando tapinhas em meus ombros, sem nem perceber quando ela se aproximou. — E quer saber? Eu nunca gostei muito dela mesmo.

A antipatia de Jiwon por Nara não é surpresa, já que por ser mais velha e um pouco mais conservadora, o jeito confiante e independente de minha ex-namorada sempre foi uma surpresa para ela. Apesar de não concordar, porque a personalidade de Nara é justamente o que mais admiro nela, agora é outra coisa que me faz torcer minha expressão numa careta de pura desaprovação.

— Deus me livre, não quero mais saber dessa porcaria de namorar. Agora só vou me focar em começar minha carreira como modelo, coisa que deveria ter feito há muito tempo.

Jiwon ficou em silêncio, ainda atrás de mim, e então finalmente suspirou. — Menino, você sabe que seus pais não aprovam isso...

— E você sabe que isso é problema deles. — Rebati, começando a colocar meus dados na ficha de preenchimento para a pré-seleção.

— Você não tem jeito... — Ela riu, deixando um beijinho no topo da minha cabeça. — Boa sorte, viu? Vou ficar torcendo por você. Eu sempre torço.

Eu sorri sinceramente, ainda olhando para a tela do notebook. — Eu sei. Obrigado.

No instante seguinte, ela saiu do meu quarto e me deixou sozinho para terminar de fornecer todos os dados e também algumas fotos minhas. Quando eu finalmente confirmei a inscrição, o sol já estava se pondo, e eu chequei o celular só mais uma vez.

Jeon Jungkook parece ter desistido.

Eu suspirei, nem sei se de alívio, e me levantei da cadeira para deitar em minha cama, gastando a hora seguinte relendo um dos mangás da minha estante, vez ou outra abrindo a barra de notificações do telefone só para ver que continuou vazia. Da última vez que chequei, eu bufei violentamente, jogando o celular do outro lado do colchão antes de enfiar minha cara no travesseiro, frustrado, sem saber por que eu esperava tanto receber uma mensagem dele. Por isso, quando o aparelho vibrou com uma nova notificação, eu quase saltei, procurando-o com a mão no meio da confusão de travesseiros e almofadas.

Não atender
|19:15... estou esperando... :x

Eu mordi meu lábio, pensativo, relendo a mensagem diversas vezes. Eu deveria ignorá-lo, sei que deveria, mas ele disse que vai me deixar em paz se eu decidir que não o quero. Então só por isso eu vou ceder, para dizer na cara dele que não vai rolar mesmo. Olha o tipo de coisa a que tenho que me submeter. E tudo isso é culpa de Calvin, que não parou de me servir álcool e me trouxe a essa situação.

20h no Black Stone de Hongdae|

Não atender
|Burguês

Eu resmunguei sozinho quando percebi o que fiz e ainda levei algum tempo para sair da cama, sem entender por que meu coração começou a bater tão rápido e eu me senti ansioso, de repente, ao sair do banho e parar diante de todas as opções de roupa.

Eu nunca vou admitir para ninguém quantas peças diferentes provei tentando encontrar uma combinação perfeita nem sei para quê, mas sempre me convencendo de que é só minha vaidade falando mais alto.

Quando fiquei pronto, eu sorri diante do meu reflexo no espelho. A calça preta e justa com rasgos nos joelhos é minha favorita, os sapatos de couro estão brilhando e a blusa vermelha de botões e mangas curtas é chamativa o suficiente para tirar um pouco da atenção do estrago em meu pescoço, que mesmo assim tento recobrir com um pouco de maquiagem que também aplico no rosto. Por último, eu só troco os brincos em minhas orelhas, passo um pouco de perfume, porque cheiros exagerados me dão dor de cabeça, e finalmente pego minha carteira antes de sair do quarto.

— Pai, me empresta seu carro? — Eu pedi quando o vi sentado no sofá da sala de TV, assistindo o jornal local.

Ele me olhou sob as lentes redondas dos óculos, analisando minha roupa, e por sorte desistiu de fazer uma análise mais criteriosa antes de chegar ao chupão em meu pescoço.

— Onde você vai?

— Jantar. Não demoro.

Ele suspirou, apontando para sua chave ao lado da chave do carro de minha mãe.

— Dirija com cuidado.

— Valeu! — Eu gritei antes de pegar a chave e me adiantar até a garagem, lutando para não ficar muito amargurado sobre a situação atual.

Quer dizer, eu tinha um carro só meu, mas o perdi quando anunciei a eles que não me formaria no curso que sempre sonharam para mim. Isso foi pior que os gritos e o posterior tratamento de silêncio. Era meu carro, poxa.

Mas eu afasto o pensamento e durante o percurso até o restaurante que já se consolidou como meu favorito, eu fui cantarolando as músicas da rádio, vez ou outra batucando no volante para aliviar a sensação estranha no meu estômago, e chequei meu reflexo no retrovisor interno uma última vez antes de descer do carro, já em frente ao Black Stone.

Quando atravessei as portas de madeira enormes, nem precisei falar com a maître, porque logo meus olhos encontraram Jungkook sentado num dos bancos do bar ao fundo do restaurante, então eu respirei fundo e caminhei até ele, urrando internamente por sentir meu coração tão acelerado. Depois de parar ao seu lado, ele ainda demorou um tempo para me notar, e eu pude analisá-lo de cima a baixo, percebendo o contraste da sua calça clara, botas marrons e blusa folgada com a minha própria roupa, mas percebendo que isso é o de menos quando ele virou o rosto para mim e sorriu, depois de também me avaliar até o último fio de cabelo, com a expressão safada no rosto.

— Que delícia.

Eu bufei, mesmo que um comentário assim já fosse esperado, porque eu sei que minhas pernas e minha bunda ficam incríveis nessa calça.

Sem falar nada em resposta, eu segui caminhando reto até uma das mesas privativas no outro lado do restaurante, sabendo que ele me seguiria.

— Entendi a escolha do lugar. — Ele disse, então, quando eu me sentei no banco acolchoado de dois lugares, me assustando quando, ao invés de sentar em minha frente, ele se sentou ao meu lado.

Eu sei do que ele está falando. As mesas são como cabines, fechadas em três dos quatro lados, então as únicas pessoas que podem nos ver são as que passam no corredor perpendicular ao lado aberto. Entretanto, esse não foi o fator decisivo da minha escolha, como ele parece achar. Eu realmente sempre sento nessas mesas, já que gosto da privacidade.

— Entendeu errado, então. Eu só gosto da comida daqui e gosto da privacidade dessas mesas. — Rebati, defensivo, estendendo a mão para pegar um dos cardápios na cestinha da mesa. — De qualquer forma, a escolha foi impulsionada porque aqui pelo menos poucas pessoas irão me ver com alguém como você. Eu tenho uma reputação a zelar.

Eu vi, pelo canto dos olhos, Jeon piscar em incômodo antes de esconder essa sensação por trás de um sorriso meio atravessado que me faz engolir em seco quando ele se aproxima ainda mais para também ver o cardápio, fazendo sua coxa tocar a minha.

— Não fique tão perto, nós já não tivemos essa conversa? — Eu alertei, recuando um pouco mais para o lado, mas esbravejo ao perceber que nem tenho mais para onde ir. — Inferno, por que você não senta na minha frente?!

— Na verdade, eu prefiro sentar em seu colo. — Ele rebateu, o cotovelo apoiado na mesa, o queixo pousado sobre a palma da mão e o corpo virado para mim, com o sorriso cafajeste, mas ainda assim com um quê adorável enfeitando seu rosto. — Ou você pode sentar no meu.

Eu apoiei o cardápio sobre a mesa e fechei os olhos, tentando não ter um colapso.

— Já me arrependi dessa idiotice de sair com você. — Anunciei, então, impaciente.

Jungkook riu sem se mover, e então ele tocou meu joelho diretamente através do rasgo em minha calça, e depois subiu sua mão só um pouco até apertar minha coxa.

— Vamos fazer os pedidos. — Ele disse, puxando o cardápio outra vez e abrindo-o sobre a mesa. — Vou me comportar agora. Tudo bem se eu deixar minha mão aqui?

— Prefiro que você não me toque.

— Certo, me desculpe. O que você vai querer? — Ele perguntou, afastando sua mão de minha perna.

Eu apertei meus lábios e engoli em seco, um pouco desesperado. Eu não estou bêbado, então por que, no fundo, eu pareço ter gostado de sua mão tocando minha coxa?

— Eu vou querer a carne com fritas de batata doce. — Respondi ainda tenso, depois de um pigarro, sem precisar olhar para o menu porque sempre faço exatamente o mesmo pedido.

— Quer beber alguma coisa? — Ele sugeriu, deslizando os dedos pelas opções. — Vinho?

— Não! — Neguei de imediato, com algum desespero. Minha principal motivação para recusar sua sugestão deveria ser o fato de estar dirigindo, mas, na verdade, eu só não quero me sentir ainda mais vulnerável a esse cara, o que sei que vai acontecer se eu beber de novo. — Nada de álcool por hoje. 

— Sem álcool, então. — Ele concluiu com uma risada engraçada quando fechou o cardápio e pressionou o pequeno botão no suporte da mesa para chamar o garçom.

Quando o funcionário se aproximou, eu tentei me afastar mais um pouco, porque venho aqui com frequência e não quero que ninguém que possa me reconhecer me veja tão perto de outro homem.

— Jungkook? — O garçom que nos atendeu murmurou, surpreso, quando parou perto o suficiente, parecendo reconhecer o cara ao meu lado.

Jungkook ergueu os olhos, talvez um pouco alheio a princípio, mas logo exibindo um sorriso quando olhou para o rosto do garçom ruivo.

— Hoseok! — Ele disse, parecendo genuinamente empolgado. — Você ainda trabalha aqui?

— Nem todo mundo tem sua coragem de correr atrás dos próprios sonhos. — O de cabelos vermelhos rebateu, bem humorado. — Mas agora você tá todo patrão, né? Antes trabalhava como garçom, agora vem como cliente... quem diria.

— Não com frequência. Não tenho dinheiro sobrando pra gastar tanto em uma refeição. — Jungkook respondeu e, acho que sem perceber, acabou virando um pouco as costas para mim. O que me incomodou um pouco, mas não que eu vá admitir.

— Claro que não tem dinheiro sobrando, você ainda deve gastar tudo em camisinhas — O garçom riu e então olhou para mim, o que, sei lá por que, fez seu sorriso se reduzir a algo mais discreto, quase malicioso. — E olha só quem está te acompanhando hoje...

Eu apertei meus olhos, confuso, alternando o foco de minha visão entre os dois.

— Você me conhece? — Perguntei talvez um pouco rude, porque não gostei do seu tom de voz e logo fiquei na defensiva.

— Você sempre vem aqui. É claro que conheço. — O tal Hoseok respondeu, puxando o aparelho eletrônico onde cadastra os pedidos. — Aliás, já sabem o que vão pedir?

— A porção individual de carne com fritas de batata doce. Pode trazer um pouco do molho de pimenta agridoce, também, e uma fatia de torta de morango para a sobremesa. — Jungkook disse, já com o cardápio fechado.

— Não vai demorar. — O garçom disse, sorrindo sem a malícia anterior. — Foi bom te ver de novo, Jungkook. Você ainda tem meu número?

— Tenho. Te ligo depois e marcamos para fazer algo. — Jungkook respondeu piscando com um dos olhos, todo cafajeste.

— Leu meus pensamentos. — Ele brincou, já começando a se afastar. — Daqui a pouco volto com os pedidos.

Longe das atenções do ruivo, eu revirei os olhos furiosamente.

— Hm? O que foi? — Jeon questionou, sem deixar meu incômodo passar despercebido.

— Você flertando com esse cara. — Eu disse, impaciente. — Se eu estivesse levando esse encontro a sério, seria muita sacanagem da sua parte fazer algo do tipo.

Jungkook riu. Ele gargalhou, na verdade, e sua risada é meio aguda, mas completamente adorável.

— Eu não estava flertando. — Ele disse, já voltando a se aproximar de mim e, quando percebi, sua mão já estava pairando sobre minha coxa outra vez, mas sem tocá-la diretamente, apenas com o roçar suave de seu mindinho no jeans. — E quer dizer que você não está me levando a sério? Parece que tenho que me esforçar mais... talvez você me deixe te tocar agora? Isso pode te fazer mudar de ideia.

Eu o olhei fixamente antes de suspirar e virar o rosto, contrariado por sequer querer impedi-lo, e então ele percebeu minha desistência, apoiando suavemente sua palma sobre minha perna.

— Você é estranho demais. — Eu tentei desconversar. — Não percebeu que até agora você não sabe meu nome e nem parece preocupado em perguntar?

Ele lambeu o próprio lábio, pensativo, e pareceu concordar.

— Justo. Preciso saber o nome que vou gemer mais tarde, não é? Como você se chama?

— Gemer só se for batendo uma punheta, seu escroto. — Resmunguei, ultrajado.

Ele riu de novo e eu prendi a respiração quando ele deslizou sua mão, apertando a parte interna da minha coxa.

— Se você não facilitar para mim... sim, é isso que vai acontecer. Mas então, não vai me dizer?

Eu bufei, arrumando o fundo de prato em minha frente.

— Park Jimin.

— Park Jimin. — Ele repetiu, parecendo deslizar cada sílaba com cuidado. — Combina com Jeon Jungkook.

Eu somente neguei, sem me preocupar em narrar todos os infinitos itens entre nós dois que não combinam.

— Ok, Jeon Jungkook. Você disse que eu ia descobrir outras coisas além do seu nome se aceitasse sair com você.

— Parece que você está interessado, Park Jimin. — Ele provocou.

— Curioso, na verdade. — Corrigi. — Primeiro, como você trabalhava aqui e eu nunca te vi? Eu venho nesse restaurante desde os meus doze anos.

— Você também nunca viu o Hoseok, e ele tem o cabelo daquela cor. Parece que é você quem não presta atenção em quem te atende.

— Ah. É que... — Tentei me justificar, me sentindo um puta esnobe.

— Todo mundo que vem aqui é assim. Superiores demais para sequer olhar na cara de um mero garçom — Ele retrucou, afiado, mas não me deu tempo para uma defesa. — Quantos anos você tem agora?

— Vinte e dois. — Respondi rápido, ainda me sentindo meio bosta. — Ontem, naquele bar... você me reconheceu?

— Talvez. — Ele sorriu, provocativo. — E você é meu hyung, então. Eu tenho vinte e um.

Eu me assustei um pouco, porque ele realmente parece mais velho que eu. Mesmo assim, fui para minha próxima pergunta.

— Por que o tal Hoseok sorriu daquele jeito quando me viu com você?

— De que jeito? — Ele perguntou, com uma entonação quase sonsa.

— Você sabe. — Revirei os olhos.

Ele sorriu, parecendo desistir do teatro. — Nós já te vimos aqui com várias mulheres diferentes. Deve ser um choque para ele te ver com um homem. Comigo, aliás.

— Então você lembra de mim, sim, seu safado mentiroso!

— Eu disse que talvez tivesse te reconhecido, talvez não. Não foi uma mentira.

— Era mais fácil ter dito logo que lembrava. — Resmunguei, revirando os olhos, mas sentindo meu corpo travar quando a mão de Jungkook subiu mais por minha coxa, até se aproximar perigosamente da minha virilha. — O que você está fazendo?

— Nada. — Ele sorriu. — Não tem mais nada que você queira saber?

Eu pigarreei outra vez, apertando meus lábios quando respirei devagar, tentando ignorar a reação do meu corpo à expectativa de sua mão me tocando assim.

— Tem, na verdade — Confessei, sentindo minha coxa ser pressionada por seus dedos. — Tinha alguma coisa naquele café que você me serviu mais cedo? Alguma droga?

Jungkook pareceu confuso, mas isso não afetou a firmeza de seu toque em minha perna.

— Que? — Ele questionou, então.

— Você ficou muito decepcionado quando eu não quis tomar, mas você não parece fazer o tipo sensível... então talvez você tenha colocado alguma coisa pra me drogar, por isso ficou chateado quando não conseguiu. — Ponderei, mas no fundo é só uma provocação.

Jungkook não me parece má pessoa, então não acredito verdadeiramente que ele faria algo assim.

— Eu me esforcei pra fazer aquilo. — Ele apertou as sobrancelhas, sem perceber que não o acusei seriamente. — Eu sou um bosta fazendo latte art, mas eu realmente queria me desculpar por ontem porque sei que forcei a barra. Ver meu esforço jogado no lixo não é algo que me deixa particularmente feliz, hyung.

Eu até arregalei um pouco meus olhos, sem acreditar que essa é a segunda vez num mesmo dia que meu coração amolece por esse safado.

— Desculpa. — Eu pedi, um pouco desconfortável, porque me desculpar não é algo tão recorrente em minha vida. — Eu gosto de café, na verdade, e o seu parecia muito bom. Eu só estava irritado e não sabia que você tinha sentimentos. Foi mal mesmo.

— Por que eu não teria sentimentos? — Questionou, com a entonação um pouco mais leve, a despeito do aperto em minha coxa que se tornou mais firme.

Eu desci meus olhos até sua mão e travei meu maxilar, tenso.

Se continuar assim, meu pau vai endurecer na mesma medida em que meu coração amoleceu.

— Eu não tenho uma resposta para isso — Eu disse, enfim, me recostando melhor contra o assento para tentar aliviar a tensão em meu corpo, e Jungkook se moveu junto, se aproximando ainda mais. — Você só parece safado demais pra ser sensível.

— Sei. Eu sinto tesão, então não posso sentir outras coisas, certo?

— Colocando dessa forma, parece que eu acabei de falar a maior babaquice. — Confessei com uma risada sem jeito, até arrependida.

Não dou uma dentro, inferno.

E agora eu estou me preocupando em dar uma dentro com Jungkook. Ótimo. Minha vida só melhora.

— Relaxa, hyung, — Ele disse, puxando sua mão mais para cima, roçando-a de leve em meu pênis. — você nem deve estar errado.

Eu apertei meus lábios e senti minhas narinas dilatando, afetado por seu toque malicioso.

— Então? — Ele insistiu, deslizando seu corpo completamente em minha direção, me deixando preso entre a parede, o banco, e ele. — Mais alguma pergunta?

Eu olhei para seu rosto e logo minha atenção recaiu em sua boca, capturando o momento em que ele mordeu o próprio lábio, também olhando para minha boca.

Porra.

Porra, Calvin. Puta que pariu, Calvin!

Eu simplesmente não acredito que, enquanto parte da minha consciência ainda tenta lutar contra isso, a outra já se rendeu completamente, e é essa segunda metade que me leva a fazer o que faço a seguir.

Ainda incomodado por meu próprio desejo, eu também levei minha mão até sua perna, correndo meus dedos por sua coxa até pressioná-la, sentindo o músculo firme sob meu toque.

Jungkook sorriu satisfeito com meu gesto e eu nem pisquei quando seu rosto se aproximou ainda mais do meu.

— Acho que isso quer dizer que suas perguntas acabaram. — Ele deduziu, todo safado.

— Você só vai comer a sobremesa? — Disparei, então, sem saber a que o silêncio pode nos levar.

Jungkook riu outra vez, sinceramente, e talvez eu goste do som de sua risada.

— Eu já jantei, a sobremesa é para você. É pra compensar por mais cedo. Você saiu da cafeteria sem terminar sua torta. Era de morango, não era?

— Era. — Respondi, pego de surpresa por minha atitude completamente voluntária de me arriscar um pouco mais e subir minha mão, tocando brevemente, num acidente fingido, no pau que já sei que ele tem.

O que é um peido pra quem tá cagado? Ajoelhou tem que rezar. Se tá na chuva é pra se molhar. Tá no inferno, abraça o capeta.

Deus que me ajude.

Jungkook então olhou para minha mão desajeitadamente sobre seu pênis e sorriu oblíquo antes de voltar a olhar para mim.

— Mas eu sinto muito, a que eles servem aqui não é tão gostosa quanto a que você provou hoje de manhã.

— Você fala com tanto orgulho como se tivesse feito aquele bolo. — Eu disse, suspirando vergonhosamente quando ele respondeu meu gesto ao também apertar meu membro.

— Porque fui eu que fiz.

Eu poderia rir com algum deboche, mas realmente não consigo agora.

Jeon então sorriu de canto, empurrando ainda mais sua perna contra a minha e com o outro braço envolveu meu ombro, inclinando seu corpo completamente em minha direção.

— Vou te contar um segredo, hyung. — Ele disse, com sua boca perigosamente perto da minha e sua mão ainda massageando minha ereção cada vez mais deperta. — Eu sou muito bom em três coisas: — Confessou, então, me deixando ainda mais perdido quando seus lábios roçaram o canto dos meus. — Em fotografar, — Começou, beijando minha bochecha. — cozinhar, — Dessa vez, beijou o canto do meu maxilar. — e em foder. — Completou, fazendo seu hálito quente acertar o lóbulo da minha orelha antes de chupá-lo, demoradamente.

Eu ofeguei vergonhosamente, sentindo o ar escapar de meus pulmões quando algo em meu estômago revirou, e sentir a mão de Jungkook apertando meu pau através da calça não é algo que me ajuda a me recompor.

— Eu posso mostrar, se você quiser. — Ele disse com a voz baixa e rouca contra meu ouvido, apertando ainda mais meu membro com seu corpo praticamente cobrindo o meu.

Eu tentei dizer algo, mas a incapacidade de articular qualquer palavra reduziu o som que escapou da minha garganta a um gemido, e eu senti seu sorriso contra minha pele quando ele desceu a boca até meu pescoço.

Desesperado e sabendo que um garçom poderia passar ao lado a qualquer momento, eu espalmei minhas mãos em seu peitoral e tentei me convencer a empurrá-lo, mas nem tive força para obter algum resultado, e apertei meus olhos quando senti seus dentes arranhando meu pescoço antes de chupá-lo, no mesmo lugar em que o chupão da noite anterior ainda está marcado.

Jungkook então desceu com os lábios até a união com o meu ombro e succionou a pele já arrepiada porque, inferno, esse é meu ponto fraco.

Deixando mais uma lufada densa de ar escapar, eu apertei o tecido de sua blusa folgada com minhas mãos, ainda sentindo a sua apertar meu pau por cima do jeans, com sua boca me provocando num lugar onde sou tão sensível.

Eu não sei o que está acontecendo comigo. Eu realmente não consigo entender, mas é difícil tentar me preocupar verdadeiramente com isso quando eu já estou com tanto tesão.

— Eu preciso ir ao banheiro — Consegui dizer, embora sem determinação e com a voz se perdendo num fio quase inaudível.

— Pra cuidar disso? — Ele questionou ao apertar minha ereção quase formada, subindo seu rosto até deixá-lo em frente ao meu. — Deixa que eu resolvo pra você...

Eu arregalei os olhos quando ele deslizou seus dedos até desabotoar minha calça, e então sua mão se enfiou ali dentro, apertando meu membro semi-ereto sobre a boxer, me fazendo ofegar mais alto.

— A gente ainda tá no restaurante — Eu alertei, sem autoridade por não ter força alguma na voz, e movi meu corpo sobre o estofado quando Jungkook começou a me masturbar devagar, ainda através da minha roupa íntima.

— É melhor você ser rápido, então. — Ele retrucou, me deixando tonto quando, num movimento rápido, puxou o elástico da cueca com o polegar, para então enfiar sua mão ali dentro, tocando meu falo quase completamente duro diretamente com sua palma quente.

— Porra... — Praguejei, desesperado, ao perceber que não quero pará-lo. Mas eu ainda estou tenso, por isso não calculei meus movimentos quando fiz minha mão segurar seu pulso, puxando-o numa ordem para que ele seja rápido.

Jungkook sorriu com sua boca quase colada à minha e eu delirei quando ele capturou meu lábio inferior, puxando-o com seus dentes ao mesmo tempo em que a ponta de seu dedo pressionou a fenda da minha glande inchada e úmida antes que sua mão percorresse todo o caminho da cabeça até a base, repetidamente.

Tomado pelo tesão de receber uma punheta em público, podendo ser pego a qualquer minuto, eu olhei por cima do seu ombro para o corredor por onde os garçons passam, mas logo a mão livre de Jungkook segurou meu queixo, me fazendo voltar os olhos para ele.

— Olha pra mim, hyung. — Ele pediu, segurando meu rosto na mesma posição, e eu precisei morder meu lábio com uma força desastrosa para não gemer audivelmente quando ele aumentou o ritmo.

Alguém que se aproximasse o suficiente e se concentrasse poderia ouvir o som obsceno de sua mão batendo uma para mim e minha respiração completamente atrapalhada se misturando aos palavrões desconexos que eu deixei escapar a cada onda de excitação que Jungkook me proporcionou.

Isso é completamente insano. Nenhuma das mulheres com quem já dormi soube me tocar assim. Caralho, nem eu sei me masturbar assim, e conhecer bem meu corpo sempre foi um dos meus maiores orgulhos.

Jungkook está em outro nível, como a personificação do deus da punheta.

Por isso, eu continuei completamente tomado por sua facilidade em me tocar, e senti seu beijo em minha mandíbula quando eu puxei sua cabeça ainda mais contra minha pele, estocando contra sua mão e movendo meu quadril no mesmo ritmo de sua palma quando senti o orgasmo tão perto.

— Geme meu nome, Jimin... — Ele pediu, com sua boca ainda tocando meu maxilar, e eu apertei meus lábios para não deixar nem mesmo a primeira sílaba escapar.

No instante seguinte, minhas pernas tremeram e um gemido abafado morreu em minha garganta, com minha visão escura e meu corpo sendo tomado por várias explosões incontroláveis de êxtase, enquanto eu tentei aliviar a sensação segurando sua nuca com força e mantendo seu rosto pressionado contra mim.

Eu gozei. Oh, caralho. Eu gozei em um restaurante depois de ser masturbado por um cara.

— Filho da puta... — Amaldiçoei, ainda ofegante, quando os efeitos imediatos do orgasmo se desfizeram pouco a pouco, permitindo que minha mente entenda o que acabou de acontecer aqui.

Sua risada foi ouvida mais uma vez, e ele puxou a mão para fora da minha calça no exato momento em que eu percebi o rastro de saliva que ele deixou por minha pele.

— Eu ainda vou fazer você gritar meu nome, hyung. — Ele previu, ou ameaçou, vai saber.

Eu passei a mão pelo rosto, tentando respirar normalmente quando ele afastou seu corpo minimamente, me dando mais alguma liberdade para me recompor. Então eu levantei meus olhos outra vez, determinado a rebater fervorosamente sua afirmação presunçosa, mas senti todo o sangue do meu corpo ser drenado quando eu percebi que não estávamos mais sozinhos.

Eu não sei quanto ela viu ou ouviu, mas sei que foi o suficiente para sua expressão se retorcer em puro horror.

E lá estava ela, de pé, olhando para mim como quem olha para uma aberração.

A mulher mais desgraçada que eu já conheci. Minha namorada.

❥ [Continua...]

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Meu coração acelerou demais e num reflexo acabei empurrando Jungkook para longe, afastando-o de mim.

— Jimin? — O choque na voz da mulher que um dia chamei de minha combinou com o pavor em seu olhar quando ela me chamou, paralisada.

— Nara... — Murmurei, atordoado, com os olhos arregalados como nunca.

Ao seu lado está a pessoa que, à primeira vista, ignorei. Entretanto, não pude mais fazê-lo quando o reconheci.

É Eunjo, meu amigo, o cara com quem minha namorada me traiu.

E aqui estão eles, juntos, um dia depois que eu descobri a traição.

— Um cara... — Ela começou, olhando para Jungkook antes de voltar a olhar para mim. — Um cara estava te...?

Jungkook apoiou o queixo na mão, olhando-a com um sorriso meio azedo brincando com seus lábios.

— Masturbando. — Ele completou, simplista. — Sim, estava.

— Mas que merda, Jimin...? — Eunjo balbuciou, chocado.

Nara ficou algum tempo aterrorizada, antes de parecer ser tomada pela raiva.

— Eu não acredito que você está me traindo com um homem! — Ela quase gritou, então.

Meu primeiro impulso foi abrir a boca para tentar me defender, mas então eu cerrei os olhos, desacreditado.

Que cara de pau!

— Você me traiu primeiro! — Acusei, agoniado por não conseguir sair do banco já que ainda estou preso pelo corpo de Jungkook ao lado do meu.

Ele então pareceu ficar um pouco confuso. Na verdade, "confuso" parece ser um eufemismo.

— O que está acontecendo aqui? — Jeon perguntou, apontando de mim para Nara. — Vocês namoram? 

— Cala a boca! — Eu e ela nos exaltamos, trocando farpas pelo olhar.

— Jimin, eu não acredito nisso! — Nara insistiu, inconformada. — Não acredito que você me trocou por um homem!

— Você me trocou por esse palerma! — Acusei de volta, apontando para Eunjo. — Olha a cara desse babaca, pelo amor de deus! Como é que você sente tesão nisso tendo um cara como eu de namorado?

— Ei! Eu não sei do que vocês está falando, mas eu sou bem gostoso, tá?! — Eunjo argumentou em ultraje.

Nara passou a mão pelo rosto, tentando se recompor antes de deslizar ambas as palmas pelo vestido que contorna todas as curvas bonitas de seu corpo, para só então respirar fundo.

— Eu vou esperar você colocar a cabeça no lugar e me procurar para esclarecer essa merda. — Ela disse, então, segurando o braço do otário do Eunjo. — Venha. Vamos comer em outro lugar.

Meu queixo quase foi no chão quando ela rebolou para longe e eu movi meu rosto, atordoado, quando tentei me levantar para sair, mas continuei impedido por Jungkook e acabei caindo sentado de novo.

— Cara de pau! — Eu quase gritei, socando o ar e chutando o assento da frente por baixo da mesa. — Desgraçada cínica! Tomara que essa sonsa queime no fogo do inferno!

Jeon, ao meu lado, cruzou os braços e me olhou com as sobrancelhas levemente arqueadas.

— Isso foi inesperado. Encontros com você são sempre assim, Jimin hyung? Com a descoberta de que você é comprometido e coisas nesse naipe?

— Eu sincera, honesta, verdadeiramente não estou com paciência para você agora, Jeon. — Confessei num suspiro exaurido. — Eu não estou mais comprometido, mas vou embora. Vir aqui com você foi uma péssima ideia, a pior que eu já tive nessa vida!

— Ei, calma. — Ele insistiu, sem deboche e sem me dar passagem. — Calma, hyung, você nem comeu ainda.

— Como se você realmente se importasse com isso. — Ri, incrédulo. — E pare de me chamar de hyung, nós não somos, nem vamos ser próximos.

Ele suspirou exaurido e coçou a nuca antes de me olhar, como se chegasse a uma conclusão.

— Espera só um pouco, ok? — Pediu, gesticulando para que eu continue sentado quando ele ficou de pé. — Por favor, não vá embora ainda. Por favor.

Eu hesitei por um instante, mas enfim concordei só porque quero evitar o risco de acabar encontrando Nara e o embuste do Eunjo, ou eu sou capaz de arrancar sangue de um deles. Por isso, resolvi esperar mais um pouco. Depois de me ver ceder, Jeon se afastou e eu me recostei no banco, tenso, esperando o tempo passar. Até que, agitado demais, eu puxei meu celular do bolso e abri um rascunho de mensagem para meu melhor amigo.

Pior noite, Taehyung|

Taehyung
|O que aconteceu?

Taehyung
|Brigou com seus pais de novo? :/

Não.. é muita coisa pra dizer por mensagem|

Vamos sair amanhã|

Taehyung
|Oh porra, vou morrer de curiosidade

Taehyung
|Só me dizer a hora e o lugar

Eu ainda não sei para onde ir, provavelmente vou acabar aparecendo no apartamento dele sem avisar. Por enquanto, não estou preocupado com isso, então só devolvo o celular ao bolso e aperto o botão na mesa para chamar o garçom. Jungkook está demorando demais e eu sinceramente não estou disposto a esperá-lo por mais tempo, por isso decido ir embora. É até melhor que eu nunca mais o veja, de qualquer forma.

Eu realmente não sei o que me deu para deixar as últimas vinte e quatro horas acontecerem da forma como aconteceram.

— A conta, por favor. — Eu pedi, então, ao garçom que veio até a mesa. Não é Hoseok, dessa vez. — Ah, e não precisa trazer os pedidos. Pode entregar a um morador de rua ou sei lá.

— Mas a conta da sua mesa já foi paga, senhor. — Ele informou, um pouco confuso.

Eu o olhei também com alguma confusão inicial, até que lembrei de Jungkook. Ele parece pobre demais para pagar uma refeição nesse restaurante, então talvez algum dia eu tenha a decência de devolver o dinheiro a ele.

— Certo... tudo bem. — Balancei os ombros, condescendente. — Boa noite, então.

— Boa noite, senhor.

Finalmente, eu me arrastei pelo banco acolchoado até conseguir sair da mesa e fiz todo o caminho para fora do restaurante, torcendo para conseguir sair daqui sem ser obrigado a encontrar Jeon. Antes que eu abrisse a porta do carro, entretanto, a voz dele me alcançou.

— Sabia que você não ia esperar. — Ele gritou, provocativo, e eu apertei os olhos ao encontrá-lo do outro lado da rua.

Antes que pudesse fugir, ele correu entre o intervalo de um carro ao outro, atravessando a rua em minha direção com uma sacola de papel do restaurante em uma mão e uma sacola plástica da loja de conveniência na outra.

— Seu jantar e seu remédio para o estresse. — Ele disse mostrando as duas embalagens, e então eu reconheci que uma delas tem uma garrafa de vinho.

— Eu estou dirigindo. Não posso beber. — E também não é seguro beber perto desse safado.

— Vamos deixar o carro em sua casa, então. — Ele rebateu, sem dar chance para que eu negasse sua sugestão, porque no instante seguinte Jungkook já estava dando a volta para se sentar no banco do carona, me olhando com as sobrancelhas arqueadas quando não destravei as portas. — Não vai abrir?

Eu passei a mão pela testa, empurrando os cabelos para trás, e suspirei vencido, finalmente desativando o alarme.

Ele me mostrou um sorriso antes de entrar e eu me sentei ao seu lado, em silêncio, só colocando o cinto de segurança antes de dar partida no carro.

Eu não acredito que vou mesmo deixar esse maluco descobrir onde moro, mas eu sinceramente não estou em condições de me preocupar com isso agora, por isso dirigi até atravessar o caminho de pedras da entrada de casa até a garagem, e então desliguei o motor antes de me livrar do cinto.

— Uau. — Jungkook murmurou, inclinando-se sobre o banco para poder ver melhor a casa através do pára-brisa, e ele parece genuinamente impressionado. — Você é rico mesmo.

— Achei que isso fosse óbvio. — Rebati já abrindo a porta do sedã, e o olhei quando percebi que ele não fez menção alguma de descer também. — Vai ficar aí?

Ele me olhou, então, e sorriu pequeno antes de tirar o próprio cinto e saltar do banco.

— Pra onde quer ir agora? — Ele perguntou quando parou ao meu lado com as duas sacolas nas mãos.

— Venha. — Eu gesticulei, seguindo pelo caminho traçado na grama até a lateral da casa, onde temos uma área de descanso cercada pelo jardim.

Eu realmente não estou confortável com a ideia de trazer Jungkook em minha casa, mas a essa altura minha maior preocupação é conseguir me ocupar com alguma coisa para não estourar uma caixa de ovos na cara linda de Nara. Por isso, eu o levei até o local coberto pelo pergolado de madeira e me sentei num dos sofás redondos imediatamente, esticando meus pés sobre a superfície fofa. Ao invés de sentar no outro sofá, entretanto, Jeon se sentou ao meu lado e eu só o olhei em silêncio, cansado demais para discutir.

— Você realmente vive bem, hyung. — Ele disse, olhando ao redor.

Eu assenti desleixadamente, tomando a sacola com o vinho de suas mãos e desistindo de repreende-lo por me chamar dessa forma. E, por sorte ou por falta de opção mesmo, ele comprou vinho barato, então não foi preciso um abridor, e eu tomei um gole generoso logo depois de me livrar do lacre.

— Aliás, — Eu disse, sentindo o gosto doce demais dominar minha boca. — quanto você gastou em tudo? Eu te pago de volta.

— Não precisa se preocupar com isso. — Contrapôs, me olhando com atenção quando entornei mais do vinho.

Eu não costumo tomar coisas baratas assim. E com razão. É horrível.

— Eu tenho certeza de que o dinheiro vai fazer mais falta para você que para mim. — Eu me movi, então, puxando a carteira para fora do bolso. — Quanto foi?

Jungkook suspirou e tirou a carteira de minha mão, logo depois jogando-a desleixadamente no outro sofá, e ele pareceu verdadeiramente incomodado.

— Se eu paguei é porque posso pagar. Para de ser metido, hyung.

— Eu não estou sendo metido agora, só não quero que você passe necessidade ou sei lá.

Ele suspirou. — Relaxa. Se faltar comida na minha geladeira e eu não puder mais comprar por causa disso, vou fazer questão de te avisar. Posso até comer você, aliás.

— Canibal. — Acusei.

— É, não foi nesse sentido que eu quis dizer, mas você sabe. — Ele disse relaxadamente, com os olhos grandes e escuros tão inocentes diante de seu questionamento seguinte: — Quando a gente foder pela primeira vez, como você vai preferir, hyung? Você me fode, ou eu fodo você?

Eu ri, mas sem humor. — Então agora além de se convencer que nós vamos transar, você ainda acredita que vai ser mais de uma vez?

— Sua resistência está diminuindo. Eu aposto que até o final dessa noite nós vamos nos beijar, mas sei que você não vai querer transar comigo tão cedo.

— Beijar você? — Repeti com uma risada incrédula, como se isso fosse ainda mais absurdo que a ideia de transar com ele.

— Ontem você mesmo tentou me beijar e eu já até bati uma pra você, então por que a surpresa? — Ele levantou as sobrancelhas, quase em desafio. — Você é sonso.

Eu deixei escapar uma terceira risada falsa, forçada e desajeitada quando percebi que não tenho argumentos contra isso, então somente neguei com a cabeça, derrotado.

— É cada uma. — Resmunguei antes de tomar mais um gole generoso do vinho, mas então senti a mão de Jeon segurando meu pulso e me impedindo de ir além.

— Ok, vá com calma. — Ele alertou, tomando a garrafa de mim. — Não beba muito de estômago vazio.

— Você agindo assim parece incoerente. — Eu disse, olhando-o com os olhos desconfiados. — Me deixar podre de bêbado de uma vez é sua única chance de talvez conseguir algo comigo.

Quer saber? Sou sonso mesmo. Eu tentei beijar o cara e deixei ele me masturbar, mas vou continuar negando a possibilidade de qualquer coisa acontecer entre nós dois porque, foda-se, eu não posso querer o contrário. Eu não quero desejar isso.

— Eu não tenho interesse em fazer nada com seu corpo desacordado por coma alcoólico. — Ele ponderou por um instante, com os olhos pensativos. — Aliás, tenho certeza de que isso é crime.

Depois que eu deixei uma nova risada quase condescendente escapar, ele balançou a cabeça, parecendo tentar se focar.

— É melhor comer antes que esfrie. — Apontou então para a sacola do restaurante, mas eu suspirei sem muita vontade.

— Só quero a torta. Meu estado de espírito fodido pede por doces.

É a segunda vez no mesmo dia que eu troco uma refeição por uma fatia de bolo e sinceramente não costumo fazer isso, porque manter minha alimentação saudável é uma das minhas maiores preocupações.

Entretanto, desde ontem eu venho fazendo coisas que não costumava fazer, então que se dane.

— Então guarda o jantar pra comer depois, não pode jogar comida fora — Ele alertou enquanto eu já pegava o depósito descartável com a fatia de torta. — E quando for comer, lembre de provar a carne com o molho agridoce que eles adicionaram. Lá no restaurante eles servem com o barbecue, mas fica muito melhor com o que eu escolhi.

— Não parece que vai ficar bom, mas eu vou provar. — Eu disse, instantes antes de encher a boca com uma garfada generosa do bolo.

Jungkook sorriu pequeno e limpou o creme que ficou no canto dos meus lábios com seu polegar, chupando-o logo depois.

— Você pode confiar em mim quando o assunto for comida. — Anunciou, então, diante do meu pigarro um pouco afetado por seu gesto anterior.

Meio desastrado, eu só enfiei mais um pedaço de bolo na boca e senti meu corpo inteiro tensionar quando Jungkook se recostou no sofá, apoiando o braço atrás de mim, no encosto.

— Ah, — Eu disparei, tenso, tentando quebrar o silêncio. — Aquele garçom, Hoseok, disse que você parou de trabalhar lá no Black Stone porque estava correndo atrás do seu sonho. — Apontei, sentindo seu braço roçar de leve em meu ombro. — Seu sonho é ser chef ou alguma coisa assim?

— Não um chef. É complicado explicar — Ele respondeu e eu quase engasguei quando, dessa vez, ele suavemente apertou meu ombro com seus dedos.

Ainda com o corpo tensionado, eu engoli tudo antes de pegar a garrafa de vinho novamente para beber mais um gole generoso.

— Tem a ver com aquela cafeteria onde você trabalha agora? — Insisti, curioso.

— Eu quero ter minha própria confeitaria, na verdade — Ele corrigiu. Simultaneamente, sua outra mão voltou a tocar em minha coxa sutilmente, e ele a deixou ali ao não receber nenhuma repreensão.

— Isso não foi complicado de explicar. — Contrapus sua colocação anterior, confuso.

— Não é só isso, é que... — Ele parou de falar, mas não parou de massagear meu joelho, e eu percebi meus olhos dolorosamente atentos a isso. — Envolve outra coisa. É mais estranho que complicado, na verdade.

— Estranho por que?

Jungkook sorriu, interrompendo a massagem para segurar minha coxa, logo acima do joelho, com mais firmeza.

— Você parece cada vez mais interessado em mim, hyung. — Ele provocou, inclinando seu corpo um pouco mais em direção ao meu, até fazer seu peito tocar meu ombro.

— Eu já disse que só estou curioso. — Reafirmei, inabalável.

— Não me parecem coisas muito distintas, mas tudo bem. Acredite no que for mais conveniente para você.

Eu não desviei meu olhar do seu quando, num gesto automático e incomodado, massageei meu lábio com minha língua, percebendo que os olhos de Jungkook abandonaram os meus e recaíram lentamente em minha boca outra vez.

O peito dele subiu e desceu devagar e eu percebi a forma como ele mesmo umedeceu os próprios lábios antes de voltar a erguer os olhos.

— E você? — Perguntou, então.

— Eu o quê?

— Algum sonho?

Eu soltei mais alguns pigarros ao sentir seu braço, antes me tocando discretamente, envolver meu ombro de uma vez.

— Quero ser modelo fotográfico. — Confessei depois de tentar guiar minha mente para longe da reação ridícula em meu estômago ao me sentir abraçado por ele. — Larguei a faculdade de direito para tentar a sorte.

— Com um rosto desse ninguém precisa de sorte. Você é lindo, Jimin.

Eu pigarreei mais uma vez, sem conseguir me manter indiferente diante do seu comentário, e acabei desviando os olhos.

Elogios sobre minha aparência sempre foram comuns em minha vida e eu sempre soube reagir muito bem a eles, mas a forma desleixada, porém sincera de Jungkook fazer isso me pegou um pouco de surpresa.

— Obrigado. — Eu disse, então, levando mais um pedaço de bolo à boca.

— Envergonhado fica mais bonito ainda. — Ele provocou, ou talvez tenha sido sincero, ao passo em que se moveu sobre o sofá enorme e subiu a mão que estava em minha perna até meu rosto, passando seus dedos para afastar os cabelos em minha testa antes de descer a mão por minha bochecha, até me segurar pelo queixo e me forçar a olhar para ele.

— O que foi? — Eu perguntei, desajeitado diante da forma como ele me olhou ao fazê-lo.

O sorriso ainda estava lá, pequeno, provocativo, mas muito mais suave, e seus olhos pareciam devorar cada pedacinho do meu rosto.

— Eu realmente te acho bonito. Mais bonito que qualquer pessoa que já conheci. — Confessou, deslizando suavemente o polegar sobre meu lábio inferior.

Eu puxei o ar com cuidado, pesadamente, sem conseguir desviar meus olhos dos seus.

— Me dá uma chance, hyung. — Ele pediu, então. — Sem toda essa complicação, sem tentar negar que você também me quer. Só me dá uma chance.

Eu senti minha boca seca, os olhos arregalados e a respiração embargada, tendo meu olhar preso ao seu antes de ter forças para mover o rosto, ainda atordoado, para beber mais do vinho.

— Eu realmente não sinto atração por homens, Jungkook. — Alertei depois, tentando convencê-lo. Ou talvez tentando me convencer.

— Não quero que você sinta atração por outros homens. Quero que sinta por mim, e eu sei que você sente.

— Não é assim tão simples, ok? Eu não sei o que é isso, mas não é atração. É só... alguma confusão da minha cabeça. Eu acabei de descobrir uma traição e isso deve ter me afetado.

Jungkook suspirou, sem parecer impaciente.

— O que aconteceu? — Ele perguntou, então. — Aquela mulher do restaurante... o que exatamente ela fez?

— Dormiu com aquela marmota do Eunjo, o cara que estava com ela. — Eu disse, sem dar mais detalhes. — Eu ia fazer uma surpresa para ela porque nós estávamos discutindo muito nos últimos dias, mas quando cheguei na casa dela... você já deve saber.

— Sei. — Ele respondeu, pensativo, e eu levei o último pedaço da torta à boca.

— Realmente não é boa como a que eu comi de manhã. — Confessei, sem interesse em prolongar a conversa anterior. — Ponto para você.

— Eu disse. — Ele sorriu, olhando as horas no relógio em seu pulso quando eu deixei a embalagem vazia ao meu lado no sofá. — É melhor eu ir ou vou perder o último ônibus.

Eu apertei um pouco os olhos em confusão.

— Como assim? — Perguntei, sem entender. — Um minuto atrás você estava me pedindo uma chance e agora vai embora?

— Você foi bem claro. — Jeon disse. — Você não me quer, só parece querer porque está confuso, e eu disse que te deixaria em paz se você decidisse algo assim depois desse encontro. — Ele explicou com um sorriso pequeno, deslizando para a ponta do sofá. — Boa noite, hyung. E não beba demais.

Eu apertei minhas sobrancelhas e entreabri meus lábios, chocado, sendo um pouco inconsequente quando me inclinei em sua direção para segurar seu braço antes que ele ficasse de pé.

— Qual é a sua? — Questionei, um pouco ressentido. — Ontem no bar você foi muito mais insistente e hoje de manhã também não parecia disposto a desistir até me convencer a sair com você.

— Ontem eu estava bêbado, acabei passando dos limites. Já me desculpei por isso. — Ele confessou, sem se soltar de mim. — E hoje eu insisti porque acreditei que tinha uma chance, mas às vezes eu me engano mesmo. — Eu continuei olhando-o, querendo socá-lo quando ele sorriu, conformado. — Mas eu já entendi, agora.

Sem perceber, eu o segurei com ainda mais força quando ele fez menção de que se afastaria outra vez, e o puxei um pouco mais em minha direção, sem conseguir dizer nada.

Ele levantou um pouco as sobrancelhas, em tom de desconfiança, quando olhou para minha mão segurando seu braço.

Quando me dei conta do que estava fazendo, eu quase estapeei minha cara.

Jungkook está indo embora, com a promessa de que vai me deixar em paz, e isso é tudo que eu queria. Então, como se tivesse saído de um transe, eu o soltei pouco a pouco, até não tocá-lo mais. Dessa vez, entretanto, Jeon não se moveu, e eu senti seu olhar pesando sobre mim.

— Jimin, — Ele me chamou, então, com uma seriedade inesperada em sua voz. — você não precisa fazer esse jogo. Se você me quer, mesmo que só um pouco... só fala de uma vez.

Eu respirei fundo, dolorosamente, ao perceber o pensamento que atravessou minha mente na velocidade de um raio.

Eu o quero. E não, não é só um pouco.

Perceber isso foi como pisotear todas as minhas certezas de vida, e eu não poderia admitir em voz alta. Por isso suspirei, enfim, balançando minha cabeça para os lados.

Eu gostaria de nunca ter conhecido o desgraçado do Calvin. Me pouparia de toda essa merda.

— É melhor você ir mesmo. Eu não sei o que me deu — Eu disse, desviando brevemente o olhar, mas sem deixar de perceber quando ele umedeceu os lábios e finalmente ficou de pé, concordando com minha decisão.

— Tudo bem, hyung. Obrigado por sair comigo hoje, de qualquer forma.

Eu só assenti, tentando me convencer de que as coisas devem acontecer exatamente assim, e senti o sabor da uva se misturar ao morango quando bebi mais um gole de vinho, olhando para as costas de Jungkook enquanto ele se afasta.

Frustrado, eu passei a mão pela testa mais uma vez até jogar meu cabelo para trás, incapaz de ignorar a sensação amarga no fundo da garganta, que parece arrependimento.

Eu honestamente não sei o que Jungkook fez comigo. Não sei por que ele me atrai e não sei por que, no fundo, eu não quero verdadeiramente que ele vá embora.

Eu não sei. Porra, eu não entendo que inferno está acontecendo comigo, mas basta mais um gole de vinho e dois segundos de uma coragem repentina para que eu me levante num pulo, ignorando todo o meu orgulho e, numa proporção menor, parte do meu receio.

Quando caminhei apressado até a entrada de casa, sem saber exatamente para que ponto de ônibus ele poderia ter ido, eu olhei para os dois lados da rua e o vi ainda caminhando lentamente pela calçada com as mãos nos bolsos e a cabeça levemente apontada para baixo.

— Que merda eu estou fazendo? — Sussurrei para mim mesmo, desesperado, quando atravessei a rua com passos rápidos e cortei todo o caminho até ele, segurando seu braço com força mais uma vez.

Seus olhos viajaram até me encontrar, depois pousaram em meus dedos segurando-o e voltaram a focar em meu rosto.

— Você é sempre tão confuso assim? — Questionou sem parecer verdadeiramente irritado por isso, e talvez sabendo muito bem por que eu estava ali.

Talvez ele já esperasse por isso.

Eu sinto que fiz exatamente o que ele queria, como se tivesse caído em sua armadilha. E, meu deus, eu nem me arrependo.

Mesmo assim, meu orgulho me impede de dizer qualquer coisa e eu fico calado enquanto seguro seu braço e analiso todo seu rosto com meus olhos, cuidadosamente, até pousá-los em seus lábios.

Talvez eu não tenha culpa de me sentir assim.

Jungkook é lindo. Dolorosa, inegável e fodidamente lindo.

E sua boca... caralho, que pecado. Os lábios avermelhados, naturalmente luxuriosos, o inferior cheio e o superior fino, com um desenho tão bonito e tão único que chega a ser covardia.

Eu o odeio por ser tão bonito e tão irresistível.

Mas eu quero beijá-lo.

— Ninguém desiste de Park Jimin tão fácil assim. — Eu digo, tentando jogar a culpa em meu ego inflado. — Então é melhor você...

Antes que eu terminasse de dizer a provável besteira impensada que sairia de minha boca, as mãos de Jungkook seguraram minha cintura com força e ele inverteu nossas posições, fazendo meu corpo se chocar contra o muro de uma mansão na rua residencial vazia.

— Culpado. — Ele disse, juntando nossos corpos depois de roçar a ponta do seu nariz em minha bochecha e terminar com um beijo no canto dos meus lábios. — Eu não ia desistir de verdade.

Eu busquei seus olhos com os meus e senti todo o ar fugir de mim, vendo-o e sentindo-o tão perto. Então, levado pelo momento, eu subi minhas mãos até envolver seu pescoço, segurando-o firmemente e puxando seu rosto ainda mais na direção do meu.

— Me beija logo. — Eu pedi, já com as pálpebras pesadas e os lábios formigando de ansiedade quando senti seu sorriso contra minha boca.

Menos de um segundo depois, Jungkook voltou a beijar o canto dos meus lábios e eu senti seu suspiro contra minha pele quando pressionei meus dedos em seu couro cabeludo antes de virar meu rosto sutilmente para o lado para tentar tocar sua boca diretamente, e perdi o resto de juízo que me sobrou quando ele encaixou nossos lábios, devagar, e massageou o meu inferior com sua língua.

Meu estômago pareceu ficar de ponta cabeça quando eu o segurei com ainda mais força e o suguei em retaliação, sentindo suas mãos apertarem minha cintura em reflexo antes que ele afaste nossas bocas brevemente para me olhar nos olhos quando voltamos a abri-los, devagar.

A respiração pesada, com o peito subindo e descendo dolorosamente não é exclusividade minha, e eu não tenho sequer um resquício de controle quando volto a inverter nossas posições e empurro Jungkook contra o muro da casa elevada, puxando-o pela nuca outra vez para beijá-lo. Eu senti meu corpo estremecer quando nossos lábios se encaixaram de verdade e nossas línguas se encontraram, logo assumindo um ritmo lento, mas enlouquecedoramente intenso.

Sem perceber, eu fiquei nas pontas dos pés para tentar atingir sua altura e suspirei quando ele puxou meu corpo ainda mais contra o seu, subindo uma de suas mãos até minha nuca.

Quando perdemos o fôlego, ele diminuiu o ritmo e a intensidade e chupou meu lábio inferior, depois o superior, e então me deu um selinho demorado.

Eu continuei parado na mesma posição com os olhos fechados, meus braços agora envolvendo seu pescoço e minha cintura sendo acariciada suavemente por seu polegar.

— Eu não sei o que estou fazendo — Confessei, um pouco perdido.

— Eu quero te ver de novo. — Ele disse a despeito da minha incerteza, beijando minha bochecha outra vez. — Eu quero muito te ver de novo, hyung...

Eu deixei o ar escapar com seu toque inesperadamente carinhoso, e não foi depois de uma decisão racional que o fiz, mas quando dei por mim, meus dedos já estavam acariciando os cabelos em sua nuca.

Talvez eu não devesse, mas o beijo de Jungkook me embriagou mais que todo o vinho que eu tomei ao longo da noite. Por isso, minha voz saiu ainda um pouco incerta quando eu perguntei:

— Você está livre no próximo sábado?

❥ [Continua...]

Chapter Text

Eu fiz isso. Eu realmente marquei um encontro com Jungkook.

— O que eu estou fazendo com minha vida, Taehyung? — Eu perguntei, estirado na cama do meu melhor amigo, tentando me sufocar com seu travesseiro.

Noite passada, depois de vergonhosamente ceder ao charme de Jeon, ele se despediu de mim quando acertamos de nos encontrar no final de semana. Eu não sabia o que estava fazendo, ou por que caralhos estava fazendo, mas mesmo quando ele entrou no primeiro táxi que passou pela avenida (e que eu insisti em pagar, como agradecimento por ele pagar o jantar), eu não verbalizei nada que anulasse minha prévia decisão insensata de marcar um encontro com ele.

Só continuei parado na calçada como um imbecil, olhando para a rua vazia, sentindo meu estômago ainda gelado pela sensação do seu beijo gostoso e... confuso como o inferno.

Hoje, então, eu não pensei antes de sair de casa e vir para a de Taehyung. Afobado como estava, eu nem chequei o horário e cheguei cedo demais, então tive que passar quase duas horas com sua mãe e sua irmãzinha terrorista até que ele finalmente chegou da universidade.

— Você está se lamentando há uns quinze minutos e eu ainda não entendi o porquê — Ele resmungou com a boca cheia de salgadinhos de queijo.

Eu joguei seu travesseiro no colchão e estirei meus braços ao lado do meu corpo, olhando para o teto enquanto ouço o som de sua mastigação.

— Eu preciso contar, mas eu não quero contar. — Murmurei, quase sem esperança quando ele colocou mais um punhado de salgadinhos na boca.

Eu olhei para ele, que está sentado na cadeira de sua mesa de estudos, virado para mim com as bochechas sujas de queijo artificial.

— Eu estou no meio de uma crise e você nem para de comer! — Resmunguei, então, com seus olhos curiosos pousados em mim.

— Ya! Você não diz o que aconteceu e isso está me deixando tenso! E você sabe que eu lido com tensão comendo muito! — Ele se defendeu, ofendido.

Eu puxei o travesseiro para cobrir meu rosto outra vez. Talvez eu consiga me sufocar até a morte se o segurar assim por tempo o suficiente.

A verdade é que Taehyung é quem recebe o título de melhor amigo desde que eu me entendo por gente. Talvez, no fim, ele seja o único amigo de verdade que eu tenho.

Entretanto, isso não quer dizer que nós somos iguais, nem minimamente parecidos. Nós somos opostos como água e óleo e isso às vezes dificulta as coisas. Como nesse exato momento.

Taehyung, diferente de mim, é completamente relaxado com a vida. Enquanto eu estou surtando com a força de mil sois por estar me deixando envolver por um cara, ele provavelmente vai erguer os ombros e perguntar, entediado: "É só por isso que você está fazendo esse drama todo?"

Eu preciso de alguém que dê um tapa na minha cara e diga que eu tenho que parar com essa loucura e Taehyung definitivamente não vai ser essa pessoa.

— Minie, é sério, eu vou ficar doido de curiosidade se você não desembuchar logo!

Eu me debati na cama antes de jogar o travesseiro de lado outra vez e me sentar, com os cabelos completamente despenteados. De uma forma ou de outra, eu preciso muito falar sobre isso.

— Nara me traiu. — Eu comecei pelo menos pior. Sério, esse é o menos pior.

— Eita. — Resmungou, lambendo os dedos sujos. — Como você está?

— Possesso. Acordo no meio da noite sem conseguir dormir de tanta raiva, às vezes penso em queimar todas as coisas que ela deixou na minha casa. Eu quero sangue, Taehyung!

— Pelo menos você não está triste. — Ele comentou, mas isso meio que já era óbvio.

Meu relacionamento com Nara, apesar de ter se estendido por inexplicáveis quatorze meses, nunca foi lá um romance de cinema.

Eu, ela e o marmota do Eunjo nos conhecemos na universidade quando eu me matriculei no curso de direito. Não demorou muito para que nos aproximássemos e tivéssemos nossa própria panelinha dentro da classe. Mais um tempo depois, eu e ela ficamos bêbados em uma festa, nos beijamos, gostamos e fizemos isso outras vezes, sóbrios ou não.

A química era boa, nossa amizade também era bacana, então as coisas acabaram evoluindo para um namoro. Ela conheceu minha família, eu conheci a dela, nós fazíamos um sexo gostoso pelo menos três vezes por semana e, sei lá, eu gostava de como as coisas funcionavam entre nós dois.

Dois meses atrás, entretanto, eu tranquei o curso na universidade porque aquilo realmente não era para mim, mesmo que eu já estivesse com o pé na formatura. Meu sonho é ser modelo, sempre foi, mas eu menti para meus pais dizendo que vou tentar vestibular para engenharia no final do ano porque essa foi a única maneira que encontrei de minimizar seus discursos e punições.

De qualquer forma, eu deixei de estar com ela e Eunjo ao longo das aulas e parece que isso fez os dois se aproximarem demais, até, é, começarem a transar.

Tudo bem. Um dia eu vingo minha raiva enfiando esse chifre na bunda deles.

Mas o ponto é, nunca existiu um sentimento realmente intenso entre nós dois, então não é como se eu estivesse tão triste por isso, e a pouca tristeza que sinto é completamente recoberta pelo ódio.

— Mas não é isso que está criando esse drama todo. — Taehyung comentou, certeiro, me fazendo suspirar.

— Não... — Eu passei as mãos pelo rosto, sem saber se de vergonha ou desespero. — Acontece que tudo isso me levou a conhecer um cara e talvez esse cara... — Eu parei, sem coragem de prosseguir.

— Foi ele que fez isso no seu pescoço? — Ele perguntou, desleixado, virando os farelos do salgadinho direto na boca.

Eu cobri o chupão ainda marcado, me amaldiçoando por esquecer que ele existia.

— Foi. Porra, foi! — Bradei, furioso. — Ele fez isso no meu pescoço e nem foi o pior, acredite em mim! Mas eu fiquei doido, maluco mesmo, e o convidei para sair no fim de semana!

— Ele é bonito?

— O que? — Eu quase revirei os olhos, sem acreditar. — É só com isso que você se preocupa?

— Ué, e é pra me preocupar com o que? — Ele rebateu. — Me mostra uma foto dele!

— Você não está nem um pouco assustado por saber que eu vou sair com um cara?

— Minie, pelo amor de deus, isso é normal. — Ele resmungou, entediado.

Eu abri a boca, confuso, mas desisti de discutir com ele porque simplesmente não adianta.

— Eu não tenho foto dele. — Finalmente anunciei e ele fez uma careta insatisfeita.

— Vamos stalkear, então. Espera só um pouco — Ele pediu, se apressando até o banheiro de sua suíte antes de voltar com as mãos lavadas, secando-as em sua calça. — Me dá seu celular.

Eu olhei para ele, desconfiado, mas passei o telefone para suas mãos quando ele se sentou ao meu lado na cama.

— Como é o nome dele?

Eu fiz uma careta. — Jeon Jungkook.

Nos minutos seguintes, eu vi meu melhor amigo rolar incansavelmente a barra de pesquisa no celular. Mais uma curiosidade sobre Kim Taehyung: ele é o melhor stalker que existe.

— Jeon Jungkook, cadê você? — Ele cantarolou, mas então arregalou seus olhos e virou a tela para mim, algum tempo depois. — É esse Jeon Jungkook aqui, Jimin?

Eu olhei para a foto do perfil do instagram e levei menos de um segundo para comemorar vergonhosamente.

— É! — Eu quase gritei, mas pigarreei ao perceber minha reação e confirmei com a voz mais contida: — É esse safado, sim.

Taehyung então grunhiu, voltando a olhar para as primeiras fotos do perfil. — Meu deus, que homem lindo. — Ele disse e eu juro que pude ver corações em seus olhos.

Eu puxei o celular de sua mão, fazendo uma careta de pouco caso.

— Nem é isso tudo.

É sim.

— Me dá aqui, caramba, deixa eu ver direito! — Ele resmungou, se jogando em minha direção para pegar o telefone de volta, e logo estava deslizando o dedo pela tela enquanto analisava todas as fotos. — Minha nossa, minha nossa... olha esse homem!

— Tá, já chega, né? — Eu resmunguei, tentando outra vez tomar o celular, mas ele foi mais rápido ao esquivar.

— Espera, falta o mais importante. — Taehyung anunciou, sentando bem ao meu lado para que eu pudesse ver a tela também. — Vamos ver as fotos em que ele foi marcado.

Eu já ia suspirar de tédio e perguntar qual a necessidade, mas senti meu queixo cair junto com o de Taehyung quando vimos a última foto em que Jungkook foi marcado.

— Que... ousado? —Taehyung murmurou, rindo.

Eu, por outro lado, continuei estarrecido diante da foto da língua de Jungkook tocando a de outro cara no que parece ser um beijo muito safado e explícito.

Na foto seguinte, Jungkook estava sorrindo para algum lugar além da câmera, com o usual sorriso atravessado e um outro cara diferente sentado em seu colo, beijando seu pescoço. Depois, mais uma foto de Jungkook fazendo saliências com outra pessoa. E mais uma. E outra.

É estranho. Todas essas pessoas diferentes parecem exibi-lo como um troféu ou algo assim e isso me incomodou, sei lá por que.

— Bom... pelo menos nós sabemos que puritano ele não é. — Taehyung disse, um pouco surpreso, depois de analisar todas as fotos de Jungkook beijando outros caras, às vezes mais de um ao mesmo tempo.

— É essa a hora em que você me diz que sair com ele é má ideia. — Eu quase implorei, desesperado. Porque Jeon Jungkook é definitivamente a pior ideia.

— Por quê? — Ele questionou, verdadeiramente confuso. — Se você não for se apaixonar por ele ou coisa assim, eu não vejo problema nenhum.

— É claro que eu não vou me apaixonar por ele, Taehyung.

— Então? — Insistiu, em tom de obviedade. — Tá na cara que esse Jungkook é do tipo que não serve pra ser o cara da vida de ninguém, mas pelo menos uma boa foda ele deve dar.

Eu continuei olhando para meu amigo, abismado.

— Eu realmente ainda não acredito que você não estranhou nem um pouquinho o fato de eu estar prestes a sair com um cara e ainda por cima está até sugerindo essas coisas.

Ele deu de ombros, desleixado. — Graças aos deuses eu tenho a mente aberta, diferente de você.

Eu revirei os olhos, voltando a deitar minha cabeça sobre seus travesseiros quando ele saiu de cima da cama e voltou a caminhar em direção ao seu banheiro. — Agora espera aí que você não me deixou nem tomar banho depois que cheguei. — Ele resmungou, já fechando a porta.

Eu nem dei atenção, porque já estava olhando outra vez as fotos de Jungkook. E assim como da primeira, eu continuei um pouco chocado. Jeon tem vários seguidores, suas fotos são sempre exibindo seu rosto ou partes de seu corpo e ainda tem aquelas em que ele foi marcado por outras pessoas. É como uma vitrine que, apesar de estar estampada por vários ângulos dele mesmo, parece completamente impessoal.

Mesmo assim, depois de relutar um pouco, eu apertei o botão para segui-lo e me assustei quando, menos de três minutos depois, recebi uma nova notificação, seguida de uma mensagem.

Jeon Jungkook [@eros.00] começou a seguir você

Não atender
|Alguém andou me stalkeando?

Ótimo, agora você vai ficar todo convencido. Já vou dar unfollow.|

Jeon
|Não precisa disso, hyung. Eu também já tinha te stalkeado... só não fui tão ousado a ponto de te seguir.

Já reparou que você me faz revirar os olhos o tempo todo?|

Jeon
|Imagina quando a gente estiver fodendo...

Pelo amor de deu, cala a boca|

Você não deveria estar trabalhando? Larga o celular|

Jeon
|Eu fiz muitas horas extras, então ganhei o dia de folga pra compensar

Jeon
|Também sou filho de deus, mereço descanso

Até imagino o tipo de descanso que você planejou pra hoje. Orgia o nome|

Jeon
|Orgia é o novo nome da filmes online grátis?

Jeon
|Se for, acertou

Jeon
|Bem comportado e sozinho em casa como o moço recatado que sou 👼

Jeon
|Mas se você quiser vir aqui...

Não, obrigado|

Você parece bravo na foto|

Jeon
|Que indelicado, hyung, eu estava tentando seduzir você

Claramente não deu certo|

Jeon
|Eu posso me empenhar mais, se você quiser

Eu só quero que você pare de me mandar mensagens|

Jeon
|Mesmo? Tudo bem, então

Jeon
|Vou voltar a assistir meu anime

Eu esperei por outra mensagem pelos cinco minutos seguintes, mas Jungkook não disse mais nada mesmo que ainda estivesse online no aplicativo. Apertei meus olhos, com o orgulho ferido, e percebi que ele não parece mesmo disposto a insistir em conversar comigo.

O que você tá assistindo?|

Jeon
|Kimi ni todoke

Jeon
|Acho que vou morrer de amores antes do final ):

Eu amo kimi ni todoke!!!!!|

Jeon
|Eu amo sua bunda

Oh meu deus você não para|

Jeon
|É mais forte que eu :x mas estou feliz por descobrir que você também gosta de animes. Acho que é a primeira coisa em comum que temos

Jeon
|Além, é óbvio, do tesão que sentimos um pelo outro...

...|

Jeon
|Ei

Oi?|

Jeon
|Você vai mesmo me encontrar no sábado?

...eu devo estar ficando louco, mas vou|

Jeon
|Sorte a minha que você enlouqueceu, então

Jeon
|O que vai querer fazer?

Não sei...|

Jeon
|Então eu decido

Jeon
|Vai ser o melhor encontro da sua vida!

ha ha ha|

Jeon
|Meio ofensivo, mas ainda bem que posso fazer você rir ^^

Jeon
|Seu sorriso é bonito, hyung

Então você sabe elogiar algo além de bundas?|

Obrigado. Seu sorriso também é bonito, eu acho|

Jeon
|Você me elogiou? De verdade? Parece que temos um progresso aqui

Jeon
|Qual vai ser o próximo grande passo? Me cumprimentar educadamente quando me encontrar?

Idiota|

Jeon
|EEEE voltamos à programação normal lol

Jeon
|Eu quero te ver logo, hyung ):

Então toma, ao vivo|

Jeon
|Porra, olha esse rosto

Jeon
|Vai se foder

Jeon
|Bonito pra caralho

Tem uma espinha ali na minha testa, ó, mas obrigado de novo|

Fico duplamente lisonjeado pelos palavrões|

Jeon
|Caralho cacete buceta puta que pariu vai se foder e tomar no cu hOMEM LINDO DA PORRA

Jeon
|De nada

Jeon
|(Eu também to com uma espinha na testa haha)

Meu deus ㅋㅋㅋ|

Você é muito idiota|

Jeon
|Homens bonitos demais me deixam bobo

Tente não se olhar muito no espelho então|

Jeon
|Wow. Park eu-sou-muito-hetero Jimin acabou de me cantar?

Foi só uma brincadeira|

Eu ainda gosto de mulher|

Jeon
|Sabe o b em lgbtq+? E o que o + engloba?

Jeon
|E, sei lá, é difícil acreditar na sua suposta heterossexualidade agora

Jeon
|Aconteceu de você sentir atração por um cara, qual o problema? Só aproveita que esse cara também tá fodido de tão atraído por você

Por que parece que você está falando sério?|

Jeon
|Só não quero que você perca as coisas boas da vida e eu nem estou falando num contexto sexual

Jeon
|Acredite em mim, se aceitar é mais gostoso que muita foda

Ok, jungkook, eu preciso de um esclarecimento|

Às vezes você é safado, às vezes é ridiculamente fofo e às vezes é uma pessoa sensata. Qual dos 3 é real?|

Eu aposto no safado|

Jeon
|Eu não posso ser os 3?

Jeon
|Você realmente não deveria limitar uma pessoa inteira a uma coisa só, hyung

É só que... você me confunde.|

Jeon
|relaxa, com o tempo você entende como as pessoas reais funcionam. isso não deve ser muito comum nesse seu mundo cheio de dinheiro e aparências forçadas (:

Para de falar como se você conhecesse minha vida só porque sabe que eu tenho dinheiro, Jeon|

Jeon
|Então pare de limitar tudo sobre minha personalidade só porque já sabe que eu gosto de sexo

Você ficou ofendido? Eu só fiz uma pergunta!|

Jeon
|Nah, você definitivamente não é o primeiro a pensar isso de mim, então já estou acostumado. Só estou dando um toque mesmo

Jeon
|Eu vou ver meu anime agora

Jeon
|Lembre que nesse sábado você é meu, ok?

...ok|

Não me decepcione|

Jeon
|Nunca (:

Apesar de não trabalhar nos finais de semana, Jungkook disse que tinha um compromisso pela manhã e, por isso, marcou de me encontrar somente à tarde. O que, no fim das contas, foi algo bom porque, pelas últimas duas horas e meia, meus esforços estiveram vergonhosamente voltados para parecer impecável para Jungkook. Entretanto, na mesma intensidade em que me recriminava por isso, eu tentei não deixar todo esse empenho tão óbvio.

Tipo, oh, sim, eu estou maravilhoso, mas é porque sou assim naturalmente! Não pense que eu hidratei meu cabelo, cuidei excepcionalmente bem da minha pele, passei minha melhor loção e gastei um tempo dolorosamente desnecessário tentando escolher a combinação de roupa perfeita só por sua causa!

Mas ainda que possa negar para ele, me dói não conseguir mais negar para mim mesmo o quanto Jeon me deixou ansioso. Eu passei os últimos quatro dias sentindo meu coração acelerar sempre que uma nova mensagem chegava, torcendo para que fosse uma dele, e esperei ansiosamente por nosso encontro hoje.

Isso é ruim. Isso é muito ruim. Eu não quero me sentir assim por ele.

Mas, ao mesmo tempo, eu não consigo desistir. Jungkook despertou em mim esse desejo incontrolável de descobrir o que vai acontecer, por mais que eu tenha medo.

Por isso, sigo meus esforços em busca de uma boa combinação de roupas e me viro para poder me avaliar no espelho do closet quando visto uma nova. Assim como a calça e os sapatos, a blusa é preta e está enfiada por baixo do cinto de couro, com mangas curtas e uma pequena fenda na parte central da gola folgada que acaba deixando minhas clavículas um pouco amostra.

Parece que eu estou de luto. Provavelmente por minha heterossexualidade.

Depois de checar as horas e ver que já estava no horário, então, eu só coloquei um cordão de prata, recoloquei meus aneis e desci as escadas de casa, indo direto até o ponto de táxi mais próximo. Eu nem mesmo me preocupei em pedir o carro de um dos meus pais porque talvez tenha a pretensão de beber, assim posso culpar o álcool por qualquer coisa condenável que venha a acontecer nesse encontro.

Quando cheguei no nosso ponto de encontro no Namsan Park, eu me sentei depois de olhar ao redor e não ver Jungkook por perto, incomodado e com o orgulho ferido por ter sido o primeiro a chegar, mas logo meu celular apitou com uma nova mensagem sua. 

Jeon
|Já te disseram que você fica uma delícia todo de preto?

Eu olhei ao redor imediatamente e só então o vi encostado numa árvore próxima, com as mãos nos bolsos de sua calça larga e o sorriso safado já delineando seus lábios.

— Há quanto tempo você estava aí? — Eu perguntei, um pouco irritado quando ele se aproximou de mim e eu fiquei de pé.

— Há tempo o suficiente para ver você irritado por achar que chegou primeiro. — Ele respondeu, reprimindo um sorriso. — Eu cheguei cedo, hyung. Estava muito ansioso para te ver.

Ah, não. Vai se foder. Eu não acredito que acabei de sentir frio na barriga.

— Você também estava ansioso, hyung?

Eu apertei meus olhos e senti meu rosto esquentar quando um sim atravessou minha mente com a velocidade do Quicksilver.

Entretanto, antes que eu tente ignorar essa resposta instantânea, Jungkook deu o último passo que nos separava e se inclinou brevemente para colar seus lábios à minha bochecha, me dando um beijo demorado, sem tirar as mãos dos bolsos de sua calça.

— Você realmente fica muito bonito quando está envergonhado. — Ele apontou, sem deixar passar batido a coloração em minhas bochechas.

Eu quis xingar baixinho, mas me controlei.

— Para onde você quer ir? — Desconversei, tentando não evidenciar ainda mais minha falta de jeito.

— Quero ir até a torre. — Jungkook apontou para a enorme Seoul Tower no topo do morro circundado pelo Namsan Park, e eu não sei se fui muito bom em disfarçar meu desagrado.

— Sabe quantos degraus a gente tem que subir até chegar lá? — Perguntei, abismado. — Eu prefiro deixar essas atividades para os turistas.

— Degraus? Mas a gente vai subir pelo teleférico.

Foi então que eu verdadeiramente entrei em pânico, porque subir pelo teleférico é uma ideia ainda mais absurda que subir caralhocentos degraus de uma vez.

— Você tem medo de altura ou alguma coisa assim, hyung? — Jungkook perguntou, diante do meu silêncio quase mórbido.

É claro que eu tenho medo de altura. Eu tenho um puta de um medo do caralho de altura, inferno, e deus que me livre de ficar a não sei quantos metros do chão pendurado numa cabine metálica.

Por isso, mesmo com essa relutância fervorosa, eu não sei como deixei meu orgulho vencer quando balancei a cabeça para os lados, negando.

— Claro que não tenho medo.

Jungkook passou a língua entre os lábios num gesto casual antes de exibir um sorriso meio atravessado, desconfiado. — Então vamos.

Meus pés pareceram pesar uma tonelada e eu demorei para conseguir me mover até mesmo quando Jungkook segurou meu pulso, quase com cuidado, me puxando para segui-lo.

Com as pernas vacilando como gelatina, eu o acompanhei, em silêncio e aterrorizado, porém orgulhoso demais para assumir que, na verdade, tenho sim um medo desgraçaaaado de ficar a mais de três palmos do chão.

— Nem tem fila... — Eu apontei quando chegamos ao teleférico e, ainda que essa percepção seja algo bom para a maioria das pessoas, para mim foi como um balde de água fria, porque eu nem vou ter tempo para me preparar psicologicamente.

— Sorte a nossa. — Jungkook respondeu, ainda me puxando pelo pulso como se tivesse medo de que eu pudesse fugir.

Talvez isso seja exatamente o que eu quero fazer.

— Não parece que vai chover? — Eu disparei a pergunta quando a cabine metálica se aproximou da plataforma, tentando a todo custo impedir que entrássemos naquilo.

Jungkook olhou para o céu sem nuvens e voltou a olhar para mim com as sobrancelhas erguidas, quase debochado.

— É sério. Pode não parecer, mas eu estou sentindo que vai chover. — Insisti, dissimulado.

— Seus peitos estão dizendo isso? — Jungkook perguntou, de repente.

— É o que?

— Nunca assistiu Meninas malvadas? — Ele questionou, ultrajado. — Os peitos da Karen sabem quando vai chover.

Eu revirei os olhos, entediado. — Os peitos dela não sabem quando vai chover, eles sabem quando já está chovendo. E ainda tem margem de erro.

— Não, ela definitivamente diz que os peitos dela conseguem prever quando vai chover. — Jungkook insistiu, cheio de certeza.

— Olha aqui, eu sei do que estou falando, ok? — Resmunguei, impaciente. — Vai assistir o filme de novo e depois a gente conversa.

Ele riu baixo, meio arrouqueado, e eu arregalei os olhos quando senti ele me puxar mais uma vez e, com um passo, entramos na cabine do teleférico.

— Sabe que Meninas malvadas realmente combina com você? — Ele provocou, deslizando seu polegar por meu pulso enquanto continua segurando-o.

— É meu filme favorito. — Eu confessei olhando ao redor, completamente apavorado, certo de que a cor já deixou meu rosto e eu estou branco como uma folha de papel.

— E você ainda achava que era hétero?

Eu o olhei inconformado, mas sentindo a indignação vacilar quando a cabine balançou com a entrada de mais um grupo de pessoas.

Oh, meu deus, eu realmente não quero ficar pendurado no ar nesse negócio!

— Desde quando o gosto por um tipo de filme define a sexualidade de alguém? — Eu tentei soar duro em meu questionamento, mas o pavor fez minha voz tremer mais que minhas pernas.

— Eu só estava brincando. — Jungkook confessou, me puxando para que eu ficasse de frente para ele e de costas para a enorme janela do teleférico. — Você pode olhar para mim.

— Hã?

— Você não parece muito confortável, vai ser pior se ficar olhando para fora, então pode olhar para mim.

— Quem não está confortável? — Eu perguntei, procurando a barra de apoio atrás de mim com a mão livre e a segurei firmemente como se minha vida dependesse disso.

Ele sorriu, parecendo quase compreensivo. — Nós podemos descer, se você quiser.

— Não. Já estamos aqui, então vamos continuar. — Insisti por puro orgulho, mas precisei reprimir um grito que morreu na garganta quando a porta fechou e meus olhos se arregalaram ainda mais.

— Acho que é tarde demais. — Ele olhou para a portinha trancada e pareceu sereno quando o negócio deu um solavanco antes de começar a subir em direção à torre. Eu, por outro lado, comecei a sentir meu esfíncter anal um pouco mais frouxo.

— Certo. Onde paramos? — Jungkook pareceu pensativo, tentando retomar a conversa. — Seus filmes favoritos. Me diz outro.

— Eu realmente não consigo lembrar agora. — Respondi, quase resfolegando com a agonia, segurando a barra de apoio cada vez com mais força.

Jungkook passou os dentes sobre o lábio inferior e eu me assustei, mas não consegui recuar quando ele me puxou pelo pulso ainda preso por sua mão e fez meu corpo trêmulo se apoiar contra o dele. Ele passou um braço por minhas costas, me segurando perto, e eu apertei sua blusa, amassando-a completamente enquanto fechava os olhos com desespero.

— Você deveria ter dito que tem medo, hyung. — Ele disse, calmo.

— Sério que você não percebeu só de olhar para mim? — Questionei, até um pouco agressivo.

— Altura não é seu forte, eu percebi, mas não achei que era tão sério.

— Eu não acredito que você está fazendo piada sobre minha altura logo agora. — Resmunguei para logo depois soltar um grito baixo, me apertando ainda mais contra ele quando a cabine balançou um pouco mais forte e eu quase comecei a chorar.

— Desculpa, é mais forte que eu. — Ele riu um pouco, e não pude evitar a surpresa quando ele deslizou a mão por minhas costas parecendo tentar me reconfortar, e me deu um beijo na lateral da cabeça. — Nós já estamos chegando. A subida é bem rápida.

— Graças a meu bom deus.

Eu senti sua respiração me atingir, suave, quando ele deixou uma risada nasal escapar, e me amaldiçoei por me arrepiar inteiro só com isso.

— Quando chegarmos, eu posso tirar uma foto sua? — Perguntou, então. — Vai ficar incrível com a vista de lá da torre.

— Eu vou sair desse negócio pálido como um cadáver, é claro que não vou posar pra nenhuma foto.

— Você vai estar lindo como sempre. É impossível você ficar feio.

Eu me calei, um pouco sem jeito. Ouvir elogios sobre minha aparência é algo com o que estou mesmo habituado, mas parece totalmente diferente quando é Jungkook quem o faz.

Eu realmente não entendo esse efeito que ele tem sobre mim.

— Vem, — Ele me chamou quando meu corpo travou junto com uma última guinada da cabine, e me afastou com cuidado para me puxar para o lado de fora. — já chegamos.

Eu balancei a cabeça em concordância, mas o resto do meu corpo não pareceu concordar tão facilmente, o que acabou por fazer com que fossemos os últimos a sair do teleférico.

Do lado de fora, eu respirei fundo e me escorei na parede de uma das várias lojas espalhadas por ali, vendendo coisas a preços exorbitantes para os turistas mais idiotas.

— Você quer uma água? — Jeon perguntou, parado em minha frente com a blusa cinza completamente amassada por minha causa.

— Na verdade, eu gostaria de algo mais gostoso e mais calórico.

Jungkook riu da minha resposta, como se eu estivesse brincando.

— Quer ir comprar antes ou depois de posar pra minhas fotos?

Eu revirei os olhos, prestes a reafirmar que nem fodendo vou parar na frente de uma câmera no meu estado atual, mas ele foi mais rápido.

— Pelo menos vem ver a vista comigo. — Ele insistiu, e eu arregalei um pouco os olhos quando ele tocou minha mão com as pontas dos seus dedos, como se pedisse permissão para segurá-la.

Relutante, eu afastei minha mão da sua e segurei meu outro braço, mantendo-a ocupada e longe do seu toque.

Jungkook sorriu com minha reação, sem deboche.

— Você tem medo do que vão pensar. — Eu gostaria de ter escutado uma pergunta, mas foi uma afirmação, e certeira.

— Você não tem?

— As pessoas sempre me julgam não importa o que eu faça, então qual o ponto? — Ele corrigiu, caminhando ao meu lado, dessa vez sem me tocar, com as mãos nos bolsos de sua calça.

Eu o olhei, um pouco impressionado por sua resposta, antes de virar o rosto com os lábios retorcidos em desagrado.

— Gostaria de conseguir pensar assim.

— É um exercício mental. Aos poucos você consegue. — Ele disse, balançando os ombros com algum desleixo.

Eu ri um pouco, desacreditado.

— Você realmente tem um lado bacana, Jeon.

— Eu sei.

Dessa vez revirei os olhos, mas ainda com um sorriso no rosto.

— Ok, acho que aqui já está bom. — Ele me tocou brevemente, me fazendo parar de andar ainda longe da barra de proteção da plataforma vazia, acho que para me poupar de mais uma vertigem.

Eu olhei adiante, vendo a cidade onde nasci e morei toda minha vida, mas de uma perspectiva totalmente diferente, muito mais bonita.

— É bonito, não é? — Ele perguntou, com as mãos novamente nos bolsos, olhando para Seul inteira se estendendo abaixo de nós. — Eu gosto bastante de vir aqui.

Eu virei meu rosto para ele, um pouco desconfiado. — Deve trazer todos os idiotas que caem nessa sua lábia.

— Eu venho sozinho. Gosto de fotografar daqui.

— Que papo mais clichê. — Resmunguei. — E eu não vi nenhuma dessas fotos no seu Instagram. — Apontei, sem perceber que acabei me denunciando e entregando que olhei várias, senão todas as fotos de seu perfil.

— As pessoas que me seguem lá não estão interessadas nesse tipo de imagem. — Ele deu de ombros outra vez, conformado.

— Eu gostaria de ver. — Eu disse com um dar de ombros. — É melhor que ver mil fotos diferentes do seu rosto tentando seduzir alguém.

Ele sorriu, sem olhar para mim.

— Algum dia, quem sabe.

Eu aceitei sua resposta, mas ainda perdi algum tempo olhando para seu rosto antes de voltar a admirar a vista, verdadeiramente sem saber o que é mais bonito.

Nós só ficamos em silêncio, então, até que eu me arrisquei um pouco mais e caminhei até a barra de segurança, tentando não olhar para baixo para não surtar com a altura, e olhei somente para o horizonte.

A paisagem prendeu minha atenção por tempo demais e eu demorei para perceber que Jungkook não tinha me acompanhado. Quando olhei para trás, ele estava no mesmo lugar, com a câmera de seu celular apontada para mim, e sorriu quando me olhou por cima do aparelho como uma criança pega no flagra.

Eu fiz um gesto negativo com a cabeça, mas meu riso anulou a seriedade da minha repreensão e, percebendo que ele ainda estava me fotografando, eu mostrei a língua para a câmera, fazendo-o rir quando capturou minha careta.

— Eu disse. — Ele falou, olhando para a foto recém tirada. — É impossível você ficar feio.

Eu deixei que um sorriso pequeno e cheio de satisfação aparecesse, louco para que Jeon não seja capaz de perceber como seus elogios causam esse efeito ainda mais intenso em mim.

Depois, eu me aproximei dele e nós procuramos outros pontos ao longo da plataforma circular que nos mostrassem diferentes ângulos da cidade, e a cada segundo eu estive consciente sobre a forma como meu riso parece fácil perto dele.

— Vai, deixa eu provar o seu. — Ele pediu, ou exigiu, apontando para o copo de milkshake em minhas mãos quando, depois de muito admirar a vista, nos sentamos em um dos bancos vazios.

— Nem a pau. Não vou deixar você me dar um beijo indireto. — Respondi, irredutível.

— Até parece que nós não já fizemos bem mais que isso. — Replicou, provocativo. — Lembra que eu bati uma...

Eu o interrompi, enfiando o canudo grosso do milkshake entre seus lábios e ele sorriu satisfeito, sugando um pouco da bebida logo depois.

— Gostoso. Combina com você. — Anunciou, ao final, e eu revirei os olhos.

— Você é mesmo assim com todo cara por quem se interessa? — Perguntei, desacreditado.

Ele deu de ombros, brincando com o canudo da sua própria bebida.

— Eu não me interesso por muitos caras, na verdade.

Eu deixei um som incrédulo e debochado escapar, deixando claro que eu não vou cair nessa. Jungkook também riu, mas em seu caso a risada parece forçada, até sem jeito.

— Existem muitos caras com quem eu fodi, muitos para quem eu dei e alguns com quem eu fiz os dois, mas juro que você recebe tratamento especial.

— Você realmente dá? — Perguntei, direto, num impulso surpreso.

Ele gargalhou da minha reação e abanou a cabeça.

— Felizmente sei aproveitar ao máximo o que a vida me dá.

Eu continuei olhando-o, sugando o milkshake através do canudo grosso como se minha vida dependesse disso, e vi a forma como ele se perdeu por uns instantes olhando para os meus lábios.

— Por que, hyung? — Ele questionou, voltando a olhar nos meus olhos sem se desfazer do tom quase brincalhão, mas provocativo. — Você ficou interessado?

Eu neguei bruscamente, lambendo meus lábios para limpá-los, e vi Jungkook envolver seu canudo com seus lábios finos, bem desenhados, sugando seu milkshake de morango sem parar de olhar para mim.

— Só fiquei curioso. — Eu usei a mesma desculpa de sempre depois de perceber que passei tempo demais olhando para sua boca.

Jungkook piscou lentamente, olhando adiante. Silêncio recaiu sobre nós por alguns segundos, até que ele voltou a falar e eu juro que minha pressão caiu:

— Eu quero muito foder você. — Ele anunciou, tocando de leve com o canudo em seu lábio inferior. — Mas também quero que você me foda todinho, hyung.

Eu me engasguei com o vento e cobri minha boca com a mão enquanto tossia como um tuberculoso, certo de que fiquei vergonhosamente vermelho.

Jungkook riu outra vez, recostando-se no banco, relaxado como se tivesse atingido seu objetivo, e eu amassei o guardanapo envolvendo meu copo plástico para jogar nele, inconformado.

— Para de falar essas coisas tão casualmente — Resmunguei, mesmo que tenha acabado rindo um pouco. — Otário.

Jeon suspirou, quase de forma teatral. — Devo ser um otário mesmo, já que estou louco para te beijar mesmo sabendo que você não vai deixar.

Eu olhei para ele com a expressão incerta, analisando a seriedade por trás de seu tom sempre provocativo antes de voltar a olhar para seus lábios outra vez, apertando os meus num gesto tenso.

Inferno. Por que a boca dele tem que ser tão...?

— Se você pelo menos sabe disso, então não é tão otário assim. — Eu ainda tentei dizer com algum desleixo, mas tenho certeza de que falhei.

Por isso fiquei de pé logo em seguida, percebendo que minha resistência a ele começou a ficar cada vez mais baixa e isso definitivamente não é bom.

— Vamos descer logo, eu não quero entrar naquele teleférico depois que escurecer nem a pau. — Sugeri, jogando o copo vazio num lixeiro antes de começar a andar.

— Vamos pela escadaria. — Ele disse, segurando meu braço e me puxando suavemente para a direção contrária. — Pode cansar, mas é melhor que ver você apavorado de novo, apesar de ter gostado da forma como você me abraçou.

Eu corei com a lembrança recente, mas não me opus à sua decisão porque definitivamente prefiro evitar aquela cabine e, de qualquer forma, descer tantos degraus pode me ajudar a queimar as calorias do milkshake, já que a seleção do estúdio fotográfico para o qual me inscrevi está cada vez mais perto e não é bom ganhar muito peso agora.

Enquanto descemos a escadaria, então, um silêncio um pouco incômodo se instalou, e eu percebi que Jeon se manteve sempre um degrau atrás de mim.

— Por que você não desce ao meu lado, seu esquisito? — Perguntei, parando para olhá-lo e agradecendo por ter um bom preparo físico e não estar nem perto de me cansar.

— A vista daqui é bonita. — Ele respondeu, simplesmente.

Eu apertei um pouco os olhos antes de arregalá-los, inconformado, ao perceber que ele estava falando da minha bunda.

— Tarado.

Jeon só mostrou um sorriso safado, sem tirar as mãos dos bolsos de sua calça justa, e eu me virei bruscamente quando percebi que estava quase cedendo ao impulso de dar uma olhadinha nas suas coxas gostosas marcadas por essa calça justa.

Entretanto, quando me virei tão rápido, meu corpo acabou se chocando desastrosamente contra o de um cara que estava subindo.

— Oh, porra... — Resmunguei, mas senti minha revolta toda se esvair numa lufada mansa quando vi o tamanho do cara, grande como uma parede e aparentemente muito puto com o que acabou de acontecer. — Hm, me desculpa...?

— Você não olha por onde anda? — Ele questionou, agressivo, e eu tremi mais que chihuahua quando percebi que ele estava acompanhado por dois caras tão grandes quanto ele.

— Desculpa mesmo. — Eu insisti, tentando usar meu charme para acalmá-lo, tão apavorado que até meu orgulho saiu correndo.

— Não fique andando tão distraído assim em lugares como esse! Imagine o tipo de acidente que poderia causar! — O brutamontes apontou como se eu já não soubesse disso, então quis revirar os olhos, mas não o fiz por puro medo.

— Cara, ele já pediu desculpas. — Eu me assustei ao perceber Jungkook intervindo em minha defesa.

Se fosse eu no lugar dele, teria seguido normalmente como se nem me conhecesse, juro por deus.

— Um pedido de desculpas não vai mudar o fato de que ele quase me fez rolar pela escadaria— Ele exagerou, parecendo mais bravo e quase me fazendo desmaiar quando se aproximou ainda mais.

Puta que pariu, ele tem cheiro de carne de hambúrguer estragada.

Jungkook respirou fundo ao meu lado, parecendo inabalado pela ameaça iminente, e eu quase tive uma síncope ao vê-lo exibir um sorriso debochado. Quando ele abriu a boca para falar, eu acreditei que nossa sentença de morte seria dada, mas então ele só gritou, agarrando meu pulso: — CORRE!

Eu nem pensei em fazer o contrário. No primeiro puxão que ele me deu, meu corpo foi junto leve como uma pena, e nós só descemos os degraus feito loucos, ouvindo os gritos do brutamontes enquanto ele e seus amigos tentavam nos alcançar.

Acho que a adrenalina me deixou meio chapado, porque eu comecei a rir e gritar como um maluco que nós estávamos em um episódio de Itazura na Kiss, quase perdendo o equilíbrio quando vi, de relance, que Jungkook também ria comigo.

— É provável que a gente morra! — Eu gritei para ele, rindo como se minha afirmação não fosse baseada em fatos reais.

— A gente é bem mais rápido. Continua!

Bem, ele tinha razão. Parece que todo o tamanho dos três caras acabou funcionando como um revés para eles, porque eu e Jeon criamos uma distância cada vez maior, até chegarmos ao fim da escadaria em tempo recorde. Mesmo assim, nós continuamos correndo pelo parque até considerarmos seguro parar, e então empacamos detrás de uma árvore, ignorando os olhares curiosos em nossa direção, e eu caí no chão, deitado, enquanto ele se apoiava em seus joelhos, ofegante pela corrida, mas acho que também pela risada.

Deus, eu realmente gosto do som da risada dele.

Sinceramente, espero que ele também goste da minha porque mesmo sem forças até mesmo para deixar os olhos abertos, eu continuei rindo, deitado sobre a grama.

— Eu achei... eu achei que você... — Eu tentei falar, mas a falta de ar e a crise de riso explosiva retornaram com força, então minha frase ficou solta pelo ar enquanto eu quase rolava pelo chão.

Finalmente sem forças também, Jungkook caiu sentado ao meu lado antes de se deitar, com o peito subindo e descendo furiosamente enquanto tentava se recompor. Eu tentei fazer o mesmo, e acho que gastamos uns bons minutos antes de acalmarmos nossas respirações.

— Será que eles ainda estão procurando a gente? — Eu perguntei, com a preocupação se perdendo detrás do meu sorriso persistente.

— Se estiverem e nos acharem, eu estou entregue. Não tenho mais forças para correr. — Jungkook respondeu com os olhos fechados, também sorrindo.

Eu virei meu rosto um pouco mais para olhar para o dele, e senti que poderia ficar sem ar de novo quando vi a forma como um filete de suor escorria pela lateral de sua testa e seus lábios rosados estavam deliciosamente entreabertos, tão convidativos.

É realmente injusto alguém ser tão bonito assim.

Quase hipnotizado por ele, então, eu reuni as poucas forças que recuperei e me apoiei em meu braço, erguendo meu corpo o suficiente para deixar minha cabeça pairar sobre a sua. Provavelmente percebendo a penumbra que isso provocou, ele abriu os olhos, devagar, e eu suspirei baixo quando ele manteve seu olhar preso ao meu.

Pulmões, por favor, aguentem mais um pouco. Eu realmente preciso beijar Jeon Jungkook agora.

Antes que eu me inclinasse, então, ele subiu a mão até minha nuca, acariciando-a antes de me puxar em sua direção, fazendo nossas bocas se unirem.

Eu suspirei baixo outra vez, movendo meu corpo para tentar ter mais sustento quando Jungkook meu tocou com sua língua, pedindo para aprofundar o beijo. Eu permiti, sem resistência alguma, e senti os poucos pelos do meu pescoço se arrepiarem com a forma lenta, porém intensa como ele me beijou.

Ele chupou meus lábios e minha língua, massageou minha nuca e com a outra mão tocou na base da minha coluna, quase em minha bunda, empurrando minha blusa para cima e então tocando minha pele diretamente com seus dedos, movendo-os em círculos suaves que me deixaram tonto.

Eu poderia passar dos limites. Eu definitivamente deixaria Jungkook fazer o que quisesse comigo, mas então meu braço fraquejou e meu corpo desmontou sobre o dele, sem forças.

Isso fez com que voltássemos a rir, então foi impossível retomar nosso beijo, e eu mantive meus olhos fechados quando ele me deu um selinho antes de tocar minha cabeça, deitando-a sobre seu peito.

— Nós podemos ficar assim agora. — Ele disse, ofegante, e eu soube que dessa vez foi por nosso beijo e não pela corrida maluca.

E eu só concordei, completamente rendido.

❥ [Continua...]

Chapter Text

É estranho perceber que meu encontro com um cara foi o melhor que eu já tive na vida.

Jungkook sabe me fazer rir com a mesma facilidade em que me faz ter surtos internos violentos, assim como me faz querer beijá-lo com a mesma intensidade em que, às vezes, desejo socar sua cara.

Tudo isso é muito novo para mim. Não só por ser provocado por outro homem, mas também porque nem mesmo as mulheres com quem me envolvi me fizeram sentir assim.

Era bom, com elas. Era fácil, preto no branco. Se eu me interessasse por alguém e fosse correspondido, ótimo. Podíamos sair para jantar juntos, talvez ir ao cinema, quem sabe transar sem compromisso. Caso não fosse correspondido, tudo bem também, eu seguia em frente sem remorso, até porque elas quem saíam perdendo.

Eu nunca gostei de joguinhos de conquista. Nunca gostei do chove-e-não-molha. Para mim, ou queria, ou não. Agora, entretanto, eu me vejo interpretando o papel que sempre condenei: o da pessoa que quer, mas finge não querer.

Não é algo premeditado, eu juro. Não estou tentando parecer uma conquista difícil para ele, é só que... é assustador me sentir assim.

Durante toda minha vida me foi dito que não era normal homens se envolverem com outros homens ou mulheres com outras mulheres. E embora eu nunca tenha feito represálias ou destilado ódio contra pessoas que fossem contra essa regra, eu estava firme em minha certeza de que não queria, tampouco podia, ser uma delas.

Então, eu não posso negar. Eu estou assustado. Muito. Mas Jungkook consegue despertar em mim o desejo de descobrir até onde posso ir antes de colapsar.

E foi isso. Pelo menos naquela tarde de sábado, depois de fugirmos daqueles valentões, eu tentei vencer minha relutância. Eu deixei Jungkook me fazer rir até a barriga doer, deixei ele escolher o lugar onde iríamos jantar e aceitei dividir a conta da pizza que compramos. Mas não o deixei segurar minha mão, nem me beijar na frente de outras pessoas.

Ele foi paciente sobre isso, mas me roubou um selinho quando me acompanhou até minha casa, mesmo que eu tenha insistido que ele não precisava fazer isso.

Jungkook me fez ter um dos dias mais inusitados e divertidos da minha vida e, deus, eu quis vê-lo de novo. Por isso, esperei ansioso que ele me mandasse uma mensagem, orgulhoso demais para ser o primeiro a fazê-lo.

Mas Jungkook não me procurou.

Por seis dias.

Enquanto isso, Kang Nara, a ex traíra, bombardeou meu celular com mensagens exigindo que nos encontrássemos para conversar, mas foram todas devidamente ignoradas.

Tudo bem. É melhor assim. Quer dizer, eu não estava mesmo confortável com toda essa situação de beijar e fazer coisas a mais com outro homem, então dessa forma, pelo menos, eu posso voltar à familiaridade da minha heterosexualidade, certo?

A única coisa que eu preciso fazer é superar meu orgulho ferido por ter sido dispensado dessa forma e fingir para mim mesmo que não sinto meu coração acelerar a cada notificação recebida em meu celular, acreditando que pode ser Jungkook.

Eu sou um fodido mesmo.

— Você não quer mesmo sair? — Taehyung perguntou manhoso, jogado ao meu lado na cama de casal.

Como ele já está um pouco mais livre das provas na faculdade e eu preciso me distrair e tirar Jeon Jungkook da cabeça, nós marcamos de passar a noite juntos. Mas enquanto ele quer sair para beber e dançar, eu só quero ficar na minha cama assistindo TV.

— Amanhã eu tenho a seleção no estúdio fotográfico. — Expliquei, zapeando pelos canais da TV a cabo no meu quarto. — É melhor ficar em casa descansando pra não aparecer lá de ressaca ou, deus me livre, com olheiras.

Ele suspirou, conformado. — Você está nervoso?

— Não. — Respondi com algum desleixo, sem olhá-lo. — Eu sou bonito, fotogênico e carismático, por que caralhos eles não me escolheriam?

Taehyung riu, abraçando um dos vários travesseiros. Ele tem esse péssimo hábito de abraçar coisas ou pessoas quando está deitado.

— Mas não quer que eu vá com você? — Ele ofereceu, me olhando como um bichinho carente. — Queria dar apoio ao meu amigo nesse momento tão importante...

Eu o olhei, desconfiado, antes de entender o que ele está querendo dizer.

— Você quer é ficar de olho nas mulheres de lá, seu atirado.

— Não só nas mulheres, né, Jiminie? — Ele respondeu, dando de ombros.

Eu entendi o que ele quis dizer, por isso não questionei. Aparentemente meu melhor amigo escondeu de mim por todo esse tempo que também anda sentindo atração por homens, já que eu, de acordo com suas palavras, era babaca demais para ficar sabendo disso antes.

— Mas posso ir? — Ele insistiu.

— Pode, Taehyung. Pode. — Cedi, rindo da sua empolgação ao comemorar.

Depois de tanto buscar algo decente na TV, eu acabei optando por assistir a reprise de um episódio da última temporada de We got married, mas depois de um tempo comecei a ficar entediado e, com Taehyung quase cochilando ao meu lado, o que me restou foi mexer no celular.

Eu abri direto o Instagram depois de checar as mensagens no kakaotalk — com zero novas mensagens na conversa de Jeon —, fingindo não me importar com isso.

Enquanto passava de um stories para o outro, a maioria de pessoas mostrando como suas sextas estavam sendo agitadas, eu parei em um vídeo postado pelo próprio Jungkook, com ele virando um shot de uma bebida colorida em algum lugar barulhento e escuro, enquanto uma menina abraça-o por trás, rindo para a câmera.

— Que puto do caralho. — Eu praguejei, vendo o vídeo outra vez só para sentir ainda mais raiva.

Eu não acredito que realmente estive esperando ele me mandar uma mensagem.

Caralho, Park Jimin. Vai ser otário assim na puta que pariu!

— Taehyung! — Eu dei um tapa na bunda do meu amigo, fazendo com que ele acordasse assustado.

— O que? O que foi?

— Se arrume. Nós vamos sair.

Como se um segundo atrás não estivesse quase babando em meu travesseiro, ele se sentou, cheio de energia.

— Graças à minha santa Lee Chaerin!

Eu deixei que ele fosse o primeiro a tomar banho, enquanto eu escolhia a roupa perfeita para dizer eu sou hétero e estou solteiro. Porque é isso que eu sou. Um rapaz livre e interessado apenas, única e exclusivamente em mulheres.

Jeon Jungkook que exploda junto com a confusão que me fez sentir, provavelmente só para se divertir às minhas custas.

Eu realmente não acredito que caí tão fácil no jogo dele.

Ainda puto com isso quando saímos de casa, nós pegamos um táxi e fomos direto até Hongdae atrás de uma boate.

— Não que eu esteja reclamando, — Taehyung comentou quando entramos na fila vip para a boate escolhida. — mas por que você mudou de ideia do nada?

— Não sei. Me deu vontade de aproveitar minha juventude.

Ele riu, desconfiado. — E como vão as coisas com Jeon Jungkook?

— Já dispensei. — Menti, orgulhoso.

Nunca que eu vou admitir que levei um pé na bunda daquele cafajeste.

— Então você quer pegar alguém hoje? — Ele insistiu, mostrando nossas identidades e pagando a entrada antes de sermos liberados.

Eu escolhi essa boate cuidadosamente. Ela é uma das mais caras de Hongdae, além de ter a mais absoluta certeza de que não é voltada para o público lgbt, então a probabilidade de encontrar algum tipinho como Jeon por aqui é nula.

— Sim. — Respondi, caminhando com ele pelo corredor com isolamento acústico, mas nossos ouvidos foram bombardeados pela música alta quando um outro segurança abriu a porta interna para que passássemos para o lado de dentro de verdade da boate, então eu me inclinei para gritar em seu ouvido. — E vai ser uma mulher.

Taehyung ergueu as mãos, rindo e se abstendo de fazer qualquer comentário sobre minha restrição. Depois, eu o segurei pelo braço e o puxei pela pista cheia em direção ao bar, fazendo uma careta pelo cheiro de cigarro impregnado no ar.

— Achei que você não fosse beber por causa da seleção de amanhã. — Ele disse em meu ouvido quando eu pedi um sex on the beach ao bartender.

— Só vou beber esse.

Ele deu de ombros, desleixado, e gesticulou para que o bartender preparasse o mesmo drink para ele. Com nossas bebidas em mãos, nos afastamos do bar e eu passei os olhos pela pista em busca de alguma mulher que me chamasse a atenção, mas me engasguei com o sexo-na-praia no meio da garganta quando vi a última pessoa que queria encontrar.

— Eu não acredito. — Praguejei, inconformado.

Não muito longe estava ele, o safado do caralho, Jungkook, dançando com a mesma menina que tinha aparecido em seu vídeo no Instagram.

— Caralho, puta que pariu, quais as chances desse puto estar nessa porra dessa boate desgraçada?!

— Hã? — Taehyung gritou em meu ouvido, sem entender lhufas do que falei.

— Eu disse que gosto dessa música! — Tentei desconversar e ele abriu um sorriso enorme, erguendo o polegar em concordância.

Diferente dele, entretanto, minha expressão continuou fechada, carrancuda.

Eu honestamente não aceito essa predisposição do universo em me fazer quebrar a cara.

— Eu quero dançar! — Taehyung gritou novamente, atraindo minha atenção.

Quando virei meu rosto para olhar para ele, sem querer meus olhos encontraram os de Jungkook e eu percebi que ele já estava me observando enquanto eu tentava olhar para qualquer outra coisa, só deus sabe há quanto tempo.

Ele sorriu sem mostrar os dentes e ergueu a mão num aceno para mim, mas tudo que eu fiz foi puxar Taehyung para a pista lotada de pessoas, deixando Jeon apenas com a visão das minhas costas.

Enquanto dançava, então, usando toda a minha força para não buscá-lo com o olhar, eu vi Taehyung perder o controle antes mesmo de comprarmos a segunda bebida. E não, ele não está bêbado, ele só não liga para o que os outros pensam mesmo.

Eu, por outro lado, me importo. Mais especificamente, me importo em dançar da forma mais sensual possível. Não somente para mostrar a Jungkook como ele foi idiota, mas também porque eu gosto de me sentir atraente e eu sei que fico exatamente assim quando danço.

Eu percebi algumas meninas próximas me olhando com interesse, mas o que mais me chamou a atenção foi quando uma garota dançando ao meu lado esbarrou em mim pela quarta vez.

Eu a olhei, sentindo o cabelo começando a grudar na testa pelo suor, e vi seu sorriso bonito e espontâneo virado para mim.

— Achei que ia ter que esbarrar com mais força pra você finalmente me notar. — Ela disse quando ficou na ponta dos pés para falar em meu ouvido, apoiando as mãos em meus ombros.

Eu acabei rindo com seu comentário e ela voltou a se afastar um pouco, dançando suavemente, e eu tentei ser discreto quando desci os olhos por seu corpo. Ela usa uma blusa grande e folgada cobrindo quase totalmente seus shorts e os pés estão calçados com tênis brancos de cano médio. O rosto não parece ter muita maquiagem, mas é bonito e o piercing no septo só a deixa mais atraente.

— Pelo jeito como você está me olhando, acho que não vai ter problema se eu te chamar pra dançar comigo, certo? — Ela supôs, certeira.

Eu voltei a olhá-la nos olhos, percebendo-a com a mesma expressão espontânea e em resposta deixei o canto dos meus lábios se elevarem em um sorriso pequeno.

Acho que minha resposta ficou muito clara quando passei um braço por sua cintura, puxando-a um pouco mais para perto, mas não tanto.

— Problema nenhum. — Eu disse em seu ouvido, só para confirmar.

Ela riu e voltou a apoiar as mãos em meus ombros. — Você é muito bonito. — Anunciou, movendo o corpo junto ao meu no ritmo da música. — Mas eu só quero dançar com você. Você dança muito bem!

Eu deixei um som surpreso escapar antes de rir, dando de ombros, sem soltá-la.

— Tudo bem. — Respondi, sem muito drama. — Eu gosto de dançar acompanhado.

Ela se afastou um pouco e eu vi seu sorriso bonito, o que me fez sorrir também. Eu não necessariamente preciso me agarrar com alguém para fazer a noite valer a pena. Dançar com uma pessoa bacana é o suficiente.

Enquanto isso, Taehyung também tinha começado a dançar com uma garota e eles dois juntos só faltavam dar mortais no meio da pista, assustando todo mundo ao redor.

— Aliás, — Ela voltou a dizer em meu ouvido graças à música alta. — meu nome é Sunhye.

— Jimin.

— Jimin, — Me chamou, então. — eu preciso de álcool.

— Todos nós precisamos. Eu te acompanho até o bar.

Ela sorriu em agradecimento e nós nos esgueiramos entre todas as pessoas agitadas na pista até chegarmos ao balcão. Sunhye pediu uma dose dupla de whisky e eu pedi mais um sex on the beach.

— Você é bacana, Jimin. — Ela disse, se inclinando em minha direção para que eu pudesse ouvi-la. — A maioria dos caras provavelmente me xingaria se eu dissesse que só queria dançar.

— Graças aos deuses eu não sou esse tipo de cara.

— Amém! — Ela ergueu seu copo, risonha.

— Eu vou te contar um segredo, — Eu disse em seu ouvido, ainda gritando. — homens são um lixo.

— Eu estou esperando o segredo...

Eu ri, tomando mais um gole do meu coquetel.

— Sabe qual o problema dos homens cis? — Ela questionou. — O mundo dá tudo de mão beijada pra vocês! Queria ver se um macho daria conta de viver um mês como uma mulher!

Eu nem tentei defender meu gênero, porque o mundo é, sim, muito melhor para os homens do que para as mulheres e eu sei disso.

— Eu confesso que sou meio babaca para algumas coisas, mas juro que não sou nojento como esses safados, ok?

— Você é gay? — Ela disparou a pergunta, então. — Desculpa, eu automaticamente pressuponho que se um cara não é babaca, ele não é hétero. É um pensamento idiota, eu sei.

Eu olhei ao redor, como se me certificasse de que ninguém estava olhando, antes de confessar:

— Talvez eu seja bi.

— Era meu segundo palpite. — Sunhye ofereceu seu copo para um brinde. — Já gosto mais de você!

Eu sorri, chocando meu copo ao seu e me sentindo estranhamente leve ao admitir para uma completa estranha que talvez eu não seja heterossexual. Gostaria de admitir para mim mesmo com a mesma facilidade.

— Mas vem cá, — Ela me chamou, curiosa. — como é o lance do talvez? Você ainda tá em dúvida?

— Eu só senti atração por um cara até hoje. — Expliquei. — Mas a gente não tem mais nada, então eu não sei. Talvez tenha sido só um lapso de consciência.

— Vira essa boca pra lá! — Ela brincou. — Mas tem certeza de que você só sentiu atração por ele? Talvez você já tenha sentido atração por outros antes, mas nunca quis admitir. Isso é bem comum.

Eu tentei lembrar de algum acontecimento como esse em minha vida, mas nada me veio à mente. Apesar disso, eu não descarto a possibilidade. Fazer algo assim seria a minha cara.

— Não vou pensar muito nisso agora. — Eu deixei meu copo de lado e gesticulei para o bartender, pedindo outro drink. Juro que esse vai ser o último.

— E como foi? — Voltou a questionar. — Sua experiência com outro homem, no caso.

— Estranha, mas divertida até o momento em que ele parou de me procurar do nada e agora está aqui nessa boate provavelmente se agarrando com uma garota.

Sunhye arregalou um pouco os olhos, mirando um ponto em minhas costas antes de voltar a olhar para o meu rosto.

— Por um acaso esse tal cara tá usando blusa branca, calça preta e botas? — Perguntou, ainda assustada.

— Hm... sim? Por quê?

— Eu achei que era impressão, mas ele tá olhando pra cá o tempo todo...

Eu franzi um pouco o cenho e tentei ser discreto quando virei a cabeça mais para trás, demorando um pouco até encontrar Jungkook na outra extremidade do bar, me olhando enquanto segurava uma garrafa de água.

Ele arqueou as sobrancelhas com a expressão um pouco fechada quando me viu olhando-o de volta, mas eu apenas virei para Sunhye novamente, ignorando-o.

— É, é esse o desgraçado.

— Jimin, — Ela me chamou, séria, com a mão no meu ombro. — eu preciso te dizer que não sou muito madura para algumas coisas, então eu realmente quero que você se vingue dele.

— Como assim?

— Vem. — Ela me segurou pela mão, abandonando seu copo vazio sobre o balcão e eu fiz o mesmo depois de virar quase toda a bebida de uma vez para segui-la. — Mostra que ele não faz falta. — Ela disse, passando os braços por meu pescoço quando voltamos à pista de dança e eu ri quando entendi o que ela estava fazendo, então enlacei sua cintura, aceitando sua proposta infantil de provocar ciúmes em Jungkook.

— Quer saber de uma coisa, Sunhye? Eu também não sou muito maduro, então gostei da sua ideia.

Ela piscou travessa e, por um breve instante, eu me assustei quando virou de costas para mim, colando seu corpo contra o meu e rebolando devagar, mas então lembrei que é apenas encenação e entrei no clima.

— Ele continua olhando e não parece feliz. — Ela anunciou e eu sorri satisfeito, até meio infantil.

Curioso, eu girei um pouco nossos corpos até poder ver Jungkook com meus próprios olhos. A garota de antes voltou para perto dele, abraçando-o pelo pescoço enquanto canta, mas ele continua olhando para mim. E, é, ele definitivamente não está muito feliz. Sua expressão parece a de uma criança birrenta, o que me faz rir.

Desgraçado, por que ele tem que parecer tão fofo às vezes?

Eu quero ir até ele e dizer que não vou mais cair nesse seu charme barato, mas tenho uma ideia melhor.

— Eu posso beijar seu pescoço? — Eu perguntei para Sunhye, me sentindo um pouco bêbado.

— Só de mentirinha. Meu pescoço é sensível.

— Ok. Obrigado — Eu agradeci, apertando meus braços ao redor de sua cintura e descendo pelos lábios por sua pele, até chegar em seu pescoço, onde coloco em prática minhas habilidades de atuação e a beijo ali sem realmente beijar.

— Tá fazendo cócegas — Ela riu e eu acabei fazendo o mesmo, porque isso é ridículo.

A que ponto o ser humano pode chegar, meu deus...

De qualquer forma, parece ter funcionado, porque eu vi a expressão ainda mais emburrada de Jungkook quando o olhei de novo e mostrei um sorriso provocativo. Em resposta, entretanto, ele só desviou o olhar, parecendo muito... triste.

— O que...? — Eu soltei no ar, confuso.

— Deu certo? — Sunhye perguntou, ansiosa.

— Eu... não sei? Olha pra ele...

Sunhye fez o que eu disse e sua expressão amoleceu assim que ela viu Jungkook com os cotovelos apoiados no balcão do bar e o queixo apoiado na palma da mão enquanto ele exibe uma expressão chateada, olhando para a frente.

— Ai, meu deus, tadinho! — Ela apoiou as mãos no próprio peito, compadecida. — Jimin, você não me disse que ele era um bebê!

— Mas ele... eu... — Eu comecei, sem conseguir finalizar. Porra. Jungkook continua amolecendo meu coração muito fácil. — Eu preciso ir ao banheiro.

Sunhye concordou, ainda com a expressão sofrida enquanto olha para Jungkook. É, parece que eu não sou o único que tenho coração mole para ele.

Ainda assim, eu não olhei em sua direção quando fiz meu caminho até o sanitário, percebendo que estou mesmo um pouco bêbado quando acabei por tropeçar no meu pé.

Já do lado de dentro do banheiro quase vazio, eu me debrucei sobre a pia e enchi minhas mãos com água para lavar meu rosto, tentando aliviar a sensação da embriaguez e talvez a sensação ruim de ter visto Jungkook cabisbaixo daquele jeito.

Eu não queria deixá-lo triste, só queria provocar um pouco.

Aliás, por que ele ficou triste?

Eu suspiro, confuso, e logo percebo que posso ter a chance de descobrir porque segundos depois mais alguém entrou no banheiro. Jungkook.

O som da música alta voltou a ficar abafado quando a porta vai-e-vem fechou sozinha, devagar, e Jungkook parou ainda perto da entrada, com as mãos nos bolsos da calça, sem parecer surpreso ao me ver. Entretanto, assim como eu, ele não disse nada e o único som é o do cara mijando no mictório.

— Ei, hyung. — Ele me cumprimentou, finalmente, quando o cara saiu sem lavar as mãos.

Eca.

— Oi.

— Oi... Não esperava te encontrar nessa boate.

— Não esperava me encontrar aqui no banheiro, também?

— Eu te vi entrando...

Eu respirei fundo, devagar, sem me importar quando mais um cara entrou.

— Você está muito gostoso. — Jeon disse baixo, com um sorriso pequeno.

Gostoso eu sou sempre, mas você não me mandou nenhuma mensagem nos últimos dias.

— Eu sei. — Murmurei, orgulhoso.

Nós ficamos um tempo em silêncio, até que o outro moço saiu do banheiro. Pelo menos esse lavou as mãos.

Sozinhos, então, eu vi Jungkook coçar a própria nuca.

— Você não me procurou. — Ele acusou, baixo. — Eu fiquei esperando uma mensagem sua.

Eu arregalei os olhos, inconformado. — Você também não me procurou!

— Por que eu que sempre tenho que te procurar? Fui eu que te procurei todas as vezes... eu só queria que você demonstrasse pelo menos um pouco de interesse, mas acho que esperei a toa, porque você parece muito mais interessado naquela menina.

— Digo o mesmo sobre você. — Eu apontei, ressentido, mas orgulhoso demais para evidenciar.

— O que?

— Você também parece muito interessado na menina que está com você.

Jungkook apertou as sobrancelhas, parecendo confuso.

— Ela é só uma... amiga. — Ele disse, e continuou antes que eu contestasse: — Eu sou gay, hyung.

Eu abri minha boca, surpreso, antes de cair na real. Eu não vi Jungkook fazendo nada além de dançar com ela e até mesmo em seu Instagram, todas aquelas suas fotos indecentes são sempre ao lado de homens.

Frustrado pela confusão e por ter me afetado tanto por algo que sequer é verdade, eu passei as mãos pelo rosto, me sentindo ainda mais tonto e não somente pelo álcool.

— Você ficou com ciúmes? — Ele perguntou, me olhando com expectativa.

É horrível perceber que, sim, fiquei. Eu fiquei incomodado como o inferno e não acredito que meu orgulho ferido tenha sido a única causa.

— Claro que não. — Foi o que eu disse, a despeito disso.

Jungkook abanou a cabeça numa concordância fraca, conformada.

— Você ficou? — Eu devolvi sua pergunta depois de juntar um pouco de coragem.

— Fiquei. — Ele confessou, sem hesitar.

Eu engoli em seco ao perceber meu coração disparado e minhas mãos repentinamente começando a suar.

— Eu pensei muito em você durante esses dias. — Ele disse antes que eu sequer pensasse em uma forma de contornar essa reação, e deu um passo em minha direção, deixando nossos corpos mais próximos, e eu estremeci de leve quando ele tocou as costas de minha mão caída ao lado do meu corpo com as pontas de seus dedos, suavemente.

— Conta outra, Jeon.

— É verdade, hyung... — Ele subiu seus dedos por meu braço, até meu cotovelo. — Eu não consigo parar de pensar em beijar você de novo, nem no seu so... — Ele travou, parecendo surpreendentemente sem jeito.

— No meu so...? — Eu insisti, umedecendo meus lábios quase sem perceber.

Eu já sei que minha resistência a Jeon Jungkook é vergonhosamente baixa e ela só diminui quando eu bebo, então minha situação atual é bem complicada porque eu não acredito que vou conseguir negá-lo caso ele tente mais algo.

— Eu quero você — Ele desconversou e eu falhei em reprimir um suspiro baixo quando ele deu mais um passo, fazendo o meu corpo se chocar contra a bancada da pia enquanto o seu ficou em minha frente, com nossas pernas encaixadas. — Eu quero sua boca gostosa de novo, hyung...

Eu deixei meus olhos recaírem em seus lábios e minhas mãos teimosas seguraram-no perto pelos passadores de sua calça jeans, unindo ainda mais nossos quadris.

— Então você deveria ter mandado uma mensagem — Eu desafiei, mesmo sem condições de fazê-lo, e voltei a insistir: — Você não parou de pensar no que, Jeon?

Ele respirou fundo, olhando para minha mão segurando-o perto, e finalmente revelou:

— No seu sorriso, hyung...

Agora é minha vez de respirar pesadamente, olhando-o com atenção antes gritar um grande foda-se para o universo e puxá-lo pela nuca, imediatamente colando minha boca à sua.

Foi involuntário quando separei meus lábios, dando espaço para que sua língua invada minha boca e então toque a minha, enviando um rastro surreal de eletricidade por todo meu corpo e me lembrando o quanto desejei isso pelos últimos dias.

Mas eu ainda não superei meu orgulho ferido por não ter sido procurado por ele depois do nosso último encontro, então talvez possa dar o troco antes de perdoá-lo de vez.

Por isso, eu deixei que o beijo se intensificasse, chupei seus lábios e língua e deixei que ele fizesse o mesmo comigo, também deixei sua mão apertar minha bunda e seu quadril roçar o meu num movimento imoral enquanto eu também apalpei seu corpo e delirei quando senti sua bunda em minha mão, involuntariamente ficando na ponta dos pés para deixar meu pênis na altura exata do seu, e então senti seu gemido em meio ao beijo quando nossas ereções se roçaram através dos jeans.

— Meu deus, hyung... — Jungkook gemeu quando nossas bocas se separaram apenas para respirarmos, e logo depois voltamos a nos beijar furiosamente.

Eu já estava quase sentado sobre o balcão, puxando seus cabelos e arranhando sua nuca quando desci uma mão por seu peitoral e, guiado pela maldade e também pelo álcool diluído em meu sangue, apertei sua ereção por cima da calça, ouvindo mais um gemido lânguido em resposta.

Eu quero chorar de desespero por estar apertando o pau de outro cara e gostar tanto disso.

Porra, que delícia.

— Vai, hyung... — Ele pediu, movendo seu quadril contra minha mão, e eu o apertei com mais força, quase explodindo de tesão ao vê-lo com os olhos fechados, expulsando o ar pela boca.

Num movimento um pouco mais arriscado, eu meti minha mão por dentro de sua calça e então o apertei sobre sua cueca, sentindo o volume quente mesmo através do tecido.

Eu senti algo umedecer minha própria roupa íntima e soube que já estava liberando pré-gozo, de tão excitado.

— É assim? — Eu perguntei, deslizando meus lábios por seu pescoço enquanto massageio seu pau duro.

— Sim... assim... — Ele gemeu em resposta, completamente rendido ao meu toque, e eu aproveitei a chance para chupar seu pescoço, devolvendo a marca que ele deixou em mim tempos atrás. — Porra, hyung...

Eu sorri contra sua pele, estimulando-o com um último aperto antes de puxar minha mão para fora de sua calça e espalmá-la em seu peito, empurrando-o para longe.

Ele me olhou completamente perdido e eu passei a outra mão pelos cabelos, puxando-os para trás de forma orgulhosa e me arrumando sobre meus pés como se não estivesse com uma ereção dolorida dentro da minha calça.

— Jimin...? — Ele me chamou com os olhos desesperados e com a respiração toda atrapalhada.

— Nós podemos terminar isso se você lembrar de me procurar, dessa vez — Eu disse, dando um passo em direção à porta, ainda virado para ele com um sorriso maldoso, me sentindo vingado. — Até mais, Jeon.

❥ [Continua...]

Chapter Text

Depois de deixar Jeon sozinho no banheiro da boate, eu mesmo precisei de um tempo para respirar fundo, porque ele não foi o único a ficar com uma ereção não resolvida.

Pensando bem, essa forma de castigá-lo não parece ter sido a melhor, porque eu estou sofrendo tanto quanto ele. Mesmo assim, eu não voltei atrás e me esgueirei de volta até a pista de dança, onde Sunhye me abordou assim que me viu, eufórica.

— E aí? Eu vi que ele foi atrás de você! — Ela gritou, gesticulando feito uma louca.

— E aí que eu preciso voltar para casa. Essa noite já deu pra mim — Eu anunciei, olhando ao redor em busca de Taehyung, encontrando-o ainda dançando como um descompensado.

— Mas já? — Ela exibiu uma expressão triste que quase me convenceu a ficar mais um pouco.

— Eu tenho compromisso logo cedo. Preciso mesmo ir — Consegui me justificar, segurando-a pelo braço para deixar um beijo em sua bochecha. — Obrigado pela companhia.

— O que? Você acha que eu sou mulher de fazer amizade de uma só noite? — Ela se afastou com uma carranca, puxando o celular de seu bolso e oferecendo-o a mim. — Vai, pode me dar seu número.

Eu ri, definitivamente sem me opor. Adoraria poder manter contato com ela.

Depois de salvar meu número em seu telefone e de também salvar o seu, eu me despedi de vez, ainda levando um tempo para conseguir arrastar Taehyung para fora da boate.

Quando chegamos em casa, eu me certifiquei de beber bastante água e comer qualquer coisa com glicose para evitar uma possível ressaca e, depois de me lavar e me vestir para dormir, deitei com o celular na mão, sentindo o coração disparar ao ver que Jungkook finalmente me mandou uma mensagem.

Jeon
|Hyung... você é tão malvado ):

Por que você acha isso, poxa?|

Jeon
|... ):

😇|

Jeon
|Não reclame se eu te der o troco...

Você acha mesmo que vai ter a oportunidade de se vingar?|

Jeon
|Acho. Gostaria de ter essa oportunidade amanhã, inclusive

Jeon
|Posso ter esperança de te ver? ): Por favor

Talvez|

Jeon
|Sério??

Jeon
|O que você quer fazer?

Jeon
|Quer ir na minha casa?

Eu li sua mensagem outra vez e percebo, pela forma como ele falou, que ainda não voltou para casa, então ele ainda está na boate com aquela garota de antes?

Mesmo Jungkook me garantindo que é gay, algo me diz que tem alguma coisa estranha nisso tudo. Mesmo assim, eu não penso muito sobre, porque não tenho nada a ver com isso, e finalmente respondo sua mensagem sem acreditar na resposta que sai dos meus dedos. 

Fico livre à tarde. Que horas vou?|

Jeon
|Eu só posso à noite.19:30?

Ótimo. Depois me dê o endereço.|

Jeon
|Pra você eu dou tudo ㅋㅋ

...|

Boa noite, Jeon|

Jeon
|Boa noite, hyung 💛

— Ele mandou um coração!

— Que? — Taehyung me olhou, sonolento, já deitado ao meu lado na cama de casal.

— É... esquece. Dorme.

Ele deu de ombros e virou de costas para mim, puxando a coberta até sua cabeça. Longe de seu olhar, eu voltei a ver a conversa de Jeon, sem conseguir conter um sorriso ao ver que ele mandou mesmo um coração.

— Caralho... — Eu deixei meu riso morrer ao perceber o que está acontecendo. — Eu tô muito fodido...

— Fodido por quê? — Taehyung insistiu, sem tirar o edredom de cima da cabeça.

— Só dorme, Taehyung. — Repeti, fazendo o mesmo que ele e puxando a coberta para me aquecer, torcendo para os resquícios de álcool terem sido os culpados pela aceleração do meu coração por conta de um emoji.

Depois, eu me forcei a dormir e felizmente acordei inteiro o suficiente e bonito como sempre para ir para a seleção do estúdio fotográfico.

Diferente do prometido, Taehyung não aguentou sair da cama quando o chamei — até porque ele tem picos de energia, às vezes tem demais, às vezes parece uma pedra — então acabei vindo sozinho.

Já sentado na sala de espera, junto a tantos outros aspirantes a modelos, eu folheio uma revista sem me preocupar muito em analisar a concorrência, porque confio na minha aparência independente da deles.

Entretanto, meu desinteresse flutuou quando fui obrigado a levantar os olhos ao ouvir murmúrios e uma risada debochada, e vi que a causa disso foi uma mulher, aparentemente mais uma das candidatas.

— A pele dela é muito escura — Eu ouvi alguém dizer, sem parecer se importar em falar baixo.

Acuada, a recém chegada abaixou os olhos e ocupou o único lugar livre, que é ao meu lado.

Levado pela curiosidade, eu a analisei discretamente. A pele é amorenada, os cabelos escuros têm cachos e, apesar de ter os olhos puxados, ela não parece ser descendente unicamente de coreanos.

— Precisa ter muita coragem pra acreditar que vai conseguir ser modelo com essa aparência — A mesma pessoa voltou a dizer, antes de rir.

Eu expulsei o ar em tom de desgaste, sem entender qual a necessidade de comentários assim serem feitos, e logo voltei minha atenção à revista para não perder minha paciência com pessoas como essa.

Entretanto, os murmúrios e risadas indiscretas continuaram e a mulher ao meu lado, diferente de mim, pareceu não conseguir se distrair com outra coisa, porque pouco tempo depois eu percebi sua movimentação quando ela se levantou, ainda com o rosto mirado para baixo. Num impulso, eu larguei a revista e segurei seu braço, impedindo-a de se afastar por causa desses imbecis.

— Esquece esses idiotas — Eu disse também sem me preocupar em falar baixo, olhando-a. — Não vai embora por causa deles.

— Hm... hã? — Ela pareceu confusa.

Eu suspirei. — Você me acha bonito?

— Desculpe... que?

— Por deus, é uma pergunta simples. Você me acha bonito?

Ela apertou os olhos amendoados, ainda sem me entender muito bem. — Sim... você é bonito.

— Eu sei. — Eu dei de ombros. — Mas meu nariz é achatado, minhas bochechas são gordas e eu nem tenho pálpebras duplas. Tudo fora do padrão, mas sou bonito demais mesmo assim. Você também está fora do padrão, e é bonita. Eu te acho bonita. Então senta aí e ignora quem está falando besteira. O problema é deles se só conseguem reconhecer um tipo de beleza, não vai embora por causa disso.

— Ah... — Ela pareceu sem jeito, até surpresa. — Eu não ia embora, só ia ao banheiro...

Eu arregalei os olhos, espantado, antes de morrer de vergonha e finalmente soltar seu pulso.

Que mico.

— Mas eu ia ao banheiro chorar, então obrigada. — Ela voltou a se sentar, parecendo mais tranquila. — Acho que não preciso mais ir fazer isso agora.

Eu concordei, pigarreando envergonhado, ainda sem graça, e logo voltei a olhar para a revista, mas sem efetivamente lê-la. Depois, eu e ela não nos falamos mais, mas eu a percebi menos inquieta e isso me tranquilizou na mesma.

Ao passar das horas, então, nós todos fomos avaliados. Fizemos entrevistas, depois participamos individualmente de alguns ensaios-teste, e por fim recebemos todos a mesma resposta: retornaremos com o resultado em breve.

Eu não estou muito preocupado, na verdade. Se eles não me selecionarem, o problema é deles, não meu. Eles que saem perdendo.

Eu sei que tenho o necessário para me dar bem nessa área. Apesar de ter precisado abrir mão do sonho de desfilar nas passarelas por causa da minha altura, eu realmente acredito que, como modelo fotográfico, posso ir muito longe.

— Como foi o teste? — Taehyung me perguntou quando eu voltei para casa e o encontrei ainda enfiado debaixo das cobertas mesmo que já tenha passado de meio dia.

— Bem. Agora é só esperar — Eu expliquei, engatinhando para deitar ao seu lado. — Você não saiu da cama nem pra ir mijar?

— Minha preguiça é maior que a fraqueza da minha bexiga. — Ele bocejou, piscando meio lerdo. — Quer sair hoje pra comemorar?

— Comemorar a força da sua preguiça?

— Não, né, Jimin. — Ele riu arrastado. — Pra comemorar que você foi bem na seleção.

— Vamos deixar pra outro dia. Eu já tenho compromisso hoje à noite.

— Eu estou sendo trocado, é isso mesmo? Por quem, posso saber? — Questionou, desconfiado.

— Não te interessa. — Eu fiz uma pequena careta, cedendo quando ele insistiu com o olhar: — Eu vou para a casa do Jungkook...

— E você disse que já tinha dispensado... — Ele apontou, surpreso. — Mas tudo bem, vou te perdoar só porque ele é gostoso demais. — Cedeu, esticando os braços para o alto, se espreguiçando. — Mas lembre de não sentir nada além de tesão por gente como ele, pelo amor de deus, Minie.

Eu concordei, um pouco a contragosto. — Relaxa, eu sei que ele não serve pra romance.

Taehyung concordou com uma expressão séria que logo se desfez com um gemido preguiçoso, então ele jogou a coberta para o lado.

— Agora eu vou tomar um banho pra tirar a nhaca de sono. Aproveita e traz uma coisinha pra comer, acho que seus pais já almoçaram e eu tô cagado de fome.

— Desce você e pega, cara de pau. — Resmunguei, chutando meus sapatos para o chão antes de me acomodar melhor sobre a cama.

Durante algum tempo, ficar deitado foi tudo que fiz, até que Taehyung saiu do banheiro e me arrastou para almoçar com ele. Depois ele ainda ficou algum tempo em minha casa, até ir embora e me deixar sozinho, com menos distrações para parar de esperar tão ansiosamente pela mensagem de Jungkook com seu endereço.

Quando ele finalmente mandou, eu levantei num pulo e corri para o closet, pronto para encarar a recorrente missão de me vestir perfeitamente bem para ele, e é vergonhoso o tempo que gasto para isso.

Depois, durante todo o caminho, com o auxílio do GPS do carro de minha mãe para encontrar o apartamento de Jungkook, eu me perguntei como inferno deixei as coisas chegarem a esse ponto.

Eu estou mesmo indo voluntariamente até a casa dele?

— Seu fodido — Eu resmunguei para meu reflexo quando analisei minha imagem uma última vez antes de sair do carro, já diante do condomínio de Jungkook.

Ele mora num prédio simples e velho de cinco andares, com a pintura desgastada e segurança nenhuma, o que parece necessário num lugar onde nem as luzes dos postes funcionam.

Depois de checar que o carro está devidamente trancado e torcendo para ele não ser arrombado ao longo da noite, eu passei pelo portãozinho enferrujado e subi as escadas até o quarto andar, já que não tem um elevador. Diante da porta do apartamento 4C, então, eu respirei fundo e toquei a campainha depois de muito juntar coragem.

Ótimo. A campainha não funciona.

Com outra dose de coragem, eu dei três batidas na porta, sentindo meu coração bater mais forte quando ouvi passos do lado de dentro, logo depois o som da trava e, por último, vi Jungkook todo atrapalhado, tentando terminar de vestir uma camisa ao me receber.

Eu ri quando ele enganchou o braço na manga, ainda sem me cumprimentar, e me aproximei para ajudá-lo quando vi sua batalha árdua.

— Obrigado — Ele agradeceu antes mesmo de me cumprimentar, mostrando um sorriso bonito, com os dentinhos da frente bem evidentes.

Fofo pra caralho esse safado. Que inferno.

— Disponha. — Eu respondi, ainda sem me mexer.

— Ah! — Ele teve um estalo, afastando-se da porta para me deixar entrar. — Sinta-se em casa.

Eu pensei em fazer alguma piada sobre a diferença absurda da sua casa para a minha, mas seria idiota, então resolvi ficar calado.

Ainda meio retraído por não saber como vim parar aqui, eu parei no início da sala, mas fui obrigado a me mexer quando Jungkook segurou minha mão e me puxou até o sofá.

— Quer beber alguma coisa? — Ele ofereceu, me empurrando pelo ombro para me fazer sentar no seu sofá pequenininho.

— Não precisa.

— Você já jantou? — Insistiu, parecendo ansioso, nervoso até, o que consequentemente me deixa mais nervoso também.

— Já... — Respondi, vendo-o de pé em minha frente. — E você?

— Ainda não. Eu cheguei em casa quase agora e fui direto tomar banho pra ficar cheiroso pra você.

Eu ri.

— Pode ir comer, então... eu espero.

— Eu vou pegar o jantar. Vou trazer uma coisa que fiz pra você também, espero que não esteja muito cheio. — Ele respondeu, tropeçando no próprio pé quando andou de costas em direção à cozinha.

E não que ele tenha ido muito longe, porque o apartamento é bem miúdo, apesar de bem organizado e aconchegante. A sala só tem o sofazinho e uma TV num móvel simples, também ocupado por um cacto orelha-de-coelho bem cuidado. A cozinha fica logo ao lado, sem divisória nenhuma entre ela e a sala, e uma mesa encostada na parede, com dois assentos, parece ser a única superfície para refeições. Por último, existe apenas outra porta, que deve levar ao quarto e ao banheiro.

Ou seja, Jungkook estar na cozinha não significa sequer que ele está fora do meu campo de visão, mas eu aproveito a pequena distância para suspirar, exaurido, enquanto sinto o frio na barriga.

Merda. Eu estou muito nervoso.

— Aqui, hyung — Ele chamou minha atenção quando voltou para perto de mim, segurando um rolinho de kimbap na mão e oferecendo para mim o que está na outra. Uma tortinha de chocolate perfeitamente decorada. — Eu estava fazendo uma torta na casa de uma amiga e aproveitei pra fazer uma pra você também. É de morango com chocolate. Você gosta de morango, né?

Oh. Isso foi atencioso. E Jungkook tem muitas amigas.

— Gosto. — Eu respondi, sentindo meu coração bater ainda mais forte, se possível, e aceitei seu agrado. — Obrigado, Jungkook.

Ele sorriu abertamente ao finalmente se sentar, evidenciando ainda mais suas maçãs do rosto já salientes e criando ruguinhas ao redor de seus olhos grandes.

Por que ele parece tão inocente quando sorri assim?

— Você gostou? — Ele perguntou quando eu comi o primeiro pedaço da torta, e eu ri quando olhei para ele e vi um grão de arroz do kimbap grudado no canto de sua boca enquanto ele me olha, ansioso.

— Sim. Você realmente faz bolos muito bons — Confessei, sem pensar direito antes de usar meu polegar para limpar seu rosto, ainda rindo, sem perceber como esse gesto parece íntimo.

Quando percebi, eu imediatamente afastei minha mão e desviei meus olhos, mas percebi que ele continuou me olhando, segurando o kimbap bem perto da boca, sem mordê-lo.

— Hyung... você é fofo quando não está sendo um metido nojento, sabia?

— Eu não estou sendo um metido nojento agora? — Perguntei com uma risada sem humor, um pouco ofendido.

Eu não sou um nojento metido, eu só... ah. Eu sou, sim, um nojento metido, mas não faço por mal.

— Não, você nem falou mal do meu apartamento e está sendo simpático comigo.

— Seu apartamento é legal. Pequeno, mas... eu gostei. Gostei do seu cacto também, é bonitinho.

— Não é?! — Ele pareceu subitamente feliz com meu comentário. — O nome dele é Keanu Reeves.

— Você deu o nome do Keanu Reeves a um cacto? — Eu ri alto, explosivo, sem prever que isso faria um pedacinho de bolo voar para fora da minha boca, e então foi a vez de Jungkook rir.

Puta merda. Que vergonha.

Sem jeito até demais, eu só vesti minha melhor máscara de não-sei-por-que-você-está-rindo e fiquei calado, ainda ouvindo sua risada.

— Fofo. — Ele reafirmou, deixando um beijo em meu pescoço quando debruçou sua cabeça em meu ombro.

Eu prendi a respiração ao perceber que ele deitou sua cabeça aqui e assim ficou, sem parecer estar prestes a se afastar, mas eu também não falo nada, sequer tento empurrá-lo para longe de mim, então por algum tempo nós só comemos em silêncio e eu torço para que ele não ouça meu coração batendo feito um tambor.

— Você tem um cheiro bom, hyung. — Ele disse baixinho, depois de algum tempo.

— Meu perfume é Dolce&Gabbana.

Ele riu de novo, mas agora eu realmente não entendi o porquê.

— Sabe, — Ele voltou a falar, amassando o papel alumínio que antes envolvia seu kimbap que já foi devorado. — eu fiquei chateado por você não ter me procurado nem uma vez durante a última semana.

— Eu...

Eu também fiquei chateado. Droga, eu fiquei muito chateado.

— Eu tinha coisas mais importantes para fazer — Foi o que acabei por dizer, orgulhoso demais para admitir que ele me fez falta.

Ele se moveu, fazendo menção de se afastar de mim, mas eu fui mais rápido e, num gesto impulsivo, finquei minha mão em sua coxa, segurando-o no mesmo lugar. É estranhamente gostoso tê-lo deitado assim em meu ombro.

Desistindo de se afastar, ele acabou suspirando. — Eu realmente esperei uma mensagem sua. Nosso último encontro tinha sido tão bom...

Eu respirei pesadamente, sem tirar minha mão de cima da sua coxa, até me arrisquei a acariciá-la um pouco.

— Foi muito bom... — Confessei, morrendo para conseguir fazê-lo ao deixar a vasilha já vazia do bolo, de lado. — Na verdade, na verdade — Eu pigarreei, sem jeito. — eu também esperei muito uma mensagem sua...

Dessa vez, Jungkook se afastou de verdade e eu pude ver seus olhos esbugalhados, quase saltando da cara.

Mas o que foi, inferno? Eu nem disse nada demais e, aliás, ele vive dizendo coisas assim!

— Por que você está me olhando assim? — Eu perguntei sem jeito, um pouco incomodado.

Jungkook se moveu um pouco mais e eu pude ver claramente seu sorriso quando ele suavizou a expressão antes de voltar a se inclinar sobre mim, me pegando de surpresa quando me beijou de forma simples nos lábios.

— É a primeira vez que você fala algo assim. — Ele disse, voltando a sorrir. — É a primeira vez que você fala alguma coisa que mostra que você me quer.

— Estar aqui não é o suficiente para mostrar isso? — Eu perguntei, sem pensar.

Eu engoli em seco, ainda sentindo-o perigosamente perto, sem rejeitá-lo quando ele me roubou outro selinho lentamente.

— Ouvir você falar é muito diferente, hyung. Faz parecer mais real.

— Não espere ouvir coisas assim muitas vezes, — Eu fui sincero, respirando com cuidado enquanto sinto sua boca ainda próxima. — isso ainda é muito esquisito pra mim.

— Mas você quer? — Ele perguntou, deslizando seus lábios sobre o canto dos meus. — Me deixa ouvir você dizer, pelo menos uma vez...

Eu suspirei em silêncio, usando a outra mão para tocar seu pescoço, incerto sobre o que estou fazendo.

— Por favor, hyung... — Ele insistiu, me fazendo fechar os olhos em resposta ao toque suave de sua boca em minha pele.

Eu o odeio por sempre conseguir o que quer de mim. Eu verdadeiramente o odeio por isso, porque sequer consigo negar seu pedido agora.

Por isso, eu subo minha outra mão, segurando-o pela nuca com as duas, e uno meus lábios aos seus, sentindo-o tentar prolongar o beijo quando voltei a me afastar, mantendo minha testa apoiada contra a sua.

— Eu quero você, Jungkook — Confessei, então, sem coragem para abrir os olhos. — Muito.

Em resposta, eu tive apenas sua respiração ruidosa até que ele quebrou a distância entre nossas bocas e retomou o beijo com muito mais avidez, me fazendo puxar o ar pelo nariz com força assim que ele pressionou seus lábios contra os meus. E assim como todas as outras vezes, eu não consegui negá-lo, e logo subi meus dedos por seu couro cabeludo, puxando-o ainda mais contra mim, aceitando e exigindo que nosso beijo se aprofunde ainda mais.

Quando ele se afastou brevemente para respirarmos, eu senti sua mão subir por minha cintura, puxando a blusa para cima e tocando minha pele diretamente com seus dedos longos.

— Eu também te quero tanto, hyung... — Ele confessou num suspiro, sugando meus lábios mais uma vez.

Porra. Caralho. O que eu estou fazendo?

— Como é? — Eu perguntei ao afastar nossas bocas novamente, realmente confuso. — Transar com outro homem e tudo isso... como é?

— Pode ser muito gostoso, se você estiver com vontade. — Ele respondeu quase automaticamente, ainda com as mãos diretamente em minha pele.

— Então você transa até quando não está com vontade? — Eu questionei, um pouco confuso diante de sua resposta.

— Ah... não. Não foi isso que eu quis dizer. — Negou, sem me olhar diretamente, logo suavizando o tom de voz. — Mas eu acho que com você vai ser maravilhoso, hyung...

Eu voltei a fechar os olhos ao sentir seus dedos subindo até minhas costelas, nossas pernas se pressionando uma contra a outra e nossos corpos voltados um para o outro.

— Calma, Jungkook. — Eu pedi, embriagado pela forma como ele beija cada cantinho do meu rosto. — Eu não sei se vou conseguir chegar a esse ponto...

Ele suspirou antes de concordar, voltando a beijar minha boca.

— Nós podemos ir por partes. — Ele disse, aproveitando as mãos em minha cintura para me puxar um pouco mais contra seu corpo. — Você quer?

Eu expulsei o ar vagarosamente, arrastando minha mão de sua nuca até apoiá-la em seu peitoral, sentindo como é firme, completamente diferente dos seios das mulheres que já toquei e tanto gostei. Entretanto, eu também gosto da sensação de tocá-lo, de descobrir o corpo de um homem através de uma perspectiva completamente nova.

Sem verbalizar uma resposta, então, eu mesmo pressionei meu corpo mais contra o seu, deslizando minha mão por seu abdômen, desvendando cada pedaço seu enquanto ele explora minha própria pele, com sua boca próxima à minha, mas sem me beijar enquanto espera uma confirmação.

— Até onde eu posso ir com você, hyung? — Ele insistiu, com suas mãos alcançando minhas coxas, apertando-as com a firmeza que eu descobri, em pânico, adorar.

— Eu acho que nós vamos precisar descobrir isso... — Eu respondi, sem conseguir manter meus olhos abertos quando minha mão pousou sobre seu membro ainda pouco estimulado e sem conseguir também reprimir um suspiro ao sentir ele puxar minhas pernas para seu colo, quebrando a já ínfima distância entre nós dois. E então, ele voltou a me beijar.

Mesmo um pouco desesperado ao descobrir que meu desejo por Jungkook cresce a cada vez que nos encontramos, eu não lutei contra o impulso de corresponder seu beijo com a mesma intensidade, sentindo meus cabelos puxados enquanto ele se inclina ainda mais sobre mim, eu sinto sua ereção se tornar cada vez mais rígida sob meu toque e minha outra mão se enfia por baixo de sua blusa.

Jungkook tem gosto de arroz e alga do seu kimbap, mas isso parece combinar perfeitamente bem com o gosto de morango e chocolate do meu bolo, assim como todo o resto entre nós dois. A forma como ele me beija é exatamente a forma como quero ser beijado, a forma como ele me toca é como quero ser tocado e a forma como ele reage aos meus próprios toques é como quero vê-lo reagindo, com os músculos se contraindo involuntariamente quando os toco, com os suspiros arrastados e os pêlos eriçados.

Eu sequer o conheço a fundo, mas Jungkook parece dolorosamente compatível comigo.

E agora, nada disso parece errado.

Por isso, eu não apresento resistência quando ele move nossos corpos, afastando minhas pernas de cima das suas para que possa sentar em meu colo, abraçando meu quadril com suas coxas firmes e joelhos fincados nos sofá, sem parar de me beijar sequer por um minuto.

Quando ele impulsionou sua virilha contra a minha, eu senti o choque de nossas ereções mesmo sob os jeans, e minhas mãos agarradas a cada lado do seu quadril o estimulam a se mover outra vez, coisa que ele faz sem precisar de um segundo pedido, ainda me beijando enquanto eu inclino meu rosto para não deixar sua boca se afastar da minha por conta da diferença de altura.

Já sentindo cada terminação nervosa do meu corpo em chamas, com as mãos de Jungkook segurando meu rosto firmemente, eu não pensei antes de voltar a subir minhas mãos por seu corpo, por baixo do tecido fino de sua blusa enquanto ele continua investindo sua ereção contra a minha repetidamente, num ritmo que frita completamente meus sentidos.

— Posso tirar? — Eu perguntei ao repuxar sua camisa, usando toda minha força para conseguir parar de beijá-lo.

Respirando com dificuldade, Jungkook foi rápido em descer as mãos até a barra da sua camisa antes de puxá-la para cima, arrancando-a de seu corpo e jogando-a ao nosso lado no sofá enquanto toda minha atenção recai em seu abdômen suavemente definido, em sua cintura bem contornada e por fim em seu peitoral marcado, firme, com os mamilos amarronzados eriçados, implorando por minha atenção.

Por isso, ao invés de voltar a beijar sua boca, eu passo meus braços por sua cintura, abraçando-o e erguendo um pouco mais seu corpo até deixar um de seus mamilos na altura dos meus lábios, beijando a pele ao redor antes de chegar à aréola, por onde passo minha língua antes de usar meus lábios para succionar o minúsculo monte rijo e excitado.

Em resposta, Jungkook suspirou baixo, puxou minha cabeça ainda mais contra seu peito e empurrou sua ereção agora na altura do pé da minha barriga, fazendo minha virilha fisgar em puro tesão.

— Hyung... — Ele gemeu quando eu abandonei seus mamilos e subi beijando todo o caminho até seu pescoço, antes de chupá-lo com algum desespero enquanto volto a puxar seu quadril para baixo com força, chocando seu pênis contra o meu outra vez e resfolegando contra sua pele úmida com minha saliva quando ele se moveu mais rápido, rebolando em mim.

— Porra, Jungkook — Eu praguejei, desesperado, ao sentir o tesão explodir em mim enquanto ele parece determinado a rebolar cada vez mais gostoso, fazendo meu pau se contrair a cada vez que sinto o seu estimulando-o.

— Deixa eu fazer uma coisa, — Ele pediu, então, ainda com minha boca beijando todo o seu pescoço, sem me importar se estou deixando marcas ou não. — por favor, hyung...

Minha mente não parece mais funcionar, então eu simplesmente dou a ele o aval para fazer o que quiser sem me preocupar em tentar descobrir o que. Entretanto, um lapso assustado percorreu minha consciência quando o vi afastar seu corpo, sentando no meio das minhas coxas antes de abrir sua calça.

— Espera — Eu pedi, em alerta, quando ele gemeu ao tocar o próprio membro sobre sua cueca, mostrando que está completamente sensível.

— Você vai gostar. — Ele garantiu, com o peito subindo e descendo devagar. — Eu juro.

Eu o olhei ainda aterrorizado, mas também excitado demais para simplesmente fugir, então só deixei meus olhos voltarem a recair em sua mão puxando seu pênis para fora, revelando-o duro, com a cabeça manchada pelo pré-gozo e a pele fina do corpo, com a mesma coloração de seu mamilo, irrompida por caminhos de veias saltadas.

É assustador percebê-lo duro desse jeito por mim, mas é ainda mais louco perceber que eu quero tocá-lo, e o faço, aproximando minha mão de sua ereção e engolindo em seco antes de tocar primeiro a glande, sentindo seu líquido viscoso antes de descer até a base num único estímulo.

— Eu também quero o seu — Ele disse, então, como uma criança que reivindica um brinquedo, ofegando por meu toque impulsivo.

Respirando dolorosamente devagar, eu subi meus olhos até os seus antes de parar de tocá-lo e usar minhas mãos para começar a desabotoar minha própria calça, me sentindo mais aliviado quando o jeans parou de sufocar meu pênis e eu coloquei minha mão por dentro da minha boxer, sem resistir ao impulso de começar a me masturbar ao sentir o calor da minha palma contra meu membro necessitado, deixando minha cabeça cair levemente para trás ao fazê-lo.

Insatisfeito, Jungkook segurou meu pulso e me mirou com os olhos irritados, afastando minha mão da minha virilha antes de ser ele a tocar meu pênis, puxando-o também para fora e evidenciando que não é o único gotejando de tesão.

Por último, ele voltou a deslizar sobre minhas pernas, unindo nossos quadris mais uma vez e me fazendo gemer surpreso ao sentir sua ereção tocar diretamente a minha.

— Assim é bom, hyung? — Ele perguntou com as mãos nos meus ombros, investindo com seu quadril, forçando nossos pênis a deslizarem um contra o outro.

Minha cabeça caiu sobre o encosto do sofá, sem forças, e eu passei as mãos pelo rosto, desesperado, quando fiz que sim.

Jungkook se inclinou sobre mim, me puxando o suficiente para voltar a me beijar e eu gemi alto contra sua boca quando ele colocou a outra mão por entre nossos corpos, até segurar nossas ereções juntas. Agora sua boca me beija com desespero ao mesmo tempo em que os dedos dele envolvem nossos membros, mantendo o meu parado enquanto ele investe o seu, para cima e para baixo, me fazendo explodir em gemidos e suspiros incontroláveis.

Desesperado por mais, com uma mão eu agarrei a nuca de Jungkook e com a outra comecei a também nos masturbar juntos, transformando tudo numa confusão que me faz gemer cada vez mais entre nosso beijo, até sentir tudo se tornar intenso demais e apertar meus dentes ao gozar vergonhosamente rápido.

— Porra... — Praguejei, quase com o orgulho ferido.

— Continua, por favor — Jungkook implorou, com os olhos apertados em desespero, enquanto sua mão estimula a minha a voltar a masturbá-lo.

Assim, mesmo ainda com a mente letárgica pelo orgasmo explosivo, eu voltei a masturbar Jungkook com a destreza de que disponho agora enquanto ele deixa sua cabeça cair ao lado da minha, no encosto, estocando contra minha mão, desesperado para gozar também. Meu braço já está cansado, mas seus gemidos são tão gostosos que eu não parei sequer por um segundo, aumentando o ritmo, a força e a atenção à sua glande para vê-lo gozando pela primeira vez. Quando aconteceu, Jungkook se desfez em um gemido arrastado, quase manhoso, que me fez desejar beijá-lo de novo, então o fiz, deitando a lateral do meu rosto contra o encosto do sofá para deixá-lo na altura do seu e puxando-o para mim antes de unir nossas bocas.

Dessa vez, o beijo foi mais calmo, intercalado por alguns sorrisos que ele não conseguiu conter, e me surpreendi um pouco ao sentir sua mão acariciar minha cabeça através dos cabelos.

— Você é tão gostoso, hyung... — Ele disse ainda em meu colo, com a cabeça deitada ao lado da minha no encosto, sua boca ainda próxima e sua mão ainda me acariciando.

Eu só respirei fundo, sem saber o que fazer agora. Livre de toda a excitação, minha mente começou a perceber o que acabamos de fazer, e eu não sei como me sinto sobre isso.

— Espera um pouco, eu vou limpar a gente — Ele avisou, buscando minha boca para me dar um selinho antes de ficar de pé e fechar sua calça, ainda parecendo perder o equilíbrio por um instante.

Depois, ele se afastou de mim e eu também fechei minha calça, aceitando os lenços que ele me ofereceu quando voltou, usando-os para limpar minha mão e o gozo que sujou minha blusa.

Ainda sorridente e sem se preocupar em voltar a vestir sua blusa depois de se limpar, Jungkook sentou ao meu lado outra vez, bem perto.

— O que você quer fazer agora? — Ele perguntou, ansioso. — Quer ver um filme?

Eu umedeci meus lábios, me inclinando para deixar os lenços usados e amassados junto com o lixo do jantar.

— Eu acho que é melhor ir embora. — Anunciei, um pouco retraído.

Jungkook arregalou um pouco os olhos, negando minha resposta.

— Não, hyung. Fica mais um pouco — Disparou. — Eu aluguei o DVD de Meninas malvadas...

Eu senti meu coração apertar com seu pedido desesperado e me amaldiçoei por, mais uma vez, não conseguir dizer não a ele.

— Certo... eu fico mais um pouco. — Decidi, enfim, e o rosto de Jungkook inteiro se iluminou com um sorriso aliviado.

Depois ele ficou de pé num pulo, como se tivesse medo de me fazer mudar de ideia, e se ajoelhou diante do móvel da TV, sobre um tapete colorido. Longe do seu olhar, eu voltei a esfregar as mãos pelo rosto, me sentindo perdido como nunca.

— Hyung? — Ele me chamou, ainda de costas para mim.

— Hm? — Murmurei de volta, ainda um pouco aéreo, e vi Jungkook me olhar por cima do ombro.

— Vai ser um problema se eu me apaixonar por você? — Ele questionou, então, como se perguntasse se eu vou querer pipoca.

Eu arregalei os olhos.

— O que?

— Eu preciso saber o quanto posso esperar de você. — Ele explicou, ainda me olhando com expectativa. — Então... vai ser um problema se eu me apaixonar por você?

Eu pisquei demoradamente, completamente pego de surpresa por sua pergunta, e ainda me levou algum tempo para conseguir responder sinceramente:

— Vai, Jungkook. Eu não vou conseguir te corresponder.

Eu não estou dizendo isso porque sou incapaz de me apaixonar, até porque já me apaixonei antes. Mas a situação é diferente, agora. Eu ainda estou em pânico, então não acredito que vou conseguir desenvolver sentimentos por ele sem colapsar de vez.

Ele então balançou a cabeça uma única vez antes de voltar a olhar para a frente e colocar o DVD no dispositivo. Depois, ele caminhou para se sentar ao meu lado com o controle na mão.

— Mas nós podemos continuar? — Ele perguntou, olhando para a TV enquanto seleciona a legenda. — Sem compromisso, sem exclusividade e sem sentimento. A gente pode continuar se vendo?

Sem compromisso, sem exclusividade e sem sentimento.

Talvez... talvez assim dê certo.

— Tudo bem. — Eu concordei, mesmo sem muita certeza. — Se for assim, vamos continuar nos vendo.

Pelo menos, ninguém sai com o coração ferido.

❥ [Continua...]

Chapter Text

Eu acho que posso dizer que, felizmente, já assisti Meninas malvadas tantas vezes que sei todas as falas de cor, assim pude entender cada cena do filme mesmo com a quantidade assustadora de vezes em que fui parar no mundo da lua enquanto o assistia.

Ao meu lado, Jungkook pareceu tão distraído quanto eu, e sei disso porque olhei para ele a cada minuto, mesmo sem querer.

O clima entre nós dois ficou desconfortável, não tenho como negar. A sinceridade causa isso, às vezes, e acho que é esse o caso agora. Eu fui sincero ao dizer que não posso envolver sentimentos nisso tudo e Jungkook parece ter sido sincero ao aceitar, entretanto, agora que temos as regras estabelecidas, parece ainda mais estranho.

Sem compromisso, sem exclusividade e sem sentimento.

Eu sei que estabelecer algo como isso pode ser a fórmula para um perfeito desastre, mas não creio que eu e Jungkook vamos nos deparar com qualquer fim trágico.

Toda essa coisa entre nós dois deve acabar tão rápido quanto começou, é nisso que acredito.

— Eu já vou indo — Anunciei quando o filme acabou e os créditos foram acompanhados por nosso silêncio quase mórbido.

Jungkook só balançou a cabeça numa concordância, lentamente ficando de pé e sorrindo sem muito jeito para mim quando também me levantei.

— Obrigado por ter ficado mais um pouco — Ele disse, parecendo sincero.

Eu só acenei sem muito jeito. Seria muito nojento da minha parte ir embora logo depois de gozar, então me sinto aliviado por ter ficado mesmo com o pânico que senti.

— Então, hm... tchau, hyung. Vá com cuidado.

Eu assenti mais uma vez, parando a um passo de sair do apartamento quando ele abriu a porta para mim. Um pouco incerto sobre o que estou fazendo, então, eu cocei minha nuca antes de virar para ele e puxá-lo para um beijo rápido de despedida.

Acredito que não existe problema em fazer isso, já que não envolve qualquer sentimento. É só um beijo.

— Tchau, Jeon. — Eu disse ao soltá-lo, percebendo seu olhar ansioso sobre mim e percebendo também a forma como isso me deixa nervoso. — Boa noite.

— Boa noite, hyung...

Dessa vez, eu finalmente fui embora. Deixei-o para trás e dirigi para casa com a cabeça confusa, bombardeada pelas novas sensações que descobri com Jungkook e pela certeza cada vez maior de que seu corpo masculino me proporciona tanto prazer quanto o feminino.

Meu deus... eu sou mesmo bissexual? 

Sufocado por tudo isso, eu mal consegui dormir quando me deitei nessa noite. Na manhã seguinte, logo cedo, eu soube que ficar em casa preso ao ócio não teria grande participação positiva na cura da minha mente, por isso decidi retomar o hábito que deixei morrer desde que descobri a traição de Nara e me vesti para correr pelo bairro, até o parque.

Como não sou o único a fazer isso, as trilhas asfaltadas para pedestres me fazem cruzar caminho com outras pessoas, mas eu estou concentrado demais em minha própria respiração e nas músicas reproduzidas por meus fones de ouvido para me preocupar com qualquer uma delas.

Parece que estava dando certo, até que eu resolvi parar para comprar uma água e nesse pequeno instante de tempo minha mente viajou até ele.

Ainda com os fones plugados, eu tirei o celular da minha braçadeira e abri minhas notificações. Mensagens de Nara, mensagens da operadora, uma mensagem de Sunhye, nenhuma de Jungkook.

Ignorando todas as outras conversas, eu apenas abri a última, rindo assim que vi a mensagem.

Sunhye
|Oi gato quer tc

Oi, gata. Tc de onde?|

Sunhye
|Podre KKK

Ainda com o aplicativo aberto e vendo a lista de contatos, meus olhos foram direto na conversa com Jungkook, ainda sem mensagens novas desde ontem.

Não diferente de antes, eu tenho a mesma vontade de deixá-lo me procurar primeiro, mesmo que por toda minha vida eu tenha sido o oposto disso. Quando eu queria, eu ia atrás, não esperava a boa vontade de ninguém. Agora, eu não entendo por que é tão diferente.

Jungkook bagunçou minha cabeça inteira, deixando-a como uma cidade devastada depois de um desastre natural.

Mesmo assim, eu me percebo ansioso por mais uma mensagem sua, por mais um encontro com ele, por mais das sensações que ele me provoca tão facilmente. Por isso, eu fecho os olhos para minha necessidade de esperar que seja ele a me procurar e, pela primeira vez, sou eu quem o faço.

Ei... bom dia. Já acordou?|

Jeon
|Eu ia mandar uma mensagem agora o.o

Jeon
|Você deixou sua carteira de motorista no meu sofá

Jeon
|E bom dia ^^ dormiu bem?

Sério? Eu não dei falta. Mais tarde passo aí pra pegar|

Ah, dormi bem. E você?|

Jeon
|Dormi bem também. Fiquei com o cheiro do seu Dolce&Gabbana ㅋㅋ

Jeon
|Ah, eu não estou em casa, hyung ): mas eu imaginei que você poderia precisar dela, então trouxe comigo. Posso passar aí agora pra deixar, já to pertinho

Você pode fazer isso?|

Eu também não estou em casa, mas estou voltando agora. Jiwon pode te receber se você chegar antes de mim|

Jeon
|Eu não vou poder te esperar, tenho compromisso agora :/

Jeon
|Já vou descer do ônibus. Quando chegar lá vou deixar sua carteira com a tal Jiwon, ok?

Jeon
|Depois a gente se fala, hyung 💛

— O que custa esperar um pouco pra poder me ver, caramba? — Eu resmunguei ao vento, inconformado.

E mesmo tendo lido suas últimas mensagens, eu não perdi tempo para respondê-las, só enfiei meu celular de volta na braçadeira, joguei minha garrafinha já vazia no lixo reciclável e retomei o passo de corrida, dessa vez fazendo o percurso de volta para casa, para tentar chegar antes que Jungkook vá embora.

Entretanto, dessa vez eu não me concentrei muito no ritmo da minha respiração ou das minhas passadas e corri feito um louco, até precisei dar um salto quase olímpico para não pisar em um cachorro que apareceu no meio do caminho.

Quando finalmente chego em casa depois de uma corrida frenética, parece que eu ateei fogo em meus pulmões e meu corpo está completamente sem forças, então eu me apoio em meus joelhos, puxando o ar desesperadamente enquanto me encontro incapaz de dar os dois últimos passos que me separam da porta de entrada.

— Hyung?

Ouvir esse chamado foi o que finalmente me fez levantar o rosto banhado em suor, e eu ainda inspirei desesperadamente mais uma vez quando vi Jungkook parado quase em minha frente, já saindo de minha casa.

Ok. Pelo menos cheguei a tempo.

— Tá tudo bem? — Ele perguntou, provavelmente assustado com meu estado atual.

Eu tentei balançar a cabeça em uma resposta positiva, mas esse movimento foi o suficiente para me fazer fraquejar de vez, então minhas pernas falharam e eu desabei sentado no caminho de pedras, apoiando as mãos atrás do quadril e deixando a cabeça tombar para trás enquanto tento recuperar o fôlego.

— Hyung, é sério — Jungkook agora parece, além de tudo, preocupado, e logo o percebo ele se agachando ao meu lado. — Você tá bem? O que aconteceu?

— Eu só... preciso... — Eu comecei a dizer, com as palavras entrecortadas por minha respiração instável. — água...

Ele riu ao finalmente perceber que não é nada muito grave, e foi rápido em me segurar quando eu tentei me jogar completamente para trás. Depois, ele passou meu braço por seu ombro e abraçou minha cintura, segurando meu corpo perto do seu para me ajudar a ficar de pé, sem parecer se importar com todo o meu suor.

— Eu te ajudo, vem — Ele disse, sem me soltar.

Brevemente recuperado, eu consegui caminhar para dentro. Se tivesse forças, eu certamente sorriria, agora, porque não só consegui chegar antes de Jungkook ir embora, como ainda consegui um pouco de sua atenção.

De repente, eu arregalei meus olhos ao perceber o tipo de pensamento que estou tendo.

Porra...

— Menino! O que aconteceu? — A voz de Jiwon quando ela me viu sendo praticamente carregado casa adentro foi a coisa seguinte que me impediu de ter um surto.

— Eu o encontrei quase morto ali na porta quando estava indo embora — Jungkook explicou para ela, parecendo conter o riso.

— Eu... corri rápido demais... — Expliquei, diante dos olhos ainda preocupados da empregada.

— Jesus misericordioso — Ela soprou, contrariada. — Eu vou pegar um pouco de água pra você.

Eu assenti, aliviado, e desabei no sofá mais próximo quando ela se virou para ir até a cozinha, deixando o corpo jogado e a cabeça deitada sobre o encosto. Meu peito ainda está queimando pelo esforço da corrida, mas eu devo sobreviver.

— Ei, hyung — Jungkook me chamou, de pé, e eu preguiçosamente abri os olhos para poder encará-lo, encontrando-o com uma expressão tão curiosa quanto cheia de esperança. — Você correu assim pra poder me ver?

Eu só o encarei em silêncio por algum tempo, antes de voltar a fechar os olhos. Não dou uma confirmação à sua suposição, menos ainda a nego. Em resposta, ouvi um suspiro carregado seu.

— Ela me perguntou se eu não queria te esperar — Ele confessou, então, e sei que ele está se referindo a Jiwon. — Eu aceitei porque não queria ir embora sem ver você... mas agora eu preciso ir.

Eu voltei a abrir meus olhos, já sentindo minha respiração cada vez mais normalizada, e virei minha cabeça sobre o encosto do sofá para vê-lo melhor. Só então percebo como ele está diferente do usual, vestido com uma calça branca, uma blusa azul clara de botões com mangas curtas e sapatos de couro.

Isso definitivamente não parece ser o estilo dele.

— O que você tem que fazer? — Perguntei, percebendo suas mãos soltas ao lado de seu corpo, como se não soubessem para onde ir. — É importante?

— Hm... sim, um pouco... — Foi o que ele disse, sem responder minha primeira pergunta.

— Mas você já está aqui. — Apontei, tentando sustentar um tom de obviedade. — Por que não fica mais um pouco?

Jungkook entortou um pouco a cabeça e me olhou com um sorriso no canto dos lábios, desse jeito enviesado que transforma seu rosto numa contradição, já que seus olhos mantêm o mesmo brilho quase inocente.

Depois, ele se aproximou mais do braço do sofá, sentou parcialmente sobre ele e apoiou sua mão de forma suave sobre o couro cinza, sem parar de olhar para mim.

— Você quer que eu fique, hyung? — Ele perguntou, enfim.

Eu continuei olhando para seu rosto, depois desci os olhos até sua mão de dedos compridos, com unhas de formato longo, apesar de estarem cortadas quase rente ao limite.

Sob a desculpa de curiosidade, eu me movi sobre o sofá, fiquei um pouco de lado sobre ele e estiquei minha mão até alcançar a sua, brincando com a unha de seu indicador antes de discretamente apoiar o peso de minha palma sobre seus dedos.

— Eu corri feito um louco. Seria sacanagem sua ir embora agora — Eu disse, então, consciente sobre ter confirmado que corri daquele jeito só para poder vê-lo.

Jungkook sorriu um pouco mais, dessa vez sem malícia, esticando seus lábios numa linha curva que combina muito mais com seus olhos grandes e escuros.

— Então eu acho que posso cancelar meu compromisso... — Ele disse, sutilmente movendo seu polegar até usá-lo para acariciar as costas da minha mão ainda sobre a sua.

Sem verdadeiro controle sobre isso, eu sorri para ele, intensamente satisfeito com sua decisão. Entretanto, segundos depois Jiwon reapareceu com uma bandeja em mãos, trazendo frutas cortadas e duas fatias do seu pão caseiro, além da minha água.

E, num reflexo, eu imediatamente puxei minha mão para longe da de Jungkook.

— Aqui, Jimin. — Ela disse carinhosamente ao apoiar a bandeja sobre a mesinha de centro, me oferecendo primeiro somente a água. — Trouxe comida também. Você precisa comer depois de fazer atividades físicas.

— Obrigado, Jiwon — Eu respondi, tentando ao máximo agir sem levantar qualquer suspeita, e rapidamente sequei o copo quase num fôlego só, devolvendo-o para ela logo depois. — Eu vou comer no quarto.

— Certo. — Ela sorriu para mim, apertando meu braço carinhosamente. — Daqui a pouco eu subo para pegar a bandeja.

Quando ela se afastou, Jungkook, ao meu lado, continuou calado.

— Você vai ficar? — Eu perguntei, com medo de tê-lo feito mudar de ideia com meu recuo instintivo.

Ele só ergueu os ombros, assentindo. Definitivamente sem a sua empolgação anterior.

Um pouco tenso por isso, eu resmunguei como um desgraçado ao forçar meu corpo a se levantar, mas quando estiquei meus braços para pegar a bandeja, Jungkook foi mais rápido e a segurou, carregando-a para mim.

— Eu levo. — Ele anunciou, à espera que eu o guie pela casa.

— Obrigado. — Eu disse, ainda sem sair do lugar. — E me desculpa por aquilo... é que ela não sabe e...

— Relaxa, hyung. — Ele respondeu, quase conformado. — Já fizeram pior comigo. Nem me importo com essas coisas.

Eu cocei minha nuca, sem jeito e arrependido.

— Tudo bem se seus pais me virem aqui? — Questionou, parecendo fugir do desconforto. — Eles não vão estranhar?

Eu suspirei, finalmente começando a guiá-lo até as escadas. — Eles estão em um brunch com alguns sócios da minha mãe, então não devem chegar tão cedo. Não se preocupe com eles.

— Um brunch? — Ele perguntou, com uma entonação esquisita.

— É. É um híbrido estranho de café da manhã e almoço — Expliquei, acreditando que seu tom de voz diferente foi provocado por alguma falta de entendimento.

— Aham. — Ele sorriu forçado quando olhei para seu rosto, subindo as escadas um degrau à sua frente. — Coisa de rico, né?

Eu só balancei os ombros numa concordância vaga, finalmente guiando-o pelo andar superior em direção ao meu quarto. Quando abri a porta, eu esperei ele passar para dentro antes de voltar a fechá-la, garantindo nossa privacidade.

— Pode sentar onde quiser — Eu disse, já afrouxando a braçadeira e vendo-o olhar impressionado ao redor antes de sentar na minha poltrona quase como se estivesse com medo, apoiando a bandeja sobre seu colo.

Eu ri, me inclinando brevemente sobre ele quando me aproximei para segurar as alças da bandeja, e fui levado pelo impulso quando meus olhos encontraram os seus. Sem me dar conta, eu me aproximei ainda mais, beijando sua boca rapidamente, e respirei fundo ao senti-lo aceitar meu selar inesperado.

— Eu vou tomar banho, vai ser rápido. — Avisei, ainda sem me afastar.

Jungkook se inclinou para mim de novo, me roubando outro selinho.

— Posso ir com você? — Ele perguntou, sorrindo com seu rosto ainda próximo.

Eu ri sem perceber, abaixando um pouco a cabeça antes de me reerguer, segurando a bandeja para deixá-la sobre o apoio acolchoado à frente da poltrona.

— Já volto. — Anunciei, deliberadamente ignorando seu pedido antes de ir até o banheiro da minha suíte.

Um pouco apressado, eu tomei um banho de gato antes de vestir uma roupa confortável, mas suficientemente bonita, e finalmente sair do closet. Quando o fiz, ainda com os cabelos quase pingando, encontrei Jungkook em pé diante da minha estante de livros, que faz uma divisão entre o espaço total do quarto, folheando um dos meus mangás.

— Você gosta de mangás? — Eu perguntei, balançando minha blusa para tentar amenizar as manchas de água resultantes de ter me vestido sem me secar apropriadamente.

— Ah, — Jungkook virou para trás, parecendo não ter me percebido até então. — eu gosto, eu acho. Eu não tinha dinheiro pra comprar quando era mais novo, então sempre ia numa livraria perto de casa e ficava lendo, mas parei de fazer isso depois que me acusaram de roubar dinheiro da bolsa de uma cliente — Ele balançou os ombros, parecendo conformado com a lembrança. — Mas eu lembro que gostava, na época. Dos mangás, no caso.

Jungkook parece mesmo completamente indiferente à lembrança, mas eu me sinto um pouco desconfortável.

— Eu posso te emprestar, se você quiser. — Eu disse, então, caminhando até a poltrona onde ele estava sentado antes, mas atento à sua reação.

— De verdade? — Ele perguntou quase como se eu tivesse lhe oferecido um montante inigualável de dinheiro, até arregalou os olhos.

— Fofo. — Eu disse sem pensar, mas pigarreei assim que me dei conta. — Só não rasgue, nem amasse, nem estrague de qualquer forma.

Jungkook abriu um sorriso do tamanho do mundo e folheou o mangá de volta à primeira página, sem parar de lê-la quando começou a caminhar em minha direção, para depois se sentar no chão com as costas apoiadas na parede, as pernas dobradas, os joelhos puxados em direção ao seu peito e as mãos segurando o livreto cuidadosamente aberto.

Eu ri baixo, sem som, quando percebi quão rápido ele se concentrou na leitura, mas não o atrapalhei e finalmente comecei a comer o que Jiwon preparou para mim, repetidamente olhando para Jeon para analisar suas reações enquanto lê.

Caramba, ele é mesmo muito bonito.

— Quer? — Eu ofereci uma das duas fatias de pão depois de algum tempo, vendo-o levantar os olhos em minha direção. — Foi Jiwon que fez. É bem gostoso.

— Então eu aceito. — Ele respondeu, apoiando o mangá fechado sobre sua perna quando eu entreguei a ele e saí da poltrona para me sentar no chão, ao seu lado, também usando a parede como encosto. — Obrigado.

Eu sorri contido em resposta, logo ficando em silêncio para comer um primeiro pedaço, e me surpreendi quando ele deixou um gemido satisfeito escapar junto a uma risada repentina.

— Eu acho que é a mesma receita que minha mãe fazia — Ele explicou, sorrindo para o pão. — Que esquisito...

Eu fiquei pensativo por algum tempo, até olhá-lo outra vez.

— Sua mãe também cozinha bem como você? — Perguntei, curioso.

— Cozinhava. — Ele corrigiu, calmo.

Eu pisco desastradamente até perceber o que isso quer dizer e, até inconscientemente, me encolho um pouco.

— Ah, eu... sinto muito, Jungkook. — Murmurei, um pouco sem jeito.

— Tá tudo bem, já faz um bom tempo. — Ele disse, mais uma vez parecendo conformado.

Na verdade, ele parece conformado sobre tudo de ruim que já aconteceu em sua vida, e isso é um pouco triste.

— Você sente falta dela? — Eu questionei, tentando ser cuidadoso. Não quero deixá-lo desconfortável, nem nada assim.

— Bastante. Em alguns dias mais que em outros. — Ele confessou, brincando com a fatia em suas mãos. — Mas comer isso me faz matar um pouco da saudade, então obrigado por dividir comigo, hyung.

— Eu posso separar mais uns pedaços para você levar quando for para casa... — Sugeri.

— Não, não precisa — Ele riu, arrancando um pedacinho com os dedos e levando-o à boca. — Isso é suficiente. Obrigado mesmo.

Eu concordei em silêncio, virando para a frente e mordendo mais um pedaço da fatia, um pouco desconfortável com a forma como deixamos a conversa morrer.

— Você aprendeu a cozinhar com sua mãe? — Eu perguntei, então, olhando-o de lado. — Tudo bem pra você falar sobre isso? Me desculpe se for desconfortável ou alguma coisa assim...

— Eu não me importo, mas obrigado por perguntar. — Ele sorriu genuinamente, como se eu tivesse feito algo grandioso, mas não acho que fiz mais que minha obrigação. Mesmo assim, eu sorri também, aliviado por não deixá-lo incomodado, e me mantive atento quando ele respondeu minha primeira pergunta. — Eu aprendi a cozinhar com ela e com meu pai, na verdade. Eles tinham uma confeitaria, sabe? Era um negócio pequeno e a gente passava muita dificuldade porque os lucros mal cobriam as despesas, mas eu amava aquele lugar. Por isso eu passava muito tempo lá, então um dos dois sempre me deixava ajudar quando faziam um doce novo para colocar na vitrine. Acho que foi assim que acabei pegando o jeito.

— A confeitaria deles não existe mais? — Eu perguntei, estupidamente.

— Meu pai não conseguiu continuar com ela depois que minha mãe faleceu, então... tá fechada há um bom tempo. Já deve ter outra coisa no lugar.

— Isso é triste. — Suspirei, verdadeiramente ressentido. Deve ter sido muito difícil para Jungkook. — Mas seu pai está bem, agora?

Ele sorriu, mas não existe sinceridade nesse sorriso. — Sim. Ele está bem.

Eu terminei de comer meu pão, incerto sobre questioná-lo sobre isso ou não, mas decido por não insistir. Se ele resolveu me contar o que parece uma mentira, deve ser porque não se sente bem compartilhando a verdade.

— Ah... — Eu repentinamente lembrei de algo que ele me confessou antes. — Você me disse uma vez que seu sonho era abrir uma confeitaria, mas que era um pouco complicado de explicar... tem alguma coisa a ver com sua família?

— Você lembra? — Ele pareceu um pouco impressionado, os olhos brevemente arregalados entregando que ele definitivamente esperava que eu esquecesse. Mesmo com a surpresa, ele não me poupou da resposta: — Mas tem, sim... a confeitaria dos meus pais era um ambiente muito acolhedor, hyung. As pessoas que frequentavam sempre pareciam se sentir bem lá dentro, entende? Era muito bonito. Então eu queria muito construir um lugar como aquele de novo.

Eu sorri sem perceber, usando meu pé para brincar com o seu descalço.

— Eu gostaria de ir a um lugar como esse. — Confessei sem olhar diretamente para ele, mas ainda sorrindo.

— Eu gostaria de te levar a um lugar como esse. — Jungkook completou, manso.

Eu o olhei, vendo-o tão perto, e apreciei cada detalhezinho do seu rosto. Apreciei a pequena cicatriz na sua maçã saliente, os cabelos escuros desalinhados, as argolas prateadas em sua orelha e cada sinalzinho enfeitando sua pele. Por último, eu vi a covinha discreta reaparecer quando ele moveu os lábios, parecendo tenso sob toda minha atenção, e não me contive ao me aproximar e beijar carinhosamente sua bochecha logo em cima da marquinha adorável.

Quando me afastei, confesso que me assustei ao vê-lo com o rosto avermelhado e os olhos arregalados, o que acabou por me deixar envergonhado também. Dessa forma, eu me afastei, apertando meus lábios como numa repreensão silenciosa pelo que acabei de fazer, e então tentei desviar nossas atenções.

— Então, hm... você também disse que gosta de outra coisa. — Eu disse, todo atrapalhado. — Fotografia, né? — Jungkook me olhou com os olhos um pouco contraídos, confusos e surpresos, e eu logo me senti um inconveniente. — Desculpa, eu estou fazendo perguntas demais. — Murmurei um pouco sem jeito.

— Não, não é isso — Ele se adiantou em dizer, ainda com a mesma expressão. — É só que seu beijo me pegou de surpresa, pareceu carinhoso e... ah, caramba, não sei, é estranho logo você fazer algo assim.

— Logo eu? — Dessa vez, eu quem fiquei confuso.

Jungkook coçou a nuca, visivelmente desconfortável. — É que caras como você nunca agem desse jeito com caras como eu, hyung. A conversa que a gente teve ontem só comprova isso.

Eu o olhei, um pouco incomodado. — Eu fui sincero com você, Jungkook, não tinha a intenção de te magoar nem qualquer coisa assim.

— Não magoou, porque eu já esperava aquilo. Eu já esperava que você negasse qualquer possibilidade de existir sentimento entre nós dois, porque não é a primeira vez que algo assim acontece. Você é muito previsível, hyung.

— Parece que você está com raiva. — Eu disse, quase ofendido.

Não estou ofendido só por ser chamado de previsível, mas por ser colocado no mesmo patamar que várias outras pessoas simplesmente porque fui sincero com ele. O que ele esperava de mim? Que eu mentisse e dissesse que acredito que posso me apaixonar por ele sem perder completamente o pouco juízo que me resta?

— Eu não estou com raiva, juro de coração. Eu só sei exatamente o que vai acontecer e não estou feliz com isso.

— E o que vai acontecer? — Perguntei, com a entonação desconfiada.

— A gente vai continuar se vendo, mas você não vai deixar ninguém saber e eu nunca vou ser prioridade em nada na sua vida. Quando você se sentir ameaçado, achando que as pessoas ao seu redor podem descobrir, você vai sumir e fingir que nada aconteceu entre nós dois. E aí você vai deixar a vaga aberta para outra pessoa fazer tudo isso de novo.

— Não é porque eu disse que não quero compromisso, nem sentimento que eu vou sumir desse jeito. — Eu ri, incrédulo. — Quando não der para continuar, eu vou ser sincero sobre isso.

— Ah, você vai me mandar uma notificação quando nosso prazo de validade acabar? — Ele questionou em tom de brincadeira, mas eu reconheço a ironia amarga no fundo de sua voz. — Que atencioso.

Eu suspirei pesadamente, ouvindo a campainha ecoar pela casa e torcendo para que não seja visita para mim, porque agora estou irritado.

Como inferno a conversa tomou esse rumo?

— Eu fui sincero sobre o que estou disposto a te oferecer, Jungkook. Se não é suficiente para você, é melhor acabar logo com isso tudo.

Eu senti minha respiração dolorosamente tensa quando ele ficou em silêncio, parecendo ponderar minha sugestão antes de umedecer os lábios e se mover para ficar de pé, deixando o mangá sobre o apoio acolchoado. Meus olhos o acompanharam, atentos, enquanto eu percebo que provavelmente o convenci a desistir de mim.

Mas eu realmente não quero que ele vá, menos ainda quero que essa coisa estranha que acontece entre nós dois acabe por aqui. Não é que eu já esteja apaixonado, porque algo assim não pode ter acontecido tão rápido, então não sei explicar por que a possibilidade me incomoda tanto, mas eu quero que ele fique. Eu quero que ele aceite minhas condições.

— Jungkook, espera... — Eu o chamei bem baixo, sequer fui ouvido, mas também não tive tempo de repetir mais alto, porque logo a porta do meu quarto foi aberta violentamente e eu quase me engasguei ao ver Nara entrando como um furacão.

— Quanto tempo você vai ficar sem responder minhas mensagens? — Ela atirou logo de cara, antes de perder o impulso ao ver Jungkook, talvez reconhecendo-o. Acho que seria difícil esquecê-lo depois de vê-lo batendo uma pra mim no meio do meu restaurante favorito. — Fala sério que você tá com esse cara de novo, Jimin! — Minha ex traidora apontou para Jungkook, inconformada.

Eu nem me dei ao trabalho de ficar de pé: — O que me deixa mais surpreso é você ter a cara de pau de vir até aqui, Nara.

— Como é? — Ela me mirou, visivelmente irritada. — Jimin, nós namoramos mais de um ano! Um ano! Você acha que pode simplesmente fazer o que fez e me deixar sem nenhuma explicação?

— Ah, é? Por que você não pensou nisso quando resolveu me trair com aquela marmota do Eunjo? Sua sonsa!

— Eu não sei de que parte lunática da sua mente você tirou isso, mas para que já ficou feio, Jimin. Você sabe que eu não te trairia com ninguém, muito menos com um amigo nosso, então se você está procurando um motivo pra jogar a culpa da sua traição em mim, pelo menos usa um motivo que faça sentido!

— Agora você quer me fazer de doido? — Questionei, ultrajado.

— Eu vou deixar vocês a sós. — Jungkook anunciou, de repente, sem parecer se divertir com toda essa merda e já caminhando até a porta do quarto.

— Vai tarde! — Nara bradou, furiosa.

Eu por outro lado, finalmente me levanto num pulo. Porra, eu quero que Nara vá embora, não ele.

— Escuta, Nara. — Eu a chamei, apressado, e parei em sua frente somente por um instante. — Acabou. Ok? Eu não queria que as coisas acabassem desse jeito, mas nós dois fizemos merda. Então só me esquece de uma vez antes que a gente piore o que já está ruim.

— Jimin...? Ei! — Ela me chamou atordoada quando logo depois eu passei direto por ela, também saindo do quarto. — Para onde você está indo? Jimin!

Mesmo ouvindo seu chamado, eu não interrompo minhas passadas largas e ansiosas em direção a Jungkook, segurando-o afoitamente pelo braço antes que ele chegue à escada.

— Não vai. — Eu pedi, sem soltá-lo diante do seu olhar assustado ao virar para mim.

— Hyung?

— Eu quero que você fique. — Eu disse, sentindo meu coração disparar. — Então fica comigo mais um pouco. Por favor, Jungkook.

Ele me olhou ainda surpreso, depois olhou para algum ponto atrás de mim, acredito que para Nara. Quando olho para trás, confirmo minha suspeita, encontrando-a do lado de fora do quarto com o olhar vidrado em mim.

— Jimin, eu não acredito que você vai fazer isso comigo. — Eu ouvi sua voz me alcançando, e ela parece mais magoada que irritada, agora.

Eu virei para trás, sem soltar Jungkook, e suspirei para tentar amansar meu tom. Assim, ela pode perceber que não estou falando nada da boca para fora, nem movido unicamente por raiva.

— Já deu, Nara. Eu não quero brigar ainda mais com você, então por favor... vai embora.

Minha ex ficou sem reação pelo que acredito ter sido quase um minuto inteiro. Seus lábios tremeram por um instante, ela piscou várias vezes para tentar conter a mágoa e por fim sua voz assumiu um tom mais baixo quando ela voltou a falar:

— Eu sei que nosso relacionamento não estava no melhor momento, mas eu nunca esperei isso de você. — Ela disse, ressentida. E ainda finalizou, amarga, essa falsa: — Obrigada pela consideração, Jimin.

Ela ainda olha de Jungkook para mim antes de sair do lugar, lentamente. Eu vejo sua expressão vazia quando ela passa por nós dois, descendo a escada sem dizer qualquer outra coisa, e suspiro aliviado quando ela finalmente some do meu campo de visão.

O silêncio é a primeira coisa que vem como consequência enquanto sinto os olhos de Jungkook arregalados em minha direção, mas falho em olhá-lo de volta.

— Hyung... — Ele voltou a me chamar, o tom parecendo completamente perdido. — Por que você fez isso?

Eu olhei para ele, sem parar de respirar fundo, e apertei minhas sobrancelhas, surpreso com a resposta que surgiu.

— Porque eu quero você, Jungkook. — Eu disse, impressionado por conseguir dizê-lo em voz alta mais uma vez. — Caralho, eu quero muito você...

Perdido em minha própria constatação, eu fui completamente pego de surpresa quando Jungkook me tocou instantes depois. Sua mão tocou meu braço num movimento inseguro, depois subiu todo o caminho até minha nuca e eu finalmente voltei a olhá-lo, apenas para encontrar o questionamento silencioso em seus olhos escuros: Eu posso te beijar agora?

Ainda surpreso por perceber que eu me rendi a ele muito além do que imaginava, eu apenas umedeço meus lábios antes de afrouxar meu toque em seu braço, transformando-o sutilmente em um carinho que não se interrompe quando a outra mão de Jungkook me segura pela cintura e empurra meu corpo suavemente contra a parede. Antes mesmo de acontecer, eu fecho os olhos e respiro com um pouco mais de dificuldade, até sentir a boca de Jungkook tocar a minha suavemente.

Eu não pensei em rejeitá-lo. A possibilidade sequer me pareceu plausível, mesmo que eu ainda não saiba como lidar com tudo isso. Então eu o aceito, assim como aceito o frio na barriga quando sua língua timidamente toca a minha. Mas então a bolha que criamos ao nosso redor é subitamente estourada:

— Meu deus! — Um ofegar surpreso vem ao lado, de repente.

Meu coração disparou violentamente ao perceber que é Jiwon. Meu corpo demorou mais um segundo para se aperceber e, quando aconteceu, meu reflexo violento foi empurrar Jungkook pelo peito, afastando-o de mim enquanto meus olhos, antes fechados em entrega, agora se arregalam para ele.

— Minha nossa, me desculpem, eu só vim pegar a bandeja e... meu deus...

— Jiwon... — Eu a chamei desesperado, lentamente movendo minha cabeça para ver seu olhar apavorado. — Não é o que parece, eu juro. Ele... me beijou à força...

Eu percebi Jungkook olhando para mim, respirando devagar, decepção emanando por cada um de seus poros.

— Não precisa me explicar nada, Jimin — Ela garantiu, se atrapalhando toda quando recuou até a escada. — Eu venho pegar a bandeja depois!

Eu senti meu peito queimar ainda mais que depois da minha corrida, e virei para Jungkook imediatamente, arrependido até a alma.

Foi um reflexo. Fugiu completamente do meu controle. Eu juro que não queria ter dito aquilo.

— Jungkook... — Eu o chamei, mas ele se esquivou violentamente quando tentei segurá-lo outra vez.

— Eu pensei o contrário por um momento — Ele disse, ressentido. — Mas você é pior do que eu achei.

— Eu não quis dizer, nem fazer aquilo... — Tentei me justificar, mas ele logo me interrompeu.

— Você tinha razão. Eu não estou satisfeito com o que você tem para me oferecer. — Confessou, dando um passo para trás. — Então pode ficar tranquilo, eu vou te deixar em paz agora. E você me deixe em paz, também. Eu cansei da sua indecisão.

— Jungkook, por favor — Insisto, sentindo meus olhos arregalados quando o vejo se afastar, sem olhar para mim outra vez.

E então Jungkook definitivamente foi embora.

❥ [Continua...]

Chapter Text

Jungkook, por favor... me responde|

Deixa pelo menos eu me desculpar direito :/|

Eu continuei olhando para a conversa sabendo que minha espera por uma resposta é em vão, mesmo que ele apareça online no aplicativo.

Sei disso porque essa não é a primeira mensagem que mando para ele desde que tudo aquilo aconteceu. Eu mandei um total de três pedidos longos de desculpas nos últimos quatro dias e foram todos dolorosamente ignorados. Ele sequer visualizou.

Impaciente e ainda com o peso na consciência me tirando toda a paz de espírito, eu larguei o celular ao meu lado na cama e cobri meus olhos com meu braço num gesto puramente frustrado.

Meu arrependimento vai muito além da consequência de ter perdido as chances de estar com alguém por quem senti tanta atração e um interesse e curiosidade genuínos. O que me tira o sono e a concentração, agora, é saber que eu o magoei. Tipo, de verdade. E isso eu não queria de forma alguma, mas só percebo agora que já aconteceu.

— Porra, caralho... — Eu praguejei, pela primeira vez não motivado por mais um surto de decepção ao me ver pensando demais em outro homem. O que me motiva, contraditoriamente, é a certeza de que toda essa minha resistência e receio feriram Jungkook.

Sem saber o que fazer, eu voltei a pegar o celular e fui na conversa da única pessoa com quem sinto que vou me sentir confortável para falar abertamente sobre isso, e é estranho perceber que esse alguém não é Taehyung.

Sunhye, pode falar?|

Sunhye
|Mais ou menos... é urgente?

Não... mas me avisa quando puder conversar :/|

Sunhye
|Você tá ocupado?

Sunhye
|Eu só não posso ficar no celular, mas se você puder vir até aqui a gente pode conversar

Sunhye
|Algo me diz que é sobre o cara da boate...

Eu ponderei sua sugestão por muito pouco tempo. Desocupado como estou desde que larguei a universidade, eu não tenho muitas obrigações, então também não tenho um motivo que me impeça de ir até ela, coisa que faço assim que recebo sua localização.

— Jiwon... — Eu chamei ao descer a escada, vendo-a limpar o móvel da sala. — Eu vou sair, devo jantar na rua mesmo.

Ela me olhou em silêncio antes de concordar, deixando a atmosfera um pouco mais desconfortável.

As coisas estão estranhas desde que ela me viu beijando Jungkook — logo antes da minha babaquice colossal em dizer que ele me beijou à força —, mas nem eu, nem ela tomamos qualquer iniciativa para esclarecer o que aconteceu naquele dia. Ela não me questionou, tampouco eu me justifiquei.

Depois de sustentar nosso desconforto por mais algum tempo em que pensei em dizer mais algo, acabei optando por não fazê-lo, e somente me despedi de uma vez antes de sair em busca de um táxi.

Cerca de vinte minutos depois, eu desembarquei diante de uma academia de luta e fui facilmente instruído ao perguntar ao recepcionista na entrada onde eu poderia encontrar Sunhye, e ele apontou para um canto do recinto quase vazio, com minha mais nova amiga socando repetidamente um saco de pancadas preso a uma viga metálica no teto.

— Quando você disse que era uma academia, eu não imaginei que seria uma assim — Eu disse ao me aproximar, vendo que ela sorriu, mas sem parar de desferir seus golpes e sem olhar para mim.

— Eu gosto de imaginar que estou socando meu ex-namorado — Ela disse, ofegante, e deu um soco particularmente mais violento no negócio. — Macho escroto do caralho.

Eu sorri fraco, me recostando contra o ringue vazio e olhando brevemente ao redor antes de voltar a olhar para ela, vendo-a com a calça folgada, o top justo e escuro e o suor fazendo sua pele brilhar.

— Eu fico incrível assim, não é? — Ela perguntou, então, desferindo um último soco antes de segurar o saco de pancadas quando este fez um movimento de vai e vem depois do golpe.

— Não vou negar. — É o que eu digo, vendo seu sorriso espontâneo dar as caras outra vez quando ela pegou sua garrafa de água antes de sentar ao meu lado com um suspiro pesado.

— Então. Você realmente veio. Isso quer dizer que está desesperado?

— Levemente preocupado é uma denominação melhor.

— Uma leve preocupação fez você vir até aqui só pra ter logo essa conversa quando poderia esperar mais um pouco para falarmos por mensagem? — Alfinetou. — Uau.

— Não me faça arrepender de ter vindo, pelo amor de deus.

— Não vou. — Ela respirou fundo e deixou a garrafa de lado, engatinhando para dentro do ringue depois. — Vem. Segura meus pés pra eu fazer minhas abdominais e desembucha.

Sem desobedecê-la, eu também passei para dentro do ringue e segurei seus tornozelos enquanto ela se posiciona melhor para começar a erguer somente o tronco, repetidamente.

— Ok. Eu não sei muito bem como explicar tudo que aconteceu de forma resumida, mas basicamente minha empregada viu Jungkook, o cara da boate, me beijando lá em casa, e eu me desesperei na hora, dei um empurrão nele e disse que ele tinha me beijado à força. Agora ele não responde minhas mensagens e eu... caramba, Sunhye, eu disse aquilo por impulso. Eu juro que não queria!

Ela terminou de fazer uma série de vinte e cinco repetições, parando deitada antes de me olhar dali de baixo, e dizer:

— Que vacilo, Jimin.

— Eu realmente não preciso que você me diga o óbvio. — Resmunguei.

— Não, sério, que vacilo.

— Sunhye...

Ela suspirou, se apoiando nos cotovelos para erguer o corpo.

— Por que você fez isso? — Questionou, então. — Você disse que foi impulso, mas impulso por quê?

— Porque eu ainda não estou confortável com tudo isso. Você sabe o que é acreditar que é de um jeito sua vida toda e de repente descobrir que, porra, não, você não é?!

— Certo. Você está em seu processo de aceitação, eu entendo que seja confuso e assustador, mas você não pode fazer coisas assim com outras pessoas.

Ela voltou a deitar, cruzando as mãos atrás da cabeça para recomeçar uma nova série de abdominais.

— Ele deve ter ficado ofendido, e com razão. — Sunhye completou.

Ainda com as mãos firmes em seus tornozelos, eu neguei. — O problema não é esse. Ele não ficou só ofendido. Ele ficou magoado, e não foi pouco. Eu me senti o maior lixo do planeta quando ele me olhou... daquele jeito.

Ela não parou sua contagem ofegante e sussurrada, me fazendo esperar até o fim de mais vinte e cinco repetições para só então voltar a se manifestar:

— Você acha que ele gosta de você?

Eu abri a boca para respondê-la mecanicamente um ele não é desse tipo. Entretanto, minha voz morreu quando eu me dei conta de que sequer sei que tipo de cara Jungkook é.

Ele me deixa confuso com toda sua atitude promíscua que parece destoar tanto de todas as vezes em que ele mostrou uma inocência tão oposta a tudo que eu penso, ou pensava, sobre ele.

— Eu não sei. — Foi o que eu respondi, afinal. — Nós nos conhecemos há tão pouco tempo, Sunhye... não é possível gostar de outra pessoa assim tão rápido, é?

— São casos e casos, Jimin. — Ela disse, me olhando. — Você gosta dele?

Eu a olhei em silêncio, sem soltar seus tornozelos.

Honestamente, não sei como responder sua nova pergunta. Eu gosto da companhia de Jungkook e me sinto atraído por ele com uma intensidade assustadora, mas eu não sei se tenho sentimentos românticos por ele. No fundo, eu ainda tenho medo de descobrir que sim.

— Eu estou confuso como nunca antes na minha vida, nem sei te dizer como me sinto... — Respondi, finalmente, na falta de resposta melhor. — Mas eu gosto de estar perto dele, gosto mesmo.

Sunhye sentou sobre o tatame do ringue, acariciando meu pulso ainda agarrado aos seus tornozelos num gesto complacente.

— Olha, eu nunca passei por isso, então é claro que não sei como é passar pelo que você está passando, mas eu realmente imagino que deve ser difícil. Só que... se você ainda não sabe lidar com tudo isso, não é justo arrastar outra pessoa pra sua confusão, sabe? Então talvez seja melhor deixar ele se afastar de você.

— Eu sei. Eu realmente sei disso, mas eu queria que ele pelo menos me deixasse falar. Eu só queria me desculpar, de verdade.

Ela abraçou as pernas ao apoiar o queixo sobre os joelhos, me olhando como se pensasse numa solução milagrosa.

E eu espero em silêncio, esperançoso. Porque depois de tudo que Jungkook me disse instantes antes da besteira que fiz, eu não consigo parar de pensar em como minha atitude foi ainda pior do que parece. Ele se abriu comigo, mesmo que por ressentimento. Ele me confessou que as pessoas sempre o tratam como um nada, mostrou como isso o magoa, e mesmo assim eu fiz exatamente o que ele previu.

Quanto mais eu penso nisso, mais me arrependo.

— Olha, — Sunhye finalmente se manifestou. — eu acho melhor você dar um tempo. Ficar em cima só vai piorar a situação, então deixa que ele te procura se um dia estiver disposto a conversar. Você já mostrou que quer se desculpar, então agora espere ele estar pronto para aceitar suas desculpas.

Eu deixei um suspiro conformado e arrastado se impulsionar para fora, mesmo que essa não seja a resposta que eu queria ouvir.

Entretanto, eu reconheço que ela tem razão, e querer forçar Jungkook a conversar comigo só prova que eu ainda sou um egoísta que quero me desculpar apenas para me livrar do peso na consciência, não para fazê-lo se sentir melhor de alguma forma.

— Eu vou tomar um banho agora — Ela avisou, saindo do ringue outra vez para pegar uma mochila que pressuponho ser sua. — Me espera? Nós podemos sair pra jantar depois.

Eu concordei com um movimento fraco, deixando meu corpo cair deitado sobre o tatame quando ela foi em direção ao vestiário. Aqui largado, então, eu resolvi mandar uma última mensagem para Jungkook, me convencendo de que não devo esperar uma resposta rápida.

Hm, oi. Eu juro que é a última mensagem que vou mandar. Só queria dizer que eu realmente quero conversar com você, então se você quiser também, me procura. Não importa quando, não tem pressa, ok?|

Sem esperanças de ver uma notificação sua tão cedo, eu simplesmente bloqueio a tela do celular e quando Sunhye voltou com roupas limpas, o cabelo molhado e a mochila pendurada nas costas, eu a acompanhei até um lugar onde ela disse que gosta de comer depois dos seus treinos.

— Então... você treina há muito tempo? — Eu perguntei quando sentamos numa mesa da lanchonete, tentando manter alguma conversa.

É estranho porque eu não sei nada sobre Sunhye, mas ela foi a pessoa a quem recorri num momento de desespero.

As coisas estão definitivamente bagunçadas. Eu ando desabafando com uma quase desconhecida e meus pensamentos quase todos se resumem a um cara que conheci poucas semanas atrás.

— Aham, — Ela respondeu, olhando as vitaminas do cardápio. — eu trabalho com isso.

— Trabalha? — Questionei, um pouco surpreso porque ela parece bem mais nova que eu. — Quantos anos você tem?

— Dezenove. — Ela riu. — Na verdade, é um estágio. Eu faço curso de educação física na faculdade e comecei a estagiar na academia um tempo atrás, então sempre aproveito pra treinar depois do meu expediente.

— Isso é um pouco desanimador. Você é três anos mais nova que eu e já tem a vida muito mais encaminhada.

— O que você faz?

— Coço a bunda o dia inteiro. — Respondi, sem orgulho algum.

— Eu estou tentando me convencer de que não devo julgar, mas eu estou te julgando muito. — Sunhye disse, fazendo uma careta. — Desculpa. Você deve ter seus motivos.

— Você não é a única a me julgar. Meus pais fazem isso todos os dias — Confessei, sem me mostrar realmente afetado por isso. — Eu estava quase me formando, mas sabe quando simplesmente não dá mais? Eu não aguentava mais aquilo, nunca quis me formar em direito, então larguei e agora estou tentando fazer o que quero de verdade.

— Estou te julgando menos, agora. Te admirando mais, também. Tomar uma decisão dessa precisa de muita coragem.

— É? — Questionei, mais uma vez pego de surpresa. — Obrigado... ninguém tinha reconhecido isso até agora...

— Não precisa agradecer por algo assim. — Ela disse, relaxada. — Mas então, o que você quer fazer?

— Eu quero ser modelo fotográfico. — Confessei, brincando com os guardanapos sobre a mesa. — Mas essa parte ainda não tive coragem de contar aos meus pais. Eles acham que eu larguei direito para tentar engenharia civil.

— Eles são muito chatos sobre isso?

— Você nem imagina. Eu nem quero saber como eles vão reagir quando descobrirem a verdade... — Suspirei, cansado em antecipação. — Por isso não vou contar tão cedo.

— Às vezes é melhor assim. — Sunhye ponderou. — Mas boa sorte. Eu consigo ver perfeitamente bem o seu rosto estampado numa capa de revista.

Eu ri, concordando. Meu rosto foi perfeitamente moldado pelo universo exatamente para isso.

Quando eu abaixei meus olhos para finalmente dar uma olhada no cardápio, entretanto, meu celular começou a vibrar sobre a mesa.

Eu olhei entediado para a tela acesa, mas minha feição se transformou de imediato assim que vi o nome piscando na notificação de chamada.

— É o Jungkook... — Eu murmurei, nem sei para quem.

— E o que você está esperando? Atende! — Sunhye incentivou, parecendo ansiosa, mas definitivamente não tanto quanto eu.

Meu coração começou a bater estranhamente rápido de uma hora para a outra e engulo em seco antes de estender minha mão para pegar o celular, deslizando-o pela mesa em minha direção.

Jungkook realmente está me ligando?

— Alô? — Eu disse, com medo de descobrir que me ligou por engano ou qualquer besteira assim.

— Hyung! — Eu o ouvi gritar do outro lado, com uma música e várias vozes no fundo. — Hyung, vem pra cá!

— Jungkook? — O chamei, tomado pela confusão do entusiasmo em sua voz ao falar comigo depois de tanto me ignorar. — Você ligou certo?

— É o Jimin hyung? Se for, eu liguei certo, sim!

Oh.

Ele está bêbado.

É fácil perceber pelo seu tom de voz, mas principalmente por sua risada frouxa.

— Hyung, vem me ver! — Ele insistiu, antes que eu raciocine algo para dizer. — Vem no bar onde a gente se conheceu, vem?

— Jungkook... isso é sério? — Eu perguntei, ainda confuso. — Você não estava bravo comigo?

— Vem logo, Jimin...

Eu umedeci meus lábios e cocei minha testa num gesto atrapalhado.

Não sei se é uma boa ideia, já que ele parece tão bêbado, mas eu quero ir. Meu imediatismo me faz querer resolver toda essa situação de uma vez.

— Eu vou ficar te esperando! — Ele avisou diante do meu silêncio, então, logo antes de encerrar a chamada.

— E aí? Que cara é essa? — Sunhye perguntou quando me viu voltar a afastar o celular depois da ligação ser finalizada.

— Ele quer que eu vá até onde ele está...

— Isso é ótimo!

— Ele está bêbado.

— Ops... — Ela fez uma careta, imediatamente mudando de ideia. — Não tão ótimo assim. Você vai?

— Não sei. — Respondi sinceramente, me recostando em meu assento com o corpo tenso. — O que você acha?

— Talvez eu esteja bem errada, mas eu acho que você deveria ir. — Sunhye confessou.

Eu voltei a coçar minha testa, depois passei a mão pelos cabelos, olhando-a.

— Nós remarcamos esse jantar depois. — Decidi, então, logo ficando de pé. — Desculpa por ir embora assim. Prometo que vou recompensar.

— Você pode recompensar se resolver a besteira que fez com ele. — Ela sorriu quando eu deixei um beijo no topo de sua cabeça, e ergueu o punho num gesto motivacional. — Fighting, Jimin!

Apressado, eu só fiz um gesto inseguro em resposta antes de sair do restaurante com passadas rápidas para entrar no primeiro táxi disponível que passou, e me levou algum tempo para conseguir explicar decentemente ao motorista como chegar ao bar do Calvin.

Tenso, eu mantive o celular em mãos durante todo o percurso, checando se Jungkook não teria mudado de ideia. Entretanto, ele não deu qualquer outro sinal de vida até que eu finalmente desci em frente ao local onde nos conhecemos naquela fatídica noite, semanas atrás.

Eu acho que estou suando de nervoso e preciso respirar fundo umas três vezes até juntar coragem para empurrar a porta do bar que, por ainda ser relativamente cedo, não está tão cheio.

Por isso, basta uma olhada ao redor para encontrar quem procuro, sentado num dos sofás ao fundo.

Jungkook. Beijando outro cara.

Um gosto amargo subiu por minha garganta, me impregnando completamente quando eu olhei com mais atenção na esperança de descobrir que não é ele ali, mas é.

Mesmo com a pouca luz, eu sei que é Jungkook quem está sentado sobre o estofado, com um outro cara sentado em sua perna, beijando-o com a mesma intensidade com a qual ele me beijou antes.

Eu não sei dizer por que me sinto tão dolorosamente afetado pela cena que se desenrola diante dos meus olhos, mas sequer consigo sair do lugar mesmo quando percebo que um dos outros caras sentados no círculo de amigos de Jungkook o cutucou no braço ao me ver.

Apesar de estar embriagado até o último fio de cabelo na noite em que aconteceu, eu ainda lembro bem que esse mesmo cara foi um dos que riam enquanto olhavam para mim, sabe deus por que, e agora ele parece me reconhecer.

Ainda parado no mesmo lugar, então, Jungkook finalmente afastou sua boca do outro cara quando seu amigo o cutucou pela segunda vez, e então seu olhar recaiu em mim quando o mesmo apontou em minha direção.

Ao me reconhecer, eu vejo a confusão em sua expressão, como se ele estivesse surpreso por me ver aqui mesmo que tenha sido ele a me chamar.

A sensação ruim se alastrou com ainda mais intensidade quando nossos olhares se sustentaram por outros segundos e ele continuou sem fazer menção de vir até mim e sem soltar o cara sentado em sua perna.

Ele me chamou aqui para me deixar vê-lo com outro?

Eu me sinto ridículo, ainda mais do que já estava me sentindo.

Entretanto, não pela primeira vez, meu orgulho falou mais alto e embora minha real vontade seja a de sair daqui, eu mantenho meu rosto erguido e finalmente desvio meu olhar, depois me direciono até o balcão de pedidos do bar.

— Você de novo... — Alguém parece se lamentar, e eu reconheço o homem de imediato.

— Oi, Calvin.

— Oi, corno hétero. — Ele disse com desleixo, preparando um drink. — Foi mal, esqueci seu nome.

— Tanto faz. — Eu disse, lutando com toda minha força para não olhar para Jungkook outra vez. — Me dá alguma coisa com álcool.

— Por que você veio se lamentar dessa vez? — Calvin questionou, entregando o drink a um cara sentado ao meu lado.

— Não vim me lamentar.

— Na verdade, eu perguntei por consideração, mas eu te vi ali parado olhando pro puto do Jungkook. Não me diga que você caiu no jogo dele.

— Calvin, na boa... só me dá alguma coisa pra beber. — Resmunguei, amargo. — Tudo na minha vida começou a dar errado depois que eu te conheci, me servir uma bebida é o mínimo que você pode fazer, seu desgraçado.

—Depois de me conhecer? — Repetiu, misturando vodca com alguma outra bebida. — Sabe o que me deixa preocupado? Quando você veio aqui da outra vez se lamentar por ter sido traído por sua namorada, você não estava estressado como está agora, e eu não sei se você está assim por ter visto Jungkook com outro.

Eu não o respondi, apenas bebi um gole generoso da bebida que ele me entregou instantes depois.

— Eu sei que ele te seguiu para fora do bar, naquele dia. — Calvin continuou. — E eu sei que aquele cara ali tem lábia, então me diz. Você caiu na dele, não foi?

— Sei lá, Calvin. Eu nem entendi que caralho aconteceu — Eu respondi, mal humorado, me sentindo ainda pior por Jungkook sequer ter vindo até mim.

— Essas são péssimas notícias. — Ele disse, não verdadeiramente comovido. — Eu deveria ter sido mais enfático ao te avisar para ficar longe dele, mas parece que mais um peixinho caiu na rede do Jungkook. Nada de novo sob o sol.

Eu o olhei com as sobrancelhas apertadas, incomodado.

— Olha, — Ele suspirou, deixando uma risada fraca escapar. — eu trabalho aqui há anos, e já faz tempo que aquele cara ali frequenta esse bar. Eu já o vi ficar com mais homens do que consigo contar, sempre arrastando os caras para casa no fim da noite. E ele consegue fingir tão bem. Eu já o vi sentar aí nesse banco onde você está, dez vezes depois de frequentar esse lugar, e agir para o cara do lado como se fosse a primeira vez dele aqui. Aquele cara ali é o melhor ator que eu já conheci. Ele vai saber exatamente que papel interpretar para te fazer querer ele. Não perca seu tempo com alguém assim.

— O que? — Eu questionei, sentindo uma pontada dolorosa no fundo do estômago.

— Eu só estou avisando porque você parece envolvido de alguma forma, então toma cuidado. — Foi tudo que Calvin disse, antes de se afastar para atender outro cliente.

Agora, suas palavras continuam se repetindo num loop infinito dentro de minha cabeça, especialmente um trecho específico.

Ele vai saber exatamente que papel interpretar para te fazer querer ele.

Me sentindo confuso e, caralho, magoado pelo que ele me fez ao me chamar aqui, eu desisti de lutar contra o impulso e olhei para trás, em sua direção.

Ele ainda está sentado no sofá, o cara que antes estava em seu colo está agora sentado ao seu lado e Jungkook parece estar alheio a toda a conversa entre as pessoas ao seu redor.

Sua expressão é perdida, confusa, assim como estava quando ele me viu, mas agora eu consigo perceber algo que não percebi da primeira vez. Eu consigo perceber seu maxilar travado e suas mãos cruzadas e escondidas entre suas pernas, que se pressionam uma contra a outra num gesto que parece defensivo.

Talvez eu esteja fazendo a maior merda da minha vida. Talvez seja tudo um jogo e talvez eu tenha caído nele exatamente como Calvin pressupôs, mas eu não consigo controlar, e abandono minha bebida pela metade antes de ficar de pé e, com uma dose extrema de coragem, começar a me dirigir até onde Jungkook está.

Ele me percebe aproximando antes mesmo que eu pare em sua frente, e sua expressão finalmente vacila.

Se isso tudo for mesmo atuação, ele merece um Oscar, ainda mais que o Leonardo Dicaprio.

E eu mereço um maldito de um soco para aprender a deixar de ser otário.

— Jungkook. — Eu o chamei assim que parei em sua frente, tentando não evidenciar meu nervosismo. Ele não foi o único a me olhar. A atenção de todos os seus amigos recai em mim, e o cara de mais cedo, que me reconheceu do outro dia, sorriu com deboche. — Eu quero falar com você. — Anunciei, então, ignorando esse cara e me focando unicamente em Jeon.

— Ele está ocupado. — O garoto que estava beijando-o antes anunciou, abraçando-o pelo pescoço, mas eu mantive meus olhos focados em Jungkook ao ignorá-lo.

— Você me chamou aqui, então pelo menos converse comigo. — Eu exigi, irritado e enciumado.

O outro cara me olhou também irritado, sem soltá-lo, como se tentasse protegê-lo.

— Caramba, Jungkook, dois caras vão brigar por você? — Um de seus amigos supôs, com uma risada nojenta. — Seu serviço é bom mesmo, hein?

— Cala a boca. — O carrapato cuspiu para o outro, ainda agarrado a Jungkook.

— Anda logo, Jungkook. — Eu insisti, me sentindo humilhado.

Jungkook pareceu perdido, ainda me olhando com uma expressão confusa, até que eu o vi se mover sem muita certeza.

— Ei! Você não precisa fazer isso. — O garoto grudento disse para Jeon, usando uma entonação preocupada.

— Não é o que você está pensando. — Jungkook parece tentar tranquilizá-lo. — Tá tudo bem, Yoongi.

Eu sinto os olhares debochados e curiosos de todos seus outros amigos atentos à situação, e o tal Yoongi ainda o olha com desconfiança para só então soltá-lo, ainda resignado.

— Nosso compromisso amanhã está de pé, não é? — Ele questionou, então, depois de me lançar uma olhadela enviesada.

Jungkook assentiu, dando a ele um beijo na bochecha antes de ficar de pé.

Eu sinto meu rosto queimar de incômodo pela demonstração de afeto entre eles, também por saber que vão se encontrar novamente amanhã, então eu volto a segurar o pulso de Jungkook, puxando-o comigo.

Ele sequer se despede de seus outros amigos e apenas fica em silêncio, retraído, enquanto eu ignoro o olhar de aviso de Calvin ao receber meu pagamento por minha bebida e por tudo que Jungkook consumiu, e eu confirmo que não foi pouco tanto pelo valor da conta quanto pela forma como ele tropeça violentamente ao me seguir para fora do bar.

Já do lado de fora, eu perdi o impulso de continuar puxando-o pela rua e ele se apoiou na parede, visivelmente tonto, seus olhos falhando em focar em mim.

— Por que você veio? — Ele finalmente se manifestou diretamente para mim.

— Porque você me ligou e me pediu para vir. — Eu disse, amargo. — Só para me fazer de idiota na frente dos seus amigos, pelo visto.

— Eu não achei que você vinha. — Jungkook apertou os olhos para mim, respirando com dificuldade, a voz completamente arrastada. — Não era pra você vir, hyung! Eu só te liguei pra provar pra mim mesmo que você não viria!

— Eu estou há dias tentando falar com você, Jungkook. — Apontei, ressentido com toda essa situação. — Eu queria tanto conversar que vim correndo como um otário assim que você me chamou!

Ele puxou o ar devagar, sempre me olhando com desconfiança.

— Eu não entendo você. — Ele confessou, baixo.

— E você acha que eu te entendo? — Pressionei, frustrado. — Você é a pessoa mais confusa e incoerente que eu já conheci na minha vida.

— Não era para você vir. — Ele repetiu, ignorando minha confissão. — Você faz isso o tempo todo. Diz que não me quer, depois corre atrás de mim e me diz para não ir embora. Depois diz que me quer, mas me empurra e fala que eu te beijei à força. Você parece aquela música da Katy Perry e isso me irrita! Eu só queria que você se decidisse de uma vez!

Eu respirei fundo, só então percebendo que estou tentando conversar com uma pessoa completamente alcoolizada. Eu não quero ter essa conversa com citações de músicas da Katy Perry. 

— Não adianta conversar agora. — Concluí, resignado, e voltei a segurar seu pulso. — Vem. Eu vou te levar para casa.

— Não... só vai embora, por favor. Se você não se decide, deixa que eu decido por nós dois. Eu não quero mais ficar perto de você, então me deixa aqui e vai embora.

— Jungkook, nem são nove da noite e você já está caindo pelos cantos de tão bêbado. Você vai para casa, sim. — Eu digo, ignorando sua confissão sobre não querer mais ficar perto de mim.

— Não! Só para! Para de me deixar confuso! — Ele pediu, magoado.

Eu o olhei, sentindo algo ruim se alastrar dentro de mim como fogo em palha.

Não importa quantas vezes eu chegue a essa conclusão, parece que sempre vou me surpreender um pouco mais ao perceber que eu realmente não o entendo.

Eu não consigo entender o que se passa em sua mente, assim como não sei que motivo o faz parecer ter tantas mágoas, mas nada disso parece ser fingimento, como Calvin disse. Nada em sua desconfiança e em seu receio parece ser um teatro premeditado.

E, deus, eu quero entendê-lo.

— Olha para mim. — Eu pedi, segurando seu rosto com a firmeza que me é permitida agora, e então o deixo saber: — Eu não quero te deixar confuso. Eu juro. Mas eu também não me entendo direito desde que te conheci, então... só me deixa te levar para casa agora. Nós conversamos depois.

— Não... 

— Por favor. Eu não consigo me perdoar pelo que fiz a você no outro dia. Me dá só essa chance de tentar esclarecer as coisas... então para de beber, vai pra casa e quando você estiver sóbrio, nós conversamos. — Ele continuou me olhando, sempre desconfiado, sempre com um pé atrás. Eu insisti apenas mais uma vez: — Vem comigo, por favor.

Jungkook olhou para minha mão, que voltou a segurar seu pulso, e eu o puxei cuidadosamente como um incentivo. Deixando de relutar tão intensamente, ele finalmente começou a me acompanhar, e eu o segurei por todo o caminho que fizemos até seu apartamento.

Ele tropeçou incontáveis vezes e tentou mudar de ideia tantas outras, dizendo que eu deveria ir embora, mas eu consegui convencê-lo do contrário em todas elas. Dessa forma, o caminho foi muito mais cansativo do que deveria.

— Deixa eu tirar seus sapatos — Eu pedi quando, depois de muita luta, consegui carregá-lo até seu andar e peguei a chave em seu bolso para abrir a porta.

Ele caiu no seu sofá miúdo, sem forças depois de ter feito todo o percurso bêbado e a pé, tentando discutir comigo.

Como não ouvi nenhuma oposição sua, eu voltei a fechar a porta e depois me agachei em sua frente, logo começando a desamarrar o cadarço de suas botas.

— Você vai querer tomar um banho? — Perguntei, olhando-o com atenção quando terminei de livrá-lo dos calçados.

Jungkook ficou em silêncio, com o olhar embriagado focando e desfocando em mim antes que ele me responda com um aceno positivo.

— Vem. — Eu o chamei, precisando de ainda mais força para recolocá-lo em pé porque ele é mesmo grande.— Eu vou entrar no seu quarto, tudo bem?

Outra vez, ele não me deu qualquer resposta verbal, então eu apenas aceitei isso como uma permissão e o guiei até a outra porta fechada, atrás da qual encontrei seu quarto tão pequeno quanto o resto do apartamento.

— Onde estão suas roupas de dormir? Ou qualquer uma mais confortável?

— Embaixo do travesseiro... — Ele respondeu, me olhando como uma criança que tenta descobrir como montar uma escultura complexa com peças de lego.

Eu dei a volta em sua cama e levantei um dos travesseiros, logo me deparando com um pijama preto estampado com vários patos.

— Meu deus... — Eu murmurei sem pensar, mal conseguindo conter uma risada fora de hora.

— Não ri! — Ele pediu, emburrado.

— Desculpa. — Consegui dizer, engasgando com a risada seguinte que reprimi. — Toma. Não tranca a porta do banheiro, ok? Se precisar de alguma coisa, me chame.

Ele abraçou o pijama de forma protetora quando o entreguei, assentindo uma única vez antes de se arrastar até o banheiro de seu quarto, deixando a porta apenas encostada, exatamente como eu pedi. Sozinho em seu quarto, eu passei as mãos pelo rosto, realmente surpreso com o desfecho dessa noite.

Depois, ao ouvir o chuveiro ligado, eu fui até sua cozinha para pegar água para ele, mas parei antes de revirar os armários em busca de um copo, encontrando-o no pequeno armário junto a uma coleção de vários copos de plástico colorido. Parecem bem baratos, mas são bonitinhos.

De qualquer forma, eu pego qualquer um deles e encho com água. Depois, eu volto para o quarto e espero até que ele saia do banheiro com o pijama do Patolino já vestido.

Porra. Fica ainda mais fofo vestido nele, a ponto de me deixar sem reação por um instante.

— Bebe isso antes de deitar. — Eu disse, entregando o copo a ele depois de recobrar meus sentidos afetados por sua imagem adorável. — Eu não sei se você costuma ter ressaca, mas é melhor garantir.

— Obrigado... — Ele disse, aceitando o copo e secando-o pouco a pouco sob meu olhar atento, e somente bebendo tudo porque eu gesticulo pedindo isso.

Depois, ainda visivelmente sem jeito, mas já parecendo um pouco menos bêbado, Jungkook deixou o copo vazio em seu criado mudo e caminhou até se deitar em sua cama, se atrapalhando um tanto quando tentou puxar a coberta para proteger seu corpo, então logo me adiantei em fazer isso por ele.

Quando voltei a sentar ao seu lado, na ponta da cama, eu perdi algum tempo admirando-o quando o vi com o rosto apoiado sobre o travesseiro e o lençol cobrindo-o até o nariz.

— Jungkook... — Eu o chamei, então. — Tudo bem se eu passar a noite aqui? Eu posso dormir no sofá.

Ele me olhou, ainda encolhido sob a coberta.

— Dormir? — Ele repetiu, confuso. — Só dormir?

— Talvez eu precise mijar no meio da noite, também, mas não vou abusar. Eu só quero conversar com você quando você estiver melhor e não quero que você fuja. Então... posso passar a noite?

Eu o vi abaixar os olhos, como se a complexidade do que eu disse fosse gritante. Depois, ele voltou a olhar para mim.

— Hyung... por que você está insistindo tanto?

— Porque eu te magoei. — Relembro, como se ele pudesse ter esquecido. Desconfiado, é minha vez de perguntar: — Por que você acha tão estranho eu me importar e querer corrigir as coisas?

— Desculpa... é que... eu te falei. Ninguém se importa assim comigo... e você foi o pior de todos os caras que eu já conheci...

— É, você já disse algo assim. Eu estou trabalhando nisso. — Murmurei, obrigado a aceitar o fardo de sua desconfiança e ansioso para tentar esclarecer as coisas de uma vez. Apesar de Jungkook nesse exato momento não parecer ter tanto ressentimento pelo que aconteceu antes, eu não quero deixar as coisas como estão.

Eu quero e vou deixar ele saber que me arrependo e que pretendo não deixar algo como aquilo acontecer novamente, mesmo que isso signifique que o que existiu entre nós dois não possa continuar.

Sunhye tem razão. Eu não posso arrastar outra pessoa para minha própria confusão enquanto não aprender a lidar com ela.

— Mas então. — Eu chamei sua atenção, ansioso. — Posso dormir no seu sofá? Eu realmente gostaria de conversar melhor com você pela manhã e não quero que você fuja de mim.

A história de ser paciente e esperá-lo querer ter essa conversa foi por água abaixo rápido demais.

— O sofá é pequeno... — Ele me respondeu. Quando pensei que ele usaria isso como desculpa para me mandar embora, seu tom se tornou ainda mais baixo e ele disse:— então dorme aqui comigo...

Eu o olhei, tentando não me apavorar com a sugestão, e assenti levemente. Isso é, de longe, melhor que ser enxotado, mesmo que dormir ao seu lado pareça íntimo demais.

— Pode me emprestar uma calça de dormir? — Pedi, tentando ignorar a sensação de ansiedade e nervosismo. — O jeans não é muito confortável.

Jungkook apontou para o armário simples ao lado de uma escrivaninha, e eu não demorei a encontrar uma calça de moletom quando abri uma das portas. Depois, eu fui até seu banheiro para me trocar, e só então voltei para me deitar ao seu lado.

A cama não é de casal, mas é bastante espaçosa, e eu vejo Jeon arrumar um travesseiro ao lado do seu, dando tapinhas para amaciá-lo para mim. Em silêncio, eu arrastei meus pés pelo piso até me deitar ao seu lado, lutando para manter tanto espaço quanto for possível entre nós dois. 

— Você parece desconfortável... — Jungkook disse.

Burrice a minha achar que ele não perceberia só por estar bêbado.

— É que eu não costumo dormir ao lado de outros homens. — Confessei. — Só do Taehyung.

— Taehyung? — Ele perguntou, incomodado.

— É meu melhor amigo. — Expliquei, tentando não fazer grande caso da possibilidade de Jungkook ter se sentido enciumado. Deve ser só impressão. Ele estava beijando outro cara menos de uma hora atrás, então por que sentiria ciúmes de mim?

— Ah... — Foi tudo que ele disse em resposta. — Enfim... é melhor a gente dormir.

— Sim...

Eu virei meu olhar para o teto, enquanto Jungkook continua deitado de lado e eu sinto seus olhos atentos a mim.

— Hyung?

Eu virei para ele ao ouvi-lo me chamar, bem a tempo de ver um sorriso pequeno em seus lábios.

— Obrigado.

— Por que você está agradecendo? — Questionei, confuso.

— Você não tentou nada comigo. Cuidou de mim e parece mesmo querer conversar sobre o que aconteceu... então obrigado.

Vê-lo me olhando dessa forma tão carinhoso e tão rendido fez meu coração se descontrolar como beijo nenhum fez antes.

Eu não sei se ele realmente está ciente do que está dizendo, ou se sequer vai lembrar dessas palavras quando acordar. Mas eu espero, do fundo do coração, que ele lembre e tenha certeza de que eu realmente estou arrependido. No entanto, nada posso fazer sobre esse desejo por agora, enquanto o vejo ceder ao sono pouco a pouco, parecendo uma criança indefesa, com o rosto sereno e o adorável pijama de patinhos.

Dessa forma, o que eu quero dizer fica preso na garganta até o dia em que vou ter coragem para confessar em voz alta.

Jungkook, você me faz sentir coisas que eu nunca pude sentir antes.

❥ [Continua...]

Chapter Text

Eu não acho que posso dizer que tive uma boa noite de sono. Jungkook, por outro lado, dormiu como uma pedra.

A cada vez que eu acordava no meio da madrugada, eu o via com os olhos tranquilamente fechados enquanto ressonava baixo. Uma boa visão, essa de Jeon dormindo tranquilamente em seu pijama estampado com o pato de um desenho animado.

Mas de tanto admirá-lo, de pensar nas merdas que já fiz e nas merdas que posso vir a fazer, eu não consegui ter muito descanso ao longo das horas que se passaram aqui em seu quartinho aconchegante. E meu corpo parece ter recompensado isso pela manhã, quando eu finalmente cedi ao cansaço e apaguei como uma lâmpada queimada.

Agora que acordei, ainda me sentindo um pouco zonzo pelo sono, eu me vejo sozinho enquanto escuto o barulho de Jungkook no banheiro.

Ele está vomitando.

Isso era esperado diante do quanto ele bebeu ontem, mas ainda é uma sensação esquisita ouvir alguém botar as tripas para fora no cômodo logo ao lado. O barulho é desconfortável.

— Jungkook? — Eu esperei até ouvir o som da descarga e bati de leve na porta fechada. — Você precisa de alguma coisa?

Resposta nenhuma veio, então dei mais duas batidas, dessa vez um pouco mais firmes.

— Jungkook? Por favor, não esteja desmaiado aí dentro...

Eu o ouço lavar as mãos e só depois a porta é aberta, revelando um Jungkook completamente derrotado, com os cabelos apontando para todos os lados, menos para baixo.

— Hyung? — Sua expressão, antes preguiçosa, parece surpresa quando ele me vê.

— Quem mais seria? — Questionei, confuso.

— Eu achei que era o Yoongi... — Ele respondeu, passando a mão pela cabeça num gesto frustrado, como quem sente dor além de confusão. — É um amigo meu...

Amigo? Se o conceito de amizade dele envolver saliva sendo trocada furiosamente, então, sim, ele e Yoongi pareciam muito amigos ontem à noite.

— Eu sei quem é Yoongi. — Anunciei, me afastando com um passo quando ele cambaleou de volta até a cama. — Você não lembra do que aconteceu?

Ele balançou a cabeça para os lados numa negativa tímida quando se sentou na ponta do seu colchão.

— Foi você quem me trouxe pra casa? — Jungkook questionou. Eu fiz que sim. —...a gente transou?

Tudo bem. Ele realmente não lembra.

Saber que ele não tem registro algum das coisas que aconteceram nas últimas horas me deixa chateado. Eu realmente esperava que ele lembrasse de tudo, talvez assim fosse mais fácil para sua versão sóbria entender o quanto eu estou arrependido. Mas ele não lembra de nada disso.

— A gente não transou. — Eu enfim o deixei saber, torcendo para não soar tão afetado por precisar dizer algo assim.

— Ah. — É tudo que ele diz.

Não sei se essa é uma resposta resignada ou se ele está feliz por descobrir que nada aconteceu. A única certeza que tenho é que Jungkook está desconfortável, e isso fica óbvio pela forma como ele puxou o lençol para cobrir o corpo ainda sentado na ponta da cama, escondendo o pijama com a estampa adorável como se ele o envergonhasse.

— Seu pijama é realmente fofo. — Eu disse tentando soar casual, só para tranquilizá-lo.

Ainda bem que ele não pode ver como minhas mãos estão suando pelo nervosismo nesse exato instante.

— Eu não acredito que vesti na sua frente... — Jungkook se lamentou, apenas confirmando minha suspeita sobre sua vergonha.

— Você não tem vergonha de falar abertamente sobre masturbação, mas tem vergonha de algo assim? — Questionei, juro que tentando ser engraçado para descontrair, mas minha ansiedade faz soar como uma acusação.

Eu realmente consigo sempre piorar o que já está ruim.

Para comprovar que não sou o único desconfortável, Jungkook me mostra um sorriso fraco, forçado, claramente sem jeito.

— Hyung... — Ele me chamou, então. — Desculpa, mas... o que você está fazendo aqui? Se a gente não transou... por que você passou a noite?

— Eu fiquei aqui porque queria conversar com você. — Confessei, sem rodeios.

— Conversar sobre o que? — Insistiu, claramente desconfiado.

— Sobre... o que eu fiz com você. — Escolhi bem minhas palavras seguintes. — Sobre nós dois...

Jungkook arregalou um pouco os olhos, surpreso, e eu entendo sua reação. Usar algo como nós dois parece presunçoso demais, já que não existe qualquer base sólida para garantir que existe esse tal de nós dois como uma única coisa.

No fundo, nós dois sabemos que não passamos de eu e ele, distintos. Um eu que se envolveu com um ele sem medir as consequências e um ele que se envolveu com apenas mais um que fez o que tantos outros já fizeram.

Eu lembro de suas palavras ao afirmar isso. Elas estão cravadas em minha mente porque aquele Jungkook magoado, desconfiado e desiludido pareceu o mais sincero de todos os outros que ele já me mostrou.

— Hyung... — Jeon finalmente se manifestou outra vez, balançando a cabeça para os lados. — Eu não quero conversar com você...

— Jungkook... — Suspirei, frustrado.

— Você não precisa fazer isso. Não precisa perder seu tempo. — Eu o vi se arrastar sobre a cama até voltar a se deitar ainda protegido pela coberta, e ele nem olhou para mim ao dizer: — Só vai embora, por favor.

Contrariado por seu pedido, eu sequer consegui sair do lugar. Jungkook percebeu isso, porque depois de alguns segundos ele virou o rosto e me olhou numa insistência silenciosa.

— Eu não estou me sentindo bem, só quero dormir, então por favor... vai.

Sinto o osso do meu maxilar travar quase instantaneamente, mas por fim balanço a cabeça em concordância, ainda resignado.

— Eu só vou trocar de roupa. — Avisei, já tomando a liberdade de ir até seu banheiro, onde tirei a calça que ele me emprestou e voltei a vestir meu jeans. Ainda aqui dentro, eu me deparei com meu reflexo no espelho, e me surpreendi ao perceber que quase não reconheço o Jimin de semanas atrás.

Não digo isso por minha aparência física, porque pouco nela, senão nada, mudou. Entretanto, eu não lembro a última vez em que vi meu reflexo tão frustrado ou tão perdido, e nada disso é consequência somente do que está acontecendo com Jungkook. Não é por não saber o que fazer sobre ele. É por não saber o que fazer comigo mesmo, com esse lado que descobriu gostar de outros homens, mas que vive uma realidade onde isso é inaceitável.

É por saber que, por mais que eu resolva as coisas com Jungkook, o caminho para me resolver vai ser muito mais longo.

Eu não sei por onde começar. Sequer sei se quero começar por algum lugar ou fingir que nada disso aconteceu.

Mas por agora, eu não tenho muita escolha. Jeon me disse para ir embora, então eu estou indo.

Quando saio de seu banheiro, eu o vejo ainda encolhido na cama, com o lençol repuxado até acima de sua cabeça escondendo-o completamente. Penso em dizer algo, talvez insistir mais uma vez, mas somente pego minhas coisas na mesa ao lado da cabeceira e o deixo ali, sozinho.

Durante todo o percurso até o táxi me deixar em frente à minha casa, eu pensei. Pensei sobre tudo, mas não cheguei a lugar algum. Cheguei a pegar meu celular e a digitar uma nova mensagem para Sunhye em busca de sua ajuda, mas não a enviei. De que adianta ouvir conselhos que não vão ser colocados em prática porque eu sou sempre orgulhoso ou medroso demais?

— Jimin? — Jiwon apareceu assim que me ouviu entrar em casa, e nem mesmo o cheiro do seu pão caseiro assando consegue me dar alguma sensação boa.

Eu me sinto quebrado.

O Jimin de antes, de quem eu gostava tanto, se estilhaçou por completo para dar lugar a essa bagunça irremediável. E agora eu estou assustado.

— Você dormiu fora? — Ela perguntou enquanto eu mal consigo sair do lugar, sentindo meu corpo inteiro pesar como uma tonelada. — Jimin... você está bem?

Eu ouço sua pergunta, tento dizer um sim convincente o suficiente, mas tudo que consigo fazer é erguer meus olhos em sua direção e balançar a cabeça para os lados numa negativa dolorosamente sincera.

Eu não estou bem.

Em seguida, o que eu faço é finalmente sair do lugar. Eu me aproximo dela como um animal acuado, mas desesperado por ajuda, e abraço seu corpo menor que o meu num pedido silencioso para que ela junte as pecinhas fragmentadas do que eu era, ou acreditava ser.

— Ei... o que foi? — Ela perguntou, acariciando minha cabeça quando me curvei para descansá-la em seu ombro e gemi baixo ao perceber que eu estou ainda mais bagunçado do que achava.

— Jiwon, eu não sei o que fazer...

— Meu menino... — Ela se lamentou, intensificando seu abraço ao meu redor. — Você quer me dizer o que aconteceu?

Sem saber como responder, eu fico em silêncio, apertando-a ainda mais em busca de conforto e sentindo que, no meio de todas essas mudanças, ao menos seu carinho por mim não mudou.

— Tudo bem, você não precisa falar — Sua voz calma me tranquilizou enquanto sua mão acaricia minhas costas. — Vai ficar tudo bem...

Eu aceitei suas palavras, embora não acredite verdadeiramente nelas, e aceitei seu carinho quase materno, prendendo-nos a esse abraço até que a voz de minha verdadeira mãe nos alcançou.

— Jimin, pelo amor de deus, deixe Jiwon trabalhar em paz. Ela precisa manter a casa limpa.

Eu me afastei quase imediatamente, com medo de prejudicá-la de alguma forma. Meus pais nunca gostaram muito da minha proximidade com nossa empregada, mas o que posso fazer se ela cuidou de mim muito mais que qualquer um deles?

— Me desculpe, senhora. Eu já vou voltar ao trabalho. — Jiwon disse com a voz subjugada, mas eu ainda sinto sua mão acariciando minhas costas.

— Faça isso. Jimin está muito desocupado ultimamente, não o deixe te atrapalhar em seus afazeres — A mulher que chamo de mãe disse em óbvio tom de julgamento enquanto procura algo em sua bolsa, ainda sem se afastar da escada. — Eu vou passar a manhã fora e Daechul deve ficar no escritório o dia todo, então aproveite para limpar nosso quarto.

Meus pais vão ficar ocupados em pleno sábado? Grande novidade.

— Sim, senhora. Vou fazer isso assim que terminar de arrumar a cozinha.

— Ótimo. — Ela passou a mão pelos cabelos curtos e castanhos sem soltar a chave do carro e me olhou de cima a baixo, mas não teceu qualquer comentário azedo sobre minha aparência, apesar de certamente ter pensado qualquer coisa regada a insatisfação. — Eu já vou.

— Tchau, mãe. — Eu ainda me esforço em dizer, sem receber qualquer resposta audível.

Longe do olhar de lince de minha progenitora, Jiwon voltou a se aproximar de mim e segurou meu rosto carinhosamente.

— Vá tomar um banho, depois desça. Eu já vou tirar o pão do forno e vou servir com um suco de melancia para você. Suco de melancia te deixa mais feliz desde que você era miúdo, lembra?

Eu sorri sem muita força, beijando sua testa suavemente.

— Obrigado. Eu já venho então.

Ela assentiu e eu ainda me vi um pouco preguiçoso antes de virar as costas e subir as escadas até meu quarto, onde tomei um banho e vesti qualquer roupa mais confortável antes de perceber meu celular quase descarregado. Desestimulado por tudo, eu fui até minha escrivaninha para pegar o carregador, mas meus olhos pousaram em algo antes disso. O mangá que Jungkook leu quando esteve aqui.

Eu o deixei separado desde então na esperança de conseguir fazê-lo me ouvir, mas o momento simplesmente não chegou, e não acredito que vá chegar.

— Safado idiota... deveria ter pelo menos levado os mangás... — Resmunguei sozinho, ainda chateado com isso tudo.

Porque outra coisa de que lembro, é de como ele me falou sobre gostar de ler mangás quando mais novo, mas nunca ter dinheiro para comprá-los. Mais uma coisa que me deixou magoado; mais uma coisa que, assim como sua relutância em conversar comigo, eu não consigo mudar.

Um suspiro resignado escapou, mas algo disparou em minha mente quando eu folheei as páginas do quadrinho japonês e lembrei de sua história. É mais um shoujo sobre uma menina tão determinada a conquistar o par romântico que chega a ser vergonhoso, e logo no começo da história ela escreve uma carta se declarando para o garoto mais popular da escola, já que não tem coragem de dizê-lo cara a cara.

O desfecho da situação é vergonhoso e eu sei que não existem semelhanças o suficiente para que eu faça um paralelo entre o caso dessa garota e o meu, mas eu finalmente tive uma ideia. Talvez não a melhor de todas, mas não acho que posso ser exigente nas conjunturas atuais.

Apressado, então, eu revirei minhas coisas em busca de um pedaço de papel, depois gastei um tempo vergonhoso e vários rascunhos para escrever um total de cinco linhas. Por fim, o bilhete foi dobrado e colocado junto a todos os volumes do mangá que Jungkook queria ler, depois guardados na mochila que eu costumava usar para ir para a universidade.

Com a mochila pesada nas costas, eu desci até a cozinha, onde encontrei Jiwon desenformando o pão, e revirei todos os armários em busca dos remédios milagrosos para ressaca que meu pai sempre toma, já que a resistência dele para álcool é catastrófica.

— Menino? — Jiwon me chamou, assustada com minha corrida desesperada pela cozinha.

— Será que Jungkook gosta de leite de banana? — Questionei para o universo quando vi que é a única bebida pronta na geladeira, já depois de guardar o comprimido.

— Eu já vou fazer seu suco — Ela avisou, apertando os olhos quando me viu pegar o frasquinho plástico e começar a guardá-lo na mochila, todo atrapalhado.

— Pode guardar para mais tarde? — Pedi já preparado para correr para fora da cozinha, mas então eu vi o pão. O pão que tem o mesmo gosto do pão da mãe do Jungkook. — Jiwon, eu preciso desse pão.

Ela riu.

— Eu já vou cortar uma fatia para você.

— Não... eu preciso levar o pão.

Dessa vez, ela ficou confusa.

— O pão é importante. — Expliquei, revirando os armários em busca de um recipiente para guardá-lo, mas eu mal sei como funciona a organização da minha própria cozinha.

Quando finalmente achei um suficientemente bom, eu comemorei com um grito baixo e me virei para guardar o pãozinho ainda quente antes de tampá-lo ali dentro.

— Sério, o pão é importante. — Anunciei para ela. — Você vai ficar chateada se eu levar?

— Eu fiz para você, Jimin. Claro que não vou ficar chateada.

— Você é um anjo, Jiwon. — Anunciei, esperançoso sobre minha ideia repentina. — Eu já vou agora!

— Vai para onde...? — Ela ainda perguntou, com a voz morrendo a cada sílaba ao perceber que não vai receber resposta. — Tudo bem, vá com cuidado...

A última coisa que fiz antes de sair de casa foi pegar a chave do carro do meu pai, sem pedir permissão. Mas se ele vai passar o dia lá enfurnado no quarto que usa como escritório, não acho que vá dar falta, certo?

E só então eu volto para a casa de Jungkook, com o coração a mil.

Vai dar tudo certo.

Talvez não.

Mas depois de dirigir todo o percurso, e agora que já estou diante de sua porta, não tenho muita escapatória, e eu não hesito antes de tocar a campainha.

Ah. Eu esqueci que não funciona.

Com dez pontos a menos de coragem, eu respirei fundo antes de dar três batidas, mas não parece haver sinal de vida dentro do apartamento, então eu bati mais duas vezes, com mais força, até ouvir uns passos apressados antes de ser recebido por um Jungkook vestido com nada além de uma toalha enrolada no quadril e uma escova de dentes enfiada na boca.

Esse corpo. Porra, esse corpo...

Ele é tão gostoso. Que injusto.

— Jimin? — Ele pareceu surpreso mais uma vez, e meu nome soou como algo parecido com Fimin por conta de toda a espuma do creme dental.

— Ei... eu voltei.

Jungkook se atrapalhou com as próprias ideias antes de apontar para sua boca e gesticular na direção do banheiro, e eu assenti quando entendi o que ele quis dizer.

Em seguida, ele voltou para seu quarto e eu fechei sua porta, tomando a liberdade de colocar minhas coisas sobre sua mesa, onde arrumei o pão que roubei de Jiwon, o leite de banana e o remédio para ressaca.

— Hyung... — Jeon me chamou quando reapareceu, já com a boca lavada e uma roupa vestida, a expressão ainda mais confusa que antes. — O que é isso tudo?

— Ah, eu trouxe para você. Já comeu? — Ele negou com um gesto desconfiado. — Eu trouxe um remédio para sua ressaca, mas você não pode tomar de estômago vazio, então trouxe comida também.

Ele olhou para as coisas servidas na mesa, depois voltou a olhar para mim com os olhos espantados.

— Ah, — Eu dei um tapinha na mochila também em sua mesa. — e eu trouxe alguns volumes daquele mangá que você estava lendo quando foi em minha casa...

— Por que? — Jungkook questionou, como se nada na situação fizesse sentido.

— Eu só achei que você gostaria de terminar de ler.

— Hyung...

— Escuta, Jungkook... — Eu o interrompi cuidadosamente, abrindo a mochila para pegar o bilhete que escrevi mais cedo. — Eu queria poder conversar com você, mas você ainda parece muito magoado e eu não acho que posso te culpar por isso, então... eu escrevi isso. Eu realmente espero que você possa ler qualquer hora, já que não quer me ouvir.

Ele hesitou por algum tempo antes de pegar o bilhete em minha mão, e eu sorri sem muito entusiasmo ao não ouvir qualquer resposta sua.

— Era só isso. Eu já vou agora.

Por favor, me diga que eu não preciso ir.

— Jimin — Jungkook me chamou parecendo incerto e meu coração disparou em expectativa, mas tudo que ele disse, foi: — Obrigado pela comida. Pelos mangás também.

Ah...

— Tudo bem, não precisa agradecer. — Respondi, tentando não mostrar todo meu desapontamento. — Tchau, Jung—

— Mas você não precisa ir embora. — Ele me interrompeu, apressado.

Eu literalmente suspirei em alívio.

Acho, inclusive, que nunca me senti tão aliviado em toda minha vida.

— Eu não sei por que você parece querer tanto conversar comigo, mas já que você teve todo esse trabalho... — Ele completou. — a gente pode conversar...

Eu acho que mal consegui segurar um sorriso quando imediatamente virei as costas para a porta outra vez e o vi gesticular um pouco sem jeito para uma das duas cadeiras dispostas em frente à mesa comprida de madeira, entre a cozinha e a sala.

Olhando bem, o apartamento de Jungkook é mesmo muito agradável, apesar do pouco espaço.

— Você já comeu? — Ele perguntou, sentando na cadeira ao lado quando pegou dois pratos e uma faca para cortar o pão.

— Não. — Eu aceitei quando ele me ofereceu um dos pratinhos laranjas de plástico. Eu acho que ele gosta muito de coisas coloridas. — Obrigado.

Ele fez um gesto em silêncio e, sentado ao meu lado, cortou duas fatias do pão fresco, servindo-as para mim, depois fez o mesmo para ele.

— Eu gosto muito de leite de banana — Ele anunciou quando abriu a tampinha da embalagem individual depois de agitá-la, oferecendo-a para mim. — Quer dividir?

— Pode tomar. — Respondi um pouco tímido, e empurrei o comprimido ainda embalado em sua direção. — Toma o remédio também.

Jungkook anuiu e eu apertei meus olhos em confusão quando o vi usar a faca para cortar o comprimido em quatro pedaços.

— O que você está fazendo? — Perguntei, completamente curioso quando ele tomou o primeiro quarto de medicamento.

— Eu não consigo engolir inteiro... — Ele disse, envergonhado, ao levar o segundo pedaço à boca, deglutindo-o com um pouco de leite de banana.

— Meu deus, você é uma criança — Eu brinquei, sem pensar. — Eu também não conseguia tomar inteiro quando tinha, sei lá, oito anos? Como você não consegue até hoje?

— Trava na garganta, hyung... eu tenho medo de sufocar até a morte.

Ah, porra. Fofo. Fofo, fofo, fofo.

— Tudo bem — Eu consegui dizer. — Mas espero que faça efeito. Você ainda está se sentindo muito mal?

— Com um pouco de dor de cabeça e enjoo, mas deve passar agora. — Ele respondeu, fazendo uma careta ao tomar o pedaço final do remédio, e eu arranquei a primeira mordida do meu café-da-manhã. — Será que esse remédio cura ressaca moral, também? Eu não lembro direito o que aconteceu ontem, mas acho que devo ter feito coisas das quais preciso me arrepender...

— Você me ligou e me pediu para ir te encontrar, mas quando eu cheguei... hm, você estava bem ocupado beijando outro e não me deu muita bola. — Revelei, ainda ressentido sobre isso. — Acho que esse foi o pior.

Jungkook arregalou os olhos, arrependido.

— Eu fiz isso? Caramba, hyung, desculpa... eu não sei o que passou em minha cabeça...

De acordo com as confissões de sua versão bêbada, Jungkook me ligou para provar a si mesmo que eu não iria. Provavelmente para se convencer de que eu não me importo com ele, sem saber que na verdade eu me importo, e muito.

— Esquece. Você estava bêbado e magoado. O que me irritou mesmo foi aquele seu amigo grudento — Ah, sim, eu usei a entonação enviesada ao me referir ao carrapato como seu amigo.

Amigo é o caralho. Eu nunca beijei meus amigos daquele jeito.

— O Yoongi? — Ele perguntou, parecendo certo sobre a quem me refiro. — Ele não é grudento, ele só é meio protetor e acaba exagerando às vezes...

Eu mordi mais um pedaço do pão, concordando vagamente com sua explicação.

— Ele disse alguma coisa estranha? — Jungkook questionou, então, depois de alguns segundos de silêncio.

— Estranha como?

Ele me analisou calado antes de negar com um suspiro.

— Nada, deixa pra lá. — Ele abaixou os olhos, pousando-os no meu bilhete em cima de sua mesa. — Eu vou ler o que você escreveu, fiquei curioso...

Eu umedeci meu lábio antes de fazer um gesto de concordância um pouco inseguro, e continuei atento a ele enquanto o vi desdobrar a folha para ler o que está ali dentro.

Apesar de não ser um texto longo, eu vejo sua expressão metamorfosear intensamente, até estagnar em algo que não consigo interpretar enquanto seus olhos vagam pelo papel mesmo depois de terminar de ler.

— Hyung... — Ele chamou, com a voz quebradiça.

Eu massageei minha própria mão, um pouco constrangido por tudo isso.

— Me desculpa pela letra bagunçada, mas eu realmente quis dizer cada uma dessas palavras, Jungkook. — Confessei, me sentindo nervoso. — Eu sinto muito mesmo pela forma como agi com você antes...

Seu peito subiu e desceu devagar repetidamente, denunciando sua respiração pesada.

— Eu pensei muito — Continuei, torcendo para que ele me ouça atentamente. — Durante a última semana, eu não consegui parar de pensar sobre isso tudo. Sobre a forma como te tratei, mas também sobre o porquê de ter te tratado daquele jeito e... eu estou assustado e confuso. Essa é a maior certeza que eu tenho agora. — Eu senti seu olhar atento a mim, então prossegui. — Em todas as vezes que eu insisti em reafirmar minha heterossexualidade, eu não fiz para tentar me convencer, Jungkook. Eu fazia aquilo porque acreditava que era verdade, mas quanto mais eu deixei você se aproximar, mais eu percebi que era mentira e... é muito confuso e é assustador pensar em como minha família e todas as pessoas que eu conheço vão reagir sobre isso quando nem eu consigo aceitar bem... você entende?

— Eu sei, hyung... — Ele disse com uma entonação culpada. — Desculpa... eu também fui incompreensivo...

— Foi? — Perguntei, retoricamente. — Eu fiz uma coisa horrível, eu sei disso. Uma amiga me disse que eu não tenho o direito de magoar os outros daquela forma e ela tem razão. Minha confusão não me dá o direito de te empurrar para longe e dizer para outra pessoa que você me beijou à força. Você não precisa ser compreensivo sobre algo assim.

— Eu sei que você não fez por mal... — Jungkook quase murmurou, e eu nem percebi em que momento virei meu corpo na direção do seu, ficando frente a frente com ele.

— E eu juro por tudo que realmente não fiz por mal. Mas eu fiz, Jungkook. — Agora, eu sinto um gosto amargo no fundo da garganta, desejando não precisar dizer o que falo a seguir: — E o problema é que eu não posso prometer que não vou fazer novamente.

Ele arregalou os olhos novamente, talvez magoado.

— Não me entenda mal, por favor. Eu não quero repetir aquilo com você, nem com ninguém, mas eu ainda não posso confiar que vou conseguir controlar todos os meus impulsos assustados. Porque eu não sei se vou. Eu ainda não sei lidar com esse novo lado da minha sexualidade e enquanto eu não aprender a fazer isso, não acho que posso te dar garantias. Não é justo com você.

— O que você quer dizer? — Ele perguntou, assustado.

— Eu quero dizer que nós não podemos mais nos envolver, Jungkook.

Resposta nenhuma veio, então continuei, tentando fazê-lo me entender:

— Eu não quero te magoar de novo. E, por enquanto, o único jeito de garantir isso é se eu me afastar de você.

Jungkook ficou em silêncio, com o olhar perdido em minha direção. Depois, ele virou lentamente para a mesa. Seus olhos pareceram analisar tudo que está sobre ela, o que aumenta sua confusão. Ao fim, ele volta a me olhar:

— Hyung... você não me quer mais? Depois de tudo isso... de voltar até aqui, trazer comida e os mangás... eu achei que... — Sua voz morreu, assim como seu olhar voltou a fugir do meu.

Dessa vez fui eu quem me vi surpreso, e me apressei em puxar minha cadeira mais para perto da sua, com meu corpo virado para o seu.

— Você não entendeu? — Perguntei, tocando cuidadosamente sobre sua coxa, mas mesmo assim ele não olhou para mim. — Toda essa confusão... tudo isso que eu estou sentindo agora é porque eu te quero demais, Jungkook.

Ele abaixou ainda mais o rosto, com os olhos mirados no prato diante de seu corpo enquanto seus dedos beliscam a ponta do pão de Jiwon.

— Porra, Jeon... — Eu suspirei, percebendo que ele parece não acreditar em mim. — Eu te quero tanto que às vezes sinto que vou ficar louco, mas eu não quero ser alguém que vai te machucar... entende isso, por favor...

Eu ouvi sua respiração ruidosa, como se ele engasgasse silenciosamente, e mal acredito quando vejo que sua única resposta à minha confissão é encher a boca de comida.

Frustrado, eu passei a mão pelo cabelo antes de tocá-lo novamente para fazê-lo me olhar outra vez antes de repetir cada uma das minhas palavras, mas me assustei quando tive o vislumbre de seu rosto e o vi com os olhos cheios de lágrimas e as bochechas estufadas de pão, até um pouco sujas de farelo.

— Jungkook... — O chamei, desesperado. — Não chora, pelo amor de deus, me desculpa por ter xingado, eu não quis...

Eu me amaldiçoei quando me atrapalhei todo com minhas próprias palavras.

Não acredito nisso. Eu não acredito que o fiz chorar quando minha única intenção era justamente não magoá-lo outra vez.

Porra, por que eu nunca faço nada direito quando se trata dele?

— Hyung... — Ele me chamou, usando o dorso de uma mão para secar as próprias lágrimas, mas sem limpar os farelos em suas bochechas. — Não precisa se desculpar...

— Mas eu te fiz chorar, porra. Que inferno, Jungkook, eu devo ser a maior merda que já aconteceu na sua vida! — Praguejei, inconformado.

Jungkook negou com uma risada fraca, ainda secando as próprias lágrimas.

Ok. Agora eu estou confuso.

— Eu sou chorão, hyung. Eu choro até assistindo comercial de ração pra cachorro.

— Você vai me deixar doido... — Resmunguei ainda vendo-o lutar contra o choro silencioso, e ele riu outra vez.

— É que... — Ele começou, finalmente olhando para mim. — Eu estou chorando porque você trouxe o pão que minha mãe fazia, você lembrou dos mangás e... porque você realmente se importa comigo, hyung... você me deixou muito feliz...

Eu senti algo se acalmar dentro de mim. Provavelmente meu coração.

— Então... você entende? — Perguntei, já mais tranquilo.

— Eu entendo, hyung. Obrigado por isso...

Eu sorri aliviado, com minha mão em sua coxa acariciando-o sem segundas intenções, sem que eu sequer perceba de verdade o que estou fazendo.

— Mas eu realmente queria muito transar com você — Ele se lamentou num muxoxo, com a ponta do nariz avermelhada por seu choro recente. — Eu queria tanto sentir você dentro de mim, depois te foder todo... você deve gemer tão gostoso enquanto fode, hyung, eu queria ouvir...

Eu relaxei com uma risada, sem me afastar dele.

— Como você consegue dizer coisas assim e ainda parecer uma criança emburrada?

Ele ergueu os ombros com algum desleixo, em resposta.

— A gente não pode transar nem uma vez?

— Não é que eu repudie a ideia, até porque você me deixa louco de tesão, Jungkook, mas é melhor não. Por enquanto.

— Quer dizer que depois pode rolar? — Ele perguntou, esperançoso.

— Se eu conseguir arrumar essa confusão na minha cabeça... por que não? Mas não pense muito nisso, eu não quero te dar esperanças de algo que não tem garantia de acontecer, ok?

— Você todo sério e responsável assim pelos sentimentos dos outros é chato...

— Eu sou assim na maior parte do tempo. Eu não sou aquele cara ruim que você conheceu, Jeon. Deve ser difícil acreditar agora, mas eu não gosto de enganar ninguém, nem de magoar as pessoas. Eu só estava com a cabeça muito cheia por conta da traição da minha ex, principalmente por descobrir que eu gosto de pau também... — Eu suspirei, cansado só de lembrar. — Uma loucura.

Ele riu, virando completamente de lado em sua cadeira até encaixar suas pernas nas minhas, e eu senti sua mão em meu joelho, em cima da minha calça de ficar em casa.

Oh, caralho.

Eu fiquei tão atrapalhado com tudo isso que esqueci que saí de casa sem escolher uma roupa decente, nem meu cabelo eu sequei ou usei minha base para esconder os cravos no nariz.

— Eu gosto mais desse Jimin — Jungkook disse, a despeito do meu pensamento. — Você tá até usando roupa de gente normal...

— É, eu tinha esquecido disso. — Fechei os olhos por um instante, ainda incomodado com a percepção sobre minha aparência.

Eu não me sinto tão confiante quando não passo algum tempo considerável escolhendo minhas roupas e cuidando de detalhes como minha pele e cabelo. Na verdade, eu repudio bastante o meu eu natural.

— Você tá lindo, hyung. Acho que mais que o normal.

— Mentiroso...

— É sério. — Ele garantiu, olhando para sua mão em minha perna antes de erguer o rosto outra vez. — Você tá tão lindo e eu queria tanto te beijar agora...

Não que eu já não tivesse certeza, mas a forma como minha barriga ficou gelada só comprova que eu não sou hétero mesmo.

— Só mais uma vez? — Ele pediu, deslizando suas mãos para as laterais de minhas pernas, na altura dos joelhos, para me puxar mais em sua direção. — Só mais um beijo, Jimin...

— Você não facilita desse jeito, Jeon — Repreendi, sem me surpreender com a pouca força em minha voz.

— Juro que vai ser a última vez — Jungkook insistiu, subindo as mãos até meus quadris e me puxando ainda mais em sua direção. Nossas pernas ainda estão encaixadas umas nas outras, nossos troncos agora mais próximos e nossos rostos quase colados.

Eu suspirei ao sentir ele deixar um beijo suave em meu pescoço, sussurrando um por favor contra minha pele antes de subir com seus lábios até a linha da minha mandíbula, onde deixou outro beijo antes de roçar seu nariz em minha bochecha.

Tudo bem, não é?

É só mais um beijo.

— É a última vez. — Confirmei, deixando de lutar contra meu corpo e permitindo que minha mão suba todo o caminho até segurá-lo pela nuca.

— Sim...

Quando Jungkook tocou seus lábios nos meus, eu quis chorar por estar voluntariamente tomando a decisão que vai me impedir de beijá-lo novamente por sabe deus quanto tempo, e senti meus olhos fecharem sozinhos quando ele mordeu meu lábio inferior suavemente, puxando-o para dar espaço para aprofundar o beijo. Entretanto, antes de senti-lo de verdade e me arrepiar inteiro com a sensação de beijar sua boca, algo nos interrompeu.

Batidas na porta.

Eu fechei meus olhos com ainda mais força, completamente frustrado, e senti seu suspiro inconformado acertar meu rosto quando ele tocou sua testa na minha, também contrariado.

Meus lábios estão formigando e meu corpo inteiro implora para que ele ignore sua visita inconveniente e me beije.

Entretanto, Jungkook só respirou fundo umas duas vezes antes de se afastar, apertando os lábios numa linha que entrega sua falta de ânimo com a interrupção. Depois, ele ficou de pé e foi até a porta, resmungando sozinho. E se eu já estava frustrado por não poder beijá-lo pela última vez agora, me senti ainda pior ao ver que quem chegou e nos atrapalhou.

Yoongi.

— Caramba, Jungkook, eu te mandei mil mensagens perguntando se precisava trazer alguma coisa e você nem respondeu. — Ele disse assim que passou para dentro. — Esqueceu que eu vinha, seu cabeça de vento?

— Ah... — Jeon fez uma careta enquanto coça a testa. — Eu esqueci por um momento. Desculpa, hyung.

Hm. Ele também chama esse Yoongi de hyung.

Eu não acredito que estou incomodado por isso.

— Ingrato. — O outro hyung disse, parecendo brincalhão.

— Eu acordei de ressaca, desculpa mesmo...

Yoongi continuou com a expressão divertida, mas seu sorriso endureceu assim que ele olhou para o lado e finalmente me viu observando-os em silêncio.

— Você não é o cara de ontem? — Ele perguntou, acusatoriamente. — O que você está fazendo aqui?

— Yoongi, não começa... — Jungkook o repreendeu.

— Caramba, Ggukie... — O carrapato franzino se lamentou. — Você não tinha decidido parar de trazer esses caras em seu apartamento?

— Mas eu não trago mais, hyung... — Jungkook disse baixo, nervoso. — Ele não é como os outros, eu juro.

O tal Yoongi ainda me olhou como se quisesse me matar antes de negar com a cabeça e se jogar no sofá, e só então eu vejo que ele trouxe uma mochila junto.

— Você é ingênuo demais. — Resmungou. — Eu até trouxe meu notebook pra gente jogar overwatch, mas devia ter ficado em casa dormindo, pelo menos não teria que ver como você é trouxa.

— Credo, hyung, não fala assim. — Jungkook se lamentou, com a expressão ressentida.

— Vai logo pegar seu notebook antes que eu vá embora. — Yoongi revirou os olhos, já tirando o seu de dentro de sua mochila rasgada.

Pelo menos a minha mochila está inteira. Aliás, eu tenho outras quatro, todas de marca.

— Certo, mas dessa vez você vai ter que jogar direito. — Jeon resmungou para ele antes de ir até seu quarto e me deixar sozinho com esse cara esquisito, sem saber o que fazer principalmente enquanto ele me olha como se quisesse me banhar em gasolina e depois acender um fósforo em minha cabeça.

— Como é seu nome? — Ele perguntou, então.

— Park Jimin. — Respondi, com os braços cruzados. — Por quê? Tá interessado?

— Interessado em saber qual o nome da pessoa que eu preciso queimar viva caso machuque o Jungkook? Sim.

Eu ri, incrédulo.

— Como é?

— Ele parece todo iludido sobre você, mas você não me engana. Conheço seu tipo, Park Jimin.

— E isso é o que? Ciúmes? — Perguntei, irritado. — Jungkook também parece muito iludido em acreditar que você é amigo dele, mas amigos não se beijam do jeito que vocês se beijaram ontem.

— Não só ontem, né? — Ele sorriu, provocativo.

Eu engoli a saliva com dificuldade, prestes a rebater com mais alguma acusação mal humorada, mas fui interrompido ao ver Jungkook voltar para a sala com o notebook nos braços.

— Hyung, — Ele chamou, e eu e Yoongi olhamos imediatamente. — eu acho que baixei vírus de novo...

Ah, ele está falando com o outro hyung.

— De novo, Jungkook? — Yoongi perguntou, rapidamente esquecendo de mim.

— É que eu recebi um e-mail dizendo que eu podia ter acesso grátis a mais de quinhentos animes...

— E você acreditou?!

—...Não?

— Você parece um moleque de treze anos. — Carrapato disse, estendendo a mão para pedir o notebook. — Dá aqui, vou ver se dou jeito.

— Não existe hyung melhor que você — Jungkook cantarolou com um sorriso aproveitador, e eu pigarreei no mesmo instante para chamar sua atenção.

— É melhor eu ir agora. — Anunciei, rapidamente ficando de pé quando ele me olhou.

— Já? — Ele perguntou, parecendo insatisfeito. — Deixa eu tirar os mangás pra você levar sua mochila então...

— Não precisa. — Eu o impedi quando ele se aproximou, segurando seu pulso. — Você pode devolver depois.

Ele apertou os lábios antes de concordar suavemente.

— Pelo menos vou ter uma desculpa pra te ver de novo — Ele disse baixo.

— É... — Garanti, incomodado ao perceber que isso também me tranquiliza. Depois, meus olhos recaíram em minha mão envolvendo seu pulso, e eu deslizei meu polegar sobre sua pele num gesto involuntário, antes de suspirar. — Tchau, Jungkook.

Ele continuou parado no mesmo lugar como se à espera de mais algo, mas eu somente peguei a chave do carro de meu pai e me afastei, lançando uma última olhadela enviesada para Yoongi antes de sair.

É isso. O que quer que tenha acontecido entre nós dois acabou aqui e nós nem tivemos o direito ao nosso último beijo.

Não particularmente feliz com nosso desfecho, eu parei de caminhar depois de descer todos os lances da escadaria e me recostei ao lado da entrada, passando as mãos pelo rosto num gesto derrotado.

O pior de tudo isso é que eu estou incomodado com aquele Yoongi e a relação que ele tem com Jungkook. E eu odeio esse sentimento, apesar de conhecê-lo bem.

Eu estou com ciúmes de Jungkook, e estou admitindo isso no mesmo dia em que entendi que ainda não posso ficar com ele.

Como é possível alguém ser tão fodido assim?

— Merda... — Praguejei, chutando uma pedrinha na calçada, mas quase me engasguei de susto quando a porta barulhenta da entrada do prédio foi aberta violentamente e eu vi Jungkook saindo por ela, apressado, parecendo procurar por alguma coisa.

Ele veio atrás de mim?

— Jungkook? — Eu o chamei quando seus olhos ansiosos me encontraram e ele continuou parado por um instante, hesitando.

— Desculpa, — Ele disse, dando os três passos que o separavam de mim e segurando meu rosto antes de me prender contra a parede. — mas eu precisava fazer isso.

Eu não questionei, porque entendo bem o que ele quer dizer. Entendo porque preciso exatamente da mesma coisa, agora.

Sem relutar, então, eu o segurei perto e não esperei seu próximo movimento. Eu mesmo o puxei pela nuca e uni nossos lábios no beijo desesperado que fomos impedidos de dar instantes atrás.

Só então eu finalmente sinto outra vez tudo que o beijo de Jungkook provoca em meu corpo. Eu sinto os arrepios, o frio na barriga e a vontade incontrolável de continuar beijando-o pelo resto do dia.

— Eu vou sentir tanta falta disso... — Ele disse baixo, ainda com o corpo colado no meu, suas mãos em minha cintura e sua cabeça apoiada na minha, num gesto inconformado.

Eu acariciei seu ombro, sem me impedir de concordar. Eu também vou sentir tanta falta de beijar essa boca gostosa.

— Queria ser mais egoísta agora e desistir dessa merda de me afastar de você... — Confessei, não muito orgulhoso sobre meu pensamento.

Jungkook riu baixo, me dando um outro beijo, dessa vez mais calmo, somente encaixando nossos lábios.

— Você pode não se afastar completamente? — Eu ouvi seu pedido necessitado logo depois. — Nós podemos continuar como amigos?

— Como eu vou ser amigo de uma pessoa que me faz sentir todas as coisas que eu sinto desde que te conheci, Jungkook?

— A gente pode tentar... por favor?

Eu não sei se essa é uma boa ideia. Na verdade, sei que não é, e que a chance de conseguirmos seguir como meros amigos é vergonhosa. Entretanto, correr o risco não parece tão ruim quanto tirá-lo completamente de minha vida.

É assustador perceber o quanto me apeguei a esse cara em tão pouco tempo.

— Tudo bem. — Eu cedi, movendo a cabeça em concordância. — Vamos ser amigos. Só amigos.

Jungkook sorriu. Ele fica tão bonito quando sorri assim.

— Só amigos. — Ele repetiu, enfim.

É. Isso pode mesmo não dar certo, mas ainda agora eu lembro exatamente das palavras que escrevi no bilhete que entreguei a ele, e pretendo honrar cada uma delas.

"Eu não posso mudar o que aconteceu no passado. Não posso te dar todos os mangás que você queria ler quando mais novo, assim como não posso apagar as coisas ruins que te fiz. Mas eu posso mudar o que acontece de agora em diante. Eu posso te dar as histórias que você quer ler agora e posso ser uma boa pessoa para você, dar o melhor de mim para não te magoar outra vez. E eu vou fazer isso porque me importo com você... eu me importo, Jungkook"

❥ [Continua...]

Chapter Text

Ultimamente, eu venho pensando sempre na mesma coisa: Jungkook.

Quando não estou pensando em Jungkook, estou pensando em Jeon. Quando não estou pensando em Jeon, estou pensando em Jeon Jungkook.

Isso se tornou um ciclo vicioso e, honestamente, desesperador.

Não importa com quantas mulheres tenha me envolvido no passado, em nenhuma das vezes eu me senti tão... assim.

E na verdade eu sei que a diferença de como me sinto dessa vez não é por Jungkook ser um cara. Eu acredito que tudo isso é consequência da forma como as coisas aconteceram entre nós dois. Foi tudo desastrado demais, inesperado demais, intenso demais.

Hoje, se completa uma semana desde que fui em sua casa e dei fim a todo esse desastre inesperado e intenso. Uma semana desde que nos falamos pela última vez.

Mesmo que tenhamos concordado em tentar seguir como amigos, eu não tive coragem de procurá-lo novamente. Agora, o que me impede não é o orgulho, mas toda essa minha incapacidade de parar de pensar nele.

Sério, de verdade mesmo, como eu vou ser só amigo de um cara que não sai da minha cabeça, e não de uma forma platônica? Como eu vou conseguir seguir fiel à minha vontade de não magoá-lo se sequer sei se vou aguentar suportar minha própria decisão de não me envolver com ele até saber lidar com o fato de estar me envolvendo com um homem sem surtar completamente?

Por outro lado, eu não posso negar que não ser procurado por ele me deixa um pouco mais pensativo sobre isso tudo. Quer dizer, uma semana inteira passou e Jungkook não deu qualquer sinal de vida.

Isso significa que, no fundo, ele não está tão interessado em ser somente meu amigo?

Isso me deixa chateado, mas não surpreso. Depois de tudo, é de se esperar que ele tenha repensado sua decisão de me querer por perto.

Agora, imerso em minha banheira cheia, eu tento pensar em outra coisa. Como no estúdio fotográfico que até hoje não me deu uma resposta, coisa que me deixa completamente chateado.

Desviar meus pensamentos assim até que funciona bem por um tempo, mas então meu celular vibrou na borda seca e, desestimulado, eu sequei minha mão antes de alcançá-lo preguiçosamente. Entretanto, quase fiz jorrar água por todo o banheiro ao ver que, finalmente, são novas mensagens de Jungkook

Jeon
|Hyung, vem pegar essa porcaria de mangá de volta

Jeon
|Eu só passo raiva com a idiota da Kotoko e aquele ridículo do Irie mas não consigo parar de ler!!

Eu deveria ter avisado, desculpa ㅋㅋㅋ|

Tá em que parte?|

Jeon
|Na parte em que o Irie é um cavalo com a Kotoko

Jeon
|Ah, não, espera! Ele é um cavalo com ela O TEMPO TODO

Jeon
|Eu to muito bravo, eu vou desmaiar de tanta raiva

É pecado rir?|

Jeon
|Sim! Porque a culpa é sua!

Desculpa? :/|

Jeon
|👺

Tem o anime também, já ouviu falar?|

Jeon
|Já, mas to muito bravo, não quero assistir

Jeon
|AH... a não ser que você queira assistir comigo

Eu achei que você não queria mais falar comigo...|

Jeon
|Por que?

Você não me procurou nos últimos dias :/|

Jeon
|Desculpa... eu não sabia muito bem como deveria tentar me aproximar agora. Isso é meio novo pra mim ):

Tudo bem, eu também não sabia se deveria te procurar. Acho que estávamos os dois na mesma situação|

Jeon
|Isso faz a gente parecer meio bobo ㅋㅋ

Sim? ㅋㅋㅋ|

Jeon
|Mas agora que estamos nos falando... como você tá?

Um pouco frustrado porque não recebi nenhuma resposta do estúdio fotográfico onde fiz teste :/|

E você?|

Jeon
|Lembra que eu sou bom com fotografias? Posso ser seu fotógrafo particular, daí você não vai precisar desse estúdio idiota

Jeon
|Eu estou bem ^^

Essa parece uma ideia boa. Vamos abrir nosso próprio estúdio?|

Jeon
|Vamos, hyung! O primeiro ensaio pode ser erótico?

-_-|

Você não tem jeito|

Jeon
|Poxa, nem brincar posso mais... que tipo de amizade é essa?

Jeon
|Ah, falando em amizade... você não me respondeu. quer assistir o anime comigo?

Claro que sim, faço questão de ver você passando raiva com a versão animada ㅋㅋ|

Jeon
|Hyung malvado ): mas eu sou tão idiota por você que aceito ):

Jeon
|Pode ser amanhã?

Que horas? amanhã eu vou sair com meus pais, só devo ficar livre à tarde :x|

Jeon
|Eu também só fico livre à tarde ^^ podemos marcar mesmo?

Vamos fazer isso só como amigos, né?|

Jeon
|Infelizmente...

Então ok. Amanhã à tarde. 17h?|

Jeon
|17h! 💛

Eu bloqueei a tela do celular, consciente sobre a forma como estou sorrindo agora somente pela possibilidade de vê-lo.

Ainda não sei como toda essa merda aconteceu tão rápido, mas eu já me sinto dolorosamente apegado a Jungkook, e estou tão feliz por ainda tê-lo em minha vida.

Só espero não estragar tudo dessa vez.

— Que sorriso bobo é esse, Jimin? — Jiwon questionou, curiosa, quando apareceu em meu quarto depois que saí do banho.

É, eu estou sorrindo feito um imbecil há uns trinta minutos, sem pausa.

— Não é nada. — Respondi, acompanhando-a quando ela caminhou até meu closet para guardar as roupas limpas. — Ah, eu separei algumas roupas que não uso mais. Quer levar pra ver se cabem no Shin?

Jiwon sorriu, alegre com minha sugestão.

Shin é seu único filho, de quem ela cuida sozinha desde que seu marido a abandonou. Como o menino é dois anos mais novo que eu, eu sempre costumei doar meus materiais escolares e algumas roupas a ele. Eu não o conheço pessoalmente, mas Jiwon sempre fica feliz quando eu faço isso, então nunca deixei de fazer.

— Obrigada, Jimin. Suas roupas são tão bonitas, tenho certeza de que ele vai gostar muito.

— Não é nada demais. — Eu garanti. — Eu vou arrumar tudo numa sacola, passe aqui para pegar antes de ir embora, ok?

— Certo. — Ela disse, e parou em minha frente quando terminou de guardar cuidadosamente as roupas, então segurou meu rosto e me puxou um pouco para baixo, só para deixar um beijo em minha testa. — Você é um menino de ouro, Jimin. Obrigada mesmo.

Eu neguei outra vez, porque isso realmente não é nada muito grandioso.

Depois, Jiwon me deixou sozinho outra vez e eu aproveitei para já escolher a roupa que devo usar amanhã no tal brunch ao qual meus pais insistem em me levar.

Honestamente, eu não tenho interesse algum em ir e perder horas do meu domingo com os sócios de minha mãe. Entretanto, ela é engenheira chefe de uma firma civil e como eu menti dizendo que pretendo seguir essa carreira — somente para que nem ela, nem meu pai desconfiem do meu real objetivo —, agora ela decidiu que eu devo adiantar meu futuro e começar a conhecer outras pessoas do ramo. Criar minha network, estabelecer contatos... fazer parte da seita dos engenheiros civis. Coisas assim.

Um filho de vinte e dois anos nas costas, com nenhuma formação acadêmica e previsão alguma de um futuro imediato próspero deve ser mesmo uma puta aflição para os grandiosos Park Daechul e Park Haneul.

Eu sequer sei como algum dia vou confessar a eles que, na verdade, larguei a universidade para seguir carreira como modelo, apesar de saber muito bem qual será a reação deles. Não vai ser boa, nem qualquer coisa minimamente próxima a isso. Por isso, eu vou continuar mantendo meu objetivo em segredo por quanto tempo for possível, e eu preciso ceder um pouco aos caprichos deles para não levantar suspeitas.

Com a roupa escolhida, então, — e eu tomei o cuidado de escolher uma que não vá fazer minha mãe me olhar com desprezo e dizer que eu deveria ter me arrumado melhor, mesmo que eu sempre me preocupe feito um louco com minha aparência — eu passei as horas seguintes organizando os episódios do anime para assistir com Jungkook.

Eu até fiz uma lista de outros animes que posso ver com ele, depois analisei minha estante buscando um outro mangá que ele possa querer ler.

Talvez eu deva comprar mangás para ele?

Eu acho que não faria mal, mas é melhor conhecer melhor o gosto dele antes de fazer algo assim.

Ainda agitado enquanto penso em reencontrá-lo, eu me deitei para dormir cedo, mas ainda perdi um bom tempo vendo meu Instagram. E, é claro, eu não deixei de checar o perfil de Jungkook, sentindo a ponta de ciúmes cutucar meu estômago quando percebi que ele não adicionou nenhuma foto recente, mas foi marcado em uma.

@j.hope há 2 dias:  jungkookie, a máquina de ****

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@eros.00: ㅋㅋ 💛

Eu passei algum tempo analisando a imagem, mas levei poucos segundos para reconhecer o cara ao lado de Jungkook. Hoseok, o garçom do Black Stone.

Apesar dessa foto não ter o mesmo teor quase sexual de todas as outras em que Jungkook é frequentemente marcado, eu ainda sinto uma pontada de incômodo pela legenda, e saio de seu perfil antes de me deparar com qualquer outra coisa que piore a situação. Por sorte, uma notificação de uma nova mensagem de Taehyung apareceu no topo da tela e eu rapidamente pude me ocupar com outra coisa.

Taehyung
|eieieieieiei

Taehyung
|Tá livre amanhã?

Agenda cheia. Desculpe.|

Taehyung
|Lembra de quando eu era prioridade na sua vida? 😭

Taehyung
|Vai fazer o que? É melhor que me ajudar a ser babá da Danbi?

Qualquer coisa é melhor que cuidar da sua irmã terrorista, Taehyung|

E eu vou num brunch com meus pais|

Taehyung
|hm

Depois vou encontrar Jungkook|

Taehyung
|HMMMMMM

Dessa vez você vai precisar se virar sozinho com a pestinha, foi mal|

Taehyung
|Eu sempre me viro sozinho. Sou um lobo solitário, abandonado por meus companheiros de alcateia

Taehyung
|Mas hein... ainda tá nesse rolo com o cara lá, é?

Longa história|

Mas agora nós somos só amigos|

Taehyung
|Parece menos mal

Taehyung
|Pelo menos você não corre o risco de pegar uma dst dele ㅋㅋㅋㅋㅋㅋ

????????????????|

Deixa de ser escroto, caralho|

Taehyung
|Era pra rir ):

...|

Taehyung
|Tá, foi mal. Não faço de novo. Satisfeito?

Eu vou dormir que ganho mais|

Eu nem esperei sua resposta antes de sair da conversa, dolorosamente incomodado e irritado por sua brincadeira imbecil.

Eu odeio a forma como Taehyung condena Jungkook sem nem conhecê-lo. E eu odeio ainda mais tê-lo julgado dessa mesma forma quando também não o conhecia.

Mas diferente do que Taehyung diz sobre ele, ou até do que aquele fodido do Calvin afirma com tanta convicção, eu não consigo acreditar, agora, que Jungkook é somente isso. Somente uma máquina de sexo.

Eu não vou chegar ao extremo de dizer que ele é mais virgem que Maria. Não é isso que eu penso, sobre ele ser a epítome da inocência ou estar no ápice dos praticantes fervorosos de sexo que não fazem nada além de meter o dia todo.

Jungkook parece diferente. Ele parece muito mais... complexo.

Talvez seja isso que tanto me atrai nele, muito além do físico. A incompreensão sobre algo costuma despertar o interesse da mente humana, não é nada anormal. Eu só não entendo por que ele parece atrair meu coração, também.

De qualquer forma, eu não quero pensar nisso agora. Não quero considerar e validar a possibilidade de estar muito mais que atraído por ele. Ainda não.

Saber que ele me deixa de pau duro com facilidade já é assustador o suficiente, não quero também lidar, agora, com o desespero de me perceber nutrindo sentimentos não platônicos por ele. Por isso, eu desliguei meu abajur e puxei a coberta até cobrir minha cabeça, lutando para dormir logo.

Pela manhã, eu perdi quase uma hora inteira deitado na cama mesmo depois de acordar, e só levantei quando minha mãe bateu em minha porta como um general, me ordenando tomar um banho e me vestir. Apropriadamente, ela fez questão de dizer.

Que seja apropriado, então. Eu já tinha feito questão de separar minha melhor calça, uma blusa de botões, mas com o tecido leve, e sapatos casuais de couro. Também gastei o tempo precioso de sempre alinhando meu cabelo, disfarçando as imperfeições da minha pele e escolhendo a combinação ideal de acessórios.

Por volta das dez da manhã, eu entrei no carro com eles, rumo à casa de Jang Kang Dae, o maior colaborador da firma de minha mãe e o manda chuva de todo o ramo da construção civil em Seul.

O cara é grandioso, apesar de ter apenas um metro e sessenta e três.

Aliás, chega a ser ridículo me referir à sua residência como uma casa. Aquilo é uma puta de uma mansão, faz a minha parecer casinha de boneca de tão pequena. 

— Seja educado com Kang Dae. Mostre interesse, mas não pareça desesperado, e faça comentários inteligentes. — Minha mãe disse enquanto meu pai dirige através dos portões de ferro da Mansão Jang, e existe um longo caminho de paralelepípedos ladeado por várias árvores até chegarmos à casa majestosa. — Não nos envergonhe.

— Não nos envergonhe ainda mais. — Meu pai pareceu corrigi-la. — Já basta o constrangimento de precisar dizer a todos que você não se forma esse ano.

Eu umedeci meus lábios, usando toda minha força para não bater boca com eles.

Sério, eu aprendi várias coisas ao longo desses vinte e dois anos, e uma delas é que nunca, em hipótese alguma, vale à pena discutir com meus pais. É completamente inútil.

— Eu vou ser a pessoa mais educada, interessada, mas não tanto, e inteligente desse brunch. Não se preocupem. — Foi tudo que eu disse, amargo.

Ao sairmos do carro e enquanto espero meu pai entregar a chave ao manobrista, eu cacei meu celular no bolso somente para enviar uma mensagem rápida para Jungkook.

Eu queria poder assistir Itazura na kiss com você agora :/|

Eu não esperei uma resposta sua, pois é bem capaz de ouvir um sermão por estar com o celular na mão. Por isso, eu logo o devolvo ao bolso e sigo meus pais mansão adentro, onde passamos por vários garçons uniformizados até chegarmos ao pátio dos fundos cheio de convidados, com uma música baixa tocando e a piscina ornamental brilhando sob o sol ameno.

Não parece tão ruim, mas é uma bosta.

Eu não vou com a cara de metade das pessoas nesse lugar, e só não desprezo a outra metade porque nunca os vi na vida.

Entretanto, eu percebo que estou errado quando, ainda antes de me afastar completamente da casa, eu vejo alguém muito familiar. Alguém que eu não sinto vontade de socar freneticamente. Não o tempo todo, ao menos.

A princípio, eu pensei ter me enganado, mas ao olhar com mais atenção percebi que aquele cara com a postura elegante, bem vestido como alguém da classe e com Jang Micha, a filha de Kang Dae, segurando-o pelo braço é o mesmo cara que não saiu da minha cabeça.

É mesmo Jeon Jungkook. Com uma mulher.

— O que...? — Eu murmurei confuso por vê-lo ali, rindo com a herdeira mais influente da cidade e seu pai minúsculo.

— Vamos cumprimentar Kang Dae. — Meu pai avisou, e minha mãe segurou-o pelo braço exatamente da forma que Micha segura o braço de Jungkook.

Como um casal.

Obrigado a me aproximar dele, eu controlo meus impulsos de já chegar interrogando que porra é essa quando minha mãe é a primeira a cumprimentar Kang Dae, que continua a fazer companhia à sua filha e a Jungkook, enquanto eu tento não olhar diretamente para Jeon.

— Que bom que conseguiu vir dessa vez, Jimin. — O homem baixo se direcionou a mim depois de cumprimentar meus pais, e só então eu pareço ser arrastado para a realidade outra vez.

— Sim. — Foi o que eu disse, lutando para mostrar um sorriso que pareça ao menos educado.

Eu sinto o olhar de minha mãe me reprovando, porque ela certamente esperava que eu fizesse qualquer outro comentário, mas pior é perceber que Jungkook também está me olhando.

— Vocês já conhecem minha filha Micha, não é? — Kang Dae continuou, pouco atento à minha falta de jeito. — Esse é o namorado dela, Jeon Jungkook.

Dessa vez, não deu pra controlar e eu literalmente arregalei meus olhos.

Namorado?

Mas que caralho?!

Confuso como o inferno, eu finalmente virei meu rosto para Jeon e vi seus olhos grandes ainda maiores enquanto ele olha para mim como quem vê uma assombração.

Eu respirei fundo, louco para arrastá-lo daqui e questionar que bosta está acontecendo. Entretanto, o que fiz foi dizer:

— É um prazer, Jeon.

Ele demorou algum tempo antes de apenas acenar com a cabeça, ainda parecendo assustado. Depois, nós nos entreolhamos em silêncio por algum tempo, até eu pigarrear.

— Há quanto tempo namoram? — Questionei, então, tentando soar casual.

— Um mês. — Foi Micha quem respondeu, sorridente.

— Um mês? — Eu repeti, e não sei se minha risada parece amargurada ou não. — Que surpresa.

— Não é? — Ela concordou, sem soltar o braço de Jeon. — Ele não pôde vir no último brunch, então estou apresentando-o a todos hoje.

Kang Dae sorriu para a filha, parecendo orgulhoso, mas logo sua expressão se tornou um pouco mais suave quando uma nova convidada chegou e ele apoiou a mão no ombro de Micha.

— Eu vou pedir licença por um minuto. — Ele disse educadamente a todos nós. — Eu gostaria de apresentar Micha a uma convidada.

— Não se preocupe. — Meu pai o tranquilizou, com o tom polido que usa para falar com qualquer pessoa que tenha o mínimo de influência política ou financeira. — Dê atenção a todos os seus convidados.

Kang Dae sorriu em agradecimento e falou algo no ouvido da filha, já guiando-a em direção à mulher recém chegada, provavelmente dando instruções de comportamento.

Sozinho com Jungkook e meus pais, eu engoli em seco e o olhei em silêncio antes de mover minha atenção até meus progenitores amargurados, que cochicham algo um para o outro.

— Enquanto Micha e Kang Dae estão ocupados, eu vou fazer companhia a Jeon. — Anunciei, e lancei uma olhadela para Jungkook, deixando claro que é melhor ele me seguir. — Com licença.

No instante seguinte, eu percebi Jeon me seguindo sem relutância — mas parecendo nervoso como nunca — quando comecei a me afastar, e somente parei de andar quando estávamos num local um pouco mais distante de todo o movimento, logo virando para ele com minha melhor expressão de confusão.

— Então? Namorada? — Pressionei de imediato, mas contive minha voz no que somente posso chamar de grito sussurrado. — Que merda é essa, Jungkook? O que você está fazendo num lugar com essas pessoas, vestido assim?

— Você está vestido do mesmo jeito que eu. — Ele respondeu defensivo, ainda parecendo nervoso. — Eu não posso me vestir bem, também?

— Nem começa a distorcer o que eu disse, isso não tem nada a ver. — O interrompi, ainda confuso como o inferno. — Como assim você namora uma mulher, Jeon? Você não disse que era gay?!

Ele coçou a nuca e agora eu o percebo frustrado além de nervoso.

— Não é assim, hyung...

— Não é assim o que? Você é gay, mas abre exceção para algumas mulheres?! — Acusei, completamente perdido. — E beija outras pessoas enquanto está claramente comprometido?!

Eu não me importo se ele for gay, bi ou a puta que o pariu, mas ele mentiu para mim e me beijou e fez muito mais comigo durante as últimas semanas, sendo que namora há um mês, e isso me deixa irritado e outra coisa que nem quero nomear.

— Não! — Ele negou rapidamente. — Não é isso, hyung, eu quis dizer que esse namoro não é o que parece!

Eu apertei tanto meus olhos que minhas sobrancelhas devem ter virado uma só.

— Como é?

Ele olhou ao redor, parecendo se certificar da nossa privacidade antes de voltar sua expressão ansiosa para mim.

— Se eu te contar, você precisa prometer que não vai deixar ninguém saber. É sério.

Eu ergui meus ombros numa concordância mal humorada, com os braços cruzados de maneira inquisitiva sobre o peito, e Jungkook ainda hesitou um pouco antes de começar a se explicar:

— Micha... ela é lésbica. — Foi a primeira coisa que ele disse.

Ah. Ótimo. Eu estou cada vez mais confuso.

— O pai dela começou a desconfiar e ele não aceitaria bem, — Jungkook continuou. — então agora eu estou fingindo ser namorado dela até ele esquecer a suspeita... é só isso, hyung.

Eu o analisei de forma cuidadosa antes de desviar meu olhar e passar a mão pela testa, aceitando sua resposta, mas ainda me sentindo um pouco esquisito sobre isso tudo.

— Você é um poço de caralhocentos metros de profundidade cheio de surpresas, não é? — Eu ri, sem humor. — Nunca dá para saber o que esperar de você.

— Eu não tenho nada com ela. — Ele garantiu. — Eu juro que não tenho interesse assim em mulheres e eu também não beijaria você se estivesse namorando alguém!

— É melhor mesmo. — Eu apertei meus olhos, e ele acabou rindo um pouco. — Seu safado.

Eu ainda tenho minhas dúvidas sobre como Jungkook conhece Micha e por que ele está fazendo isso por ela, mas meu impulso de questioná-lo evapora assim que meus olhos recaem em duas outras pessoas no meio dos convidados.

— Mas que merda está acontecendo nesse brunch, pelo amor do santo caralho? — Eu questionei, só não mais surpreso que quando vi Jungkook com Micha.

— Que? O que foi? — Jungkook pareceu confuso, olhando na mesma direção que eu, e eu o segurei pelo braço e o puxei mais para perto, discretamente apontando para duas pessoas não muito distantes.

— Tá vendo aqueles dois ali? — Eu perguntei sem soltá-lo, e ele assentiu de forma curiosa. — Você não reconhece o cara?

Ele apertou um pouco os olhos, mas acabou negando. — Não me é estranho, mas não lembro de onde conheço...

— Aquela marmota ali, — Eu apontei para o garoto, que está de mãos dadas com a mulher. — é o Eunjo. Lembra? Você o conheceu no restaurante, depois de me mastur... — Eu pigarreei. — Enfim. O cara que era meu amigo, mas trepou com minha namorada.

Jungkook abriu bem a boca, assentindo fervorosamente como alguém que entende o que se passa, e eu sinto seu ombro pressionar o meu enquanto ele analisa o casal logo adiante.

— Aquela ali não é sua ex, é? — Ele perguntou, ainda olhando para os dois pombinhos. — Quer dizer, parece ela, mas não acho que é...

— O problema é justamente esse! — Eu o olhei de esguelha, e ele me olhou também. — Aquela é Hera, a irmã da Nara!

Jeon pareceu absorver minhas palavras antes de entender qual o motivo da minha incredulidade, então seu rosto todo se contraiu em surpresa e descrença exagerada.

— Espera! Ele fodeu sua namorada e agora tá saindo com a irmã dela?!

— Pois é!

— Que cachorro. — Ele ofegou, mas acabou rindo.

— Qual a graça? — Eu perguntei, fuzilando-o com o olhar.

— Desculpa. É que seu ciclo de relacionamentos é muito confuso — Ele explicou, ainda sem parar de rir.

— A começar por você, né?

— Oh, hyung...

Eu rolei os olhos em tédio e voltei a olhar para o casal inesperado, sem acreditar nisso.

Nara sabe que eles dois estão aparecendo juntos publicamente? Ela não deve estar feliz com isso, se souber, e eu não acredito que estou me preocupando com aquela traidora sonsa.

— Quer ir lá cumprimentar eles só pra assustar? — Jungkook sugeriu, então.

— Você gosta de caos, né? — Suspirei, sem conseguir reprimir uma risada.

— A culpa não é minha se essas festas de rico são tão chatas. — Ele deu de ombros de forma displicente, e insistiu: — Vamos lá falar com eles!

— Nem a pau! Eu quero é distância. — Eu rapidamente o segurei pelo braço outra vez e apontei para o bar externo. — Nós vamos é beber. A festa é chata, mas com certeza tem champanhe.

Jungkook apertou os lábios com um sorriso antes de concordar.

— Pode ser, também. — Ele disse, acompanhando-me enquanto eu continuo segurando-o só para garantir que ele não vai mudar de ideia no meio do caminho.

Já no bar, eu pedi duas taças do champanhe que está sendo oferecido. Nada de espumante falsamente rotulado, é champanhe de verdade.

— Aqui. — Eu entreguei uma das taças de cristal a Jeon assim que elas foram servidas, e ele cheirou a bebida antes de prová-la. Eu ri de sua reação. — Gostou?

Ele deu de ombros, indiferente.

— Prefiro leite de banana.

— E eu prefiro suco de melancia, — Confessei, aproveitando sua deixa. — mas não acho que sirvam isso aqui.

Ele sorriu um pouco, brincando com a taça em mãos enquanto olha ao redor, e eu aproveito sua distração momentânea para analisá-lo nessas roupas.

Não é que ele não esteja bonito, mas esse realmente não parece o estilo dele. Não parece o estilo do Jungkook que eu conheci, apesar de parecer ser o estilo do Jungkook que eu vi, de longe, interagindo com Kang Dae tão facilmente.

Como duas pessoas completamente diferentes.

Eu suspirei, atraindo sua atenção novamente.

— Tudo bem, hyung?

Eu virei o rosto e bebi um pouco mais do champanhe antes de sorrir, mas não num gesto de felicidade.

— Calvin tem razão. Você é mesmo um bom ator.

— Quem é Calvin? — Ele arregalou os olhos, assustado.

— O cara que trabalha no bar onde te conheci. Ele me avisou que você consegue interpretar qualquer papel, e não parece mentira. Você é um perfeito promíscuo na noite, mas às vezes parece inocente como uma criança, e hoje descobri que também pode se passar por alguém da elite facilmente. — Sem parar de olhá-lo, eu perguntei: — Quantas versões de você existem, Jungkook?

Jungkook apertou os lábios e eu não sei se é impressão, mas parece existir um pouco de mágoa em seus olhos e hesitação em sua resposta, que demora um pouco a vir.

— Eu só me adapto, hyung. — Ele finalmente disse, relutante. — Existem quantas versões forem necessárias para que eu me encaixe em algum lugar.

Eu umedeci meus lábios, um pouco incomodado.

Esse não é o tipo de coisa que me deixa irritado, ou desconfiado. Me deixa preocupado.

— Quando você está comigo, você é safado, adorável, engraçado, às vezes desconfiado, tudo de uma só vez. — Eu disse, olhando-o cautelosamente. — Então, Jeon... que versão é essa?

Jungkook me olhou em silêncio, com as mãos tão frouxas que eu quase consigo prever a taça escorregando de seu aperto. Antes de me dar a resposta à última pergunta, entretanto, Micha reapareceu, segurando-o pelo braço com o sorriso grande e bonito em seu rosto.

— Voltei! Desculpa por te deixar sozinho, Gguk.

Ele pareceu ser pego de surpresa pelo retorno imediato da garota, mas logo suavizou sua expressão, embora não completamente.

— Tudo bem. Jimin me fez companhia. — Ele disse.

Micha sorriu para mim, apontando para uma das mesas livres.

— Vamos sentar? — Ela ofereceu. — Pode ficar com a gente, Jimin, esses sócios do meu pai são um saco.

Eu ainda lancei uma última olhadela para Jungkook antes de concordar com um sorriso pequeno, e sequei minha taça para acompanhá-los até a mesa disponível.

Já sentados, Micha se distraiu falando com uma das garçonetes e eu logo senti Jungkook me tocando por baixo da mesa. Não de uma forma sexual, entretanto, ele só parece querer chamar minha atenção.

— A gente ainda vai assistir anime hoje? — Ele perguntou, então, parecendo preocupado.

Eu balancei a cabeça lentamente.

— Se você não tiver mudado de ideia... — Ele negou imediatamente e eu apertei meus lábios num gesto suave, assentindo. — Que bom, porque eu já separei os episódios.

Jungkook abriu um sorriso enorme e ainda é surreal, para mim, o tanto que seu rosto fica ainda mais bonito quando ele sorri assim.

— E, hyung... — Ele me chamou outra vez. — A gente pode terminar aquela conversa quando estivermos sozinhos?

Eu sinto seu toque ainda em minha coxa, ainda sem tocá-la com malícia, e me assusto ao perceber o esforço que preciso fazer para não colocar minha mão sobre a sua.

— Sim. — Eu respondi, sinceramente. — Eu realmente gostaria disso, Jungkook.

Ele assentiu outra vez, e vejo a forma como olhou na direção de minha perna e pareceu relutar um pouco antes de acabar por afastar sua mão.

Eu não queria que ele afastasse, mas é melhor assim. Quanto mais contato físico houver entre nós dois, mais será difícil levar essa coisa de somente amizade para a frente.

— Vocês gostam de camarão? — Micha perguntou assim que a garçonete se afastou outra vez, e eu e Jungkook olhamos imediatamente para ela. — Eu pedi para ela trazer alguns empanados para nós três.

— Eu gosto. Obrigado. — Jungkook disse e eu reforcei seu agradecimento com um gesto sutil, mesmo que na verdade não seja grande fã.

E eu não tenho nada contra Micha. Ela é agradável, simpática e atenciosa, mas eu realmente gostaria que ela não estivesse aqui, agora, e fosse comer seus camarões em outro lugar.

Um pouco frustrado, então, eu recorri à escapatória de sempre e tirei meu celular do bolso, deixando-os conversar sobre um outro evento ao qual ela espera que Jeon a acompanhe, e vi minhas mensagens, depois chequei as notificações nas redes sociais e por último olhei meu email mais uma vez, na esperança de encontrar uma resposta do estúdio. Mas não há nada, nem mesmo uma rejeição.

Eu acho que deixei um som descontente e alto escapar, porque logo Micha e Jungkook se atentaram a mim, curiosos.

— Desculpa. — Eu pedi, um pouco sem jeito.

— Aconteceu alguma coisa? Lembrou que saiu de casa e deixou o babyliss na tomada? — Micha perguntou de forma curiosa, até divertida. — Acontece sempre comigo.

— Nada tão trágico quanto a possibilidade de um incêndio provocado por utensílios de beleza. — Respondi, tentando soar bem humorado. — Só estou esperando uma resposta há dias, mas meu e-mail continua vazio.

— E-mail? — Ela cruzou os braços sobre a mesa e se inclinou para me ver melhor, com os cabelos compridos e claros escorrendo por seus ombros. — Já olhou a caixa de spam?

— Não acho que tenha ido parar lá — Respondi sem esperança, apesar de rapidamente desbloquear o celular e voltar a abrir o aplicativo do e-mail para ir até a caixa sugerida por Micha. 

E eu nem esperava nada, mas quase gritei e saltei da cadeira ao ver um e-mail não lido com o remetente da agência, enviado uma semana atrás.

— O que? — Ela se assustou. — Eu estava certa? Isso nunca acontece...

Eu nem a olhei, ansioso demais para abrir a mensagem e ler seu conteúdo, ainda sem saber se é uma aprovação ou reprovação educada.

De:  Estúdio IDOL
Para:  pjiminn@mail.com

Caro Park Jimin,

Nós do Estúdio IDOL agradecemos sua participação no processo de seleção para novos modelos e o parabenizamos por ter sido escolhido dentre tantos candidatos. Por favor, se dirija à agência até o dia 18 de junho para oficializar seu contrato.

att,
Estúdio IDOL

Eu li a mensagem umas quatro vezes antes de entender de verdade que eu fui um dos selecionados e meu primeiro reflexo foi olhar para Jungkook, que já estava me olhando à espera de alguma informação. Mas eu nem precisei dizer nada, porque assim que um sorriso enorme apareceu em meu rosto, ele pareceu entender e sorriu também, abertamente.

— É o que eu estou pensando? Você conseguiu? — Ele perguntou e bastou um aceno de cabeça para ele me puxar desajeitadamente pelo ombro para um abraço meio torto. — Parabéns, hyung!

— Uh, é notícia boa? — Micha questionou também sorridente, mesmo sem saber sobre o que se trata. — Eu vou roubar uma garrafa de champanhe pra gente comemorar!

Eu nem tive tempo de impedi-la, porque logo ela se levantou, indo apressada em direção ao bar.

Graças a deus, assim posso ficar sozinho com Jungkook por mais alguns minutos.

— Jungkook... — Eu o chamei, meio incrédulo. — Eu consegui mesmo!

— Olha esse rosto, hyung. Você achou mesmo que não ia conseguir?

Eu só ri, meio bobo. Não é que eu não acreditasse que não poderia ser chamado. Isso vai além, porque eu sempre dependi de meus pais para cada pequena vitória em minha vida. O nome deles e suas influências em suas respectivas áreas sempre foram facilitadores para mim, mas dessa vez eu não precisei nem um pouco deles. Quer dizer, só da combinação genética que resultou nesse rosto e nesse corpo abençoado que tenho.

De qualquer forma, eu li o email mais uma vez só para deixar meu sorriso ainda maior, e eu sinto tudo escurecer de tanto que meus olhos estão fechados agora.

— Porra, eu não ficava feliz assim há meses! — Confessei quando consegui me conter um pouco, e me surpreendi ao virar para Jungkook e perceber a forma como ele me olha.

Ele mal pisca e seu olhar é tão intenso sobre mim, quase como se estivesse hipnotizado.

Ele piscou meio atordoado quando me percebeu encarando-o, e pela segunda vez desde que nos conhecemos eu o vejo ficar com as bochechas vermelhas de vergonha.

— O que foi? — Eu perguntei, sem entender por que ele estava me olhando daquela forma e sem entender seu constrangimento repentino.

Ele virou o rosto, parecendo nervoso, e eu o vejo esconder as mãos debaixo da mesa antes de me responder:

— É que eu ainda não tinha te visto com um sorriso desses, e você fica muito bonito quando sorri assim...

Meu coração não pode bater tão rápido assim por algo tão pequeno. Ele simplesmente não pode.

Isso vai ser cada vez mais difícil, não é?

Vai ser cada vez mais difícil controlar o que sinto por ele, mas ainda não quero precisar afastá-lo.

— Jungkook... — Eu o chamei, levado pelo impulso. — Quer sair daqui?

Ele me olhou um pouco surpreso com minha sugestão, e até eu me surpreendo com a forma como estou cada vez menos resistente à vontade de estar com ele.

— Eu estou muito feliz, mas esse lugar e essas pessoas... — Eu o olhei, ansioso à espera de uma resposta. — Eu queria aproveitar melhor a sensação e se você quiser vir comigo...

— Ok. — Ele me interrompeu.

— É? — Eu sorri, esperançoso.

— Sim. Eu quero ver esse sorriso por muito mais tempo, hyung.

Eu acabei sorrindo mais, ou rindo, nem sei dizer. Depois, fui rápido em me levantar antes de poder desistir da ideia.

Meus pais vão ficar possessos quando perceberem que eu fui embora e eu vou ter muito mais trabalho em me manter firme na linha de, por enquanto, ser somente amigo de Jungkook se ficar a sós com ele. Mesmo assim, eu quero fazer isso.

Eu quero comemorar minha vitória e quero comemorar com ele, longe desse lugar.

— Pra onde a gente vai? — Ele perguntou, ansioso, quando também ficou de pé.

Eu balancei meus ombros, porque não faço ideia.

— Não importa. A gente descobre no caminho.

Jungkook sorriu antes de assentir quase travesso, e nós ainda hesitamos por mais um segundo antes de começarmos a caminhar apressados e rindo, nos segurando um no outro como crianças que estão prestes a aprontar algo.

— Gguk! Pra onde você está indo? — Micha apareceu em nosso caminho, habilidosa em segurar a garrafa de champanhe e três taças.

— Micha... Eu preciso ir. — Foi tudo que ele disse, parando brevemente para olhá-la.

— O que? — Ela pareceu decepcionada. — Você vai me deixar na mão de novo?!

Eu não tenho certeza, mas acredito que ela está se referindo ao dia em que Jungkook disse que tinha um compromisso, mas acabou ficando em minha casa, comigo. Foi no mesmo dia em que meus pais vieram a um brunch na casa de Kang Dae, e tudo indica que ele já estava fingindo ser namorado de Micha quando isso aconteceu. Dessa vez, ele deve ter se arrependido de tê-la trocado para ficar comigo. Agora, eu vou fazer de tudo para que não se arrependa mais.

— Desculpa! Eu juro que é a última vez! — Ele uniu as mãos num pedido de desculpas, e Micha acabou suspirando, conformada.

— Então tá, né. Pelo menos não vou precisar dividir o champanhe.

— Obrigado, Micha! — Fui eu quem disse, antes de segurar o pulso de Jungkook e continuar puxando-o para fugir comigo.

Tudo isso parece tão clichê, mas parece que são os clichês que fazem meu coração bater mais forte.

E agora, Jeon Jungkook é definitivamente o meu clichê favorito.

❥ [Continua...]

Chapter Text

— Hyung?

Eu olhei para o lado assim que ele me chamou e enfiei meu celular já desligado de volta no bolso da minha calça, dessa forma não existe a menor possibilidade de meus pais estragarem meu dia com Jungkook através de suas ligações insistentes.

É óbvio que eles não vão me deixar em paz por abandonar o brunch na casa de Kang Dae, mas eu realmente não quero pensar nisso. Pelo menos não agora.

— Oi. — Eu o respondi, caminhando lado a lado com ele pela calçada de pedras do bairro residencial de luxo.

— A gente ainda não sabe pra onde está indo? — Ele questionou, com um sorriso pequeno ainda em seus lábios.

Sem uma resposta imediata, eu olhei ao redor 

— Minha casa não fica tão longe, mas não acho que seja boa ideia ficar lá. Meus pais vão iniciar uma perseguição infindável assim que perceberem que eu não estou mais no brunch.

— Isso não vai te dar problema? — Ele perguntou enquanto continua acompanhando o ritmo das minhas passadas, as mãos nos bolsos de sua calça e nossos braços roçando um no outro enquanto caminhamos tão próximos assim.

Eu precisei umedecer meu lábio apenas por sentir sua pele tocar a minha a cada movimento despretensioso, sem deixar que nem mesmo a atmosfera quente do verão cada vez mais próximo transforme esse toque em algo indesejado.

— Eu realmente não quero me preocupar com isso agora. — Foi o que respondi, acabando por enfiar minhas próprias mãos nos bolsos para conter meus impulsos de tocar em Jungkook, talvez abraçá-lo pela cintura para senti-lo ainda mais perto.

Ele, por outro lado, curvou um pouco os ombros e assentiu silenciosamente. Cinco passos depois, ele voltou a se manifestar:

— Nós ainda precisamos comemorar, né? — Ele apontou, parecendo ansioso. — Quer... comprar um vinho? Ou a gente pode voltar e roubar uma garrafa de champanhe do brunch...

Eu ri de sua ideia, apesar de negar imediatamente.

Ele suspirou, pensando noutra sugestão.

— Eu te chamaria para ir pro meu apartamento, mas eu não garanto que vou conseguir não tentar te beijar se ficar sozinho com você, então...

Ótimo, porque também não garanto conseguir não beijá-lo caso ele tente.

— É. — Foi o que eu respondi. — Eu realmente não sei para onde podemos ir.

Jungkook ficou pensativo por alguns instantes, até me olhar com expectativa outra vez.

— E se nós formos ao Namsan Park? — Ele sugeriu. — Lembra? Nós tivemos um encontro lá, até tivemos que fugir de uns valentões...

Eu ri com a lembrança apesar de, no momento, o desespero ter sido real.

— Você está tentando transformar isso num encontro, Jeon? — Acusei, brincalhão.

Ele negou de prontidão.

— Claro que não, hyung. Nós somos só amigos, agora. Esqueceu?

Outra risada minha escapou, dessa vez um tanto menos natural.

Quem diria que eu ficaria decepcionado ao ver Jungkook negando suas investidas contra mim?

O mundo... é, ele capota.

— Nós podemos ir para o Namsan Park. — Eu disse, esforçado em não evidenciar qualquer decepção. — Chamo um táxi?

— Não, a gente está muito longe, vai custar uma fortuna. Vamos de ônibus mesmo.

Eu apertei meus olhos, encarando-o quase em ultraje.

— Ônibus? Jungkook... eu não ando de ônibus.

Ele apenas rolou os olhos e agarrou meu pulso, puxando-me para caminharmos mais rápido, e percebo que ele está me levando em direção a um ponto de ônibus.

— Ei, é sério, eu não ando nessas coisas! Deve ser cheio de germes e...

— Você sobrevive, hyung. — Ele me interrompeu. Tão insensível.

— Você parece ter esquecido, mas eu sou rico, ok? Eu não me importo de pagar uma fortuna numa corrida de táxi!

— Esnobe. — Ele resmungou e eu travei meus pés no lugar, tentando impedi-lo de continuar me puxando, então Jungkook virou até ficar frente a frente comigo e me puxou com mais força, como se brigássemos por um cabo de guerra. — Hyung!

— Eu vou chamar um táxi!

— Ônibus! — Rebateu, implicante.

— Táxi!

— Ônibus!

— Táxi!

— Táxi!

— Ô... — Eu me calei de supetão ao perceber o que ele está tentando fazer, e puxei meu braço para tentar me soltar dele outra vez. — Eu não vou cair nessa, Jeon.

— Hyung, é só um ônibus. — Ele insistiu, fincando os pés no chão enquanto inclina o corpo todo para trás, ainda tentando me puxar.

— Jungkook, para com isso. — Pedi, sério. — Eu tenho vinte e dois anos e você tem vinte e um, não temos mais idade para ficar brigando na rua como duas crianças!

Ele pareceu desistir de tentar por alguns instantes, mas depois voltou a jogar seu peso para trás e me puxou, o que me pegou desprevenido e me fez dar uma tropeçada para a frente. Por sorte, consegui recuperar o equilíbrio antes de tombar contra ele.

— Pare de ser metido e a gente não vai ter motivo pra brigar!

— Olha, eu nunca andei de ônibus na minha vida e não pretendo mudar isso agora, ok? Para você de ser inconveniente!

Jungkook apertou os olhos para mim e eu me sinto bastante julgado, agora.

Depois, ele decidiu me soltar e apontou para o fim da rua, de onde vem um ônibus.

— Então pegue seu táxi e vá sozinho. Eu vou pegar esse ônibus e vou para casa se você não deixar de ser tão fresco.

Eu revirei os olhos, sem levá-lo a sério.

— Deixa de bobeira, Jeon.

Ele levantou as sobrancelhas, talvez se sentindo desafiado, e eu o olhei com desconfiança quando ele deu os últimos dois passos até o ponto de ônibus e deu sinal ao motorista.

— Jeon! — Eu o chamei, sem acreditar que ele vai mesmo fazer isso.

— Tchau, hyung. Fica aí com seu táxi de burguês — Ele disse, abaixando o braço quando o ônibus diminuiu a velocidade até parar diante do ponto, onde abriu as portas dianteiras.

— Eu não acredito que ele vai mesmo... — Eu murmurei sozinho, incrédulo, e nem pensei direito quando o vi colocar o pé no primeiro degrau da escada. Quando dei por mim, eu já estava correndo até onde ele estava e saltei para dentro desse antro de germes, logo atrás dele.

O motorista olhou para mim com a maior cara de confusão e eu olhei para ele de volta, apavorado.

O que eu faço agora?

— Moço, tem que pagar — Ele avisou depois de nos encararmos por uns cinco segundos.

— Eu pago a dele. — O desgraçado do Jungkook disse, passando um tipo de cartão diante de uma máquina meio esquisita, que apitou duas vezes.

Mesmo assim, o motorista continuou me olhando e eu continuei parado no mesmo lugar, encarando-o de volta.

— Moço... — Ele suspirou, chateado, e eu o vi mudar a marcha. Wow, essa é uma marcha grande. — Se segure em algum lugar.

— Que...? — Eu comecei a questionar, mas acho que entendi o que o senhor quis dizer assim que ele começou a dirigir e o negócio deu uma alavancada tão violenta que fez meu corpo voar dentro do ônibus e se chocar contra uma barra metálica.

Precisa mesmo de tanta agressividade assim?!

— Hyung, — Eu ouvi Jungkook me chamar, e percebi que ele está rindo só por sua entonação, nem precisei olhar na cara dele. Mas, mesmo rindo, ele estendeu a mão para mim. — vem sentar.

Eu olhei para sua mão estendida e respirei fundo antes de me soltar lentamente da barra de apoio, e corri desajeitado quando o fiz, indo direto até o primeiro assento vago que encontrei.

— Olha as coisas pelas quais você me faz passar! — Eu o acusei, ainda com o coração disparado, e ele parece ter cada vez mais dificuldade em conter o riso.

É uma risada meio esganiçada, aguda, até se assemelha à de uma criança. Completamente adorável.

Mas não, isso não é suficiente para amolecer meu coração. Eu estou puto.

— Sua carinha de assustado é tão linda, eu já tinha esquecido. — Ele tentou me amaciar, todo sonso, depois de sentar ao meu lado.

— Você deve ter amado me ver passando por isso. — Ri sem humor algum e cruzei meus braços. — Que humilhação.

— Foi engraçado e fofo, eu não tenho culpa de ter gostado.

Eu revirei os olhos outra vez. Deus, eu realmente faço isso muitas vezes quando estou com ele.

— Cínico. — Acusei, simplesmente. — E agora parece que você conseguiu o que queria, né? Estamos indo para sua casa.

E talvez eu não esteja completamente insatisfeito com isso, mas é melhor não revelar em voz alta.

— Minha casa? — Ele pareceu confuso.

— Sim? Você não disse que estava indo para lá? Nós já estamos no bendito ônibus, então...?

Jungkook me analisou, a princípio, em silêncio. Depois, ele começou a rir como uma pessoa que se diverte com a ignorância inocente de uma criança.

— Hyung, eu estava blefando — Jeon confessou. — Esse ônibus não passa na minha casa, até porque eu moro pra lá — Ele apontou para o sentido oposto ao qual seguimos, e eu me senti imediatamente mais estúpido ainda.

Porra, eu realmente não desaprovei a ideia de ir até sua casa.

— Então para onde nós estamos indo, Jungkook?

Ele olhou pela janela, analisou a rua por algum tempo e findou olhando para mim outra vez.

— Não sei. — Foi sua resposta final.

Meu queixo quase foi parar no chão imundo do ônibus, de tão aberta que minha boca ficou.

— Fala sério, Jungkook!

— É sério, eu não faço ideia. — Ele riu. Qual a graça disso?!

— Mande o motorista parar! — Eu ordenei, olhando ao redor em busca de algum dispositivo. Eu vi em algum dorama que existe um botão para isso. — Cadê essa merda? — Praguejei, apenas encontrando uma cordinha acima da minha cabeça. Será que tem que gritar? — Moço! Moço, a gente precisa descer!

— Hyung! — Jungkook me segurou pelos braços quando eu fiz menção de, corajosamente, levantar outra vez.

— A gente precisa descer, Jungkook!

— Por que? — Ele perguntou, ainda me segurando. — Nosso destino vai ser uma surpresa. Você não gosta da ideia de pelo menos uma vez na vida deixar tudo na mão do acaso?

Eu o analisei silenciosa e cuidadosamente, digerindo cada uma de suas palavras que soam bastante encorajadoras, até. Por fim, eu suspiro e dou meu veredito:

— Não.

No instante seguinte, eu tentei ficar de pé de novo, mas fui contido pelas mãos dele outra vez, enquanto sua risada ganha mais intensidade a ponto de me fazer querer rir também ao mesmo tempo em que tento me soltar.

— Vamos descer logo, Jeon — Eu disse enquanto ainda tento me livrar de suas mãos, mas sem tentar afastá-lo. Algo como me solte, mas não solte demais a ponto de não termos mais contato. 

— Vamos ver o que o destino vai escolher para nós dois, hoje. — Ele contrapôs, cedendo ao meu jogo de brigarmos com as mãos, indiscutivelmente descartando a opção de parar de me tocar.

Antes de insistir e de voltar a gritar pedindo para o motorista parar, eu percebi que a velocidade começou a reduzir até se tornar nula, então as portas se abriram num novo ponto.

— Vamos descer. — Eu pedi, dessa vez sem tentar me levantar. Parece que meu corpo, diferente de minha mente, já cedeu aos desejos de Jungkook.

Em resposta, ele apenas balançou a cabeça para os lados, sorrindo ao perceber que venceu.

Eu fiquei em silêncio, encarando-o, e o som soprado das portas fechando outra vez alcançou meus ouvidos instantes antes do ônibus voltar a ganhar velocidade pela via vazia de domingo.

Ao perceber como o deixei ganhar outra vez, eu suspirei.

— Você sempre consegue o que quer de mim, não é? — Acusei, mas nem me sinto verdadeiramente ressentido.

— Se eu conseguisse mesmo, nós dois já teríamos transado até de cabeça pra baixo, hyung.

Eu deixei uma risada involuntária escapar, e acertei o dorso de minha mão contra sua barriga num gesto divertido de repreensão.

— Idiota. — Resmunguei.

Jungkook riu também, olhando para mim antes de voltar a olhar para fora através da janela. Entretanto, ele segurou meu pulso antes que eu pudesse afastar minha mão, e eu não ofereci resistência a isso. Apenas permiti que ele mantenha seus dedos envolvendo minha pele. Quase como se estivéssemos de mãos dadas, mas... do nosso jeito.

Durante o restante do nosso percurso desconhecido, então, nós continuamos assim. Em silêncio, sempre arranjando formas sutis de tocar um no outro.

— Hyung... — Jungkook me chamou, com os olhos vidrados em algo quando o ônibus voltou a parar alguns pontos depois. — Vamos descer aqui.

— Hm? Por que aqui? — Questionei, confuso, já que pelas janelas não vejo nada de extraordinário no lugar onde estamos. Parece só mais um bairro comum.

— Vem! — Foi tudo que ele respondeu, me puxando para ficar de pé assim que ele fez o mesmo, sem me soltar até me fazer saltar para fora do ônibus.

— Jungkook, por que a gente desceu aqui? — Eu insisti, mesmo depois de tê-lo acompanhado sem resistência alguma.

— Encontrei nosso destino! — Ele anunciou orgulhosamente, apontando para uma lanchonete que me parece completamente comum à primeira vista, até que vejo o que parece ter chamado tanto sua atenção. A placa na entrada, com uma mensagem escrita em giz: Temos suco fresco de melancia.

Outra risada escapou, mas a motivação dessa foi diferente. Não foi porque achei graça de sua euforia. É porque isso foi precioso demais.

Eu sempre achei que o destino deveria reservar as melhores coisas para mim. Um futuro promissor, beleza até meu último dia na terra e dinheiro no bolso. Entretanto, parece que hoje meu destino é uma loja de sucos... e eu estou feliz com isso.

— Você disse que gosta, né? — Jungkook lembrou, completamente empolgado. — De suco de melancia?

— Muito. — Respondi, sentindo um calor sem igual no peito. — Vamos entrar.

Dessa vez, não esperei ser guiado por ele. Eu mesmo caminhei em direção à pequena lanchonete, puxando-o junto até o balcão, onde mal precisei olhar para o cardápio antes de escolher meu suco e pagar por ele.

— Nós deveríamos brindar — Jungkook sugeriu quando nossos pedidos chegaram à nossa mesa. Meu suco de melancia e o seu de manga.

— É? Vamos brindar, então. — Cedi, já oferecendo meu copo. — Um brinde ao início da minha carreira como modelo?

— Ao início da carreira do modelo mais desgraçado de lindo que esse país já viu — Ele corrigiu, logo chocando seu copo contra o meu, e eu me sinto um bobo por sequer conseguir parar de sorrir nem mesmo quando provo o primeiro gole do suco.

Eu logo sinto o gosto da melancia dominar minha boca, e mantive minhas duas mãos ao redor do copo mesmo quando voltei a apoiá-lo sobre a mesa plástica.

É estranho me sentir assim, tão... bem.

— Você parece muito feliz. — Jungkook disse, e só então percebo que ele esteve me olhando durante todo o tempo em que divaguei distraidamente.

Eu sorri sem jeito por mal conseguir disfarçar.

— É, eu... — Comecei, sem saber exatamente como me explicar. — Eu passei os últimos meses ouvindo meus pais me acusando porque eu não estou fazendo nada da vida, mas agora eu finalmente vou começar a fazer, e vou fazer o que sempre quis. Mesmo que eu ainda não possa contar para eles, isso tudo significa muito pra mim. E...

E eu realmente, intensamente, adoro sua companhia.

— E estar com você me faz bem. — Foi o que eu disse. — Então eu estou muito feliz mesmo.

Jungkook abriu um sorriso do tamanho do mundo diante da minha confissão desajeitada, e eu me pergunto quanto ele sorriria se eu conseguisse colocar em palavras tudo que ele me faz sentir.

— Eu sinto muito por você não poder compartilhar isso com seus pais, — Ele se lamentou, apesar do sorriso persistente. — mas eu também gosto muito de estar com você, hyung.

Eu apenas concordei sinceramente, percebendo o silêncio que começou a nos rodear logo em seguida. Entretanto e surpreendentemente, não é desconfortável, não com ele.

— Hm, hyung... — Ele me chamou alguns instantes depois, brincando com o copo enquanto parece hesitar. — Eu não quero ser muito intrometido, mas eu sempre quis perguntar... você não se dá bem com seus pais?

Eu me recostei no encosto da cadeira dobrável, dando minha resposta inicial através de um menear de cabeça.

— Queria eu que minha ambição profissional fosse a única coisa que eles desaprovam, mas parece que eu sou uma decepção para eles em qualquer âmbito da minha vida — Confessei, sem fazer grande caso.

Chega um momento na vida em que você se acostuma com a sensação de ser um filho que não traz orgulho algum aos pais, e tudo que resta é uma ponta de curiosidade sobre como seria se as coisas não fossem assim.

— Eu ainda nem contei para eles que terminei com Nara, você acredita? — Olhei para Jeon, com um meio sorriso culpado. — Meu relacionamento com ela foi a única coisa que eu fiz voluntariamente e que eles aprovaram, então eu não queria estragar isso também.

Jungkook abaixou os olhos, brincando com as gotículas que começaram a se formar em seu copo gelado.

— Sinto muito que seja assim, hyung...

Eu só suspirei, dando de ombros.

— Eu devo parecer um mal agradecido falando dos meus pais assim. — Ponderei, consciente sobre a situação de Jeon. Depois de perder sua mãe, deve ser desagradável para ele ouvir pessoas falando desse jeito. — Desculpa.

— Não, eu acho que entendo. — Ele sorriu para mim. — Não precisa se desculpar por algo como isso.

Eu sorri também, mas agora me sentindo um pouco desconfortável como não me senti com nosso silêncio.

— Vamos falar sobre outra coisa. — Sugeri, depois de puxar o ar para tentar me recuperar. — Eu não esqueci a conversa que estávamos tendo no brunch antes de Micha nos interromper. Podemos começar falando sobre isso.

Jungkook assentiu com a expressão um pouco mais séria, mas não fechada.

— Certo... eu nem sei por onde começar, porque honestamente você sempre me deixa com muitas dúvidas, — Confessei. — mas acho que você pode começar explicando por que concordou em fingir ser namorado dela.

Jungkook afastou as mãos de seu copo e me olhou como quem pondera alguma coisa, antes de perguntar:

— Você quer a verdade ou alguma desculpa convincente?

— A verdade, Jungkook... por favor.

Ele mordiscou o próprio lábio e pareceu um pouco agitado, mas enfim começou a se explicar.

— Ela está me pagando para isso...

Eu até me sinto um pouco surpreso, embora não completamente. Mesmo assim, tento não deixar qualquer ponta de julgamento alcançar minha expressão ou meu tom de voz.

— Exatamente pelo quê ela paga? — Questionei, cuidadoso. — Só para você fingir ou...?

Jungkook não pareceu pensar muito para entender a sugestão implícita em minha pergunta, e rapidamente balançou a cabeça para os lados.

— Hyung, eu realmente não consigo foder uma mulher, não importa quanto ela pague.

— Certo. — Aceitei sua resposta, e parti para a próxima pergunta: — Ela é a única?

Jungkook negou outra vez.

— Várias já me pagaram para isso. Você já me viu com outra... — Ele disse, e eu apertei meus olhos em confusão sem saber exatamente a que ele se refere. Atento a isso, ele esclareceu: — Quando nós nos encontramos naquela boate em Hongdae e eu estava com uma mulher... ela estava me pagando também. Para fazer ciúmes em alguém que estava lá, ou qualquer coisa assim...

— Ah... — Eu murmurei, pensativo. — Agora realmente faz sentido.

Jungkook abanou a cabeça, e eu pensei bem antes de fazer a pergunta seguinte.

— Mais uma. — Anunciei, deslizando a língua por meu lábio num gesto um pouco tenso. — Você só falou sobre mulheres que te pagaram, mas... e homens, Jungkook?

Ele me olhou em silêncio, a expressão um pouco mais fechada, menos convidativa, e eu não sei se ele entendeu a totalidade do que estou perguntando.

Jungkook não dorme com mulheres por dinheiro... e com homens?

— Você ainda quer a verdade? — Ele perguntou, retraído.

Eu não hesitei ao fazer que sim com a cabeça. Jungkook, por outro lado, hesitou por bons segundos antes de se mover, visivelmente afetado, e apertou os ombros antes de se manifestar outra vez:

— Então eu prefiro não responder, hyung.

Eu senti algo revirar em meu estômago imediatamente, tomando sua resistência em dar uma resposta concreta como uma outra forma de, afinal, me responder. Se ele não cobrasse dinheiro para sair com homens, não deveria se sentir relutante em me dizer qualquer coisa.

Afetado por isso, eu deixei meu olhar recair na superfície da mesa, fugindo de Jungkook assim como ele parece fugir do meu olhar agora.

— Hyung... — Eu o ouvi me chamar, segundos depois. — Não fica estranho comigo, por favor...

Eu demorei algum tempo até conseguir erguer meus olhos, com pouca coragem para encará-lo enquanto meus últimos neurônios, os que não foram destruídos depois dessa sequência confusa de acontecimentos e sentimentos em minha vida nas últimas semanas, tentam chegar a uma conclusão.

Eu não quero me precipitar e assumir uma única possibilidade para tudo isso, talvez porque não importa quantas vezes e em quantas direções minha mente viaje, tudo parece apontar para uma resposta na qual eu não quero acreditar. Não quero acreditar que Jungkook dormiu com alguém por dinheiro.

Somente pensar que pode ser algo como isso faz meu estômago revirar e eu me sinto esquisito, angustiado.

— Hyung... — Jungkook voltou a me chamar com a voz medrosa, já que eu sequer consegui olhá-lo outra vez.

Ainda com a cabeça a mil, eu me forcei a respirar fundo, tentando me convencer de que não adianta tirar minhas próprias conclusões e me sentir mal baseado apenas nelas.

Jungkook já deixou claro para mim que sofreu com desilusões amorosas, então talvez ele tenha se apaixonado por algum cara que pagou para tê-lo como acompanhante e, no fim, ele saiu machucado. Por isso ele parece relutante em falar sobre o assunto, não porque necessariamente dormiu com um cliente. É, talvez seja só isso.

Um pouco mais calmo, me apegando a esse pensamento, eu passei a mão pelo cabelo antes de finalmente erguer o rosto e olhá-lo outra vez, mostrando um sorriso pequeno.

— Desculpa, eu não sabia que seria desconfortável para você falar sobre isso. — Anunciei, tentando a todo custo manter minha calma.

Jungkook pareceu mais aliviado, sua expressão inteira se tornou mais suave antes que ele negasse com a cabeça.

— Tudo bem, hyung... deve ser estranho pra você saber que alguém precisa fazer essas coisas.

— Um pouco — Confessei, amassando a borda superior de meu copo plástico antes de fazer mais um questionamento: — Mas por que você precisa fazer isso? É só pelo dinheiro?

Ele suspirou, rindo suavemente.

— Você está fazendo perguntas muito complicadas... — Jeon resmungou.

— Desculpa de novo. — Cedi, sem querer fazer mais teorias sobre isso também.

Sério, minha cabeça ainda vai explodir por tentar entender Jungkook.

— Por que você não faz perguntas mais simples, agora? — Ele sugeriu. — Como... minha cor favorita, por exemplo?

Eu ri, sugando mais um pouco do meu suco antes de olhá-lo, já ciente da resposta.

— Isso eu acho que já sei. — Anunciei, me sentindo o próprio Sherlock Holmes. — Você não tem cor favorita. Na verdade, deve gostar de qualquer coisa que seja suficientemente colorida. Acertei?

Jungkook arregalou os olhos como uma criança impressionada com um truque de mágica.

— Como você sabia?

— Você tem muitas coisas coloridas, muitas mesmo. — Anunciei, erguendo meus dedos para enumerar: — Seu tapete, seus copos, os pratos também, a colcha da sua cama... Suas roupas são sempre brancas ou pretas, mas você definitivamente gosta de cores, tanto que não deve conseguir escolher uma só.

— Caramba, hyung... — Ele murmurou, ainda impressionado. — Você presta mesmo atenção em mim, não é?

Eu dei outro tapa em seu peitoral, arrancando uma risada sua.

— Outra pergunta? — Sugeri, curioso. — Tem uma coisa que realmente me deixa pensativo, e isso você não tem o direito de não responder.

— Mas eu tenho o direito de fingir um desmaio?

Eu revirei os olhos, mesmo sem conseguir conter uma risada.

— É sério, eu quero muito saber. — Insisti, cruzando os braços sobre a mesa e me inclinando um pouco mais em sua direção. — Aqueles seus amigos do bar do Calvin... eles ficam rindo quando olham para mim. Por quê?

— Hyung, sério... — Jungkook coçou a nuca, confuso. — Quem é Calvin?

— O cara que trabalha no bar, Jungkook! Eu não sei o nome dele, mas esse não é o foco aqui. Anda, me responde. Eu tenho cara de palhaço pra ficarem rindo de mim?

Ele inclinou a cabeça levemente para o lado, com um sorriso pequeno nos lábios bem desenhados.

— Não é exatamente de você que eles ficam rindo, hyung. — Jungkook disse, e eu levantei as sobrancelhas pedindo por mais informações. — É que... lembra da primeira vez que você foi no bar?

— Não tem como esquecer aquela noite desgraçada, Jeon.

— Sim, é, então. E lembra que tempos atrás eu era garçom no seu restaurante favorito? Então... eu te reconheci assim que você entrou no bar e — Ele pigarreou, movendo os olhos num gesto desconfiado. — Talvez eu tenha reagido de um jeito... exagerado? Eu não sei, mas eu quase desmaiei quando vi você entrando num bar gay.

— Ok. Continue.

— Hyung, você não entendeu? — Jungkook piscou, confuso. — Eu sempre tive uma queda por você, mas você nem olhava na minha cara quando eu era garçom no Black Stone então nunca tive esperanças. Mas de repente você estava num bar gay! Um bar gay! Parecia que eu finalmente teria uma chance!

Eu o olhei, pego de surpresa por sua confissão.

— Você já tinha uma queda por mim?

— Desde a primeira vez que te vi, sim. — Ele pareceu um pouco sem jeito. — E todo mundo que estava comigo percebeu isso. Por deus, eu me engasguei com minha saliva quando te vi entrando!

— Hm, entendi. Depois você deve ter engasgado com a saliva daquele cara que beijou, né? Porque eu lembro bem de vocês dois se agarrando...

— Eu queria chamar sua atenção. — Ele suspirou. — E eu estava muito bêbado, então não me culpe por só ter pensado nisso, na hora...

Eu deslizei a mão pelo cabelo, mantendo um cotovelo sobre a mesa, e acabei rindo.

— Vocês parecem um bando de pré-adolescentes.

— O que é que eu posso fazer, hyung? A culpa é sua, você que me faz sentir essas coisas.

Eu sorri mais um pouco, virando o copo na boca para terminar de tomar o suco e talvez disfarçar esse sorriso bobo e persistente, mas honestamente... saber que Jungkook sempre esteve atraído por mim me faz sentir algo tão bom, ao mesmo tempo em que me arrependo por não tê-lo notado antes.

— Agora é minha vez, né? — Ele atraiu minha atenção, então. — Você fez suas perguntas, então agora é minha vez.

Eu voltei a me recostar na cadeira, fazendo um gesto com a cabeça para que ele vá em frente.

— Pode mandar. O que você quer saber?

— Uma coisa só. — Ele disse, com um sorriso travesso. — O que exatamente você sente por mim, hyung?

Eu o olhei em silêncio antes de sorrir, negando brevemente.

— Não posso responder isso. Faça outra pergunta.

— Essa é a única pergunta que quero fazer agora. — Ele insistiu, teimoso.

— Então sinto muito. — Eu me mantive firme.

— Hyung... — Jungkook fez uma expressão manhosa completamente adorável. — Não é uma pergunta difícil, por que você não pode responder?

— Porque nós somos amigos, Jungkook. Não é adequado dizer essas coisas que eu sinto por você se nós somos somente amigos.

Ele piscou, confuso e emburrado.

— Você vai me deixar curioso? — Perguntou, inconformado.

Eu deixei o ar escapar furiosamente pela boca, se chocando contra meus lábios e quase me fazendo relinchar.

Caralho, eu acabei de respondê-lo indiretamente e ele não entendeu? Como ele consegue ser tão lerdo assim?

— O dia está bem bonito, nós deveríamos dar uma volta. — Eu desviei do assunto, completamente cínico.

— O que...? Hyung! — Ele me chamou afobado assim que fiquei de pé, já caminhando para fora da lanchonete. — Ei, hyung! — Continuou me chamando, e eu me sinto mal por sequer conseguir conter um sorriso quando ouço seus passos apressados até que ele me alcance. — Para de me ignorar!

Eu acabei rindo e até parei de andar para olhá-lo, vendo-o com a expressão brava.

— Hm... o que nós vamos fazer agora? — Eu murmurei pensativo, olhando ao redor somente para provocá-lo mais.

— Você é insuportável! O que custa me responder?! — Jungkook esbravejou. Ainda não deixou de ser fofo.

— Eu te dei o direito de não me responder, caso não quisesse. — Lembrei, erguendo as sobrancelhas quase em desafio. — Então exijo meu direito de fazer o mesmo.

Ele me olhou ainda inconformado, até que cruzou os braços e virou o rosto para o lado, completamente insatisfeito. Isso só me fez rir mais.

— Certeza que foi o curso de direito que te deixou cruel assim. — Ele resmungou, prolongando minha risada.

— Anda, vamos fazer outra coisa — Eu disse, me controlando furiosamente para não rir demais, e mesmo emburrado ele não ofereceu muita resistência quando segurei seu pulso para puxá-lo comigo. À medida que seguimos caminhando pela cidade quente, eu percebi que já deveria tê-lo soltado, porém o que fiz foi manter meus dedos envolvendo seu pulso a cada passo que demos.

Depois de caminharmos um tanto mais em silêncio, nós passamos por uma espécie de galeria sem muito movimento e eu rapidamente vi uma máquina de brinquedos logo na entrada.

Tudo bem. Eu já tenho vinte e dois anos, não devo perder o controle por uma máquina assim. Sério. Não vou fazer isso.

— Uma máquina de brinquedos! — Jungkook quase gritou, e meu coração parou pelo susto. — Vamos comprar alguma coisa, hyung!

Oh, santo caralho. Eu tento, mas é difícil ser maduro ao lado dele.

Que se foda.

— Eu compro primeiro! — Anunciei, soltando-o rapidamente para me adiantar até a máquina, já puxando a carteira para fora do bolso.

Diante do trambolho enorme, eu coloquei a nota para sortear um dos brinquedos surpresa jogados ali dentro e, depois de apertar o botão, esperei ansiosamente que meu prêmio caísse no recolhedor.

— O que é? — Jungkook perguntou, curioso, quando peguei a bolinha desmontável que ganhei.

Eu a abri com um pouco de dificuldade e quando separei uma metade oca da outra, vi meu brinde ali dentro.

Um anel de plástico, colorido.

Que bosta.

— Eu quero meu dinheiro de volta. — Resmunguei, decepcionado.

— Deixa de ser chato. — Jungkook me empurrou para o lado. — Minha vez.

Ele fez exatamente o mesmo processo que eu, e então uma outra bolinha caiu no recolhedor. Quando ele a abriu, eu revirei os olhos por ver outro anel de plástico, dessa vez preto.

— Que máquina ruim do caralho — Praguejei.

— É bonitinho. — Jungkook disse, tentando enfiar o anel em seus dedos, mas não coube nem no mindinho.

É isso que acontece quando homens adultos brincam com coisas de criança.

— Merda... — Ele se lamentou e deu um tapa na máquina. — Agora quero meu dinheiro de volta também!

— Me dê aqui — Eu ri, já tomando sua mão com a minha, então tentei encaixar meu anel colorido em seu dedo. No fim, o meu parece ser um pouco maior, já que entra facilmente em seu anelar. Até me assustei, porque serviu direitinho. — Não é que coube mesmo?

Jungkook olhou para o adorno de plástico e sorriu meio bobo para ele antes de segurar minha própria mão e, sem que eu esperasse, colocou o anel preto no meu dedo. Minha mão é menor, então o negócio cabe no meu anelar, também.

— E o meu coube em você. — Ele analisou, sem soltar minha mão. — Acho que nós estamos casados agora.

Eu arregalei meus olhos, completamente pego de surpresa, e comecei a gaguejar feito um desgraçado quando tentei me contrapor a isso.

— O-o que? Eu... eu não fiz nesse sentido!

— Brincadeira, hyung. — Ele riu, olhando mais uma vez para o anel em seu dedo. — Mas ficou bonito. Vou usar sempre.

Eu pigarreei ainda sem jeito e dei as costas para ele ao me virar bruscamente para a máquina outra vez, já puxando outra nota para tentar pegar um outro brinde só para aliviar a tensão que senti repentinamente.

Depois de pegar meu novo prêmio, eu ri ao perceber que dessa vez a bolinha surpresa veio com uma presilha também de plástico, em formato de borboleta.

Essa merda só piora.

— Essa máquina é horrível — Eu resmunguei, mesmo rindo tanto.

Quando virei para Jungkook para fazer graça com meu novo adorno barato, entretanto, eu o vi um pouco distraído, apontando a câmera de seu celular para mim.

— O que você está fazendo? — Perguntei, repentinamente sem jeito outra vez.

Ele mostrou um sorriso traiçoeiro ao perceber que foi pego e abaixou o celular.

— Eu precisava tirar uma foto disso. — Ele disse, ainda com um meio sorriso.

— Deixa eu ver — Pigarreei e estendi a mão, exigindo seu telefone. — Se não tiver ficado boa, vai ter que tirar outra.

— Eu tirei um monte, na verdade. — Jungkook confessou, travesso, entregando-me seu celular. — Vê.

Eu lancei uma olhadela desconfiada para ele antes de ver a foto recém tirada, depois deslizei a tela para a foto anterior, confirmando que, sim, ele tirou várias fotos minhas enquanto eu esperava ansioso como uma criança diante da máquina de brinquedos sortidos.

Eu ri ao perceber minha imagem eternizada diante do negócio colorido, entretanto, acabei voltando demais e as minhas fotos chegaram ao fim, o que me fez chegar a uma tirada em outro momento.

Eu me surpreendi um pouco. É uma foto bem artística do Keanu Reeves, o cacto dele.

— Wow, que foto fofa. — Eu disse sem pensar, e Jungkook se aproximou, curioso para ver do que estou falando.

— Ah, — Ele riu. — o modelo ajuda. O Keanu é fofo, né?

Eu concordei. O peludinho é adorável mesmo.

— Tem outras fotos dele? — Eu perguntei, curioso.

— Tem um monte. — Jungkook anunciou orgulhosamente e tomou o celular de minha mão, mas não o tirou do meu campo de visão, então eu pude ver um punhado de fotos quando ele abriu o rolo da câmera.

Mesmo sem analisá-las criteriosamente, eu vejo que são poucas as fotos dele mesmo, diferente do seu feed no Instagram. A maioria das fotos é de coisas da natureza ou da cidade, até vejo algumas fotos dos mangás que eu emprestei para ele ao lado de uma embalagem de leite de banana, acho que a mesma que levei para ele no outro dia.

— Olha — Ele enfim abriu uma nova foto. Nessa, o cacto miúdo está posicionado perto de uma miniatura de árvore de natal, com luzes de pisca-pisca posicionadas cuidadosamente ao fundo. — Eu adotei o Keanu no final do ano passado, então me empolguei e tirei um monte de fotos temáticas dele. Foi a primeira vez em muito tempo que não passei o natal sozinho, porque o Keanu já estava comigo.

Eu o olhei, procurando algum traço de humor em seu rosto ou em seu tom de voz, mas tudo que encontrei foi um sorriso sincero enquanto ele fala de seu cacto.

— Tem essa também — Ele disse, mostrando uma nova foto, sem perceber como estou olhando-o agora. — Ele é tão lindinho...

— Sim... — Eu engoli em seco diante de sua felicidade por ter uma planta como companhia.

— Eu tenho muitas fotos dele. Meu celular quase não tem memória por causa disso...

Eu mordi meu lábio, tentando me livrar um pouco da angústia que senti de repente.

— Por que você não posta nenhuma dessas fotos no seu Instagram? — Perguntei, usando minha curiosidade para abafar a sensação ruim. — Você tira tantas fotos bonitas, Jungkook.

— Eu já disse, hyung, as pessoas que me seguem lá não estão interessadas nisso. — Ele deu de ombros, conformado, e bloqueou a tela do seu celular. — E essas fotos são importantes para mim, eu não quero mostrar para pessoas que não vão dar valor nenhum a elas.

Eu assenti, acho que entendendo seu ponto.

— Você tem muito talento, de qualquer forma. — Ponderei sinceramente. — Nunca pensou em trabalhar com isso?

— Não. — Ele respondeu rapidamente. — Minha relação com as fotos que tiro é diferente.

— Como assim? — Questionei, verdadeiramente curioso.

— Eu vou te contar — Jungkook disse, tirando sua carteira do bolso. — Mas você não pode me achar bobo.

— Ok. Prometo que não vou.

Ele me olhou uma última vez com os olhinhos comprimidos, como se tentasse se certificar do que estou dizendo. Depois, ele cedeu e abriu sua carteira, — e eu percebi que já está bem desgastada, o botão de pressão nem fecha mais — tirando dali uma foto pequena e passando-a para mim.

Eu segurei a fotografia com cuidado, percebendo como é antiga, e vi um casal no centro da foto, sorrindo alegremente para a câmera.

Será que...?

— Esses são meus pais, hyung — Ele confirmou minha suspeita com um sorriso nostálgico. — Eu já disse que nós éramos pobres, mas uma vez meu pai juntou dinheiro e comprou uma câmera bem simples. Ele tinha dessa coisa, de querer comprar o que não tinha tanta necessidade. Minha mãe ficou brava na hora, eles brigaram muito, mas eu consegui tirar essa foto tempos depois e... você consegue ver como eles estão felizes? — Jeon perguntou, os olhos carinhosos pousados na foto de seus pais. — Esse foi um dia feliz, e graças a essa foto eu sempre posso lembrar dele. Por isso hoje eu tiro fotos de tudo que me faz feliz. Assim, sempre vou poder lembrar dessas coisas.

Eu senti o ar penetrar e abandonar meus pulmões lentamente, absorvendo cada uma de suas palavras.

Ele suspirou, parecendo envergonhado diante do meu silêncio.

— Eu sei que parece meio bobo...

— Isso não é bobo, Jungkook. Isso é muito bonito de verdade... — Confessei sinceramente. — Mas... por que então você tem fotos dos meus mangás, do leite de banana que te dei e tem fotos minhas também?

Ele sorriu abertamente e sua resposta foi direta:

— Porque você me deixa feliz, hyung.

Eu abaixei os olhos, incapaz de controlar o que estou sentindo agora. Meu coração está batendo muito forte, tão forte que chega a doer.

— Eu gosto de você, hyung. — Ele ainda insistiu, e meus batimentos desandaram de vez.

— Você gosta de mim?

— Eu gosto do jeito como você me olha agora... como se eu fosse uma pessoa de verdade.

Ah. Eu achei que ele quis dizer que gostava de mim... daquele jeito.

Por que estou me sentindo decepcionado?

— Eu gosto da sua risada e de como você me faz rir também, gosto dessa sua mania de ser sempre tão metido e mesmo assim ser uma pessoa tão boa comigo. Eu gosto de como me sinto quando estou com você, Jimin. Eu me sinto muito feliz.

Eu pisquei, completamente desajeitado, inteiramente rendido a cada declaração sua.

— Por que você está dizendo isso agora? — Eu perguntei, ainda desprevenido.

— Porque eu quero que você saiba que eu não me importo se nós vamos ser só amigos, ou não. — Jungkook sorriu genuinamente, exibindo os dentes que parecem os de um coelho. — Eu só espero poder continuar me sentindo assim por muito mais tempo, hyung.

Eu me sinto completamente paralisado agora. Eu não sei o que dizer ou o que fazer, sequer sei se meu coração vai aguentar continuar batendo tão forte assim.

Mas Jungkook ainda não parece ter acabado, então eu ouço sua confissão final:

— E mais cedo você disse que eu tenho várias versões, depois me perguntou que versão é essa que aparece quando eu estou com você... — Ele lembrou e eu esperei ansioso por sua resposta, que veio a seguir: — Hyung... essa é a versão de verdade.

❥ [Continua...]

Chapter Text

— Hyung... essa é a versão de verdade.

Eu continuei olhando-o em silêncio, sem conseguir medir o tamanho do significado que essa declaração teve para mim.

— Não era no começo, sabe? — Ele voltou a dizer com um sorriso constrangido e as mãos outra vez escondidas nos bolsos da calça. — Eu te queria tanto, tanto, hyung, e precisava chamar sua atenção para você me notar também, então acabava fingindo ser outra coisa só pra você me desejar de volta. Lembra de como você me chamava de safado a cada cinco segundos?

Eu ri, incapaz de esquecer.

— Eu ainda te acho um safado. — Confessei, levando meus dedos até seu rosto para apertar sua bochecha. — Mas um safado fofo e atencioso que tira fotos incríveis e faz os melhores bolos que eu já comi. — Eu pausei, um pouco preocupado sobre minha última colocação. — É melhor que Jiwon nunca saiba que eu disse que seus bolos são melhores que os dela.

Dessa vez, foi Jungkook quem riu. Ele começou a caminhar, em busca do nosso próximo destino indefinido, e é claro que o acompanhei.

Alguns segundos depois, ele voltou a falar.

— Eu também tinha uma visão limitada sobre você, na verdade. — Foi sua confissão. — Mas a cada brecha que você abria e mostrava que era muito mais do que eu pensava, eu também mostrava mais do que eu sou. E nem era proposital, era só que... em algum momento, eu não queria só que você me desejasse. Eu também queria que você gostasse de mim. Queria que você gostasse do Jungkook de verdade, do mesmo jeito que eu gostei do Jimin que conheci melhor.

Eu continuei andando ao seu lado em silêncio, sem saber exatamente como responder.

— Isso não faz sentido pra você, né? — Ele questionou, frustrado.

— Quer saber? Faz. Faz muito sentido. — Anunciei, depois de uma breve reflexão.

Se eu fizer uma análise de várias situações passadas, posso encontrar inúmeras delas onde precisei mostrar um sorriso quando apenas queria revirar os olhos, como se sorrir fosse minha própria máscara. No fim, Jungkook não é o único a fingir ser algo que não é. Acho que todos nós, em algum momento de nossas vidas, mostramos apenas versões simplificadas e modificadas de nós mesmos, porque a versão completa é sempre cheia de falhas e nem sempre estamos prontos para mostrar nossas fraquezas a alguém.

Agora, eu percebo como minha constatação anterior foi equivocada.

Não é que Jungkook seja um bom ator. Talvez ele seja, também. Mas, acima de tudo, ele só me parece humano.

E assim como ele me mostrou o seu eu de verdade, eu mostrei a ele o Jimin por trás dos sorrisos falsos. Com ele, eu sinto que não preciso fingir. Eu não quero fingir. Eu reviro meus olhos quando quero revirar, e então todos os meus sorrisos ao seu lado são sinceros.

— Então... — Ele ponderou depois de andarmos sem rumo por mais algum tempo. — O que a gente faz agora?

Eu olhei ao redor, tentando conseguir, assim, um lampejo. Entretanto, eu ainda não faço a menor ideia de onde estamos.

— A gente pode só... continuar caminhando mais um pouco? — Sugeri, surpreendentemente sem entrar em pânico.

Jungkook sorriu como se tivesse escutado a melhor ideia de todas.

— Ok. Eu gosto de caminhar com você, hyung.

Eu fiz um gesto de concordância, porque também gosto de caminhar com ele. É ainda melhor quando conversamos, e nós conversamos muito. Eu descobri que Jungkook na verdade é de Busan, mas sua família veio para Seul quando ele ainda era muito novo. Também descobri que ele não gosta de números pares, odeia cebola e tem absoluto horror de insetos voadores.

Ah, e Jungkook nunca namorou.

De minha parte, ele ouviu uma confirmação sobre meu medo de altura. Confessei o quanto gosto de sabores azedos e que odeio maçãs. São frutas sem graça alguma.

E agora ele sabe que eu já estive em quatro relacionamentos.

O primeiro aos dezesseis anos. Durou sete meses. O segundo e o terceiro vieram durante meus dezoito, um durou nove meses; o outro, duas semanas. Por último, aos vinte e um, eu comecei a namorar Kang Nara.

Um ano e alguns meses de duração. O maior tempo perdido de minha vida.

— Por que você passou tanto tempo com ela, então? — Jungkook questionou, em algum momento. — Você fala como se ela fosse a pior pessoa do mundo...

Nós estamos sentados num banco de uma pequena praça que encontramos por acaso, e eu deixei minha cabeça tombar levemente para trás, com meus olhos observando o céu limpo logo acima de nós.

— Ela é uma mulher do caralho, na verdade. Mora sozinha desde os dezenove, já trabalha e mesmo assim sempre teve as melhores notas da turma em quase todas as matérias. Ela é muito inteligente e esforçada, era engraçada também, só um pouco estressada. Mas, porra! Ela me traiu com nosso amigo!

Jungkook ficou algum tempo calado e eu não o pressionei a fazer qualquer comentário, até que senti seus olhos pousarem em mim.

— Você ainda gosta dela, né? — Ele perguntou, sua entonação quase conformada.

Conformada com o que, pelo amor de deus?

— Eu odeio aquela sonsa. — Foi o que respondi e não é de todo mentira, mas eu ainda a admiro secretamente. De forma platônica, no entanto.

Jungkook riu, sem parecer se divertir de verdade.

— Amor e ódio são as duas faces da mesma moeda. Não é isso que dizem? — Ele ponderou, seus olhos agora apontados na direção de seus dedos, que desenham círculos invisíveis na madeira envelhecida do banco.

— Eu não a amava mais, Jungkook. — Confessei, voltando a olhar para cima. — Mesmo antes de tudo terminar assim, parecia que nós tínhamos voltado a ser somente amigos.

Ele concordou em silêncio. Sua mão voltou para seu colo e ele tocou no anel de plástico em seu dedo.

— Namorar é complicado, né? — Ele concluiu com uma risada fraca. — Ainda bem que ninguém nunca gostou o suficiente de mim para querer namorar comigo.

— Você deve ter conhecido umas pessoas bem fodidas, já que nenhuma delas quis namorar você — Comentei sinceramente.

— Eu não acho. Você por um acaso me namoraria?

— Claro que sim. — Respondi rápido e completei mais rápido ainda: — Se não fossemos só amigos.

Jungkook riu e segurou minha mão, colocando seu dedo ao lado do meu e exibindo nossos pavorosos anéis de plástico juntos.

— Não somos só amigos, nem namorados. — Ele anunciou, então: — Somos casados!

Eu puxei minha mão e dei um tapa em suas costas, sem conseguir reprimir o riso.

— Para de falar que nós estamos casados, idiota.

— Eu já disse que é brincadeira. — Ele se defendeu, segurando minha mão para evitar outro tapa. — Nós não vamos usar alianças de plástico quando casarmos, vamos usar alianças de ouro.

Eu me soltei dele. Dei outro tapa, depois fiquei de pé.

— Você é doido. Como é que você fala de casamento com um cara que está quase entrando em colapso para aceitar que gosta de homens também?

Ele exibiu uma careta arrependida e eu suspirei, complementando minha reclamação anterior, com o tom de voz bem firme:

— E para sua informação, eu vou querer alianças de ouro branco!

A expressão de Jungkook metamorfoseou para algo surpreso, depois divertido. Antes de ver qual seria sua próxima reação, entretanto, eu virei as costas e voltei a andar, mas ri quando ele correu para me alcançar e me abraçou subitamente pelo pescoço, também rindo.

— Então você já pensou até nas alianças que vai querer usar quando casar com alguém, hyung? — Ele perguntou, e existe um leve tom de provocação em sua voz.

De qualquer forma, Jungkook não voltou a sugerir esse disparate de que eu vou me casar com ele. Assim como eu, ele sabe que isso não deve ser mencionado de forma séria, porque não vai acontecer.

Quer dizer, nosso país nem reconhece a validade de um casamento entre duas pessoas de mesmo gênero.

Mas logo esse deixou de ser o tópico de nossa conversa. Nós engatamos em outro assunto, e em mais um por cima desse, porque é extremamente fácil conversar com Jungkook sobre qualquer coisa.

No fim do dia, nós ainda paramos em um outro lugar para comer, e então decidimos voltar para casa.

— Você vai voltar de ônibus? Voluntariamente? — Ele questionou quando me viu parado ao seu lado no ponto por alguns minutos.

— Claro que não. Só estou esperando você pegar o seu, aí eu chamo um táxi.

Jungkook riu. Aposto que me chamou de burguês, na sua mente.

— Você é atencioso, hyung. Um cavaleiro mesmo.

— Cavalheiro. — Corrigi, olhando para o fim da rua para ver se algum ônibus já está vindo.

Mas não que eu esteja com pressa. É o oposto, na verdade. Eu não me incomodaria de passar mais tempo com Jungkook.

— É, isso aí. — Ele não se importou muito. — Mas ah... a gente nem assistiu anime, né?

— É. Vamos ter que nos encontrar de novo para assistir. Que pena...

— Aham. A maior porcaria. Não acredito que vou ter que sair mais uma vez com o cara mais bonito e gostoso que eu já conheci!

Eu ri outra vez, mas não por muito tempo, porque Jungkook se inclinou um pouco para a frente e olhou na mesma direção que eu também olhei segundos atrás.

— Ah... meu ônibus tá vindo...

Ótimo. Ele também parece chateado por ter que se despedir de mim, e isso me fez rir um pouco, mas Jungkook pareceu interpretar meu riso de forma equivocada.

— Você deve estar cansado, doido pra se livrar de mim, né? — Ele riu sem jeito. — Desculpa, eu te aluguei o dia todo...

— Eu ri porque você parece querer ficar mais tempo comigo. E eu também queria ficar mais tempo com você. — Eu suspirei, o ônibus se aproximando rápido demais. — Nós dois somos idiotas na mesma intensidade e eu achei isso engraçado. Desculpa.

— Ah... — Ele separou os lábios e abriu bem a boca, mas depois abriu foi um sorriso enorme e passou a mão na nuca. — Acho que fiquei sem jeito, hyung...

— Então eu te fiz provar do próprio veneno. — Provoquei, tentando superar essa sensação de euforia que eu mesmo estou sentindo por ter conseguido dizer tão abertamente o quanto gostaria de ficar mais tempo com ele.

O ônibus se aproximou, reduzindo a velocidade para parar no nosso ponto.

— Mas então... eu já vou agora. Me avisa quando chegar em casa?

— Aviso. Avise também. Seu bairro é muito esquisito.

— Eu conheço todos os bandidos de lá, não se preocupe.

Eu ri outra vez. O ônibus parou, mas Jungkook ainda hesitou por alguns instantes.

— Então... tchau, hyung. Volte com cuidado.

Agora, eu quem assenti. Jungkook virou as costas para entrar no ônibus, mas girou sobre os próprios pés outra vez, deu dois passos em minha direção e, sem que eu estivesse preparado para isso, deixou um beijo meio desastrado na minha bochecha.

Jungkook ficou vermelho. Eu acho que também fiquei.

— Ok... tchau!

Ele correu até o ônibus e eu observei a lotação se afastar, ainda parado no mesmo lugar, quase paralisado. Meu coração, entretanto, está completamente frenético por conta de um beijo na bochecha. Só um beijo na bochecha.

— Cada vez mais fodido, Park Jimin... — Eu suspirei baixinho, mas acabei rindo na minha solidão.

Durante todo o caminho no táxi até voltar para casa, nem mesmo a preocupação sobre a reação dos meus pais depois que eu fugi do brunch me tirou o sorriso do rosto.

Entretanto, quando paguei a corrida e abri a porta da frente, eu os encontrei sentados numa das salas e sequer pude passar despercebido, porque logo seus olhos atentos como os de um predador recaíram em mim.

— Onde você estava? — Minha mãe ficou de pé, com um píres e uma xícara nas mãos.

— Eu precisei resolver uma coisa. — Menti, mas não me esforcei em elaborar bem uma desculpa. Não vai adiantar, de qualquer forma.

— Oh. Precisou resolver uma coisa. — Ela ponderou com deboche, e sua voz se tornou mais amargurada a cada palavra dita a seguir: — Claro. Eu deveria ter dito isso quando todos os meus sócios perguntaram por onde andava meu filho que deveria estar lá!

Ela vai jogar a xícara em mim, eu tenho certeza disso.

— Esqueça, Haneul. — Meu pai também ficou de pé, e tomou a xícara das mãos dela antes que o negócio fosse arremessado em minha direção. — Não perca mais sua paciência com um caso perdido. Se Jimin quer ser um ninguém na vida, que seja. Não é como se isso fosse alguma novidade para alguém.

Eu pisquei, desacreditado.

Uma xícara cheia de chá quente sendo atirada em minha direção seria menos doloroso que essa indiferença.

Eu sei que eles não têm mais expectativas em mim há muito tempo, sei de verdade. Entretanto, toda a decepção deles sempre foi velada, quase sutil, evidenciada através de olhares de desgosto e comentários que beiravam a maldade, mas não eram completamente maldosos.

Mas nenhum deles disse palavras como essas, não em minha frente. Agora, parece que afirmações assim já foram feitas inúmeras vezes entre os dois.

— Nós tentamos te ajudar. — Minha mãe disse. Esse sentimento ressentido é o mais próximo de tristeza que ela pode esboçar. — Mas parece que realmente não adianta.

Palavra nenhuma saiu de minha boca, e eu nem recebi as olhadelas repreensivas que sempre são lançadas em minha direção. Ela só passou as mãos pelo vestido de grife e me deu as costas. Meu pai foi até a cozinha depois de um olhar de desgosto.

E foi isso.

Sem brigas, sem gritos, sem exigências por uma justificativa válida para o meu sumiço do brunch. Foi só... indiferença.

E pela primeira vez em anos, doeu.

Ainda com essa sensação esquisita, eu voltei ao meu quarto. Perdi algum tempo remoendo o que acabou de acontecer, enquanto acompanhava a água enchendo a banheira da minha suíte.

Depois, eu me livrei de toda minha roupa e mergulhei na água gelada tentando colocar minha cabeça no lugar, me convencendo de que a forma como meus pais expressam o que sentem por mim não importa. Não me abalou antes, então não vai abalar agora também.

— Ok. É isso. Você nunca se importou, não é agora que vai começar a se importar. — Repeti para mim mesmo quase como num mantra, e resolvi relaxar.

Assim, peguei meu celular, que foi previamente deixado sobre a borda seca, e ele vibrou com várias mensagens de Jungkook assim que o liguei.


Jeon
|Hyung, já cheguei em casa 💛

Jeon
|Você ainda não chegou? Já faz um tempo...

Jeon
|Hyung, não esteja morto em algum canto da cidade, por favor, eu preciso de ajuda!!

Jeon
|O anel entalou no meu dedo e não saaaaaai meu dedo vai cair ):

Jeon
|Ah

Jeon
|Saiu lol

Você alterou o contato [Jeon] para [Jungkook]

Acabei de tirar o meu com sabonete ㅋㅋ|

E cheguei há um tempo, desculpa não ter avisado antes :/|

Jungkook
|Não tem problema! ficou tudo bem com seus pais?

Eles ficaram bravos, mas não falaram muita coisa. Não quero pensar muito nisso|

Pode ficar conversando comigo mais um pouco?|

Jungkook
|Claro que sim, hyung

Jungkook
|Posso começar falando sobre como foi bom passar o dia com você? 💛

Eu também gostei. de verdade mesmo.|

Jungkook
|Que seco ):

O que? Pior você que usa esse coração com todo mundo -_- me sinto um qualquer|

Jungkook
|Mentira! eu só uso com quem gosto de verdade!

Não importa, eu quero algo mais exclusivo|

Jungkook
|Você é chato e mesquinho, hyung grr

🌵|

Pode ser esse. O emoji do cacto vale mais que o de coração e você só pode usar comigo|

Ele representa o Keanu, então dê valor a ele e não use com qualquer um, seu safado|

Jungkook
|Tá bom, o emoji do keanu é só do hyung e ele representa o quanto eu gosto de você

Melhor assim|

Ei... amanhã eu vou precisar ir assinar o contrato com o estúdio, mas quer assistir anime comigo à noite?|

Jungkook
|Quero! depois do trabalho eu to livre!!

Certo. Você acha que consegue chegar aqui em casa umas 20:00?|

Jungkook
|Sim!! Nem acredito que vou poder te ver de novo tão rápido, hyung *-*

Eu também não queria esperar muito tempo :x|

Jungkook
|Eu acho que vou desmaiar

Não desmaie ㅋㅋ|

Espera um pouquinho, preciso terminar de me lavar. Já volto|

Jungkook
|Você tá pelado enquanto fala comigo? Manda foto *-*

Jungkook... -_-|

Jungkook
|Tá ok... vou esperar ):

Jungkook
|Até daqui a pouco, hyung 🌵

Até 🌵|


Eu terminei de tomar meu banho rapidamente, porque queria voltar a falar com Jungkook. Assim que terminei de me preparar para dormir, mesmo ainda sendo tão cedo, eu me enfiei debaixo das cobertas na cama e voltei a mandar mensagens para ele. Nós dois precisamos acordar cedo amanhã, mas mesmo assim continuamos nos falando até as duas da manhã. Pela primeira vez, eu não me preocupei com olheiras manchando a beleza do meu rosto, porque conversar com Jungkook me distraiu ao ponto em que sequer lembrei das manchas arroxeadas.

Quando acordei mesmo depois de poucas horas de sono, eu me senti bem. Independente do que aconteceu com meus pais ontem, hoje eu vou finalmente dar mais um passo para realizar meu sonho e também vou ver Jungkook outra vez.

— De novo com esse sorriso no rosto, Jimin? — Jiwon perguntou quando saí do quarto e a encontrei limpando a sala.

Meu deus, ela chega muito cedo mesmo.

— É. — Eu a abracei, quase puxando-a para dançar no meio da casa. — Eu me sinto feliz, o que posso fazer?

— Continuar assim. — Respondeu em meio a uma risada quando rodopiei com ela.

Eu logo a soltei, interrompendo nossa dança sem música de forma dramática.

— Preciso comer, não posso me atrasar.

— Tem compromisso hoje? — Ela me olhou da cabeça aos pés. — Por isso está arrumado assim. Não se preocupe, seu café já está pronto.

— Obrigado! — Agradeci, caminhando até a cozinha. Meus pais já saíram para trabalhar, então me sinto mais à vontade e grito para ela: — Jiwon, será que você pode me ensinar a fazer aquele pão?

Resposta nenhuma veio, então inclinei minha cabeça para fora da cozinha e a encontrei com uma expressão aterrorizada no rosto.

— Você quer cozinhar? — Ela questionou, desacreditada. — Jimin... que bicho foi que te mordeu?

— Eu só quero tentar fazer uma coisa pra causa desse sorriso lindo aqui — Apontei para meu próprio rosto. — Você me ensina, não é?

Ela suspirou com as mãos cruzadas no cabo da vassoura, então apoiou seu queixo ali.

— Se é por quem te deixou feliz assim às sete e meia da manhã... claro que ensino!

Eu mandei um beijo para ela e pisquei antes de voltar a me enfiar na cozinha, onde meu café está servido no balcão. Depois que terminei de comer e escovei os dentes, chequei uma última vez minha aparência e peguei todos os documentos necessários, eu finalmente saí rumo ao estúdio IDOL.

— Bom dia, meu nome é Park Jimin. — Me apresentei na recepção assim que cheguei. — Eu fui aprovado na última seleção e vim trazer meus documentos para oficializar o contrato, com quem falo?

— Ah, bom dia! — A recepcionista sorriu e pareceu checar algo em seu computador. — Park Jimin, não é? Eu posso ver seu documento?

Eu assenti e rapidamente tirei minha identidade do envelope com toda a documentação que trouxe. A mulher, com um crachá na blusa que a apresenta como Geum So-yeon, a avaliou brevemente antes de devolvê-la junto com um crachá de visitante.

— Aqui, senhor. — Outro sorriso receptivo. — Você pode se dirigir à sala do nosso diretor no segundo andar. O nome dele é Kim Seokjin.

Wow. Eu vou encontrar Kim Seokjin pessoalmente?

Ele é simplesmente a pessoa que mais admiro nessa vida. Hoje ele é dono e fundador da IDOL, mas já foi um modelos dos mais bem pagos do país. Entretanto, suas qualidades não se resumem a isso. Ele também tem restaurantes, já mostrou ter uma voz incrível e é um ator maravilhoso. O cara é uma bomba de talento e sucesso.

— Certo. Obrigado. — Eu agradeci, tentando não evidenciar meu surto indiscreto.

Depois, me dirigi pelas escadas até o andar de sua sala, coisa que não foi difícil de encontrar, mas ainda tive que esperar um tempo antes que a secretária liberasse minha entrada, e eu o fiz depois de me anunciar com duas batidas na porta.

E, caralho, é realmente ele. É realmente Kim Seokjin bem diante dos meus olhos.

Não acontece com muita frequência, mas eu me senti intimidado e empaquei na porta igual a um cavalo velho.

— Jimin, não é? — Ele sorriu para mim, apontando para uma das cadeiras de visitante. — Eu sei que minha beleza intimida, mas pode se aproximar. Venha ver que de perto eu sou ainda mais bonito.

Eu ri, mas acho que foi de nervoso.

Mesmo assim, me aproximei e sentei no lugar indicado por ele. Não consegui falar nada.

— Todos têm essa reação — Ele suspirou com um ar autoconfiante. — Confesso que eu exijo que o contrato seja diretamente assinado comigo por conta disso. Faz bem ao meu ego ver como nossos novatos perdem a fala diante de mim.

Ri outra vez. Sério que tem gente que acha que eu sou convencido demais?

— Pelo menos você ri. Alguns nem conseguem se mexer, só ficam tremendo feito pinscher na porta da minha sala.

Eu ainda não sei o que dizer, então rio novamente.

— Ok. Meu ego já foi suficientemente amaciado, então vamos ao trabalho. — Deus Seokjin anunciou, entregando-me um documento com algumas folhas grampeadas. — Esse é o contrato. Se estiver de acordo com todas as cláusulas, é só me devolver com sua assinatura até quarta-feira, junto com seus documentos. Você pode levar para casa ou, se tiver tempo agora, pode sentar ali fora e analisar com calma. A escolha é sua.

— Tempo eu tenho de sobra. — Finalmente consegui dizer algo.

Ele sorriu em concordância e eu me levantei para sair. Sentei ao lado de sua secretária, numa poltrona pequena, e analisei cuidadosamente todas as condições e cláusulas apresentadas no contrato.

Eu gastei muito tempo nisso, mas enfim deixei minha assinatura no fim do documento e voltei para a sala de deus.

Depois de checar todas as burocracias pendentes, Kim Seokjin sorriu de forma completamente receptiva:

— Seja bem-vindo, Jimin.

Eu dei uns soquinhos vitoriosos em minhas próprias coxas, torcendo para que ele não tenha reparado em minha euforia mal contida.

— Obrigado. — Eu tentei soar calmo. — Então... o que eu faço agora?

— Essa é minha parte favorita. — Ele pareceu empolgado. — Você precisa preparar um portfólio mais específico, mostrar quem você é na frente das câmeras e o que pode oferecer. Isso nos ajuda a escolher os modelos certos para as campanhas dos nossos parceiros.

Um novo portfólio? Mas eu já usei todas as minhas melhores fotos no processo de seleção...

— Você tem uma semana para preparar isso. Não precisamos de nada profissional, só queremos conhecer você melhor. — Seokjin sorriu tranquilo, talvez atento ao meu breve temor.

— Certo. Eu vou fazer. — Garanti, já pensando em como conseguir tantas boas fotos em um prazo tão curto.

— Ótimo. Estou ansioso para ver o que você pode oferecer, Park Jimin — Ele ficou de pé e me ofereceu sua mão num cumprimento educado.

Eu a aceitei e sorri, ainda tentando parecer mentalmente equilibrado. Entretanto, assim que saí de sua sala meu rosto se retorceu em puro pavor.

Uma semana para mostrar o que eu posso oferecer de melhor.

Porra.

Jungkook, acho que preciso de sua ajuda|


Eu esperei sua resposta por um tempo, mas ele provavelmente está ocupado no trabalho e não pode me responder agora. Sem muitas opções, tudo que me resta é esperar, então voltei diretamente para casa.

Depois de chegar, eu passei algum tempo avaliando minhas melhores fotos já tiradas para tentar conseguir inspiração para as novas fotos que deus exigiu.

Quando meu celular vibrou com uma nova mensagem pouco depois do almoço, eu fui eufórico ao alcançá-lo, acreditando que seria Jungkook. Entretanto, bufei em puro ódio ao ver que era a marmota do Eunjo.

Fura olho do caralho.

Eunjo
|Ei, Jimin. Será que a gente pode conversar?

Não|

Eunjo
|Cara... qual o seu problema?

Eunjo
|Nara ficou realmente mal com isso tudo, mas tudo que você faz é nos afastar como se fossemos criminosos?

Criminosos, não. Dois traidores, sim|

Aliás, você é muito cara de pau mesmo! Como é que você fode minha namorada, depois fode a irmã dela e ainda vem querendo cobrar explicações minhas?|

Eunjo
|Jimin, você é louco? De verdade? De onde você tirou que eu me envolvi com Nara desse jeito? É só porque eu e ela fomos jantar juntos naquele dia? Porra... Nós somos amigos, esqueceu disso?

Você é uma marmota sonsa igual a ela e eu já cansei de vocês|

Sem esperar outra resposta sua, eu bloqueei seu número e deixei o celular na escrivaninha para voltar a me concentrar em analisar minhas próprias fotos, também pesquisei algumas outras como inspiração e, baseado nisso, fiz uma lista de lugares em Seul onde quero ser fotografado.

Eu não sei quanto tempo gastei nesse processo, mas deve ter sido bastante porque já era noite quando a campainha de casa tocou anunciando a chegada de uma nova visita.

Será que Jungkook chegou antes do previsto?

Movido pela possibilidade, eu rapidamente levantei de minha cadeira e corri escada abaixo. Quando cheguei ao último degrau e olhei para a porta, entretanto, senti o sangue ferver ao percebê-la já aberta por Jiwon, que está recebendo as duas últimas pessoas que eu gostaria de ver.

A marmota do Eunjo e a sonsa da Nara.

Por que não podia ser Jungkook, inferno?

— Ah, Jimin... — Jiwon sorriu para mim quando se virou para me olhar, mesmo que pareça um pouco confusa. Ela sabe que eu estou com ódio de Nara, então deve estranhar recebê-la aqui pela segunda vez desde que terminamos. — Eu já ia te chamar.

— Nem precisava. — Eu disse com a expressão fechada, caminhando até a porta de entrada. — Esses dois você podia mandar embora sem nem pensar.

O olhar dos dois do lado de fora é carregado, mas eu não me importo com isso quando empurro a porta para que ela se feche. No entanto, Eunjo colocou o pé entre ela e o batente, impedindo que se fechasse.

— Deixa de ser criança, Jimin. — Marmota disse, parecendo puto da vida.

— E vocês dois deixem de ser inconvenientes. Eu já não disse que não quero mais saber de vocês? — Devolvi, tão irritado quanto ele.

Por que eles simplesmente não me esquecem?

— Esquece, Eunjo. — Foi Nara quem disse. Ela parece conformada e chateada. — Eu disse que não adiantava.

— Não. — Ele a segurou antes que ela se afastasse. — Eu disse que ia esclarecer as coisas hoje, e nós vamos fazer isso. Jimin, você vai conversar com a gente nem que eu tenha que te amarrar!

Eu ri, incrédulo.

— É muita cara de pau...

— Jimin... — Surpreendentemente, dessa vez Jiwon me chamou, parecendo tentar me acalmar. — Eu vou escrever a receita do pão que você pediu. Por que você não conversa com eles enquanto isso?

Eu passei a mão pelo rosto num gesto completamente impaciente, mas cedi apenas pela possibilidade de conseguir me livrar deles de uma vez.

— Certo. — Concordei, enfim. — Mas vocês não vão entrar na minha casa. Vamos conversar lá fora.

Nara deixou um som ofendido escapar, misturado a uma risada seca. Eunjo continuou sério.

Ainda irritado, eu passei para o lado de fora e os guiei pela lateral de casa até a área coberta pelo pergolado, onde fiquei com Jungkook na primeira vez em que ele veio à minha casa.

— Ok. Podem falar. — Eu disse com os braços cruzados, me sentando de forma desleixada num dos assentos redondos. Eles dois continuaram de pé.

— Não, Jimin, quem tem que falar é você. — Eunjo rebateu. — Quando é que você vai explicar por que surtou desse jeito?

Eu passei a língua entre meus dentes e meu lábio, cansado disso tudo.

— Eu vi vocês dois, ok? — Anunciei. — Eu ia fazer uma surpresa, mas quando cheguei na casa de Nara, seu carro estava estacionado bem na frente. Eu não estranhei porque, porra, nunca imaginei que vocês fariam aquilo comigo, mas eu usei a chave reserva para abrir a porta e tinha a porra de um jantar romântico arrumado na mesa e vocês dois estavam no quarto, fodendo debaixo do lençol!

— É o que? — Nara quase gritou, possessa. — Eu nunca transei com o Eunjo, nem com ninguém depois que comecei a namorar você!

A marmota continuou calada, de repente sua expressão se tornando perplexa como se ele finalmente entendesse que foi pego no flagra e que suas mentiras não vão me convencer.

— Jimin... — Ele me chamou, ainda com essa feição tonta na cara. — Quando isso aconteceu?

— Que?

— Quando isso aconteceu? — Ele repetiu, agoniado. — Foi depois que eu disse que estava apaixonado por alguém?

— Sei lá, acho que foi. Que diferença faz, caralho?

— Porra... porra, porra, porra, Park! — Ele passou a mão pelos cabelos de forma furiosa. — Quem estava comigo na casa de Nara nesse dia era a irmã dela!

Nara arregalou os olhos, como se finalmente percebesse algo também.

— Espera... foi no dia em que eu emprestei a casa para você fazer o pedido de namoro? — Ela perguntou. Por seu tom de voz, as peças pareceram se encaixar. Mas só em sua cabeça, porque eu continuo confuso.

— Pedido de namoro? — Eu perguntei, ainda me sentindo perdido.

— Foi um dia antes de te ver no Black Stone com aquele cara — Eunjo ainda parece inconformado. — Eu e Hera estávamos saindo em segredo há um tempo, Nara era a única que sabia, e nesse dia ela me emprestou a casa dela para preparar uma surpresa para pedir Hera em namoro, depois eu e ela... — Ele grunhiu, sem precisar terminar a frase.

Enquanto isso, minha cabeça gira como um carrossel.

A pessoa que estava com Eunjo naquele dia na verdade era Hera e não minha namorada? Isso quer dizer que eu nunca fui traído?

Então... eu fui o único a trair?

— Você entendeu tudo errado. Puta que pariu, Jimin, eu não acredito que você criou essa confusão toda por conta de um mal entendido! — Eunjo acusou. Nossos papeis agora se inverteram.

— Eu... — Tentei dizer, mas foi difícil articular algo que faça sentido. — Eu não tinha como saber...

— Você me conhecia. Você conhecia meu caráter — Nara apontou, amarga. — Ao menos deveria ter conversado comigo antes de sair tirando suas conclusões precipitadas e me acusar de algo que eu nunca faria com você!

Eu não acredito nisso.

Eu honestamente não consigo acreditar que isso está acontecendo.

Agora, nem tenho mais coragem para olhá-los, e mantenho meu rosto escondido entre minhas mãos.

— Desculpa... — Foi o que consegui dizer, com a culpa e vergonha me consumindo.

— Desculpa? — Nara repetiu, ressentida. — Você me traiu, terminou comigo sem ao menos me dizer o motivo e chegou a me expulsar da sua casa... mas tudo que você tem a dizer é "desculpa"?

Nós três ficamos em silêncio por tempo demais e eu me sinto completamente sufocado pela situação que eu mesmo criei.

— É melhor eu ir. — Eunjo decidiu, então. — Vocês dois precisam conversar.

Nara não se opôs, então ela pelo menos ainda está disposta a me ouvir mesmo que eu não saiba o que dizer.

— Tudo bem por você? — Ele perguntou para ela. — Ou prefere que eu te leve embora?

— Não, eu ainda preciso entender melhor. — Ela respondeu, seu tom usado com ele muito mais cuidadoso que aquele usado comigo.

— Certo. Então... eu já vou. — Ele se despediu. Eu acho que fiz que sim com a cabeça, mas não tenho certeza sobre ele ter percebido meu gesto. De qualquer forma, ele não se demorou muito mais e me deixou sozinho com minha ex-namorada, e o silêncio entre nós dois parece ainda pior.

Eu percebi sua movimentação quando ela sentou ao meu lado, mas continuou calada. Eu continuei com o rosto escondido entre as mãos.

— Eu não sei o que dizer, Nara. — Confessei com toda minha sinceridade. — Eu honesta, verdadeiramente não sei o que te dizer.

— Você sabe que eu sempre disse que não gosto de nutrir sentimentos negativos por ninguém, porque isso faz mal somente a mim — Ela ponderou, em resposta. — Mas agora eu não posso evitar, Jimin. Eu estou com tanta raiva de você que parece que meu peito vai explodir...

— Me desculpa. Por favor, me desculpa — Eu pedi, apertando meus olhos com a base de minhas mãos. — Eu sei que não é o suficiente, mas eu não sei mais o que dizer... eu só sinto muito de verdade...

— Eu vou aceitar suas desculpas em algum momento — Ela disse. — Mas eu não consigo agora.

Eu fiquei calado, porque o que poderia dizer além de pedir mais uma vez por seu perdão?

— Mas eu quero saber uma coisa, Jimin. — Ela me chamou, e eu finalmente juntei coragem para olhá-la. — Aquele cara... você está com ele?

Jungkook?

— Não. — Respondi.

Nara me olhou e seu olhar é indecifrável, assim como toda sua expressão.

— Eu ainda não posso ficar com ele. — Tentei ser mais claro. — Eu quero, mas por enquanto é melhor para ele e para mim que sejamos somente amigos.

— Você sempre...? — Ela continuou olhando para mim. — Você sempre gostou de homens também?

— Não. Não sei, mas eu gosto dele.

Ela piscou demoradamente, como se minha confissão machucasse.

— Me desculpe falar essas coisas logo para você, mas... é melhor ser sincero, eu acho.

Ela passou as mãos pelo rosto, depois as levou até jogar os cabelos claros e compridos para trás num gesto frustrado.

— Isso é muito fodido, Jimin...

— Me desculpa. — Enfim voltei à única coisa que pareço saber dizer. — Por ter causado toda essa confusão e por saber que pedidos de desculpas não são suficientes, mas não poder fazer mais nada...

Ela continuou em silêncio e, mesmo em agonia, eu esperei.

— Nós não vamos voltar. Você sabe disso. — Nara anunciou depois de algum tempo, sua voz parecendo quebradiça. — Mas eu também acho que nós não podemos ser amigos. Eu não sei se vou conseguir.

Seus olhos estão vermelhos, mas ela não vai chorar. Eu sei que não vai.

Mesmo assim, eu sei que ela está sofrendo agora, por minha causa, então deslizo pelo assento acolchoado em sua direção até tocá-la com cuidado, quase com medo.

— Você não está errada por se sentir assim. — A tranquilizei, porque sei que ela deve estar se sentindo mal, de alguma forma se sentindo culpada quando a culpa é unicamente minha.

Ela curvou um pouco mais o corpo e eu a puxei em direção ao meu, abraçando-a com cuidado.

— Se eu fosse você, eu teria desfigurado meu rosto. — Confessei, tentando fazê-la rir. Eu costumava ser bom nisso. — Mas, ei, não faça isso! Eu sou bonito demais para apanhar.

Funcionou. Nara riu. Uma risada ainda ressentida, fraca e insegura, mas uma risada.

Eu a abracei com mais força, deixando um beijo em sua testa.

— Você ainda é a mulher que eu mais admiro, sempre vai ser. Me desculpa por ter esquecido disso nas últimas semanas...

— Para de se desculpar. Já está me irritando. — Ela resmungou, mas suas mãos alcançando minhas costas quando ela me abraçou de volta mostram que suas palavras não são tão verdadeiras.

Mesmo assim, eu fiquei em silêncio, protegendo-a, em meu abraço, das minhas próprias ações ruins.

E enquanto a mantenho aqui, eu percebo que na verdade ainda a amo. Eu ainda a amo, mas não sou mais apaixonado por ela.

Instantes depois, foi ela quem quebrou nosso abraço. Agora, sua expressão denuncia alguma vergonha.

— É melhor eu ir. — Ela disse, ainda sem se afastar completamente.

Eu assenti, acariciando sua cabeça mais uma vez.

Ainda tocando-a carinhosamente, o movimento involuntário dos meus olhos me fez perceber alguém parado à frente, nos observando há sabe deus quanto tempo.

— Jungkook? — Eu o chamei, sobressaltado.

Ele está ali, parado, com uma sacola na mão e uma expressão derrotada no rosto.

Merda. Ele já entendeu errado.

Nara ficou de pé logo depois que eu mesmo levantei num pulo, olhando para Jungkook enquanto ele olha para ela.

— Desculpa, hyung... — Ele pediu depois de piscar desastrosamente. — Eu toquei a campainha, mas ninguém atendeu então eu imaginei que... não importa. Desculpa, eu... eu já vou.

— Não, Jungkook. — Eu o chamei, involuntariamente dando um passo em sua direção.

Meu corpo travou antes que eu terminasse de me aproximar e meu olhar recaiu em Nara, que continua calada. Eu me sinto um lixo por tudo que fiz e não posso dar as costas para ela agora, mas não quero deixar Jungkook ir embora com essa expressão triste.

Aliás, eu não quero que ele vá embora. Ponto.

Com a mente dividida entre fazer o que quero e o que acho que devo fazer, meu corpo toma a decisão por mim e tudo que faço é lançar um olhar arrependido para Nara antes de me aproximar de Jungkook.

— Não é o que você está pensando. — Eu disse assim que parei em sua frente, segurando-o para garantir que ele não fuja. — Eu juro.

— Tudo bem, hyung... você não me deve satisfação nenhuma. Nós somos só amigos, esqueceu?

Foda-se.

Pro inferno com essa merda! Ele ficou magoado, eu consigo ver em seus olhos, então essa justificativa meia boca não vai me convencer.

— Eu te explico melhor o que aconteceu... — O ignorei. — Você pode esperar só mais um pouco? A porta de casa está aberta, você pode ir até meu quarto.

Jungkook olhou para minha mão ainda segurando-o firmemente e assentiu, sem olhar nos meus olhos. Eu não sinto confiança em sua resposta e me assusta a possibilidade de que, na verdade, ele vá embora.

Desesperado porque eu não quero que isso aconteça, não quero que ele continue se magoando acreditando que algo aconteceu entre Nara e eu, eu deixei meu corpo me guiar outra vez em busca de uma solução.

Quando dei por mim, minha mão já estava em seu rosto, assim como meus lábios. Eu beijei sua bochecha carinhosamente, torcendo para que isso seja o suficiente para que ele entenda.

Nem Nara, nem qualquer outra pessoa é capaz de fazer meu coração bater tão forte quanto Jungkook faz.

— Eu já vou. Me espere no meu quarto, por favor, Jungkook. Você pode fazer isso?

Ele está com os olhos arregalados e o rosto mais uma vez corado, provavelmente pego de surpresa por meu gesto carinhoso diante dos olhos de outra pessoa.

Mas enfim ele assentiu outra vez. Agora, com mais certeza.

Eu sorri ainda não completamente aliviado, mas já me sentindo mais leve por ver que ele resolveu confiar em mim.

— Eu fiz bolo... — Ele disse ainda retraído, mostrando discretamente a sacola em sua mão. — E trouxe suco de melancia, mas é de caixinha...

Eu sorri mais e não resisti. Dei outro beijo em sua bochecha e Jungkook me olhou ainda mais envergonhado.

O cara que não tem papas na língua para falar sobre sexo, mas se envergonha por um beijo na bochecha.

Eu realmente não posso deixá-lo ir embora.

— Eu já vou comer com você. Estou com saudade de comer um bolo seu.

Jungkook sorriu tão bonito e tão sincero que meu coração derreteu no mesmo instante.

— Vou esperar lá dentro. — Ele disse e eu concordei, observando-o enquanto ele dá as costas e refaz o caminho até a porta da frente. Agora, a culpa volta a se fazer presente e eu volto a olhar para Nara, que já está se aproximando de mim, prestes a ir embora.

— Quantas vezes eu ainda posso me desculpar? — Questionei me sentindo verdadeiramente culpado, mas não arrependido, não importa se isso não faz sentido.

— A partir de agora eu vou começar a te chutar nas bolas a cada pedido de desculpas — Ela se empertigou, tentando manter sua pose.

— Eu não podia deixar ele ir embora... — Me explicar foi minha outra alternativa.

— Eu percebi. — Ela sorriu, ressentida. — Mas eu posso ir, e já vou.

— Nara...

— Eu preciso ficar longe de você por um tempo, Jimin. — Ela suspirou, mostrando um outro sorriso ao final. — Pode ir ficar com ele.

Eu não tentei me explicar outra vez. Não tentei amenizar minha culpa, porque esse seria só mais um de meus atos egoístas. Ela precisa ficar longe de mim, então eu não vou tentar impedi-la, mas vou torcer para que chegue o dia em que ela possa me perdoar.

Enquanto a vejo se afastar, então, eu me lembro das palavras de Jungkook quando ele me disse que sabia que nunca seria prioridade na minha vida.

É, Jungkook. Você estava errado, porque agora nós nem estamos juntos, mas você é minha opção número um.

❥ [Continua...]

Chapter Text

— Então... na verdade ela nunca te traiu?

Jungkook parece verdadeiramente estarrecido com toda a confusão da traição-que-não-foi-traição.

Depois que Nara foi embora, eu voltei correndo até meu quarto, onde o encontrei me esperando assim como pedi.

Confesso que parte de mim ainda estava receosa, com medo de que, apesar de meus esforços em convencê-lo do contrário, Jungkook teria ido embora depois de me ver com Nara.

E o pior nisso tudo é que eu sei que somos apenas amigos e Jungkook também afirmou isso quando tentei me justificar, mas eu sinto que, se algo tivesse acontecido entre Nara e eu nessa noite, ele teria todo o direito de se sentir traído. O que, honestamente, não faz sentido algum.

De qualquer forma, ele pareceu acreditar em mim, se deixou ser convencido por meu pedido sincero para que não fosse embora, e então eu pude explicar com detalhes tudo que aconteceu.

— Pois é, — Suspirei, enfim. — toda essa confusão foi culpa minha. Você já pode dizer que eu sou um babaca precipitado.

Ele negou e remexeu na sacola plástica ao nosso lado na cama de casal, até tirar dali a embalagem com uma mini torta de chocolate branco e uma caixinha de suco de melancia.

Eu observei até que Jungkook usou o canudo colado à embalagem para furá-la antes de entregá-la a mim.

— Aqui. Você já deve estar se sentindo culpado o suficiente, hyung, então não vou falar mal de você.

Eu segurei a caixinha cheia de gotículas espalhadas e mordisquei meu lábio inferior para tentar conter qualquer coisa que não deva ser dita.

— Eu me sinto culpado, mas uma coisa boa surgiu disso tudo, não é? — Murmurei enquanto vejo Jungkook concentrado em abrir a embalagem do bolo antes de passá-la para mim junto a um garfo plástico.

— O que? — Ele perguntou, curioso.

Eu raspei meus dentes por meu lábio mais uma vez.

Sério, Jimin, se controla...

— Pelo menos eu conheci você, Jungkook.

É. Eu tentei me conter, mas falhei miseravelmente.

Diante disso, Jungkook ficou vermelho como nunca antes. E. não. disse. absolutamente. nada.

Claro que eu me senti meio otário e devo ter começado a ficar vermelho também, então me arrastei para fora da cama e fiquei de pé, pigarreando com força.

— Eu já volto. — Anunciei, dando as costas assim que o vi abrir a boca para falar algo.

Meu deus... eu não deveria ter dito aquilo.

Eu realmente não consigo lidar com essa nova versão de mim que tem cada vez menos medo de ser sincero com Jungkook, porque ao mesmo tempo tudo isso ainda me deixa inseguro e assustado e então coisas assim acontecem. Consequentemente, eu entro em crise.

Por isso, quando cheguei na cozinha, eu bati minha cabeça contra a porta da geladeira três vezes.

E eu nem mesmo sei o que vim fazer na cozinha.

Por sorte, meus pais ainda não voltaram e Jiwon já foi embora, então ao menos posso ter privacidade em meu momento de pânico e arrependimento.

— Hyung?

Privacidade é o caralho.

Como se não estivesse prestes a lascar minha cabeça contra o refrigerador, eu me engomei todo na posição mais confiante que conheço, virei para Jungkook, que acabou de chegar na cozinha, e exibi a expressão mais plena que consigo mostrar.

— Sim? — Devolvi seu chamado.

Sereno por fora; por dentro, ainda me condenando por minha língua frouxa.

— Tudo bem? — Ele perguntou e, merda, eu consigo ver como está se controlando para não rir.

É claro que ele percebeu meu surto, mas eu permaneço com a expressão sonsa de quem não sabe de nada e abri a porta da geladeira, como se o tempo todo pretendesse fazer isso.

— Claro que está tudo bem — Respondi, aproveitando a proteção da porta da geladeira aberta para fazer uma careta de frustração. — Só vim pegar alguma coisa pra você beber também.

— Ah. — Foi o que ele disse.

Se ia dizer mais alguma coisa, eu o interrompi no momento em que lembrei de algumas embalagens de leite de banana na porta da geladeira e gritei como quem encontra um tesouro.

— Aqui! — Eu agarrei minha salvação e exibi para Jungkook orgulhosamente. — Sabia que tinha leite de banana. Foi isso que vim pegar!

O sorriso atravessado de Jungkook metamorfoseou lentamente para um aberto, genuinamente feliz, e é bonito demais como a pele ao redor de seus olhos fica toda enrugada quando ele sorri assim.

— Obrigado, hyung. — Ele disse, aceitando quando ofereci o leite. — A gente vai voltar pro quarto?

Parece tudo ok. Ele já parece ter esquecido do verdadeiro motivo que me fez sair do quarto aos tropeços, então eu suspiro aliviado e faço que sim com a cabeça. Quando tomo a frente para voltarmos para lá e já no meio da escada, entretanto, Jungkook me chamou outra vez:

— Ei, hyung — Ele disse, e eu o vi com um bigodinho de leite de banana quando virei a cabeça sobre o ombro para olhá-lo.

Puta que pariu. Será que esse cara sabe que é a pessoa mais adorável do mundo?

— O que foi, Jungkook? — Perguntei, tomando cuidado para não dar com a língua nos dentes outra vez.

Ele se apressou em subir o degrau que nos separava até ficar ao meu lado, e eu me assustei quando ele se abaixou para deixar sua boca na altura de minha orelha:

— Me desculpa, mas foi por isso que a gente se conheceu, então eu estou feliz por você ter achado que foi traído — Ele confessou, e me roubou um beijo na bochecha e apertou minha bunda antes de sair correndo escada acima assim que me virei para devolver um tapa em suas costas.

— Ei! — Gritei, mas minha voz se mesclou a uma risada alta quando comecei a correr atrás dele. — Seu safado!

Jungkook seguiu todo o caminho até meu quarto enquanto ri tão ou mais alto que eu, e deixou sua caixinha de leite de banana no criado mudo antes de se arrastar por minha cama, tentando se defender de mim.

— Eu não já disse que não gosto que você toque na minha bunda? — Questionei, vergonhosamente risonho, quando me aproximei dele e me ajoelhei sobre o colchão.

— Na verdade, você nunca disse isso. — Jungkook rebateu, puxando um travesseiro para se proteger, mas eu rapidamente o arranquei de suas mãos e o joguei de volta na cama.

— Disse, sim.

— Não disse, não. — Ele insistiu, puxando outro travesseiro para se cobrir quando dei uns tapas em suas pernas. — E não discute comigo, hyung, na última discussão que tivemos você bateu o pé dizendo que não ia andar de ônibus e acabou andando mesmo assim!

Eu arregalei os olhos e separei meus lábios, incrédulo. Quando a risada veio, eu já estava atacando-o novamente.

— Não é porque você ganhou aquela discussão que vai ganhar todas, Jungkook. — Eu disse, de quatro sobre o colchão enquanto ele está deitado, rindo e tentando se defender de meus tapas.

— Eu posso... ai, hyung — Ele resmungou, risonho, quando dei um peteleco em seu queixo, mas seguiu em frente mesmo assim: — Eu posso provar o contrário...

— Não vai provar coisa nenhu... — Eu comecei a responder, mas fui impedido antes de completar meu desafio porque Jungkook foi rápido em esticar os braços até agarrar minha bunda com suas mãos.

Eu até perdi a força e a concentração, porque ele apertou bem forte e, merda, eu não estava esperando por isso.

— Jungkook! — Resmunguei, mas ele me puxou de encontro ao seu corpo quando tentei me afastar e, em resultado, tive o completo oposto pois acabei caindo em cima dele.

— Tem certeza de que não quer que eu faça isso, Jiminie hyung? — Ele provocou.

Eu o olhei em silêncio, vendo-o com os olhos carregando o mesmo brilho quase inocente, diferente de seu sorriso cafajeste e de suas mãos pressionando minhas nádegas mais uma vez como para me lembrar que ainda estão ali.

Por mais que eu me sinta cada vez mais próximo de Jungkook, estar tão perto dele nessas circunstâncias me deixa um pouco tenso e, depois de pigarrear acho que pela terceira vez no dia, eu me movi para me afastar dele.

— Eu tenho certeza de que não quero que você faça isso, Jungkook. — Eu consegui dizer ao voltar a me sentar na cama, parecendo sério demais.

Apesar disso, meu corpo com certeza acredita no contrário, porque seu toque, mesmo que brincalhão, me fez sentir como se correntes elétricas se arrastassem furiosamente sob minha pele.

E, porra, ele ainda está com bigodinho de leite de banana.

Eu não acredito que senti o que imediatamente antecede tesão por alguém que está com bigodinho de leite de banana!

Se eu soubesse que as coisas se desenrolariam assim, eu não teria aceitado nem a primeira dose de álcool que Calvin me serviu naquele dia desgraçado.

Vai se foder, Calvin.

— Ah... desculpa... — Jungkook disse com a entonação constrangida, totalmente díspar da minha agressiva condenando alguém que a essa altura já deve ter esquecido de mim.

Eu suspirei.

Que merda.

Realmente não acredito que cheguei ao ponto de sequer conseguir sentir raiva de verdade pelo desgraçado do Calvin por ele ter me colocado nessa situação porque, honestamente, eu não consigo mais conceber a ideia de não ter Jungkook se infiltrando assim em minha vida.

Mas Calvin ainda é responsável por isso. Sendo algo bom ou não, a culpa é daquele babaca.

— Eu te deixei desconfortável... — Jungkook insistiu, cada vez mais culpado diante do meu silêncio enquanto reflito sobre bartenders desgraçados. — Desculpa mesmo, hyung...

Eu poderia tranquilizá-lo garantindo que meu suposto desconforto nada mais é que a consequência da excitação de ter sentido meu corpo contra o seu daquela forma, mas me poupo de uma nova crise e não o faço.

— Para de se desculpar — Eu disse ao invés da minha primeira opção, em tom de brincadeira. — Até parece que você se arrependeu de ter me apalpado.

Jungkook me analisou em silêncio brevemente, então sua expressão começou a suavizar de forma gradual, até que ele pareceu mais relaxado.

— A culpa não é minha se sua bunda é tão gostosa...

Nesse ponto certamente não precisamos discutir. Minha bunda é, sim, um espetáculo.

— Mas desculpa, hyung. — Ele voltou a pedir. — Você ficou todo duro e nem foi do jeito bom, não parece ter gostado mesmo...

Eu apertei os olhos, pela primeira vez sem conseguir identificar se ele está me provocando por ter percebido que eu fiquei, sim, meio excitado ou se realmente está arrependido.

De qualquer forma, eu voltei a agir como quem não sabe de nada e concordei, deixando-o acreditar que eu não gostei.

— Eu supero. — Acabei por dizer, meio sonso.

Jungkook espremeu os lábios numa linha que se assemelha a um sorriso e suspirou, outra vez aliviado.

— Pode me dar meu leite de banana de volta? — Ele pediu, então.

Eu olhei para o criado mudo, onde meu suco de melancia e minha torta também estão, depois voltei a olhar para Jungkook e seu bigodinho branco, então impulsivamente aproximei minha mão de seu rosto para passar meu polegar sobre o rastro de bebida, limpando-o.

— Só pra você se sujar mais... — Eu resmunguei, baixinho.

Ele piscou devagar e abaixou os olhos lentamente num gesto pensativo antes de voltar a olhar para mim, e eu juro que não sei o que me deu, mas eu não afastei minha mão, mantendo-a em contato com sua bochecha por um tempo que não é necessário.

Quando eu esperei que Jungkook fizesse algo, ele fez o que eu nunca poderia imaginar. Segurou meu pulso e o puxou até deixar minha palma diante de sua boca. E então a beijou.

O nervosismo que isso me fez sentir deveria me forçar a puxar minha mão para longe, mas eu a mantive no mesmo lugar, e as pontas dos meus dedos pareceram repentinamente dormentes quando acariciei sua bochecha.

Eu me sinto completamente imerso numa atmosfera que me acolhe ao mesmo tempo em que me sufoca com uma expectativa que sequer consigo identificar. Não sei se desejo que nosso toque evolua para algo a mais, ou se apenas espero que ele não seja interrompido tão cedo.

Ainda segurando meu pulso, Jungkook respirou fundo, arrastado, e mordiscou o próprio lábio num gesto ansioso.

— Hyung... — Ele me chamou, deslizando seu polegar sobre minha pele.

Minha respiração acompanhou o movimento lento de meus olhos na direção da outra mão de Jungkook tocando meu tornozelo com cuidado antes que eu volte a olhar para seu rosto.

— Oi...

— Eu posso te perguntar uma coisa? — Ele questionou, com a voz baixa.

Quando eu movi minha cabeça uma só vez para cima e para baixo, ele foi em frente:

— Agora que você sabe que na verdade não foi traído... você pretende reatar o namoro?

Minha primeira resposta foi deixar a cabeça tombar para trás num gesto entediado, depois eu o olhei outra vez, ainda impaciente:

— Você não prestou atenção em nada do que eu falei, seu tonto? — Resmunguei, e acho que me arrependo de ter afastado minha mão de seu rosto num reflexo atrapalhado. — Eu já disse que não tenho mais esse tipo de sentimento pela Nara.

Ele apertou os ombros e recolheu sua mão que ainda estava em meu tornozelo.

É, eu definitivamente estou arrependido de ter quebrado nosso contato sutil.

— Só perguntei pra ter certeza. Talvez você estivesse pensando em voltar...

Eu suspirei e me estiquei para finalmente alcançar nossas bebidas no criado mudo. Quando entreguei seu leite de banana e fiquei com a caixinha do suco de melancia, anunciei:

— Eu não posso pensar em voltar para ela se estou tão ocupado pensando em outra pessoa, Jungkook.

Eu já não fico surpreso ao ver sua expressão confusa, quase enciumada, porque esse cara parece completamente incapaz de captar qualquer investida de flerte que não tenha conotação sexual, então é claro que ele não entende que a pessoa em quem estou pensando é ele.

As vezes eu ainda sinto muita vontade de dar um soco nesse rosto lindo só para ver se uma chacoalhada na sua cabeça não coloca seu cérebro para funcionar melhor.

De qualquer forma, também me alivia um pouco saber que ele não entendeu. Me alivia de um novo provável constrangimento, por isso eu rapidamente mudo de assunto ao ficar de pé com meu suco em mãos.

— Mas então. Anime? — Sugeri, porque a princípio era isso que íamos fazer.

Jungkook concorda sem se manifestar de qualquer maneira verbal, e eu deixo uma lufada de ar escapar quando fico de costas para ele ao conectar meu notebook à TV para começar a reproduzir o primeiro episódio de Itazura na kiss.

— Ah, hyung... — Ele me chamou quando caminhei de volta para a cama e me sentei novamente. — Você mandou uma mensagem mais cedo dizendo que precisava da minha ajuda. O que é?

Eu me sobressaltei ao perceber que, com toda a confusão sobre Nara, Eunjo e a traição, acabei esquecendo sobre algo tão importante quanto isso.

— Meu deus, sim! — Eu disse, com a entonação eufórica. — Eu preciso tirar umas fotos para levar para a agência e pensei que você poderia me ajudar com isso?

Jungkook apertou as sobrancelhas, confuso.

— Eu? Mas eu não tiro fotos profissionais, hyung... eu só tenho a câmera do celular e você tem dinheiro para pagar um fotógrafo de verdade, então não entendi...

— Não precisa ser foto profissional. De acordo com deus Seokjin, só preciso mostrar quem eu sou de verdade ou qualquer coisa assim. — Confessei para tentar convencê-lo. — Então? Você me ajuda?

— Se não tem mesmo problema em usar fotos tiradas pelo celular, eu ajudo — Ele respondeu, parecendo feliz. — Vai ser minha próxima desculpa para poder ver você!

Eu apertei os lábios num sorriso, olhando para ele por mais que o episódio um de itazura na kiss já esteja rodando na tela da TV.

— É. Vai ser nossa próxima desculpa.

Ao dizer isso em voz alta, eu percebo que talvez seja exatamente essa minha motivação para fazer questão de que seja Jungkook a tirar minhas fotos. Ou talvez seja porque é com ele que eu verdadeiramente mostro minha essência. Ainda pode ser porque ele tira fotos incríveis mesmo sem equipamentos de ponta. Talvez seja uma combinação dos três fatores.

— Quando vamos fazer isso? — Ele perguntou, se movendo sobre a cama quando terminou de tomar seu leite de banana, e ele está dando tanta bola para o anime quanto eu. — Pode ser um ensaio erótico?

Eu ri ao mesmo tempo em que revirei os olhos, vendo-o arrumar os travesseiros para deitar com a cabeça sobre eles.

Jungkook parece muito mais confortável que quando veio aqui pela última vez, provavelmente porque de lá para cá a relação entre nós dois se tornou menos confusa e conflituosa, e isso me deixa inexplicavelmente feliz.

Relaxado, eu também deixei a caixinha vazia do meu suco de lado e me movi para deitar como ele, exatamente ao seu lado.

— Sem ensaio erótico. — Eu disse e sua expressão murchou, mas parece brincadeira. — E eu só tenho sete dias para montar o portfólio, então... no fim de semana?

— Certo. No fim de semana. — Ele confirmar, se movendo mais uma vez para deitar de lado sobre a cama e poder me observar melhor. — E o lugar?

— Eu já fiz uma lista — Anunciei orgulhosamente, tateando a cama em busca do meu celular para mostrar minha seleção prévia.

Ao desbloquear a tela, no entanto, meu foco se atrapalhou um pouco quando eu vi novas mensagens de Sunhye.

Sunhye
|Amigo, você ainda está me devendo um jantar. não me enrola!

Sunhye
|Aliás, como andam as coisas com o cara do pijama do patolino? Quero saber ):

Estou com ele agora :x|

Sunhye
|Ai meu deus MANDA FOTO

— Hyung? — Jungkook me chamou, curioso com minha demora.

— Opa. — Eu sorri, distraído. — Desculpa. Uma amiga mandou mensagens.

— Ah... — Foi o que ele respondeu, a princípio, e acho que se assustou quando me aconcheguei mais perto e abri o aplicativo da câmera antes de posicionar o celular para tirar uma foto.

— Ela pediu uma foto nossa. — Expliquei.

— Uma foto nossa?

— Aham — Dei uma cotovelada suave em sua barriga. — Olha para a câmera.

Jungkook, mesmo confuso, fez o que pedi e logo capturei nossa imagem, sem me preocupar em tirar a tela de sua vista quando voltei para a conversa de Sunhye e enviei a nova foto.

Aqui|


Antes de esperar sua resposta, eu bloqueei a tela, deixando para falar melhor com ela quando não estiver com Jungkook. Ao virar para ele, eu percebo que essa foi uma boa decisão, porque ele parece inseguro quando me chama:

— Hyung... essa é aquela menina da boate? — Ele perguntou, com os olhos preocupados. — É nela que você está pensando e por isso não quer voltar com sua ex?

Eu o olhei, verdadeiramente incrédulo. Sério, isso é tão inacreditável que me deixa irritado.

— Meu deus, Jungkook, você é mesmo tão lerdo assim?!

— O que? — O coitado murmurou, assustado.

Eu respirei fundo, decidindo falar numa língua que ele seja capaz de entender:

— Jungkook... se eu de repente falasse que não posso voltar com Nara porque não paro de pensar em transar com outra pessoa, o que você acharia?

Ele piscou, pareceu absorver meu questionamento e, enfim, um sorriso minúsculo, mas visivelmente enviesado apareceu em seus lábios antes contraídos numa linha de preocupação.

— Você quer transar comigo, hyung?

— Isso você entende, não é? — Acusei, impaciente. — A pessoa com quem eu quero transar nessa situação hipotética é a mesma em quem eu não paro de pensar. Puta que pariu, deixa de ser lerdo!

Jungkook me olhou em silêncio mais uma vez, sua expressão inicialmente chocada.

Antes de esperar sua reação seguinte, eu revirei os olhos e me movi para poder ver melhor a TV, mas não que eu vá efetivamente prestar atenção na protagonista sendo humilhada por seu par romântico.

Quando eu menos esperei, meu corpo inteiro congelou ao sentir Jungkook se aproximar ainda mais. Ele passou o braço por minha barriga, sua perna pousou sobre as minhas e ele escondeu seu rosto entre meu peito e meu pescoço.

Agora eu sinto sua respiração acertar minha pele enquanto o peso de sua cabeça repousa em meu peitoral, e não posso evitar a sensação de arrepio quando ele reforça o aperto de seu braço ao redor de meu corpo, mantendo-nos ainda mais próximos um do outro.

Eu acho que nunca tivemos um contato como esse e por mais que eu tenha medo até de respirar e causar alguma movimentação que o afaste de mim, meu coração bate tão furiosamente que Jungkook com certeza é capaz de se assustar. Entretanto, ele não pareceu assustado quando, sem afastar seu rosto de onde está escondido, confessou:

— Eu também não consigo parar de pensar em você, hyung...

Eu juro que sou capaz de desmaiar agora, com o corpo tão tenso que sequer consigo me mover. Eu literalmente perdi o controle de absolutamente tudo por causa desse cara.

E, a despeito da minha vontade de tê-lo ainda mais perto, o que ele fez foi afastar sua cabeça cuidadosamente até deixá-la deitada ao lado da minha, com seus olhos sustentando os meus.

— Eu sei que eu sou meio lerdo... — Ele disse, num dos raros momentos em que parece sem jeito. — Mas é que quando você diz essas coisas, parece tão surreal que eu acabo acreditando que estou me iludindo...

Eu respirei fundo, entendendo-o melhor. Quer dizer, não posso culpá-lo por seu ceticismo quase desesperançado porque, muito além de suas experiências anteriores, eu mesmo o fiz acreditar que algo como isso seria impossível de acontecer.

Eu fiz Jungkook acreditar que eu não poderia ter sentimentos por ele e tentei me convencer disso. Agora, estou colhendo os frutos das minhas palavras e ações assustadas.

Não podendo mudar o que já aconteceu, eu ainda posso guiar minhas atitudes seguintes. E então dou um peteleco bem forte no meio de sua testa.

— Seu idiota. — Resmunguei. — É melhor você parar de acreditar que só está se iludindo, porque é muito constrangedor flertar o tempo todo com alguém que não entende, ok?

Jungkook se encolheu com um sorriso no rosto, seu braço e perna ainda me abraçando quando eu me deitei de lado para ficar frente a frente com ele, então dobrei meu braço abaixo de minha cabeça para sustentá-la melhor enquanto continuo olhando-o.

— Nossa amizade é estranha, hyung... — Ele constatou, mas não como uma reclamação.

Eu pisquei, movendo minhas pernas até deixar a sua encaixada entre elas, e perdi algum tempo admirando a lateral de seu rosto pressionada num dos meus travesseiros, com os cabelos escuros bagunçados e os olhos esperançosos.

— Você não gosta? — Questionei, sem perceber quando umedeci meus lábios. — Da nossa amizade?

Jungkook sorriu ao negar com um gesto preguiçoso.

— Só não digo que é minha amizade favorita porque o Yoongi hyung me mata se descobrir isso.

Hm.

Ok.

Eu precisei tomar um tempo para respirar fundo e não evidenciar tanto meu incômodo pela menção do nome do carrapato.

— Qual é a de vocês dois, afinal? — Perguntei. Talvez eu tenha falhado um pouco nessa coisa de não parecer incomodado.

Ele mirou seus olhos escuros em mim e não sei se estou louco, mas ele parece arrependido.

— Ele é meu amigo, mas as vezes a gente se beija e... — Jungkook parou, provavelmente percebendo a forma como minhas narinas dilataram, entregando o quanto odeio sua resposta.

Essa informação não tem nada de novo para mim, mas é horrível lembrar da forma como Jungkook beijou esse cara bem na frente dos meus olhos, do mesmo jeito que também me beijou. Pior, me sufoca perceber que eles provavelmente ainda fazem isso e que eu sequer tenho o direito de ficar incomodado com essa percepção.

Mesmo assim, a ideia de Jungkook com ele ou com qualquer outra pessoa parece cada vez mais insuportável e eu odeio sentir esse tipo de coisa, mas não consigo evitar. Por isso, eu não me contenho quando fecho um pouco mais minha expressão e tento me mover para me afastar dele.

No entanto, Jungkook foi mais rápido e me segurou perto, parecendo aflito.

— A gente se beijava. — Ele corrigiu, rápido. — Eu o vi duas vezes durante a última semana, mas não aconteceu nada desde que você terminou comigo, hyung.

Eu poderia rir do quanto tudo isso parece irônico.

Nosso término, que sequer pode ser chamado assim, parece ser o que marcou o momento a partir do qual existe mais expectativa entre nós dois, quando deveria ser exatamente ao contrário.

Eu poderia rir, mas me sinto um pouco mal humorado agora por estar tão enciumado.

E eu odeio sentir ciúmes.

Me decepciono comigo mesmo toda vez que sinto algo como isso, porque não me parece nada além de um sentimento tóxico.

Mas eu estou, irrevogavelmente, com ciúmes de Jungkook.

— Eu não consigo mais ficar com ele, Jimin — Jungkook insistiu diante do meu silêncio, talvez sem perceber que não é com ele que estou irritado, e ele sempre parece mais sério quando me chama pelo nome.

— Jungkook, tudo bem, sério. Não precisa ficar se explicando. — Me forcei a dizer.

— Mas eu quero que você saiba. — Seu braço intensificou o aperto ao redor de minha cintura e minhas mãos foram parar em seu peito quando ele me puxou ainda mais, a ponto de colar nossos corpos. Depois, prosseguiu com a voz baixa — É estranho, agora... parece que eu estou fazendo algo de errado só de pensar em estar com alguém que não seja você...

Eu suspirei pesadamente, sentindo seus dedos acariciarem a base de minha coluna e ameaçando levantar minha blusa para me tocar diretamente a pele. Então fechei os olhos quase sem querer, mas estive consciente sobre minha mão abandonando seu peito para segurá-lo pela nuca.

— Você não deveria se sentir assim, Jungkook... — Alertei, muito embora me sinta da mesma forma.

— Eu sei... mas eu não consigo evitar. Beijar outra pessoa parece muito injusto comigo mesmo — Ele continuou. Seu rosto está mais próximo e eu consigo sentir sua respiração quente tocar minha bochecha a cada lufada arrastada. — É injusto porque eu só quero beijar você, hyung...

Eu gostaria de descrever minha reação com qualquer coisa clichê como batidas descompassadas em meu coração, ou uma repentina falta de ar, talvez um suspiro rendido, porém suficientemente discreto.

Mas eu gemi.

Eu literalmente gemi por nada.

E existem várias nuances na personalidade de Jungkook que, apesar de não representarem o todo, fazem parte do conjunto inteiro.

Uma delas é que ele absolutamente adora me provocar e esse gemido fora de hora seria o pretexto perfeito para ouvir uma provocação carregada com deboche, mas ele não o fez.

Sua reação, ao contrário disso, foi descer sua mão de minhas costas até o elástico da minha calça de fleece, onde se demorou mais um pouco antes de colocá-la para dentro, sob o tecido maleável, e apertar minha bunda. Ao mesmo tempo, ele passou seu outro braço por baixo de minha cintura e me puxou em sua direção até deixar meu peito completamente colado no seu.

— Jungkook... — Eu o chamei, nem sei com que objetivo.

Estimulá-lo a ir em frente ou pedir para que pare?

— Só fica assim mais um pouco, hyung... — Ele pediu, e eu resfoleguei afetado quando senti sua mão se posicionar também debaixo de minha roupa íntima, sentindo-a diretamente contra minha nádega.

Antes que eu coloque minha cabeça no lugar, Jungkook sequer me deixa tentar.

Enquanto seus dedos apertam minha bunda deliciosamente e força minha virilha contra a sua, sua boca alcança minha bochecha, onde ele me beija. Diferente dos últimos beijos que ele me deu no mesmo lugar, esse parece carregado de um sentimento muito menos inocente, e me faz arrepiar por inteiro quando ele desliza os lábios por minha pele e me beija novamente.

De repente, minha bochecha parece o ponto mais sensível de todo meu corpo, e eu aprecio cada milésimo de segundo enquanto sinto os lábios de Jungkook descolando lentamente de minha pele quando ele afasta seu rosto.

Eu consigo perceber meu limite cada vez mais próximo e sou tomado pela súbita vontade de mandar tudo isso para o inferno.

Toda essa merda de ser somente amigo de Jungkook e de não poder dar vazão a esse tesão desgraçado que eu sinto por ele... eu não acho que aguento por muito mais tempo.

— Jungkook... — Eu o chamo, tentando vencer minha própria fraqueza. — Para.

Eu prometi, para ele e também para mim que não deixaria essas coisas acontecerem enquanto não estiver pronto para lidar com elas. E, honestamente, eu ainda acho que não estou pronto.

Mais que isso. Agora, mais que nunca, eu não posso aceitar a ideia de acabar magoando Jungkook novamente.

Eu odeio a sociedade, a mídia, religião ou seja lá qual foi a merda que enraizou todo esse receio e relutância em minha mente.

Mas Jungkook não parece entender todo o monólogo que se passa em minha mente e que me força a tentar interromper o que está prestes a acontecer, por mais que eu queira que aconteça.

Assim, ele ignora meu pedido sem firmeza alguma e se impulsiona, me fazendo deitar com as costas apoiadas na cama antes que ele deite com seu corpo sobre o meu, e eu ofego assustado quando ele se coloca entre minhas pernas, pressionando nossas virilhas uma contra a outra.

Essa posição por si só já é algo que eu nunca experimentei antes, e eu me sinto suar frio quando ele desliza a mão por minha coxa, guiando minha perna para abraçar seu quadril enquanto ele desliza seus lábios por meu pescoço apenas para provocar.

— Ei, sério — Eu insisto com a voz cada vez mais fraca e apoio minhas mãos em seu peitoral para afastá-lo. — Só amigos, Jungkook. Lembra?

Ele parece odiar meu lembrete. Porra, eu também odeio!

— Nós podemos fazer isso como amigos, hyung — Sugere, insatisfeito, e talvez seja o desespero que o faz dizer a merda que vem a seguir: — Yoongi também é só meu amigo e...

Eu não sei se minha expressão se torna tão amarga tão rápido ou se Jungkook percebe sozinho o que está falando antes de completar sua afirmação. De uma forma ou de outra, ele deixa sua frase morrer no meio do caminho e seu rosto assume essa feição arrependida outra vez.

Não que eu esteja bem humorado. É o completo oposto, na verdade, mas eu acabo rindo. De pura frustração.

— Fala sério... — Resmungo, nem sei para quem.

Quando eu tentei afastá-lo, entretanto, Jungkook voltou a beijar meu rosto, dessa vez sem parecer ter qualquer intenção de me provocar. São como pedidos de desculpa espalhados por minhas bochechas, testa e nariz repetidamente.

Acabou fazendo cócegas e seu desespero em tentar se redimir me faz querer rir, dessa vez de verdade.

— Eu sinto vontade de te socar toda vez que você resolve falar do carrapato do nada... — Confessei, vergonhosamente honesto.

— Desculpa, desculpa, desculpa — Ele pediu, deixando mais um beijo demorado em minha bochecha. — Eu acabei com o clima, né?

Eu relaxei a cabeça sobre o travesseiro e parei de tentar empurrá-lo, deixando-o deitado sobre meu corpo.

— Sim. — Respondi, e nem estou sendo orgulhoso ou extremamente racional.

Ele realmente acabou com o clima.

Jungkook bufou e desabou seu peso sobre mim para esconder seu rosto em meu pescoço. Sem pensar, eu passei minhas mãos para suas costas e o abracei, segurando-o nessa posição sem qualquer segunda intenção.

Eu acho que essa é a primeira vez que o abraço.

Ah, e ele tirou a mão de minha bunda.

Em seguida veio o silêncio, mas nós não nos afastamos. Eu mantive meus braços ao redor de seus ombros e ele fez o mesmo em minha cintura enquanto repousa a cabeça em meu peitoral.

— Hyung... — Ele me chamou com a voz baixa, de repente. — Quando nós vamos poder deixar de ser só amigos?

Eu subi uma de minhas mãos até sua nuca, depois até sua cabeça, e me surpreendi ao perceber como seu cabelo cheio é gostoso de mexer, então não me impeço de fazer um cafuné despretensioso.

— Você sabe, Jungkook. — Respondi, calmo.

— Mas — Ele parou, parecendo incerto sobre continuar, ou não. No fim, optou pelo sim: — é difícil ter coragem de contar para os amigos ou para a própria família que...

— Acho que você entendeu errado. — Eu o interrompi. — Eu não preciso que eles saibam agora. Eu só quero me aceitar e me entender melhor... com o resto eu me resolvo depois.

Ele ergueu o rosto para me olhar, como quem busca uma prova de que estou falando sério. E eu estou sendo completamente sincero.

Ao perceber isso, ele suspirou e então tocou nos meus lábios com a pontinha de seu nariz. Em reflexo, eu a beijei.

Jungkook finalmente sorriu, parecendo meio bobo com meu ato impensado.

— Eu queria saber se meu leite de banana combina com seu suco de melancia. — Ele confessou, mas sorriu ainda mais: — Mas eu posso esperar.

Eu acabei por sorrir também, porque ele é dolorosamente adorável, não importa se cinco minutos atrás estava com a mão em minha bunda.

— Isso. — Eu concordei, acariciando sua nuca. — Nós fomos apressados e descuidados demais da primeira vez. Agora vamos com calma.

Antes que nós pudéssemos falar qualquer outra coisa ou quebrar nosso abraço espontaneamente, ouvimos a porta de meu quarto ser aberta.

Dessa vez, foi Jungkook quem se assustou e se afastou de mim um segundo antes de minha mãe aparecer em nosso campo de visão quando nós dois sentamos rapidamente, desajeitados.

Eu sequer a ouvi chegando em casa e meu coração está disparado com a possibilidade de que ela tenha visto a forma como eu e Jungkook estávamos abraçados.

Não sei se notou ou não, mas ela interrompeu o que quer que fosse falar ao ver Jungkook e, aparentemente, reconhecê-lo.

— Esse não é o namorado da filha de Kang Dae? — Ela questionou, confusa.

Sai fora. Namorado coisa nenhuma.

— É. — É o que preciso responder, entretanto.

Jungkook, agora sentado ao meu lado na cama, curvou o corpo de forma meio atrapalhada, mas ainda respeitosa.

— Boa noite, senhora. — Ele disse, e seu nervosismo é óbvio. Provavelmente pela forma como precisou sair de cima de mim na velocidade do próprio Usain Bolt.

— Boa noite. — Minha mãe respondeu, olhando-o por mais um segundo antes de deslizar os olhos sempre ferinos em minha direção. — Enfim. Eu tenho um jantar importante amanhã e você vem comigo. Desmarque qualquer compromisso inútil que tenha marcado.

Isso obviamente não é um pedido, então é claro que eu não tenho poder de escolha. E, baseado em nossa última discussão, eu sei que vai ser desgastante demais se eu simplesmente me opor como desejo.

— Certo. — É o que respondo, unicamente porque não quero gerar uma nova briga com Jungkook aqui.

Ela então olhou para Jungkook uma outra vez, depois assentiu e, sem dizer qualquer outra coisa, saiu do quarto.

Assim que ouvi a porta fechar, eu deixei meu corpo cair deitado outra vez e passei a mão pelo rosto, um pouco nervoso.

— Ela é... intensa. — Jungkook comentou. Escolha cuidadosa de palavras.

— Ela é assustadora. — Corrigi.

— Bom... É. Um pouco.

Eu sorri, deixando isso para depois, e meus olhos pousaram na televisão. O episódio do anime já está terminando e eu não dediquei sequer um minuto de atenção a ele.

— Eu vou colocar do começo de novo. — Avisei, então saí da cama.

Quando voltei, eu percebi Jungkook ainda sentado, e eu amaldiçoo minha mãe por ela ter nos forçado a quebrar o abraço que estávamos trocando instantes atrás. Agora, eu quero voltar a abraçá-lo, mas não sei como fazer isso.

Assim, eu me sento ao seu lado e mantenho meus olhos fixos na TV. Minha mente, por outro lado, está longe, me ajudando a criar coragem para sugerir que voltemos à posição anterior.

— Hyung... — Ele me chamou no exato instante em que abri minha boca para chamá-lo.

Eu o olhei e o vi apertando os dedos num gesto nervoso, com os olhos apontados para baixo.

Mesmo assim, ele foi mais corajoso que eu:

— A gente pode se abraçar de novo?

Eu não sei se meu sorriso tem o mesmo tamanho da minha satisfação em ouvir seu pedido, mas faço questão de deixar isso claro em meu tom de voz:

— Era o que eu ia pedir. — Confessei.

Jungkook moveu os lábios para tentar conter um sorriso, mas não se demorou em se arrastar até perto de mim. Quando parou ao meu lado, eu percebo que ele está literalmente tremendo de nervoso, mas não voltou atrás e finalmente envolveu minha cintura com seus braços. Depois, ele deitou sua cabeça em meu ombro.

Não é exatamente como estávamos antes, mas tudo bem. Eu estou descobrindo que abraçar Jungkook é bom, não importa em que forma venha esse abraço.

Tomando minha própria dose de coragem, eu passo um de meus braços por suas costas e o puxo para se deitar comigo outra vez, sobre os travesseiros.

— Jungkook? — Eu o chamei, inseguro.

— Oi, hyung...

Eu subi minha mão até seu rosto, então o puxei cuidadosamente pelo queixo até conseguir deixar um novo beijo em sua bochecha.

— Obrigado por ser paciente comigo. Eu juro que vai valer a pena.

Jungkook deixou um sorriso frouxo aparecer enquanto seus olhos estão serenamente fechados. Então ele firmou ainda mais nosso abraço e deslizou seu nariz pela linha da minha mandíbula.

— Já vale muito a pena, hyung...

Eu não sorri, tampouco senti meu coração disparar. Entretanto, o que eu estou sentindo é uma bomba genuína de felicidade.

Algo tão puro que quase se assemelha a... paz.

E Jungkook é o único que consegue provocar isso. É ele quem que me transforma no perfeito caos e ao mesmo tempo me faz sentir que, assim, tudo está no devido lugar.

Agora, nós finalmente prestamos atenção na animação japonesa que se reproduz na televisão. Ou, talvez, nós só estejamos aproveitando em silêncio a companhia um do outro.

Quando o tempo passa e nós chegamos ao terceiro episódio, o gosto do meu suco já se perdeu sob o gosto do bolo delicioso que Jungkook fez e trouxe para mim. E nós o dividimos desajeitadamente enquanto demos boas risadas com a protagonista boba.

E mesmo que ainda não tenha a chance de provar, eu já tenho certeza de uma coisa:

Se leite de banana e suco de melancia combinam do mesmo jeito que eu combino com Jeon Jungkook, essa é definitivamente a melhor combinação de todas.

❥ [Continua...]

Chapter Text

Jungkook levou três episódios para descobrir que não tem estômago para ver a personagem principal do anime se humilhando por um cara babaca.

— Só não faz sentido se humilhar assim por umas migalhas de atenção e ainda ficar satisfeito, hyung! — Foi o que ele disse, inconformado.

— Eu não discordo de você. — Confessei. Entretanto, eu lembro de ter realmente gostado da história da primeira vez que li o mangá.

É estranho como nossa percepção das coisas muda ao longo de nossas vidas.

Antes, a construção do relacionamento entre os protagonistas da trama me parecia um pouco irritante, mas divertida e inofensiva. Agora, entretanto, me parece extremamente irresponsável apresentar esse tipo de relação a um público que, em sua maioria, é composto por pessoas muito novas, levando-as a acreditar que está tudo bem aguentar todo tipo de humilhação quando se está apaixonado, porque, depois de tudo, será supostamente recompensado com um final feliz.

Pro inferno com essa merda.

Relacionamentos não devem ser assim e agora eu odeio como pintam o amor como um sentimento que tudo deve superar e suportar. Foda-se. Amor não deveria ser uma prova de resistência para ver quanto alguém aguenta antes de quebrar e ser acusado de nunca ter amado de verdade.

Amor não é isso. Se for, espero nunca amar.

— Vamos assistir Meninas malvadas de novo? — Foi a solução que encontrei, enfim.

— Ok! — Jungkook concordou de prontidão.

É claro que eu tenho o filme em todos os formatos disponíveis, então não demoro para trocar a imagem do anime irritante pelo longa que está invicto no topo da minha lista de favoritos.

Quando voltei para a cama, eu fui menos hesitante que da vez anterior e sequer tentei juntar coragem para pedir que Jungkook fique abraçado comigo novamente. Eu simplesmente o abracei, sem rodeios, e ele parece satisfeito com isso. Ou, ao menos, é o que seu sorriso mal contido me faz pensar enquanto ele retribui meu abraço e deita sua cabeça em meu peitoral. Então ficamos assim pela hora e meia seguinte, tempo durante o qual controlei até minha respiração para não fazer qualquer movimento brusco e quebrar nosso contato.

— Ficou bem tarde... — Ele observou quando, depois do fim do filme, ainda continuamos deitados juntos na cama.

— Sim... — Concordei, embora sem fazer menção de me afastar para deixá-lo voltar para sua casa.

— É melhor ir antes que o último ônibus passe. — Ele voltou a dizer, nossos pés descalços brincando um com um outro repetidamente.

— Ônibus? — Levantei o rosto para olhá-lo melhor. — É perigoso ir de ônibus a essa hora, Jungkook. É melhor chamar um táxi. Eu pago a corrida.

— Hyung — Ele riu. — Meu bairro é cheio de doido, mas eles não mexem com quem é conhecido. Não precisa se preocupar.

— Me confirmar que tem um monte de doido perto de sua casa não é a melhor forma de me convencer. — Eu levantei, já tateando a cama em busca do celular. — Dessa vez não tem discussão. Já estou chamando o táxi.

Jungkook relaxou a cabeça no travesseiro, então riu de novo. Depois que chamei sua carona de volta, voltei a me deitar ao seu lado, agora de bruços, e mantive meu cotovelo apoiado no colchão e o queixo descansando preguiçosamente sobre minha mão.

Ele respirou fundo, ainda com o sorriso persistente. Fofo pra caralho.

— Obrigado por ter me chamado hoje, hyung — Ele disse.

— Obrigado por assistir Meninas malvadas comigo de novo sem reclamar.

— Eu posso assistir mil vezes, se você quiser.

— É provável que eu queira, sim. — Alertei, então ele acabou rindo.

— Tão fofo... — Ele resmungou. — Eu não vou reclamar, mas também quero assistir seus outros filmes favoritos.

— Eu vou fazer uma lista. — Garanti. — Vai ser bem longa.

Jungkook pareceu feliz com a constatação, então se espreguiçou quando se pôs sentado na cama com os cabelos em pé como um super sayajin, o que me fez rir também antes de levar a mão para tentar conter seus fios rebeldes.

— Uma lista longa significa que vamos precisar nos ver muitas vezes. — Alertei, ainda arrumando seus cabelos bagunçados.

— Graças a deus. — Ele quase cantarolou, satisfeito de verdade.

Eu puxei minha mão e suspirei, sabendo que preciso deixá-lo ir agora.

— É melhor esperar o táxi lá embaixo. Eu te acompanho até a porta.

Jungkook não se opôs, mas me pegou de surpresa quando se inclinou em minha direção e, com as mãos apoiadas no colchão macio, fez seus lábios tocarem meu rosto até me roubarem um beijo na bochecha.

— Pro caso de não poder fazer isso fora do seu quarto. — Ele explicou.

Eu sorri miúdo, nem sei se ele percebeu, e fiz o mesmo que ele ao me inclinar para beijar sua bochecha, logo abaixo da cicatriz.

— Pro caso de não poder fazer isso fora do meu quarto. — Repeti sua justificativa, traiçoeiro.

Ele apertou um sorriso que exala satisfação, mas nós não demos continuidade à sessão de beijos inocentes já que ambos ouvimos o som de uma buzina e, sabendo que deveria ser seu táxi, nos adiantamos em sair do quarto.

— Avise quando chegar em casa. — Eu pedi ao vê-lo atravessar a calçada até o carro estacionado logo em frente, e ele assentiu e acenou com um sorriso antes de sentar no banco traseiro.

Depois de esperar o táxi sumir pela rua, eu voltei ao meu quarto e me preparar para dormir. Quando eu me deitei em minha cama, sobre o travesseiro no qual Jungkook esteve deitado durante toda a noite, eu sorrio ao perceber que seu cheiro suave, distante, continuou aqui numa garantia de que ele realmente esteve comigo durante as últimas horas.

Quando peguei o celular para responder sua nova mensagem, no entanto, não falei sobre esse detalhe. Existe um limite sobre o quanto posso me expor, por enquanto.

Jungkook
|Cheguei, hyung 🌵

Tudo certo?|

Jungkook
|Sim! Só estou com sono, mas vou dormir feliz da vida

Espero que seja pela companhia que teve pelas últimas horas|

Jungkook
|Não poderia ser por outra coisa...

Eu precisei abaixar o celular para chutar o ar e conter uns gritos histéricos como um pré-adolescente descompensado.

Deus do céu, o que esse cara fez comigo?

A companhia vai estar sempre disponível pra você (:|

Amanhã nos falamos, Jungkook. Dorme bem 🌵|

Jungkook
|Até amanhã, hyung! Boa noite 🌵 

Eu fiquei olhando para a tela apagada do telefone por mais alguns instantes, sem conseguir me desapegar da sensação quase embriagada que essas conversas simples com ele me proporcionam.

Será que ele está se sentindo desse mesmo jeito, lá no apartamento dele? Perdendo o juízo por mensagens bobas que eu envio?

É melhor que sim. Eu não quero estar nesse barco sozinho.

De qualquer forma, meu cansaço é real. O dia foi mais intenso do que eu poderia planejar e, por isso, eu não demorei para pegar no sono. E foi um sono bom, gostoso, realmente revigorante. Na manhã seguinte, acordei já com uma mensagem de Jungkook me desejando bom dia, então acordei feliz. O decorrer das horas, entretanto, não foi lá tão carregada de sorrisos. Quer dizer, eu me diverti enquanto Jiwon fazia das tripas coração para tentar me ensinar apropriadamente a fazer o pão de que Jungkook tanto gosta.

Provavelmente essa não seria uma tarefa tão difícil se eu ao menos soubesse como ligar nosso forno.

Mas ter um pão sem sal e deformado não foi o que estragou meu dia. O que fez meu humor derrapar ladeira abaixo em direção ao inferno foi o compromisso com minha mãe, no qual precisei fingir ser algo que não sou enquanto ela me exibia, também fingindo ter orgulho de mim.

— Por que o namorado de Micha estava em nossa casa? — Ela quis saber quando tivemos um pouco de privacidade.

— Nós estávamos assistindo uma coisa. — Dei de ombros. Não é como se ela realmente estivesse interessada nisso.

— Nada que vá engrandecer seu futuro profissional, pressuponho. — Ela disse, o tom jocoso destoando do sorriso que ela exibiu ao acenar para uma de suas sócias, que acabava de se juntar ao evento.

— O profissional talvez não, mas pelo menos eu sei que às quartas devemos vestir rosa. Aposto que a senhora não sabia disso.

Ela sorriu, sem humor algum. É desagrado puro, quase uma ameaça.

— Engraçado. Sabe o que mais é engraçado, Jimin? — Ela alertou, segurando-me pelo braço para me puxar para mais uma conversa falsa. Prosseguiu, com o rosto próximo à minha orelha: — Você está proibido de receber visitas em casa enquanto não der um jeito em sua vida. Divertido, não é? E é só o começo da diversão, então trate de começar a entrar nos trilhos antes que eu te tire todas as suas regalias.

Eu quase soltei, amargurado, que não sou trem para entrar nos trilhos. Mas, de verdade, não vale a pena e mesmo quase engasgando de tanta raiva, eu venci a noite ao seu lado.

Eu espero que seu dia tenha sido melhor que o meu *hmpf*|

Jungkook
|O seu foi ruim? ):

As últimas horas, sim :/|

Jungkook
|*abraço*

Obrigado, já me sinto melhor ㅋㅋ|

Jungkook
|Quer falar sobre o que aconteceu?

É só minha mãe, como sempre. Parece que fica cada vez pior e eu não sei por quanto tempo vou conseguir esconder que estou começando a carreira como modelo... isso me frustra um pouco|

Jungkook
|Eu não entendo... se você fosse meu filho, eu explodiria de tanto orgulho (mas ainda bem que é só meu amigo porque sentir atração por um amigo é ok, mas sentir atração pelo filho é problemático até pra mim)

Jungkook ㅋㅋㅋ|

Às vezes eu não consigo acompanhar seu raciocínio|

Jungkook
|Você pelo menos riu? De verdade?

Ri de verdade|

Jungkook
|Então não precisa acompanhar

Jungkook
|Eu não sei como te ajudar sobre seus pais então só posso tentar fazer você sorrir. Que bom que deu certo ^^

Jungkook
|Prometo que vou continuar me esforçando

Eu não entendo|

Eomo é que nunca se apaixonaram por você antes?|

Jungkook
|Não sei o que responder, hyung

Eu suspirei, vendo que essa foi sua única resposta, e fechei os olhos quando, ainda segurando o celular, deixei meus braços caírem abertos sobre a cama e assim os mantive até que uma nova mensagem chegou, me fazendo rolar pelo colchão para me encolher de lado e ler as palavras que fazem meu coração acelerar.

Jungkook
|Eu quero te ver logo...

 

Não sei dizer quantas vezes li e reli essas cinco palavras antes de, impulsivo como nunca, discar seu número.

— Hyung? — Jungkook pareceu surpreso ao atender minha chamada inesperada.

— Ei... não podemos nos ver agora, mas podemos falar assim. — Murmurei, nervoso. — Ou você prefere falar por mensagem?

— Eu prefiro ouvir sua voz. — Ele nem pensou antes de responder, e eu quase consigo visualizar seu sorriso do outro lado da linha.

— Ok, então... — Acabei rindo, sem jeito. — Eu não sei sobre o que falar...

— Hm... você já fez a lista dos filmes que vamos ver juntos?

Eu sorri e me virei na cama mais uma vez, me encolhendo contra meu próprio corpo enquanto aprecio sua tentativa de dar um rumo à nossa conversa. Então nos deixei entrar numa discussão amigável sobre os melhores filmes para vermos juntos. Depois, a conversa seguiu naturalmente por outros assuntos que me fizeram rir e sorrir tão distraidamente que, quando me dei conta, a ligação já passava de duas horas e eu sequer tinha tomado banho para dormir. Quando percebemos, nós finalizamos a chamada, mas voltamos a nos falar por mensagem instantes depois até cedermos ao sono.

Durante o restante da semana, isso se repetiu bastante. Trocar mensagens e falar por telefone com Jungkook se tornou parte da minha rotina assim como meu hábito de correr pela manhã, que me esforcei para retomar.

E, apesar de gostar disso, nada supera minha felicidade de quando o sábado chegou.

Eu finalmente vou poder ver Jungkook de novo.

Não pela primeira vez, eu levantei ainda mais cedo que o necessário só para me arrumar tão bem quanto minha vaidade e meu desejo de ficar bonito aos olhos de Jungkook exigem.

Mais tarde, ainda pela manhã, eu saí de casa com uma mochila nas costas, levando alguns acessórios e outras peças de roupa para não sair com exatamente a mesma aparência em cada foto.

Honestamente, eu não sei descrever quão forte meu coração está batendo agora que estou dentro do táxi indo ao nosso ponto de encontro, mas eu sinto frio na barriga e suor na palma das mãos quando desço em Myeongdong e passo os olhos, procurando-o.

— Jimin hyung!

Eu virei para trás assim que ouvi sua voz inconfundível alcançar meus ouvidos e acho que criei uma camada de vácuo ao meu redor, porque o ar sumiu completamente quando o vi se aproximando às pressas com um sorriso enorme no rosto, calças e blusa folgadas e a mão segurando um chapéu tipo pescador contra sua cabeça, para não deixar o vento levá-lo.

— Jungkook. — Eu sorri, vendo-o parar logo em minha frente, e ele parece hesitar em me tocar.

Mesmo tremendo de nervosismo e ansiedade, eu sei que a maioria das atitudes corajosas entre nós dois vêm dele, então dessa vez assumo a responsabilidade e quebro a pouca distância entre nós dois ao segurar seu pescoço com minhas mãos e me inclinar para beijar sua bochecha.

— Bom dia. — Cumprimentei quando afastei meu rosto do seu, torcendo para não estar muito vermelho.

— Bom dia, hyung... — Ele coçou a nuca, desconcertado, mas o sorriso permanece firme, talvez ainda maior. — Você tá muito bonito.

— Qual a novidade? — Questionei meio maroto e ele riu, balançando a cabeça para os lados.

— Nenhuma. Nenhuma mesmo.

Eu passei os olhos ao redor, tentando disfarçar o que estou sentindo.

Sério, vai se foder, elogio nenhum era capaz de me desarmar, mas aí chega esse cara e... merda.

— Então... eu queria aproveitar o pouco movimento para tirar algumas fotos por aqui antes que fique tarde e encha de gente. — Mudei de assunto bruscamente.

Jungkook concordou, escondendo suas mãos nos bolsos de sua calça. Instantes depois, voltou a puxar uma delas para fora, agora com seu celular.

— Essa é a câmera que eu tenho... — Avisou, envergonhado.

— É suficiente. — Respondi, sincero, mas acabei pensando numa coisa melhor e peguei meu próprio celular no bolso traseiro de minha calça: — A câmera do meu é muito boa. Prefere usar essa?

— Acho que é melhor. — Ele voltou a guardar seu telefone e aceitou o meu, ainda parecendo constrangido.

— Jungkook — Eu o chamei, percebendo que ele não vai se sentir confortável tão cedo. — Obrigado por fazer isso, de verdade. Vou fazer questão de pagar por seus serviços.

Ele meneou a cabeça, até incomodado.

— Eu já disse que não é esse o tipo de relação que tenho com as fotos que tiro, hyung.

— Mas agora é diferente. — Relembrei. — Não faz mal receber alguma coisa em troca.

— Não é diferente. Eu tiro foto do que me faz feliz e é isso que vou fazer agora.

Eu tentei contra argumentar, mas ele rapidamente deu a conversa por encerrada quando apontou para um lugar mais adiante, onde uma árvore cresce na margem da rua de pedestres com piso de pedra, ladeada por lojas de todos os tipos. Um pontinho verde de vida no meio de todo o concreto, vidro e mármore de Myeongdong.

— Vamos tirar a primeira foto ali. — Ele decidiu.

Eu concordei facilmente, vendo-o posicionar a câmera do celular quando parei no lugar e virei para ele, sem dificuldades ou embaraço para posar.

— Abraça a árvore, hyung — Ele instruiu de repente, mas eu neguei, rindo.

Disso eu tenho vergonha.

— Não vou abraçar a árvore, Jungkook.

— O seu fotógrafo tá mandando. Vai logo, hyung!

Eu levantei minhas sobrancelhas ao mesmo tempo em que exibi um sorriso quase debochado.

— Você fica mandão quando segura uma câmera, pelo visto.

— E você que é mandão o tempo todo?Abraça a árvore!

— Eu não sou mandão! — Contrapus, recuando alguns passos até a bendita árvore, então passei meu braço ao redor do tronco estreito. — Assim está bom, senhor eu-mando-porque-sou-o-fotógrafo?

— Quase. — Acho que ele tirou mais uma foto, então me olhou sobre o celular: — E eu não estava reclamando sobre você ser mandão. Eu gosto, principalmente na cama.

— E Jeon deus da putaria Jungkook ataca novamente. — Eu tentei troçar, só para disfarçar que na verdade me afeta saber que ele é desse jeito no sexo.

Porra... eu quero saber como é foder Jungkook.

— Esse abraço é muito borocoxô, hyung — Ele voltou a dar atenção a nossas fotos. — Você pode fazer melhor que isso.

— Como? — Quase resmunguei porque, por minha nossa senhora, é uma árvore.

— Hm... toca nela como você tocaria em mim. — Ele disse, completamente relaxado, quase me fazendo cair em seu teatro. Mas eu sei o que ele está fazendo, e o safado está tentando me provocar.

Sem deixar barato, eu devolvi sua provocação ao abraçar o tronco com mais força e apertar meus lábios para fingir que vou dar um beijo no caule áspero. Entretanto, o senso do ridículo me atingiu antes e eu joguei minha cabeça para trás, rindo.

— Eu nunca vi um fotógrafo com ideias tão ruins quanto as suas, Jungkook.

Ele continuou olhando para a tela do celular, com um sorriso satisfeito.

— Tirei a foto que queria. — Se aproximou, mostrando a imagem para mim, que foi capturada no exato instante em que caí na risada, abraçando uma árvore no meio de Myeongdong. — Eu não gosto de poses. São muito previsíveis e você não é previsível, hyung. Você é bonito e inesperado como essa foto aqui.

Eu mordi meu lábio, sem deixar passar batido que, diferente de semanas atrás quando me disse o contrário, Jungkook agora não me acha alguém previsível.

— Eu tirei outras fotos bonitas antes dessa — Ele avisou. — Se você achar mais adequadas.

— Acho que vou confiar no meu fotógrafo.

Jungkook pareceu tão feliz com minha resposta, mas se poupou de dizer algo quando seus olhos recaíram na tela de meu telefone antes de voltar a olhar para mim, entregando-o.

— Você recebeu uma mensagem, hyung.

Eu desbloqueei a tela e bufei, irritadiço, ao ver que é uma nova mensagem de Taehyung e sequer me preocupei em visualizar por agora. Ainda estou chateado pela forma maldosa como ele falou sobre Jungkook, mas o que realmente me impacienta é que ele não percebe como está agindo errado sobre isso tudo.

Taehyung sequer o conhece, mas continua acreditando que tem absolutamente todo o direito de dizer que Jungkook é isso ou aquilo só porque viu seu perfil no Instagram. Isso me deixa cada vez mais puto.

— Não é nada. — Avisei, olhando ao redor pra escolher onde tirar as próximas fotos. — Então, senhor fotógrafo, para onde vamos agora?

— Motel.

Eu revirei os olhos.

— É sério. — Ele disse, então me segurou pelo pulso e começou a me puxar. — Tem um motel aqui que é muito bonito. Eles têm um café no terraço e de lá dá pra ver Myeongdong inteira, eles têm até uns pufes coloridos enormes pra sentar lá em cima!

— Jungkook, se isso for um plano pra tentar me arrastar pra um quarto...

Vai funcionar. Oh, porra, vai funcionar fácil.

— Não é, hyung. — Garantiu. A pouca expectativa que criei se quebrou, mas guardei isso só para mim.

— É melhor que não seja mesmo. — Ainda consegui dizer, plenamente.

E, a despeito da minha mente que se acendeu com uma pontinha de ilusão ao acreditar que ele tentaria algo, Jungkook mostrou estar sério em sua garantia, porque quando chegamos ao tal motel, ele pediu apenas acesso direto ao café.

— Por que você tá emburrado? — Ele perguntou, depois de tentar tirar algumas novas fotos, já no terraço.

— Calor. — Resmunguei.

Será que ele está mesmo começando a me ver somente como amigo e perdeu o interesse em tentar qualquer outra coisa comigo?

Meu deus.

Porra, Calvin!

— Que bunda fenomenal... — Jungkook disse de repente como se lesse meus pensamentos, mas foi só porque eu me debrucei no parapeito para me lamentar e minha bunda acabou ficando empinada.

Eu acabei sem conseguir reprimir uma risada, então balancei a cabeça para os lados e me joguei num pufe cor-de-rosa, logo gesticulando para que ele se aproxime.

— Cansei de ficar de pé. — Avisei, relaxando sobre a almofada gigante. — Tire fotos minhas aqui.

Jungkook não se opôs, e foi com um sorriso no rosto que ele se sentou em minha frente, diretamente no chão, e posicionou o celular para capturar novas imagens. Na verdade, ele continuou fazendo isso até mesmo quando eu pedi um chá gelado para nós dois e externei toda minha satisfação por beber algo assim num dia tão quente.

Depois de buscarmos novos lugares para novas fotos, por volta da hora do almoço quando sentamos num restaurante escolhido por mim, eu finalmente analiso todas as fotos que ele tirou e não deixo de ficar impressionado. Jungkook fotografou os momentos em que eu estava preparado para isso, mas capturou também tantos outros onde eu estava agindo bobo ou distraído, e todas são tão boas.

— Caramba, Jungkook...

— Ficaram boas? — Ele perguntou, ansioso.

— Estão incríveis. — Anunciei, sinceramente, arrastando a tela para ver mais uma nova foto. — Eu estou praticamente vestindo a mesma roupa em todas elas e nós nem saímos de Myeongdong ainda, mas cada uma parece tão diferente da outra... como você consegue isso?

Ele apertou os ombros, com as mãos escondidas entre as próprias coxas.

— Quer saber? — Eu o olhei, repentinamente decidido. — Eu vou te dar uma câmera. Vai ser seu pagamento, e nem adianta dizer que não precisa.

Jungkook pareceu confuso com meu anúncio, mas acabou por negar.

— Não quero, hyung. Eu já disse que não vou te cobrar nada por essas fotos.

Eu cruzei os braços, fingindo tédio.

— Presente de aniversário, então. Quando é o seu?

— Não vou dizer.

Eu o olhei, vendo sua expressão decidida. Depois, desci meus olhos até a mesa, onde vi sua carteira e, mais determinado que ele, estiquei minha mão para pegá-la, mas ele me impediu antes que eu a abrisse.

— Hyung!

— Só quero ver a data na sua identidade. Deixa de ser chato, Jungkook-ah!

Ele imediatamente se preparou para contra atacar, mas de repente seus olhos pareceram assustados e ele fechou a boca, abrindo-a outras duas vezes antes de piscar, confuso.

— Você... me chamou de Jungkook-ah, hyung?

Eu apertei minhas sobrancelhas. Não chamei, não. Chamei?

Jungkook tentou refrear um sorriso, mas acabou por falhar.

— Meu aniversário é dia primeiro de setembro. — Revelou, finalmente. — Mas eu não quero uma câmera.

É assim? É só chamá-lo de uma forma mais carinhosa que ele cede? Bom saber disso...

Antes que eu possa testar a eficácia da minha nova descoberta, entretanto, meus olhos são atraídos para a calçada, onde noto alguém nos olhando.

— Amigo! — Sunhye quase gritou assim que viu que sou mesmo eu, então se aproximou com o sorriso bonito de sempre.

— Ei, Sunhye — Cumprimentei de volta com um sorriso sincero. Não esperava encontrá-la aqui, o que não quer dizer que esteja incomodado.

Ela não se desfez do sorriso quando pousou os olhos em Jungkook, que a olha um tanto desconfiado, mas então os lábios dela se retorceram em algo com um aspecto menos inocente e seu dedo foi apontado para a companhia sentada ao meu lado.

— É ele? — Ela foi direta.

Apesar de tê-lo visto pessoalmente na boate em que nos conhecemos, estava muito escuro e ela estava bêbada, então é normal que tenha alguma incerteza. Para esclarecer as coisas, eu balanço a cabeça para cima e para baixo.

— Jungkook, — Eu o chamo, já vendo minha amiga dispensar cerimônias ao puxar uma cadeira para se sentar em nossa mesa. — essa é aquela minha amiga que pediu uma foto nossa.

Ele piscou, talvez buscando a lembrança, e então assentiu. Antes que ele pudesse dizer algo, foi Sunhye quem, com seu jeito enérgico, tomou a frente:

— Na verdade eu só tinha pedido uma foto sua, Jungkook, mas o cabeça oca entendeu errado. — Ela gesticulou com a mão, desleixadamente, depois a esticou num cumprimento. — Mas não que eu esteja reclamando. Oi. Meu nome é Sunhye, já sei há muito tempo que o seu é Jungkook. Tudo bem, Jungkook?

Jeon pareceu atordoado com tantas palavras sendo atiradas de uma só vez e acabou olhando para mim num pedido de ajuda quando aceitou o cumprimento de Sunhye.

— Você se acostuma. — Tentei tranquilizá-lo.

Sunhye riu, apoiando os cotovelos na mesa e depois descansando o queixo sobre as palmas das mãos. Então ergueu as sobrancelhas para mim depois de olhar para Jungkook:

— Se você aguenta o indeciso do Jimin, eu não vou ser uma dor de cabeça.

Eu revirei os olhos. Jungkook continuou confuso.

— Eu não estou entendendo muito bem... como ela...? — Ele perguntou quase num sussurro envergonhado, sem saber como finalizar seu questionamento.

— Noventa por cento das nossas conversas envolvem você — Sunhye confessou, sem me dar chance de pensar numa forma de fazer essa declaração de forma mais sutil.

Porra, Sunhye.

— É sério? — Ele me olhou mais uma vez, sua confusão lentamente se transformando em algo mais confiante e acho que feliz.

Ah. Se ele está feliz e não assustado, então: Obrigado, Sunhye.

— É. — Confessei, já menos resistente. — Ela é como minha conselheira amorosa... para amigos? — Tentei, mas não tem uma forma de encaixar essas palavras de forma coerente.

— Jimin quer dizer que, se ele resolveu tirar um tempo para colocar a cabeça no lugar antes de te confundir ainda mais com a confusão dele... o crédito é meu, e eu aceito de bom grado.

Jungkook não parece mais tão feliz.

Os ânimos estão instáveis por aqui.

— Então é por sua causa que o Jimin não quer mais me beijar? — Ele acusou.

Sunhye arrumou sua postura, depois ficou em silêncio. Só depois de piscar e inclinar a cabeça levemente para o lado é que ela deu de ombros.

— Esse é um jeito duro de colocar as coisas, Jungkook. Eu ajudei Jimin a perceber que ele precisava refletir antes de se envolver ainda mais com você — Ela se defendeu.

Jungkook deixou o ar escapar no que parece uma risada mal humorada.

— Duro é como eu fico só de estar perto dele — Ele disse tão baixo que acho que nem pretendia ser escutado, mas eu escutei na mesma.

Eu acabei rindo, sem levar seu mau humor realmente a sério.

— Jungkook-ah, — Eu o chamei, testando minha nova descoberta sobre a forma carinhosa de chamá-lo, então estiquei minha mão para acariciar sua nuca. — você disse que tinha entendido.

Ele deixou a cabeça cair para trás e suspirou, resignado.

— Eu entendo, hyung, quem não entende é a ereção que aparece toda vez que eu penso em você...

Eu engoli o riso antes de olhar para Sunhye, em busca de sua reação. É claro que eu já falei para ela sobre esse traço incrível da personalidade de Jungkook que o impede de sentir qualquer tipo de constrangimento quando o assunto é sexo ou qualquer coisa com conotação sexual, mas vai saber se ela não fica incomodada pelo assunto ser trazido à tona numa mesa ainda sob a luz do dia...

Entretanto, provando que minha preocupação é infundada, ela jogou a cabeça para trás quando cedeu a uma gargalhada muito alta e muito sincera, até ficar vermelha de tanto rir.

E então a confusão voltou a marcar presença na expressão de Jungkook, porque ele honestamente não entende o motivo do riso explosivo.

— Eu não entendi? — Ele disse quase em tom de questionamento.

Ah, caralho. Ele é tão...

— Ela é louca, bebê, só ignora. — Eu disse sem pensar, então puxei o cardápio esquecido sobre a mesa.

Como fiz questão de manter minha outra mão em sua nuca, eu percebi o momento em que o corpo de Jungkook se enrijeceu. É sério, o menino ficou duro como uma tábua, e eu vi seus olhos quase saltando de sua cara quando virei para olhá-lo.

— Você me chamou de bebê. — Ele disparou antes que eu perguntasse o que estava errado.

Agora sou eu quem me assusto. Porque, mais uma vez, eu o chamei carinhosamente sem sequer me dar conta disso, mas bebê é infinitamente pior que Jungkook-ah.

— Ah, desculpa — Eu disse, sem jeito. — Saiu sem querer.

E eu me desculpei, mas a culpa nem é inteiramente minha. A culpa é dele por ser tão... bebê.

— Eu não estou reclamando, hyung...

Eu quase afastei minha mão de seu pescoço pelo constrangimento, mas, porra, eu não quero afastar minha mão. Por isso, o que faço é mantê-la exatamente onde está e pigarrear, batendo meu indicador no cardápio.

— Certo. Vamos pedir logo nosso almoço antes que o garçom venha expulsar a gente — Relembrei, tentando aliviar a tensão.

Jungkook olhou para mim, depois para o único cardápio que temos e, ainda com essa atmosfera envergonhada, colou sua cadeira à minha. E se eu já estava nervoso, meu coração quase saiu pela boca quando ele timidamente deitou a cabeça no meu ombro para poder analisar o menu comigo.

Eu fiquei estático por uns segundos, mas relaxei aos poucos e aproveitei a proximidade para encostar meu nariz no topo de sua cabeça.

Seu chapéu tem cheiro de amaciante, então deve ter sido lavado recentemente, mas eu preferia sentir o cheiro de seu cabelo. É gostoso e suave, como camomila, mas o cheiro de lavanda me impede de senti-lo.

De qualquer forma, eu me contento em voltar minha atenção ao cardápio e, quando o fiz, percebi minha amiga nos analisando silenciosamente.

Sunhye!

Puta merda, eu esqueci que ela estava aqui!

— Ah, — Eu tentei me redimir. — vou pedir um cardápio para você.

— Não. — Ela me interrompeu rapidamente, já livre do riso explosivo que agora deu lugar a um sorriso menor, contido, de apreciação. — Eu já almocei. Vou só aproveitar que parece que sou cliente e vou usar o banheiro deles antes de ir. Já volto.

Eu a acompanhei com os olhos quando ela se levantou depois de deixar a mochila na cadeira e caminhou até a parte interna do restaurante sem timidez alguma.

Sozinho com Jungkook, nós continuamos na mesma posição até que eu tirei minha mão de sua nuca e a apoiei em sua perna, em silêncio. Só então ele se manifestou, com a voz baixa:

— Eu vou querer a omelete de carne, hyung.

Eu apertei meus olhos, porque os rolinhos de omelete são apenas entradas, mas logo entendo ao ver que é um dos pratos mais baratos.

— Jungkook... você pode pedir outra coisa.

— Eu preciso economizar... — Ele disse, um tanto envergonhado. — Eu deixei Micha na mão duas vezes, então não recebi o dinheiro e eu meio que estava contando com ele. Mas eu também gosto de omelete, então não tem problema.

— Eu pago. — Sugeri, mesmo sabendo que ele não gosta disso. — Só dessa vez, Jungkook. Você deixou Micha na mão por minha causa, é o mínimo que eu posso fazer.

— Você já pagou meu táxi no outro dia... — Ele lembrou, relutante.

— A corrida ficou barata. — Eu menti, porque nem me preocupei em ver o recibo automático do cartão. — E eu ouvi dizer que a sopa de frutos do mar daqui é muito boa, então quero que você prove. Nós podemos pedir a omelete como entrada, já que você gosta.

Jungkook demorou um tanto até balançar a cabeça no meu ombro, e eu percebo que ele cedeu. Depois, ele se esticou para deixar um beijo no meu pescoço.

— Obrigado, hyung.

Eu sorri, já mais satisfeito, e devolvi dois beijos seguidos em sua testa.

— Então vai ser duas porções de sopa de frutos do mar, duas porções de arroz para acompanhar e a omelete de entrada. Quer mais alguma coisa? — Ofereci, buscando pelo cardápio alguma outra coisa que ele possa querer, mas eles não servem leite de banana aqui.

Tudo bem, acho que não seria uma boa combinação com mariscos, de qualquer forma.

— Assim está bom — Ele garantiu, ainda com a cabeça repousando em meu ombro. Quando me virei para chamar o garçom, no entanto, vi Sunhye voltando para a mesa. Ela não se sentou, mas ficou um tempo de pé, nos olhando silenciosamente.

No fim, ela balançou a cabeça e sorriu, mas continuou calada, então pendurou a mochila de volta nas costas.

— O que foi? — Eu perguntei.

— Nada. — Ela balançou os ombros. — Só que aquela coisa de vocês serem só amigos claramente não deu certo. Vocês já estão juntos e nem percebem isso.

— Nós ainda não estamos juntos, Sunhye. — Eu disse, porque honestamente acredito nisso.

— Não? — Ela pareceu ponderar por um instante, então apoiou as mãos na mesa de mármore e se inclinou mais para nossa direção. — Então não tem problema se eu te apresentar a uma amiga, não é? Ela me viu com você na boate e ficou muito interessada...

— O que? — Jungkook disparou quase de imediato e ele não parece bravo, mas parece ofendido e desesperado. Eu devo perceber isso porque me sinto da mesma forma.

Vai se foder, eu não quero conhecer amiga dela, não.

— Viram? — Ela gesticulou de mim para Jungkook, apontando nossas expressões contrariadas. — Estão juntos. E nem sabem. Quer dizer, não sabiam, mas agora já estão sabendo. De nada.

Jungkook se moveu na cadeira, então acabou se afastando um pouco, mas não completamente. Sunhye não notou e se aproximou, apoiando uma mão no meu ombro.

— Eu preciso ir agora. — Em seguida, ela abaixou seu rosto até deixar na altura do meu rosto, e completou: — E, Jimin? Você também parece não ter percebido que está em público. — Avisou, mas não existe provocação em seu tom. É quase orgulho, e eu entendo o que ela quer dizer quando percebo que eu troquei vários toques com Jungkook em público, sem perder o juízo por isso.

Eu arregalei meus olhos e virei meu rosto para analisar as pessoas ao redor. Ninguém parece prestar atenção em nós dois, a não ser por um casal de idosos numa mesa não muito distante, mas eu sequer me sinto intimidado, só irritado porque, ora porra, que direito eles acham que têm para olhar assim?

— Enfim. — Ela apoiou as mãos na cintura quando voltou a erguer o corpo, e seu sorriso bonito e convidativo voltou a aparecer. — Eu já vou mesmo. Nos vemos depois, não é?

Eu nem sei se Jungkook se despediu dela, porque logo me retraí numa bolha pensativa, analisando toda a situação atual.

— Hyung? — Ele me chamou, passando a mão na frente do meu rosto. — Tudo bem?

Eu pisquei um tanto de vezes antes de fazer que sim e então dei um último beijo em sua cabeça, mesmo que agora esteja ciente sobre estarmos em público.

— Vou pedir nossa comida — Avisei, me movendo com cuidado para encontrar o primeiro garçom, então gesticulei, chamando-o.

Durante o almoço e o restante da tarde, eu percebi que larguei o foda-se mais sincero da minha vida, porque em momento nenhum recusei as carícias de Jungkook ou me poupei de ser eu a acariciá-lo durante os intervalos entre uma foto e outra. Entretanto, eu não me sinto totalmente seguro, porque não sei como reagiria se ele tentasse me beijar na boca ou qualquer coisa assim na frente de outras pessoas. Eu realmente não sei.

— Você viajou de novo... — Eu ouvi sua voz quando ele me cutucou na perna.

— Hm? Desculpa... — Eu olhei ao redor, distraído. Já anoiteceu e as luzes das lojas de Myeongdong já estão acesas. Nós também já as aproveitamos em novas fotos, agora só estamos sentados, decidindo o que fazer a seguir. — O que você disse?

— Eu perguntei se você quer dormir na minha casa...

— Hoje? — Estranhei seu convite por ser tão repentino.

Não que eu me oponha a passar mais tempo com Jungkook, mas apesar de trazer outras roupas na mochila, eu não trouxe os produtos para meu rosto, nem minha base em pó está aqui comigo.

— Aí nós podemos tirar mais fotos amanhã. — Ele insistiu diante da minha relutância. — É mais prático se dormirmos no mesmo lugar, você não acha?

Tirar fotos sem maquiagem nenhuma?

Não.

— E se eu dormir na sua casa e amanhã só passarmos o dia juntos? Sem fotos. Já tiramos o suficiente hoje — Sugeri, tentando reverter a situação.

— Melhor ainda. — Ele abriu um sorriso do tamanho do mundo, o que me fez sorrir também.

Eu não quero que Jungkook tenha a visão frequente de minha aparência sem todos os cuidados que sempre tento ter, mas nós passamos a semana inteira sem nos ver e eu não quero perder a chance de passar mais tempo com ele.

— Então vamos indo — Eu fiquei de pé, esticando os braços para me espreguiçar. — Vamos passar em alguma loja de conveniência para comprar uma escova de dentes para mim também. Não vou dormir de boca suja.

Jungkook riu de meu aviso consternado, mas acho que ele riu durante todo o caminho até seu bairro. Não que tenha sido diferente para mim, porque parecemos dois patetas dentro do ônibus — e, sim, ele me convenceu a entrar naquele megazord outra vez.

— Fica na fila, hyung — Ele disse quando chegamos a uma loja de conveniência perto de seu apartamento e nos deparamos com uma fila horrorosa no caixa. — Vou pegar papel higiênico também, o meu tá acabando.

Eu nem sei por que ri, mas ergui meu polegar num gesto de confirmação mesmo assim.

— Você nem é alto, mas seus chifres atrapalham minha visão — Alguém reclamou atrás de mim e é tão fácil reconhecer a voz que eu nem estranho sua colocação.

— E aí, Calvin. — Digo, olhando-o por sobre o ombro.

— Eu juro que um dia vou lembrar seu nome. — Ele avisou. — E um dia te digo o meu.

— Posso continuar te chamando de Calvin, não me importo.

— Certo... — Eu o vi olhando na direção de Jungkook, que parece muito concentrado escolhendo seu papel higiênico. — Então você está aqui... com ele.

— Sim. — Me limito a dizer. Não estou a fim de ouvir os avisos de Calvin hoje, nem em qualquer outro dia.

— Você é teimoso. — Ele fez uma careta como quem admira minha suposta imbecilidade. — Não adianta te dizer para ficar longe desse puto, não é?

Eu juro que quase arranquei a escova de dentes da embalagem para enfiá-la no olho desse babaca.

— Pare de falar assim dele. — Avisei, arisco.

Calvin apertou as sobrancelhas, depois simultaneamente as ergueu.

— Uau. Você caiu mesmo no conto dele.

— Puta que pariu... — Eu respirei fundo para não acabar dando um soco nele. — Que conto, Calvin? Você pelo menos já conversou com o Jungkook alguma vez na sua vida pra ter tanta certeza assim do que diz sobre ele?

— Não preciso conversar. Eu conheço esse tipo de longe.

Ok. Eu vou mesmo dar um soco na cara dele.

— Você é muito sem noção. — Ao invés de largar minha mão na fuça desse otário, o que eu faço é passá-la no ar sobre minha cabeça como um idiota. — Sabe esse chifre aqui, Calvin? Que você tem certeza que existe só porque eu te disse isso? Pois é: ele não existe. Eu não fui traído. Eu acreditei que sim porque fiz a mesma coisa que você e tirei uma conclusão totalmente precipitada e agora você tem certeza de que minha ex é uma traíra, mas na verdade você não sabe nada sobre ela. Aí você vem e me diz que nunca teve uma conversa de verdade com aquele cara, mas acha que sabe absolutamente tudo sobre ele? Toma vergonha, porra!

Calvin quase arregalou os olhos, mas eu o vejo lutar para não fazê-lo.

Eu estou puto com essa merda. Por um tempo, eu achei que Calvin conhecia Jungkook bem o suficiente para fazer aquelas afirmações, mas agora sei que ele é só como Taehyung, que acredita conhecê-lo profundamente e saber que Jeon não serve para nada além de sexo só por conta de umas fotos numa rede social imbecil.

E o que mais me deixa decepcionado nisso tudo é que eu também já fui essa pessoa e reduzi alguém tão incrível como Jungkook a algo tão pequeno.

— E quer saber? — Eu continuo, cada vez mais amargo, até empurrando meu indicador contra seu peito. — Ele é safado, sim, porra, mas o que você tem a ver com isso? Você não faz ideia do que ele é além disso. Jungkook é uma puta de uma pessoa atenciosa, carinhosa e talentosa. Ele é completamente apaixonado por um cacto. Um cacto! E ele gosta de coisas coloridas e de leite de banana e de apelidos carinhosos. Disso você não sabia, não é? Porque você não sabe merda nenhuma sobre ele, Calvin, então não saia por aí achando que sabe.

Que saco! Eu estou tão irritado que até minha respiração está mais pesada.

Mas vai se foder, simplesmente não me desce que pensem tão pouco de uma pessoa que tem um cacto chamado Keanu Reeves, não consegue escolher uma só cor favorita porque gosta de todas e assiste Meninas malvadas comigo mais de uma vez sem reclamar só porque gosta da minha companhia.

Calvin que exploda.

— Você me deixou tão puto que nem aguento mais olhar na sua cara! — Eu ainda disse, possesso, diante da sua incapacidade de me responder.

Quando eu virei para a frente com fogo escapando pelas narinas, entretanto, eu vi Jungkook parado ali, com seu pacote econômico de papel higiênico nos braços e os olhos pousados em mim.

Eu nem acredito que ele seja o único a me olhar agora. A fila inteira deve ter virado para ver minha explosão de palavras e acusações, mas Jungkook é o único que me importa, e eu sequer consigo interpretar sua expressão.

Sem dizer nada, ele abaixou o rosto e se aproximou até parar ao meu lado na fila. Mesmo depois que saímos de lá sem dirigir qualquer despedida a Calvin, ele continuou calado até chegarmos em seu apartamento, o que me deixa nervoso.

Ele está chateado?

Eu fiquei tão irritado que posso ter falado algo que não deveria. Por isso, assim que ele fecha a porta e coloca o pacote de papeis higiênicos sobre o sofá, eu umedeço meus lábios num gesto aflito.

— Jungkook? — Eu o chamo, e me parece que ele não está mais confortável em minha presença. — Você quer que eu vá embora?

Ele demorou algum tempo antes de erguer seu rosto. Quando o fez, eu vi seus olhos avermelhados como quem luta furiosamente contra as próprias lágrimas, mas não é tristeza que eu vejo em seu rosto, agora.

— Hyung... — Ele finalmente me chamou como se não tivesse escutado minha pergunta. — Aquilo que você falou... é verdade? Você... você acredita mesmo em mim, hyung?

Tudo bem, acho que estou entendendo.

Com calma, então, eu me aproximo e seguro seu rosto antes de mostrar um sorriso pequeno, mas sincero.

— O que eu falei naquela hora foi só uma parte, Jungkook-ah. Ainda existem outras mil coisas boas que eu penso sobre você.

Jungkook pareceu engasgar com a própria saliva por um segundo, então deixou uma lufada desastrada de ar escapar e, quando dou por mim, seus olhos já estão brilhando com tantas lágrimas forçando seu caminho para fora.

Devagar, ele quebrou a distância entre nós dois e seu corpo se curvou um pouco quando escondeu seu rosto em meu ombro e deixou seus braços envolverem minha cintura num abraço tão apertado quanto nunca recebi antes.

— Obrigado, hyung... — Ele ainda disse, muito pouco tempo antes que eu sinta seu peito contrair com um soluço.

Eu quis sorrir, mas não consigo. Eu não me sinto feliz por ter feito algo bom para Jungkook, só me sinto angustiado por ver que ele acha que precisa agradecer por isso. Ele acha que precisa agradecer por alguém vê-lo como algo que vai além de sexo, e isso machuca.

Talvez eu acabe chorando também. Meus olhos ardem como se eu estivesse prestes a chorar, mas eu não o afasto, nem tento refrear o que estou sentindo. Só o mantenho assim, perto, por quanto tempo seja necessário para nós dois.

E eu sei que faço muita besteira em minha vida, mas duvidar outra vez da pessoa incrível e completa que Jungkook é... isso não é algo que vou fazer novamente.

❥ [Continua...]

Chapter Text

Eu e Jungkook continuamos abraçados no meio da sala de seu apartamento miúdo por um tempo que não fiz questão de medir.

Quando ele finalmente se afastou minimamente, talvez por estar constrangido, eu vi seu rosto cheio de lágrimas e deixei um sorriso triste aparecer, enquanto uso meus polegares para apagar os rastros do choro recente.

Santo deus... fazer mal a alguém assim deveria ser crime inafiançável e imprescritível.

Sério, deveria estar lá no código penal do universo.

— Eu disse que sou chorão... — Ele lembrou, deixando uma risada fraca dar as caras quando eu continuei secando seu rosto pacientemente.

— Você é um bebê adorável, Jungkook-ah. É isso que você é.

— Me chamou de bebê e de Jungkook-ah na mesma frase... — Ele apontou, baixinho. — Desse jeito eu vou me apaixonar por você, hyung.

Como assim ele ainda não é apaixonado por mim?

Que porra é essa?

— Que nada — É a resposta que dou, escondendo minha revolta incrédula por trás de um sorriso calmo.

Mas, sério, ele não está nem um pouquinho apaixonado, ainda? Nem um tico?

Jungkook fungou e usou as costas das mãos para secar as lágrimas, mas eu já fiz um bom trabalho em secar todas antes disso.

— Nós precisamos jantar... — Ele lembrou, olhando para sua cozinha. — Eu posso fazer alguma coisa para nós dois, mas não vai ser nada perto do seu padrão de refeições...

Ele se afastou um pouco, e não o impedi.

— Se seu jantar for tão gostoso quanto suas tortas, acho que vou ficar bem — Respondi, caminhando até a janela da sala. Fico curioso ao ver Keanu Reeves ali, no peitoril.

— É que eu não tenho muitos ingredientes, hyung... — Jungkook anunciou. Outra vez, ele parece envergonhado.

— Jungkook, você não precisa se preocupar com isso. — O tranquilizei, porque não precisa mesmo. Eu até me ofereceria para pagar alguma coisa pelo delivery, mas sei que ele não vai aceitar então fico calado.

De qualquer forma, mesmo que seja apenas arroz com alga, o que ele fizer para nós vai ser suficiente. Até porque eu vim dormir em seu apartamento para passar mais tempo com ele, não em busca de uma refeição cinco estrelas.

— Mas, ei... por que o trocinho está na janela? — Pergunto, apontando para o cacto.

— Ah, ele precisa pegar bastante sol, então o deixo na janela durante o dia. Coloca ele no móvel da TV, por favor?

— Certo. — Eu não me opus e segurei o jarrinho com o fofinho antes de colocá-lo no lugar onde o vi nas duas vezes em que vim aqui, então me abaixei para olhá-lo de perto. — Desculpa por ter roubado seu pai durante todo o dia, Keanu, mas vou abusar dele mais um pouco.

— Por favor, hyung, pode abusar — Jungkook respondeu, explodindo numa gargalhada gostosa.

Eu rolei meus olhos com tédio e me aproximei, parando diante do balcão de madeira enquanto ele pega algumas coisas em sua geladeira.

— Quer ajuda? — Ofereço. — Eu sei ferver água.

— Não precisa. — Ele respondeu, deixou os ingredientes sobre o balcão da pia e depois parou do outro lado da mesa, de frente para mim.

Então espalmou as mãos na superfície lisa e se inclinou em minha direção, até deixar seu rosto bem próximo do meu e me roubar um beijo na bochecha.

— Você pode ir se preparar para dormir enquanto eu faço a comida, se quiser. — Me disse, ainda perto.

Meu deus, eu vou lascar um beijo na boca desse cara...

— Certo. — Eu não recuo, e faço minha mão alcançar a sua sobre a mesa no que finjo ser um toque desproposital. — Me empresta uma calça para dormir?

— Não é melhor ficar pelado?

Eu abaixei meus olhos quando ri, depois voltei a olhá-lo e umedeci meus lábios.

— Você não vai resistir se me vir sem roupa, Jungkook.

— Novidade para você, hyung: eu já não resisto quando você está vestido.

Eu deixei um sorriso muito inoportuno dar as caras, mas não consigo resistir a essa sensação de frio na barriga e antecipação.

Nós estamos flertando, porra. É muito gostoso flertar com Jeon Jungkook e ser correspondido, meu deus, eu vou morrer.

— Mas você pode, sim, pegar uma calça minha — Ele continuou, afastando-se em seguida, bruscamente.

Ora porra.

— Fica tudo no armário do quarto, você pode pegar a que achar melhor. Pode pegar uma toalha também — Foi a última coisa que Jungkook disse antes de ficar de costas.

Ele está fazendo charme? Quando foi que o jogo virou assim?!

— Obrigado. — Resmungo, meio contrariado. Eu só queria flertar um pouquinho mais.

De qualquer jeito, me resigno e pego minha mochila e minha nova escova de dentes antes de ir até seu quarto. Já diante de seu armário, eu busquei uma calça de moletom e uma toalha limpa, mas foi um pouco difícil de encontrar, porque Jungkook parece ser meio bagunceiro.

No banho, eu usei o shampoo de Jungkook, e confirmei que minhas suspeitas estavam certas. Ele usa mesmo shampoo de camomila, de uma marca para crianças.

Isso é tão fofo que eu não tenho mais palavras para descrever. Na verdade, estou decidindo uma nova palavra no meu vocabulário para definir o auge da fofura: Jungkook.

A partir de hoje, Jungkook é o adjetivo usado para descrever as coisas mais adoráveis do universo.

Por isso, concluo: Jungkook é tão Jungkook que doi.

Quando saio do banheiro, já depois de escovar os dentes, tirando o excesso de umidade dos cabelos com a toalha e já vestindo sua calça — que ficou um pouco grande em mim, mas isso não é novidade —, eu vou até minha mochila para pegar uma blusa, mas bufo em irritação ao perceber que não trouxe nenhuma camisa confortável.

Será que Jungkook se importa se eu pegar uma blusa dele também?

Eu tenho quase certeza de que a resposta é não, mas prefiro garantir e apoio a toalha em meu ombro nu antes de caminhar para fora do quarto e encontrá-lo de costas para mim, ainda preparando nosso jantar.

— Ei, Jungkook — Eu o chamo, chacoalhando meus dedos entre os fios molhados de meus cabelos.

— Oi, hyun... puta que pariu — Ele se engasgou quando virou para me olhar e quase derrubou a tábua sobre a qual prepara o que parece ser kimbap.

Eu levei um segundo para entender sua reação, até notar seus olhos arregalados voltados para meu tronco nu. Só então lembro que Jungkook já até bateu punheta para mim, mas nunca me viu sem camisa.

E tudo bem, eu já sabia que ele sente atração por mim. Ele deixou bem claro em todas as infinitas vezes em que declarou isso me chamando de gostoso ou qualquer coisa semelhante.

Mesmo assim, faz um bem danado ao meu ego vê-lo me olhando dessa forma, agora que tem a oportunidade. Também me sinto satisfatoriamente vingado, porque o vislumbre de seu corpo em ocasiões passadas também já fez insanidades com minha mente.

Sem me envergonhar, eu não me importei em usar a toalha para tentar me cobrir ou qualquer coisa assim. Quando se trata do meu corpo, eu sou especialmente confiante mesmo que tenha largado a academia há uns meses e não tenha mais o abdômen definido como antes.

Então o que eu faço, na verdade, pode ser considerado maldade: ao invés de me cobrir, eu tirei a toalha pendurada em meu ombro para expor todo meu tronco de uma vez, fingindo usá-la para secar meus cabelos.

Foi difícil conter o riso quando percebi o olhar de Jungkook mais atento a cada segundo, com seu maxilar travado num gesto tenso.

— Eu posso usar uma blusa sua? — Perguntei casualmente.

Jungkook subiu seus olhos até meu rosto, percorrendo cada pedacinho de pele nua em meu corpo antes de me encarar de volta e assentir num gesto lento.

Eu sorri um pouco e não sei dizer exatamente o que me motiva a provocá-lo tanto, mas o que faço a seguir é quase involuntário:

— Ou você prefere que eu fique assim? — Sugeri, malicioso.

Jungkook respirou devagar, eu consigo ver seu peito subir e descer com lentidão, e seus olhos desceram outra vez até meu abdômen quando ele se encostou no balcão da cozinha e me olhou com tanta intensidade que me deixou tonto.

Depois disso, em algum momento, o feitiço virou contra o feiticeiro, porque Jungkook arrastou a mão pelo próprio quadril, até apertar seu pau por cima da calça.

— Eu prefiro que você tire tudo, hyung.

Dessa vez, eu quem fiquei sem reação, porque não esperava que ele fosse tão capaz de revidar.

Porra, de tanto me aproximar do lado adorável e sensível da personalidade de Jungkook que fica sem jeito quando beijo sua bochecha, acabei esquecendo que ele pode ser a verdadeira personificação do sexo e da provocação, sem vergonha alguma.

Ainda embasbacado, eu pisquei mais atordoado ainda quando ele riu. Mas ele riu de verdade mesmo.

— Você quer provocar, mas não aguenta quando revido? — Questionou, tombando a cabeça levemente para o lado. — Cuidado, Jimin...

Eu pigarreei, completamente sem jeito e me sentindo ridículo.

— Não estava te provocando, seu louco. — Resmunguei, mas sequer tenho credibilidade para sustentar minha mentira. — Vou pegar sua blusa, ache ruim ou não.

— Fique à vontade, hyung. Espero que você não tenha alergia a roupa de pobre.

Eu não sei exatamente por que, mas sua última provocação me faz sentir o rosto quente, talvez eu esteja vermelho, e nem é unicamente de vergonha.

Esse cara me desregulou todo. E o pior é que eu gostei.

Sem dizer mais nada, eu viro as costas para voltar para o quarto e me libertar de seu sorriso debochado, mas depois de passar cinco segundos sozinho no cômodo, eu dei meia volta e saí outra vez. Eu acho que tentaria discutir com Jeon, não sei, porque qualquer rastro de consciência foi apagado de minha mente assim que pousei meus olhos sobre Jungkook e o encontrei parado no mesmo lugar, agora com as pálpebras cerradas, a cabeça levemente inclinada para baixo e sua mão novamente sobre o volume em sua calça, que agora parece mais perceptível.

Não sei quanto tempo leva até que ele abra os olhos lentamente e me perceba petrificado, encarando-o sem piscar enquanto sinto meu próprio membro dar sinal de vida dentro da calça.

E Jungkook, safado como é, não se intimidou por minha atenção. Na verdade, seu olhar não vacilou nem por um segundo, escuro, oblíquo e excitado, quando sua mão fez mais pressão em sua ereção.

O ar escapou por minha boca numa força desastrosa, e então fui eu quem perdi a coragem e voltei definitivamente para o quarto, fechando a porta com força antes de me recostar contra ela, ofegando como se tivesse corrido uma maratona.

— Porra... — Praguejei, me percebendo cada vez mais duro. — Porra, porra, porra, Jungkook...

Não era nisso que estava pensando quando saí de seu quarto sem blusa. Eu realmente não tive maldade no pensamento. E, sim, posso ter sido um pouco maldoso ao provocá-lo deliberadamente, mas meu intuito era somente deixá-lo nervoso, não fazer ele me provocar em retaliação e me deixar com uma puta de uma ereção.

Com a mente toda desgraçada, eu levo um tempão para me aprontar e mesmo quando termino de me vestir não tenho coragem de sair daqui de dentro. Não suficiente, devo gastar muito mais tempo em minha nova crise porque, quando dou por mim, Jungkook aparece no quarto, enfiando a cabeça pela pequena brecha na porta aberta.

— Hyung? O jantar está pronto.

Eu o olhei, a princípio em silêncio, buscando algo em sua feição que denuncie que Jungkook está com tão afetado quanto eu, mas outra vez sua expressão é difícil de interpretar.

— Já vou. — Respondo, resignado.

Jungkook concorda, mas não se mexe. Eu também continuo parado no mesmo lugar porque, porra, as coisas não deveriam estar assim.

Eu vim para passar um tempo com ele porque gosto de sua companhia. Gosto mesmo. No entanto, estar aqui parece reforçar toda a atração que eu sinto por Jungkook e que vem sendo sufocada durante os últimos dias para que eu não ultrapasse nossa linha de amizade.

E agora parece ainda pior, porque antes me sentia atraído, mas tinha minhas ressalvas desconfiadas sobre sua personalidade. Agora que o conheço melhor, eu absolutamente o adoro e o desejo na mesma proporção, e isso me faz ter cada vez mais medo de fazer besteira de novo da mesma forma em que desejo avançar e deixar de ser somente seu amigo.

— Hyung... — Jungkook me chamou, então, ainda parado na porta. Eu o olho, sem precisar dizer nada para que ele anuncie: — Tá ficando cada vez mais difícil, então por favor... tenta se decidir mais rápido.

Depois disso, ele finalmente recuou com um passo e me deu as costas.

Sozinho, eu passei as mãos pelo cabelo num gesto frustrado, porque essa situação não é frustrante só para mim, e Jungkook acabou de deixar isso muito mais que claro.

Ainda sem saber o que fazer, eu respirei fundo e tentei manter minha cabeça no lugar. Por fim, também saí do quarto e o encontrei na cozinha, sentado em uma das duas cadeiras que foram posicionadas uma de cada lado do balcão de madeira, para ficarem de frente uma para a outra.

O jantar também está servido. Como Jungkook garantiu, é algo simples. Apenas kimbap servido num de seus pratos coloridos e posicionado no meio do balcão.

— Desculpa — Ele pediu, dessa vez sem jeito. — Só deu pra fazer isso...

Eu neguei calmamente, então me sentei na cadeira livre, de frente para ele, antes de aceitar os hashis que me são oferecidos.

— Pare de se desculpar, por favor. — Insisti, me sentindo mal por ele se culpar tanto por algo como isso. Eu não quero que ele se sinta intimidado por meu status, mas constantemente isso ocorre.

Jungkook abaixou um pouco o rosto, então apontou para uma porção de kimbap separada no prato.

— Esses são com pepino — Ele disse. — Uma vez você disse que gosta de pepino no kimbap, hyung, mas eu só tinha um resto na geladeira então separei pra fazer os seus. Os meus não têm, mas pode comer deles também.

— Você lembra? — Eu perguntei, assustado porque só falei sobre gostar de pepino uma vez, no meio de uma conversa completamente aleatória por telefone.

Jungkook assentiu como se nem fosse nada demais, mas para mim é surpreendente de verdade alguém prestar tanta atenção assim em tudo que digo.

— Obrigado. — Agradeço, enfim, e então seguro meus hashis antes de pegar um kimbap com pepino e aproximá-lo da boca de Jungkook, não da minha. — Mas você também gosta. A gente pode dividir.

Jungkook olhou para minha mão que segura os hashis habilmente, depois voltou a erguer seu olhar até o meu e mostrou um sorriso fraco antes de aceitar o kimbap inteiro, o que o deixa com a bochecha estufada enquanto mastiga.

E ele tem esse jeito meio desleixado de mastigar, apressado e sonoro, mas eu acho adorável.

— Você é muito fofo, hyung — Ele disse quando finalmente engoliu a comida em sua boca.

— Você quem é. Fofo do caralho.

— Eu não sei se você está me elogiando ou me amaldiçoando — Ele riu, e eu peguei outro kimbap, dessa vez para mim.

— Um pouco dos dois. — Confessei. — Esse seu jeito lindo me deixa tão puto, porque é impossível resistir a você.

— Acho que posso dizer o mesmo. — Jungkook rebateu. — É impossível resistir a você, hyung...

Eu abaixei meus olhos, brincando com um kimbap antes de voltar a olhar para Jungkook, com uma coragem que surgiu do inferno e brotou direto em minha garganta:

— Foi por isso que você estava quase se masturbando na cozinha uns minutos atrás?

Jungkook sorriu brevemente, sem culpa.

— Por que mais seria?

— Você não deveria ter feito aquilo — Alertei.

— Você não deveria ter visto.

— Mas eu vi. — Relembrei, quase acusando-o. — Você tem noção de como me senti quando te vi se tocando daquele jeito, seu safado?

Jungkook levantou as sobrancelhas num gesto surpreso, depois deixou uma risada sincera dar as caras. Então, hm... sim, eu também estou surpreso, porque não sei que diabos me deu para falar coisas como essa tão abertamente, mas eu não posso agir como se aqueles minutos não tivessem acontecido.

Sério, não dá. Eu já cheguei no meu limite de tentar fingir que posso ser só amigo dele.

— O que deu em você, hyung? Você nunca fala assim — Ele apontou o que eu mesmo já notei, ainda rindo. — E me desculpa, não faço mais. Foi coisa do momento.

Dessa vez, fui eu quem acabei deixando a risada escapar, então comi mais um kimbap. Casualmente, jantando com o amigo que cada dia mais eu quero foder enquanto converso sobre isso com ele como se estivéssemos falando sobre o tempo.

Parabéns, Jeon Jungkook. Você me transformou numa bagunça incorrigível.

— O kimbap ficou gostoso. — Elogiei, enfim dando início a uma conversa normal.

— Que bom que gostou. — Ele respondeu, casual. — Você também é gostoso.

— Eu estou tentando ter um diálogo que combine com uma refeição, Jungkook. — Alertei, mesmo que não consiga impedir o riso.

— Falar sobre coisas gostosas combina com o jantar, hyung, e isso você é muito. — Ele deu de ombros. — Você malha?

Eu desisto de lutar contra, então sigo seu ritmo:

— Malhava. Parei já faz um tempo. E você? — Devolvo, porque lembro bem de como o corpo de Jungkook é bem trabalhado, além de ter proporções que ultrapassam a perfeição.

— Parei também, mas ainda faço uns exercícios em casa. — Ele disse, o que não é surpresa. — Posso te confessar uma coisa?

— Pode. — Respondo sem pensar, pegando um outro kimbap com pepino e levando-o à boca de Jungkook, porque ele parece estar deixando todos para mim.

Ele sorriu antes de aceitar minha oferta silenciosa, e vê-lo mastigando dessa vez me faz perceber que Jungkook é definitivamente a única pessoa no mundo que pode fazer tanto barulho enquanto come sem me dar vontade de arrancar os ouvidos.

— Obrigado, hyung. Mas então, — Ele voltou a dizer, depois de até fechar os olhos ao forçar a comida garganta abaixo. — quando você me disse que queria ser modelo, eu achei que seria uma daquelas pessoas neuróticas com o peso, mas você come muito bem. — Ele sorriu, como se fosse um grande feito. — Isso me deixa aliviado.

— Eu sou um pouco neurótico, na verdade — Confessei, sem tanto orgulho. — Mas não do tipo de passar fome. Isso detona a saúde. E minha neura que me desculpe, mas eu pretendo viver muito, então preciso ser saudável e comer bem é o início de tudo.

— Que bom que você pensa assim. — Jungkook cruzou os braços sobre a mesa, me olhando atentamente. — Até porque você é lindo, hyung.

— Eu sei. — Sorri provocativo. — Quando me arrumo, eu fico um espetáculo.

— Não só quando se arruma. — Jungkook contrapôs. — Agora você está sem maquiagem nenhuma, com o cabelo molhado e vestindo minhas roupas que nem de marca são. E eu nunca te vi tão lindo.

Eu só consegui sustentar meus olhos sob o seu por alguns instantes, porque depois me vi obrigado a abaixá-los, envergonhado.

— Você sabe que eu não acredito nisso, não é? — Murmurei, pegando um último kimbap, ainda sem coragem de voltar a olhá-lo.

— Por que não?

— Porque minha pele não fica tão boa sem minha base em pó. E meus olhos — Eu hesitei antes de confessar, apontando para o canto: — eu não gosto deles, então sempre aplico sombra aqui. Dá um aspecto melhor.

— Mas seus olhos são muito bonitos, hyung, com ou sem maquiagem. Quando você sorri, ficam mais bonitos ainda. — Jungkook contrapôs, e ele parece horrorizado de verdade com minha confissão. — É impossível não gostar dos seus olhos...

— Fale por você. — Mostrei um sorriso um tanto amargo. — Queria eu ter uns olhos como os seus, grandes e com umas pálpebras duplas assim. Ridículo. Lindo demais.

— Seu jeito de elogiar é muito esquisito — Ele pontuou, divertido.

— Você me deixa meio instável. — Dei de ombros.

Jungkook riu e pegou o prato já vazio, mas se inclinou em minha direção antes de ficar de pé.

— E eu vou dizer de novo: seus olhos são lindos. Tudo em você é lindo de um jeito que nem dá pra descrever, hyung. Então ainda bem que você não tem olhos como os meus, porque seria uma pena se você não fosse exatamente como é.

Meu coração deu uma guinada violenta com sua declaração, e tudo que fui capaz de fazer foi olhá-lo, embasbacado e calado, quando Jungkook mostrou um sorriso lindo antes de finalmente se levantar.

— Você acha mesmo? — Eu perguntei, sem pensar.

— O que?

— Você me acha bonito do jeito que estou agora?

— Eu já disse, mais que nunca. — Jungkook respondeu calmamente. — Se não consegue acreditar em mim, acredite em meu pau que ficou duro só de te ver depois do banho.

Eu cobri meu rosto com as mãos para esconder uma risada sincera.

Honestamente mesmo, eu não posso com esse cara.

— Falando nisso, — Ele continuou, com total naturalidade. — vou tomar banho também. Quer ver TV enquanto isso?

— Hm... — Eu vi a louça suja na pia, e resolvi fazer o que nunca fiz antes: — Não. Vou lavar os pratos.

Jungkook ficou horrorizado, igualzinho a Jiwon quando recebeu meu pedido para me ensinar a fazer o bendito pão que ainda não deu certo.

— Você sabe lavar prato, hyung?

— Ah, sei lá. Acho que sim. É só colocar na máquina de lavar prato.

Jungkook tombou a cabeça para o lado, e agora ele parece desesperado para segurar o riso.

— Jimin... eu mal tive condições de pagar por uma geladeira usada, você acha que vou ter como pagar por uma máquina de lavar louça?

Agora estou confuso.

— E como você lava, então?

— Já ouviu falar em água, bucha e detergente? — Ele respondeu, ainda querendo rir de mim, o safado.

Eu olhei para a pia, então voltei a olhar para ele. Que arcaico, mas eu entendo.

— Certo, vou lavar com água, bucha e detergente então.

— Não precisa, hyung. Eu lavo amanhã. — Ele insistiu, mas eu me levantei e dei a volta até me aproximar, empurrando-o para o lado, em direção ao seu quarto e banheiro.

— Sai logo, você está me atrapalhando. — Resmunguei, gesticulando com as mãos. — Xô, Jungkook.

Ele riu mais um pouco, mas acabou cedendo e eu virei para a pia quando o vi se afastar. No entanto, continuei parado por um tempão, porque eu nunca lavei prato mesmo.

Será que tem tutorial no youtube?

Quando eu tateio meu bolso para pegar o celular, sinto meu corpo enrijecer quando Jungkook subitamente parou atrás de mim, colou seu peito em minhas costas e me apertou com seus braços, antes de apoiar seu queixo em meu ombro e colar a lateral de seu rosto ao meu.

— Jungkook? — Eu o chamei, completamente pego de surpresa.

— Desculpa... — Ele pediu, mas não me soltou. — Eu precisava fazer isso...

Eu deixei o ar fugir lentamente, e me acalmei aos poucos. Na medida do possível, claro, porque meu coração continuou batendo forte feito louco enquanto Jungkook se mantém tão próximo assim, e então virei meu rosto um pouco mais na direção do seu.

— Você sabe que deixa tudo ainda mais difícil quando faz isso, não sabe? — Eu digo baixo, mas sem tom de acusação, e cubro seus braços com os meus, oficialmente aceitando seu abraço.

— Então... é só não fazer isso ser difícil. Por favor, hyung, tenta de novo...

— Jungkook...

— O que eu sinto por você não é mais só atração, Jimin... E é insuportável não poder deixar isso claro a cada segundo...

— Por favor, Jungkook... — Eu insisti, mesmo que tenha fechado os olhos para aproveitar bem a sensação de agora. — Não me pressiona...

Ele ficou calado, mas seu suspiro demorado mostra que, algum tempo depois, ele cedeu. Por fim, seu abraço se desfez gradualmente e ele se afastou, ainda a contragosto.

— Eu só preciso pensar mais um pouco. — Garanti, me virando para olhá-lo. — Por favor.

Ele demorou um pouco antes de assentir, resignado, e talvez tenha sido tortura para nós dois o que fiz a seguir, porque me aproximei para dar outro beijo em sua bochecha.

Esses beijos estão me matando aos poucos.

— Agora vá tomar banho. Eu vou descobrir como que lava prato — Anunciei orgulhosamente, fazendo Jungkook rir ainda sem jeito.

— Certo...

Eu o olhei sem dizer mais nada, vendo-o se afastar definitivamente. Depois, eu voltei minha atenção à pia, mesmo que minha mente continue presa aos pedidos de Jungkook, que comprovam que não sou mais o único que já está saturado disso tudo.

Enquanto lavo os pratos, então, meus pensamentos continuam viajando pelas possibilidades e pelos riscos, mas isso só me deixa ainda mais confuso e, quando coloco o último prato laranja já lavado no escorredor, percebo que não cheguei a decisão alguma.

Agora, estou sentado no chão, diante de um cacto, esperando que ele me dê a resposta de que preciso enquanto Jungkook não sai do banheiro.

— Se eu magoar seu pai de novo, você vai enfiar seus espinhos no meu cu, não vai? — Murmuro pesarosamente para o trocinho.

Suspiro, porque resposta nenhuma vem. Obviamente.

Eu estou falando com uma planta... a que ponto cheguei.

— Deve ser tão mais fácil ser você, Keanu... — Eu resmungo, abraçando meus joelhos. — Você não se mexe, nem fala, e mesmo assim o Jungkook te ama um monte... que inveja.

Ainda sem resposta, eu cedo e deixo meu corpo cair deitado no chão da sala, que está bem limpo. Jungkook faz um bom trabalho cuidando de seu cantinho, mesmo que pareça um tanto desorganizado.

Com os olhos atentos ao teto, eu demoro um tempo para perceber que ele saiu do quarto, mas o olho quando noto que ele está sentando ao meu lado.

— Tudo bem, hyung? — Ele pergunta, acho que percebendo que eu estou meio derrotado.

Eu não respondo até ter coragem de balançar a cabeça para os lados numa negativa sincera.

— Eu não sei o que você fez comigo, Jungkook... — Confesso, enfim.

Ele ficou calado, então lentamente deitou ao meu lado, com sua cabeça apoiada em meu braço estirado no chão. Segundos depois, ele virou para mim e sua mão timidamente tocou minha barriga num carinho suave.

— Eu ouvi você falando com o Keanu... — Foi o que ele disse, tempos depois.

— Ouviu? — Eu sequer consigo ficar constrangido. — E quão estranho você me acha por desabafar com uma planta?

— Ouvi. As paredes aqui são finas... — Jungkook apontou, e sua mão deslizou até seu braço envolver meu abdômen num abraço que não sou capaz de rejeitar. — E não acho estranho. Falar com plantas faz bem... pra elas e pra gente. Eu sempre falo com o Keanu.

— Sobre o que você fala com ele? — Pergunto, curioso.

— Sobre tudo, mas ultimamente... sobre você, hyung.

— E o que é que o Keanu já ouviu sobre mim? Espero que você não o tenha deixado com uma má impressão.

Jungkook riu fraco e eu inspirei vagarosamente quando ele se aproximou ainda mais. Sua cabeça deslizou por meu braço até deitar em meu ombro e o cheiro de camomila alcançar meu olfato, com seu próprio braço ainda me envolvendo.

— Ele sabe de quando nos conhecemos no bar, mas eu também contei que antes disso eu era garçom no seu restaurante favorito e que você nunca olhava na minha cara.

— Hm... O trocinho deve me odiar, então.

— Eu também contei sobre nosso primeiro encontro e sobre nosso primeiro beijo. E lembra de quando estávamos no teleférico e você me deixou te abraçar, porque ficou com medo? Ele sabe, e sabe que quase apanhamos nesse mesmo dia. Eu também falei sobre nossa primeira briga e sobre como você me magoou quando disse para outra pessoa que te beijei à força.

Que merda lembrar dessa última parte.

— É, ele definitivamente me odeia.

Jungkook riu, então negou.

— Mas ele também sabe sobre tudo que aconteceu depois, hyung. Ele sabe sobre seu pedido de desculpas, sobre como você se importa comigo e sobre como você me faz feliz. O Keanu sabe sobre nossas mensagens e sobre as ligações, sabe até do emoji de cacto.

— Agora eu estou confuso. Ele gosta de mim, ou não?

— Ele gosta, — Jungkook disse, então completou: — mas definitivamente vai enfiar cada espinho daqueles na sua bunda, se você me magoar de novo.

Eu deixei uma risada sincera escapar, a ponto de meus olhos se fecharem completamente.

— Eu não estou brincando, hyung. — Ele alertou, mas também está rindo.

Com o passar do tempo, meu riso morreu aos poucos, mas não me livrei do sorriso, e me arrisquei a acariciar o braço de Jungkook sobre minha barriga.

— E o que você acha? — Perguntei. — Você acha que eu vou te magoar outra vez?

— É pra dizer a verdade, verdade mesmo?

— Sempre a verdade, Jungkook.

Ele respirou fundo, então se encolheu mais contra meu corpo, empurrando seu rosto contra meu pescoço. Só então, instantes depois, confessou:

— Eu tenho medo, hyung... porque se você me magoar de novo agora, vai doer muito mais que da primeira vez.

Eu entendo perfeitamente o que ele quer dizer. Cada erro que cometi no início me assombra até hoje, mas seria infinitamente mais doloroso, também para mim, ferir os sentimentos de Jungkook agora que chegamos até aqui.

— Eu vou continuar tomando cuidado, então. — Concluí, e não sei se ele percebe como estou falando sério.

— E o que isso quer dizer? — Jungkook questionou, erguendo seus olhos curiosos até os meus. — Que eu ainda não vou poder ter você?

Eu o olhei de volta, vendo seu rosto tão perto e sentindo seu corpo tão quente próximo ao meu.

Não pela primeira vez, eu me perco completamente em cada detalhe seu, e aceito de uma vez por todas que Jungkook é definitivamente a pessoa mais bonita que já vi na vida, independente de ser homem ou mulher.

O mais louco nisso tudo é que eu não sei mais diferenciar se o acho tão lindo assim unicamente porque ele é, ou se porque já cheguei àquele ponto em que os sentimentos pela pessoa fazem a beleza dela parecer ainda mais significativa.

Na dúvida, eu aceito ambas as possibilidades. Jungkook é dolorosamente lindo e eu sou dolorosamente louco por ele.

— Jungkook... — Eu o chamo, então, medindo minha voz que soa tão baixa, quase medrosa, mas sincera: — Você já me tem mais que qualquer outra pessoa já teve...

Ele não disse nada, mas não seria preciso. A forma como seu peito sobe e desce gradualmente mais devagar me diz tudo que ele não coloca em palavras, e então eu me movo até tocar suavemente em sua nuca.

Com ele tão próximo, sua boca tão dolorosamente perto da minha, eu sinto o cheiro fresco de creme dental unido ao cheiro de camomila e de sabonete, e tudo isso me deixa tão tonto quanto se eu estivesse bêbado.

Hesitante, eu corri meus dedos por sua pele, seguindo a linha da mandíbula até seu queixo, então toquei em seu lábio inferior com meu indicador, sentindo a textura deliciosa de sua boca sob minha pele.

Santo deus, eu sinto tanta falta de beijar Jungkook que chega a ser desesperador.

— Talvez... — Eu murmuro, ainda apreciando a sensação tortuosa de seu lábio sob meu dedo.

— O que, hyung? — Ele perguntou, nossas vozes gradualmente mais baixas.

— Talvez eu consiga aprender a não te magoar... e a te beijar ao mesmo tempo...

O peito de Jungkook subiu e desceu tão devagar, e eu esperei tão ansioso por sua resposta que os segundos seguintes passaram como longas horas.

— Por favor, hyung... faça isso.

Completamente enfeitiçado e incapaz de resistir por mais tempo, eu seguro sua nuca com ainda mais firmeza, puxando-o ainda mais para mim. A perna de Jungkook cobriu as minhas e sua mão pressionou minhas costas quando fiquei completamente de frente para ele, até nossas testas tocarem uma na outra.

Sua respiração quente acerta minha pele, me fazendo sentir formigar, e eu percebo que não escovei os dentes depois do jantar. Mas, porra, eu realmente não posso me importar com isso agora.

— Você quer mesmo arriscar? — Eu pergunto, ainda antes de jogar tudo para o alto de uma vez.

Tudo que eu esperava era uma resposta positiva. No entanto, a única coisa que ouvi foram batidas na porta.

A reação de Jungkook foi um sobressalto, o que acabou por aumentar a distância entre nossas bocas, e o beijo se tornou um sonho distante.

Não. Porra, não, não, não.

Tão frustrado quanto eu, Jungkook cobriu o rosto com as mãos, e então novas batidas foram dadas na porta.

— Ei, Jungkook, abre aqui! — A pessoa do lado de fora diz, e meu sangue ferve ao reconhecer a voz de Yoongi.

Carrapato do caralho. Puta que pariu, vai se foder, inferno da porra!

Jungkook se pôs sentado, parecendo tão contrariado quanto eu, mas o clima já se foi e ele acabou por levantar, depois foi até a porta e a abriu.

— Hyung... — Ele disse, para o outro hyung. — O que foi?

— Vim te chamar pra sair, ué.

— Agora não, Yoongi... você devia ter avisado que vinha.

— Desde quando eu preciso avisar, Jungkook? — Eu não consigo ver a expressão dele, mas seu tom de voz deixa óbvia alguma confusão.

— Eu estou com visita, hyung. Depois a gente conversa.

— Que visita? — Ele insistiu.

Jungkook não teve tempo de responder, porque segundos depois carrapato passou para dentro do apartamento e é claro que ele me viu sentado no chão da sala, com a maior cara de cu do universo.

Ele apertou os olhos para mim, depois olhou para Jungkook.

— A gente precisa conversar, Jungkook. — Ele disse, com o tom de desagrado, talvez preocupação.

— Agora não.

— Agora sim, Jeon!

— Não! — Jungkook foi firme e ele parece prestes a chorar de raiva. — Merda, hyung, você acabou de estragar tudo!

— Jungkook...?

— Que saco! — Jungkook esbravejou. Ele vai mesmo chorar de raiva. — Eu sei o que você vai dizer e você tem razão, eu posso mesmo quebrar a cara com o Jimin, mas arriscar é um direito meu! E eu quero arriscar, eu quero tanto que me sufoca, Yoongi, mas você acabou de estragar a primeira chance que eu tive em tanto tempo!

— Eu só vim aqui te chamar para sair! — Yoongi se defendeu, incomodado.

— Mas você continua se metendo em minha vida e isso me irrita!

A expressão de carrapato vacilou, raiva lentamente se mesclando a alguma tristeza.

— Continuo me metendo em sua vida? — Ele repetiu, ofendido. — Quer saber? Então se vira sozinho, seu ingrato do caralho!

Sem que qualquer outra coisa fosse dita, Yoongi deu meia volta e foi embora. Jungkook sequer tentou impedi-lo, apenas fechou a porta e apoiou a testa contra ela, num gesto que entrega toda sua frustração.

Sem saber como reagir, eu fico calado, vendo-o com as mãos apoiadas na porta ao lado da cabeça enquanto ele respira com pesar.

— Jungkook...

Ele não me respondeu. Ainda hesitante, eu fiquei de pé vagarosamente e me aproximei dele, até tocar em suas costas.

— Ei, Jungkook...

— Eu estou bravo, hyung. — Ele disse, sem virar para mim.

— Eu não acho que ele veio aqui com a intenção de atrapalhar nosso beijo... — Anuncio, acariciando suas costas através da blusa.

Quem diria que eu estaria defendendo o carrapato...

— Não é só isso. O jeito como ele pensa de você me irrita tanto... ele tem tanta certeza de que você vai ser ruim pra mim, hyung, mas ele nem me ouve quando eu falo tudo de bom que você me faz sentir!

Eu respirei pesadamente, então segurei sua cintura até forçá-lo a virar para mim, o que deu um pouco de trabalho. Depois, eu dei mais um passo em sua direção, fiquei bem perto, e segurei seu rosto com minhas mãos, acariciando-o.

— Eu nem gosto desse cara, então vai ser um prazer fazer ele quebrar a cara quando perceber que eu quero ser o melhor para você, Jungkook.

Jungkook deixou um sorriso pequeno aparecer, e eu deslizei meus dedos por sua bochecha mais uma vez antes de deixar meus olhos recaírem em sua boca, então deslizei meu polegar até tocá-la suavemente.

— E se você ainda não percebeu... — Eu volto a dizer, sem conseguir desviar meus olhos de seus lábios sequer por um instante. — Eu realmente quero ser o melhor para você enquanto te beijo...

Seus lábios se moveram suavemente num gesto afetado, mas ele não disse nada. Entretanto, seu corpo falou, e me fez arrepiar quando suas mão viajaram até minha cintura e ele apoiou sua testa no topo de minha cabeça, mais uma vez fazendo sua respiração se mesclar à minha, retomando o que fomos impedidos de levar adiante.

Agora que estou aqui, eu definitivamente não posso mais voltar atrás.

— Então, Jungkook... você vai precisar me desculpar, mas nosso primeiro beijo depois de todo esse tempo vai ter gosto de kimbap, porque eu não aguento mais esperar...

Jungkook suspirou arrastado, e seus olhos se fecharam num gesto entregue e rendido.

— Só me beija de uma vez, hyung...

Eu sorri, sempre tocando seu rosto, apreciando a pressão de suas mãos em minha cintura, e me aproximei até tocar em sua bochecha com meu nariz antes de beijá-la demoradamente. Em resposta a isso, Jungkook moveu seu rosto para tentar aproximar sua boca da minha, mas eu esquivei brevemente e beijei o outro lado de sua bochecha.

— Hyung... — Ele choramingou, sofrendo por minha provocação.

Ouvi-lo tão necessitado assim me deixa ainda mais vulnerável, e parece que eu tenho um iceberg dentro de meu estômago.

E como um último aviso, eu digo:

— A partir de agora, nós não somos mais somente amigos.

Jungkook não se opõe ou se intimida, e ele impulsiona sua boca contra a minha no exato momento em que faço o mesmo. E, todo esse tempo de espera depois, nossos lábios se encontram pela primeira vez.

Meu coração dispara feito louco e eu preciso ficar na ponta dos pés quando envolvo o pescoço de Jungkook com meus braços, retribuindo seu abraço firme em minha cintura, me segurando perto como se tivesse medo de me ver fugir. Mas, mesmo que fosse louco o suficiente para querer fugir, eu não conseguiria. Meu corpo inteiro está febril, fraco, e parece que vai parar de funcionar se eu me afastar um centímetro que seja.

Ainda com nossos lábios pressionados, o som de nossas respirações se torna alto antes de ser calado quando eu deslizo minha língua entre nossas bocas, e Jungkook a chupa juntamente com meu lábio inferior. Depois, sua língua encontrou a minha ainda antes que nossos lábios se unam e, quando o fazem, eu imediatamente aceito o ritmo intenso do nosso beijo e sinto o corpo de Jungkook se inclinar mais na direção do meu, o que me faz pender a coluna um pouco mais para trás, e eu subo uma mão por seu cabelo, apreciando a sensação dos fios negros sob meus dedos enquanto nossas cabeças se movem ritmadamente, a minha para um lado, a dele para o outro, por vezes uma empurrando a outra quando o beijo se torna momentaneamente ainda mais intenso.

Os sons úmidos de nossos lábios se encontrando, chupando, mordendo e aproveitando se prolongam por tanto tempo que, quando dou por mim, meu peito queima pela falta de ar, então me vejo obrigado a interromper o beijo bruscamente para respirar profundamente.

Durante o pequeno instante de pausa, eu vi as bochechas de Jungkook vermelhas e seus olhos quase embriagados. Mas, ainda que essa seja a visão mais bonita do mundo, eu não perco tempo antes de voltar a beijá-lo tão desesperadamente quanto antes.

Tudo vira uma bagunça quando Jungkook desfaz o abraço em minha cintura para subir suas mãos até segurar meu rosto com tanta firmeza que me faz perder o juízo, e então eu passo as minhas por baixo de seus braços até pressionar suas costas, sem perder o ritmo de nossos lábios e narizes se tocando a cada movimento.

Eu esperei tanto por isso que, agora que finalmente aconteceu outra vez, parece um sonho.

Quando Jungkook tentou inverter nossas posições e me pressionar contra a porta, eu fui mais ágil e firme e, sem ousar afastar minha boca da sua, o empurrei em direção ao sofá. Quando paramos diante do móvel, eu me sentei desastrosamente, puxando Jungkook junto comigo para sentar em meu colo, e nós rimos no meio do beijo quando, com um movimento desesperado, acabei batendo minha cabeça contra a parede.

Jungkook afastou seus lábios dos meus depois de me dar um beijo mais demorado, e nós dois estamos respirando dolorosamente devagar enquanto ele continua sobre minhas coxas, com as pernas dobradas ao redor de meu quadril.

— Machucou? — Ele perguntou, massageando a parte de trás de minha cabeça.

— Ficar sem beijar você foi pior — Respondo, e nem é mentira, porque eu me sinto tão anestesiado que sequer sinto dor.

Jungkook riu, ofegante, e é lindo vê-lo sem ar por conta de um beijo meu.

— Se você for esperto, vai me beijar a cada oportunidade que tiver, hyung — Ele desafiou, então, com seu polegar acariciando minha bochecha.

Eu sorri fraco, e segurei seu rosto antes de puxá-lo cuidadosamente para perto outra vez. Em seguida, anunciei:

— É exatamente o que pretendo fazer. — E então voltei a beijá-lo.

❥ [Continua...]

Chapter Text

Eu deslizei meus dedos por dentro da blusa de Jungkook, tocando suavemente na região de suas costelas enquanto ele toca meu rosto e meus cabelos, sem sair de meu colo e sem parar de me beijar.

Ele chupou minha língua e em resposta eu apertei sua cintura, depois descendo minhas mãos outra vez até apalpar suas coxas.

Nesse momento, eu gostaria de ser Vishnu só para ter duas mãos a mais e poder tocar Jungkook em mais lugares ao mesmo tempo.

Talvez seja heresia desejar ser um deus com esses propósitos?

Não sei, mas não me importo, principalmente quando Jungkook expulsou o ar pelo nariz com mais força e moveu seu quadril ao chocar seu peito contra o meu, unindo-os completamente, antes de enterrar seus dedos por meu cabelo e me fazer inclinar a cabeça ainda mais para trás, ainda com sua boca na minha.

Ele então interrompeu nosso beijo para se dedicar inteiramente ao meu lábio, selando-o suavemente antes de puxá-lo com seus dentes, para depois chupar e massageá-lo com sua língua. Em seguida, ele fez exatamente cada coisinha dessa no lábio superior, e eu não resisti ao desejo de abraçá-lo enquanto me entrego aos seus toques, com seus dedos massageando suavemente meu couro cabeludo e seus lábios massageando os meus.

Quando ele me deu um último selinho, eu suspirei sem me forçar a abrir os olhos e então ficamos parados por algum tempo. Nossos narizes ainda se tocando, ele ainda me fazendo cafuné e eu ainda abraçando sua cintura, agora massageando sua coluna suavemente.

— Eu não sabia que beijar você agora seria tão melhor que antes, hyung... — Ele disse, deslizando a ponta do nariz por minha bochecha antes de dar um beijo nela.

Eu percebi o movimento involuntário de meus lábios formando um sorriso fechado que não conseguiria impedir nem mesmo se tentasse, e o abracei com mais força, até deitar minha cabeça em seu ombro e suspirar audivelmente.

— Eu também não sabia, mas deveria ter imaginado. — Confessei, me movendo apenas o suficiente para fazer meus lábios alcançarem seu pescoço, então o beijei suavemente.

Eu honestamente não sei o quanto Jungkook consegue interpretar de minha confissão, ou se identificar com ela.

A verdade é que beijá-lo antes era bom. Era maravilhoso. Mas era como beijar alguém por quem me sentia atraído, mas nada além disso. Agora, é como beijar alguém por quem eu sinto um abecedário inteiro de sentimentos intensos e crescentes.

Parafraseando o próprio Jungkook, o que eu sinto agora está longe, tão longe, de ser somente atração.

Eu gosto dele, e estou admitindo isso para mim mesmo com todas as letras.

Eu gosto de Jeon Jungkook, muito mais do que achei que minha heterossexualidade imposta um dia me permitiria gostar de outro cara.

E o melhor? Gostar de alguém nem sempre é o equivalente a gostar do que esse alguém te faz sentir. Às vezes, gostamos de pessoas que nos fazem sentir insuficientes, inseguros ou uma infinidade de coisas ruins. Mas eu gosto de Jungkook e gosto de cada coisa que ele me permite sentir. Eu gosto dele e gosto de gostar.

Então... é, esse é o verdadeiro plot twist de minha vida.

— Hyung... — Ele me chamou algum tempo depois, e fui obrigado a levantar minha cabeça quando ele se afastou minimamente apenas para poder me olhar, então disse: — Eu acho que a gente se beijou demais... minha boca tá meio dormente...

Eu tentei permanecer sério, mas falhei em segurar o riso e minhas mãos escorregaram até voltarem e segurá-lo pela cintura.

— Dizem que beijos curam. Se eu te beijar mais, será que passa? — Proponho com um falso ar de reflexão, e Jungkook finalmente ri também.

— Eu não vou reclamar se você quiser testar, mas você vai ter que beijar minhas pernas também. Elas já estão doendo...

Eu corri meu olhar para baixo só para lembrar de sua posição enquanto está sentado em meu colo, e deve ser mesmo desconfortável. Na verdade, eu também já deveria estar sentindo algum incômodo por seu peso, mas não cheguei nem perto de me sentir assim porque, porra, é Jeon Jungkook no meu colo.

— Você quer ir pro quarto? — Ele ofereceu, então, enquanto me faz um carinho gostoso na nuca. — É mais confortável...

Eu quero continuar exatamente assim, sentindo seu peso sobre meu corpo e sua carícia em minha pele. Mas se ele está com dor, acho que preciso me conformar.

— Tudo bem. Vamos. — Eu digo, sem mostrar minha contrariedade. — É até melhor que Keanu não fica olhando para a gente. O coitado deve estar traumatizado por ver o pai beijando alguém.

Jungkook olhou para trás, sobre o ombro, e observou o cacto bem cuidado antes de voltar a olhar para mim, evidenciando seu sorriso lindo.

— O Keanu já viu coisa pior, hyung. Ele vai ficar bem.

Ok. O sorriso é lindo, mas o que sai de sua boca... não.

Eu suspiro novamente, dessa vez pesarosamente, e penso muito pouco antes de murmurar, chateado:

— Eu sei que você não faz na maldade, Jungkook, mas tenta não falar sobre as coisas que fez com outras pessoas quando estiver fazendo algo semelhante comigo. Eu não sei lidar muito bem com isso.

Ele pareceu confuso, a princípio, até que sua expressão denunciou seu entendimento sobre meu pedido. E então ele riu.

— Hyung... eu não falei sobre outras pessoas, falei sobre o que fiz com você. Não lembra que a gente deu uns amassos aqui no sofá quando você veio em casa pela primeira vez?

Eu pisquei umas quatro vezes antes de ser capaz de responder alguma coisa, porque, puta merda, eu sou ridículo. Eu me sinto ridículo.

Por fim, eu nem consigo dizer algo e, incapaz de disfarçar, empurro sua cintura suavemente e abaixo meu rosto porque é bem provável que o constrangimento me deixe vermelho.

— Eu vou escovar os dentes. — Sério, essa é a única coisa que consigo falar.

Jungkook se moveu até cair sentado ao meu lado do sofá, e sua risada só me deixa ainda mais envergonhado, mas felizmente não me tira as forças para ficar de pé.

— Você é mesmo muito fofo, hyung — É a última coisa que eu ouço Jungkook dizer, ainda enquanto ri, antes de me apressar até seu banheiro e fechar a porta.

Só então eu expulso o ar num gesto frustrado e começo a dar socos e chutes no ar, porque eu continuo fazendo essas coisas de novo e de novo.

E mesmo depois de escovar os dentes, eu levo uma eternidade para sair do banheiro, mas me arrependo por ter enrolado tanto assim que saio e vejo Jungkook deitado de lado na cama, com as pernas encolhidas contra seu abdômen enquanto mexe no celular.

Ah, foda-se se ele fala de sexo o tempo inteiro, tem o melhor beijo do mundo e sabe bater uma punheta como ninguém. Jungkook é só um bebê.

— Demorou, hyung... — Ele resmungou ao me ver e deixou seu celular de lado quando eu me aproximei de sua cama, me olhando atentamente quando sentei na ponta do colchão, sem saber o que fazer.

— É pra dormir no sofá? — Perguntei.

Que a resposta seja não, por favor, por favor.

— Uhum. Pode pegar um travesseiro. Vai querer lençol?

Caralho, eu só quebro a cara.

— Ah, só o travesseiro tá bom — Eu respondo e nem me esforço para tentar esconder a frustração, dessa vez. No entanto, quando eu estiquei minha mão para pegar meu objeto de consolação, Jungkook segurou meu pulso enquanto ri bastante.

— É brincadeira, hyung. Eu não vou te fazer dormir lá. — Ele avisou, então ponderou por um instante. — A não ser que você não queira dormir junto, mas aí eu durmo na sala e você pode ficar na cama.

— Você quer dormir junto? — Eu disparo a pergunta.

— Você quer?

— Quero.

A resposta saiu tão rápida quanto um tiro, e parece ter acertado Jungkook em cheio porque ele definitivamente ficou surpreso. E, na verdade, eu fiquei surpreso também, porque sequer pensei. Então, para tentar contornar a situação da impulsividade, eu penso bem antes de dizer:

— Eu quero dormir com você, Jungkook.

Então está confirmado. Minha impulsividade e meu lado racional concordam que eu quero dormir com ele, não importa se eu falo em dividir a mesma cama como quem aceita um pedido de casamento.

E o que me deixa feliz é que Jungkook aceita minha resposta com a mesma seriedade, então se move sobre a cama e meio que fica de quatro sobre ela para puxar a colcha colorida, preparando nosso cantinho para dormir.

— Posso abrir a janela? — Pergunto, vendo-o dar tapinhas repetidamente nos travesseiros, e ele assentiu.

— Tá quente, né? Desculpa, meu ventilador quebrou...

— Não, está bom assim. — Eu minto, porque está sim um pouco abafado, mas a janela aberta alivia o suficiente mesmo que eu esteja acostumado a ter a temperatura dentro de meu quarto sempre perfeitamente regulada.

Depois, eu voltei para a cama e parei na beirada, um pouco nervoso, até Jungkook voltar a me segurar pelo pulso e me puxar suavemente para deitar, então eu fiquei de joelhos sobre o colchão antes de me deitar com cuidado, perto dele.

— Puxa a colcha pra cobrir meus pés, hyung? — Ele pediu, me olhando com o rosto deitado sobre as mãos unidas abaixo de sua bochecha.

— Por que só os pés? — Questionei, mas fui incapaz de negar seu pedido e usei meus próprios pés para puxar a colcha até cobrir os dele.

— Eu tenho agonia de dormir sem cobrir eles... — Jungkook confessou, me agradecendo com um sorriso. — A casa de meus pais era muito quente no verão, então na hora de me botar na cama, minha mãe cobria só meus pés. Acabou virando mania, desde que eu era pequenininho.

— Não me faça imaginar você criança, Jungkook, meu coração não aguenta tanta fofura...

Ele riu um pouco, ainda na mesma posição, e eu nem percebi quando me deitei da mesma forma que ele.

— Eu tenho algumas fotos, hyung. Quer ver depois?

— Claro que sim. — Respondo. Estou pronto para morrer de amores.

— Então tá, vou procurar o álbum pra te mostrar. — E deixou um sorriso miúdo aparecer. — Eu era bonitinho.

— Você é lindo até hoje, Jungkook.

Ele me olhou em silêncio e mesmo no escuro, eu consigo ver a forma como seu rosto passa por uma mudança suave e adorável entre surpresa, até alegria enquanto ele se esconde, envergonhado.

— O que foi? — Questiono, rindo ao vê-lo todo tímido e encolhido.

— Você disse que eu sou lindo...

— E qual o problema? — Insisto, sem conseguir me livrar do sorriso apaixonado.

Apaixonado.

Eita, porra...

— Você nunca disse isso antes. — Ele apontou, então, e eu quis explodir quando ele rolou o corpo pelo colchão, todo bobo.

Como assim eu nunca disse a maior verdade do universo antes? Isso é um absurdo.

— Vem cá — Eu o chamo, segurando-o para que ele pare de se mexer e volte a olhar para mim. Só então digo: — Eu penso muito nisso, então já deveria ter confessado, mas acho que ainda não é tarde pra dizer que você é a pessoa mais linda que eu já conheci, Jungkook.

Aos poucos, a euforia de Jungkook parece ter sido reduzida a algo muito mais discreto, mesmo que eu tenha pensado, por um segundo, que a intensidade de sua reação seria proporcional à intensidade da declaração. Mas parece ser o inverso.

E depois de alguns segundos de silêncio que, apesar de tudo, não julguei como constrangedores, ele dilatou as narinas num gesto preocupado e todo seu corpo parece evidenciar uma tensão que, honestamente, não entendo.

Quando ele finalmente diz algo, no entanto, eu entendo sua reação.

— Hyung... isso não é um jogo pra você, é? — Ele perguntou, acho que com medo. Só não sei se medo da minha reação ou da minha resposta. — Eu não sou um passatempo pra você... sou?

Apesar de frustrado com o tipo de pensamento que seu receio ainda o faz ter sobre mim, eu não acho que posso julgá-lo.

— Por que você acha que seria? — Eu pergunto, antes de responder.

— Porque você mudou muito desde quando nos conhecemos. Quer dizer, não mudou completamente, você é ainda é o mesmo, mas o jeito como age comigo é diferente. É melhor... e coisas assim não acontecem na minha vida, então eu não sei se é de verdade ou se...

— É de verdade, Jungkook. — Eu o interrompo, sem me alterar. — E tudo bem se você não conseguir acreditar nisso agora, eu não vou ficar chateado, mas acho que vou precisar me esforçar um pouco mais até você confiar em mim.

No silêncio que vem a seguir, eu consigo ouvir sua respiração meticulosa, até que ele assente com um movimento tímido.

— Obrigado, Jimin.

Eu sorri para ele, não completamente feliz, e chequei se seus pés continuam cobertos pela colcha antes de me aproximar para deixar um selinho em seus lábios.

— Boa noite, Jungkook-ah. — Eu digo sem me afastar outra vez, e ele arrasta sua cabeça até descansar sua testa em meu ombro.

— Boa noite, hyung.

E foi assim, perto um do outro, dividindo a mesma cama, que adormecemos.

Mesmo que eu nem sempre consiga ter uma boa noite de sono numa cama que não é a minha (exceto pela cama de Taehyung, acho que pelo costume), eu descansei bem, mas acordei logo cedo com um pouco de calor.

A janela aberta não é mais tão funcional agora que o sol já deu as caras e até Jungkook parece estar incomodado, mesmo adormecido.

Mesmo assim, eu não posso deixar de notar o quanto ele fica ainda mais adorável enquanto dorme, ressonando baixo ao puxar o ar pelos lábios entreabertos e amassados por seu rosto estar esmagado contra o travesseiro. Os braços também estão encolhidos contra seu corpo, assim como suas pernas, e imagino quão mais bonito isso tudo seria se ele estivesse vestindo aquele pijama do Patolino.

E bom humor matinal também não é lá minha característica mais forte, mas eu sorrio enquanto o observo, porque é isso que Jungkook faz.

Ele me faz sorrir tão cedo pela manhã, mesmo que eu tenha sido acordado pelo calor. Ele literalmente faz o impossível.

Ciente de que não vou conseguir voltar a dormir, eu resolvo sair da cama e apenas puxo a coberta para voltar a proteger os pés de Jungkook antes de ir ao banheiro, onde lavo o rosto e escovo os dentes preguiçosamente antes de ir para a sala.

— Bom dia, Keanu — Eu digo para o cacto, pegando-o no móvel da TV e colocando-o na janela para que tome seu banho de sol diário.

Depois, eu fui até a cozinha e bebi um copo cheio de água gelada, o que aliviou um pouco a sensação de calor. E, como se isso ativasse um interruptor imaginário, uma luzinha se acendeu em minha mente, então eu me apressei e peguei minha carteira e meu celular antes de calçar meus sapatos e sair do apartamento de Jungkook, tomando cuidado para não fazer barulho.

Eu ainda estou usando as roupas dele, aliás, mas acho que a simplicidade do lugar onde ele vive tem lá suas vantagens, porque eu não me sinto completamente desconfortável por aparecer em público assim.

No meu bairro, ir até a calçada de casa já exige uma combinação detalhada de roupas, acessórios e maquiagem, porque algo abaixo de uma imagem perfeita não é muito bem-vindo por lá.

Sem muito me atormentar por isso, ao menos dessa vez, eu agradeci ao chegar à loja do posto onde vim com Jungkook ontem e encontrá-la aberta, então fui até a parte da lanchonete e escolhi bem dentre as bebidas geladas, pegando uma para mim e outra para ele. Também aproveitei para comprar nosso café da manhã e um pote de sorvete.

É assim que se combate o verão.

— Bom dia, senhor. É só isso? — O atendente do balcão, um rapazinho miúdo, mas aparentemente bem disposto, perguntou assim que chegou minha vez de pagar.

— Bom dia. É só isso, sim — Eu respondo, já abrindo minha carteira, mas então eu percebo as prateleiras atrás do moço bem-disposto, que exibem todo tipo de coisa. Dentre elas, alguns ventiladores portáteis. — Aliás... posso ver um daqueles?

O rapaz olhou para trás, então sorriu ao ver a que me referi.

— Verão é um tempo difícil, né? — Ele suspirou, sorrindo, ao trazer três itens diferentes. — Nós temos esses três modelos aqui, ó.

Eu olhei de um para o outro sem saber qual a diferença entre eles, mas estou muito tentado a pegar o rosa, já que os outros dois são pretos e Jungkook prefere coisas coloridas.

— Esse pretinho da esquerda é muito bom — Quem diz é uma outra pessoa, uma voz que vem de minhas costas. Quando viro meu rosto para ver quem está falando, ele sorri e diz: — Eu tenho um desse. É bem potente e a bateria é recarregável.

É um cara tão sorridente quanto o balconista, mas mais alto, com uma única covinha acompanhando seu sorriso de dentes caninos levemente tortos (o que dá a ele um charme inesperado), nariz curto, queixo fino e olhos grandes, quase cobertos pela franja do cabelo castanho aloirado.

Ele tem uma beleza que cativa, mas o que mais me prende à minha análise é a familiaridade de seu rosto. Eu sinto que já o vi em algum lugar, mas não me recordo de onde, ou quando.

E, ao perceber que meu olhar sobre ele se tornou um pouco indiscreto, eu tossi brevemente e assenti.

— Obrigado. — Eu digo, e me apresso em voltar a olhar para o atendente. — Acho que o preto da esquerda, então. Mas você tem ele em outra cor?

— Tenho azul bebê.

— Definitivamente o azul bebê. — Eu decido, sem precisar pensar muito.

O moço assentiu e pegou uma caixa fechada para mim, então eu paguei as compras, aceitei as sacolas e me virei para sair.

— Tchau. Tenha um bom dia — Poderia ser o atendente a dizer (e ele também disse), mas na verdade foi o cara dos dentes caninos quem falou, sorrindo e erguendo a mão para mim num gesto de despedida.

— Você também. Obrigado pela ajuda — Reforço, antes de empurrar a porta de vidro e sair da loja para finalmente voltar ao apartamento de Jungkook.

Quando chego, eu não me preocupo em bater na porta antes de abri-la. Mas, ao fazer isso, me surpreendo ao ver Jungkook sentado numa de suas cadeiras, com a expressão triste até me perceber entrando.

— Hyung... — Ele disse enquanto fecho a porta, e eu não sei por que ele parece surpreso ao me ver, já que eu passei a noite aqui.

— Bom dia, Jungkook. — Eu o cumprimento, e deixo as compras em cima de sua mesa antes de me aproximar dele, olhando-o curiosamente. — Tudo bem?

Ele continuou com os lábios suavemente entreabertos, piscando esporadicamente enquanto me olha como se eu não devesse estar aqui.

— Eu achei que você tinha ido embora sem se despedir... — Jungkook finalmente diz.

Eu inclinei meu rosto antes de suspirar. Então dei um cascudo muito bem merecido no topo de sua cabeça.

— Deixa de ser tonto. Só fui na loja de conveniência. — Resmungo, virando as costas para voltar minha atenção às sacolas, mas ele me segurou antes que eu fizesse isso e me puxou. Nem sei se usou muita força, porque fui fácil, mesmo surpreso quando ele me colocou entre suas pernas, abraçou minha cintura e escondeu seu rosto contra meu abdômen.

— Eu achei que você ia fugir de mim por causa de ontem, hyung, e isso me deixou muito triste... — Ele revela, com a voz toda abafada contra a blusa que estou vestindo.

Eu suspiro, então acaricio o topo de sua cabeça antes de deslizar minha mão até a lateral de seu rosto, afastando-o um pouco para que ele possa olhar para mim, então me abaixo para beijar sua testa antes de dizer:

— Eu não vou fugir, Jungkook.

Ele respirou fundo, antes de expulsar o ar todo de uma vez num gesto muito mais que aliviado.

Sem resistir, eu sorri um pouco e voltei a me abaixar para beijar sua boca, mas mal encostei nossos lábios e ele recuou, cobrindo-os com sua mão.

— Eu ainda não escovei os dentes — Confessou, envergonhado, o que me fez rir e me conformar em beijar sua testa novamente antes de aceitá-lo quando voltou a me abraçar.

Durante o tempo que ficamos assim, eu não disse nada, apenas deslizei meus dedos por seus cabelos escuros, e eu percebo que Jungkook fica um pouco arrepiado com esse tipo de carinho.

Acho que ele é uma dessas pessoas que se derretem quando alguém toca no cabelo delas.

— Hyung... — Ele me chamou, de repente, e se afastou para me olhar com esses olhos grandes, escuros e inocentes. Quando achei que alguma nova declaração viria, ele diz: — Sua barriga faz uns barulhos estranhos...

Eu fechei meus olhos e bufei, deixando outro tapa em sua cabeça antes de rir e afastá-lo, falsamente ofendido.

— Deixa minha barriga. — Resmungo, sem conseguir ficar bravo enquanto ouço sua risada adorável.

— É engraçado. Você tem problema de estômago? Ou intestino?

— Jungkook... — Eu o repreendo, ainda rindo, e até perco as forças para tirar as coisas de dentro das sacolas. — Esse é o tipo de conversa que se tem depois de meses de namoro, até esse estágio eu preciso parecer perfeito física, psicológica e fisiologicamente, ok?

— Mas nós somos amigos, hyung. A gente pode ter conversas assim.

— Eu lembro de ter dito que não somos somente amigos, agora. — Eu aperto meus olhos para ele e ele dá de ombros, com um sorriso safado.

— Ok. Só queria ouvir de novo, pra confirmar.

Eu reviro os olhos, então finalmente pego nossas bebidas geladas, os pães recheados de nozes que comprei para comermos e o ventilador portátil, então mantenho o último em mãos, tirando-o da embalagem.

— O que é isso? É um ventiladorzinho? — Ele pergunta, curioso, e eu só o olho por um instante, antes de voltar a me concentrar em ligar o negócio enquanto mordo meu lábio e sorrio ao mesmo tempo.

Assim que o ligo e as hélices começam a girar, eu aponto o ventilador para o rosto de Jungkook, o que faz seus cabelos esvoaçarem e ele rir enquanto fecha os olhos para protegê-los do vento, e essa é a coisa mais jungkook que já vi.

— Toma. — Eu digo quando desligo o aparelho portátil, estendendo-o para seu novo dono. — É seu.

— É pra mim? — Ele pareceu surpreso, como se eu estivesse oferecendo uma casa nova.

— Pra você não sentir tanto calor quando estiver dormindo. — Explico, balançando o ventiladorzinho quadrado para que Jungkook o pegue.

— É mesmo meu? — Ele ainda está estupefato, mas finalmente aceita o presente, olhando-o completamente fascinado. — E é azul bebê.

— Azul Jungkook. — Eu corrijo, rindo da minha própria piada.

Jungkook também ri e volta a olhar para mim, deixando seu novo parceiro para combater o calor, no colo.

— Obrigado por se preocupado com isso e por ter escolhido essa cor, hyung. Eu vou dormir melhor agora.

— É o objetivo. — Garanto, me derretendo inteiro por vê-lo tão feliz por um presente tão bobo.

— Você trouxe comida também? — Jungkook perguntou, olhando para os pãezinhos e as bebidas enlatadas sobre a mesa.

— Sim. Vamos comer logo antes que a bebida esquente — Alerto, tomando a liberdade de pegar os pratinhos no escorredor e colocá-los na mesa antes de guardar o sorvete no congelador. Depois, me sentei de frente para ele e entreguei uma das latas e um dos pães. — Bom apetite.

Jungkook agradeceu com um sorriso e um aceno, sem se demorar em rasgar a embalagem individual do pão recheado. Quando mordeu o primeiro pedaço, então, ele começou a rir.

— O que foi agora? — Pergunto, fingindo impaciência.

Ele ainda deu mais uma risadinha, para só então revelar o motivo de seu riso frouxo.

— Você está comendo comida de pobre de novo, hyung.

Eu respirei fundo e quase falhei em segurar o riso quando mordi o primeiro pedaço do meu café da manhã, para logo depois dizer:

— Come logo, Jungkook.

— Você também. — Ele diz. O que parece uma reclamação comum, se prova o oposto quando ele completa: — Me come logo, Jimin.

Eu literalmente me engasguei com o bolo alimentar em minha boca e precisei tomar vários goles generosos do meu chá enlatado para não morrer.

— Jungkook, são oito da manhã! Pelo amor de deus! — Eu digo, ainda dando tapas em meu próprio peito depois de sentir a morte tão próxima.

— Eu falei brincando, só.

Eu neguei com a cabeça e mordi um novo pedaço depois de me certificar de que já está tudo ok. Por mais algum tempo, questão de segundos, nós comemos em silêncio até que nossos olhares se encontraram e, quando vi que ele estava querendo rir, acabei sendo o primeiro a deixar uma gargalhada escapar, sendo acompanhado por ele logo depois.

— Safado. — Eu resmungo em meio ao riso, com uma nova negação.

Durante o restante do nosso café arranjado numa loja de posto, nós ainda rimos mais, mas de outras coisas. Às vezes, de nada.

Depois, fomos tomar banho. Separadamente, claro.

Jungkook foi o primeiro, e eu aproveitei enquanto ele estava no banheiro para xeretar seu quarto, mas apenas o suficiente para não ser invasivo.

E, por mais que ele goste de coisas coloridas, seu quarto não tem tantos itens com cores diversas assim. As paredes são brancas, quando eu consigo imaginá-las cobertas por papéis de parede cheios de cor.

— Hyung? — De repente, enquanto reflito sobre paredes e decorações, Jungkook me chama e o vejo na porta do banheiro, já de banho tomado. — Tá livre.

— Ah, já vou — Respondo ao catar minha mochila do chão, ao lado da cama, e caminhar em sua direção.

— Ah, — Ele gesticulou, caminhando até a janela do quarto, onde pegou, num varal improvisado, algo que faz meu rosto enrubescer com a velocidade da luz: — Eu não sabia se você tinha outra cueca limpa, então ontem de noite lavei a que você deixou no banheiro.

Eu quero morrer. Do fundo do meu coração, com tudo que existe dentro de mim, eu quero morrer, porque eu esqueci a cueca no banheiro, sem querer. E. Jungkook. Lavou. Ela!

— Não precisava! — Eu digo, sentindo a voz tremer de vergonha ao puxar a desgraçada da cueca de sua mão, e Jungkook apertou os olhos, curioso.

— Você ficou com vergonha por causa disso, hyung?

— Claro que fiquei!

— Mas por que? Aposto que você nunca lavou uma cueca, então já deve estar acostumado a ser outra pessoa a lavar as suas...

O pior? Ele nem está falando com deboche.

— Só — Eu gesticulo, nervoso, e acabo fechando a porta do banheiro. Só então grito, alto o suficiente para que ele me escute: — Só esquece isso!

Durante o banho, eu tive tempo o suficiente para diluir minha vergonha súbita, mesmo que tenha sentido uma nova onda de falta de jeito ao pegar a cueca já seca para vestir — porque, afinal, Jungkook tinha razão: eu não tenho nenhuma outra limpa aqui.

Depois, eu escovei os dentes novamente e vesti a mesma calça de moletom que me foi emprestada, já que é mais confortável, mas a blusa ficou um pouco suada e ainda está quente, então eu pondero a possibilidade de ficar sem.

— Jungkook — Eu o chamo quando abro a porta do banheiro e ponho apenas a cabeça para fora. Então pergunto, para evitar outra situação como da noite passada: — Tem problema se eu ficar sem blusa? Eu estou com calor.

Ele me olha, ali sentado na cama, com as costas apoiadas na parede, vestido numa calça de tactel preta e numa regata de mesma cor.

E eu tenho pavor de regatas, mas começo a repensar meus princípios agora que vejo como fica bem em Jungkook, evidenciando seus braços definidos e parte de suas clavículas.

— Tudo bem, hyung — Ele sorriu para mim. — Mas se você ficar sem blusa, eu também vou ficar mais quente, então vou precisar tirar a minha.

Eu não vejo isso como um problema.

Sem pensar mais, eu abro a porta completamente e caminho até a cama, engatinhando pelo colchão até sentar perto da cabeceira, com ele.

— Ou nós podemos inaugurar seu ventilador novo — Sugiro, vendo-o já apoiado sobre a mesinha de canto, logo ao lado.

— Hm... — Murmurou, pensativo. — Não. Prefiro uma desculpa pra te deixar sem blusa...

Eu ri e me recostei à parede, assim como Jungkook, e ele moveu a cabeça para continuar me olhando com um sorriso pequeno na boca, sem mostrar muita discrição quando desceu seus olhos de meu rosto até meu abdômen exposto, ainda com a sensação fresca do banho.

O sorriso dele se desfez à medida em que continuou me analisando silenciosamente, e sua respiração se tornou mais cautelosa, também, mesmo quando seus olhos voltaram a encontrar os meus.

— Eu disse que tudo bem você ficar sem blusa, mas...

— Tire a sua também. — Eu o interrompo.

Jungkook pareceu averiguar a seriedade de meu pedido e sou eu quem reduzo o ritmo da respiração ao vê-lo finalmente levar as mãos à barra de sua camisa, puxando-a para fora do corpo sem pressa. Assim como, poupando todo meu tempo, eu admirei pacientemente cada novo pedaço de pele exposta, até que ele deixou sua blusa de lado.

Mais uma vez, então, me vejo diante de parte do corpo de Jungkook, sentindo o ar faltar a cada segundo que gasto me perdendo ainda mais nas linhas de seu abdômen suavemente definido, do peitoral desenhado em alto relevo e da combinação entre suas clavículas e ombros, estendendo até os braços magros, mas ainda musculosos de certa forma.

Eu estou perdido. Louca e intensamente perdido por Jeon Jungkook, e eu quero vê-lo e descobrir seu corpo ainda mais.

— A calça... — Eu peço, sem me dar conta de como abaixo o tom de voz ao falar. — Tira a calça, Jungkook.

A expressão dele permanece quase inalterada, declarando que não se ofende por meu pedido que mais parece como uma ordem.

Em seguida ele começa a fazer o que pedi, comprovando que minha interpretação foi certeira.

De joelhos sobre o colchão, Jungkook agarrou o elástico de sua calça e começou a descê-la por suas pernas, e eu quase fui ao inferno por ver suas coxas reveladas antes que ele volte a sentar para tirar completamente a calça e deixá-la junto com sua blusa.

Sem me conter, eu apoio minhas mãos em seu peito, empurrando-o para que ele deite com a cabeça nos travesseiros, e então guio suas pernas para deixá-las esticadas. E então Jungkook está quase nu, deitado e exposto, só para mim.

Ainda sem dizer qualquer coisa, mas reconhecendo em tudo nele uma permissão silenciosa, eu me sento sobre suas coxas e toco primeiro em suas clavículas, sentindo o contorno suave antes de me aventurar, primeiro com os olhos, por todo seu corpo. Depois, fiz o mesmo percurso com os dedos e palmas das mãos para tocar em cada pedaço de pele, com o contorno se moldando sob meu toque quando acaricio seus músculos ou percorro as mãos simultaneamente por sua cintura bem desenhada, que me leva à loucura e não pela primeira vez.

Finalizada minha exploração por cada pedaço seu acima do quadril, eu me afastei mais para poder tocar livremente em suas pernas que são grossas, firmes, com um contorno enlouquecedor de músculos bem trabalhados, e minhas palmas aproveitaram todo o toque, a textura e a firmeza quando massagearam suas coxas, subindo dos joelhos até a altura do quadril.

Pela primeira vez, eu movo meus olhos até encontrar os de Jungkook, e ele parece tenso, embora não de um jeito ruim, enquanto continuo tocando-o na parte interna de suas pernas, perigosamente perto de sua virilha.

E é diferente. Cada toque que deixou em Jungkook, reflete em mim com uma sensação que eu não conhecia, porque nunca antes toquei num corpo de outro homem dessa forma. Definitivamente não é como tocar mulheres, mas é tão bom quanto.

Se tratando de Jungkook, na verdade, sinto que é ainda melhor.

Agora, minha cabeça está cheia dele. Cheia de desejo por outro cara e de uma excitação insegura sobre isso.

Com uma lufada arrastada de ar, eu subo minhas mãos direto até sua cintura outra vez, mas não deixo passar percebido o volume crescente sob sua cueca boxer que denuncia o início de uma ereção, e isso faz meu próprio corpo reagir quando minha virilha formiga em ansiedade.

Sem mais forças, eu me deito sobre o corpo de Jungkook, que me recepciona com mãos em minha bunda assim que eu cubro seu peitoral com o meu, mantendo meu corpo parcialmente elevado através dos cotovelos.

E então, eu disse:

— Jungkook... eu preciso te beijar de novo.

Ele pareceu tentar sorrir, mas sua expressão ficou congelada num gesto ansioso. Ao não ver isso como alguma forma de resistência ou negação, eu calmamente aproximei meu rosto e deslizei a ponta de meu nariz por sua bochecha, sentindo-o liberar um suspiro incompleto que logo foi interrompido por minha boca cobrindo a sua, encaixando-a uma na outra para, no instante imediatamente seguinte, ambos succionarmos os lábios um do outro ao mesmo tempo, criando uma pressão deliciosa que foi acompanhada por uma lufada de ar violentamente expulsa por minhas narinas.

A intensidade desses poucos segundos me faz perder o ar mais rápido que o normal, então eu afasto minha boca para respirar fundo e, quando volto a investir meus lábios contra os dele, Jungkook impulsionou seu corpo e me fez deitar com as costas apoiadas em sua cama para ficar por cima de mim.

Eu definitivamente não estou acostumado a isso, mas ao invés de repreendê-lo, o que faço é apalpar sua bunda com uma mão enquanto a outra se agarra aos seus cabelos, puxando-os pela raiz, com força, para deixar claro que não abro mão do controle completamente.

Em meio a essa bagunça de línguas e lábios unidos calando nossa disputa por controle, Jungkook moveu seu quadril e puxou sua perna um pouco mais, e nosso beijo se tornou apenas um contato inerte quando eu precisei interrompê-lo para ofegar, surpreso, ao sentir seu pau duro ser pressionado contra minha coxa.

Ele ergueu seu rosto o suficiente para olhar para mim e analisar minha reação, e é insana a forma como nossas respirações já estão tão afetadas se estamos nos beijando a tão pouco tempo.

Sem saber exatamente como colocar em palavras que sentir sua ereção não é algo que me desestimula — aliás, é o completo oposto —, eu agarro a nuca de Jungkook com ainda mais força e o puxo de volta, sendo imediatamente retribuído quando tento beijá-lo.

E então ele voltou a mover seu quadril, empurrando seu pênis contra minha coxa numa estocada suave, que voltou a se repetir lenta e ritmadamente enquanto eu continuei beijando-o e sendo beijado até o ar ser completamente arrancado de meus pulmões.

Quando isso aconteceu, Jungkook parou de me beijar, mas manteve sua testa apoiada à minha quando tentou recuperar o fôlego. Então ele me beijou suavemente nos lábios, depois no queixo, seguindo uma trilha por minha mandíbula até descer por meu pescoço e chupá-lo, enquanto eu mantenho meus olhos fechados e minha respiração sob um controle desajustado.

Vai ficar marcado. Jungkook vai me deixar outro chupão, mas eu honestamente não me importo e a única coisa que faço é massagear seu couro cabeludo enquanto ele continua marcando minha pele.

— Porra... — Eu praguejo em meio a um resfolegar de satisfação quando ele arrasta seus lábios mais para baixo e chupa a pele da união entre meu pescoço e ombro.

Meu maldito ponto fraco.

E, atento à minha reação indiscreta, Jungkook sorriu contra minha pele e deslizou sua língua sobre ela antes de chupá-la novamente, machucando-a com seus dentes enquanto eu sinto meu corpo perder as forças cada vez mais rápido.

Mas Jungkook não se limitou apenas ao meu pescoço e boca.

Depois de me torturar deliciosamente provocando uma das regiões mais sensíveis de meu corpo, ele desceu seus lábios ainda mais, deixando vários beijos por meu peitoral e aproximando-se perigosamente de meu mamilo. Mas, antes de capturá-lo, Jungkook me olhou.

E eu estou em pânico.

Eu amo mamilos. Modéstia à parte, já estimulei vários com maestria, mas nunca fizeram o mesmo com os meus porque, bem, eu era portador de heterossexualidade frágil e nunca deixei.

— Relaxa, hyung... — Foi o que ele disse, e deu apenas um beijo acima da aréola antes de mordiscar meu mamilo.

Eu deixei um suspiro tenso se arrastar para fora dos meus lábios e apertei meus olhos, usando minhas duas mãos para tocar a cabeça de Jungkook. Tocar, não impedi-lo de seguir em frente.

Por isso, ele usou sua língua para estimular o montículo cutâneo e saliente antes de fazer sua respiração quente acertá-lo, o que só me deixou ainda mais tonto, e fraco demais para impedir um gemido quando finalmente o chupou.

Jungkook o estimulou com a boca por mais um tempo, antes de afastá-la só o suficiente para pressioná-lo com seu polegar, esfregando-o suavemente antes de beijá-lo uma última vez e descer com novos beijos por minhas costelas, direcionando-se ao centro da minha barriga e passando pelo umbigo, abaixo do qual tenho uma trilha fina e discreta de pelos claros apontando em direção à minha virilha.

Essa região também é especialmente sensível, e foi mordiscada com suavidade enquanto Jungkook segura o elástico da calça de moletom em meu corpo e começa a puxá-la para baixo, até deixá-las em minhas coxas.

Jesus. Batman. Calvin. Alguém me ajuda.

Não, Calvin não. Calvin que exploda.

Como se lesse meus pensamentos desesperados pela iminência do que pode acontecer a partir de agora, Jungkook faz seus olhos encontrarem os meus, sem afastar sua boca de minha barriga, e eu consigo ver neles um brilho completamente sacana.

Ainda me olhando, então, seu rosto se ergueu um pouco mais e dessa vez suas mãos seguraram a minha cueca, arriscando puxá-la para baixo e, dominado pela possibilidade, ergui meu tronco, apoiando-o em meus cotovelos para poder ver melhor quando ele finalmente puxou a boxer para baixo, sem tirá-la completamente de mim, e sorriu safado ao expor minha própria ereção.

Só aí ele disse:

— Você não sabe o quanto eu sou feliz por seu pau não ter nada a ver com o tamanho de sua mão, hyung.

Desgraçado. Eu desejaria socá-lo, agora, se já não estivesse tão empenhado desejando foder sua boca.

E não sei se foi proposital, ou não, mas minha irritação enfraqueceu ainda mais quando ele deslizou as pontas dos dedos por meu pau, apenas dando o vislumbre de seu toque, mas que já é suficiente para minha barriga se contrair.

Jungkook então sorriu com o lábio entre os dentes e me envolveu com sua mão, esfregando o polegar em minha glande antes de pressioná-lo na fenda que já começou a expelir pré-gozo. E então ele lambeu, limpando os rastros de fluido líquido e substituindo-o por sua saliva.

E, porra, ele faz isso como se estivesse provando algo delicioso.

Puta que pariu, Jungkook é um pornô.

E eu sou um puto desesperado por mais. Por isso, quando ele circula minha glande com sua língua mais uma vez, mas não dá sinal de fazer mais que isso, eu peço:

— Chupa, Jungkook...

Ele sorriu desse jeito safado, os olhos escuros carregados de satisfação, e então... afastou sua boca, estimulando minha ereção somente com sua mão.

Eu perco as forças nos braços, frustrado, mas ainda inegavelmente afetado pelo início da masturbação lenta, e volto a cair completamente deitado, cobrindo meus olhos com meu antebraço.

Quando fiz isso, Jungkook aumentou a pressão de sua mão, estimulando somente minha glande e voltando a aproximar sua boca, mas usando-a para beijar minha virilha e a parte interna de minha coxa alternadamente, até parar e apoiar seu queixo sob o osso em meu quadril, continuamente me masturbando, e eu estremeci ao ouvir o que ele disse.

— Você é tão gostoso, hyung, e seu pau vai ficar tão bem em mim quando estiver me fodendo — E então, ele pressionou sua própria ereção contra minha canela. — E o meu vai ficar tão bem fodendo você...

Eu resfoleguei outra vez, e a proximidade da boca de Jungkook com meu pau me faz perceber quando ele sorri por me ver ceder à sua provocação.

E isso é o suficiente para me fazer jogar aos ares qualquer resquício de auto controle, então minha mão alcança sua cabeça às cegas e volta a puxá-lo pelos cabelos, guiando-o até meu pau.

Sem mais me submeter ao seu jogo, eu afasto o braço que antes cobria meus olhos e dessa vez não peço, eu mando:

— Chupa.

Eu consigo visualizar o sorriso de satisfação de Jungkook ainda maior só pelo seu tom de voz, ao dizer:

— Parece que você finalmente lembrou como eu gosto, hyung.

E, sem mais tortura e provocações maldosas, Jungkook firma meu pau com a mão e o lambe da base à cabeça, onde se demora um pouco mais e finalmente o cobre com sua boca quente, acomodando primeiro só a glande, chupando-a devotamente enquanto sua mão volta a masturbar a base de meu pênis.

Agora, sim. Mas...

— Você pode fazer melhor que isso, Jungkook — Eu o desafio, tão seguro quanto minha voz arfando me permite soar.

Estimulado por minhas palavras quase troçosas, Jungkook usou sua força para erguer meu quadril até fazer suas mãos agarrarem minha bunda, e as apertou simultaneamente ao movimento de sua cabeça para botar ainda mais de meu pau para dentro.

E agora ele parece levar meu desafio muito a sério, engolindo-o até que eu sinto sua garganta se contrair e ele fecha os olhos como se sufocasse.

Eu realmente não entendo. Tem medo de engasgar com um comprimido, mas não tem medo de botar um pau inteiro na boca, e ainda faz isso tão bem.

Totalmente imerso nas sensações que sua boca provocam, eu mantenho o braço dobrado acima de minha cabeça e o outro esticado, com minha mão constantemente segurando seus cabelos.

Quando percebo que ele se acostuma a me ter inteiro na boca, sua língua relaxa sobre meu pau e ele abre os olhos lacrimejados para voltar a me olhar ao mesmo tempo em que aperta minha bunda com mais força, eu seguro sua cabeça no lugar e empurro meu quadril para cima, estocando contra sua boca pela primeira vez.

A sensação me faz delirar e eu fecho meus olhos, inclinando minha cabeça sobre o travesseiro antes de meter outra vez, sem ser impedido por Jungkook a cada vez que faço o mesmo e fica mais difícil não deixar meus suspiros se transformarem em gemidos, e então o primeiro escapa sem que eu me dê conta.

Minha reação involuntária parece estimular Jungkook ainda mais, porque eu sinto sua garganta vibrar contra meu pau como se ele tentasse conter o próprio gemido, e então segurou meu quadril no lugar, me colocando para fora pouco a pouco enquanto sua língua massageia toda minha extensão, envolvendo-a completamente com uma camada de saliva.

Quando me segura pela base e finalmente expulsa minha glande com um som estalado, ele respira fundo, com o peito subindo e descendo rápido.

Sua mão me masturbando, no entanto, é precisa e deliciosa.

Mesmo assim, eu estou demorando a gozar. Não que isso seja ruim, porque eu quero aproveitar cada sensação de Jungkook me tocando por quanto tempo for possível, mas ele parece cansado.

Ou não.

Mal finalizei meu pensamento preocupado e ele voltou a curvar seu corpo abaixado sobre o colchão, então comandou meu quadril, dessa vez erguendo-o até colocar minhas pernas em seus ombros, com sua cabeça entre elas. E então ele chupou minhas bolas, voltando a me masturbar tão deliciosamente quanto antes.

Com o novo estímulo e qualquer controle retirado de mim pela nova posição, tudo que me resta é aproveitar, e eu resfolego alto enquanto sou tocado pela mão e boca habilidosas de Jungkook me levando ao limite.

— Caralho, Jungkook... — Eu suspiro quando ele volta a me chupar de surpresa.

Esse cara é definitivamente o deus da punheta e do boquete.

Foda é que também é o inferno de pessoa mais adorável que já conheci.

Isso quase me faz entrar em curto circuito, mas o gemido mudo, sem ar, que escapa por minha boca me faz perceber quão próximo estou de gozar e, mesmo sem muito controle, eu movo meu quadril desesperadamente enquanto Jungkook segue me chupando e masturbando tão bem. E, desorientado, eu agarro a colcha debaixo do meu corpo quando ele dá o sinal claro do orgasmo e eu contraio minhas pernas, volto a fechar meus olhos com força e sinto uma pressão enlouquecedora se acumular em minha virilha e base da barriga antes de, junto a um gemido da mais pura satisfação, gozar na boca de Jungkook.

E talvez eu devesse ter avisado. Talvez Jungkook pudesse odiar ter a boca cheia de porra, mas percebo que dessa vez o acaso ficou ao meu lado porque ele engole tudo, me chupando até a última gota de gozo.

Inteiramente vencido pela sensação de um orgasmo tão intenso, eu não tenho força alguma para fazer qualquer coisa e é Jungkook quem volta a apoiar meu quadril sobre a cama e deixa uma trilha de beijos por meu abdômen, até chegar em minha boca e me beijar. E eu não o rejeito.

— Você é tão fresco, hyung — Ele disse, reduzindo o beijo a uma troca de selinhos. — Achei que não beijaria depois de um boquete.

Eu ainda estou respirando com dificuldade, mas consigo olhá-lo com algum incômodo.

— Você chuparia um cara que tem nojo do próprio pau? — Questiono.

Ele inclinou a cabeça para o lado num gesto condescendente à minha suposição, e eu reviro os olhos antes de usar minha última força para puxá-lo e voltar a beijar sua boca.

Quando ele se movimenta e eu volto a sentir, por acaso, sua ereção contra minha perna, só então me dou conta de que Jungkook ainda está duro, e então uma loucura inconsistente domina minha cabeça quando me percebo em choque por querer chupá-lo de volta.

Eu quero chupar um pau?

Eu arregalo meus olhos assim que confirmo que a resposta é sim e contraditoriamente, ao invés de tomar alguma atitude, o que acontece com meu corpo é o oposto, e eu congelo, quase a ponto de colapsar.

Eu não sei chupar um pau, porra. Eu nunca quis chupar um e, apesar de ter reconhecido tudo que sinto por Jungkook, eu ainda não tinha me dado conta inteiramente de que desejá-lo corresponde a desejar alguém que tem um pau, menos ainda que eu desejaria pau.

E não é que eu esteja a ponto de surtar por isso, exatamente, mas o pequeno receio de fazer algo novo assim me faz entrar em um desespero maior só de imaginar que talvez eu ainda não estivesse pronto para deixar de ser somente amigo de Jungkook.

Não, Jimin, porra, nem pense em entrar em crise de novo. Não posso fazer isso com Jungkook de novo.

No entanto, ele percebe minha tensão antes que eu assimile minha própria certeza e me olha com o que parece preocupação e... medo?

— Eu não vou pedir pra você fazer o mesmo comigo, hyung — Ele diz, tentando me tranquilizar ao supor qual o motivo do meu receio.

— Não é isso, Jungkook — Eu consigo falar, mas não encontro as palavras certas para explicar que, na verdade, eu estou com medo de ficar com medo e, por isso, fazer besteira de novo.

E graças a essa incapacidade, ele continua às cegas, sem entender o que se passa por minha cabeça. Por isso, ele sorri:

— Eu vou dar um jeito nisso. — Avisa, e sei que está se referindo à sua ereção. Então ele levanta, e eu o vejo ir até o banheiro para se aliviar sozinho.

E eu... eu continuo paralisado na cama, com o medo se tornando mais intenso a cada segundo.

Eu não vou estragar tudo de novo... vou?

❥ [Continua...]

Chapter Text

Jungkook está no banheiro. Com uma ereção.

E eu quero fazer algo sobre isso, mas meu corpo continua travado sobre a cama enquanto meu cérebro frita de desespero.

Quando consigo me mover minimamente para puxar minha calça de meus calcanhares até ajustá-la em meu quadril num gesto quase robotizado, eu tento também sair da cama e ir até Jungkook.

No entanto, o esforço é infrutífero nos instantes seguintes, e ele acaba sendo mais rápido porque, antes que eu efetivamente me mova, Jeon sai do banheiro.

Meus olhos recaem surpresos em seu rosto. Surpresos porque ele passou muito pouco tempo ali (a não ser que meu nervosismo tenha afetado minha percepção do tempo), e eu não acredito que ele tenha sido capaz de gozar em tão poucos minutos.

Então... Jungkook broxou.

Ótimo.

Eu fiz Jungkook broxar depois que ele me fez o melhor boquete que já recebi na vida.

Eu sou um fodido.

— Ei... — Eu o chamo quando ele se aproxima, ainda calado e cabisbaixo, e pega sua calça para vesti-la quando se senta na ponta do colchão.

Nenhuma resposta vem, então eu me arrasto pela cama até parar atrás dele, e o abraço cuidadosamente pelas costas antes de descansar meu queixo sobre seu ombro.

— Desculpa por isso... — Eu peço, mesmo achando que não é suficiente.

— Tudo bem, hyung. — Ele responde, sequer virando o rosto para tentar olhar para mim, e isso me dói mais que um soco no estômago.

— Jungkook... — O chamo novamente, agora me sentindo, além de um idiota, um idiota assustado. — Eu queria retribuir, mas travei. Não me leva a mal, por favor...

Ele finalmente se vira para me olhar, e parece surpreso com algo.

— O que...? Hyung, eu não estou chateado por você não ter feito isso! Eu não te chupei esperando alguma coisa em troca, não.

Agora, eu quem fico meio chocado.

— Eu não pensei que você faria isso, Jungkook-ah. — Garanto. — Sério, a possibilidade nem passou por minha cabeça.

— Então... por que você acha que eu estou chateado por isso?

— Não é exatamente com isso... eu pensei que você ficou chateado por ter achado que eu regredi tudo que consegui avançar nos últimos tempos já que eu... travei...

— Eu também não pensei isso, Jimin. — Ele avisou, com os olhos semicerrados.

Quando ele se moveu, eu fui obrigado a desfazer o abraço para me afastar, até que ele sente e fique de frente para mim, mas então nosso contato foi retomado quando ele massageou meu tornozelo, mantendo os olhos pousados em sua mão.

— Eu fiquei chateado porque pareceu que você estava achando que eu ia te forçar a fazer alguma coisa, hyung.

Eu neguei novamente, e reforcei sem faltar sinceridade:

— Eu realmente não pensaria isso de você. É sério, Jungkook. Eu travei por outra coisa... coisa da minha cabeça mesmo.

Ele respirou vagarosamente, então assentiu com um gesto lento e, por último, fez meu coração disparar quando se arrastou pelo colchão até ficar mais perto de mim. Com a distância reduzida a quase nada, eu fechei os olhos para aceitar o carinho que ele fez com os dedos em minha bochecha, e suspirei quando recebi um beijo no canto dos lábios.

Sem me conter, eu segurei sua nuca e movi minha boca até a dele. As mãos de Jungkook se encontraram em minha cintura e ele me segurou com mais força, para no instante seguinte encaixarmos nossos lábios num novo beijo.

E mesmo que seja um beijo calmo, eu sinto esse frio na barriga tão intenso até mesmo quando ele me dá um último selinho, com seu polegar fazendo carinho em círculos em minha pele ainda exposta e sua respiração lenta se mesclando à minha, enquanto mantemos os olhos fechados.

— Hyung, agora que estamos esclarecidos, você pode dizer...

Ao ouvir sua voz, eu abro os olhos, e encontro-o já me encarando preguiçosamente, ainda de tão perto.

— O que? — Pergunto, ainda me sentindo meio sonhador.

Que porra de beijo é esse, cara?

Parece droga.

Jungkook sorriu do jeito que já conheço bem. Por um momento, imaginei que ele pudesse ler meus pensamentos, mas então ele perguntou:

— Meu boquete é muito bom, né?

Eu pisquei demoradamente antes de deixar minha cabeça escorregar até se apoiar no ombro dele, enquanto rio.

— Eu estou esperando uma resposta... — Ele avisou, mas não existe impaciência em sua voz, apenas uma diversão contida acompanhada pelo carinho ininterrupto na altura de minhas costelas.

Ainda meio bobo pelo riso, eu balancei minha cabeça sem afastá-la de seu ombro, e até me aconcheguei melhor para passar os braços ao redor de sua cintura.

O calor de seu corpo é gostoso de sentir mesmo em meio a um verão recente e cruel, e o cheirinho de camomila e bebê em sua pele só me incentivam a ficar assim por mais tempo.

E, sim, o boquete dele é muito bom. É o melhor. O que digo, no entanto, é:

— É bom, mas já recebi melhores.

Jungkook não me deu qualquer resposta imediata, e eu o senti se afastar algum tempo depois, o que quase me fez gemer de insatisfação.

— Desculpa, hyung, mas eu acho que ouvi você dizendo que já recebeu um boquete melhor que o meu, mas isso não faz sentido. — Ele disse, me olhando quase em desafio.

Eu deixei um sorriso provocativo dar as caras e voltei a puxá-lo, mas dessa vez beijei sua boca rapidamente e umedeci meu lábio antes de dizer, olhando-o sob os cílios:

— Não fique ressentido. Você pode se esforçar mais da próxima vez.

Jungkook voltou a recuar, então arqueou as sobrancelhas enquanto exibe um sorriso convencido, facilmente cedendo à minha provocação barata.

Mas se tem uma coisa que Jeon Jungkook sabe, essa coisa é entrar no meu jogo. E ele o faz magistralmente, levando o título de vencedor quando fica de pé e pega sua blusa. Antes de vesti-la e me dar as costas, ele pergunta:

— Que próxima vez, Jimin?

Eu mordi minha língua, sem conseguir esconder um sorriso quando o vi me deixar sozinho no quarto. Só depois eu levanto e sigo o mesmo caminho que ele, mas sem me preocupar em vestir a blusa.

Se Jungkook quer guerra, então ele vai ter.

— Ei, hyung — Ele me chama quando eu o encontro na cozinha e o vejo tirando o pote de sorvete do congelador. — A gente pode tomar agora?

— Claro que sim. — Eu respondi de imediato e Jungkook sorriu tão lindo que por pouco não desmanchei no chão.

Guerra é o caralho.

— Toma — Ele estendeu uma colher para mim, depois me puxou pelo braço até sentarmos no sofá. — Quer assistir TV?

Eu enfiei a colher no pote de sorvete e fiz que sim com a cabeça. Quando Jungkook ligou a televisão num canal aberto, no entanto, eu tive numa ideia melhor.

— Espera! Você tem cabo HDMI?

— Acho que tem um que... — Ele murchou, antes de completar. — Que Yoongi deixou aqui...

Eu passei a língua entre os lábios num gesto incomodado, mas não enciumado. Dessa vez, não.

— Eu não gosto dele, Jungkook. Não gosto mesmo. — Confesso, olhando-o seriamente. — Mas eu realmente não acho que você deveria ter brigado com ele daquele jeito, ontem...

Jungkook abaixou os olhos. Parece cabisbaixo, quando diz:

— Eu sei...

Sem saber se ele quer falar sobre isso ou não, eu fico calado, e cedo o espaço para que ele se decida. Só então ouço sua voz novamente.

— Eu sei que o Yoongi parece chato e acho que você tem motivos pra não gostar dele, porque ainda não conheceu de verdade. Mas se você conhecesse, hyung, e soubesse o quanto ele cuida de mim e me ajuda, teria ainda mais certeza de que eu não deveria ter brigado com o Yoon...

Eu me movi em seu sofá, buscando uma posição mais confortável, enquanto processo sua confissão, e até me coloco um pouco em seu lugar.

— Então... — Finalmente digo. — Você deveria conversar logo com ele e se desculpar.

Jungkook concordou silenciosamente, e eu resolvi me confessar também:

— Eu também briguei com meu melhor amigo. Não foi bem uma briga, na verdade, mas eu não respondo as mensagens dele há muito tempo e eu acho que já estou com saudades...

— Por que você não responde? — Questionou, atento a mim.

Eu respirei fundo e peguei mais um pouco de sorvete, antes de tomar a liberdade de relaxar ainda mais sobre seu sofá, deitando minha cabeça no encosto acolchoado e deitando minhas pernas sobre as coxas de Jungkook, mas ele não pareceu se incomodar por isso, e até acariciou minha panturrilha, com sua cabeça também deitada sobre o encosto, enquanto continua me olhando.

— Ele fez muitos comentários maldosos sobre... — Eu paro, antes de prosseguir. Não quero dizer que Taehyung disse coisas ruins sobre Jungkook, então improviso: —...sobre uma pessoa de quem eu gosto muito. Mas ele nem conhece essa pessoa para falar essas coisas, então eu fiquei chateado de verdade.

— Você também deveria conversar com ele. — Jungkook disse. Eu concordei.

— Acho que vou fazer isso, mesmo ainda decepcionado...

Ele fez que sim, sem dizer qualquer coisa até colocar sua colher dentro do pote de sorvete. Sem tirar dali qualquer porção, ele continua brincando com o cabo metálico, agora olhando para ele, e então pergunta:

— Essa pessoa de quem seu amigo falou mal... sou eu, hyung?

Eu queria que a resposta fosse "não". Queria, do fundo do meu coração, poder negar isso para Jungkook e queria nunca ter precisado ver Taehyung dizer coisas ruins sobre ele, ao ponto de fazer uma piada ridícula e preconceituosa.

No entanto, eu não posso negar, ao menos não verdadeiramente. E, antes que eu possa pensar em mentir, Jungkook parece perceber a verdade que quero esconder.

— Não é que não tenha acontecido antes... acontece muito comigo, mas por que ele falou mal de mim? O que eu fiz dessa vez?

Inferno. Porra. Eu quero proteger Jungkook desse mundo, desesperadamente.

— Você não fez nada, Jungkook. Ele só foi apressado demais. — Eu digo, e essa é a mais pura verdade. Não vou dizer que foi porque Taehyung viu seu feed de fotos no Instagram, porque não quero que Jungkook acredite que tem culpa sobre o julgamento precipitado dos outros, nem por um segundo.

Não importa se ele aparece em mil fotos com caras diferentes. Desde que ele é livre e não deve nada a ninguém, Jungkook nunca deveria ser julgado e condenado por alguém que sequer o conhece somente por isso. E essa é uma percepção que nem mesmo meu ciúme dolorido consegue desvirtuar, agora.

Em silêncio, Jungkook tomou um pouco do sorvete e moveu a cabeça numa concordância fraca, algum tempo depois.

Sem querer chateá-lo mais com essa conversa, eu me estico para beijar sua bochecha, e rio quando vejo que meus lábios sujos de sorvete acabaram sujando sua pele também. Então uso minha mão para limpá-lo, e digo:

— Não vamos mais falar disso agora. Pegue seu notebook e seu cabo HDMI, ok?

— Certo, hyung. — Ele responde, agora já com o sorriso voltando a dar as caras, mesmo que ainda tímido.

Sem falar nada, eu o vejo ir até o quarto para voltar instantes depois com o computador e o cabo, então eu deixo o sorvete de lado e conecto o aparelho à TV, depois faço login na minha conta num site pago de streaming de filmes e séries.

— Quanta coisa — Jungkook diz, meio impressionado enquanto perambulo pelo catálogo online.

Eu olho para ele sobre o ombro e acabo sorrindo mais quando o vejo sentado com as pernas dobradas contra o próprio corpo, no sofá, enquanto devora o nosso sorvete.

— Eu vou deixar a conta logada no seu computador. — Aviso, voltando a olhar para a tela e usando o cursor do teclado para buscar algo para assistirmos. — Daí você pode assistir o que quiser daqui.

— Sério?! De graça e sem vírus? — Ele parece ainda mais impressionado.

De graça... não exatamente. Mas para ele, sim.

— Sim e sim. — Respondo, então, e me assusto quando ele grita. Ao olhar para ele, vejo que pulou do sofá e ficou de pé, apontando para a TV.

— "Dez coisas que eu odeio em você", hyung!

— Você gosta? — Eu pergunto, rindo de sua empolgação. Porra fofa do caralho. — Quer assistir?

Eu não sei como consigo sobreviver depois que o sorriso de Jungkook fica ainda maior, com os olhos grandes reduzidos a um formato de meia lua, cercados por ruguinhas adoráveis.

Ele assiste Meninas malvadas comigo, faz os melhores bolos que já comi, tem um abraço quentinho, faz um boquete gostoso e tem a porra do sorriso mais lindo do mundo.

Quão precipitado eu seria se começasse a ponderar de agora a possibilidade desse cara ser o amor da minha vida?

Muito precipitado, certamente.

— Ok, vamos assistir Dez coisas que eu odeio em você, então. — Eu aceito quando Jungkook assim decide, e seleciono o longa antes de voltar para o sofá com ele.

— Obrigado, hyung. — Ele diz, com o filme ainda na introdução e os cantos dos lábios sujos de sorvete de chocolate: — Agora eu tenho um ventiladorzinho novo, sorvete pra dividir com você e vou assistir meu filme favorito. E você lembrou de colocar o Keanu na janela pra tomar sol! — Ele se aproximou, e minha cabeça foi para trás de tão forte que Jungkook pressionou sua boca na minha, mas tudo que fiz em resposta foi rir. — Eu tô muito feliz.

— De nada. — Eu digo, então, e devolvo seu selinho. — Mas pode me agradecer melhor fazendo um bolo de morango para mim.

— Vou fazer o melhor bolo do mundo. — Ele garantiu, e eu mordi meu lábio quando ri, antes de deitar minha cabeça em seu ombro.

Então o filme finalmente começou, e ao passar das cenas eu comecei a sentir que Regina George está seriamente ameaçada por Kat Stratford.

Quer dizer, Jungkook ri muito de cada cena. Se eu já gostava de Dez coisas que odeio em você, gosto mais ainda agora que posso ouvir a risada dele tão constantemente, e Meninas malvadas parece estar arranjando um concorrente à altura.

— Oi, Kat. — O pai da protagonista diz, ao surgir na tela. — Já fez alguém chorar hoje?

— Infelizmente, não. — Ela responde. — Mas são só 16:30.

E Jungkook explode numa nova gargalhada, então acabo rindo só por isso, e também porque agora percebo certa familiaridade em sua risada gostosa.

— Jungkook-ah? Já te disseram que sua risada é igual à do Marcus e do Kevin em As branquelas?

Ele parou de rir aos pouco, então olhou para mim e negou, com os cantos dos olhos úmidos de lágrimas. Felizmente, são lágrimas de riso.

— Não parece, não, hyung.

— Parece. Juro.

Ele negou outra vez, parecendo confiante demais em seu posicionamento, e eu cutuquei sua barriga.

— Ri mais uma vez. Vou provar que parece.

— Não quero rir. — Ele resmungou. Eu o olhei numa súplica silenciosa, então ele balançou a cabeça para os lados e eu acabei por suspirar. Quando o fiz acreditar que desistiria, repentinamente me virei de volta e o ataquei, fazendo cócegas em sua barriga.

Jungkook deixou um gemido surpreso escapar em meio a uma risada, e caiu deitado no espaço limitado do seu sofázinho, o que me fez cair por cima dele enquanto continuo dedilhando em suas costelas e barriga, com o pote já vazio de sorvete dançando, caído ao nosso lado.

— Hyung, para! — Ele pediu, rindo tão alto que tudo que menos desejo agora é parar.

Eu deveria gravar essa risada e vender no iTunes. Ficaria ainda mais rico do que já sou, porque que inferno de risada gostosa.

— Hyung! — Ele insiste, então, e me segura pelos braços de forma desastrada, o que me faz perder a força e desabar de vez sobre seu corpo.

Agora estamos os dois rindo e o filme ainda está passando na TV, mas o que fazemos a seguir não é voltar a assistir. Nós nos beijamos.

O sofá minúsculo faz um péssimo trabalho em acomodar nossos corpos deitados, mas não nos importamos com isso e continuamos beijando, apreciando na boca um do outro o gosto do sorvete de chocolate enquanto o toque de nossos lábios e línguas se torna mais intenso, até Jungkook mover suas pernas, abrindo-as e dobrando-as ao redor de meu quadril, com suas mãos deslizando por meus cabelos.

Com tão pouco eu já me sinto tão quente, e não é pelo verão.

E enquanto meu corpo quer seguir em frente, minha mente dispara um alerta quando Jungkook desce as mãos até minhas costas nuas e eu me percebo facilmente excitado. Como efeito colateral, eu lembro do que aconteceu instantes antes no quarto e entro em pânico com a possibilidade de acontecer de deixá-lo na mão de novo, então eu interrompo nosso beijo bruscamente e me afasto, voltando a sentar.

— É melhor... — Eu digo, meio ofegante, enquanto massageio minha nuca. — É melhor a gente ver o filme.

Jungkook pisca em confusão, mas assente antes de se apoiar para também voltar a ficar sentado, e então fica com a postura ereta, os pés apoiados no chão e as mãos escondidas entre suas pernas, enquanto vez ou outra percebo-o me olhando de esguelha.

E, a partir desse ponto, eu não consigo mais prestar atenção no romance de Kat e Patrick, nem consigo sentir raiva da mimada da Bianca Stratford, que o fim nem é tão ruim assim.

Só consigo pensar que agora estou com medo de ficar duro.

Quando o filme finalmente acaba, nós ficamos um do lado do outro por algum tempo e não dizemos qualquer coisa, até que ele pergunta:

— Vai querer almoçar o que, hyung?

— Ah, — Só então me dou conta de que já passou da hora do almoço. — eu acho que é melhor ir embora.

— Já? — Jungkook pergunta, chateado.

— Eu preciso arrumar as fotos que tiramos ontem e enviar para o estúdio. — Explico, puxando-o suavemente pelo braço, então beijo sua bochecha. — Deixamos o almoço para a próxima. Pode ser?

Jungkook concordou em silêncio, ainda insatisfeito, e eu sorri ao acariciar seu rosto suavemente. Depois, fiquei de pé.

Quando peguei minhas coisas em seu quarto e tirei sua calça para vestir minhas próprias roupas, eu voltei à sala e, só nesse tempo que levei para arrumar minha mochila, Jungkook se ocupou com algo na cozinha.

— Pelo menos leva isso, hyung. — Ele disse, finalizando um sanduíche pouco elaborado. — É simples, mas não quero que você vá embora com fome...

Eu nem consegui dizer nada enquanto Jungkook embrulha as fatias de pão recheadas, porque nem sei o que falar.

Quando ele se vira e estende seu gesto atencioso para mim, no entanto, eu primeiro o aceito. Depois, subitamente o abraço pelo pescoço, sem me incomodar por precisar ficar na ponta dos pés para fazer isso.

— Jungkook... você ainda vai fazer meu coração explodir. — Confesso, sem soltá-lo.

Ele pareceu confuso a princípio, mas acabou por retribuir meu abraço, e eu ri quando ele me apertou pela cintura e puxou meu corpo até me fazer pisar em seus pés para dar fim à diferença de altura.

— Não sei o que fiz agora, mas por favor, não explode. — Ele pediu, com seu queixo apoiado em meu ombro.

— Está cada vez mais difícil... — Anuncio, e o afastei somente para vê-lo ainda com a expressão confusa como a de um bebê, então eu me derreto ainda mais e volto a abraçá-lo, deixando uma caralhada de beijos em sua bochecha.

Jungkook acabou rindo mesmo que talvez ainda não consiga entender por que eu me rendo tanto por ele, e eu deixei um último beijo em sua boca antes de voltar a pisar diretamente no chão.

— Eu preciso mesmo ir. — Aviso, infelizmente. — Quer ir comigo até o ponto de táxi?

É claro que eu espero uma resposta positiva, só para passar mais uns minutos com ele, e me sinto inteiramente satisfeito quando Jungkook faz que sim, sem hesitar.

— Então vamos — Eu o puxo suavemente pelo pulso, e só volto a pendurar a mochila no ombro antes de olhar para Keanu pegando solzinho na janela.

Fofo como o pai.

Depois de me despedir mentalmente da coisinha cheia de espinhos mais adorável que já vi, eu saí em companhia da pessoa mais adorável do mundo.

Durante o percurso até nosso destino intermediário, não falamos muito, tampouco nos tocamos além do roçar suave do dorso de nossas mãos enquanto caminhamos lado a lado, e esse toque desproposital (mas nem tanto assim) me faz desejar entrelaçar meus dedos aos de Jungkook.

Quando eu finalmente reúno coragem para isso, no entanto, já estamos a cinco passos do ponto de táxi, onde um carro já está disponível e à espera de novos passageiros.

Consternado e insatisfeito, eu estanco meus pés no lugar e paro de andar. Jungkook faz o mesmo assim que percebe, e vira para me olhar com curiosidade.

— Tudo bem, hyung?

Meus olhos percorreram cada pedaço de caminho que ainda temos até chegarmos ao ponto, então eu recuei com um passo e apontei para meu lado.

— Volta até aqui. — Eu peço, então.

— O que? Por que?

— Vem, Jungkook. — Insisto, e ele faz o que mando, ainda completamente confuso. Então, sem perder mais tempo, eu seguro sua mão com a minha, depois deslizo meus dedos até encaixá-los nos seus, e os aperto como se para confirmar para mim mesmo.

Sim, estamos de mãos dadas. Em público.

— Hyung... — Ele me chama, espantado e com os olhos redondos quase saltando do lugar.

— Nós vamos precisar economizar o caminho que ainda temos, então ande devagar. — É a única explicação que me proponho a dar.

Ele desceu sua atenção até nossas mãos unidas, depois voltou a olhar para mim com os olhos pretos brilhando como nunca. Sério, estão brilhando muito, e é lindo.

— Acho que entendi o que você quis dizer quando falou que seu coração vai explodir... — Ele disse, então. — Hyung, eu acho que o meu vai explodir também.

Eu sorri, e me assusto ao perceber que me sinto tímido.

Antes que eu possa fazer algo sobre isso, no entanto, vejo Jungkook mordiscar o próprio lábio antes de sorrir para mim, meio pidão.

— Hyung, lembra que eu disse que tiro foto do que me faz feliz? — Ele perguntou. Depois de minha resposta positiva, anunciou: — Eu realmente quero tirar foto disso agora...

Eu encolhi meus ombros numa concessão silenciosa, e Jungkook apenas esperou isso para tirar seu celular do bolso. O que me pegou de surpresa foi quando ele puxou nossas mãos para cima, apontando-as para o céu azul de verão, e desenlaçou nossos dedos, mas sem separar nossas palmas ao enquadrá-las na câmera.

E assim, num clique, a imagem de nossas mãos juntas e a lembrança desse dia quente e ensolarado ficam registradas em nossa foto.

Jungkook sorriu para a tela do celular, satisfeito com o que acabamos de eternizar, e eu fui movido por impulsividade quando colei meu corpo à lateral da sua e beijei sua bochecha mais uma vez, voltando a entrelaçar nossos dedos, então confessei:

— Jungkook... eu acho que acabei de explodir.

Eu não precisei ver para sentir seu sorriso, e o toque de seus lábios em minha bochecha, devolvendo meu beijo, me arrepiam ainda antes que eu ouça sua voz.

— Então somos dois, hyung.

A sensação que me domina agora é indescritível. É euforia, mas tranquilidade, com frio na barriga e coração acelerado. É a coisa mais gostosa que já senti em meus vinte e três anos de vida.

E eu não quero deixá-lo. Não quero ir embora, me despedir de Jungkook, nem me despedir dessa sensação nova, mas me agarro à certeza de vê-lo novamente em breve e nos guio, de mãos unidas, em direção ao ponto de táxi.

— Da próxima vez eu vou te levar para almoçar, onde você quiser — Eu digo, mostrando o embrulho com o sanduíche que ele preparou para mim. — Como agradecimento.

— Espero que a próxima vez seja logo... — Ele disse, e eu concordei sinceramente.

— Até depois, Jungkook — Me despeço, então, apreciando os últimos instantes de nossas mãos entrelaçadas. — Obrigado por esse fim de semana.

Ao invés de responder meu agradecimento com um de nada pretensioso, o que ele faz é sorrir genuinamente, do jeito que amo, e então diz:

— Obrigado, hyung.

Ainda com um turbilhão de borboletas batendo as asas em meu estômago, eu abri a porta do táxi e me sentei no banco traseiro, acenando uma última vez para Jungkook, e o vejo continuar ali até que o carro começa a se mover.

Ao chegar em casa, eu ainda me sinto nas nuvens, e a sensação é tão surreal que eu mal tenho forças para subir as escadas até meu quarto, então me jogo no primeiro sofá que aparece e cubro meu rosto com uma almofada, sem conseguir parar de sorrir sozinho.

E eu reconheço tudo isso, cada uma dessas sensações, embora desde minha adolescência não tenha me deixado sentir tão abalado por uma paixão. Na verdade, nem mesmo uma vez eu senti essas coisas com tanta intensidade, mesmo que eu já tenha me apaixonado umas tantas vezes.

— Meu deus, Jungkook... — Eu puxo a almofada até meu peito, e meus olhos encaram o teto quase sem piscar.

No entanto, a constatação de estar apaixonado como nunca e por um outro homem não desperta em mim tanto desespero. Sinto apenas uma ponta de ansiedade e incerteza sobre o que vai acontecer de agora em diante.

Mas eu não vou tentar tirar Jungkook de minha vida, não vou mesmo.

Por isso, decido de uma vez por todas deixá-lo colidir com uma outra parte importante de mim, e depois de todo esse tempo finalmente abro a conversa com meu melhor amigo.

Ei, babaca|

Taehyung
|Jimin?

Taehyung
|Você finalmente voltou?

Só pra dizer que eu vou fazer você entender de uma vez por todas que Jungkook é muito mais que o que você pensa e faço questão de te ver arrependido, otário|

E porque eu estou com saudades de você|

Taehyung
|EU TAMBÉM TO COM MUITA SAUDADE DE VOCÊ FUI NA SUA CASA ONTEM MAS VOCÊ NÃO ESTAVA E ME DESCULPA EU NÃO ACHEI QUE VOCÊ FICARIA TÃO CHATEADO EU SÓ NÃO QUERIA QUE VOCÊ SE ILUDISSE MAS ME DESCULPA MESMO EU FUI UM BABACA PRECIPITADO ME DESCULPA EU TE AMO JIMIN

Ok, eu posso aceitar esse pedido de desculpas.|

Também te amo, babaca|

Taehyung
|A gente pode se ver hoje?

Taehyung
|Eu beijei meu primeiro cara ontem e quero muito falar sobre isso com você

Eu vou ficar meio ocupado, mas pode vir aqui em casa que te escuto enquanto faço minhas coisas|

Taehyung
|Chego já

Eu mandei uma mensagem rápida em resposta, até surpreso por não estar surtado com a descoberta de meu melhor amigo beijando um cara. Mesmo que ele já tivesse me confessado que estava começando a sentir atração por outros homens, eu achei que ficaria muito mais chocado se chegasse o dia em que ele realmente se envolvesse com um, mas... não.

Sem muito pensar nisso, eu finalmente pego minha mochila e vou para meu quarto, ainda mais feliz por não esbarrar em meus pais pelo caminho, e só ajusto o ar condicionado antes de me sentar com o celular conectado ao notebook para selecionar e editar as fotos que vou enviar para Seokjin, no estúdio.

Enquanto o faço, eu percebo que apesar de todas as fotos terem sido tiradas em Myeongdong, cada uma tem uma essência diferente e única, porque Jungkook conseguiu capturar cada mínima nuance transitória dos instantes em que registrou minha imagem com a câmera.

Certo. Então está mais do que confirmado.

Muito tempo atrás, Jungkook me disse que é muito bom em três coisas. Já confirmei que ele é mesmo bom cozinhando e que tira fotos como ninguém, agora me resta comprovar se ele é mesmo tão bom assim fodendo, como diz ser.

Pelas demonstrações que já recebi, acredito que a resposta é um grande e lindo sim.

— Minie! — Eu fui arrancado de minha bolha de concentração quando, quase uma hora depois, Taehyung escancarou a porta de meu quarto e entrou na fúria do próprio Taz.

O folgado nem tocou a campainha de casa...

— Oi, Taehyung. — Eu respondo, sem sair da frente do notebook, e ele se arrastou pro minha cama até me abraçar pelo pescoço, quase me sufocando.

— Desculpa, desculpa, desculpa! — Ele pediu, estalando vários beijos em minha cabeça, e eu meti um soco fraco em seu estômago para ele parar com isso.

— Eu já disse que te desculpei, só não faz de novo. — Resmungo.

— Nem lembro mais direito o que fiz, mas eu prometo que não faço mais! — Garante, beijando repetidamente os indicadores cruzados.

— Só não fala mais besteira do Jungkook. — Simplifico. — Primeiro conhece ele, ok?

— Ok. Ok! Eu não falo mais dele! — Prometeu. — Mas então... isso quer dizer que você vai me apresentar a ele?

— Sim. — Respondo, direto. — E eu estou louco pra ver você quebrando a cara quando ver que ele é a coisa mais preciosa desse mundo.

Meu melhor amigo piscou lentamente, sua expressão se tornando curiosa e, se não me engano, surpresa.

— Jimin... você está apaixonado por ele?

Eu o olhei em silêncio, antes de voltar meus olhos à tela do notebook ainda sem responder sua pergunta, porque a primeira pessoa que deve descobrir meus sentimentos por Jeon Jungkook é o próprio Jungkook.

— Vamos falar sobre você e o cara que você beijou ontem — Desconverso, salvando uma nova foto para enviar para o estúdio IDOL.

Rapidamente ele pareceu se livrar da curiosidade sobre o que estou sentindo e ficou todo agoniado, até sentar sobre as próprias pernas.

— Sim, então, — Começou, com seu jeito atrapalhado. — eu vim aqui tentar conversar com você, já que minhas mensagens estavam sendo ignoradas, mas você não estava e eu fiquei muuuuito frustrado, então liguei pro Kenzo e ele me chamou pra ir num bar perto da casa dele, mas era um bar gay e...

— Calma, Taehyung. — Eu o interrompo, querendo entender bem a história. — Quem é Kenzo?

— Um colega da faculdade! Ele é japonês, mas mora aqui desde novinho. Eu já falei dele pra você, não lembra? Porque o Kenzo é modelo também, ele tem uns dentinhos tortos de vampiro bem charmosos e uma covinha... bem bonito mesmo.

— Ok. Então você saiu com seu colega Kenzo, que é muito bonito. Foi ele que você beijou?

— Não! — Ele se agitou. — Ele não tentou nada comigo, só bebemos juntos mesmo, e o barman ficou reclamando comigo porque eu estava me lamentando muito...

— Parece um barman que conheço...

— Será? Acho que não. Esse bar fica num bairro mais simples, você com certeza não andou por aquelas bandas.

Eu arqueei as sobrancelhas, cada vez mais desconfiado de que existe sim a possibilidade de Taehyung ter ido onde penso que foi.

— O bar do Calvin fica num bairro desses. — Anuncio.

Ele ponderou, depois gesticulou, descartando a possibilidade.

— O nome com certeza não era Bar do Calvin. Enfim, — Ele sequer me deu a chance de explicar que o nome do bar do Calvin não é Bar do Calvin. — nós estávamos lá, e o barman reclamou muito porque só tem clientes que ficam se lamentando, e então tinha esse outro cara bebendo sozinho.

— E foi esse que você beijou? — Resolvi me atentar somente à sua história.

Que se exploda se o barman da história é o babaca do Calvin, ou não.

— Jimin! Para de me atrapalhar! — Ele resmungou.

— Cara, você não está em posição de gritar comigo. Nós estamos retomando nossa amizade agora depois de você ter vacilado.

Taehyung murchou, todo ressentido.

— Desculpa, Minie...

— Desculpo. Prossiga.

— Ok, — Ele se recuperou bem rápido. — então tinha esse outro cara, e ele se lamentou muito porque também tinha brigado com o melhor amigo, tipo? Quais as chances?!

Eu parei de olhá-lo apenas para anexar as fotos compactadas num único arquivo, então fiz o upload e enviei para o e-mail do estúdio.

— Vou pressupor que você ainda está prestando atenção, porque esse é o ponto crítico da história — Meu melhor amigo resmungou. — Mas daí, em algum momento a gente começou a se lamentar junto, e quando o Kenzo saiu pra atender uma ligação, eu juro que não sei como aconteceu, mas eu e o outro cara estávamos muito bêbados e tristes e nos beijamos! Do nada!

É impossível negar, esse é o tipo de coisa que poderia mesmo acontecer no bar do Calvin.

— Certo. E você gostou? — Pergunto, então.

— Gostei...? — Ele parece confuso.

— Se você não sabe, quem dirá eu...

— Não, é que tipo... eu estava meio bêbado então não lembro direito, mas acho que gostei.

— E qual o nome do cara? Você pegou o número dele? Pretende sair com ele de novo?

— Não sei nada. Nadinha... — Se lamentou. — Mas eu acho que gostaria de falar com ele outra vez, ele era bonito. Tem uns olhos pequenos e uns dentes fofos, achei uma gracinha mesmo...

Com meu serviço finalizado, eu fecho o notebook e deixo meu corpo cair deitado sobre os travesseiros, sem parar de olhar para Taehyung.

— E você não está surtando com isso? Por ter beijado outro cara? — Questiono.

— Na verdade, não... eu já tinha aceitado bem que também me sinto atraído por homens, então até acontecer algo assim seria só questão de tempo. Mas ainda assim, foi a primeira vez então eu estou meio — Ele gesticulou desesperadamente com as mãos. — Sabe?

— Sei — Respondo sinceramente, com uma risada. — Que inveja...

— O que foi? — Perguntou, curioso. — Você ainda fica complexado por beijar um cara?

— Não... o beijo não é mais um problema. Aliás, qual o absoluto oposto de problema, que significa também "essa é a porra da melhor coisa do mundo"? Porque beijar Jungkook é isso.

— Mas...?

— Mas... — Eu deslizo a língua entre meus dentes e meu lábio, até resolver contar: — quando é para ir além, eu acho que travo.

— Então você só beija?

— Não... eu já recebi um boquete. O melhor, Taehyung! Mas quando foi na hora de retribuir, eu entrei em pânico e não fiz nada!

— Que estranho. Não é você quem gosta de retribuir tudo no sexo?

— Sim! Sim, porra! Mas isso nem é o que mais me frustra. O problema é que isso me deixou com medo de ficar com medo de novo e acabar fazendo besteira com o Jungkook, e eu não posso fazer isso. Eu juro que não vou me perdoar se magoar aquele cara outra vez, Tae. Você consegue entender como a situação é fodida?

— Na verdade, não...

Eu expulsei o ar num gesto frustrado. Honestamente, nem eu consigo entender direito, porque nunca aconteceu antes.

— Mas, vem cá... e se você travou só por nervosismo por conta da inexperiência? — Meu amigo ponderou, então. — Quer dizer, você nunca chupou um pau antes, então é normal ficar meio aaaah!

— Ei! Verdade! — Eu quase gritei e voltei a sentar na cama, eufórico. — Eu também entrei em pânico quando chupei a primeira buceta!

— Viu?! — Ele comemorou, até bateu palmas. — Tudo sob controle! Você só é tipo virgem de novo!

Eu bati palmas também, porque me sinto estranhamente aliviado com isso.

Quer dizer, isso pode significar que eu só estou nervoso com a possibilidade de fazer algo novo, não prestes a regredir tudo que consegui evoluir nas últimas semanas sobre Jungkook e sobre minha sexualidade!

Porra! Eu estou feliz de verdade!

Quando ouço batidas na porta e minha mãe entra no quarto em seguida, no entanto, a felicidade dissolve como os sais de banho em minha banheira cheia.

Espero que ela não tenha escutado nossa conversa sobre pênis, vaginas e neo-virgindades.

— Jimin. — Ela diz, com esse tom constante de quem vai me repreender por algo, e então seus olhos pousam em Taehyung.

— Oi, senhora Park! — Meu amigo diz, sorridente, mas não recebe o mesmo de volta.

Felizmente, Taehyung conhece minha família há tempo demais, então já está acostumado com a natureza desagradável de meus pais.

— Eu disse que você está proibido de receber visitas em casa até que dê um jeito na sua vida, Jimin. — Foi o que ela disse, os braços cruzados, deliberadamente ignorando o cumprimento de Tae.

Na frente dos sócios, ela nunca agiria assim.

— Ah... — Meu amigo olhou para mim, sem saber o que fazer, e eu respirei fundo, indisposto demais para discutir.

— Ok. — É o que digo, então olho para Taehyung, e aviso: — Vou dormir na sua casa, então.

Ele abriu um sorriso enorme, com o formato retangular que já é tão familiar e acolhedor para mim, e assentiu.

Minha mãe exibiu seu desagrado na forma como sua cabeça meneou suavemente para os lados, e então disse, antes de fazer seus saltos se chocarem contra o chão repetidamente quando caminha para fora do quarto:

— Você ainda vai entrar na linha, Jimin. Por bem ou por mal.

Eu mal dei ouvidos à sua ameaça, e segui até meu closet para arrumar minha mochila com novas roupas, mas Taehyung parece preocupado.

— Tudo bem, Minie?

— Nada com que não esteja acostumado. — Dou de ombros, escolhendo bem minhas roupas e, depois de pegar todo o restante de que vou precisar, jogo a mochila nas costas e gesticulo para meu melhor amigo. — Vamos sair daqui, por favor.

Ele só assentiu e se levantou num pulo, mas então me abraçou pelo ombro ao caminhar ao meu lado.

— Vamos fazer maratona de filmes hoje, ok? Podemos assistir começar com Meninas malvadas e terminar com Titanic. E pedir pizza! Ah, e eu também tenho chocolate!

Eu sorri genuinamente, embora sem tanto entusiasmo, e deitei minha cabeça em seu ombro por um instante, lembrando por que, apesar de tudo, esse cara é meu melhor amigo há tantos anos.

Quando chegamos em sua casa, então, não pudemos retomar a conversa que tivemos em meu quarto, porque Danbi, sua irmãzinha terrorista, ficou nos perseguindo a cada segundo.

Mesmo assim, nós conversamos sobre todo tipo de besteira (de classificação livre, obviamente), assistimos filme, comemos pra caramba e ensaiamos várias coreografias com Danbi, que é louca por Twice.

Foi bom. Foi bom de verdade relembrar como estar com meu melhor amigo me faz bem, mesmo que durante a noite ele quase tenha me sufocado ao me abraçar para dormir, como sempre faz.

Na manhã seguinte, no entanto, acordei sozinho na cama e o vi saindo do banheiro preguiçosamente enrolado numa toalha.

— Eu preciso ir pra aula, — Ele avisou ao me ver com os olhos, ainda sonolentos, abertos. — mas pode ficar dormindo. Eu venho almoçar em casa.

Eu só olhei para o relógio em sua cômoda, depois fiquei sentado e me espreguicei junto a um bocejo.

— Melhor voltar para casa... — Decido. — Ontem foi dia de folga de Jiwon, mas hoje ela está lá e eu preciso da ajuda dela pra aprender a fazer uma coisa...

— Que coisa?

— Um pão.

— Um... pão?

— Sim. Um pão. É um pão importante pro Jungkook.

— Ah, agora faz sentido. — Ele riu, começando a se vestir, sem precisar se intimidar com minha presença. — Você tá rendido mesmo por esse cara, né?

Eu só deixei um sorriso meio preguiçoso aparecer, e isso deve servir como uma confirmação.

— Mas então... é isso? Você vai fazer um pão, e vai ficar tudo bem sobre aquele seu surto? — Questionou, curioso.

— Não. — Respondo. — Eu vou aprender a fazer o pão. E a fazer um boquete.

— Wow, Park Jimin! — Ele desatou numa risada espontânea. — Agora sim!

Eu só ri e perdi as forças, então voltei a deitar, decidindo ficar assim por mais um tempo antes de ir embora.

Então está decidido. Da próxima vez que encontrar Jungkook, eu vou ser capaz de fazer o pão de sua mãe e de me ajoelhar em sua frente e chupá-lo.

Ou isso, ou não sou um dos homens mais bonitos do mundo.

Assim, a passagem dos dias se dá com objetivos claros em minha mente, então eu passo parte de meu tempo insistindo para que Jiwon me ajude a fazer o bendito pão, e a outra parte passo na frente do notebook, procurando dicas de como fazer um boquete.

Não deveria ser um mistério já que recebi tantos, mas eu honestamente, do fundo do meu coração mesmo, não sei nem por onde começar.

— Ok, descasquei a banana... — Eu disse sozinho, trancado no quarto, diante de uma página na web que dá dicas para fazer um bom sexo oral em um pênis. — Cuidado com os dentes... hmm...

Eu tentei empurrar o negócio para dentro sem deixar meus dentes tocarem nele, e succionar ao mesmo tempo, mas acabei me atrapalhando todo e desisti, frustrado, arrancando um pedaço da banana para comer de uma vez.

Tenho que lembrar de não fazer isso no pau de Jungkook.

Chateado e ainda comendo uma banana que deveria ter fins educacionais, eu quase acabo me engasgando quando preguiçosamente deslizo meus olhos até o celular e vejo a tela acesa com uma nova notificação.

— Eita, caralho! — Eu quase grito, com a boca cheia de comida, me atrapalhando todo para abrir o novo e-mail.

De:  Estúdio IDOL
Para: pjminn@gmail.com  e outros 2

Prezados,

Vocês foram selecionados para um ensaio promocional contratado por uma de nossas empresas parceiras. As informações completas estão disponíveis no arquivo que segue anexo.

att,
Estúdio IDOL

Assim que acabei de ler a mensagem, eu nem me dei ao trabalho de abrir o arquivo anexo antes de dar uns socos vitoriosos no ar.

Meu primeiro trabalho como modelo fotográfico!

Só quando me acalmei é que eu abri o material com as informações complementares e descobri que o ensaio vai ser realizado dentro de dois finais de semana. Ansioso, eu quis muito contar a novidade para Jungkook, mas meio que estou evitando ter conversas longas com ele durante esses dias.

Decidi recuar um pouco para depois voltar com, surpresa! Um pão e um boquete!

Dedicado a isso, então, eu desisto de buscar ajuda na internet e procuro ajuda mais pessoal, então abro a conversa da primeira pessoa que acredito que possa fazer isso por mim.

Sunhye, desculpa a abordagem, mas você já fez um boquete?|

Sunhye
|Certamente. Por quê?

Como faz?|

Sunhye
|Isso é sério?

Caso de vida ou morte, inclusive|

Quero fazer um no jungkook, é minha nova meta|

Sunhye
|gente rica tem cada preocupação e objetivo besta, né

Sunhye
|Mas se você quer mesmo minha ajuda, aqui vai: pede a ajuda dele

Valeuzão, ajudou merda nenhuma|

Sunhye
|É sério, Jimin! Olha, ouvir uns relatos e praticar com, sei lá, uma banana pode te esclarecer umas coisas, mas o que importa é o que você aprende quando tá fazendo de verdade

Quem que pratica com uma banana? kk credo|

Sunhye
|...continuando

Sunhye
|Quando rolar, pede a ajuda dele. Não precisa ter vergonha, ele sabe que você nunca fez isso, eu acho

Sunhye
|Imagina só: vocês no clima, você vai descendo a boca e quando chega lá, manda um pedido de ajuda só com o olhar, daí ele começa a te mostrar como fazer e como ele gosta...

Sunhye
|Eu particularmente acho isso sexy as fuck

Yep. Fiquei com tesão só de imaginar.|

Sunhye
|Pois é

Sunhye
|Mas então, vem cá. Finalmente se tocaram que vocês não eram só amigos coisa nenhuma?

Graças a deus|

Sunhye
|Graças a deus /2

Sunhye
|Fico no aguardo de novidades sobre o casal e sobre o boquete

Continue ligada no canal Park Jimin|

Sunhye
|Canal hetERROR*

Ai, olha... tchau|

Com o que ela disse em mente, eu abro o feed de conversas do aplicativo e vejo a conversa de Jungkook ali, com novas mensagens não lidas, desde ontem.

Não é que eu esteja ignorando-o propositalmente, eu só tento manter as conversas o mais rápidas possíveis para não dar com a língua nos dentes e acabar revelando o que ando fazendo nesses dias.

Mas para que ele não pense besteiras, eu me adianto em responder suas últimas mensagens. E, honestamente, isso me faz perceber o quanto sinto falta de passar o dia conversando com ele.

Jungkook
|Assisti um filme na sua conta daquele site, hyung, e é muito ruim!!

Jungkook
|Não assista A barraca do beijo, por favor, você não vai gostar também

Jungkook
|Ah!! Wu achei o álbum com as fotos de quando eu era pequenininho, quando você vem de novo pra eu te mostrar??

Jungkook
|Hm... você não costuma demorar tanto pra responder. Tá tudo bem?

Jungkook
|Hyung?

Jungkook
|Você já estava meio esquisito, mas agora eu tô preocupado de verdade

Jungkook
|Ok... te vi online, então você está vivo, só não deve querer falar comigo agora

Jungkook
|É um direito seu, então não vou mais incomodar

Ok, acho que o tiro saiu pela culatra.

É fácil perceber, até por mensagens, quando Jungkook está chateado. E ele definitivamente estava chateado quando mandou essas ao longo das últimas vinte e quatro horas.

Desesperado para desfazê-lo da ideia de que eu não quero falar com ele, eu me preparo para respondê-lo.

Me desculpa! Eu estava ocupado com algumas coisas, mas é claro que eu queria falar com você! Eu estou com saudades de falar com você no telefone até dormir ):|

Jungkook
|Ah, certo

Jungkook-ah... :/|

Jungkook
|Tá tudo bem mesmo, jimin ^^

Jungkook
|Mas eu não sou burro, sei que você está me evitando

Jungkook
|Eu estou meio ocupado agora. Depois a gente se fala, se você quiser

Eu juro que não estava te evitando!|

Jungkook?|

Jungkook, não faz isso, por favor...|

Bebê? :/|

Atende minha ligação|

Para de ser precipitado e deixa eu falar, por favor|

Jungkook
|Não é bom, né? Falar com uma pessoa e saber que ela só não te responde porque não quer

Jungkook
|Eu disse que é um direito seu, mas também é um direito meu ficar chateado

Jungkook
|Não me chama de precipitado se é você que some logo depois do que aconteceu no fim de semana e me deixa assustado achando que se arrependeu de tudo

Jungkook, eu não acredito! Eu estava preparando uma surpresa pra você! Por isso eu sumi|

É claro que eu não me arrependi do que aconteceu! Porra, como eu me arrependeria se foi um dos melhores finais de semana da minha vida??|

Jungkook
|Eu realmente não tô com cabeça pra conversar agora

Jungkook
|Você me deixou bravo e preocupado

Jungkook
|Depois a gente se fala com calma

Jungkook
|Tchau, hyung

EU SÓ QUERIA FAZER UM BOQUETE EM VOCÊ!!!!!!!!|


— Não, porra... — Eu gemi, frustrado, ao ver Jungkook ficar offline antes de receber minha última mensagem, e só então me dou conta da besteira que fiz.

Ele deixou claro que ainda está inseguro sobre a forma como me sinto em relação a nós dois e logo depois de entrar em pane na sua frente, por não saber como reagir ao desejo de chupá-lo, eu começo a ignorá-lo, sendo que antes conversávamos por mensagens o dia inteiro e, quando não, ele ao menos não tinha motivos para criar paranoias.

Mas, inferno! Eu só queria fazer uma surpresa! Que merda!

Ainda inconformado, irritado comigo mesmo por não ter pensado direito e também com Jungkook por sequer me dar a chance de me explicar (apesar de evitar um surto completo por saber que ele pretende fazer isso quando se acalmar), eu quase saltei no lugar ao receber uma nova mensagem, acreditando que já poderia ser ele.

Mas é claro que não é.

Taehyung
|Ei, desculpa, desculpa, desculpa, mas você sabe que eu sou um stalker (inofensivo), né? É mais forte que eu

Taehyung
|Mas então... Eu meio que fui dar uma conferida no instagram do Jungkook só pra saber como andavam as coisas por lá e aconteceu algo esquisito

Taehyung
|Você viu a última foto que ele postou?

Com o coração na mão, com medo do que pode ser, eu uso meus dedos trêmulos para trocar de aplicativo e abrir o Instagram, onde vou direto ao perfil de Jungkook e me deparo com seu feed já conhecido por mim, cheio de fotos superficiais, tão diferentes de toda a arte que ele consegue capturar com uma câmera. De acordo com ele, o único tipo de foto que interessa seus seguidores.

No entanto, ali está ela, destoando completamente do fluxo de imagens normalmente postadas por ele.

A foto de duas mãos apontadas para o céu de verão, postada no mesmo dia em que nos despedimos naquele táxi. A minha mão e a dele, na memória gráfica de quando andamos com os dedos entrelaçados pela primeira vez, num dia quente.

E, se isso não fosse o suficiente para fazer meu coração se tornar pequeno demais para suportar o que estou sentindo, a legenda dá o golpe fatal, e me deixa ainda mais desesperado para esclarecer essa confusão boba de uma só vez.

@eros.00 há 4 dias: 🌵

❥ [Continua...]

Chapter Text

Eu não sei exatamente o que significa, para Jungkook, ter uma foto de nossas mãos em seu perfil no Instagram.

Talvez seja uma análise presunçosa, mas gosto de pensar que sua relutância em mostrar algo além da superfície foi vencida pelo desejo de compartilhar com o mundo algo que foi importante para nós dois.

Talvez, assim como eu, Jungkook tenha transbordado.

Então, assumindo que estou certo em minha presunção, aquela foto junto àquele emoji, sobre o qual apenas nós dois entendemos o significado que carrega, é algo grande. É algo enorme.

Como uma declaração sem palavras. Honestamente, meu tipo de declaração favorito.

Por isso tudo, esperar a noite inteira por uma resposta dele que nunca chega é uma tortura que se intensifica a cada segundo que passa. E, durante vários momentos dessa espera, eu quase acabo cedendo ao desespero novamente, então abri o aplicativo de mensagens e cheguei a digitar chamados desesperados para que ele fale comigo, mas apaguei todos antes de enviá-los. O mesmo para quando digitei seu número no discador do celular.

Quer dizer, insistir dessa forma só me faria parecer ainda mais desesperado, mas principalmente inconveniente.

E, não. Não é que me importe em parecer desesperado, porque estou, e isso já ficou bem claro na última mensagem que lhe enviei. Mas eu me recuso, sim, a ser um completo inconveniente e ficar bombardeando-o com notificações se ele claramente não quer falar comigo.

Assim, eu passo boas horas esperando que ele me responda, o que não acontece.

Já de madrugada, com uma dor de cabeça infernal por sequer conseguir cumprir minha rotina de sono, eu apenas me dei a liberdade de enviar mais uma mensagem, para que uma coisa fique bem clara.

Eu espero que você saiba que estou desesperado para falar com você, e só não estou te mandando mais mil mensagens, te ligando feito um louco ou batendo na sua porta às duas da manhã porque sei que você não quer e eu preciso respeitar seu espaço, mas vontade não está me faltando. Então... me responde quando estiver mais calmo, por favor. Vou ficar esperando🌵|

Antes de enviar, eu reli minhas próprias palavras um punhado de vezes e, depois que vi a confirmação de recebimento por parte de Jungkook, deixei o celular de lado e virei na cama, ansioso demais para conseguir dormir bem, mas igualmente cansado para deixar de tentar.

Além do mais, sou adepto da vertente que afirma que dormir faz o tempo passar mais rápido.

Não quando se está ansioso como o inferno, no entanto.

Por isso, a passagem das horas foi desconfortável como numa aula de matemática e, quando o dia amanhece, continua a mesma bosta.

Indisposto por ter dormido mal como há muito tempo não dormia, eu me arrastei até o banheiro e fiquei por minutos ininterruptos debaixo do chuveiro ligado enquanto sofro e convenço meu senso de responsabilidade ambiental de que a indústria agropecuária causa muito mais impacto que meu banho demorado.

Mesmo assim, eu começo a me sentir culpado e interrompo o fluxo de água, então saio do banho me sentindo ainda pior que quando entrei.

Ser Park Jimin as vezes é, olha, uma merda.

E enquanto não posso fazer muito mais sobre a questão do consumo de água mundo afora, sobre Jungkook eu ainda posso tentar. Assim, depois de respirar fundo, eu visto uma roupa bonita, tento dar um jeito em minha feição cansada e pego meu celular e carteira antes de sair do quarto em disparada.

Eu estou indo até Jungkook.

Estou deliberadamente sendo um inconveniente.

— Jimin, bom dia. — Jiwon me cumprimenta, sorridente, quando apareço na cozinha apenas para checar se ainda temos leite de banana.

Não tem.

— Merda. — Praguejo, voltando a fechar a porta da geladeira.

— Hm? — Ela murmura, confusa, e eu fecho os olhos e balanço a cabeça antes de me aproximar rapidamente só para beijar sua testa.

— Nada. Bom dia, Jiwon. Estou saindo.

— Sem comer? — Ela perguntou, elevando o tom de voz para que eu a escute porque, um segundo depois, já estou correndo em direção à porta de casa.

— Não estou com fome! — É o que respondo, igualmente alto, antes de passar para o lado de fora e atravessar o jardim, caminhando em direção à loja de conveniência mais próxima, onde compro apenas o leite de banana de Jungkook antes de entrar no primeiro táxi disponível e guiá-lo até a cafeteria onde ele trabalha.

Só então, sentado no banco do fundo, é que volto a olhar meu celular e quase me debato contra as janelas quando vejo a notificação de uma nova mensagem dele.

Jungkook
|A gente pode conversar agora

— Calma, Jimin. Respira, pelo amor de deus — Eu digo para mim mesmo, sem me importar se o taxista vai me achar um doido, ou não. 

Pessoalmente?|

Jungkook
|Pode ser...

Eu respirei fundo e voltei a bloquear a tela de meu celular, trabalhando dedicadamente em não ter um surto até que o táxi para próximo à cafeteria e eu fico oficialmente apenas a alguns passos de Jungkook.

Antes de efetivamente entrar no lugar, no entanto, eu prefiro avisá-lo, então volto a mandar uma mensagem.

Tudo bem se eu aparecer no seu trabalho?|

Jungkook
|Agora pela manhã?

Sim...|

Jungkook
|Acho que não tem problema

Jungkook
|Avise quando estiver chegando... eu vou precisar sair rapidinho

Eu li sua última mensagem sem saber se anuncio que na verdade já estou aqui ou se espero mais um pouco, já que ele avisou que vai precisar sair. Antes de tomar minha decisão, no entanto, eu ouço a sineta sobre a porta e, num reflexo, empurro meu corpo contra a parede apenas um instante antes de ver Jungkook sair apressado com seu uniforme, indo na direção contrária até entrar na loja de conveniência no fim da rua, sem me perceber.

Eu não entendo muito bem o que ele foi fazer lá, mas apenas vê-lo de relance me faz ficar nervoso como nunca, e eu aperto as alças da sacola que carrego na mão, com o leite de banana que trouxe para ele.

Durante o tempo que leva até que eu o vejo saindo da loja para vir em direção ao café outra vez, tentei me acalmar da forma que pude, mas foi tudo por água abaixo assim que ele reapareceu em meu campo de visão, caminhando sob o sol quente com seu uniforme fechado, os cabelos puxados para trás exibindo sua testa e uma compra nas mãos.

E, meu deus, quanto mais ele se aproxima, mais seu corpo age sobre o meu como o pólo oposto de um ímã, o que me faz desencostar da parede sem realmente pensar antes de fazer isso, e só então ele me percebe, o que o faz reduzir o ritmo de suas passadas até que para, um pouco distante de mim, enquanto me sinto ser analisado por seus olhos bonitos e escuros.

— Hyung...

Certo.

É oficial.

Eu estou com saudades de Jungkook.

Quatro dias pode não ser muito tempo, mas eu já me acostumei a falar com ele quase todos os dias. A rir de suas mensagens bobas e a me derreter com a forma como sua voz parece ainda mais manhosa por telefone.

E nos últimos dias, por conta de um plano bobo, eu não pude aproveitar nada disso. Por isso, estou com saudade. Estou com tanta, tanta saudade dele...

— Jungkook... — É a única coisa que consigo dizer, antes de sentir o movimento involuntário de minhas pernas criando passos lentos, um pouco incertos, que me levam para perto dele. Quando paro em sua frente, meus olhos percorrem seu rosto e minha mão alcança sua nuca, tocando-o suavemente antes de puxá-lo para mim.

E Jungkook não ofereceu resistência. Ao meu primeiro comando, ele deu o último passo que ainda nos separava e um longo suspiro se arrastou para fora dos meus lábios quando seu peito tocou o meu e ele envolveu minha cintura com seus braços fortes.

Quando fiquei na ponta dos pés para abraçar seu pescoço, ele escondeu seu rosto contra minha pele, e eu sinto sua respiração lenta e quente estimular cada terminação nervosa tocada por ela.

Sem pressa de nos afastar, em algum momento Jungkook me abraçou com ainda mais força, e o silêncio de nosso reencontro foi quebrado por sua voz assustada:

— Eu achei que você não queria mais saber de mim, hyung...

Eu fechei meus olhos com ainda mais força antes de respirar fundo mais uma vez e me forçar a afastá-lo, para que possa olhá-lo de verdade. Antes disso, eu seguro seu rosto e beijo cada lado de suas bochechas, sentindo sua cabeça pesar levemente para baixo entre minhas mãos, como se ele tivesse medo de me deixar vê-lo.

— Me desculpa por te confundir assim, bebê... Eu juro que não foi minha intenção.

Ele manteve os olhos esquivos por alguns segundos de espera, e eu sinto seus dedos me tocando nervosamente na base da coluna quando sou observado sob seus cílios.

— A mensagem do boquete... é verdade?

Eu me sinto enrubescer diante de sua pergunta, porque sequer tive vergonha na cara o suficiente para apagar a mensagem de meu anúncio desesperado antes que Jungkook a visse.

No entanto, sinto algo além de vergonha diante de sua pergunta. Sinto também uma vontade genuína de rir por estar diante da dualidade de Jungkook em sua forma mais pura, porque ele acabou de fazer uma pergunta sobre boquete, mas sua entonação foi a de uma criança curiosa.

— A gente pode mesmo conversar? — Eu pergunto, antes de respondê-lo. — Você não precisa trabalhar agora?

— Tenho mais quinze minutos, hyung...

— Certo. Vai ter que ser suficiente, por enquanto.

Ele assentiu com um movimento ainda inseguro e, quando nos afastamos, seus olhos recaíram na sacola em suas próprias mãos. Depois, me surpreendi quando ele a estendeu para mim.

— Comprei pra você. — Ele avisou, então.

— Ah, sim — Antes de aceitar o que me é oferecido, eu entrego a ele a sacola que eu mesmo estava carregando. — E eu comprei para você.

A curiosidade no rosto de Jungkook foi nítida, mas eu perdi sua expressão seguinte quando enfiei a mão no saco plástico que ele me deu e descobri que, instantes atrás, ele saiu correndo ao descobrir que eu viria vê-lo somente para comprar uma caixinha de suco de melancia para mim.

Ele...

Merda. Puta que pariu.

Eu continuo me desfazendo em sentimentos bons e intensos por Jungkook, como um jardim cultivado com flores diversas, cada uma representando uma forma diferente de me afetar por ele, de me entregar e de me apaixonar um pouco mais a cada encontro.

Eu honestamente não sei lidar com a intensidade de tudo isso. Não sei lidar com o que Park Jimin se tornou por Jeon Jungkook.

Mas foda-se. Eu vou aprender a lidar nem que seja na marra.

— É leite de banana... — Ele constatou, com a entonação maravilhada ao ver o que eu trouxe para ele.

Quando ele ergueu o rosto, nossos olhos simultaneamente alternaram entre sua bebida e a minha. Então nós rimos.

— Obrigado, hyung.

— De nada. E obrigada. Eu não tomo suco de melancia há um tempo...

— É de caixinha porque por aqui não vende suco natural. Se vendesse, eu comprava...

Ah, não.

Por que ele é assim, meu deus? E por que eu sinto que meu peito vai explodir a cada coisinha que ele fala?

— Como é que você pensou que eu não queria mais saber de você? — Questionei, sem pensar muito bem. — Ultimamente você é tudo que eu quero, Jungkook.

Eu vi a forma como seu peito subiu e desceu vagarosamente quando ele respirou fundo, com seus olhos grandes ainda mais arregalados e seus lábios entreabrindo como se quisesse dizer algo, apesar de resposta nenhuma alcançar meus ouvidos.

Também nervoso, eu deslizei minha língua pelo lábio inferior num gesto ansioso e acabei desviando os olhos por um segundo, antes de voltar a juntar coragem.

— Onde nós podemos conversar? — É o que pergunto, dessa vez.

Show de bola.

Pelo menos eu ainda consigo formular uma frase que não envolva alguma declaração que comprove que estou de quatro por Jungkook.

Figurativamente falando, é claro.

— Ah, a gente pode... — Ele se atrapalhou, a voz morreu, e então ele apontou para uma rua estreita logo ao lado do café. — Tem uma área de descanso ali...

Eu fiz que sim, então o olhei à espera de que ele vá na frente. E, depois de se atrapalhar mais um pouco, ele o fez.

Quando chegamos à área de descanso para os funcionários, que nada mais é que um banco de madeira posicionado ao lado da porta dos fundos do café, eu e Jungkook sentamos lado a lado, ambos com os corpos tensos, as posturas eretas e nossas bebidas e respectivos cus nas mãos.

Então... silêncio.

— Hyung... fala alguma coisa, por favor...

Eu concordei, brincando com a caixinha de suco, mas ainda levei bons segundos para recuperar o controle sobre minha voz.

— Certo, então... acho que eu preciso esclarecer aquele mal entendido. — Muito bom. Comecei dizendo nada além do óbvio.

Tá de parabéns, Park Jimin.

Depois de Jungkook, parece que me restaram apenas dois neurônios. Vou chamá-los de Keanu e Reeves, em homenagem.

— Sim... eu quero saber por que... — Ele pausou, seus olhos atentos à embalagem do leite de banana quando ele distraidamente abre a tampa. — Por que você não estava me respondendo mais...

— Isso foi só um plano idiota, Jungkook. Eu queria mesmo te fazer uma surpresa, então achei que seria uma boa ideia me afastar um pouco para criar mais expectativa e... — Bufei, me sentindo ridículo.

Depois de pensar por alguns segundos, Jungkook perguntou:

— A surpresa era um boquete?

E um pão.

Mas isso ainda pode ser segredo, então faço que sim.

— Hyung... eu gosto de receber, você sabe, um oral, mas gosto mais de você. Então não some assim de novo...

Wow.

Espera.

Jungkook gosta mais de mim que de receber um boquete?

Minha autoestima foi parar na estratosfera.

— E também... — Ele continuou, agora mais inseguro. — Eu já disse que não estou esperando nada em troca, hyung... não precisa me chupar só porque eu fiz isso em você...

É... então.

— Essa é a outra parte do esclarecimento... — Comecei, mas não fui em frente. Isso já é um pouco mais constrangedor que admitir que às vezes eu tenho umas ideias meio fodidas.

— Como assim?

Eu respirei fundo, abrindo também minha caixinha de suco para tomar um gole generoso. Depois, expulsei o ar sonoramente.

— Ok. É o seguinte: — Finalmente tomo coragem. — Eu quero chupar você.

Ele piscou lentamente, então eu bebi mais um pouco do meu suco de melancia e fechei meus olhos por um instante, antes de explicar:

— Naquele dia, eu disse que entrei em pânico por uma coisa da minha cabeça. E foi isso. Eu surtei porque, mesmo depois de gozar na sua boca, eu ainda estava com muito tesão e queria muito, mas muito mesmo, chupar você.

Ele sequer precisa dizer algo para que eu perceba sua confusão. Mesmo assim, logo escuto sua confissão:

— Não entendi, hyung... por que você surtaria por algo tão bobo?

— Esqueceu, Jungkook? Você é meu primeiro cara. Eu nunca fiz isso antes, então passou muita coisa por minha cabeça de uma só vez e eu... você sabe.

— Sei...

— De qualquer jeito, eu consegui me resolver sobre o surto, mas não sobre a inexperiência. Quer dizer, eu nunca botei um pau na boca, só tentei uma vez colocar o meu quando eu era adolescente e...

— O que? — Jungkook me interrompeu, e explodiu numa gargalhada sincera, aguda e deliciosa.

— Eu vi na internet, ok?! — Desabafei, empurrando-o pelo ombro, mas rindo também. — E eu sou muito flexível, então pensei por que não?

— A resposta não é óbvia?! — Ele disparou a pergunta, rindo ainda mais, e eu juro que esse é o som mais gostoso do universo inteiro.

Mesmo que pareça de verdade a risada do Marcus e do Kevin em As branquelas, quando ele ri assim.

— Jungkook, para! — Eu peço, me odiando por não conseguir parar de rir. — Que insensibilidade rir disso. Você acha que é fácil ser eu?

— Acho!

— Eu tentei chupar meu próprio pau! Tenha dó!

Meu objetivo era comovê-lo, mas tudo que consegui foi um barulho alto do ar passando desastrosamente por seus lábios, e ele até babou um pouco antes de rir ainda mais.

— D-desculpa, hyung — Ele pediu, rindo sem parar. — Você passou mesmo por maus bocados...

Eu revirei os olhos e virei meu rosto apenas para ele não ver o sorriso que não consigo controlar. Porque, sim, eu sou ridículo a ponto de nem me preocupar com a vergonha de minha confissão, simplesmente porque ela fez Jungkook rir tanto.

Enquanto espero, então, eu vou bebendo de pouco em pouco meu suco, e só volto a olhá-lo quando percebo seu riso mais contido.

— Acabou?

Ele quase voltou a gargalhar, mas respirou fundo e, no fim, fez um único movimento com a cabeça, para cima e para baixo.

Sem me conter, eu deixo uma risada nasal escapar, e estico minha mão para acariciar sua cabeça, depois escorregando minha palma até acomodá-la em sua nuca.

Então, confessei:

— Você me fodeu mesmo o juízo, Jungkook, porque acabei de confessar meu segredo mais constrangedor e só consigo pensar em como te fazer rir de novo.

Ele mordiscou o próprio lábio num gesto que parece tentar conter um sorriso, e eu me arrisquei a deslizar meu corpo pelo banco até estar sentado exatamente ao seu lado, com minha coxa tocando a sua.

— É essa a intensidade do que você faz comigo. — Eu prossigo, sério, mas leve. — Então se eu sumir um pouco, é mais provável que eu esteja ensaiando um boquete numa banana do que estar fugindo de você.

— Você fez isso? — Questionou, agora curioso. — Um boquete numa banana?

Certo. Isso pode ser mantido em segredo. Ainda preciso preservar alguma dignidade.

— Claro que não? Obviamente foi só uma suposição.

Jungkook deixou mais uma risada escapar, e é quase como se ele pudesse ver em meus olhos que, na verdade, eu ensaiei, sim. E que, aliás, meti os dentes na bendita banana.

Mas não é isso que importa aqui.

— Eu estou falando sério agora, Jungkook. — Volto a dizer. — E quando você mostrou que tem medo do que está acontecendo entre nós dois, eu também fui sincero. Eu vou me esforçar até você entender que agora pode confiar em mim. E, sim, eu sei que minha ideia sobre a surpresa foi imbecil, mas... você não pode se esforçar também, só um pouco, para me dar uma chance?

— Hyung, a chance eu já estou dando. Agora, quero dar outra coisa...

Eu sorri, mas sem me divertir verdadeiramente.

Jungkook não parece ter falado na maldade. Quer dizer, sua última revelação parece, sim, ser uma tentativa de amenizar o clima, mas ele obviamente não entendeu a que chance me refiro e isso só me faz relembrar o quanto ele, apesar de ser quase um deus do sexo, é inexperiente em todo o resto.

— Eu não quero uma chance de beijar você, ou de fazer sexo contigo, Jungkook-ah. Quer dizer, eu quero também, mas não é sobre isso que estou falando agora.

Ao me ouvir, sua expressão perdida declara que eu estava mesmo certo. Jungkook não faz a mínima ideia do que quero dizer.

— Eu já estou me esforçando de verdade, Jungkook. — Confesso, então. — Eu sei que ainda posso ser meio idiota, mas não é por maldade... é porque ainda é tudo muito novo para mim. Mas eu estou me esforçando para aprender, e eu tento demonstrar desse meu jeito meio tonto o quanto gosto de você porque eu quero mesmo que você confie em mim... mas se eu me esforçar sozinho, isso não vai a lugar nenhum.

— Mas eu...

— Deixa eu acabar. — Eu peço, paciente. Diante de seu silêncio, finalizo: — Eu preciso que você também tente ter um pouco mais de confiança nos meus sentimentos, Jungkook. Eu sei que não é fácil e eu sei que você tem medo... mas eu também tenho, sabe? Isso tudo me assusta como nada assustou antes, e é tão arriscado me jogar de cabeça no que está acontecendo entre nós dois... mas eu quero tentar, por isso me joguei de uma vez, como se faz quando você está na piscina num dia frio, mas quer muito nadar. Então... você não pode arriscar um pouco também? Eu posso esperar você mergulhar aos poucos. Posso mesmo. Mas se você não começar a molhar nem a ponta do pé... nós nunca vamos estar no mesmo lugar. E como nós vamos ficar juntos se estivermos tão distantes assim?

Certo. Eu nem lembro qual foi a última vez que usei metáforas numa discussão de relacionamento, então eu estou mesmo sério sobre o que estou falando.

Agora, só preciso que Jungkook perceba isso.

Por algum tempo, no entanto, tudo que encontro é seu silêncio. Até que, tantos segundos depois, ele desliza seu polegar pela boca da sua garrafinha de leite de banana, toma um gole longo, respira fundo e só então volta a me olhar.

— Eu não sou bom com metáforas, mas... — Ele começou. Envergonhado, mas com alguma seriedade. — Eu já vesti a roupa de banho, hyung. E eu sei que deveria começar a mergulhar com você, sei de verdade. O problema é que eu ainda não aprendi a nadar...

Mentiroso.

Ele é bom com metáforas.

Por isso, não resta dúvida alguma. A falta de experiência de Jungkook em relacionamentos ainda o mantém preso à borda. Ele tem medo de se afogar.

Isso é um pouco triste, na verdade.

Não que eu acredite que relacionamentos românticos sejam obrigatoriedade na vida de alguém, mas Jungkook já tem vinte e dois anos e não tem sequer a noção mais básica do que é ser correspondido.

— Nós podemos fazer uma troca. — Anuncio, então, depois de ponderar um pouco. — Eu te mostro como tudo isso funciona, Jungkook. Te ajudo a mergulhar aos poucos, até aprender a... você sabe, a nadar.

Ainda preso ao fluxo de nossa conversa metafórica, ele piscou, então questionou:

— E qual minha parte na troca, hyung?

Hm... para isso não existe uma metáfora tão boa. Assim, faço uso direto das palavras e seja o que deus quiser:

— E você me ensina a te chupar tão gostoso quanto me chupou naquele dia.

Jungkook me olhou, inicialmente em silêncio. Então abriu a boca para dizer algo, mas não disse. Em seguida, desviou os olhos e bebeu mais um tanto de seu leite de banana. Sem ter o que fazer, também tomei meu suco de melancia.

Sério que ele não vai dizer nada?

Tudo bem. Eu posso esperar.

— Nossa, Jungkook, eu fui super profundo com minhas metáforas, tão sincero em meu pedido, e tudo que você faz é ficar calado e tomar seu leite de banana? — Disparei, inconformado.

É. Esperar não deu muito certo, não.

Para minha sorte, Jungkook não parece incomodado, porque o que ele faz é rir, apoiando suas mãos com a garrafinha quase vazia entre suas coxas maravilhosas.

— Desculpa, hyung, é que você passou de uma metáfora sobre aprender a nadar no mar da paixão para fazer boquete e gozar gostoso rápido demais. Eu fiquei tontinho.

Olha quem fala. O cara que fala sobre foder dois segundos antes de agir como o bebê mais lindo do mundo.

Minha reclamação colocada em palavras, no entanto, é sobre outra coisa:

— Em minha defesa, não era um mar. Era uma piscina.

Imediatamente, Jungkook riu. Eu ri também, porque essa é a discussão de relacionamento mais maluca que já tive na vida.

Em seguida, ainda com o sorriso contornando seus lábios que têm esse desenho que me enlouquece, Jungkook virou seu corpo um tanto mais para o meu, e seus olhos recaíram brevemente em minhas mãos antes que ele volte a me olhar.

— Hyung... eu posso segurar sua mão de novo?

Também ainda com meu sorriso, agora nervoso, eu sequei da palma a umidade da caixinha de suco que estive segurando até agora, depois ofereci minha mão para Jungkook. Dessa vez, deixo que ele tome a iniciativa de entrelaçar nossos dedos, e ele o faz depois de alguns segundos de hesitação. Então, quando estamos de mãos dadas novamente, ele volta a sorrir, e é um sorriso enorme.

— Isso é bom... — Ele diz, apertando nossos dedos uns contra os outros.

— Eu sei. — Concordei, também meio bobo porque, um, estou de mãos dadas com Jeon Jungkook. Dois, ele parece apreciar cada pequena sensação de ter seus dedos entrelaçados aos de alguém, e eu me sinto o filho da puta mais sortudo do universo por ser a pessoa com quem ele está descobrindo isso.

— Sua mão é tão pequena, gordinha e macia... — Ele continuou, impressionado de verdade.

— Diferente do meu pau. — Comento, o que o faz dar mais uma gargalhada gostosa.

— Bem diferente. — Reafirmou, e eu amo esse jeito como seus olhos têm um brilho tão intenso sempre que ele está feliz.

Amo também perceber que, ultimamente, eles brilham tanto para mim.

Sem me conter, então, eu levei minha mão livre até seu rosto e acariciei sua bochecha. Depois, deslizei as pontas de meus dedos sobre sua boca tão irresistível, e o que me faz rir é perceber Jungkook de olhos fechados antes mesmo que eu me aproxime para beijá-lo. E então eu o beijo.

Só assim percebo que, mesmo que tenhamos feito isso tantas vezes na última vez em que nos vimos, eu não consigo me acostumar com a sensação de sua boca na minha, mas me sinto ainda mais perdido quando ele faz sua mão tocar meu rosto, e nosso beijo é interrompido por um sorriso seu.

— Hyung... — Ele me chama, ainda com sua boca tão próxima. — Eu finalmente descobri.

— Descobriu o que? — Pergunto, me sentindo um pouco tonto, e logo sua resposta vem.

— Leite de banana combina com suco de melancia, sim.

Eu deitei minha cabeça em seu ombro quando ri e meu corpo acabou pendendo para cima do seu, o que fez Jungkook quase perder o equilíbrio e cair para trás. Então, ele separou nossas mãos e me abraçou pela cintura, bem forte.

— Você sempre se joga em cima de mim quando ri... — Ele disse, ainda me abraçando. — É fofo.

Eu sorri e apoiei minha mão em seu braço, massageando-o e sentindo os músculos sobre minha palma.

— Você é fofo. — Rebato. — E gostoso.

Eu acho que Jungkook sorriu, mas não tenho certeza porque fui incapaz de quebrar nosso abraço desajeitado, e mantive minha cabeça deitada sobre seu ombro por todo o tempo até que, repentinamente, ele disse:

— Hyung... eu aceito.

Só então, levado pela curiosidade, eu me afastei um pouco e o olhei, percebendo sua expressão ansiosa.

— Me ensina a nadar. Por favor. Eu quero muito mergulhar com você...

Eu sorri com seu pedido tão sincero, e balancei minha cabeça uma única vez.

— Vamos fazer isso, então. — Decido, sem voltar atrás.

— E como a gente começa?

— Com um encontro. — Digo de imediato, sequer preciso pensar. — Me diz que tipo de encontro você sempre quis ter, mas nunca teve, e eu vou te levar. Hoje.

Jungkook arregalou os olhos, impressionado.

— Sério? — Eu fiz que sim, então ele se tornou pensativo por longos segundos, até voltar a me olhar, esperançoso. — Então... a gente pode ter um encontro no cinema? Eu sempre quis um assim, como nos filmes...

Vai se foder o universo, deus, Calvin, ou seja lá quem foi o responsável por essa merda de privar Jungkook de tantas coisas.

Mas se Jungkook quer um encontro no cinema, Jungkook vai ter um encontro no cinema.

— Depois do seu expediente, você tem compromisso comigo. — Aviso, então. — Ok?

Jungkook mordeu o lábio como uma criança empolgada, depois balançou a cabeça para cima e para baixo freneticamente.

— A gente vai comer pipoca, hyung?

— Você quer pipoca?

— Sim...

— Então vamos comer pipoca. — Respondo. Na verdade, o que quero dizer, é: se você quiser a lanchonete do cinema inteira, eu dou.

— E... — Ele voltou a falar, mas então fomos interrompidos pelo som metálico da porta dos fundos do café sendo aberta, e logo viramos para ver uma outra funcionária usando o corpo para mantê-la aberta e, ao mesmo tempo, passar um saco de lixo para fora.

Quando nos percebeu, a garota suspirou e parou todos seus movimentos, quase como se estivesse entediada.

— Sério, Jungkook? — Ela resmunga. — De namorico na hora do trabalho?

— Ah... desculpa, Chaeyoung... — Ele disse, apressado quando levantou e foi até ela, tomando o lixo de suas mãos.

Agora livre, a tal Chaeyoung manteve os olhos em mim, ainda usando o próprio peso para manter a porta metálica aberta, dessa vez com os braços cruzados sobre o peito. Depois de nos olharmos em silêncio, ela fez um gesto com a cabeça, e disse:

— E aí?

Eu sorri sem muito jeito, sem saber se gesticulo de volta, então acabo abanando minha cabeça uma e outra vez, seguidamente, como numa dança esquisita.

Quando Jungkook voltou a se aproximar, depois de deixar o saco de lixo no conteiner no fim do beco, a garota olhou para ele e fez o mesmo gesto com a cabeça, dessa vez como numa repreensão.

— Namorado bonito, Jungkook. Mas seu intervalo acabou, então vai logo trabalhar, namorador!

— Ele não é meu... — Jungkook começou a explicar, mas Chaeyoung lhe deu as costas sem ouvi-lo, e logo a porta voltou a fechar.

Sozinho com ele outra vez, eu acabei rindo e apontei com meu polegar na direção que ela foi.

— Moça simpática. — Digo.

— Ela é meio fechada, mas é legal. — Jungkook logo se apressou em defendê-la. — É muito boa fazendo latte art. O pouco que sei, foi ela que me ensinou! Ah, e a Chae também tem um cacto, nós compramos juntos quando comprei o Keanu!

— O nome do cacto dela é tão bom quanto o do Keanu?

— Chama Caquito.

— Muito bom. — Consigo dizer, um segundo antes de cair na risada.

— Eu acho fofo. — Ele riu, mas ao fim acabou suspirando, enquanto coça a nuca. — Mas a mãe dele não é tão fofa assim... é melhor eu voltar a trabalhar antes que ela venha aqui me arrastar pela orelha...

Mesmo insatisfeito, eu concordo, e então fico de pé em sua frente.

— Então nos vemos mais tarde? — Pergunto.

Jungkook faz que sim e recua com um passo em direção à porta metálica, os lábios apertados num sorriso miúdo.

— Até mais tarde, hyung.

— Assim? — Pergunto, vendo-o prestes a ir embora sem sequer me dar um abraço ou um beijo, então seguro sua mão e, em seguida, me aproximo novamente. — Vem cá.

Jungkook riu de forma nervosa, mas não tentou se afastar, e eu fui muito bem correspondido quando deslizei minhas mãos por seus braços em direção aos seus ombros até abraçá-lo pelo pescoço e me inclinar para selar sua boca.

— Antes que eu esqueça, — Lembro, sentindo-o me abraçar de volta enquanto acaricio sua nuca. — conseguiu se resolver com Yoongi?

— Você sumiu por muito tempo mesmo, né? — Ele ponderou, com um sorriso agora um tanto consternado. — Consegui, sim. Tá tudo bem...

— Que bom. — Digo sinceramente. — Eu também me resolvi com o Taehyung e...

— E...?

Eu respirei fundo e movi meus olhos suavemente, um pouco nervoso, antes de morder meu lábio e voltar a olhá-lo.

— Eu quero que ele conheça você, Jungkook. Podemos marcar alguma coisa?

— Você quer que eu conheça seu amigo? — Ele questionou, como se fosse algo surreal.

— Quero muito...

— Então... você pode conhecer o Yoongi também? De verdade, pra ver que ele não é ruim como parece... — Depois de um segundo, Jungkook arregalou os olhos, e disparou: — Nós podemos marcar um encontro com os dois ao mesmo tempo!

Eu não vou com a cara de Yoongi, mas como negar alguma coisa a Jungkook quando ele fala tão animado assim?

Eu não sou um monstro para conseguir fazer isso.

— Vamos marcar. — Decido, e me inclino para beijar sua boca novamente um instante antes do mesmo som metálico ser ouvido, e então a porta é aberta outra vez.

— Chega de namorico, Jungkook! — A voz de Chaeyoung nos interrompe novamente, e eu sinto ele ser puxado para longe de mim quando ela o segura pela gola da camisa. — Anda logo!

Eu acabei rindo junto com Jungkook, e ainda o segurei pela mão para terminar de dar o selinho que nos foi roubado, mas acabei dando uns três enquanto ele continua a ser puxado pela menina.

— Eu te mando mensagem. — Aviso, e ele se inclina para me dar um último beijo antes de começar a se deixar ser puxado para dentro.

— Tchau, hyung!

Eu aperto meus lábios com força até que a porta se fecha. Assim que isso acontece, eu dou um pulo no ar seguido de vários socos de comemoração porque, meu deus, eu consegui esclarecer tudo com Jungkook e ainda vou ter um encontro com ele!

Eu estou extasiado. Profunda, intensa e sinceramente em puro estado de euforia mais uma vez causada pelo cara que, no início, não achei que me causaria nada além de tesão.

As vezes nós nos enganamos mesmo.

E se o jeito como me sinto não é suficiente, a forma como me empenhei em organizar tudo para nosso encontro é a prova final.

E, com organizar, me refiro também à minha roupa, que é escolhida com cautela. Perto do horário marcado para encontrá-lo, então, eu estou vestindo uma camiseta lista, preta, por dentro de uma calça igualmente escura e adornada por meu melhor cinto. Nos pés, sapatos lustrados. E a combinação é finalizada com meus aneis, corrente e brincos.

Um espetáculo de homem.

Mas dessa vez, diferente de nosso primeiro encontro, eu não estou de preto por algum luto iminente. Agora, estou de preto porque a cor fica muito bem em mim, e eu quero estar impecável para Jungkook.

E, sim, todas as cores ficam incríveis em Park Jimin, mas preto tem seu charme especial.

Só então, já pronto, eu checo o horário, e percebo que já preciso sair de casa para ir buscar meu acompanhante, e meu desejo pela perfeição desse encontro me faz até mesmo abordar meu pai, na sala de TV.

— Pode me emprestar o carro? — Pergunto, sem enrolação.

Nossa relação está uma verdadeira merda desde a última briga, e agora mal nos falamos. Só se for para discutir.

— Para que? — Ele pergunta, me analisando de cima a baixo.

— Vou sair com Nara. — Dou de ombros.

É meio ridículo precisar mentir assim, mas eles ainda não sabem que eu e ela terminamos e, além de tudo, os dois gostam dela, então essa é minha melhor chance de conseguir o bendito carro.

— Você sabe onde estão as chaves — É o que ele responde, sem mais questionamentos, e eu só expulso um agradecimento baixo antes de me afastar rapidamente para evitar qualquer possível estresse.

Dentro de seu sedã com bancos de couro, então, eu rapidamente rumo à casa de Jungkook, e é ridícula a forma como me sinto tão nervoso a ponto de estar com dor de barriga psicológica.

Quando estaciono na frente do prédio pequeno e mal iluminado, no entanto, Jungkook não está aqui me esperando como combinado.

Um pouco ansioso, eu acabei por sair do carro e o tranquei antes de seguir para dentro do prédio velho. Acho que não faz mal ir até o apartamento dele, e eu ainda posso aproveitar para dar uma olhadinha no Keanu.

Com esse pensamento, não hesito em subir os lances da escada até parar diante da porta do apartamento que já conheço bem, e me aprumo todo antes de sequer pensar em anunciar minha chegada.

Dessa vez, eu lembro que a campainha não funciona, então diretamente levo minha mão para dar batidas na porta.

E aí... meu corpo congela.

Minha mão parou no meio do caminho e meu sorriso ansioso se reduziu gradativamente, até sumir, quando eu percebo que Jungkook não está sozinho.

— Sung, eu preciso mesmo ir — Essa é, definitivamente, a voz de Jungkook.

Quem é Sung?

— O que, Jungkook? Tem compromisso pra outra pessoa te foder hoje? — O cara que está com ele diz, com escárnio.

— Eu já disse que não é da sua conta. Por favor, Sung, só vai embora... — Jungkook pede, e sua voz tem essa entonação agitada.

Meu reflexo é dar um passo adiante e me encher de coragem para bater nessa porta de uma vez, porque esse cara para estar incomodando-o. No entanto, volto a perder o controle sobre meu corpo quando novamente ouço sua voz:

— Qual é? Você era mais compreensivo antes, Jungkook... Está assim porque eu não pago, como os outros? Achei que éramos amigos, mas eu posso pagar também. Vai, diz quanto você costuma cobrar para foderem você e eu pago, mas vai ter que ser melhor do que quando te comi de graça.

Diz quanto você cobra.

O... o que?

Eu resfolego violentamente e quase perco o equilíbrio quando recuo com um passo, tonto com o que acabei de ouvir.

Eu lembro disso. Quando Jungkook me confessou que é pago para fingir ser namorado de Micha, e que já foi pago para acompanhar outras mulheres em outras ocasiões. Mas ele disse que não fazia sexo com elas por dinheiro.

Ele disse!

Sem distorcer a realidade, no entanto, rapidamente uma nova memória sobrepõe essa primeira. Os instantes seguintes dessa mesma conversa que tivemos tempos atrás, em que eu perguntei se Jungkook também recebia dinheiro de homens, e ele nunca me deu uma resposta.

Então a resposta, afinal, era essa?

Jungkook não dorme com mulheres por dinheiro, mas com homens... sim?

O que eu sinto diante dessa percepção me faz sentir como se estivesse sufocando, gotículas de suor se acumularem em minha testa e minha pressão cair violentamente.

Eu gosto dele. Eu admiti isso para mim mesmo. Eu aceitei que me sinto assim. Eu me entreguei ao sentimento. E ele... o cara que me faz sentir assim, faz sexo por dinheiro.

Por que?

Ele tem vergonha disso? Por isso nunca me respondeu, quando perguntei?

São tantas perguntas que passam por minha mente apenas num milésimo de segundo que eu acho que vou enlouquecer, e então a verdade é cruelmente esfregada em minha cara.

Eu e Jungkook pertencemos a realidades completamente diferentes.

Mesmo assim...

— Sung, para com isso! Me solta! — Meu último pensamento é então interrompido quando eu volto a ouvir a voz de Jungkook, porque ele está gritando.

Não. Isso não.

Levado por uma nova onda de impulsividade, meu corpo responde imediatamente à irritação mesclada ao choque na voz dele, e é um golpe de sorte quando eu agarro a maçaneta e percebo que a porta não está trancada, então a abro violentamente e passo para o lado de dentro, com meu peito queimando. De ódio. E desespero. Que se intensificam assim que meus olhos encontram Jungkook com os pulsos presos por esse filho da puta e o corpo encurralado contra o balcão da pia.

— Solta ele, caralho! — É a primeira coisa que eu digo, sem sequer pensar antes.

A partir daí, tudo acontece rápido demais. Jungkook me vê, e o outro cara, em reflexo, se vira para me olhar. Então eu o reconheço. É um dos caras do bar. Um dos amigos de Jungkook, o que sempre ri quando me vê.

Descobrir isso parece intensificar ainda mais o ódio que eu acreditei não poder se tornar maior, e meu corpo, mente e coração entraram em acordo: eu quero quebrar esse desgraçado.

Mas Jungkook é mais rápido. Rápido demais. Porque, antes que eu sequer eu saia do lugar, ele aproveita a distração do tal Sung. E então o chuta no meio das pernas, acertando em cheio o saco do fodido.

E ele gemeu. Um urro dolorido, como quem está prestes a chorar de dor, que acompanhou a forma como seu corpo cambaleou para longe do meu bebê.

Aliás, agora que parece ter despertado, Jungkook se mostra mais irritado que assustado, e então ele empurra Sung pelos ombros, o que o faz cair no chão com um baque oco.

— Nunca mais chegue perto de mim! — Ele ordena para o cara no chão, com o rosto completamente vermelho e a respiração atrapalhada.

E ainda que eu queira reconfortá-lo, meus olhos voltam a se atentar ao homem caído, e dessa vez nada impede meu reflexo de caminhar até ele e segurá-lo pela gola da camisa, puxando-o violentamente para fora do apartamento enquanto ele tenta levantar ao mesmo tempo em que é obrigado a me acompanhar.

Quando o jogo no corredor, eu me agacho em sua frente com o desejo ainda insuperável de destroçar esse cara todinho, mas me contenho e só aviso uma coisa:

— Você ouviu o Jungkook. Nunca mais chegue perto dele ou eu juro que você vai se arrepender.

Sung se debateu para se soltar da minha mão ainda segurando-o pela camisa, e eu o soltei violentamente, o que o fez cair deitado. Em seguida, eu me levantei para deixá-lo sozinho.

E então o maldito riu.

— Você acha que um filhinho de papai como você assusta?

Meu deus, eu vou...

Possesso, eu meto outro chute no saco do babaca, que se contorce no chão, então me agacho outra vez, agora com minha carteira na mão, e daqui eu tiro todas as notas graúdas, quase esfregando-as na cara do filho da puta.

— Vê isso aqui, Sung, Sang, sei lá qual a porra do seu nome! — Digo, puto da vida. — Isso aqui é só uma parte insignificante do dinheiro que eu tenho. O mesmo dinheiro que eu posso usar para subornar a polícia e te meter na cadeia, ou para pagar uns bandidos que vão te fazer desejar estar preso. A imaginação é o limite. Então acredite em mim, você deveria ter medo. Porque se chegar perto do Jungkook de novo, eu acabo com você.

Eu não estou brincando. Se esse maluco encostar no Jungkook contra a vontade dele de novo, eu sou capaz de levar minha família à falência só para fazer ele pagar por isso.

E ele parece perceber que eu estou sério, porque sua expressão debochada ficou presa a um passado distante, e agora tudo que vejo em seu rosto é uma raiva contida e assustada.

Melhor assim.

— Agora sai daqui, seu fodido de merda. — Resmungo, voltando a ficar de pé para entrar no apartamento de Jungkook outra vez.

Quando o faço, imadiatamente fecho a porta e passo a chave, então meu corpo desaba contra a madeira maciça e só agora me atento ao meu coração batendo rápido demais.

Puta que pariu, que cagaço.

Mas a adrenalina de ameaçar um cara desse jeito não é o que mais me descompassa o coração. É ouvir a voz de Jungkook.

— Jimin...

Fracamente recuperado, eu o olhei e o vi parado a poucos passos da porta, com a expressão confusa e carregada.

— Jungkook... — Eu o chamo, também tenso. — Ele te machucou?

Em resposta, ele respirou fundo até balançar a cabeça para os lados, negando.

— Eu sei me cuidar sozinho, hyung.

Eu fechei meus olhos e deixei minhas costas escorregarem pela porta, até que caí sentado no chão e passei minhas mãos pelo rosto antes de repuxar meu cabelo. E não disse mais nada. Apenas fiquei em silêncio, remoendo cada acontecimento dessa noite.

A conversa que ouvi, a forma como aquele desgraçado tentou forçar Jungkook... é tanta coisa. Tanta, tanta coisa, que eu nem sei a que dar atenção agora, mas eu preciso começar por algum lugar.

— Jeon — Volto a chamá-lo, então. — Me explica o que aconteceu. Por favor.

— Não me chama de Jeon. — Ele pediu e, quando voltei a olhá-lo, percebi suas sobrancelhas apertadas, como se esse jeito mais distante de chamá-lo o perturbasse. — Você não me chama mais de Jeon, hyung. Você me chama de Jungkook-ah e...

— Bebê. — Eu o interrompo, assentindo lentamente.

Ele fica algum tempo em silêncio, até que concorda também. Só então ele questiona, medroso:

— Você... ouviu alguma coisa?

Sim.

— Não.

Eu não sei exatamente o que me faz mentir, mas é difícil olhar para Jungkook e dizer para ele que, algo que ele tem vergonha de me confessar, eu descobri da pior forma possível. Por isso, dou a ele a chance de me contar.

— Eu só ouvi quando você gritou. — Volto a dizer. — Mas eu estou confuso, Jungkook, eu não sei o que acabou de acontecer aqui...

Ele parece mais aliviado ao me ver garantir que não escutei o que sei que ele não queria que escutasse, e imediatamente sou tomado pela certeza de que Jungkook não vai me contar a verdade. Não agora.

— Ele é um dos meus amigos do bar... a gente já transou algumas vezes, mas eu não quis hoje, ele ficou insistindo e... o resto você sabe.

Sei. Eu realmente sei, Jungkook.

— Só isso? — Pergunto, tentando desfazer da minha cabeça a imagem de alguém tão nojento tocando em Jungkook, agora que sei que eles já transaram mais de uma vez.

Isso é pecado. Alguém como aquele cara poder ter alguém como Jungkook... é errado.

E, agora, eu não consigo parar de pensar em quantas vezes isso aconteceu. Quantas pessoas que não o merecem já o tocaram?

— Só isso, hyung. — Ele garantiu.

Eu fechei meus olhos. E, assim como estou decepcionado por saber que ele está escondendo algo tão importante de mim, me sinto aliviado também. Porque, honestamente, eu não sei como reagiria ao ouvir isso saindo de sua boca, e eu não quero acabar dizendo algo errado que vai magoá-lo.

Porque é como eu percebi um segundo antes de invadir seu apartamento.

Nós somos de mundos completamente diferentes. Mesmo assim, eu não quero abrir mão dele.

Na mesma intensidade, eu não quero machucá-lo. Por isso, decido que é melhor esperar que ele tenha confiança o suficiente para me confessar a verdade.

Espero que, um dia, ele confie em mim a esse ponto.

Mas, diante de meu silêncio reflexivo, percebo que ele ainda é tão receoso sobre a estabilidade do que está acontecendo entre nós dois quando ele volta a perguntar, medroso:

— Hyung... a gente... a gente ainda pode ir no cinema?

Eu respirei fundo mais uma vez e dei dois tapas em meu rosto antes de olhar para ele e assentir, junto a um sorriso.

— Claro que podemos. Me ajuda a levantar. — Peço, estendendo minha mão para ele.

Jungkook parece mais calmo, até vejo um sorriso inseguro se formar em seus lábios, e volto a ficar de pé quando ele me puxa cuidadosamente.

Agora em sua frente, então, eu estico minha mão para arrumar os fios desalinhados em sua testa, depois desço as pontas dos dedos por sua bochecha até seu queixo, e me inclino para beijá-lo suavemente no canto dos lábios.

— Nós ainda vamos ao cinema. — Reforcei. — E vamos comer pipoca, chocolate e jujuba. E tomar refrigerante até ficar com vontade de ir mijar no meio do filme, que parece ser bem ruim.

Jungkook acabou rindo, e só o som de sua risada me faz sentir um pouco mais seguro novamente.

— Você é fofo de um jeito tão esquisito, hyung... — Ele disse, deitando sua cabeça contra a minha, e então fui eu quem ri.

Necessitado, eu passo meus braços por sua cintura e o puxo mais para perto, então volto a beijar sua bochecha.

E é nesse exato momento. É nesse exato segundo que eu me dou conta do quão fodido eu estou.

Eu literalmente me joguei de uma só vez no redemoinho que é Jungkook e sequer estou pedindo socorro.

— Ei, Jungkook — Eu o chamo, então, com uma sensação esquisita no fundo da garganta, que se acentua quando ele me olha, e eu aviso: — Nós precisamos ir logo para não perder a sessão, mas... antes eu preciso saber de uma coisa...

— Pode falar...

Eu quase volto atrás, com o nervosismo que toma conta de mim. Mas, mesmo com medo, vou em frente.

— Você me perguntou isso uma vez. Agora sou eu quem pergunto, Jungkook-ah... vai ser um problema se eu me apaixonar por você?

Assim como eu fui pego completamente de surpresa quando essa pergunta foi feita pela primeira vez, acontece com ele agora, e eu o vejo com a expressão assustada, sem qualquer iminência de uma resposta imediata.

E então eu faço o que espero ser a última irracionalidade do dia, e digo em alto e bom som, pela primeira vez, o que até então só tinha confessado para mim mesmo:

— Eu espero que não seja. Porque, Jungkook... eu já estou apaixonado por você.

❥ [Continua...]

Chapter Text

— Jungkook... eu já estou apaixonado por você.

Eu disse. Eu realmente disse.

Num surto de coragem, como o que te faz ameaçar um cara sem medo das consequências, eu revelei o que há algum tempo já estava esclarecido em minha mente, mas ainda não tinha sido explanado. Para ninguém.

Agora, meus segundos de coragem inconsequente tiveram fim e tudo que me resta é uma sensação de nervosismo e medo da resposta.

Mas, apesar disso, não me arrependo. Porque é verdade. Eu estou apaixonado por Jungkook, não é de hoje e não deve passar amanhã.

Então... não tenho motivos para esconder ou para esperar o tal momento ideal para confessar isso, porque esse momento pode nem chegar. E assim Jungkook nunca vai saber que, mesmo que no passado ninguém tenha se sentido assim, ele é capaz de despertar isso em alguém.

Se for para dizer coisas boas e revelar sentimentos bons, talvez minha impulsividade seja bem vinda.

Mas ainda é constrangedor.

— Você acabou de dizer que...? — Jungkook piscou num gesto atordoado, falando pela primeira vez depois de muito tempo.

Eu recuo com um passo e recolho minhas mãos, escondendo-as nos bolsos da calça antes de erguer meus ombros num movimento fraco.

— Você não precisa dizer nada sobre isso, Jungkook, só... saiba que é verdade.

Atento à sua expressão, eu capturei cada mínima nuance de confusão e receio estampados em seu rosto e até esperei para ver ao menos uma pontinha mesmo que ínfima de algo bom em seus olhos, mas somente encontro insegurança do início ao fim.

Foi disso que senti medo assim que minha confissão desajeitada escapou. É isso que está acontecendo agora.

— Desculpa. Não foi a melhor hora para dizer isso — Eu tento reverter a situação de alguma forma, e acabo forçando um sorriso ao final. — É melhor sairmos logo, ou vamos perder o filme.

— Jimin... hyung... — Ele me chama assim que me vê avançar até a porta, e eu somente balanço a cabeça para os lado, ainda com um sorriso pouco natural.

— Relaxa. — Eu digo, transparecendo muito mais calma do que tenho agora. — Vamos logo, ok?

Jungkook demorou algum tempo até fazer um sim incerto e eu estiquei meus lábios num gesto conformado antes de aceitar que essa conversa, por enquanto, deve se encerrar por aqui. Aí, eu viro de costas para ele e saio de seu apartamento, percebendo que sou seguido por ele.

Sem mãos dadas, dessa vez. Sequer estamos andando lado a lado.

Mas nós vamos ficar bem, apesar da atmosfera constrangedora. Pelo menos, é nisso que quero acreditar.

Mas uma coisa definitivamente não está bem, não importa o quanto eu tente dizer isso para mim mesmo. E essa coisa é o carro de meu pai.

— Puta. Merda... — Eu balbucio, quase sem reação ao sair do prédio de Jungkook em sua companhia e encontrar o sedã com um risco imenso e proposital na lateral.

Parado ao meu lado, a expressão de Jungkook pareceu chocada, a princípio, para logo ser tomada por uma compreensão consternada que fica muito evidente quando ele fecha os olhos num gesto frustrado e massageia a própria nuca.

— Sungwon... o Sung... — Ele disse, então, e isso basta para que eu entenda tudo.

— Aquele... — Eu começo, mas engulo minha irritação antes de passar meia hora resmungando. Então respiro fundo, passo as mãos no rosto, empurro os cabelos para trás e desejo matar alguém. Aí, eu me acalmo.

— Hyung... desculpa por isso, eu não...

— Foi você quem arranhou o carro, Jungkook? — Eu pergunto, um pouco mais áspero do que gostaria. Em resposta, ele nega timidamente, e eu concluo: — Então pronto. Não tem por que você se desculpar.

Ele passou a mão pelo próprio braço como quem se sente desconfortável e acabou por assentir, provavelmente incomodado por meu tom quase arisco.

Só aí eu percebi que não me acalmei como desejava. Mas não é com Jungkook que estou bravo, ele realmente não tem culpa daquele escroto do Sung ser, bem, um escroto. Por isso, eu tenho certeza de amaciar minha voz antes de voltar a falar:

— Você realmente não teve culpa. — Garanto. — Mas eu preciso saber... esse Sungwon é metido com alguma gangue ou qualquer coisa com a qual eu deva me preocupar?

— Ele só é sem noção, eu acho.

— Certo. Então o carro é o de menos. O importante é não me deparar com uma cabeça de cavalo na minha cama quando voltar para casa.

Ele sorriu pequeno, depois perguntou:

— Você gosta do Poderoso chefão, hyung?

— Nah... — Respondo sinceramente. — Só assisti porque queria parecer mais... cult. Mas eu prefiro comédias românticas adolescentes mesmo.

— Que bom — Seu sorriso se tornou ainda maior, e eu dou graças a deus por ele não estar mais se sentindo desconfortável ao meu lado. — Eu também prefiro qualquer coisa que seja água com açúcar.

— Hm... Isso é um problema, porque o filme que vamos ver é de ação — Me lamento.

— Nós ainda vamos? Mesmo com...? — Ele mirou a lateral do carro e eu só dei de ombros.

— Depois eu digo ao meu pai que, Jesus, não faço ideia de como isso aconteceu. Mas agora nós vamos ao cinema, sim, Jungkook. Você disse que quer um encontro lá, então você vai ter esse inferno desse encontro nem que eu te leve, sei lá, numa carroça.

Ele abaixou o rosto, mas não rápido o suficiente para que eu não veja um sorriso seu, o que me faz sorrir mesmo que ainda não esteja completamente recuperado do que aconteceu em seu apartamento.

— Aliás, — Eu digo ao desajeitadamente dar um soquinho em seu ombro. — você tá bonito.

Jungkook me olhou ainda com o rosto levemente curvado para baixo, o sorriso maior, e então me devolveu um soco igualmente leve.

— Você também, hyung.

— Sempre, né? — Pondero, o que o faz rir.

— Sempre.

Sem jeito com o silêncio que vem a seguir, eu umedeço meus lábios antes de me movimentar de uma forma estranha ao gesticular para o carro, e acabo tropeçando vergonhosamente quando vou caminhando de costas em direção a ele, mas me seguro no capô antes de desmontar no chão.

A risada que eu dou para tentar disfarçar é ridícula, mas a de Jungkook é sincera.

— O filme. É melhor... vamos. — Eu digo, todo atrapalhado, antes que ele possa falar qualquer coisa.

— Sim... é melhor vamos. — Jungkook provoca, então, e eu tento fingir outra risada igualmente deplorável antes de bruscamente virar as costas para ele e fechar os olhos com força ao caminhar até o banco do motorista.

Constrangido, eu nem falei muito durante o caminho até o cinema, só me certifiquei mil vezes se a temperatura estava agradável para Jungkook, até ele se irritar e dizer que ia me dar um soco se eu perguntasse mais uma vez. Aí eu esqueci e perguntei de novo. E ele me deu um soco.

Leve, de brincadeira, no braço. Mas deu.

Pelo menos tive a confirmação de que Jungkook é um homem de palavra.

— Hyung, é tudo muito caro — Ele sussurrou perto de mim quando, já no cinema, eu o arrastei para a lanchonete. — É melhor comprar um pacote de salgadinho e trazer pra comer aqui!

— Não. É contra minha religião não comer pipoca no cinema — Eu digo, resistindo quando ele tenta me puxar para longe do balcão.

— É contra a minha pagar uma fortuna por milho estourado!

— Aqui, senhor — A atendente me chamou ao retornar com um balde de pipoca, cheio até a borda, exatamente como pedi. Então, Jungkook se calou por pura vergonha, mas continuou emburrado. — Algo mais?

— Refrigerante. De... — Eu olhei para Jungkook, tentando lembrar de qual ele gosta. — limão. O maior copo que tiver, sem gelo.

— Sim, senhor. — Ela disse. Assim que se moveu até a máquina de bebidas, Jungkook, deu uma puxada na minha mão e disse:

— Hyung!

— Eu vou entalar se comer tanta pipoca sem uma bebidinha, Jungkook.

Ele apertou os lábios e eu vi seu pé batendo freneticamente sobre o piso de carpete do cinema, mas tudo piorou quando a moça voltou e, ao anunciar o valor final, eu impedi que Jungkook pegue sua carteira para ajudar a pagar.

— Eu pago. — Avisei, então olhei para a atendente, já estendendo o cartão de crédito. — Pode passar.

— Hyung! — De novo.

— Você também é assim? — Eu pergunto à mulher quando ela me estende a maquineta para que eu coloque a senha. — Fica ofendida quando tentam te pagar algo?

— Jamais. Se quiserem me pagar qualquer coisa, eu já tô aceitando. — Ela confessou, risonha.

Jungkook acabou desistindo de brigar comigo para pagar pela pipoca e refrigerante, mas antes de inserir a senha para confirmar o pagamento, eu lembro:

— Aliás, esqueci. Também vou precisar de chocolates. Me dê quatro. E um pacote de jujubas, aquelas azedinhas.

O queixo de Jeon quase foi no chão e ele gesticulou, negando de forma reticente.

— Eu desisto de você! — Resmungou, consternado, antes de virar as costas e caminhar em direção à entrada para as salas. Fazer graça certamente não foi a intenção dele, mas eu acabei rindo porque, porra, ele é tão jungkook que me deixa todo desconcertado.

— Aqui estão — A moça disse, colocando meus chocolates e a jujuba sobre o balcão, e eu rapidamente digitei a senha do cartão antes de ouvir ela dizer: — Bom filme pra vocês.

Por pura força de minha própria natureza, eu pisquei em resposta, meio flertador, mas sem real intenção de flertar.

Depois, passei o maior sufoco para conseguir carregar tudo sozinho, já que Jungkook ficou de braços cruzados e expressão fechada até chegarmos aos nossos assentos na sala escura.

— Doido. — Ele finalmente falou comigo depois de um voto de silêncio de quase dez minutos, e não foi de bom humor. — Você é doido!

— Não fala assim — Eu peço, enfiando o canudo no copo gigante. — Você queria um encontro no cinema e eu quero que seja o melhor possível, Jungkook.

Ele me olhou com o cotovelo apoiado no braço do assento, a bochecha apoiada sobre o punho fechado e os olhos ponderando minha confissão.

— Só por hoje, deixa eu tentar te dar o que você merece. — Insisto. — Por favor?

Ele apertou os lábios, hesitou por mais um instante, depois acabou cedendo com um leve dar de ombros, o que me faz sorrir e passar a pipoca para o seu colo. Então, anunciei orgulhosamente:

— Bem vindo ao seu primeiro encontro no cinema, Jeon Jungkook. Que sorte que é com Park Jimin.

Eu vi que ele tentou segurar, mas acabou rindo e levou uma única pipoca à boca, sem parar de mastigá-la quando eu me inclinei para beijar sua bochecha e o fiz demoradamente.

Depois, não dissemos muitas coisas. Eu quis que Jungkook aproveitasse toda a experiência, então deixei que prestasse atenção até mesmo nos trailers, mas também deixei que nossas mãos acidentalmente se tocassem quando pegávamos pipoca em nosso balde e o beijei durante os créditos.

Nessa noite, eu dei a Jungkook todos os clichês possíveis.

— Eu não quero ir... — Ele quase choramingou, dentro do carro outra vez estacionado na frente de seu prédio quando o trouxe de volta.

E eu não quero que ele vá, mas acho que acima disso preciso de um tempo sozinho para digerir tudo que aconteceu hoje, então eu me movo sobre meu assento até ficar de frente para ele e alcanço seu rosto com minha mão, acariciando-o antes de mais uma vez arrumar os cabelos sobre sua testa.

— Aquilo sobre sairmos com Taehyung e Yoongi ainda está de pé? — Pergunto, então.

— Sim... eu meio que já avisei ao Yoongi. Ele não gostou muito — Avisou, risonho.

— Eu e ele vamos acabar saindo no soco. Talvez não seja a melhor ideia...

— Duvido. Yoongi parece meio bravo, mas ele é como um bichinho. Meio desconfiado no começo, depois é só amor.

— Se você diz... — Eu não tento discutir, por mais que não acredite no que ele diz. — Eu vou falar com Taehyung e marcar para... próximo domingo? Eu vou participar de um ensaio fotográfico e só devo ficar livre à noite.

— Um ensaio? — Jungkook perguntou, surpreso. — Do estúdio?

— Ah, sim... eu não cheguei a te contar, mas eu fui convidado. Acho que as fotos que você tirou ajudaram a me indicarem para esse ensaio, então obrigado, Jungkook-ah.

Ele sorriu abertamente, parecendo feliz por saber disso.

— Sério, hyung?

Eu somente sorri de volta para ele, puxando minha mão de volta para meu colo. Em seguida, umedeci meu lábio.

— Então... até próximo domingo. — Eu digo, tentando ser sutil ao externar minha necessidade de ficar sozinho para pensar um pouco sobre tudo que descobri hoje.

Percebendo que por agora eu não compartilho tanto de sua vontade para ficarmos juntos por mais um tempo, Jungkook comprimiu os lábios num gesto frustrado, mas acabou por assentir.

— Amanhã é sábado... a gente não vai se ver? — Ele perguntou, ainda antes de sair do carro.

— Não sei... nós vamos nos falando.

— Ah... ok...

Eu sei que ele está chateado com isso, mas eu realmente preciso colocar minha cabeça no lugar.

Durante as últimas horas, me gerou um esforço quase insuportável para não deixar minha mente viajar em direção ao que ouvi aquele Sungwon do inferno dizer, então agora é hora de tentar absorver tudo isso.

Por isso, eu não insisto para que passemos mais tempo juntos, nem prometo que virei vê-lo amanhã.

— Boa noite, Jungkook — Eu digo, então, e ele move a cabeça em mais um gesto resignado antes de desajeitadamente descer do carro. E, assim que vejo que ele entrou em segurança, eu acelero de volta para casa.

Durante todo o percurso, eu tentei manter os pensamentos controlados para não acabar causando um acidente por distração. Mas, ao entrar em meu quarto e desabar na cama, tudo cai sobre meus ombros de uma só vez e eu juro que me sinto quase sem ar.

Só hoje, eu descobri que Jungkook fazia sexo por dinheiro, arranjei rivalidade com o tal do Sung e fiz uma declaração que, bem, foi vergonhosamente rejeitada.

O mais difícil de tudo isso é que eu nunca tive tantas complicações em minha vida amorosa, não até Jungkook. Antes, era tudo simples, quase fácil, e minha maior dor de cabeça foi a suposta traição de Nara.

Agora, a cada segundo eu me deparo com uma dificuldade nova. Desde o pânico por me perceber atraído por um homem até o choque de realidades, cada semana com Jungkook traz um desafio novo.

E eu estava disposto a continuar me esforçando para vencer cada um deles, para sair da minha zona de conforto onde tudo sempre foi tão descomplicado. Eu ainda estou disposto. Mas é difícil encarar a descoberta de que a pessoa por quem estou apaixonado fazia sexo por dinheiro quando nunca em minha vida me deparei com uma situação assim.

Aliás... fazia?

Eu continuo mentalizando que, sim, fazia. No passado. Porque se eu assumir a possibilidade de Jungkook ainda dormir com outras pessoas agora que estou tão envolvido por ele, eu não vou conseguir ser tão compreensivo. Simplesmente não vou.

Mas agora, tantas peças se encaixam. A forma como ele se esquivou de minha pergunta, tempos atrás, ou como Yoongi parecia arredio com minha presença próxima a Jungkook... Talvez ele saiba, talvez ele desaprove e talvez tenha achado que eu era um dos... clientes.

São tantas coisas e tantos pensamentos de uma vez que minha cabeça começa a doer e eu sinto que vou explodir, sem poder falar sobre isso com ninguém.

Resolver esperar o tempo de Jungkook para me revelar isso tudo pareceu uma boa ideia, mas eu não tinha percebido que isso me faria guardar tudo só para mim, inclusive cada dúvida e cada receio.

No entanto, essa não é minha única aflição no momento. E sobre a segunda eu posso falar, então rapidamente tiro meu celular do bolso e não hesito em chamar a pessoa que sempre busco nesses momentos.

Eu disse para Jungkook que estou apaixonado por ele|

Sunhye
|Como você joga essa notícia aqui sem nem preparar o terreno antes? Seu louco!

Sunhye
|Mas e aí? O que ele disse?

Absolutamente nada kk|

Sunhye
|Ouch...

Ele não disse nada. Ele não fez nada, nem demonstrou o mínimo de felicidade|

Sunhye
|Você se arrependeu de ter dito?

Não é isso... eu não disse nenhuma mentira. Eu realmente estou apaixonado por ele e ele não reagir como eu queria não muda isso|

Mas isso me deixou tão... triste|

Sunhye
|Talvez ele só tenha sido pego de surpresa, amigo. Nem todo mundo sabe reagir a uma declaração ):

Ou talvez ele não sinta o mesmo|

Sunhye
|Tá louco? Naquele dia em Myeongdong eu vi com meus próprios olhos, Jimin, e vocês continuavam naquela de serem só amigos mas pareciam dois idiotas apaixonados

Sunhye
|Não ouse pensar que aquele cara não gosta de você

Eu sei que ele gosta, Sunhye, mas existe uma diferença de intensidade entre gostar e estar apaixonado. E talvez ele não esteja apaixonado por mim|

Sunhye
|Eu sei o que eu vi e se tinha uma coisa na forma como Jungkook olha pra você... essa coisa é intensidade

É... não tenho tanta certeza agora...|

Podemos falar mais depois? Eu vou tomar um remédio e tentar dormir|

Sunhye
|É só gritar. Agora descansa e tenta não pensar besteira 💗

Eu gostaria de atender seu pedido, mas tenho a sensação de que vai ser difícil não pensar em todo tipo de desgraça essa noite.

Por isso, eu me arrasto pela casa escura e silenciosa até a cozinha, onde arranjo um analgésico para tentar tapear a dor de cabeça, e volto para a cama com a mesma disposição. Mas aí eu vejo que recebi uma nova mensagem, e não foi de Sunhye.

Jungkook
|Hyung, desculpa por qualquer coisa... e obrigado pelo encontro, eu gostei muito mesmo. Espero que tenha chegado bem em casa... boa noite 🌵

Eu li e reli a mensagem de Jungkook tantas vezes que perdi a conta e, no meio disso e de minhas reflexões confusas, acabei pegando no sono sem sequer trocar de roupa.

No entanto, meu despertar em nada foi suave como a transição gradual de minha consciência para o estado de sono.

— Jimin! — A voz grave de meu pai alcançou meus ouvidos ao mesmo tempo em que meu corpo adormecido recebeu um chacoalhão, e eu apertei minhas pálpebras olhos e inspirei com força antes de abrir meus olhos em confusão.

— Pai? — Eu o chamo, sonolento e confuso, principalmente por vê-lo como quem deseja minha cabeça numa bandeja. — O que foi?

— O que aconteceu com meu carro? — Ele disparou a pergunta, agressivamente.

Ainda meio letárgico, eu demorei bons segundos para lembrar do arranhão, e fiz algum esforço para sentar na cama, usando minhas mãos para esfregar meu rosto e tentar espantar o sono.

— Alguém arranhou — Eu digo, sem muito alarde. — Algum moleque mal intencionado, eu acho. Quando vi, já estava daquele jeito.

— Quando viu, já estava daquele jeito... — Ele repetiu, com uma risada seca. — Você não tem o mínimo de responsabilidade por nada na sua vida, não é?

Eu arregalei meus olhos, meio espantado.

— Pai... eu não tive culpa. Também já estava tarde, então nem tinha o que fazer, por isso eu voltei para casa...

— Sim? E onde você estava para isso ter acontecido, Jimin?

— Eu disse ontem, eu saí com Nara... nós fomos jantar e...

— E o que? — Ele levantou as sobrancelhas, com os braços cruzados de forma inquisitiva. — Sabe o que é engraçado? Sua mãe encontrou Nara ontem, por acaso, e ela não estava com você. Aliás, ela parece ter certeza de não ser mais sua namorada, mas continue com sua mentira. Eu quero ver até onde você vai.

Eu engoli em seco, porque não estava contando com a possibilidade de ser sacaneado pelo acaso dessa forma. Mesmo assim, eu não me desespero e apenas ergo os ombros de forma desleixada.

— Certo, eu não estava com ela, mas também não preciso dar satisfações. Eu tenho vinte e dois anos, pelo amor de deus!

— Sim. Você tem vinte e dois anos — Ele disse, e minha respiração ficou mais tensa quando ele se inclinou em minha direção e deixou seu rosto bem próximo, até completar com a voz baixa e seu dedo apontado agressivamente para meu nariz. — Então aja como um homem de vinte e dois, não como um vagabundo que não faz nada da vida além de dar desgosto aos pais.

Eu senti o ar travar no meio do caminho e o encarei com os olhos arregalados, incapaz de dizer algo enquanto continuei sob seu olhar reprovador. Quando voltou a se afastar, a última coisa que ele disse, foi:

— Você é o maior arrependimento da minha vida, Jimin.

Quando ele saiu do quarto, o som da porta batendo fez meu corpo ter um sobressalto quase assustado, e eu continuei sem reação, exatamente no mesmo lugar até ouvir alguém entrar novamente.

Assustado com a possibilidade de ser meu pai ou, pior, minha mãe para me desmoralizar ainda mais, eu olhei para a direção da entrada e vi Jiwon se aproximando com a expressão ressentida.

— Meu menino... — Ela se lamentou, aproximando-se de forma apressada. — Eu vi o jeito como seu pai entrou aqui... você está bem?

Eu pisquei demoradamente e respirei fundo duas vezes antes de passar minha mão pelo rosto e vestir minha melhor expressão de indiferença.

— Nada com o que já não esteja acostumado, Jiwon — Eu digo, impressionado como quão tranquilo minha voz soa quando, por dentro, estou em pedaços.

— Eu vou preparar algo bem gostoso para você comer, ok? — Ela disse, ainda consternada, e eu engoli em seco quando senti sua mão no topo de minha cabeça num carinho suave.

— Não precisa — Respondo, segurando seu pulso com cuidado para afastar sua mão, e então fico de pé. — Eu vou correr um pouco.

— Jimin... — Ouço sua voz me chamando, mas apenas me adianto até o closet, onde me tranco para trocar de roupa. Quando saio daqui, ela já não está mais no quarto, e eu pego meus fones de ouvido e calço meus tênis de corrida antes de descer as escadas, porque não vou aguentar continuar nessa casa.

Então eu corro até a exaustão, até os pulmões queimarem pela falta de ar, e desabo num dos bancos do parque ao ficar completamente sem força, remoendo as lembranças de quando meus pais ainda me tratavam com o mínimo de carinho e me perguntando se essas memórias não foram inventadas por mim, para tentar suprir a necessidade de afeto.

Ainda com o físico tão derrotado quanto meu emocional, eu fiquei longos minutos seguidos sentado debaixo do sol escaldante do verão, até minha pele arder, coberta de suor.

Com o celular na mão e os fones plugados, reproduzindo uma música que parece distante demais, eu deslizei meu dedo pela tela repetidamente, desejando ligar para ele, para ouvir sua voz e sua risada.

Mas agora... eu nem sei se, agora, Jungkook seria capaz de me ajudar a me sentir melhor, ou se tornaria tudo pior.

Por outro lado, eu não quero ficar sozinho.

Então, meio incerto, eu tateio meus bolsos e como não trouxe minha carteira, encontro apenas o troco da água que comprei outro dia, correndo nessa mesma praça.

Me lamento ao ver que não é suficiente para pagar uma corrida de táxi, então faço o que nunca pensei que faria voluntariamente e procuro o ponto de ônibus mais próximo.

E quando entro no megazord e sento num dos lugares livres, eu percebo que o balanço da lataria enquanto se move pelas ruas é quase reconfortante. Combina com meu estado de espírito deprimente.

Ao descer no meu destino, então, eu faço o caminho que já conheço bem até o pequeno prédio envelhecido, e subo as escadas até parar diante da porta, a qual encaro como um inimigo até dar duas batidas suaves, hesitantes, quase como se quisesse que Jungkook não escute.

Mas ele escutou.

E eu escutei seus passos do lado de dentro, até ouvir o som da chave no trinco e, por último, a porta sendo aberta e revelando-o com uma roupa confortável e os cabelos ainda úmidos de um banho recente.

— Hyung? — Ele murmurou, assustado por me ver aqui.

Ainda calado, ainda parado, eu o olhei por instantes demorados até que abaixei o rosto, envergonhado.

Antes que eu me arrependa da ideia de ter vindo aqui, sua mão me segurou suavemente pelo cotovelo e me puxou para o lado de dentro, como se não precisasse ouvir nada para saber que algo está errado e que, agora, eu preciso dele.

— Entra, hyung... — Ele diz com a voz tão suave quanto seus dedos envolvendo minha pele.

Sem forças para negar, eu dei dois passos para o lado de dentro e esperei Jungkook fechar a porta antes de parar em minha frente outra vez e tocar meu rosto suado, sem parecer se importar com isso.

— Você deve estar morrendo de calor... — Ele constatou e eu me sinto completamente vulnerável debaixo de seus olhos tão grandes, escuros, inocentes e atentos a mim, varrendo cada detalhe de meu rosto.

— Desculpa... por ter vindo sem avisar — Eu peço, constantemente hesitando em olhá-lo.

— Não tem problema — Garantiu, cuidadoso. — Quer tomar um banho, hyung? Você tá todo suado...

Eu fiz que sim silenciosamente e deixei Jungkook me guiar até seu quarto, onde ele pegou roupas limpas e uma toalha para mim.

— Aqui... pode vestir essas — Ele disse. — Tá com fome? Eu posso fazer alguma coisa pra você comer...

— Não — Eu digo. Apesar de não ter comido nada nas últimas dez horas e ter gastado toda minha energia numa corrida descompensada, eu não sinto vontade de comer. — Obrigado, Jungkook.

Ele me olhou com alguma visível preocupação, mas acabou por assentir e lentamente deixou o quarto, encostando a porta depois de sair.

Sozinho, eu entrei em seu banheiro pequeno e me livrei das roupas suadas, depois senti o alívio de lavar o suor e refrescar meu corpo com a água gelada por minutos ininterruptos, também tomando a liberdade de usar os sabonete de Jungkook e seu shampoo de camomila para bebês.

Precariamente recuperado e vestindo as roupas que inevitavelmente ficam um pouco largas em mim, eu volto à sala para encontrar Jungkook, mas o vejo de costas para mim enquanto prepara algo.

— Jungkook?

— Ah, — Ele virou, sorrindo depois de ser pego de surpresa. — oi, hyung. Eu tô fazendo bolo pra gente.

— Não precisava — Eu digo, tomando a liberdade de me aproximar para ver melhor o que ele está fazendo. Perto o suficiente, Jungkook olha para mim e me mostra o sorriso mais lindo, com um pouquinho de massa crua no canto dos lábios.

— Você me mimou bastante ontem, agora é minha vez — Ele explicou, puxando uma forma untada para derramar a massa batida. Então, apertou os lábios num gesto chateado. — Só não vai ser um bolo muito bonito, porque eu não tenho bicos de confeiteiro em casa. Mas prometo que vai ficar gostoso!

— Sei que vai — Murmuro sinceramente, sem pensar muito antes de usar meu dedo para limpar o canto de sua boca num gesto quase instintivo. Antes que afaste minha mão, Jungkook cola seus lábios à pontinha do meu polegar, beijando-o inocentemente em seguida.

— Espera no sofá? Eu só vou colocar a massa no forno — Ele pediu, então, e eu concordei com um gesto preguiçoso.

Em seguida, ainda hesitei um pouco antes de me afastar e caminhar até seu sofá miúdo, mas mudo de planos quando vejo Keanu no peitoril da janela e vou até ele, observando-o cuidadosamente enquanto toma o banho de sol que Jungkook nunca esquece.

— Ei, peludo — Eu digo, apoiando minhas mãos nos joelhos ao me curvar para ficar na altura dele.

E, olhando-o com mais atenção, eu percebo algo que não estava aqui da última vez. Na ponta de um de seus vários gomos gordos, está nascendo um novo gominho, ainda miúdo e desproporcional ao resto do seu tamanho, mas também envolto por espinhos brancos e finos como fios de cabelo.

— O bebê está crescendo — De repente, eu ouço Jungkook dizer e me viro para vê-lo agora ao meu lado, olhando orgulhosamente para seu cacto. — É bonitinho, não é? Eu morro de amores sempre que nasce um novo.

— Ele é todo bonitinho, o desgraçado — Anuncio, o que faz Jungkook rir.

— É, eu sei. — Concorda facilmente, e só quando volto a arrumar minha postura percebo que ele está com a tigela do bolo em mãos. — Ah, eu trouxe pra gente comer a massa crua — Ele disse. — É minha parte favorita de fazer bolo.

Eu sorrio ao lembrar que, quando mais novo, eu sentava num dos bancos da cozinha e lambia os restos de massa dos bolos que Jiwon fazia, mas então minha mãe descobriu e me proibiu de comer porque podia causar intoxicação alimentar.

— Tomara que não tenha salmonela, né? — Jungkook comentou como se lesse meus pensamentos.

Curioso, eu o vi sentar no chão, com as costas apoiadas no sofá e a tigela suja de massa no colo, então deu um tapinha no lugar vazio ao seu lado.

— Vem, hyung. Vamos viver perigosamente — Ele diz com um sorriso contido.

— Morrer comendo massa de bolo seria uma pena — Comento, já me sentando ao seu lado.

— Acho que o pior que acontece é dar uma diarreia daquelas — Ele deu de ombros, passando o dedo para pegar um pouco de massa, depois levou até minha boca e completou: — Não se preocupe, eu tenho estoque de papel higiênico e sei fazer soro caseiro.

Eu ri mais um pouco, apenas um segundo antes de me dar conta de que procurar Jungkook, afinal, foi a melhor decisão, porque mesmo no meio do caos, Jungkook é sempre como a brisa leve da primavera depois de um inverno rigoroso. Sempre leve e acolhedor, e me faz tão bem estar com ele.

Por isso, eu decido correr o risco e finalmente limpo a massa achocolatada em seu dedo com minha língua. As bactérias que vão para o inferno.

Em resposta, ele me mostra um sorriso enorme e satisfeito e também come um pouco da massa crua quando uso meu próprio dedo para pegar mais um pouco.

— Minha mãe sempre dizia que comer alguma coisa gostosa deixa qualquer um mais feliz... — Ele confessou, de repente. — E você parece triste, então espero que isso te cure pelo menos um pouco, hyung...

Eu o olhei em silêncio, com meus dentes maltratando meu lábio enquanto o mordem num gesto ansioso. No fim, eu deslizo meu corpo pelo chão até sentar mais perto dele, e é num movimento um pouco hesitante que deito minha cabeça em seu ombro.

— Você pode falar o que aconteceu, se quiser... — Ele avisou, então, me deixando descansar contra seu corpo, e levou seu dedo com mais massa crua à minha boca. Quando eu usei meu lábios para limpá-lo, recebi um beijo na cabeça, e ele finalizou: — Se não quiser, não tem problema também... eu vou continuar aqui do mesmo jeito.

— Obrigado, Jungkook-ah. — Eu digo, e esse é minha resposta final. Não quero falar sobre, porque não é somente o que aconteceu com meu pai que me deixou assim.

Mas, de qualquer forma, também não estou pronto para aceitar que a forma como meus pais agem comigo me machuca. Eu simplesmente não posso admitir isso, porque seria como abrir uma brecha em minha armadura de indiferença para viver dia após dia sabendo que eles sequer gostam de mim.

Por isso, eu contenho meus desabafos e afogo-os com massa de bolo enquanto mantenho minha cabeça deitada contra Jungkook e vez ou outra recebo seus afagos pacientes ou seus beijinhos em minha testa.

— Sabe o que eu estava pensando? — Ele diz tempos depois, já quando o bolo está pronto e esfriando sobre o balcão da pia. — O encontro com Taehyung e o Yoon... a gente podia marcar no bar onde nos conhecemos.

— No bar do Calvin? — Questiono, com a cabeça novamente deitada em seu ombro, agora com minha mão fazendo desenhos preguiçosos em sua barriga.

— Hm... acho que sim. Por que você chama assim, hyung?

— Longa história... — Respondo, então inspiro profundamente e deslizo minha mão por seu abdômen até envolvê-lo com meu braço, abraçando-o e passando minha perna por cima da sua. Em resposta, Jungkook apertou seu abraço ao redor de meu pescoço e me deu o sexto beijo no topo da cabeça.

— Tudo bem... mas podemos marcar?

— Não tem risco daquele Sungwon estar lá? Ontem eu ameacei o doido daquele jeito, mas você precisa saber que odeio brigas, Jungkook. Imagina se ele resolve me atacar e estraga meu rosto lindo?

Jungkook se inclinou para beijar minha bochecha, depois garantiu:

— Eu protejo você.

Eu ri sem muita força, mas me deixei ser convencido.

— Tudo bem. Então marcamos no bar do Calvin, próximo domingo.

Jungkook concordou fervorosamente, depois me deu alguns instantes de silêncio enquanto continuamos abraçados no chão de seu apartamento. Até que, tempos depois, eu o ouvi inspirar como quem repentinamente lembra de algo.

— As fotos, hyung! — Ele disse, e eu me movi um pouco desajeitado para soltá-lo quando o vi quase engatinhar até o móvel da TV, onde abriu a gaveta única e tirou dali um álbum antigo, verde piscina com vários adesivos envelhecidos colados pela capa.

— As fotos de quando você era criança? — Eu percebo, com um sorriso miúdo.

— Sim. Você disse que queria ver, então deixei separado — Explicou, rapidamente passando álbum para mim. Depois, ao invés de voltar ao meu lado, ele ficou de pé e correu até a cozinha: — Acho que o bolo já esfriou!

Eu o observei pegar seus pratinhos coloridos para servir as fatias, mas logo voltei minha atenção ao compilado de fotos e deslizei minha mão pela capa aveludada antes de abri-la, evidenciando as fotos de um Jungkook bebê, sem dentes, e instantaneamente deixo um barulho muito constrangedor e rendido escapar.

Quando ele volta e me entrega um dos pedaços, eu já estou na terceira página, onde tem uma foto dele já um pouco maior com seus pais.

— Seus pais eram muito bonitos — Eu digo, rapidamente provando o bolo fresco. Como eu já imaginava, está delicioso.

— Sim... minha mãe dizia que meu pai era tão bonito que o perseguiu por meses até conseguir um encontro com ele — Ele confessou, o que me faz rir.

— Ele ainda é bonito assim? — Questiono.

Jungkook ficou algum tempo em silêncio, mastigando demoradamente o pedaço de bolo em sua boca, e acabou por erguer os ombros de qualquer jeito.

— Você sabe... — É tudo que ele diz, de forma vaga.

Não pela primeira vez, eu percebo sua relutância em falar sobre seu pai, o que me faz olhá-lo com um pouco mais de atenção.

— Jungkook... seu pai está mesmo bem? — Pergunto, tentando não soar muito invasivo. — Ele ainda mora aqui em Seul? Você quase não fala sobre ele no presente...

Jungkook cutucou seu pedaço de bolo com o garfo, os olhos baixos e o silêncio prolongado antes que me diga:

— Nem todo mundo sabe lidar com a perda de alguém que ama tanto, hyung. A morte de minha mãe foi muito difícil pra gente e... ele lidou do jeito dele.

Eu continuo em silêncio, à espera de uma justificativa melhor, mas percebo que não vou ter mais nada por enquanto e me resigno em dar a conversa por terminada aqui.

— Eu sinto muito por vocês terem que passar por isso, Jungkook — É a última coisa que digo, antes de vê-lo sorrir sem entusiasmo e assentir fracamente.

Em seguida, nós voltamos a ver os registros de seu passado, passando por uma sequência de fotos adoráveis de Jungkook em vários momentos de sua vida, e me aquece o coração perceber como ele parece ter vivido uma infância feliz.

E assim nós passamos as horas seguintes. Vendo fotos, comendo bolo, falando sobre e com o Keanu e montando nossa lista de comédias românticas favoritas, jurando que vamos assistir todas juntos.

— O melhor amigo da noiva! — Jungkook diz, em meio ao nosso brainstorm para lembrar dos melhores de todos os tempos.

— Claro! — Eu estalo meus dedos e aponto meu indicador em sua direção  antes de salvar o título na lista em meu celular. — Então agora nós temos... vinte e três filmes para assistir juntos. Quer começar agora?

Jungkook quase faz que sim, mas então eu percebo que ele discretamente olha as horas e sua expressão se torna um pouco desajeitada.

— A não ser que você tenha outro compromisso... — Completo, meio acuado.

— Ahn... Micha me pediu para ir na casa dela, porque o pai está ficando meio desconfiado do nosso namoro... e eu preciso do dinheiro, então tinha aceitado...

— Ah, tudo bem — Murmuro, tentando não fazer grande caso sobre a situação do cara com quem estou envolvido precisar fingir ser namorado de outra pessoa para poder pagar as contas.

Atualmente, apenas mais um dia normal na vida de Park Jimin.

— Mas eu posso desmarcar, hyung!

— Não, tudo bem — Eu cedo, já bloqueando a tela do meu celular e devolvendo-o ao bolso enquanto fico de pé. — Você vive dando bolo nela por minha causa.

— É porque eu prefiro ficar com você...

Eu aperto meus lábios num sorriso contido e estico minha mão para ajudá-lo a ficar de pé. Quando isso acontece, eu o toco suavemente, acariciando seu pescoço enquanto me dou conta de que, apesar de ter um corpo naturalmente maior que o meu, eu constantemente sinto essa necessidade de protegê-lo.

E estando com Micha, eu garanto que ele não vai precisar se submeter a pessoas que sejam capazes de machucá-lo para conseguir o dinheiro de que precisa, então eu prefiro que ele vá.

— Eu já vou. — Aviso, então, e fico nas pontas dos pés para beijar sua testa carinhosa e demoradamente. — Tchau, Jungkook-ah. Obrigado por me ajudar a sorrir.

— Sempre que precisar, hyung...

Eu sorri mais um pouco e recuei, acenando uma última vez antes de ficar de costas e deixar seu apartamento, ainda vestindo suas roupas.

Agora, eu caminho até o ponto de táxi de sempre, onde entro no primeiro carro disponível e, ao descer na frente de casa, peço que o motorista espere um pouco para que eu vá pegar minha carteira.

Depois de pagar a corrida e pagar um acréscimo por fazê-lo esperar, eu me tranco definitivamente no quarto para evitar meus pais, e uso as lembranças do bolo que compartilhei com Jungkook e de nós dois sentados no chão vendo suas fotos para bloquear todos os outros pensamentos ruins.

E então eu faço isso por toda a semana.

Evito meus pais e evito minhas ponderações pessimistas sobre tudo que envolve Jungkook, com a plena consciência de que estou fazendo nada além de tentar adiar o inevitável.

Mas, para alegrar que minha vida que anda parecendo uma novela mexicana onde se sucedem apenas acontecimentos dramáticos, eu finalmente tive um motivo genuíno para sorrir quando o domingo chegou, trazendo junto o meu primeiro ensaio oficial como modelo da IDOL.

O lugar marcado, no entanto, não foi no estúdio. Como as fotos são para uma campanha de publicidade sobre turismo, nossa primeira sessão é marcada no Namsan Park.

É, talvez ser forçado por Jungkook a tirar fotos abraçando uma árvore tenha mesmo me ajudado.

Ansioso para meu primeiro trabalho oficial, eu acordo ainda mais cedo que o necessário e arrumo minhas coisas numa mochila, checando cada item cuidadosamente antes de sair de meu quarto, tencionando sair de casa direto, mas mal passo pela cozinha e escuto alguém me chamar. Para minha sorte, é Jiwon.

— Nada de ir trabalhar de barriga vazia — Ela adverte, mas também tem esse tom cheio de orgulho.

Acontece que, apesar de não ter coragem de anunciar para meus pais, o oposto se faz valer quando se trata de Jiwon, e ela foi a primeira pessoa para quem contei sobre o ensaio.

Agora, aqui está ela se aproximando com um copo com vitamina nas mãos e por sua expressão já sei que é uma de suas batidas nutritivas e absolutamente horríveis.

— Coloquei nesse copo para você poder tomar no caminho, porque te conheço e sei que sua agonia não vai te deixar sentar para comer em paz — Ela explicou, entregando-me a bebida para deixar suas mãos livres para arrumar a gola de minha blusa, em seguida ela me deu um beijo carinhoso na testa e sorriu cheia de orgulho, voltando a acariciar meu rosto. — O primeiro trabalho do meu menino...

Eu abaixei meus olhos quando sorri, enfeitiçado pela sensação de dar orgulho a alguém. Talvez não a meus pais, mas Jiwon...

Aliás... só agora me dou conta de que hoje é domingo

— Jiwon... hoje é seu dia de folga. — Eu percebo, então.

— Resolvi fazer hora extra dessa vez para garantir que você não ia sair de estômago vazio. Eu te conheço, menino!

— Você não existe... — Eu quase murmuro antes de cair na risada e devolver o beijo em sua testa. — Obrigado, Jiwon. Você é um anjo.

Ela sorriu, então me deu dois tapinhas no quadril.

— Vá logo. Não quer se atrasar para o primeiro dia, quer?

Eu nego, então aceno uma última vez e sorrio abertamente antes de mandar um beijo no ar para ela e me adiantar até a porta.

Durante o caminho, então, eu até ignoro o gosto rançoso da vitamina-super-nutritiva que foi feita especialmente para mim e bebo até a última gota, para valorizar o esforço de Jiwon.

E então eu chego ao estúdio. Jogo fora o copo descartável já vazio e adentro o ponto de encontro, que está quase completamente vazio, a não ser pela recepcionista e um outro cara sentado numa das cadeiras acolchoadas.

— Bom dia... — Eu digo para a moça detrás do balcão, e o som de minha voz parece atrair a atenção do rapaz, que ergue o rosto e me direciona um olhar atento antes de exibir um sorriso com caninos afiados e uma única covinha estranhamente familiar.

Então, eu o reconheço. O cara da loja de conveniência.

O que ele está fazendo aqui?

— Ei — Ele diz assim que me vê, e eu respondo seu cumprimento com um movimento meio desajeitado, caminhando até sentar dois assentos além do dele.

Mal me sento, então, eu o vejo se levantar e se aproximar para sentar ao meu lado, o que me faz encará-lo com as sobrancelhas brevemente arqueadas em curiosidade.

— Parece que vamos trabalhar juntos. — Ele diz. — Você é Jimin, não é?

— Sim... e você é...?

— Kenzo. Okada Kenzo.

O rosto me era familiar. Agora, o nome também.

Depois de revirar minha memória em busca, eu finalmente lembro. Kenzo! O amigo que estava com Taehyung quando ele beijou o primeiro cara, duas semanas atrás.

— Você conhece Kim Taehyung? — Eu pergunto, disparado.

— Sim. Estudamos juntos. — Ele responde com o mesmo tom simpático, com a covinha única constantemente aparecendo.

É estranho admitir isso sobre outro cara além de Jungkook, mas Kenzo é... atraente. De verdade.

— Que mundo pequeno — Comento, tentando não criar um silêncio constrangedor.

— É o que estava pensando. Não faz muito tempo que te vi com Taehyung na universidade e pensei em como gostaria de te ver de novo. Então eu te encontrei por acaso numa loja de conveniência e agora vamos trabalhar juntos — Ele disse, casualmente. — O mundo é mesmo pequeno. Sorte a minha.

Hm.

Certo. Eu posso ter lá minha inexperiência quando se trata de homens, mas sou esperto o suficiente para perceber que Kenzo está flertando comigo, agora.

E Kenzo é bonito. É atraente, admito. Mas eu não estou interessado.

Quer dizer... ele deu azar. A concorrência é imbatível, porque nem Okada Kenzo com sua covinha única e seus caninos afiados é páreo para Jeon meu-deus-do-céu-que-bebê-e-que-tesão Jungkook.

Mas então, antes que eu deixe de forma sutil e educada, mas clara, que é melhor ele nem perder tempo tentando, uma quarta pessoa chega, meio apressada, e nós dois olhamos na direção da porta a tempo de ver a outra modelo que irá participar das sessões.

E ela também me é familiar, ainda mais que Kenzo, porque lembro claramente dela no dia em que vim fazer meu teste e vi vários dos outros candidatos ridicularizando-a pela cor de pele mais escura.

E agora ela está aqui. Contratada e com serviço. E aqueles babuínos não.

Rá.

— Oi, meu deus, oi. Achei que ia me atrasar, chegar aqui e não encontrar ninguém, depois ser desligada da empresa por ser uma irresponsável. Oi.

Ao meu lado, Kenzo riu.

— Relaxa, Nabi. — Ele diz, batendo no assento ao seu lado. — Nem os fotógrafos chegaram. Senta e respira.

Ela levou a mão ao peito, mas logo seu desespero foi trocado por surpresa quando ela me vê. Então, acho que ela me reconhece e sorri para mim de forma simpática e receptiva.

— Olá. — Ela diz. — Eu sou Nabi.

— Jimin — Digo para ela, devolvendo seu sorriso de forma sincera porque estou mesmo feliz por vê-la aqui. E ao perceber que sua presença anulou as tentativas de flerte de Kenzo, fico mais feliz ainda.

Por isso, os minutos que se passam até que toda a equipe esteja reunida para ir até o Namsan Park, e então nós nos arrumamos e guardamos todos os equipamentos numa van plotada com o logo do estúdio.

— Querem ajuda para carregar? — Eu pergunto quando chegamos, mas os assistentes do fotógrafo só faltaram me comer vivo quando eu me aproximei do tripé. — Ok... então não.

— Ele são ciumentos com esses equipamentos — Kenzo explicou, de braços cruzados ao meu lado enquanto a maquiadora retoca a maquiagem de Nabi.

Os próximos somos eu e ele.

— Acho que percebi. Você viu o jeito que aquele ruivinho olhou para mim? Ele deve ter visualizado mil formas diferentes de me matar!

Kenzo riu, mas, tipo, é sério. Ele me olhou com ódio por causa de um tripé!

— Você se acostuma. Sério. — Avisou descontraído, com as mãos nos bolsos de sua calça. — Mas então, Jimin... você vai fazer alguma coisa depois das fotos?

Eu estou prestes a dizer que, sim, tenho compromisso inadiável, mas sou interrompido por outra voz antes que o faça.

— Jimin?

Levado pelo tom intensamente familiar, eu viro o rosto em busca da dona da voz inconfundível, e a encontro aproximando-se pela calçada em companhia de uma marmota e de sua irmã que é quase gêmea.

— Nara... — Eu a chamo, surpreso por vê-la aqui, depois viro para cumprimentar os outros dois: — Eunjo, Hera. O bonde todo.

— Ei, Jimin — Marmota diz, e sua namorada apenas me direciona um sorriso meio forçado.

Quando éramos cunhados, eu sempre soube que ela não ia com a minha cara. Agora é que deve me odiar mesmo.

E, ah, droga. Agora que as coisas foram esclarecidas, acho que nem faz mais sentido chamar Eunjo de marmota, mas ainda é engraçado.

— Estão fazendo compras? — Eu pergunto, vendo minha ex e sua irmã com os braços cheios de sacolas, enquanto Eunjo carrega uma caixa grande.

— Para minha festa de aniversário. Estamos correndo para deixar tudo pronto antes da viagem — Nara explica, o que deixa tudo ainda mais desconfortável porque, um, a ideia da viagem foi minha, tempos atrás. Dois, porque eu obviamente não fui nem serei convidado, já que seu aniversário é em menos de uma semana.

Felizmente todos os meu companheiros de trabalho se ocuparam com algo, até Kenzo que foi chamado pela figurinista, então nenhum deles precisa presenciar o clima estranho.

— E você, está fazendo o que? — Nara pergunta, exibindo um sorriso cordial.

— Ah, eu... vou posar para algumas fotos... — Respondo, surpreendentemente envergonhado porque, merda, eles vão rir de mim.

— Bacana. — É o que Eunjo diz. — Tipo um trabalho mesmo ou só diversão?

— Trabalho — Explico, ainda nervoso.

— Bacana mesmo. — Ele volta a dizer, com um sorriso que parece bem sincero. — Bom trabalho, cara.

— Valeu. — Eu digo, voltando meu olhar para Nara, que observa curiosa todo o pessoal da equipe se organizando pelo parque. Então, ela volta a olhar para mim.

— Isso combina muito mais com você que uma aula de direito constitucional — Acabou por dizer, então, e sorriu. Eu sorri também, percebendo nenhum julgamento seu ao descobrir que larguei nosso curso para investir nessa carreira.

— Não é? — Concordo, risonho.

Nara assente, mas então olha para o relógio de ouro em seu pulso e aperta os lábios.

— Nós ainda precisamos comprar muitas coisas... — Ela avisou, em tom de despedida.

— Imagino. Vocês vão mesmo acampar? — Questiono, curioso, enquanto tento não ficar ressentido sobre isso.

— Sim. Na casa de veraneio dos pais do Eunjo — Ela explicou. — Vamos usar a casa como suporte, mas vamos montar as barracas perto do lago.

Exatamente a minha ideia.

Mas tudo bem.

Eu a acusei de ter me traído e praticamente fui eu quem acabei traindo, então um convite não é exatamente algo que deveria esperar.

— Aliás... você deveria ir. — Para minha surpresa, Nara diz, de repente, e até Eunjo e Hera ficam meio assustados. — A ideia foi sua e, sabe, eu não quero agir como se fóssemos estranhos. Nós éramos bons amigos acima de tudo, então pelos velhos tempos... você deveria vir.

— Nana... — Hera a chama, pelo apelido que somente ela usa. — Você pirou?

— O convite está feito. — Nara deu de ombros suavemente. — A decisão é sua, Jimin. Mas agora precisamos ir. Boa sorte com as fotos.

— Boa sorte com as compras. — Eu digo, sem dar qualquer resposta sobre seu convite, porque me parece bem óbvio.

— Tchau, cara — Eunjo diz, então, entrelaçando sua mão à de Hera antes de acompanhar as duas irmãs através do Namsan Park até sua próxima parada.

Sozinho, eu suspiro pesadamente, mas sequer tenho tempo de me recuperar porque logo escuto:

— Park! Venha retocar a maquiagem!

Sem nenhum instinto rebelde, eu rapidamente me aproximo da maquiadora, que dá um jeito em minha pele afetada pelo calor antes de me liberar para arrumar meu figurino numa tenda improvisada ao lado de uma árvore.

Ao longo da manhã, então, nós fazemos várias sessões pelo parque. Mais tarde, subimos até a torre para tirar outras fotos, interpretando três amigos curtindo Seul enquanto secretamente meus sorrisos se tornam mais sinceros por lembrar de como foi estar aqui com Jungkook em nosso primeiro encontro.

Aliás, dessa vez eu não tive seu abraço para me reconfortar durante a subida pelo teleférico, e eu precisei respirar com um saco de papel por quase dois minutos depois que chegamos à torre, o que foi uma merda porque a equipe inteira ficou preocupada enquanto eu colapsava por conta de meu medo de altura.

Mas até que deu tudo certo, depois, e está literalmente escurecendo quando retornamos ao estúdio.

— Você não me respondeu mais cedo... — Kenzo me abordou quando desembarcamos da van e eu chequei meu celular que está lotado de mensagens de Taehyung. — Eu conheço um bar bacana. Não quer ir comigo?

— Foi mal... — Eu digo, apressadamente guardando o celular de volta no bolso. — Mas eu tenho compromisso, num bar, inclusive. Quem sabe não é o mesmo e nos encontramos lá por acaso? — Eu digo em tom brincalhão, mas sem acreditar verdadeiramente na possibilidade.

— Vou torcer para que o acaso fique do meu lado só mais uma vez, então — Ele diz, flertador.

Eu nego suavemente com um riso um tanto inoportuno, e aceno para Nabi e para o resto da equipe antes de apressadamente encontrar o primeiro táxi livre para voltar para casa. No caminho, aproveito o caminho para ver as mensagens de Taehyung

Taehyung
|Ei, a gente vai mesmo sair com jungkook e o amigo dele, né?

Taehyung
|O amigo dele é bonito?

Taehyung
|Esse bar do calvin é arrumado? O que eu visto?

Taehyung
|Jimin cadê você

Taehyung
|Meu amigo me abandonou de novo...

Taehyung
|Sabe aquela música do akon? lonely.mp3

Claro que vamos sair com eles, o amigo é bonito sim (mas é um saco), o bar não é arrumado então vista qualquer coisa e essa música do akon é uma morte pra alma|

Já estou chegando em casa pra me arrumar, então quando quiser ir pro bar, vá com deus|

Taehyung
|Tá doido? Ir sozinho? Eu vou é na sua casa pra ir com você, deus me livre chegar sozinho num lugar desconhecido

Crianção|

Taehyung disse mais alguma coisa, mas eu não dei muita bola porque logo cheguei em casa e corri para me arrumar. Como sempre, dediquei empenho inigualável a essa tarefa e, no fim, o resultado está magnífico.

— Gostoso — Taehyung diz quando, meia hora depois, o encontro na porta de casa.

— Você dá pro gasto também — Digo em resposta, o que me rende um tapão na cabeça, depois rimos juntos.

Sem mais atrasos, nós finalmente nos dirigimos ao bar do Calvin, mas meu melhor amigo travou assim que descemos em frente ao nosso destino, que ainda não está tão movimentado.

— Jimin... eu achei que nós íamos ao Bar do Calvin. — Ele disse, estarrecido.

— Sim. É esse aqui, ó.

— Esse não é o Bar do Calvin. Esse é o bar onde eu beijei aquele cara, duas semanas atrás!

Isso quer dizer que Taehyung estava mesmo no bar do Calvin? Meu deus, e se ele beijou alguém que eu conheço?

— Meu deus... se aquele cara souber que estou aqui de novo, ele vai achar que eu estou vindo por causa dele...

— Deixa de besteira, Taehyung — Resmungo, revirando os olhos e puxando-o pelo pulso através da varanda em direção ao interior do bar. — Jungkook já está aqui com o Yoongi, anda logo.

— Jimin, é sério — Ele começa a dizer, mas assim que passamos pela entrada principal, o corpo de Taehyung meio que amolece e sua voz muda: — Cacete... ele está aqui...

— O que? — Pergunto, confuso porque o bar está tão vazio que mal tem cinco clientes, dos quais dois são o cara que desgraça meu juízo e seu amigo. — Onde?

Quase sem cor, Taehyung apontou indiscretamente para um dos sofás no fundo do bar, onde Jungkook está conversando animadamente com Yoongi.

— Aquele... o mais baixo... — Ele diz, parecendo genuinamente nervoso.

E só então a ficha cai.

O cara que Taehyung beijou foi Yoongi.

E agora eu, eles dois e Jungkook temos um encontro marcado no bar do cara em quem eu dei um esporro no meio de uma loja de conveniência e onde podemos encontrar um outro que arranhou o carro de meu pai.

Para completar o show... só falta mesmo Kenzo aparecer aqui.

❥ [Continua...] 

Chapter Text

— Taehyung... você beijou o Yoongi... o amigo do Jungkook. — Eu anuncio em voz alta, caso ainda não tenha ficado claro para ele.

— Eu percebi isso agora que estou vendo os dois juntos! Mas obrigado por narrar o óbvio!

— Eu, hein, precisa desse coice, cavalo do inferno? Só quis confirmar!

— Olha, Jimin... não vai dar. Eu vou embora.

— Que? E o que eu digo a eles? Que você ficou todo traumatizado de vergonha por ter beijado o Yoongi quando estava bêbado?

— Diz que me deu diarreia. Ninguém questiona diarreia.

Eu reviro os olhos, agarrando-o pelo braço antes de puxá-lo para dentro, mas Taehyung faz força para trás, tentando resistir. Assim, ficamos empacados na entrada.

— Deixa de besteira, Kim Taehyung!

— Park Jimin, é sério! Eu não me preparei psicologicamente para isso!

— O Yoongi nem deve lembrar de ter beijado você — Eu tento tranquilizá-lo, mas o efeito é oposto.

— Nossa, valeu.

— Ou talvez ele lembre e vocês se beijem de novo — Contraponho com um dar de ombros. — Será que você pode parar com essa frescura?

— Não é frescura, é que... ele foi o primeiro cara que eu beijei, poxa. Eu não sei como agir agora... e se ele não gostar de mim ou...?

Eu suspiro ao ouvir sua confissão preocupada e relembro que, no fundo, Taehyung é só um bebê.

Ele e Jungkook vão se dar bem, pensando por esse lado.

— É só agir como sempre, Tae. Se ele não gostar de você e de sua personalidade, o problema é dele, porque você é minha pessoa favorita do mundo inteiro e existe um motivo para isso.

— Você ainda gosta mais de mim que do Jungkook? — Pergunta, manhoso.

— É diferente. — É o que respondo sinceramente.

O que eu sinto por Taehyung e o que eu sinto por Jungkook possuem naturezas distintas a partir de certo ponto, então é injusto comparar.

Enfim, Taehyung respira fundo e solta o ar numa lufada resignada, então adoravelmente arruma os cabelos em sua testa e faz um gesto positivo para mim.

— Ok. Seja o que deus quiser.

Eu rio de sua atitude dramática, mas não me coloco em posição de julgar porque, sinceramente, minhas crises quando comecei a me envolver com Jungkook foram bem piores que o breve momento de hesitação de meu amigo.

Assim, eu contenho qualquer piada boba que poderia fazer e finalmente o puxo bar adentro, em direção ao sofá onde Jungkook está. E ele abre um sorriso enorme assim que me vê. Um bebê. Mas aí ele ficou de pé para nos receber e eu vi sua bendita calça jeans com rasgos imensos na coxa e joelho. Um tesão.

Então eu percebi que sua postura entrega um pouco de nervosismo e ele esfregou as mãos na calça como para secar o suor. Porra, um bebê.

— Oi, hyung — Ele disse para mim quando parei perto, e eu vejo seu olhar ansioso viajar de mim até meu amigo. Então ele curvou o corpo brevemente, educado e nervoso, antes de se apresentar com a voz trêmula: — Oi. Eu sou Jungkook.

— Oi, Jungkook. Taehyung, mas pode chamar de Tae, ou como preferir — Anunciou também um pouco nervoso, embora eu saiba que é mais por conta da presença de Yoongi. — É um prazer finalmente te conhecer. Jimin fala muito sobre você, sabia?

— É? — Ele perguntou, secou as mãos na calça mais uma vez e se atrapalhou com o que fazer com elas a seguir, então apoiou ambas na própria barriga.

Completamente rendido por ele e por sua falta de jeito em conhecer alguém do meu ciclo de amizades, eu mordisquei meu lábio para conter um sorriso e levei minha mão à sua cintura, puxando-o para poder selar sua boca, depois sua bochecha, a qual apertei como prova do quanto o acho adorável.

Ao vê-lo com esse sorriso mal disfarçado, que faz suas bochechas se moverem e ficarem com marquinhas lindas, eu a beijei mais uma vez.

— Lindo. — Eu digo, facilmente verbalizando o que se passa em minha mente.

— Você. — Ele responde e me dá um selinho de surpresa, que acaba por empurrar minha cabeça suavemente para trás.

Quando eu ri para ele em resposta a isso, nós ouvimos um pigarro e nos viramos na direção da qual veio. E enquanto Taehyung nos observa com curiosidade, Yoongi nos olha com tédio.

— Se marcaram isso só pra ficar com essa melação, não sei qual o propósito de me chamar — Carrapato resmungou.

Eu revirei os olhos, mas Jungkook riu.

— Jimin hyung, você já conhece o Yoongi hyung — Ele disse.

— Oi.

— Oi.

Sem ameaça de uma briga iminente. Estamos indo bem, até.

— Yoongi hyung, esse é o Taehyung, o amigo do Jimin — Jungkook continuou.

E ele parece estar sério sobre isso tudo. Quer dizer, para mim não é nada tão novo, apesar de estar um pouco nervoso porque quero que Tae goste de Jungkook e vice-versa. Mas, para Jeon, esse parece um evento único, o que deve justificar sua postura um pouco mais tensa.

E ele não é o único.

Quando são apresentados, Taehyung perde a cor e acena nervosamente para Yoongi, que só o cumprimenta com os lábios comprimidos num sorriso pouco natural e as sobrancelhas arqueadas.

Ops.

Ele não parece lembrar de Taehyung.

Pior, Taehyung parece chegar à mesma conclusão que eu, e não está muito feliz sobre isso.

Na verdade, eu o vejo abaixar os olhos e curvar os lábios para baixo, inflados num bico inconsciente que ele faz sempre que se chateia com algo.

Tentando contornar a situação, eu abri um sorriso e os olhos, fingindo empolgação quando empurrei meu melhor amigo pelo ombro para fazê-lo sentar no sofá em L que circunda uma mesa ainda vazia.

— Eu vou pegar nossas bebidas. — Aviso. — Algum pedido especial?

— Alguma coisa com álcool... — Taehyung pediu, derrotado. Então, sua expressão se encheu de vivacidade e ele ergueu o indicador: — Mas tem que ser docinho.

— Yoongi? — Pergunto depois de erguer o polegar para meu amigo.

— Soju serve. — Respondeu com desleixo, as mãos escondidas nos bolsos de sua calça puída e o corpo relaxado sobre o sofá, com uma touca acinzentada escondendo seu cabelo.

— Soju serve — Repito com uma entonação mil vezes mais ridícula que a dele, mas claro que baixo o suficiente para que ele não ouça.

Então, viro para Jungkook.

— Eu vou com você, pra te ajudar a carregar as coisas — Ele responde antes que eu sequer peça por isso e é claro que aceito sua sugestão, porque preciso ficar sozinho com ele para falar sobre Taehyung e Yoongi.

Então, eu o seguro pelo braço para puxá-lo mais para perto e poder dizer em tom confidencial enquanto caminhamos até o balcão do bar, mas ele é mais rápido e antes que eu sequer comece a falar, sinto sua mão escorregar para trás de mim e apalpar minha bunda.

— Jungkook? — Eu o olho com as sobrancelhas arqueadas. Honestamente, nem posso dizer que estou surpreso.

Incomodado... também não.

— Você estava usando essa calça quando nos conhecemos, hyung — Ele disse com um sorriso genuíno, adorável, e a mão ainda em minha bunda, deliciosa.

Santo Cristo, eu ainda vou entrar em pane com a dualidade.

— E como você lembra? — Pergunto quando nos encostamos no bar e esperamos ser atendidos. — Você estava bêbado como um porco.

— Eu não esqueceria do dia que esperei por tanto tempo, hyung... — Ele sorriu, fechando os olhos como quem se joga na memória. — Depois de tanto ser ignorado por você enquanto te servia como garçom, eu finalmente fui notado e te fiz gemer pra mim na mesma noite... — Seu sorriso se alargou e ele abriu os olhos, voltando a fixá-los em mim. — Eu lembro até do cheiro da chuva recente, dos carros que prenderam o seu e do seu penteado, que estava mais bagunçado que o normal. Então, sim, eu lembro da sua calça também.

Eu o olhei em silêncio, sem perceber quando recostei a lateral de meu corpo ao balcão e me inclinei suavemente, mantendo minha atenção fixada em Jungkook e na sua expressão relatando cada detalhe daquela noite inesperada.

Então eu lentamente umedeci meus lábios, relembrando também de sua calça de couro, da blusa com a fenda reveladora e de seu jeito traiçoeiro de me olhar.

No dia, eu senti desespero. Agora, gostaria de voltar no tempo e aproveitar aquele momento como deveria.

E eu acho que Jungkook tem o mesmo desejo que eu, porque logo o vejo imitar meu gesto e lamber o próprio lábio enquanto seus olhos se mantêm atentos à minha boca, que está sentindo falta da sua.

Sem resistir, eu me aproximo mais dele e apoio minhas mãos na banqueta que está entre nós dois, então me inclino em sua direção. Em resposta, ele sobe sua palma quente por meu braço, até me segurar pela nuca, e me puxa mais para perto.

Então:

— Antes de se beijarem, façam logo o pedido para não atrasar minha vida.

Eu expulso o ar, frustrado, e deixo minha cabeça cair para a frente antes de movê-la até olhar de canto para ele, o culpado de tudo de errado em minha vida.

— Calvin, seu timing é tão bosta quanto seus julgamentos precipitados — Resmungo, amargurado.

Eu certamente esperava uma resposta ácida, mas ele pareceu ressentido sobre minha última colocação e sua expressão pareceu um pouco menos incisiva que o habitual.

— Vão querer o cardápio? — Ele pergunta, o que é inédito.

Ele nunca me ofereceu o cardápio. Eu nem sabia que tinha um cardápio.

— Hm... não. Me dê uma batida de abacaxi e — Olho para Jungkook, antes de chutar: — três garrafas de soju? — Ele assentiu, então confirmei: — Três garrafas de soju.

Calvin fez um movimento de concordância e logo se afastou um pouco para preparar a batida. Sozinho com Jungkook, eu volto ao plano inicial.

Não o de beijá-lo. O inicial de verdade.

— Jungkook, tem algo que você precisa saber.

Os olhos pretos e grandes se arregalaram em horror e eu logo percebo como minha fala pode passar, e passou, uma impressão errada.

— Você tem um caso com o Taehyung, não é? — Ele chuta, apavorado.

— O que? Não! Eca, Jungkook, seria como ter um caso com meu irmão!

— Ainda bem...

— Meu deus... — Eu suspiro, atordoado com a simples suposição de ter qualquer envolvimento do tipo com meu melhor amigo. — Não é nada disso, mas meio que envolve o Tae, sim, e o carrapato.

— Ele tem carrapato?

— Carrapato é o Yoongi.

— Ah. — Ele pareceu entender, olhou para nossos amigos (que estão na mesa, sentados um distante do outro e mexendo em seus celulares), mas logo pareceu confuso de novo e voltou a olhar para mim com uma grande interrogação.

Antes que ele pergunte, o interrompo.

— Esquece. O foco é outro. — Sem enrolação, questiono: — Sabia que eles dois se beijaram?

Jungkook mais uma vez olhou para os dois, mas não expressou nenhuma surpresa ou qualquer reação minimamente afetada ao ouvir meu anuncio.

— Foi? — É o que ele pergunta.

— Yoongi não falou nada para você? Sobre ter ficado com um cara recentemente...

— O Yoongi fica com vários caras, hyung. E com algumas mulheres também. Ele não costuma fazer grande caso disso.

Oh. Isso é péssimo.

— Taehyung meio que fez não um grande caso, mas médio, talvez. — Confesso, frustrado. — Eu acho que ele está chateado.

Jungkook mais uma vez olhou na direção do sofá, se demorou um tanto em sua análise e suspirou quando voltou a olhar para mim, apertando os ombros num gesto quase conformado.

— Se o Taehyung é do tipo que não sabe ter envolvimento físico sem criar envolvimento emocional, é melhor ele não pensar muito no Yoongi. Ele... não está muito disponível emocionalmente.

Eu apertei meus olhos ao ouvir seu aviso, que traz à tona um pensamento que eu gostaria de evitar.

— Por um acaso ele está emocionalmente indisponível porque já gosta de você? — Suponho, incapaz de esquecer o que já vi acontecer entre os dois.

— Não, hyung... o Yoongi não gosta de mim desse jeito. Ele é uma pessoa muito boa e tem sentimentos muito bons, de verdade mesmo, mas quando se trata de romance... — Ele parece procurar uma boa forma de se explicar, mas não parece encontrar algo que o satisfaça, e completa com alguma relutância: — Algumas pessoas não têm esse tipo de interesse em outras... entende?

Na verdade, eu não entendo.

Como alguém que já se apaixonou diversas vezes ao longo da vida e no momento atual está completamente arrebatado, eu não posso dizer que entendo como é não se apaixonar. Mas partindo do pressuposto que cada indivíduo tem suas particularidades e as minhas não devem ser impostas a mais ninguém, eu entendo que existe a possibilidade de Yoongi ser diferente de mim.

Por isso, eu acabo por fazer um movimento de concordância com o que Jungkook disse, e faço também uma nota mental para lembrar de dar um toque a Taehyung.

— Aqui — Calvin retorna, dando por finalizada nossa conversa ao entregar nossos pedidos e anotá-los numa comanda. — Vão querer mais alguma coisa?

— Agora, não. Valeu. — Eu digo, pegando duas garrafas de soju com os copos pendurados no gargalo e deixando as duas bebidas restantes para que Jungkook pegue.

— Obrigado — Ele agradeceu educadamente, pegando-as, e eu percebi que Calvin manteve seus olhos sobre o cara lindo e adorável ao meu lado.

E ou eu estou louco, ou ele parece ainda mais ressentido sobre algo.

— Então, hm... você gosta de cactos, é? — Ele pergunta ali detrás do balcão, parecendo casual.

Como sempre, apenas a menção da existência de cactos faz o rosto de Jungkook se iluminar, e ele abre o maior sorrisão.

— Sim! Eu tenho um, o nome dele é Keanu Reeves!

— Keanu Reeves... como o ator, Keanu Reeves? — O bartender questiona, e eu curiosamente olho de um para o outro, surpreso pela interação.

— É! Ele é meu ator favorito — Jungkook explicou, mas eu já sabia disso. — Não faz nenhum dos meus filmes favoritos, mas é meu ator favorito. Sabe? — Disso eu também já sabia.

— Sei... eu gosto de Matrix — Calvin disse com um sorriso curto, desajeitado, e essa é a primeira vez que percebo os detalhes que acompanham um sorriso seu.

Wow. Ele tem umas covinhas enormes.

— Quer ver fotos dele? — Jungkook oferece, devolvendo as bebidas ao balcão para pegar seu celular, sem perder a chance de mostrar o peludo ao mundo. Quando encontrou uma das várias fotos de Keanu em sua galeria, ele passou o aparelho para Calvin, com um sorriso enorme. — Aqui. Esse é meu Keanu. Ele é bonitinho, né?

Eu ri sem que ele perceba, mas não é de deboche. Eu verdadeiramente sou apaixonado pela paixão de Jungkook por seu cacto.

— É um cacto — Calvin diz simplesmente, o que considero heresia.

— É o cacto mais bonitinho — Eu digo para dar uma moral a Jungkook, que olha para mim com um sorriso ainda maior.

Daqui a pouco a boca dele rasga.

Mas tudo bem, é adorável da mesma forma.

— Hm... eu venho aqui há tanto tempo, mas nunca nos apresentamos, né? — Meu acompanhante lindo, fofo e gostoso diz para o bartender. — Meu nome é Jungkook. E o seu?

— É, eu meio que já sabia. Você é famoso por aqui. — Calvin disse. — Meu nome é...

— Jimin — De repente, Taehyung suspira ao meu lado, e eu me assusto porque nem o percebi se aproximando. — Vem logo pra mesa. Está bem desconfortável só com o Yoongi...

Eu assinto, percebendo que nem ouvi o nome verdadeiro de Calvin, mas não é como se fosse fazer grande diferença.

— Jungkook-ah, — Eu o chamo, passando para Taehyung as duas bebibas que carrego, então pego as duas restantes. — eu vou indo para a mesa.

— Ah, eu já vou, hyung. — Ele me respondeu, acenando para Calvin, que respondeu seu aceno com um movimento de cabeça.

Deixando que Taehyung e Jungkook vão na frente, eu apenas espero vê-los um pouco mais distantes para dizer para o bartender, antes de me afastar também:

— Espero que você esteja entalado com o arrependimento de ter falado tantas coisas ruins sobre esse cacete fofo que é o Jungkook. Otário.

Sem esperar uma resposta sua, eu finalmente segui o cara que virou minha vida do avesso e meu melhor amigo, para sentarmos novamente no sofá que continuou ocupado por Yoongi.

Quando nos servimos cada um com a respectiva bebida, eu percebi que Jungkook olhou para a entrada do bar e pareceu surpreso, mas feliz, ao ver alguém. Automaticamente, eu olhei na mesma direção e logo reconheci os cabelos vermelhos.

Seu nome... Hoseok?

— Ei, Jungkook — Supondo que estou certo sobre seu nome, Hoseok diz ao se aproximar com um sorriso genuíno e as mãos nos bolsos de uma jaqueta colorida.

Nós estamos no verão, mas tudo bem. A jaqueta é bonita, então acho que entendo.

— Hoseok! — Rá. Eu acertei o nome. — Faz tempo que não te vejo por aqui!

— Vim encontrar uma pessoa — Ele respondeu, passando os olhos por cada um de nós na mesa até que sua atenção pousa em mim, então ele volta a olhar para Jungkook e, como se eu não pudesse ouvir, pergunta: — Uou. Você está mesmo saindo com o burguês?

— Isso, finja que não estou aqui — Eu digo com um sorriso azedo, o que o faz rir.

— Desculpa, cara. Eu só não imaginei que isso fosse acontecer, mesmo que Jungkook tenha uma queda meio irreversível por você.

Hm. Hoseok é do tipo que explana sem dó.

Aproveitando-me disso, eu cruzo meus braços sobre a mesa e me curvo mais para a frente, arqueando as sobrancelhas para ele.

— Já que você trabalhava com o Jungkook no restaurante, você pode me confirmar se ele tinha mesmo essa queda irreversível por mim desde esse tempo?

— Deixa eu ver... na primeira semana de trabalho dele, você foi ao restaurante e o Jungkook ficou tão hipnotizado por você que derrubou a bandeja com vários pratos sujos e, hm... ele também chantageava todos os funcionários para atender a mesa em que você sentava quando era fora da área dele. — Ele torceu os lábios antes de estalá-los, então concluiu: — É, acho que ele já tinha essa queda por você desde que te viu pela primeira vez. Talvez desde que nasceu, vai saber.

— Hoseok! — Jungkook o repreende, numa das poucas vezes que o vejo envergonhado.

Eu, depois de ouvir isso, também sinto vergonha, mas não consigo resistir ao impulso de olhar para Jungkook com surpresa.

Ele realmente sempre esteve tão atraído por mim?

E eu realmente... eu realmente perdi todas as chances de ter conhecido Jungkook antes porque era esnobe demais e nunca olhava direito para ele ou para qualquer garçom?

— Jungkook... — Eu o chamo, ainda sem saber como reagir a essa descoberta.

— Você sempre estava acompanhado de alguma mulher, hyung. — Ele deu de ombros, sem me olhar diretamente. — Não é como se fosse me notar.

— Mas quem acredita sempre alcança — Hoseok disse, otimista, e me deu um tapa no braço. — Olhe aí com quem você está agora, Jungkookie.

— É... — Jungkook concordou, ainda sem jeito, e pareceu ansioso para mudar de assunto. — Você não quer sentar com a gente?

— Ah, não. Eu marquei de encontrar meu date no bar, então melhor esperar lá — Ele avisou, parecendo contente sobre isso. — Aproveitem a noite.

— Você também — Somente eu e Jungkook respondemos, porque Taehyung está retraído demais e Yoongi continua mais interessado em seu celular.

Assim que Hoseok acena e se afasta com as mãos nos bolsos da jaqueta, eu volto a olhar para Jungkook com pesar.

— Bebê... — O chamo, arrependido.

— Hyung, sério, isso faz tempo demais. E você nunca foi obrigado a corresponder meu interesse, então para de parecer tão culpado.

— Sobre te corresponder, tudo bem, mas eu sequer te olhava? — Comento, realmente chateado sobre isso.

Acho que, no fundo, eu não sou tão diferente de meus pais. Eu cresci vendo-os menosprezar garçons e quaisquer pessoas que julgassem inferiores e acabei naturalizando isso em minha própria atitude.

Perceber isso agora sobre Jungkook me faz perguntar quantas pessoas já tratei dessa forma e eu me sinto um lixo.

— Todo mundo naquele restaurante era assim, hyung — Ele volta a tentar me tranquilizar, mas não surte muito efeito.

— Parece que vai ter música. — Taehyung diz de repente, parecendo atento à forma como estou prestes a me lamentar.

Yoongi levantou os olhos de seu celular e mirou sua atenção no pequeno espaço reservado para a banda, onde um grupo de dois caras e duas mulheres começa a se arrumar.

— Eles são bons — Carrapato disse, com um sorriso miúdo no canto dos lábios. E é estranho precisar admitir que, com um sorriso mesmo que mínimo, sua expressão parece completamente diferente. Muito mais convidativa e atraente.

O problema? Eu não sou o único a notar isso.

Taehyung também percebe e parece hipnotizado pela feição mais suave de Yoongi, então o olha como quem vê algo mágico.

Quando a música começa, então, eu puxo meu celular para fora e digito uma mensagem rápida para ele.

ei... eu falei com o jungkook e ele meio que disse que yoongi não está emocionalmente disponível. achei melhor te contar para evitar que.. você sabe... :/|

Depois de enviar o alerta, eu esperei meu amigo percebê-lo e lê-lo. Atento, eu vi quando ele recebeu meu aviso e em seguida me olhou com uma expressão chateada, mas conformada, e eu li em seus lábios quando ele disse um obrigado.

Então eu sorri e suspirei, olhando de canto para Jungkook, que bebe seu soju em silêncio.

Quando a segunda música começa, ele e Yoongi se entreolham quase automaticamente antes de rirem juntos.

— É nossa música, hyung — Jungkook disse, feliz da vida.

E eu não queria, mas sinto uma pontada de ciúmes e viro meu rosto para beber um pouco mais do meu próprio soju, tentando não enraizar esse sentimento ruim.

— Então, hm, Taehyung? — Jungkook o chama, instantes depois. — O que você gosta de ouvir?

Meu amigo pareceu pensativo, antes de revelar:

— Eu ouço de tudo, mas gosto muito de rap.

— Sério? — É Yoongi quem mais se atenta à sua resposta.

— Sim — Meu amigo respondeu, sem jeito. — Você gosta também?

— Muito. Eu já escrevi alguns, até.

— E são bons! — Jungkook avisou, orgulhoso. — Eu disse que ele deveria seguir carreira como rapper. Faria sucesso, hyung.

— Com o que você trabalha, Yoongi? — Taehyung questionou, verdadeiramente curioso.

— Assistência de software — Respondeu, antes de rir: — Particularmente, limpando o computador de Jungkook de vírus toda vez que ele baixa um, o que acontece pelo menos uma vez na semana.

— Isso é verdade... — Jungkook riu e apoiou sua mão na perna de Yoongi, o que parece um toque completamente natural entre os dois, mas faz meu coração acelerar feito louco. — Eu estaria perdido na vida se não fosse o Yoongi hyung.

— Não vou negar a responsabilidade — Yoongi sorriu para ele antes de virar o rosto para Taehyung novamente. — E você? Trabalha?

— Eu estudo design gráfico. Ainda estou na universidade, procurando um estágio, mas não é fácil...

Sem conseguir me concentrar na conversa, eu me sinto um pouco deixado de lado e, para piorar, percebo que a mão de Jungkook ainda está tocando Yoongi, acariciando-o de forma inocente, mas ainda assim...

Incomodado como não gostaria de estar, eu viro o resto do meu soju e levanto com um pouco de brusquidão. Antes de me afastar, apenas aviso, indisposto:

— Vou pegar mais uma garrafa.

À medida que me aproximo do bar, eu respiro fundo, tentando me livrar dessa sensação incômoda, mas é difícil já ter visto Jungkook beijando Yoongi, saber que eles já fizeram muito além disso e continuar inalterado diante da proximidade entre eles se eu sequer sei se eles já pararam de se envolver dessa forma.

No bar, então, eu gesticulo para Calvin ao pedir uma nova garrafa e, no espaço de tempo em que ele me entrega meu novo pedido e eu viro um novo gole direto do gargalo, eu percebo que alguém para ao meu lado e me olha atento, com um sorriso familiar.

— Parece que o acaso está mesmo determinado a fazer nossos caminhos cruzarem, não é, Park Jimin? — Ele diz assim que me viro para olhá-lo, o que me faz rir fraco em meio à minha frustração.

Na verdade, o que parece é que esse é o único bar da cidade.

Mas não quero ser grosseiro, então:

— Parece que sim, Okada Kenzo — Respondo, vendo-o com os caninos destacados, levemente pontiagudos e desalinhados, e a covinha única marcando presença outra vez.

— Já que não estamos em ambiente de trabalho, — Ele se aproximou mais, colocou a mão na base de minha coluna e se aproximou para beijar minha bochecha, tão rápido que sequer consegui esquivar. — um cumprimento mais caloroso não faz mal.

Eu mostro um sorriso que não é lá tão sincero, percebendo o rastro de seu perfume quando ele para tão próximo.

Tentando arranjar uma desculpa para afastá-lo, e viro meu corpo e aponto na direção do sofá onde estava minutos atrás.

— Taehyung está comigo. Não quer falar com ele? — Aviso. Ao fazê-lo, meus olhos pousam acidentalmente em Jungkook, e percebo que ele está me olhando de volta com aparente desconforto.

— Claro. — Kenzo sorri, então gesticula para Calvin, pedindo o mesmo que eu. Quando pega sua própria garrafa de soju, sua mão viaja novamente para minhas costas e ele diz: — Vamos?

Eu faço que sim junto a um sorriso desconfortável, então apresso o passo para caminhar mais à sua frente e me afastar de sua mão, o que acaba por funcionar.

Mesmo assim, quando chegamos ao sofá ocupado por minhas companhias, eu vejo que a expressão de Jungkook continua tensa enquanto seus olhos viajam alternadamente entre Kenzo e eu.

— Ué! — Taehyung abre um sorriso animado ao nos ver, e levanta num pulo. — Que coincidência!

— Nem me fale — Kenzo respondeu depois de aceitar o abraço amistoso de meu melhor amigo, então apontou com o polegar para mim. — Mas culpe o Jimin. É ele quem anda me atraindo como se fosse um ímã e eu, limalha de ferro.

Taehyung riu em confusão, com as sobrancelhas retraídas e o olhar curioso vagando em minha direção.

— Não entendi? — Ele disse, então.

— O destino parece muito disposto a nos fazer esbarrar por aí. Hoje mesmo passamos o dia juntos por puro acaso, mas não que eu esteja reclamando.

Minha percepção? Kenzo é direto, sem papas na língua ou vergonha de flertar e deixar claro que está interessado em mim. O problema? Ele está fazendo isso na frente de Jungkook, que fica com a expressão mais fechada a cada segundo, especialmente ao ouvir a última declaração do bendito.

— Nós fizemos um trabalho juntos. Um ensaio — Eu justifico casualmente, para o caso de Jungkook pensar qualquer outra coisa.

— Ah! — Taehyung finalmente parece compreender. — Que pecado tanta beleza junta.

Eu não posso discordar, mas adoraria que Kenzo ficasse calado sobre isso. O que ele faz, no entanto, é passar o braço ao redor de meu ombro e aproximar seu rosto do meu, risonho, antes de perguntar:

— Você acha que nossa beleza combina?

Taehyung finalmente parece se dar conta do que acontece, então seu olhar vai até Jungkook antes de voltar para o japonês, e ele sorri com visível desconforto.

— Deixa eu te apresentar aos outros! — Meu amigo desconversa, de supetão. — Esse é o Yoongi e aquele é o Jungkook. Kenzo estuda comigo, veio do japão, mas sabe coreano melhor que eu! E, ah, ele é modelo do mesmo estúdio que o Jimin!

— Olá, boa noite — Okada Kenzo disse, oferecendo aos outros dois o matador sorriso de caninos afiados e covinha única.

Então seu olhar finalmente pousou em Jungkook e sua expressão mudou, mas apenas por um breve instante.

Somente um momento de curiosidade velada antes que seu sorriso ganhe força outra vez, embora Jungkook pareça não reconhecê-lo (o que não o impede de continuar incomodado, e eu sei o motivo)

— Boa noite. — Ele responde sem entusiasmo, o que fica aparente para seu amigo. Então, logo Yoongi está olhando-o com preocupação.

— Tudo bem? — Ele pergunta, mas Jungkook desvia da pergunta e fica de pé, sem olhar diretamente para qualquer um de nós.

— Preciso ir ao banheiro — Foi tudo que ele disse, antes de rapidamente se afastar.

Como se entendesse tudo, Yoongi pousa seus olhos acusatórios em mim, mas Taehyung, em sua polidez inconveniente, piora a situação:

— Senta com a gente, Kenzo. — Ele oferece educadamente, acho que esperando que o convite seja rejeitado.

Mas é claro que Kenzo aceita.

Ainda sob o olhar irritadiço de Yoongi, eu dei a volta na mesa para sentar no sofá, e quase soltei um palavrão quando Okada Kenzo sentou ao meu lado, me deixando entre ele e o amigo mal humorado de Jungkook.

— Você vai mesmo ficar flertando com outro na frente do Jungkook? — O dito cujo quase rosna em meu ouvido, falando baixo para que só eu escute.

Eu o olhei horrorizado e, enquanto Taehyung e Kenzo conversam animadamente um com o outro, eu também diminuo meu tom de voz para ser escutado somente por Yoongi.

— Talvez você não tenha percebido porque está sempre ocupado demais em me julgar mal, mas Kenzo é o único que está flertando comigo. Eu não estou correspondendo.

— Então seja mais incisivo em mostrar, porque nem Kenzo, nem Jungkook parecem saber disso!

Eu o olho, completamente desacreditado.

— É muita cara de pau. Você e Jungkook já até se beijaram em minha frente e agora ficam trocando toques e carícias mesmo que eu esteja ao lado, mas o errado sempre sou eu?!

Yoongi pareceu furioso sobre minha colocação, até abriu a boca para falar algo, mas parece não ter nenhum argumento pronto para rebater, então fica calado.

Ótimo.

— Até você sabe que é desconfortável para mim — Eu digo com uma risada seca, antes de virar um gole generoso de meu soju.

Pelos segundos seguintes, as únicas vozes em nossa mesa são as de Taehyung e Kenzo e eu só percebo que fiquei o tempo todo olhando para a porta do banheiro quando vejo Jungkook sair por ela. Mas ele não volta para a mesa. Ao invés disso, ele vai até o balcão do bar, onde parece pedir uma nova bebida, e mesmo de costas eu consigo perceber sua postura cabisbaixa.

— Eu e Jungkook já transamos varias vezes — Yoongi volta a falar só para mim, e eu o olho quase a ponto de socá-lo.

Qual a necessidade de me falar isso, caralho?

— E nós somos amigos há muito tempo. — Continua, calmo apesar da minha reação. — Então eu sei quando ele me toca com segundas intenções e quando não. Esses toques que você viu... é um amigo tocando o outro. Jungkook não vê maldade nenhuma neles, por isso ele faz em sua frente.

Eu desvio meu olhar e volto a me embebedar, mas Yoongi não acabou.

— E faz muito tempo desde a última vez que Jungkook me tocou com alguma intenção diferente dessa, Jimin — Ele confessou, sem parecer frustrado por isso. — Desde o dia em que você nos viu juntos pela última vez, ele não parece ter nenhum interesse do tipo em mim.

Ainda em silêncio, eu procuro Jungkook e o encontro parado no bar, sentado num dos bancos altos.

— Eu sei que é difícil acreditar, mas Jungkook é muito mais inocente do que parece. Ele ainda é muito ingênuo.

A última afirmação de Yoongi me pega de jeito.

Não por ser uma surpresa, mas por ser exatamente algo que eu já tinha percebido, agora confirmado por alguém que o conhece há muito mais tempo.

Para finalizar, enquanto ambos vemos Jungkook pegar sua nova bebida e caminhar sem entusiasmo de volta para a mesa, Yoongi anuncia:

— Jungkook é carinhoso comigo em sua frente porque, primeiro, essa é a natureza dele. Segundo, porque agora ele não vê motivos para que você me enxergue como uma ameaça, justamente porque não temos mais qualquer envolvimento físico, por decisão dele. É assim que a cabeça oca do Jungkook funciona.

Sem chance de dar qualquer resposta imediata, meus olhos se atentam ao instante em que o assunto de nossa conversa para próximo à mesa novamente, mas vê que Kenzo está no caminho para que ele sente ao meu lado e sua expressão, já chateada, denuncia ainda mais tristeza quando se conforma em sentar longe de mim.

Com um suspiro, eu resolvo fazer algo sobre isso e toco em Kenzo, que imediatamente me olha com seu sorriso charmoso.

— Sim, Jimin?

— Troca de lugar comigo. — Eu peço ao apontar para Jungkook, que está de seu outro lado. — Queria sentar perto do meu acompanhante.

Como faço questão de não falar baixo, Jungkook escuta o que digo e seus olhos se enchem de súbita esperança e alívio, e eu o encaro de volta durante segundos ininterruptos, sabendo que Kenzo sofreu o efeito oposto.

Mesmo assim, ele realmente não me parece má pessoa. Está apenas atraído por mim (e quem vai julgá-lo por algo inevitável?) e, diante de minha possível disponibilidade, tentou consolidar seu interesse. Por isso, ao perceber que eu não estou tão disponível assim, sua expressão morre um pouco, mas eu ainda o vejo me mostrar um sorriso educado antes de assentir.

— Claro. Me desculpa... eu não sabia.

Eu aperto os lábios no sorriso mais sincero que ofereci para ele esta noite, e agradeci com um gesto quando nos levantamos e trocamos de lugar com alguma dificuldade.

Enfim sentado ao lado de Jungkook novamente, ele me olhou com ambas as mãos segurando sua garrafa de soju e a respiração lenta e cuidadosa. Em resposta, eu mandei um beijo no ar para ele, com ar divertido, e o vi sorrir numa reação genuína.

Agora, fica claro para Kenzo, mas principalmente para mim: eu e Jungkook sequer temos compromisso firmado um com o outro, mas desde já, de tão apaixonado, eu não estou disponível para mais ninguém.

E no fundo de meu coração calejado pelas incertezas de tudo que nos envolve, eu só espero que ele se sinta da mesma forma.

Ao passar dos minutos, que se transformam em horas com garrafas vindo cheias e voltando vazias, Kenzo foi embora, alegando que já estava cansado (e provocando alívio imediato em Jungkook), e nós quatro restantes embalamos em conversas atravessadas e distraídas.

— Mas vocês acham que é fácil? — Yoongi bradou, alterado por conta do álcool. — Jungkook passou a semana inteira, inteira!, falando sobre quando Jimin hyung — Eu percebo seu tom debochado ao imitar a voz de Jeon. — o levou ao cinema. Eu juro que ele não sabia falar de outra coisa!

Eu ri, tão ébrio que sequer me dou conta que estou rindo em companhia de Yoongi, quem jurei achar insuportável.

— Você está exagerando... — Jungkook resmungou.

— Estou? Jungkook, eu sei até quantas vezes as mãos de vocês se encostaram acidentalmente no balde de pipoca. Aliás, foram sete, caso alguém queira saber!

Taehyung riu lá na outra ponta do sofá e eu percebi a olhadela divertida que Yoongi direcionou a ele ao ouvir o som contagiante da risada de meu melhor amigo.

Yoongi parece mesmo não se lembrar de ter beijado Taehyung e Taehyung já parece conformado sobre isso, então eles estão se dando bem.

— Você gostou tanto assim? — Eu pergunto, atento a Jungkook.

— Foi o melhor encontro da minha vida, hyung...

Encantado, eu levo minha mão à sua nuca e o acaricio suavemente, então confesso, meio bêbado:

— Você não sabe quantos melhores encontros eu ainda quero te dar, Jungkook.

Ele piscou lentamente, meio ébrio, e riu quando eu subitamente bati minha mão na mesa.

— Quer saber? Vamos começar agora. Me diz todas as coisas que você quer fazer, mas nunca teve a oportunidade. Eu vou realizar cada uma delas.

Jungkook abriu os olhos em surpresa, antes de rir desacreditado.

— Hyung, essa seria uma lista muito extensa.

— Não me importo. Ande, comece a dizer!

Diante do silêncio de Jungkook, quem tomou a frente foi Yoongi.

— Assistir uma peça no teatro. Conhecer um parque ecológico. Tomar um banho de mar, ir para um lugar distante onde pode ver as estrelas e assistir o nascer do sol de mãos dadas com a pessoa de quem gosta. Esqueci alguma coisa importante?

Jungkook se encolheu, enquanto eu me ressinto ainda mais por ver quantas coisas simples ele deseja.

— Ah! — Yoongi lembrou. — E acampar. Um dos maiores sonhos dele é acampar.

Eu o olho com alguma ponderação no olhar, juntando os pontos de tudo que Yoongi disse a uma possibilidade muito próxima.

O aniversário de Nara.

Nele, podemos acampar, ver as estrelas e ficar acordados até ver o nascer do sol. E apesar da casa de veraneio da família de Eunjo não ser próxima do mar, ela é próxima a uma cachoeira, o que pode ser uma solução paliativa.

Entretanto, mais uma vez: é o aniversário de Nara. Seria esquisito aparecer lá em companhia de Jungkook, mas, levado pela embriaguez que comanda meus atos, eu irresponsavelmente sugiro:

— Eu posso te dar quase tudo isso no próximo fim de semana — Aviso, ouvindo a parte ainda racional de meu ser dizendo que essa é uma péssima ideia. Mas o álcool vence, então insisto: — Você quer, Jungkook?

— É sério, hyung? — Ele pergunta, desacreditado.

Antes que eu possa dizer que é, sim, muito sério e muito inconsequente, Taehyung se manifesta, parecendo preocupado sobre outra coisa:

— Gente... aquele amigo do Jungkook não estava esperando alguém? Por que ele está sozinho até agora?

Curiosos, nós todos olhamos na direção do bar, onde Hoseok continua, sim, sem companhia. Inclusive, checando as horas no relógio de pulso para em seguida suspirar.

— Acho que ele levou um bolo... — O próprio Taehyung conclui, compadecido. — Poxa, ele é tão bonito e simpático. Quem daria um bolo nele?

Eu não disse nada, mas não discordo de sua indignação frustrada.

Ainda em seu monólogo assistido, então, Taehyung encheu os pulmões e ficou de pé. Antes de se afastar quase aos tropeços, avisou:

— Vou ver se ele quer sentar com a gente.

Nenhum de nós três se opõe à ideia, apesar de Yoongi parecer indisposto para ficar por muito mais tempo, o que me passa a sensação de que nossa noite não demora para acabar.

— Duas horas esperando... — Eu aponto ao perceber quanto tempo se passou. — Ou ele é muito trouxa, ou tem esperança demais.

— É quase a mesma coisa — Yoongi responde, balançando sua garrafa de soju para se certificar de que está vazia.

— Vai pegar outra? — Jungkook questiona, mas Yoongi nega, bocejando.

— Eu mal dormi de ontem pra hoje. Acho que vou para casa — Apesar de seu suposto achismo, ele já está tirando a carteira do bolso para deixar a quantia equivalente às bebidas sobre a mesa. — Aproveitem o resto da noite.

Jungkook assentiu e me doeu o coração, irracionalmente, quando o vi se inclinar para beijar o amigo na bochecha, mas eu tento lembrar do que Yoongi disse para não me deixar afetar tanto por isso.

Não que funcione.

— Tchau, mauricinho. — Carrapato diz para mim, gesticulando desleixadamente.

Indisposto e inevitavelmente enciumado, eu apertei meus lábios e devolvi seu gesto, vendo suas costas quando ele caminha para fora do bar e, no caminho, dá um tapinha de despedida nas costas de Taehyung, que está ao lado de Hoseok, aparentemente convencendo-o a vir para nossa mesa.

— Então? — Jungkook perguntou, ansioso. — Viu que o Yoongi é legal?

— Ele não é tão ruim — Cedo, percebendo que minha própria garrafa também já está vazia. — Você quer beber mais?

Jungkook repuxa o lábio com seus dentes, coisa que não é suficiente para esconder seu sorriso, e inclina a cabeça levemente para o lado num trejeito travesso enquanto seus olhos têm esse brilho tão atravessado quanto sua postura.

— E se ao invés de beber... — Ele fez sua contraproposta, esticando sua mão até tamborilar seus dedos em meu joelho para, em seguida, apertá-lo sugestivamente. — eu preferir aproveitar um pouco sua companhia?

Em resposta à sua provocação quase sutil, eu deslizei minha língua por meu lábio, prendendo-a fora por um instante quando Jungkook se aproxima mais, mantendo sua mão em minha perna e inclinando seu corpo para o meu enquanto seus dedos alcançam uma mecha do meu cabelo, empurrando-a para trás como se para prendê-la detrás de minha orelha.

— Uma semana inteira sem te ver e sem te beijar é muito tempo, hyung...

Eu recostei meu corpo no encosto, o que não quer dizer que estou recuando, e relaxei meus ombros quando apoiei minha mão em seu ombro para brincar com a gola de sua blusa enquanto meus outros dedos se infiltram suavemente pelo rasgo da calça em sua coxa.

— Nós deveríamos começar a nos ver durante a semana, Jungkook-ah?

— Por favor, hyung...

Percebendo seus olhos agora mirados em minha boca, eu propositalmente mordisco meu lábio inferior antes de brincar com minha língua, me sentindo mais atiçado e sedento por atiçá-lo também por conta de todo o álcool.

Quando ele resfolega pesadamente e o momento de nossas bocas se encontrarem parece tão próximo, a voz de Taehyung se ouve além da música eletrônica que está tocando desde que a banda acabou.

— Olha quem consegui arrastar! — Ele diz alegremente, mas assim que eu e Jungkook suspiramos em frustração, arrancados de nossa bolha de tensão, eu vejo a expressão de meu melhor amigo murchar um pouco. — Ops...

— Parece que nós atrapalhamos alguma coisa... — É Hoseok quem comenta.

Oh, eles juram?

— Talvez... — Taehyung pondera, olhando para o de cabelos vermelhos, muito mais solto agora que está levemente embriagado. — E se nós deixarmos esses dois se curtirem?

— Minha companhia é suficiente para você? — Hoseok respondeu, antes de abrir um sorriso charmoso. — Que honra.

Taehyung riu sem jeito, mostrando que ele ainda está com um pé na sobriedade.

— Então, hm... Jimin? Você se importa? — Ele me perguntou, esperançoso.

— Aproveite a noite — É minha resposta, que o faz sorrir entusiasmado antes de ser tocado suavemente por Hoseok, que sugere:

— E se nós pararmos de beber e formos comer algo?

— Essa parece a melhor ideia. — Meu amigo anunciou e eu não acredito que estou vendo, pela primeira vez, Kim Taehyung realmente flertar com um cara.

Presos no próprio mundo, os dois bobos sorriram um para o outro antes de voltarem a olhar para mim e para Jungkook.

— Certo, então vamos indo. Divirtam-se!

— Vocês também — Jungkook responde com uma risada discreta, mas que não me passa despercebida.

Assim que eles se afastam e param no balcão para pagar a parte da conta, eu e o irresistível e adorável cara ao meu lado nos entreolhamos antes de cairmos na risada.

— Isso sim foi inesperado.

Ele ainda riu mais um pouco, então se aproximou até deitar a cabeça preguiçosamente em meu ombro e me beijar o pescoço em inocência.

— Obrigado por essa noite, hyung. Por conhecer o Yoongi hyung e por me deixar conhecer alguém importante para você — Ele disse, carinhosa e desajeitadamente me abraçando da forma que é possível. — Você me deixou muito feliz.

Eu sorri sem precisar forçar, acariciando sua nuca para mostrar que amo a posição em que estamos agora.

Então, Jungkook completa com a voz abafada:

— Você sempre me deixa tão feliz quanto com tesão, hyung...

— Essas são as únicas coisas que te faço sentir?

Jungkook nega, afastando sua cabeça para me olhar outra vez, coisa que me dá a chance de ver outra vez suas bochechas levemente avermelhadas por conta do álcool e do calor.

Então, confessa:

— Você me faz sentir tantas coisas que me assusta...

Eu sorrio um pouco mais satisfeito, acariciando seu rosto antes de beijá-lo demoradamente na bochecha.

— Quer sair daqui? — Ofereço, então.

Com um movimento lento, porém não hesitante, Jungkook faz que sim à minha pergunta e, sem demora, eu me estico para pegar o dinheiro que Yoongi deixou antes de ficar de pé e seguir com ele até o bar.

Quando encosto no balcão para pedir a conta a Calvin, mal tenho tempo de esticar minha mão para pegar a carteira no bolso traseiro de minha calça, porque Jungkook me abraça pelas costas, apertando com força suficiente para prender meus braços, e me dá um beijo demorado no pescoço.

Não sei se tinha a intenção de me arrepiar, mas arrepiou mesmo assim.

— Hoje eu pago, hyung.

Eu virei o rosto um pouco mais para trás para observá-lo, o que acabou por oferecer minha bochecha para que ele a beije também. E ele o faz, depois desliza a ponta de seu nariz por minha pele e, por último, me beija novamente.

Rendido por isso, eu sequer tive forças para insistir em pagar pelo menos minha parte porque, quando dei por mim, Jungkook já estava entregando o dinheiro a Calvin.

Com sua mão encaixada no bolso frontal de minha calça e a outra acariciando meu braço enquanto esperamos o troco, ele ainda me dá uma sequência de beijos suaves pelo pescoço e bochecha.

— Você vai dormir comigo? — Ele pergunta, então.

Naturalmente minha resposta já seria um sim, mas diante de seus toques que parecem tão carinhosos quanto provocantes, eu nem penso antes de recostar meu corpo ainda mais contra o seu, fechar os olhos e balançar a cabeça para cima e para baixo.

— O troco. — De repente, a voz de Calvin se faz ouvir, e eu pisco lentamente antes de vê-lo coçar a nuca desajeitadamente, e dizer: — Manda um oi pro Keanu Reeves. O cacto, não o ator.

Logo em seguida, Jungkook riu e Calvin fez uma careta, como quem se sente ridículo por mandar um oi para uma planta.

Mal sabe ele que isso não é nada, já que eu e Jungkook literalmente conversamos com o peludinho.

— Certo. Vou mandar. — Jeon garante, então, e guarda seu troco antes de me beijar uma última vez no rosto. — Vamos, hyung.

Eu assinto, mais embriagado por ele que pelo álcool, e sorrio quando Jungkook toma a iniciativa de entrelaçar sua mão à minha sem precisar pedir permissão.

Pela calçada em direção ao seu apartamento, nós caminhamos assim, de mãos dadas e em silêncio, alternando chutes em uma pedrinha que apareceu em nosso caminho. Até que, quando fui tentar ser mais ousado e dar um chute mais forte para jogá-la longe, quase perdi o equilíbrio e caí para trás, mas fui amparado pelo abraço ágil de Jungkook e por sua risada.

— Cuidado, hyung — Ele diz, ainda rindo quando paramos no meio da calçada da rua mal iluminada, com seu braço firmemente agarrado ao redor de meu corpo. E eu percebo a pressão. Percebo a tensão, o toque de meu peito contra o seu e a forma como seu sorriso morre aos poucos enquanto eu não consigo desviar os olhos de sua boca.

— Uma semana sem te beijar... — Eu lembro num fio de voz, respirando com um pouco de dificuldade.

Parecendo derrubar sua última barreira assim como eu, o abraço de Jungkook se intensifica em mim e eu resfolego em uma surpresa prazerosa quando ele empurra meu corpo em dois passos, me fazendo recuar até chocar minhas costas na parede. Imediatamente, suas mãos desceram até meu quadril e nós nos olhamos no silêncio da rua escura e vazia, ambos respirando devagar até que Jungkook dá fim à espera e avança sua boca na minha, que é imediatamente recebida com minhas mãos em sua nuca, puxando-o ainda mais para perto desesperadamente.

Eu mal consigo respirar, mas não consigo resistir ao impulso de continuar beijando-o, sentindo nossos lábios se succionarem simultaneamente, tão intenso que quando se separam, estalam. Mas então, no mesmo segundo, ambos avançamos a boca na direção do outro, encontrando nossas línguas e chocando nossos dentes no meio de nossos toques afoitos.

Quando as mãos de Jungkook escorregam até minhas nádegas, pressionando-as com vontade, ele chupa meu lábio inferior deliciosamente antes de perguntar, rouco:

— Você deixaria outro homem te tocar assim, hyung?

Eu suspiro com suas mãos em minha bunda e não resisto em fazer o mesmo, então desço minha palma direita por todo o caminho até pressionar sua nádega em retaliação.

Tonto demais para dar uma resposta verbal, eu inclino minha cabeça até conseguir alcançar seu pescoço com minha boca, então deslizo minha língua por sua pele antes de chupá-la demoradamente.

Jungkook suspira, mas insiste:

— Responde, hyung...

Eu continuo apalpando seu corpo, enlouquecido pela forma como ele também me toca, e infiltro minha outra mão em sua cintura, por baixo de sua blusa, arranhando-o sobre as costelas.

— Você está perguntando isso por causa de Kenzo? — Devolvo, percebendo seu novo suspiro ao toque de minhas unhas em sua pele.

Ele parece perdido entre as sensações de nossos toques afoitos e a conversa, e parece distante quando finalmente fala algo.

— Eu preciso me preocupar com ele? — Mais uma pergunta.

Eu sorrio e umedeço meus lábios. Mesmo embriagado, eu tenho muita certeza da minha resposta.

— Olhe para mim. — Eu peço, quase em tom de ordem, e Jungkook me olha sob os cílios, resfolegando pelo toque constante de minhas mãos em seu corpo. Agora que tenho sua atenção, eu digo: — Você não precisa se preocupar com ele — Então, apoio minhas palmas em sua cintura, carinhosamente. — Nem com nenhum outro homem — E beijo o lado esquerdo de seu rosto. — E nenhuma mulher — Dessa vez, beijo o direito: — Porque a única pessoa que quero se chama Jeon Jungkook. — E finalizo, olhando-o nos olhos depois de um selar de lábios: — Eu quero você. Só você.

Diante de minha confissão, Jungkook pisca lentamente e acho que nem percebe que seus lábios estão entreabertos. Eu literalmente consigo ouvir sua respiração.

— E eu, Jungkook? — É minha vez de saber. — Eu preciso me preocupar com Yoongi ou com outro alguém?

Ele balança a cabeça para os lados, negando, mas o que sai de sua boca mata minha alma um pouco mais.

— Se dependesse de minha vontade, eu seria só seu, hyung... e de ninguém mais.

❥ [Continua...]

Chapter Text

A vida tem dessas, não é? De fazer a gente acreditar que as coisas vão ficar bem, só para quebrar nossa cara depois.

quebrar a cara nem parece ser a expressão certa para usar agora. Parece que meu coração quebrou também.

— Se dependesse de minha vontade, eu seria só seu, hyung.

Se eu fosse descuidado agora, como em muitos momentos fui, poderia interpretar o que Jungkook disse como algo bom. Ele disse que gostaria de ser só meu, não é? Isso é ótimo. Isso é maravilhoso.

Mas não depende só dele.

E assim como não sei com quem ou com o que além dele isso tem ligação de dependência, eu não sei exatamente o que sua confissão levemente embriagada significa, na totalidade.

Quer dizer que Jungkook não é, nem pode ser só meu? Que eu não posso ser o único?

Com a frustração alcançando minha voz, eu pergunto:

— O que isso quer dizer, Jungkook?

Talvez se dando conta do que acabou de falar, eu vejo seus olhos se encherem de espanto e arrependimento antes que ele recue com um passo para longe de mim e apoie a mão na testa, parecendo se sentir tonto.

— Eu acho que bebi demais. — Ele diz e eu juro que posso vê-lo tremendo.

Eu também me sinto mais tonto e até um pouco enjoado agora, mas o álcool não é o único culpado.

— Jungkook. — Eu o chamo com toda a firmeza que pode existir em meu olhar e em minha voz. Então, repito lentamente: — O que isso quer dizer?

Ele não diz nada. Parece a cada segundo mais desesperado, louco para fugir de mim.

E eu achei que poderia lidar com isso. Eu achei que poderia suportar sozinho alguns segredos, que poderia entender os que ele quer guardar, mas a insegurança machuca. A incerteza do que tudo isso significa, e do que pode significar para ele, dói.

Assim como ele abaixa a cabeça, eu também abaixo a minha e fecho os olhos com força antes de passar as mãos pelo rosto e jogar o cabelo para trás em mais um gesto frustrado.

— Ultimamente eu estou sempre tão preocupado em ser bom para você, em tentar ser compreensivo, em colocar um sorriso no seu rosto... que esqueci de fazer o mesmo por mim, Jungkook. — Confesso, angustiado.

Ele me olhou com culpa nos olhos, mas não é isso que eu quero. Eu não quero que ele se culpe. Quero que ele abra o jogo comigo, que me deixe saber onde estamos e onde podemos chegar.

— Toda vez que eu acredito que as coisas vão dar certo entre nós dois, acontece algo que me prova que nós continuamos dando errado a cada tentativa. — Continuo, sem esconder minha tristeza. — Mas eu quero tanto dar certo com você, Jungkook. Eu quero tanto, tanto, então por favor...

— Hyung, eu me expressei mal. Eu não quis dizer que...

Eu rio de tristeza e faço um gesto negativo, interrompendo-o.

— Não faça isso. Por favor, Jungkook-ah. Eu entendo que você pode não se sentir confortável para compartilhar algumas coisas comigo, mas isso tudo é injusto demais. Você sabe que eu estou apaixonado por você e sabe que isso me faz criar expectativas sobre nós dois, então seja sincero pelo menos sobre isso. Só me diga se meus esforços são em vão e se isso tudo nunca vai dar em nada, por favor. Eu mereço saber.

Eu o vejo recuar ainda mais e massagear a nuca num gesto nervoso, mas o que ele diz só me deixa ainda mais desiludido:

— Eu realmente não estou me sentindo bem, hyung...

É isso.

Ele não vai falar.

Jungkook não pretende ser sincero comigo e isso me destroi, porque eu sei o que significa.

Eu e ele... eu e Jungkook não vamos dar certo.

Mas antes que me entregue de vez à melancolia da antecipação, eu sinto quando ele se aproxima novamente e me toca pela cintura, com cuidado, antes de me puxar tão cuidadosamente quanto e me abraçar, com sua testa apoiada na lateral de minha cabeça enquanto mantenho meus olhos fechados.

— Eu não estou me sentindo bem agora, então vamos conversar amanhã. — Ele pede contra meu ouvido, tão baixo que me arrepia. — Amanhã, quando estivermos bem, sem álcool... por favor? Por favor, hyung.

Eu estarei me iludindo se acreditar que ele pretende mesmo ter uma conversa sincera comigo quando acordarmos?

Embora parte de mim acredite que ele está torcendo para que eu esqueça de tudo isso depois de uma noite de sono, eu quero acreditar que ele está sendo sincero.

— Amanhã... sem mais desculpas. Sem mais mentiras e segredos. Você promete? — Eu peço, torcendo como louco para não estar fazendo papel de bobo.

Em resposta, Jungkook balançou sua cabeça ainda apoiada contra a minha, para cima e para baixo, e alcançou minha mão com a sua, então entrelaçou nossos dedos antes de selar minha boca demoradamente.

— Eu prometo.

Ainda sem me sentir completamente seguro sobre tudo isso, eu decido me permitir uma última noite de incerteza. Mas é a última.

— Vamos sair daqui. — Eu digo, então, lembrando que ainda estamos no meio da rua, a caminho de seu apartamento.

Jungkook respira fundo e me dá mais um selinho antes de, ainda com sua mão entrelaçada à minha, se afastar mais um pouco e me olhar intensamente com seus olhos que sempre me hipnotizaram tanto. Então ele tocou minha bochecha com sua mão livre e, como se hesitasse, afastou seus dedos de mim e desviou o olhar antes de tomar a frente para nos guiar até sua casa.

E então não falamos mais nada durante todo o percurso, apesar de nossas mãos continuarem unidas, como se fosse a última vez que poderemos fazer isso.

Em silêncio, entramos em seu apartamento. Em silêncio, nos preparamos para dormir.

Ainda sem trocar muitas palavras, eu o vi arrumar o ventilador portátil que comprei, posicionando-o para nós dois, e depois o vi olhar de forma quase melancólica para o aparelho.

— Eu durmo bem melhor desde que você me deu o ventiladorzinho, hyung... — Ele disse, olhando para mim com um sorriso envergonhado.

Eu sorri de volta para ele, ainda sem grande entusiasmo, mas ainda assim feliz por saber que meu presente foi bem recebido.

Jungkook merece dormir como um príncipe e merece todo e cada ventilador azul-jungkook que exista nesse mundo.

Percebendo que não estamos em clima de conversa, ele se conforma em ter o assunto encerrado por aqui e se aproxima da cama onde já estou sentado. Quando o vi deitar timidamente com a cabeça nos travesseiros, eu percebi seu corpo coberto por uma bermuda de moletom e uma blusa de mangas curtas, com os pés completamente expostos.

Ele tem medo de dormir com os pés descobertos.

Com um suspiro, eu me movi sobre o colchão antes que ele apague a luz no interruptor ao lado da cama, e puxei a colcha dobrada até usá-la para cobrir os pés dele.

Depois, sem esperar qualquer reação sua, eu voltei a me deitar ao seu lado e, ao fazê-lo, percebo a forma como ele me olha agora.

Jungkook é tão transparente. Por mais que ele seja bom em fingir, seus olhos sempre entregam o que ele sente de verdade.

E agora é uma confusão. É admiração e carinho, mas é também medo e arrependimento.

— Boa noite, Jungkook. — Eu digo, com medo do que seu olhar significa agora, desejando apenas dormir para não pensar mais nisso.

Então eu viro as costas para ele, para esconder minha própria expressão que entrega tudo que sinto, e ouço ele dizer baixinho um boa noite, hyung enquanto eu tento me forçar a pegar no sono e escuto sua respiração ao meu lado.

Algum tempo se passa sem que eu me mova, mas também não consigo dormir. E apesar de acreditar que Jungkook não teria o mesmo problema, segundos depois eu sinto seu corpo se mover cuidadosamente sobre a cama e quase entrego que ainda estou acordado quando sinto seu peito tocar minhas costas e seu braço me envolver antes que ele encoste a testa em minha cabeça.

— Você já dormiu? — Ele pergunta tão baixo que quase não escuto, com a voz sonolenta e embriagada.

Mas apesar de ouvir, eu não respondo, porque tenho medo de que de alguma forma seu abraço se desfaça caso ele descubra que estou acordado.

Essa é a primeira vez que ele me abraça para dormir. Me entristece saber que é quando não estou em condições de retribuir.

E diante do meu silêncio, Jungkook parece acreditar que já estou preso em um sono profundo, porque instantes depois eu sinto seu suspiro em meus cabelos, em seguida recebo um beijo leve na cabeça.

E ele diz, como a um passo de cair no sono:

— Eu acho que você vai me deixar, mas eu gosto tanto de você, hyung...

Meu coração, já confuso e medroso, não fica muito consolado depois de ouvir isso.

Eu não quero deixar Jungkook. Ele sabe disso. Então por que ele acha que eu vou?

Preso a essa confusão, eu tenho o que pode ser facilmente colocado no topo da lista de piores noites de sono da minha vida.

Eu passo a madrugada em claro e apenas consigo dormir quando o dia está quase amanhecendo, mas não durmo bem. Por isso, quando acordo, eu me sinto completamente moído.

E sozinho.

Jungkook não está na cama, nem em outro lugar do quarto ou no banheiro, então eu levanto e vou até a sala e cozinha, onde vejo que ele deixou meu café da manhã servido junto a um bilhete.

Fui trabalhar, mas não esqueci de nossa conversa. Por favor, passe o dia no apartamento. Eu preparei café da manhã pra você e tem almoço na geladeira, é só esquentar no forno. À noite eu levo nosso jantar e nós conversamos.
P.S.: você é lindo até enquanto dorme.
P.S.2: eu lavei sua cueca.
P.S.3: você é lindo também logo depois de acordar. Aposto que está lindo enquanto lê isso. Você é lindo sempre, hyung.
P.S.4: a cueca lavada tá atrás da geladeira, pra secar mais rápido (não demore pra tirar pq isso estraga o refrigerador e aumenta a conta de energia)
P.S.5: o desenho ali no canto era pra ser um cacto

Jungkook.

Eu fui de extremamente tenso a lisonjeado, então divertido, mais lisonjeado ainda e terminei rindo como um idiota, mesmo que minha cabeça esteja doendo pra caramba. Isso tudo com um só bilhete.

Jeon Jungkook... você é mesmo a pessoa mais incrível que eu já conheci.

E como me recuso a não respondê-lo, eu vou até seu quarto logo depois de tirar a cueca lavada de trás da geladeira, e pego meu celular que já está nos últimos momentos de bateria.

Mesmo vendo que recebi várias mensagens, antes de qualquer coisa abro a conversa com Jungkook.

Obrigado pelo café. Bom trabalho, vou ficar te esperando. P.S: você também é lindo enquanto dorme. P.S.2: obrigado por lavar a cueca. P.S.3: aposto que você vai estar lindo quando estiver lendo essa mensagem, porque também é lindo sempre. P.S.4: já tirei a cueca de trás da geladeira|

Meu celular está morrendo e seu carregador não encaixa (tomei a liberdade de tentar), então se acontecer alguma emergência e quiser falar comigo, você sabe onde me encontrar|

P.S.5: sobre o que você disse quando achou que eu estava dormindo... eu também gosto muito de você. E você vai precisar se esforçar muito se quiser que eu desista de nós dois. Vamos conversar com calma e ver no que dá.|

E, ah: 🌵|

Depois de dizer tudo que eu gostaria de dizer a ele ao menos por agora, eu aproveito a porcentagem restante da bateria para ver as outras mensagens. De Jiwon, Taehyung e Nara.

Jiwon
|jimin vo ce está bem

Oi, coruja. Estou bem. Dormi na casa de Jungkook. Lembra dele?|

Não volto para casa antes do fim do seu expediente, mas não precisa se preocupar, ok?|

Taehyung
|O hoseok é maravilhoso!!! Nós nos divertimos muito ontem (até trocamos números e tudo, mas ainda não rolou nada)

Taehyung
|Falando em número, me manda o do Yoongi? Queria mostrar umas músicas pra ele

Meu celular está descarregando, mas depois vou querer detalhes. Quando Jungkook chegar eu passo o número do carrapatinho|

Nara
|Só para não parecer que eu estava sendo impulsiva: você está realmente convidado para meu aniversário. Espero que possa ir! Saudades de conversar com você.

Eu vou tentar ir. Obrigado pelo convite. Também estou com saudades de conversar com você, mesmo que você perca a paciência comigo a cada cinco minutos :x|

Assim que envio a mensagem de Nara, uma memória um pouco conflituosa vem à minha mente.

Eu chamei Jungkook para ir para o aniversário dela?

Puta merda...

Será que ele lembra?

Eu não acho que ir ao aniversário de Nara acompanhado da pessoa com quem tecnicamente a traí seria uma boa ideia.

Quer dizer, eu sei que ela está tentando não guardar mágoas, mas isso parece um pouco demais.

E enquanto eu gostaria de mandar uma mensagem de socorro para Sunhye pedindo seus conselhos mágicos sobre isso, meu celular descarrega de vez e eu sequer tenho a chance de procurar sua conversa.

Ok. Uma coisa de cada vez. Primeiro eu preciso me resolver com Jungkook e eu nem sei se vamos sobreviver à conversa de hoje. E eu quero muito ficar bem com ele, também não menti quando disse que ele vai precisar se esforçar para me fazer desistir de nós dois. Mas eu honestamente não sei o que esperar do nosso esclarecimento, então sequer posso descartar a possibilidade de que, essa noite, tudo irá pelos ares.

— O que você acha, Keanu? — Eu pergunto ao miúdo quando sento diante dele, na janela, para comer o café-da-manhã que Jungkook preparou para mim.

Nenhuma resposta vem, então eu suspiro e mordo um pedaço do samgak kimbap bem temperado enquanto observo o gominho peludo que continua a crescer numa das extremidades.

— Você é tão fofo. Tão jungkook, como seu pai. — Me lamento e mordo mais um pedaço do kimbap, mesmo com a boca cheia.

Keanu continua calado (graças a deus, eu entraria em pânico caso ele começasse a falar de repente), mas eu sigo me lamentando do mesmo jeito.

— Eu não quero precisar me afastar de vocês dois. Se isso acontecer, será que você pode enfiar seus espinhos na minha bunda para que eu fique com raiva e sinta menos saudades?

Cansado do silêncio, eu enfio o resto do bolinho de arroz temperado na boca e deixo meu corpo cair para trás para que eu foque minha atenção no teto inteiramente branco, tão sem cor quanto as paredes do quarto de Jungkook. E perdido no ócio, eu rapidamente volto a me sentar quando tenho uma ideia, então lavo o pratinho colorido onde estava a comida que já devorei (acho que estou ficando bom nisso de lavar pratos) e passei uma água no corpo antes de tomar a liberdade de vestir uma roupa de Jungkook.

Munido com minha carteira e vestido como um louco, coisa que seu bairro simples me permite fazer, eu saio do apartamento em busca de alguma loja que tenha o que procuro. Mas, para não andar feito barata tonta, eu passo na loja de conveniência já conhecida para pedir informação.

Eu só não esperava encontrar Kenzo aqui.

Sério, não esperava mesmo.

Qual é, o destino está tentando nos juntar de verdade, por um acaso?

— Jimin. — Ele diz, surpreso ao me ver quando sai da fila com uma sacola em mãos.

— Ah... oi. — Eu o cumprimento de volta, meio sem jeito.

Ele abriu a boca para falar mais algo, mas parece mudar de ideia no meio do caminho e acabou rindo.

— Eu já ia fazer mais um comentário sobre como o acaso nos quer juntos. É mais forte que eu.

— Acho que não posso te julgar. É o que? O terceiro encontro acidental em dois dias?

Ele riu com o rosto abaixado, antes de me olhar com os dentes repuxando seu lábio num gesto nervoso, enquanto a covinha única aparece a cada mínimo movimento de sua boca.

— Sobre ontem... me desculpe. Eu não sabia que você estava acompanhado. Espero não ter criado nenhuma situação muito chata.

— Relaxa, ficou tudo bem — Não exatamente, mas acabou nem sendo culpa dele então não preciso dizer.

— E, é... o Jungkook? Fiquei um pouco surpreso de te ver com ele. Não imaginei que...

— Você já o conhecia? — Pergunto, com o cenho franzido. Isso explica por que ele ficou estranho por um segundo ao ver Jungkook em minha mesa.

— Não diretamente, mas ele é conhecido por aqui.

Eu não quero saber o porquê, quero?

— Por que?

Kenzo me olhou com a expressão pensativa, então seu olhar desviou até a porta quando um novo cliente entrou e fez soar o sino preso à entrada. Em seguida, ele voltou a olhar para mim e negou.

— Eu preciso ir, Jimin. Tenho que passar em casa e depois ainda vou para a aula. Nos falamos depois? Eu não estou com meu celular, mas posso te passar meu número.

— Também não estou com o meu. Vim despreparado e ele descarregou.

— Então acho que nos esbarramos por aí, quando a vida assim desejar. — Ele sorriu, gesticulando com a mão livre antes de se esquivar de minha pergunta.

Antes que ele saia da loja, então, eu respiro fundo e espero não estar fazendo besteira, porque logo virei em sua direção e o chamei:

— No caminho para sua casa tem alguma loja de artigos de decoração? — Kenzo pareceu ser pego de surpresa por minha pergunta tão específica, mas acabou fazendo que sim com a cabeça. — Ótimo. Vou com você.

Ele não se opôs, diferente de parte da minha racionalidade, e antes de sair a última coisa que vi foi que o novo cliente é Sungwon, o tal Sung, o amigo de Jungkook que tentou agarrá-lo à força. E ele me viu também.

Fora da loja, meu sangue quase ferveu e me fez voltar para dentro só para socá-lo porque eu ainda não o perdoei, mas a voz de Kenzo me chamou à razão.

— É por aqui. — Ele disse, apontando para a direção na qual fica também o apartamento de Jungkook. — Então... o que você quer comprar?

— Antes dessa conversa, será que você pode responder minha pergunta? — Eu o intercepto, até um pouco rude. — O Jungkook. Por que ele é conhecido por aqui?

Kenzo suspira, como se quisesse evitar esse assunto.

— Eu ouvi alguns boatos — Ele disse. — Mas não sei se são verdade, então não vou espalhar ainda mais. Desculpe, Jimin. Eu não gosto muito dessa coisa de falar sobre o que não sei.

Eu o olhei com atenção por um segundo antes de suspirar, acho que aliviado.

Quer dizer, eu desconfio de quais sejam os boatos e fico feliz que Kenzo, mesmo sendo um em um milhão, não espalha coisas sobre Jungkook sem conhecê-lo.

— Você é um cara bacana, Okada Kenzo — Eu anuncio, então, com um sorriso simpático de verdade.

— Bacana o suficiente para ter uma chance com você?

Eu ri. Mas neguei.

— Sinto muito. Você chegou um pouco tarde.

— Isso quer dizer que, se eu tivesse chegado antes, teria?

— Não foi isso que eu quis dizer, na verdade.

Ele apertou os ombros, conformado, mas com um sorriso miúdo que faz a covinha se destacar ainda mais.

— A vida é imprevisível. Talvez algum dia você mude de ideia — Ele disse, então apontou para o outro lado da rua. — A loja é ali. Até o próximo encontro ao acaso, Park Jimin.

Eu sequer tenho a chance de cortar sua esperança pela raiz, porque Kenzo não me dá a chance de fazê-lo e logo está se afastando, seguindo pela calçada em direção à sua casa.

Sozinho, eu balanço minha cabeça para me focar novamente e atravesso até a loja colorida e cheia de artigos de decoração baratos.

Como não é grande, eu não demoro para fazer um tour entre as opções, assim como não demoro para encontrar vários quadros sobrepostos no chão e apoiados na parede. E avaliando as opções que vão desde uma cesta de frutas até filhotes de um animal que pode ser um gato ou um Gremlin, eu encontro um que parece perfeito.

A pintura de vários frascos com flores de todas as cores, inclusive com um cacto quase no centro.

É meio cafona, mas é colorido como Jungkook gosta e tem um cacto.

Depois de checar o preço (e me surpreender ao descobrir quão barato pode custar um quadro, já que todos os que estão espalhados por minha casa vieram de leilões ou foram feitos sob encomenda com artistas de renome), eu carrego o troço até o balcão que fica nos fundos da loja, no meio de um monte de quinquilharia, e pago pelo novo presente de Jungkook antes de enfiá-lo debaixo do braço e fazer todo o caminho de volta com ele.

Já no apartamento, eu o deixei no chão para que Jungkook escolha onde pendurá-lo e gastei os minutos seguintes procurando algo para fazer, então tentei assistir TV, fiz abdominais e flexões de braço, revisitei as fotos do álbum da infância de Jungkook, reorganizei seus pratos e copos coloridos na ordem de cores do arco íris (ou pelo menos tentei), tirei dois cochilos e ponderei a ideia de fazer um pão, mas desisti ao lembrar do fracasso da minha última tentativa.

E esse pão não será entregue a Jungkook em nenhum estado abaixo da perfeição.

Mas apesar do tédio que vez ou outra se abateu sobre as horas do meu dia no apartamento pequeno e simpático, eu apreciei a liberdade. É bom estar num lugar com a certeza de que meus pais não vão aparecer a qualquer momento para estragar qualquer traço de bom humor que se instale em mim.

Mas o melhor mesmo é quando, já à noite, outra pessoa aparece.

— Jungkook. — Eu o cumprimento ao vê-lo entrar ainda vestindo seu uniforme da cafeteria, e ele sorri ao me ver.

— Oi, hyung.

Eu sorri um pouco também, a despeito do que nos espera agora que nos encontramos novamente.

— Ah, eu trouxe o jantar, como prometido. Não tinha suco de melancia, então eu trouxe leite de banana pra nós dois e... — Ele olhou para as sacolas que traz na mão, até lembrar: — E eu fiz uma tortinha de morango pra você.

— Ainda bem, eu ficaria muito desiludido se você não fizesse.

Ele riu um pouco mais e empurrou a porta para fechá-la, em seguida deixou as sacolas na mesa de dois lugares e me olhou, parecendo um pouco tenso, mas o que quer que ele fosse dizer foi interrompido quando seus olhos pousaram no imenso quadro que comprei.

— O que é isso? — Ele perguntou, assustado.

— Comprei para você. Para colocar no seu quarto... sabe? Você gosta de coisas coloridas, mas quase não tem cor lá, então...

— É meio cafona. — Ele ponderou, analisando a pintura barata. Então sorriu genuinamente. — Eu amei, hyung!

Eu ri, olhando por cima do ombro para o novo quadro.

— É. Cafona, colorido e com um cacto perdido ali no meio. É sua cara.

Eu acho que qualquer pessoa poderia ficar ofendida ao ouvir alguém dizer que algo cafona é a sua cara, mas não Jungkook. Jungkook fica feliz de verdade por confirmar que eu sei bem do que ele gosta.

E ele gosta de umas cafonices, então o que vou fazer?

Então... silêncio.

Eu gostaria que nossa maior preocupação da noite fosse descobrir o lugar ideal para pendurar o quadro, mas ainda tem algo ruim rondando nossa relação, e nós dois sabemos disso.

Ansioso, eu mordisco meu lábio antes de olhá-lo, e pergunto:

— Você vai mesmo me explicar o que eu preciso saber?

Jungkook demorou algum tempo até dizer:

— Eu acordei torcendo para que você não lembrasse disso, mas você não bebeu o suficiente para esquecer. Então eu pensei em contar alguma mentira melhor que a verdade... — Ele confessou, envergonhado. — Mas aí eu vi suas mensagens. E eu lembrei de todo o resto que você se esforça tanto para fazer por mim... e eu pensei muito, muito mesmo. Quase queimei um bolo enquanto pensava. Aí percebi que... agora eu quero te contar, hyung.

Isso me alivia. Tanto saber que Jungkook é sincero em relação ao seu desejo de fugir do assunto, quanto à sua mudança de atitude. Porque agora ele quer me contar, ele quer que eu saiba, e não somente por obrigação.

Eu sorri para ele e me aproximei, acariciando-o suavemente no rosto antes de beijar sua bochecha e em seguida abraçá-lo. Como sempre, preciso ficar na ponta dos pés para fazê-lo, mas realmente não me importo mais.

— Eu prometo que vou tentar ser compreensivo, Jungkook. — Garanto a ele, voltando a tocar seu rosto quando afasto o meu para olhá-lo.

Ansioso, ele decide que nosso jantar pode esperar e eu percebo que está respirando com dificuldade quando me toca na cintura para me guiar até seu sofá minúsculo.

Então sentamos, e eu espero.

— Eu não sei como começar. — Ele confessou, um tempo depois, enquanto coça a pele de seu braço repetidamente.

— Começa pelo que nos trouxe a isso, Jungkook... ontem você disse que seria só meu, se dependesse de você. Isso quer dizer que depende de outra coisa ou de outra pessoa?

Ele hesitou por um instante, mas acabou por assentir.

Diante de sua hesitação contínua, eu respirei fundo e sorri um pouco, antes de voltar a falar:

— Eu não sei se você está com medo, vergonha ou com os dois... mas não precisa disso, Jungkook. Você está com o cara que tentou chupar o próprio pau, que chorou no banheiro da primeira namorada quando broxou na primeira tentativa de perder a virgindade, que já fez xixi nas calças por causa do medo de altura e que é quase cem por cento uma decepção para os pais. Não precisa se sentir intimidado por mim.

Jungkook riu um pouco, o que completa meu objetivo ao narrar tantos acontecimentos trágicos de minha trajetória, e ele apertou uma mão contra a outra antes de respirar fundo.

— Eu menti pra você, hyung.

Essa foi a primeira coisa que ele disse.

Tudo bem, vou esperar o desfecho para decidir como me sinto sobre isso.

— Quando você perguntou se meu pai ficou bem depois da morte de minha mãe, eu disse que sim. Mas eu menti. Meu pai não está bem.

Isso não é tão inesperado. Eu lembro de perceber a nuance de desconforto quando ele me disse que seu pai estava bem. Mesmo assim, eu não sei o que dizer, então apenas aceno para que ele continue.

— Depois da morte dela, nós tentamos levar a confeitaria pra frente. Quer dizer, eu tentei. O luto de meu pai foi muito agressivo, então ele não tinha condições de trabalhar e eu não tinha capacidade suficiente pra cuidar sozinho de um negócio aos dezesseis anos.

— Você só tinha dezesseis quando ela faleceu? — Pergunto, porque disso ainda não sabia.

— Sim... Eu era muito novinho, hyung, e além de cuidar da loja, eu precisava cuidar do meu pai, então tive que largar a escola e chorei muito por isso, mas não tinha o que fazer. Eu não podia deixar a gente morrer de fome.

— Você nunca se formou? — Questiono novamente, agora ainda mais angustiado.

— Nunca tive a chance, hyung... mas no fim meu sacrifício não valeu a pena. A confeitaria começou a perder clientes porque eu não dava conta de tudo, depois o prejuízo foi maior que o lucro e nós tivemos que vender. Eu e meu pai brigamos muito na época, porque mesmo inexperiente eu sabia que insistir naquilo só ia aumentar as dívidas, mas ele não queria vender a loja. Era uma memória de minha mãe, tinha valor para ele. Tinha para mim também, mas o que eu podia fazer?

Eu sinto que a história nem chegou à metade, mas eu já quero puxar Jungkook para meu colo e protegê-lo de todas essas lembranças ruins.

— Então depois de muita briga, nós vendemos. Na época eu já tinha dezessete e meu relacionamento com meu pai estava cada vez pior. Eu sabia que o que ele estava sentindo não era só tristeza, mas eu trabalhava todo dia e toda noite como garçom ou ajudante de lojas. Qualquer coisa que eu conseguisse com a idade e currículo que tinha e era difícil, mas pagava as contas e botava comida na mesa. Até que não deu mais pra ignorar, hyung... meu pai estava definhando completamente.

— Vocês não tinham nenhum parente, alguém que pudesse ajudar? Jungkook, você não deveria ter passado por isso sozinho...

— Não tinha ninguém, hyung. Todo mundo abandonou a gente quando viu que nós precisávamos de ajuda. E quando meu pai foi diagnosticado com depressão... as coisas só pioraram.

Consciente sobre o que estou fazendo, eu estico minha mão até alcançar a sua, então acaricio-lhe o dorso com meu polegar.

— Meu pai já tinha predisposição genética. Alguma coisa assim. O médico disse que em algum momento durante o período de luto, a doença se desenvolveu e que a tristeza, a apatia e a irritabilidade contínuas não eram causa, mas consequência. Então ele precisou começar a tomar antidepressivos e esses remédios são tão caros, hyung... meu salário mal pagava as contas de casa e eu não tinha perspectiva nenhuma de conseguir um emprego melhor, então... eu precisei...

Agora, eu já sei onde ele vai chegar.

Sexo por dinheiro.

— Eu transei com um cara por dinheiro. Foi minha primeira vez fazendo aquilo com alguém e doeu tanto, mas eu consegui fingir que estava gostando porque eu precisava cuidar do meu pai.

Agora, meu estômago embrulha.

A primeira lembrança de Jungkook com uma experiência sexual completa foi essa?

Eu sinto minha mão tremer, mas não solto a sua. Na verdade, a aperto ainda com mais força, para mostrar que estou aqui e que não estou julgando-o.

Parecendo cada vez mais hesitante em me olhar, ele mantém seus olhos longe dos meus e continua:

— Depois eu fiz de novo. E de novo. Me pagavam para ser ativo, passivo, as vezes os dois... eu fazia o que quisessem. E eu sempre era tratado como... como uma coisa. Eles estavam pagando por meu corpo e achavam que isso me transformava em um objeto, então eu era tratado como um o tempo todo.

Você não é um objeto.

Você não é um objeto, porra.

— Mas eu sobrevivia, hyung. Meu pai podia continuar a tomar os remédios e a ir ao psiquiatra por causa desse dinheiro, mas ele descobriu o que eu estava fazendo e nós brigamos de novo. Foi feio, nós dois dissemos coisas tão ruins... e nesse dia nossa relação quebrou de vez. Morar sob o mesmo teto se tornou insuportável, ele começou a se recusar a tomar os remédios, o quadro dele agravou de novo, então eu não tive escolha. Eu tive que procurar uma casa de repouso porque estar perto de mim estava fazendo aquilo com ele. E nem eu me suportava, hyung. Eu tinha nojo do meu corpo todo dia, mas eu só fazia o que precisava fazer.

— Jungkook...

— Se eu parar de falar, vou perder a coragem. — Ele me interrompe, fechando os olhos com força. — Eu tinha mais uma dívida. A mensalidade da clínica. Então eu vendi nossa casa e vim para esse apartamento, depois de muita burocracia. Foi aí que eu conheci o Yoongi. Ele foi meu primeiro amigo em muito tempo e me ajudou com muita coisa, sabe? Desde o início ele sabia que eu fazia sexo por dinheiro, mas quando descobriu que eu odiava isso... ele me ajudou muito. Foi por causa dele que eu consegui o emprego que tenho hoje... depois eu fui acompanhante de luxo pela primeira vez. Ainda era ruim, mas ser pago só para acompanhar alguém e fingir ser algo que não sou era melhor que fazer sexo daquele jeito, e depois de tanta coisa eu já tinha ficado muito bom em... fingir.

Ele esfregou uma mão na outra, nervoso.

— Um tempo antes de te encontrar no bar naquele dia, eu consegui estabilizar minhas contas. Eu parei de fazer sexo com desconhecidos, mas a lembrança continuou lá... e era tão ruim. Eu queria tanto saber como era fazer sexo com alguém que realmente se importasse comigo que acabei tentando com várias pessoas, mas era sempre o mesmo. Eu era sempre um objeto. Não pagavam por mim, mas me tratavam desse jeito... então eu tentei com o Yoongi. Ele não é apaixonado por mim, nunca foi, e eu nunca tive esses sentimentos por ele... mas ele gostava de mim de verdade, mesmo que fosse como amigo, então... foi a primeira vez, hyung, que eu não quis chorar enquanto transava com alguém.

Saber disso me desperta muitas sensações de uma só vez.

Tristeza, raiva por todos que não tocaram Jungkook da forma como ele merece, ciúmes por Yoongi, ao mesmo tempo em que sinto um pouco de alívio por ele ter estado ali quando Jeon precisou.

Eu gostaria de poder estar lá também. Talvez eu pudesse, se prestasse atenção nele quando ele me servia no Black Stone.

Mas enquanto eu estava sempre tão ocupado sendo esnobe, Jungkook já estava passando por tudo isso.

Arrependido, mas ciente de que não posso mudar o que já passou, eu me esforço para agir certo agora, então me sento de lado no sofá e puxo suas mãos até minha boca, então beijo cada uma lentamente.

— Eu sinto muito, muito, muito mesmo por tudo que você precisou passar Jungkook, mas você foi tão forte e eu te admiro tanto por isso...

— Hyung. — Ele me interrompe, ainda mais nervoso, e sua expressão é de puro desespero quando dispara: — Talvez eu precise fazer de novo. Sexo por dinheiro... talvez...

Eu respiro lentamente, ouvindo o que ele acabou de dizer.

Eu achei que já tinha escutado tudo que precisava ouvir.

— No último fim de semana, eu saí com Micha e ela disse que nós já podemos parar. Que não preciso mais fingir ser namorado dela, então eu não vou mais receber o que ela estava me pagando e o dinheiro que consegui economizar não vai durar muito. Se não tiver outro jeito, eu...

— Não. — Agora, eu quem o interrompo.

Eu entendo seu motivo para dizer que não depende só dele. Ele tem medo de precisar voltar a dormir com outras pessoas, mas não.

Se depender de mim, Jungkook nunca mais vai deitar com alguém sem desejar fazê-lo.

— A gente vai dar um jeito. Jungkook, você me tem agora, entendeu? E eu não vou deixar ninguém te tocar se não for do jeito que você merece.

Ele me olhou em silêncio, com surpresa se mesclando a sentimentos conflituosos.

Pouco a pouco, eu vi. O brilho de seus olhos, as lágrimas se acumulando sobre a linha d'água, para escorrerem por sua bochecha quando ele piscou desajeitadamente.

Eu quero pedir que ele não chore. Eu não quero ver Jungkook chorar, mas se ele precisa disso, então vou deixar que ele coloque tudo para fora.

— Eu não quero, hyung... — Ele confessa, desesperado. — Eu odeio que você pague as coisas pra mim porque não quero nem por um segundo sentir que estou me vendendo pra você também. Não pra você...

— Você não é um objeto, Jungkook. — Eu digo, vendo-o tão surpreso e relutante diante de meu posicionamento. — Você é uma pessoa linda, ainda mais por dentro que por fora, e eu achei que seria impossível. Mas você é. E você é forte e consegue carregar tantos sentimentos bons depois de tudo que passou. Você consegue me fazer tão feliz só de estar por perto, Jungkook-ah... mesmo que te dê todo o meu dinheiro, eu sempre vou saber disso e nunca vou te ver como algo. Você sempre vai ser o alguém que virou minha vida de cabeça pra baixo, o alguém do cacto fofo, dos bolos maravilhosos e dos pratos e copos coloridos.

— Hyung... — Ele me chama, mas soluça antes de dizer qualquer outra coisa.

— Jungkook... — Eu sorrio para ele, esticando minhas mãos para segurar seu rosto, então seco suas lágrimas com meus polegares. — Você sempre vai ser o alguém por quem me orgulho de ter me apaixonado. Eu sou orgulhosamente apaixonado por você, agora ainda mais que antes.

Os olhos dele, ainda marejados, se arregalam antes que lentamente voltem a se fechar, seus lábios se contraem e suas narinas se dilatam antes que ele puxe suas pernas para cima do sofá e abrace os joelhos, escondendo seu rosto entre eles para gradualmente me deixar ouvir seu choro.

É doloroso ouvi-lo chorar, mas sufocar o que sentimos é ainda pior.

Por isso, eu o toco cuidadosamente pela nuca antes de, com o mesmo cuidado, puxá-lo em minha direção até que sua cabeça cai de encontro ao meu ombro e ele esconde seu rosto contra meu pescoço quando me alcança com seus braços, que me envolvem no abraço mais forte e sincero que já recebi em minha vida.

Sem tentar interromper seu choro antes da hora, eu o mantenho assim e deixo vários beijos em sua cabeça, incansavelmente, porque nunca vou me cansar de dar a Jungkook o que ele realmente merece.

E se precisar ser sincero, digo que nunca vi alguém chorar por tanto tempo quanto acontece agora.

Jungkook soluça, funga e derrama lágrimas por minutos tão extensos e intensos que eu me pego abraçando-o cada vez mais forte, com os braços e pernas, tentando fazer todo esse momento caber em seu sofá miúdo.

Ao fim, quando percebo seu choro perder força e se calar em nosso abraço necessário, eu deslizo minha mão por sua nuca até alcançar a raiz de seus cabelos para fazer o cafuné que sei que ele gosta.

— Você está tão suado, bebê... — Percebo ao notar as gotículas em sua pele, mas isso não é suficiente para me fazer soltá-lo.

Acho que, agora, nem a ameaça de um meteoro se aproximando das coordenadas desse lugar me fariam soltar Jungkook.

— Quer tomar um banho? — Ofereço, então, imaginando que ele deve se sentir desconfortável.

Em resposta, ele me abraçou mais forte e negou com sua testa pressionada contra meu pescoço.

— Eu não quero sair do seu abraço, hyung...

— E quem disse que eu quero que você saia? Eu estou completamente incapaz de ficar a mais de um centímetro de você, Jungkook. — Aviso, constantemente acariciando-o. — Eu quero saber se você quer tomar um banho comigo... você quer?

Agora, silêncio.

Alguns segundos depois, eu senti suas mãos amassando a blusa que visto e por último sua cabeça se movimentando novamente contra minha pele. Dessa vez, é um sim.

Com um sorriso satisfeito, eu sinto meu coração disparar em antecipação e seguro seu rosto para poder afastá-lo só um pouquinho. Quando consegui, percebi seus olhos molhados pelas lágrimas me olhando com incerteza e um pouquinho de catarro escorrendo por uma de suas narinas.

Isso me faz olhá-lo mais um pouco, porque cada mínimo detalhe dele agora me faz lembrar do quanto esse cara em minha frente é inocente. Do quanto ele não merece passar pelo que passou.

Com minhas mãos ainda segurando-o, eu uso meus polegares para acariciar os dois lados de sua bochecha simultaneamente, até me inclinar para beijá-la, capturando o sabor salgado das lágrimas marcadas em sua pele macia.

— Vem. — Eu digo depois, com toda mansidão que existe em mim, e entrelaço minha mão à sua para puxá-lo para ficar de pé comigo, então me posicionei atrás de seu corpo e o abracei pelas costas, guiando-o sem pressa até seu banheiro.

— Hyung? — Ele me chama quando entramos e eu cuidadosamente começo a desabotoar a blusa de seu uniforme.

— Sim? — Respondo, erguendo meus olhos até os seus.

— Você não ficou com nojo de mim?

O tom ainda desacreditado e fragilizado em sua voz me faz perder o ímpeto de continuar a despi-lo, então eu expulso o ar demoradamente e paro minhas mãos onde estão.

— Eu preciso te confessar uma coisa. — Anuncio.

Jungkook me olhou com expectativa e nervosismo e eu respirei fundo mais uma vez antes de voltar a desabotoar sua camisa, botão por botão, compassadamente.

— No dia que tivemos aquela confusão com aquele tal Sungwon... na verdade, eu ouvi quando ele disse que você cobrava para fazer sexo. E... — Eu pauso ao terminar de abrir toda sua blusa, empurrando-a por seus ombros, percebendo a ansiedade estampada em seu rosto. — Eu pensei muito sobre o que ouvi sem querer naquele dia e por isso eu posso reagir melhor agora. Eu realmente não sei se reagiria imediatamente bem se descobrisse tudo de uma só vez, Jungkook, e eu não me orgulho disso. — Eu volto a tocar em sua nuca, olhando-o para mostrar que estou sendo sincero. — Mas uma coisa que eu posso te garantir é que nem naquele dia, nem em qualquer um depois dele e menos ainda hoje... em nenhum deles eu senti nojo de você.

Jungkook não diz nada, então eu suspiro e deixo um pouco de irritação aparecer em meu rosto quando meto um soco em seu ombro, fraco, mas ainda assim o suficiente para arregalar seus olhos.

— Então nunca mais me pergunte uma coisa dessas, entendeu?!

Jungkook continuou com os olhos arregalados até que sua expressão lentamente se amenizou e me deu a honra de ouvir uma risadinha sua logo depois de um choro demorado.

— Entendi. Desculpa, hyung...

— Desculpo. — Eu digo, depois cuidadosamente beijo seus lábios. — Você é lindo. Eu nem consigo ficar com raiva.

Jungkook apertou os ombros, envergonhado.

— Não posso fazer nada sobre isso.

— Mas eu posso. Vou te meter soco na cara até te deixar feio, vê só.

Ele riu alto, mas balançou a cabeça para os lados.

— Não, hyung...

Eu também acabo rindo um pouco, mas meu corpo inteiro perde força quando eu sinto as mãos de Jungkook segurando as minhas antes de guiá-las até o cós de sua calça para que eu continue despindo-o.

Um sorriso pequeno volta a dar as caras quando eu percebo que não existe maldade alguma em seu pedido. Na verdade, Jungkook parece perceber que também não tenho tais intenções e por isso confia em mim.

Ah, meu deus. Eu ainda vou sufocar de tanto amor.

E como não sou louco de recusar um pedido seu agora, eu continuo retirando cada peça de roupa que ele veste antes de me livrar das minhas e, completamente despidos de roupas e de malícia, nós entramos debaixo do chuveiro e nos abraçamos sob a água gelada, limpando primeiro o peso em nossos corações antes de limparmos nossos corpos.

Sob nosso banho demorado sem palavras trocadas, mas com carinhos indo e vindo a cada segundo, eu descobri que o shampoo de camomila de Jungkook é o melhor calmante do mundo, principalmente quando sinto a espuma se formar sob meus dedos enquanto massageio seus cabelos escuros e vejo seu sorriso tímido em resposta  a isso.

— Jimin hyung? — Ele me chama quando, instantes depois, estamos sentados em seu quarto.

Eu na borda da cama e ele no chão, entre minhas pernas, enquanto uso uma toalha para secar seu cabelo e tento não me derreter inteiro ao vê-lo abraçar os próprios joelhos e me olhar por cima do ombro com os olhos grandes e curiosos.

— Fale. — Eu digo, deixando a toalha de lado para usar meus dedos para pentear os fios úmidos e desalinhados em sua cabeça.

— Você vai dormir comigo de novo?

Eu não tenho objeções a isso, mesmo que meu celular esteja descarregado em algum canto do apartamento. Na verdade, eu quero passar a noite com ele outra vez, mas digo:

— Sim... se você me responder uma coisa. — Proponho com o tom de voz mais sério que consigo usar.

— O que? — Perguntou, um pouco assustado.

— Eu preciso saber por que você usa shampoo de bebê. Sério, minha vida depende disso.

Eu vejo Jungkook prestes a me amaldiçoar quando ele respira aliviado ao descobrir o que quero saber e acabei ganhando um soquinho na perna.

— Você me assustou. — Ele me acusa, mas acaba rindo e se move no chão até se virar e preguiçosamente deitar a cabeça em minha coxa enquanto minhas tentativas de arrumar seu cabelo gradativamente se transformam em cafuné.

— Desculpa. E eu menti. Mesmo que você não responda, eu vou dormir aqui. Ainda não estou em condições de ficar longe de você.

Ele sorriu preguiçoso, manhoso, e finalmente revelou:

— Sabe quando você tá no banho com os olhos fechados debaixo do chuveiro e aí você pensa em algo bem assustador e fica desesperado porque não enxerga nada? Então... — Ele riu, meio bobo. — Isso sempre acontecia quando eu estava lavando meu cabelo, aí eu abria os olhos e caía espuma de shampoo neles. Sempre ardia muito. Mas shampoo de bebê não arde.

— Eu não acredito. — Digo em meio a uma risada sincera, agora massageando na nuca.

Jungkook encolheu os ombros junto à sua própria risada, que é a mais gostosa desse mundo, e nós ficamos em silêncio até que ele suspira e confessa:

— Eu fiquei com tanto medo de perder você, hyung...

Eu nego suavemente e, com cuidado, arrasto meu corpo até sair da cama e me sentar no chão, junto com ele, que se movimenta para ficar de frente para mim. Então eu toquei seu rosto, analisei cada detalhe de sua feição perfeitamente desenhada e por fim, repito com ainda mais certeza que antes:

— Eu já disse, Jungkook... você vai precisar se esforçar muito se quiser me fazer desistir de nós dois.

❥ [Continua...]

Chapter Text

Eu não menti. Ele realmente vai precisar se esforçar muito se quiser que eu desista de nós dois, mesmo que toda a situação sobre sua vida tenha me atingido de surpresa.

E igual esforço vai ser preciso para me fazer desistir de abraçá-lo para dormir.

Hoje eu quero dormir abraçado com Jungkook.

Por isso, depois que jantamos, eu lavo a louça e ele lava minha cueca sem que eu saiba (talvez eu deva deixar cuecas extras em seu apartamento), nós escovamos os dentes e nos deitamos com um pensamento muito claro em minha mente lotada de Jeon Jungkook.

Então eu cubro seus pés como sei que ele gosta, ele apaga a luz e liga o ventiladorzinho azul-jungkook. E eu não perco mais tempo.

Engatinho por sua cama até deitar bem pertinho dele e imediatamente me posiciono detrás de seu corpo, então o puxo até apoiar suas costas em meu peito e passo meu braço por seu abdômen enquanto encaixo uma perna no meio das suas e beijo seu ombro.

— Ontem eu não pude retribuir quando você me abraçou, mas hoje você não me escapa. — Eu anuncio, então.

Eu sinto Jungkook relaxar contra meu corpo, recostando o seu ainda mais contra minha pele, e quase posso visualizar em minha mente seu sorriso silencioso quando ele puxa meu braço para envolvê-lo ainda mais.

— Você não vai me ver tentar escapar, hyung.

Eu sorrio antes de beijar seu ombro outras vezes mais, deixando um rastro de beijos devotos de uma extremidade à outra.

— Lindo. — Relembro, sem qualquer motivo aparente além da necessidade de reafirmar que ele é bonito demais.

É impossível parar de dizer em voz alta e em pensamento o quanto Jungkook é lindo e eu aceito isso, então constantemente digo.

— Você tá dizendo isso agora, mas nem tá vendo meu rosto, hyung... — Ele apontou.

— Então vira pra mim.

Eu ouço a risada de Jungkook, mas também sinto seu corpo se mover em meu abraço com cuidado para não desfazê-lo, até ficar cara a cara comigo. Assim, ele aproveita para se aconchegar mais, com a lateral do rosto deitada em seu travesseiro e sua mão timidamente tocando meu ombro no carinho mais gostoso do mundo.

— Exatamente como eu lembrava. — Eu anuncio, pensativo. — Lindo pra caralho.

Jungkook ri ainda mais e ele fica mais bonito quando ri assim, o que me tira a força para resistir. Então, eu seguro sua nuca e calo sua risada gostosa quando colo minha boca na sua, tão gostosa quanto seu riso.

Apesar de um primeiro segundo de surpresa, eu logo sinto seu corpo ceder e suas pernas se encaixarem nas minhas novamente quando ele também me segura pelo pescoço e retribui meu beijo com a mesma intensidade que eu desejava.

E é insana a forma como, mesmo depois de tantos beijos e até poucas coisas a mais, ele ainda consegue fazer borboletas voarem em meu estômago dessa forma.

Quando paramos de nos beijar, um estalo rápido e suave ecoa pelo quarto silencioso e eu mantenho meus olhos fechados enquanto acaricio seu rosto e sinto meu coração disparado.

— Jungkook... — Eu o chamo, então.

— Oi, hyung? — Ele responde com a voz tão fraca que me resta pensar que eu também tenho o mesmo efeito sobre ele.

E sem medo, eu revelo:

— Se eu continuar me apaixonando mais por você a cada segundo como está acontecendo agora, acho que eu vou colapsar.

Como a cada vez que me ouve dizer que sou apaixonado por ele, Jungkook parece ficar sem jeito, mas acho que tudo bem.

Ainda é frustrante não ouvir ele dizer o mesmo, sequer saber se ele se sente assim por mim e isso não posso negar. Mas também não posso, nem quero, esconder como me sinto.

A essa altura, não importa se não sou correspondido na mesma intensidade, porque já não posso mais reverter os sentimentos que pesam aqui dentro.

Mas como é constrangedor, eu respiro fundo e dou um selinho em sua boca antes de rapidamente mudar de assunto.

— Amanhã você vai trabalhar, não é? — Suponho, certeiro. — Quando acordar, eu vou para casa. Uma hora vou precisar voltar...

Sua falta de jeito lentamente se mesclou a um gesto triste e conformado.

— Tudo bem...

Eu o olhei com um sorriso mal contido diante de sua resposta resignada.

— Você queria que eu ficasse por mais tempo?

Jungkook encolheu os ombros, ainda com a expressão tímida no rosto. Não que seja novidade, mas em resposta a isso quase me derreto todinho.

— Você não pode ficar mais um pouco? — Ele pediu, então.

— Eu gostaria, bebê... de verdade. Mas meu celular descarregou e se eu não der sinal de vida, Jiwon morre de preocupação. Sem falar que preciso de cuecas limpas, não posso fazer você lavar a mesma para o resto da vida.

— Eu não me importo de lavar...

— Eu sei que não. — Respondo com uma risada antes de quase esmagar sua bochecha com um beijo.

— E mesmo assim você vai voltar pra sua casa?

— Eu posso voltar para cá depois... se você quiser mesmo.

— Ok. Eu quero.

Eu ri de sua resposta tão rápida e assenti.

— Então tudo bem. Vou pegar meu carregador, umas cuecas limpas, tranquilizar Jiwon e à noite volto.

Jungkook assentiu com velocidade mais uma vez, antes de perguntar:

— E seus pais, hyung? Eles não se preocupam quando você some assim?

Eu nem sei o que responder, então acabo por dar de ombros.

— Vai saber. Nem devem ter percebido que não voltei para casa. — Diante de minha resposta, Jungkook parece ficar um tanto ressentido, mas eu logo mudo a atmosfera que nos rodeia quando roubo mais um selinho e sorrio. — Relaxa. É assim mesmo, não precisa fazer essa cara de preocupação.

— Seus pais deveriam se preocupar com você — Jungkook disse, a despeito de minha garantia.

— Nem todos os pais fazem o que deveriam fazer, bebê — Digo, conformado e incapaz de me lamentar depois de ouvir tudo que ele passou.

Eu me sinto um ingrato e egoísta só de pensar em fazer isso, o que também não parece justo comigo mesmo, mas eu nunca tive muitos impulsos de falar abertamente sobre a relação horrível que tenho com meus pais, então apenas me conformo em continuar assim.

— Aliás, — Eu digo, para não deixar essa conversa se estender por um caminho que prefiro evitar. — Keanu tem muita sorte de ter um pai como você. O gominho novo dele é a coisa mais fofa que eu já vi.

— Acho que não tenho muito mérito sobre isso. Keanu nem dá trabalho. É só deixar ele pegar o solzinho dele e botar água de vez em quando que ele continua lindo e forte.

Eu sinto um riso bobo se formar do início ao fim de sua fala, o que faz Jungkook me olhar curioso.

— Fala de novo. — Eu peço, ainda meio abobado. — "Pegar o solzinho dele". Repete? Foi muito fofo.

Jungkook riu de meu pedido meio idiota e negou, me abraçando com um pouco mais de força ao esconder seu rosto em meu pescoço. E apesar de seu não silencioso, eu logo escuto sua voz novamente:

— Pegar o solzinho dele — Repetiu com a voz abafada contra minha pele, logo antes de me dar um beijo bem ali.

Gradualmente, meu sorriso perdeu força e minhas pálpebras pesaram, então eu deslizei meus dedos por seus cabelos escuros e pedi mais uma vez:

— De novo.

Os lábios de Jungkook se moveram contra minha pele quando ele sorriu e eu suspirei ao sentir, em seguida, sua língua deslizar por uma pequena região de meu pescoço, antes de chupá-la.

— De novo, hyung?

Um segundo atrás ele era só um bebê.

Agora é um safado irresistível.

Eu juro que meu cérebro vai derreter.

Mas o momento para me preocupar com isso não é agora, então eu agarro sua nuca e afasto sua boca de meu pescoço apenas para deixá-la disponível para beijar meus lábios. E eu volto a beijá-lo.

O mais louco é que parece que sua boca foi feita para a minha.

Jungkook inteiro parece ter sido feito para mim.

E me refiro até a sua genitália.

Nesse momento, assumo que estou apaixonado por ele e estou ciente de que ele tem um pênis. E eu sigo desejando chupá-lo cada vez mais, torcendo para não ser um fiasco como foi com a banana.

Mas não acho que o momento é agora. Apesar de estar mais sorridente e visivelmente mais confortável, Jungkook ainda está sensível por nossa conversa anterior. Para mim foi difícil ouvir, mas sei que para ele foi ainda pior falar. Por isso, não quero acabar encobrindo o que aconteceu hoje com algo de teor sexual fora de hora.

Levado por isso, eu movo meu rosto até interromper nosso beijo e o abraço da maneira que posso, selando seus lábios demoradamente, uma, duas, três vezes até fazê-lo rir.

Eu quase relaxo ao acreditar que consegui cortar toda a intenção maliciosa que existiu em nosso beijo, mas Jungkook voltou a relaxar sua cabeça no travesseiro e me provou que, talvez, eu esteja um pouco errado.

— Hyung... quando é que a gente vai foder?

Agora, me deixa um pouco angustiado saber por que Jungkook parece tão apressado para transar comigo.

Não é apenas tesão, mas sua necessidade de suprir a necessidade de ser tocado com carinho e cuidado. De tentar achar em mim o que faltou em quase todas as suas experiências sexuais.

Levado por isso, eu nem penso em filtrar o que digo a seguir. Com a melhor das intenções, mas que me faz arrepender no instante seguinte.

— A vida já te fodeu demais, Jungkook. Quando for minha vez, eu vou fazer amor com você.

É um daqueles momentos em que você se pergunta quando começou a confundir a função da boca com a função da bunda.

Porra...

Imediatamente constrangido, eu senti meu rosto esquentar quando percebi como minha escolha de palavras soa desastrosa de vários pontos diferentes. Felizmente, depois de algum choque inicial, Jungkook cai na risada.

— Acho que essa foi a coisa mais cafona que você já disse, hyung.

Eu concordo silenciosamente, com os olhos fechados com força enquanto quebro nosso abraço para trazer minhas mãos até meu rosto. Como se me esconder pudesse mesmo eliminar a vergonha.

— Mas ei... — Ele me chama, ainda rindo, e seu corpo volta a se aproximar do meu antes que eu receba um beijo na bochecha. Enfim, ele anuncia: — Eu amo coisas cafonas, esqueceu?

Eu deixo um grunhido inconformado sair audivelmente e nego antes de olhá-lo, ainda queimando de constrangimento.

— Só metade foi cafona. A outra metade foi indelicada pra caralho. — Aponto, arrependido.

Jungkook apertou os ombros com desleixo, ainda com o sorriso minimamente sustentado e sua mão acariciando minha coluna por baixo da blusa (sua) que estou vestindo.

— Você não mentiu, hyung. A vida já foi ruim demais comigo e agora eu quero isso... eu quero fazer amor com você. Quero saber como é...

Fazer amor está no topo da minha lista de expressões muito, mas muito bregas. No entanto, é diferente quando é Jungkook quem diz com a voz manhosa assim.

Agora, fazer amor é minha expressão favorita.

Mas eu ainda estou envergonhado.

— Eu vou te mostrar — Digo e mordisco meu lábio nervosamente. — Você me mostra como é estar com outro homem e eu te mostro como você merece ser tocado.

Jungkook assentiu com um sorriso muito mal contido e eu suspirei, com as mãos suando em nervosismo.

— Mas estou muito constrangido para continuar a conversa agora — Confesso junto a uma risada nervosa. — Boa noite, Jungkook.

Ele riu de minha confissão e se inclinou para me dar um selinho. Em seguida, segurou meu braço, ficou de costas para mim e posicionou nossos corpos de volta numa conchinha desengonçada e aconchegante, com suas costas descansando contra meu peito e nossas pernas entrelaçadas outra vez.

— Boa noite, hyung.

E hoje, mesmo com minha frase infeliz e impensada, nós dormimos abraçados de verdade pela primeira vez. Sem álcool envolvido, sem receio do que nos aguarda na manhã seguinte. Apenas eu desejando proteger o corpo de Jungkook como um tesouro e ele permitindo que meu corpo menor seja o escudo do seu.

Antes de apagar, eu só me certifico de seus pés estarem cobertos para protegê-lo completamente e em seguida me entreguei ao cansaço de um dia difícil.

Difícil, mas necessário.

Agora que Jungkook se abriu comigo, eu me sinto ainda mais próximo a ele. E o segredo que ele acreditou que me faria ir para longe, só me faz querer ficar mais perto.

No entanto, minha vida não se resume à minha relação com Jungkook. Por isso, na manhã seguinte (que acorda horrivelmente nublada) volto para minha casa quando ele sai para ir trabalhar, e a primeira pessoa que encontro, graças a deus, é Jiwon.

— Finalmente lembrou que tem casa? — Ela pergunta quando me vê passar pela sala, e eu giro sobre meus pés para mudar meu caminho e desisto de subir as escadas para poder ir até ela, então a abraço fortemente.

— Desculpa? — Peço, esfregando minha bochecha no topo de sua cabeça. — Sei que você ficou com saudade, mas não precisa mais chorar, viu?

— Menino bobo! — Ela ri, dando um tapinha carinhoso em meu ombro. — Quem é Jungkook, aliás, e como ele conseguiu fazer você dormir duas noites seguidas longe de sua cama, hein?

Eu a afasto, quase gritando de susto ao me perguntar como ela sabe que eu estava com Jungkook. Então, lembro que mandei mensagem avisando antes de meu celular descarregar.

Como se não estivesse prestes a dar um berro assustado, respondo calmamente:

— Não lembra dele? Ele veio aqui em casa um tempo atrás, até conversou com você enquanto eu não chegava...

E quando você nos pegou no meio de um beijo, eu disse que ele tinha me beijado à força.

— Ah! Eu lembro. Ele é bonito, não é? E adorável. Ele só sabia falar sobre você. Jimin hyung pra cá e Jimin hyung pra lá.

Eu abaixo meu rosto com um sorriso arrependido e assinto.

— Sim. Ele é lindo e é a pessoa mais adorável que já conheci.

Jiwon me olhou com esse jeito desconfiado ao mesmo tempo que divertido e me deu mais um tapinha carinhoso.

— Vocês parecem bons amigos. — Ela diz.

— É... — Eu umedeço meu lábio e massageio minha nuca antes de fazer algo que, um tempo atrás, nunca seria capaz de fazer. — Bons amigos e um pouco mais...

Ela me olha em silêncio, à espera de uma explicação mais clara, mas parece já saber o que quero dizer.

— Eu gosto dele, Jiwon. Na verdade, gostar não é mais suficiente para descrever. Eu estou apaixonado pelo Jungkook e naquela vez ele não me beijou à força. Em todas as vezes, ele me beijou porque eu queria e... é. É isso. Só queria esclarecer.

Ela sorriu um pouco mais e assentiu, então me acariciou o rosto e a única coisa que disse, foi:

— Vocês ficam bem juntos.

Só isso. Sem questionamentos sobre como eu, que nunca me envolvi com homens dessa forma, estou assumindo abertamente que estou apaixonado por um e que o beijei mais de uma vez.

E é libertador. Estar diante de alguém que age na mais completa naturalidade diante de uma revelação sobre sua sexualidade. Porque, afinal, isso é natural.

E por mais que eu tenha passado e ainda passe por frequentes reflexões para libertar minha mente de pensamentos que foram impostos durante toda minha vida e agradeça pelas pessoas que conversaram sobre isso comigo, também me sinto grato por, agora, estar diante de alguém que não me faz sentir que isso tudo é uma grande complicação.

Eu estou apaixonado por um homem. Jiwon acha que ficamos bem juntos. Fim.

Com um sorriso relaxado por não precisar explicar como tudo aconteceu para justificar que, afinal, não sou o heterossexual que acreditava ser, eu olho na direção das escadas e me sinto livre para mudar de assunto sem achar que estou fugindo do anterior.

— E meus pais? — Pergunto.

— Já foram trabalhar. Você sabe como eles são... — Ela responde e eu assinto com um sorriso meio azedo.

— Aposto que nem perceberam que fiquei esse tempo sem aparecer em casa.

Jiwon tentou negar, mas ela sabe que eu conheço os pais que tenho e por fim desistiu.

— Eles estão cheios de trabalho e a casa é grande, é normal que vocês nem se vejam mesmo quando você está aqui... mas eu sei que eles se preocupariam se você demorasse mais alguns dias para voltar!

Eu concordo silenciosamente, mesmo que sua tentativa de me consolar não seja de muita ajuda.

De qualquer forma, eu não me importo.

Meus pais não ligam para mim. Eu posso sumir de casa que eles não percebem. Grande merda, não é nenhuma novidade.

— Eu vou tomar um banho e colocar uma cueca limpa porque estou usando a mesma desde domingo — devido mudar a conversa novamente, o que faz a mulher de meia idade me olhar com pavor. Então, explico: — Mas eu lavei! Quer dizer, Jungkook lavou — Eu suspiro quando percebo que continua esquisito, então desisto. — Ok. Eu vou subir.

Jiwon acabou rindo de minha fala atrapalhada e me liberou, então voltei ao meu quarto, que tem quase o mesmo tamanho que o apartamento inteiro de Jungkook, mas não é tão aconchegante quanto.

De qualquer forma, eu coloco meu celular para carregar, tomo um banho demorado na banheira cheia e visto roupas limpas (e minhas), mas acabo sentindo falta do cheirinho de Jungkook nas roupas que vesti quando estava em sua casa.

Em seguida, regulo a temperatura do ar condicionado e deito em minha cama para responder as mensagens acumuladas em meu celular.

Sunhye
|Foi só se resolver com Jungkook que esqueceu de mim...

Claro que não|

Só tive uns problemas técnicos|

Como está minha amiga e conselheira amorosa?|

Sunhye
|Precisando de um conselheiro amoroso

Sunhye
|E você? E o Jungkook? E você e o Jungkook como casal?

Bem, bem e bem|

Eu sou a pessoa mais apaixonada do mundo, Sunhye... ele me deixa tão ): *-* grr :D, sabe?|

Mas e você? Por que precisa de uns conselhos amorosos? Infelizmente, a pessoa que poderia recomendar para te ajudar é você mesma, então...|

Sunhye
|Jimin apaixonado por Jungkook? Não acredito! Estou chocada! Perplexa! Nunca desconfiei que pudesse acontecer!

Sunhye
|E meu caso não é tão dramático quanto foi o seu... eu só comecei a sair com um cara e agora ele quer que eu vá com ele ao aniversário de uma amiga, mas isso faz parecer que as coisas estão sérias... né?

Eu vou ignorar seu show de ironia ali em cima e focar no seu problema|

Você não gosta do cara?|

Sunhye
|Gosto. Do que conheço, pelo menos. Mas ele me deixa com um pé atrás.

Sunhye
|Mas olha, você é meio ruim nessa coisa de conselhos amorosos então nem tente, ok? eu vou descobrir sozinha o que fazer (a não ser que você queira me dar conselhos pra me fazer rir)

Só não fico ofendido porque é verdade|

Sunhye
|ㅋㅋㅋㅋㅋㅋㅋㅋㅋㅋㅋㅋㅋㅋㅋ

Sunhye
|Vou tomar um banho pra espantar o sono e já volto pra gente conversar sobre outras coisas que não minha vida amorosa, ok? Tava com saudade de você, amigo ):

Eu ainda estou. Precisamos marcar algo pessoalmente|

Mas primeiro vai tirar seu futum de sono|

Assim que Sunhye me envia um emoji mostrando o dedo do meio, eu rio e passo para a conversa com Taehyung, que já tem novas mensagens.

Taehyung
|Você não mandou o número do Yoongi... enrolado

Taehyung
|Mas tudo bem porque eu conversei a noite toda com o Hoseok por mensagem

Vou pedir pra Jungkook mandar o número. Mas você lembra do que eu te disse, né? Sobre ele não estar emocionalmente disponível...|

Não quero que você se iluda, Tae :/|

Taehyung
|Eu lembro, Minie. Mas quero ser amigo dele, só isso

Certo... vou pegar o número então|

Ainda incerto sobre os resultados que essa aproximação pode trazer, eu sei que Taehyung já é maduro o suficiente para pesar as próprias decisões e por isso não interfiro mais, então abro a conversa com Jungkook e me assusto ao ver que já tinha mensagens suas ali, do dia anterior, antes de nossa conversa.

Jungkook
|Já que você disse que seu celular vai descarregar, eu queria dizer que eu gosto muito mesmo de você, hyung. E se você me deixar hoje, eu vou ficar muito triste, mas vou entender. Eu sei que nós somos muito diferentes e talvez eu não seja bom o suficiente pra você, então eu posso ser muito burro por sentir isso, mas eu gosto de você... muito mesmo

Eu realmente fico surpreso de ver como você achou que ia ser fácil se livrar de mim|

E nunca ache que não é bom o suficiente para alguém. Você é Jeon Jungkook, porra. O que você tem que questionar é se eu mereço você|

E é melhor que a resposta seja sim... a não ser que seja não|

Enfim! Taehyung pediu o número do yoongi. Me passe quando puder 🌵|

Depois de responder outras mensagens menos importantes, eu passei parte da manhã conversando com Sunhye, depois separei de minha estante mais alguns mangás para levar para Jungkook e quando ele me respondeu, encaminhei o número de carrapato para Taehyung.

No meio tempo, também ponderei sobre o convite de Nara para seu aniversário, mas não importa quanto eu pense, levar Jungkook nunca parece uma boa ideia. No entanto, algo em mim me impulsiona a ir, mesmo que sem ele.

Talvez seja culpa. Ou talvez seja, no fim, somente saudades.

Eu e ela éramos mesmo bons amigos e desde que as coisas terminaram daquela forma desastrosa, somos quase estranhos.

Receoso, eu decido tomar uma atitude sobre isso.

Nara?|

Nara
|Oi, Jimin!

Queria falar sobre seu aniversário...|

Nara
|Sim? Você vai?

É que... eu estou com Jungkook agora e eu queria que ele fosse, mas não quero causar nenhum desconforto. Seria ruim se eu o convidasse para ir comigo?|

Você sabe que pode ser sincera sobre isso|

Nara
|Certo. Sendo sincera, poderia ficar um pouco estranho, mas acho que ninguém vai morrer por causa disso. Pode chamar. É só levar uma barraca para os dois (:

Eu mordo meu lábio, pensativo, mas não posso chegar a uma conclusão agora porque logo uma nova notificação de e-mail me distrai.



De:  Estúdio IDOL
Para:  pjminn@mail.com e outros dois

Prezados,

O resultado do último ensaio trouxe bons frutos. Nossa empresa parceira amou a química entre os modelos selecionados para a última sessão de fotos e demonstrou interesse em aproveitar os três rostos durante toda a campanha. Por favor, leiam cuidadosamente o documento anexado. Ele contém todas as informações de que precisam.

att,
Estúdio IDOL

Ansioso, eu abri o material anexado e li todas as informações, desde o planejamento das próximas sessões até o cachê. E este último me decepciona.

Mesmo sendo convidado para uma campanha inteira, o pagamento final é menos do que eu conseguiria com meus pais, apenas pedindo por dinheiro para ir jantar.

Pela primeira vez, eu me deparo com o choque de realidade que me mostra que isso vai ser mais difícil do que eu planejei. Viver somente com meu trabalho como modelo nunca vai me dar a vida abastada que tenho sob o teto deles, a não ser que eu realmente me destaque. Mas casos assim são um em um milhão.

Chateado, eu deixo meu corpo cair deitado novamente, até que um novo e-mail chega. Dessa vez, não é do estúdio, mas é de alguém de lá.

De:  okadakenzo@mail.com
Para:  pjminn@mail.com

E o universo trabalha para cruzar nossos caminhos novamente, Park Jimin (:

Perdoe o flerte inevitável. Vim com intenções puras. Será que você pode me passar seu número para que eu tenha um canal de comunicação mais eficiente que e-mails com meu colega de trabalho?


 

De:  pjminn@mail.com
Para:  okadakenzo@mail.com

O que te faz achar que merece meu número, Okada Kenzo?


 

De:  okadakenzo@mail.com
Para:  pjminn@mail.com

Ter um rosto desse não é suficiente?

Foi uma das fotos que me fez ser selecionado no estúdio. Não duvide do poder dela. 

— Porra... ele é tão bonito que me dá raiva. — Eu resmungo, com sua foto ocupando a tela do meu celular.

E ele continua flertando comigo. Não de um jeito que me deixa incomodado por sua insistência, mas sua sutileza charmosa, agora que reconheço em voz alta o quanto o acho bonito, me deixa com medo de acabar cedendo.

— Até parece. — Eu resmungo para mim mesmo, com o estômago embrulhado só de pensar em me envolver com outra pessoa.

Por isso, eu fecho o aplicativo do e-mail e faço o que me parece mais apropriado na situação: abro a foto de Jungkook, que eu mesmo tirei outro dia.

Na imagem, ele não percebe que estou fotografando-o, e olha distraidamente para algum ponto além da câmera, com a expressão sonolenta e os cabelos ainda desalinhados. Os olhos grandes parecem miúdos, porque ele mal consegue abri-los completamente, e os lábios estão levemente entreabertos enquanto seus chopsticks capturam um pedaço do rolinho de omelete.

E como num passe de mágica, minha preocupação sobre Okada Kenzo some de minha mente.

Quer dizer, ele é, sim, bonito. Mas o mundo está cheio de pessoas bonitas e não faz sentido acreditar que somente a beleza de qualquer uma delas vai conseguir superar o que eu sinto por Jungkook — que é, também, lindo de formas indescritíveis, mas que me atrai e me cativa por muito, muito mesmo, além de aparência.

Quando meus olhos novamente recaem em sua foto, eu solto um grunhido e enterro meu rosto no travesseiro, porque não aguento mais o tanto que esse cara mexe comigo.

— Você ainda vai me matar... — Choramingo sozinho, ainda tentando me sufocar com o travesseiro antes que o sentimento faça isso.

E ótimo. Um segundo atrás eu estava com medo de me interessar por outra pessoa, agora sinto que nunca mais vou encontrar alguém que me faça sentir como Jungkook faz.

E isso me faz desejar ainda mais estar perto dele, como combinamos ontem à noite.

Decidido a cumprir nosso combinado e mais ainda a fazer algo para demonstrar um pouco mais o quanto ele se infiltrou em meu coração, eu reúno toda minha coragem e salto para fora da cama, descendo quase em marcha até a cozinha, onde arregaço as mangas de minha blusa e apoio as mãos em minha cintura, antes de dizer em alto em bom tom:

— É hoje que esse pão sai!

Certamente, seria mais fácil se eu soubesse onde ficam as coisas nos armários, mas minhas tentativas fracassadas anteriores em companhia de Jiwon me ajudaram a me localizar melhor.

Dessa vez, eu não peço seu auxílio. Eu quero fazer sozinho, e assim faço, o que gera um pandemônio com farinha de arroz em todo canto da cozinha.

E se não foi com a força do amor, esse pão ficou pronto na força do ódio.

Mas ficou pronto. Talvez seja por isso que, depois de ficar na iminência todo o dia, finalmente começou a chover.

— Eu consegui... — Digo sozinho, olhando com adoração para minha criação.

— Misericórdia! — Jiwon grita quando entra na cozinha, até recuando com um passo. — O que aconteceu aqui?!

— Eu fiz o pão! O pão importante, Jiwon!

Ela olhou de mim para a receita recém tirada do forno, ainda na forma retangular, depois olhou para o caos.

— Se você fizesse esse estrago todo e não conseguisse fazer o pão, Jimin, eu nem sei o que dizer...

Eu rio, esticando meus braços para cima, então procuro a bucha.

— Eu arrumo. Vou começar lavando os pratos. Cadê a bucha?

Ela piscou ainda mais atordoada.

— Como é?

— Eu estou ficando muito bom em lavar pratos, não sabia?

Ela pareceu querer dizer alguma coisa, mas desistiu e por fim apontou para a máquina de lavar louça.

— Nós usamos a máquina, Jimin. Que bicho foi que te mordeu?

Que mordeu, eu não sei. Mas o que me beijou e me chupou se chama Jeon Jungkook.

— Certo. Esqueci. A casa de Jungkook é mais rústica. — É o que posso dizer em voz alta. Em seguida, questiono serenamente: — Como que usa a máquina?

— Jesus, Maria e José — Ela se benze com palavras e com gestos, o que me faz rir alto.

Agora eu sou uma pessoa que faz pão e lava os pratos. Tudo por você, Jungkook-ah.

E enquanto limpo a bagunça que fiz, eu esclareço para Jiwon por que o pão é tão importante e como aprendi a lavar pratos, mas ela meio que me expulsa da cozinha quando eu começo a fazer tudo errado.

De volta ao meu quarto, eu anuncio para Taehyung e Sunhye que fiz um pão. Depois, me ocupo com uma coisa aqui e outra ali até que anoitece e o horário de Jungkook sair do trabalho se aproxima. Então eu me arrumo, guardo os mangás, roupas e várias cuecas limpas na mochila (é melhor prevenir), e desço para cortar e guardar o pão, para então fazer uma surpresa e buscar Jeon no trabalho.

Mas quando volto à cozinha, o pão não está onde deixei. Nem em nenhum lugar.

Jiwon já foi embora, então o que me resta é perguntar ao meu pai, quando ele passa de uma sala para a outra.

— Pai? O senhor viu o pão que estava na bancada ao lado da geladeira?

Ele me olhou com indiferença e fez um gesto único.

— No lixo. Joguei no triturador. Estava péssimo. Nunca vi Jiwon cozinhar algo tão grosseiro.

Não foi Jiwon. Fui eu. Era o meu pão.

Eu não acredito que isso, dentre todas as coisas ruins que ele e minha mãe já me disseram, é o que quase me leva às lágrimas. Eu quase estilhaço minha máscara de indiferença em sua frente, mas anuo a cabeça num gesto que finge ser desleixado, como se isso não importasse, e viro as costas para ele.

Então pego mais farinha de arroz. Mais ovos, mais óleo, mais linhaça e tudo que peguei da primeira vez. E faço tudo de novo.

A vontade de chorar de raiva fica presa em minha garganta até mesmo quando meu pai fez pouco caso e seguiu o caminho até seu escritório, mas no fim eu refaço tudo. Passo a passo, até ter um novo pão pronto.

Dessa vez, não perco tempo. Eu o fatio ainda quente e guardo cada pedaço numa vasilha, roubando apenas uma para provar.

Não está horrível. Horrível é meu pai.

Sem mais demora, eu arrumo a cozinha da forma que consigo e jogo a mochila nas costas, com a vasilha em mãos, e chamo meu táxi.

Perdi a chance de ir pegar Jungkook no trabalho e estou vergonhosamente atrasado, então, já no carro, pego meu celular para avisar que estou chegando, mas já me deparo com mensagens suas.

Jungkook
|Hyung, você não vem mais? Aconteceu alguma coisa? ):

Aconteceu, mas não foi nada sério. Desculpe o atraso, bebê. Já estou chegando!|

Já com o celular guardado outra vez, eu relaxo meu corpo e respiro fundo constantemente para tentar me acalmar e esquecer a raiva que me corrompeu, controlando-a ao menos precariamente antes de chegar ao apartamento de Jungkook.

Quando ele abre a porta para mim, então, eu largo minha mochila e a vasilha no chão e empurro meu corpo contra o dele, abraçando-o com     força enquanto deslizo a ponta de meu nariz por seu rosto, torcendo para que ele não se incomode por eu estar me tornando tão grudento assim.

— Hyung? — Ele me chama, enquanto eu deixo vários beijos inocentes por sua pele. — O que foi?

Eu dou um último beijo demorado em sua bochecha antes de me afastar um pouco, e nem minto quando digo:

— Nada. É que ver você me faz bem.

Ele pisca sem jeito, à princípio, antes de apertar um desses sorrisos que deixam seu rosto com marquinhas adoráveis, então ele me segurou pela nuca e pressionou seus lábios nos meus e em seguida beijou minha bochecha carinhosamente.

— O que mais eu preciso fazer pra você não continuar triste como está agora? — Ele pergunta, então, o que me assusta um pouco.

— Eu não estou triste, Jungkook — Digo para ele junto a uma risada nervosa, afastando-me um pouco.

Ele piscou lentamente, sem parecer se sentir convencido. Mas eu não estou triste. Eu não fico triste pelas merdas de meus pais. Eu fico com raiva. É diferente.

— Então vai embora. — Jungkook diz, sério.

Eu nem tenho reação imediata, porque realmente não previ isso em nenhuma das inúmeras possibilidades que imaginei para o desfecho da situação.

Diante da minha confusão, ele riu e me puxou pela cintura, voltando a me beijar na bochecha enquanto eu nem pisco, ainda confuso.

— Foi brincadeira, hyung. Só um sustinho pra te distrair do que quer que tenha te deixado chateado.

Eu ainda levo alguns segundos para reagir e, quando o faço, solto um resmungo baixo e incompreensível enquanto dou muito mais que um soco em seu peitoral, mas inevitavelmente rindo.

— Você precisa parar com essas coisas, Jungkook!

Ele riu um pouco mais, sem me soltar a despeito de todos os socos fracos que desferi contra seu peito. Na verdade, ele só me deu mais beijinhos.

— Você fica lindo quando está assustado ou sem jeito. Eu não resisto...

Eu faço um gesto negativo, finalmente me rendendo e desistindo da agressão brincalhona para escorregar meus braços até abraçá-lo de volta, e suspiro pesadamente quando o faço.

Eu realmente sinto muito mais que paixão por esse cara.

Sem saber como a intensidade dos meus sentimentos por ele cresce dolorosamente rápido, Jungkook se afasta um tanto e me olha desse jeitinho que me faz perder o juízo.

— Quer jantar, hyung? Eu estava esperando você chegar... comprei pizza pra gente assar no forno.

— Eu tenho uma ideia melhor. — Anuncio, afastando-me a contragosto para poder pegar as coisas no chão, então passo para ele a vasilha com as fatias cortadas de pão. — Vamos deixar a pizza para amanhã. Queria que você provasse isso...

— É o pão igual ao que minha mãe fazia? — Ele pergunta, já tomando a liberdade de abrir a tampa, e o interior está um pouco úmido já que eu guardei as fatias ainda quentes.

— Sim... — Agora, eu fico nervoso. Eu nunca fiz algo assim para ninguém, então não sei que reação devo esperar. — Fui eu que fiz...

Jungkook olhou para as fatias cortadas mais uma vez antes de mirar os olhos arregalados em mim. Depois, ele olhou para o pão. E para mim. Então abriu a boca, mas não disse nada por um tempo.

— E você fez por minha causa?

— Eu queria fazer algo importante pra você... e o pão é importante... só não está bom como o de Jiwon, mas eu tentei...

Ele olhou para o pão de novo. Depois para mim. E colocou o pão na sua mesa, cuidadosamente, para me pegar de surpresa quando, imediatamente em seguida, avançou em minha direção e segurou meu rosto pelas laterais, me fazendo recuar até pressionar minhas costas na porta fechada. Por último, ele me beijou. Tão intenso que me deixou sem ar, e tudo que fui capaz de fazer foi me segurar em seus braços para não desmontar no chão.

Jesus, esse beijo...

Foi o melhor que ele já me deu. E eu achava que seria impossível seus beijos serem ainda melhores.

Quando sua boca se afasta da minha, eu literalmente estou desnorteado. Eu pisco, balbucio e respiro desajeitadamente, tentando estabilizar meus sentidos, mas não me ajuda quando Jungkook usa o polegar para esfregar minha bochecha, como se para limpá-la.

— Isso explica por que seu rosto está todo sujo de farinha, hyung...

Eu fecho os olhos novamente, dessa vez com pesar, e praguejo sem verbalizar minhas palavras. Eu sequer me olhei no espelho antes de sair de casa e devo estar todo branco de farinha de arroz, mas ao fim eu simplesmente caio na risada.

— Eu tive um contratempo. Estava tudo pronto e eu limpinho que só, mas tive que fazer o pão de novo e agora estou cheio de farinha e suor... — Confesso, meio bobo por sentir o polegar de Jungkook acariciando minha bochecha.

Ele sorriu sem mostrar os dentes, e parece meio aproveitador quando sugere:

— Quer tomar banho? Eu posso tomar com você.

Eu acabo inclinando um pouco minha cabeça para o lado, sem me opor à sua ideia.

— Pelo visto alguém gostou de tomar banho comigo.

— Nem é isso, hyung, só quero garantir que não vai ficar nadinha sujo de farinha...

Eu rio de sua mentira deslavada e me impulsiono para deixar um beijo apertado em sua bochecha, que se move sob meus lábios quando ele abre um sorriso. Em seguida, o seguro pela mão e o puxo cuidadosamente de volta até o pão.

— Se você pode fazer esse esforço por mim, eu agradeço. Mas antes prove isso. Não ouse deixar meu pão de lado.

— Não sou nem doido. — Ele respondeu, devolvendo o beijo em minha bochecha antes de fazer cerimônia nenhuma para pegar uma das fatias. Então, eu me mantive tenso enquanto observo Jungkook mordiscar o primeiro pedaço. Ele parece confiante, a princípio, mas sua expressão pouco a pouco vai ficando meio neutra, pensativa, e eu fui ficando meio mole de nervoso.

— Ficou ruim? — Pergunto, triste em antecipação.

Mas Jungkook negou e mordeu um pedaço maior, depois um terceiro, forçando-os garganta abaixo antes de voltar a curvar os cantos dos lábios num sorriso pequeno.

— Tá muito bom, hyung... — Ele disse, finalmente. — Eu só pareço sério porque estou me controlando pra não chorar.

Eu pisco desajeitadamente antes de rir junto a um gesto negativo.

— Não precisa chorar, Jungkook. Não foi nada demais.

Na verdade foi, sim.

Em resposta, ele me mostra o mesmo sorriso de antes, com as bochechas estufadas com o último pedaço da fatia, e eu o segurei cuidadosamente para distraí-lo antes que ele pegue outra.

— E meu banho? — Pergunto, olhando-o com curiosidade. — Você pode ficar comendo enquanto eu me lavo, se preferir.

Jungkook olhou para o pão e quase pareceu entrar em colapso para tomar uma decisão, mas por fim negou.

— A gente come depois que eu garantir que você não vai ter comida na cara. — Ele disse, enfim, o que me fez dar mais um soquinho em seu ombro antes de ouvir sua risada e ser puxado para seu quarto.

Mas existe algo diferente, agora, e não me refiro ao novo quadro que comprei. É algo mais abstrato e intangível, que se faz presente entre nós dois.

Ontem, fizemos exatamente a mesma coisa. Ficamos nus e tomamos banho juntos. Não existiu nervosismo ou tensão, apenas naturalidade pura e cuidado. Hoje, eu me sinto inegavelmente nervoso quando paramos de frente um para o outro, ainda vestidos, e Jungkook parece sentir o mesmo.

Com a tensão nos circundando, eu continuo calado e viro minhas costas para ele antes de, com as mãos ansiosas, repuxar minha blusa até tirá-la de meu corpo e deixá-la de lado. Depois, tirei minha calça, ainda sem olhá-lo e permaneci somente com a boxer recobrindo meu corpo. Só então virei novamente, talvez esperando que Jungkook tivesse começado a se despir também, mas ele está exatamente do mesmo jeito, no mesmo lugar, passeando seus olhos lentamente por cada pedaço exposto em mim.

Ainda tenso, meus movimentos se tornam mais dificultosos e meu corpo parece relutar enquanto eu digo para mim mesmo que isso tudo não tem nada demais. Mas quando meus comandos vencem, minhas mãos alcançam a barra elástica da última peça que cobre minha nudez e Jungkook respira dolorosamente devagar olhando para elas, eu quase me sinto entrar em combustão.

Mas eu não volto atrás, mesmo com a coragem falhando, e desço o tecido por minhas coxas ainda marcadas por músculos suaves, até deixá-lo no chão.

Em seguida, completamente exposto para Jungkook, ainda frente a frente com ele, eu recuei até a área de banho e deixei meus olhos encontrarem os seus uma última vez antes de me virar e ligar o chuveiro diretamente em minha cabeça, para deixar a água gelada fazer seu trabalho em normalizar a sensação sufocante de calor.

Com os olhos fechados e o rosto apontado na direção do jato de água, eu não sei quanto tempo se passa até que meu corpo estremece ao sentir as mãos de Jungkook em minha cintura, parecendo tímidas e inseguras.

Minha respiração se atrapalhou toda, minha cabeça lentamente voltou à posição de repouso e um suspiro surpreso e satisfeito tomou forma quando ele me fez virar até nos colocar frente a frente outra vez, então deu o passo que ainda nos separava e, debaixo da água corrente, nossos corpos se moveram em sintonia. Meus braços envolveram seu pescoço, os seus rodearam minha cintura e nossos corpos nus se tocaram antes de nossas bocas se encontrarem novamente para um novo beijo.

Sentir o polegar de Jungkook pressionando um ponto na linha de minha coluna enquanto sua língua se une à minha entre nossos lábios entrelaçados desperta sob minha pele uma sensação de calor que nem a água gelada consegue amenizar. Então, eu não me contenho quando deslizo minhas mãos por seus braços, apreciando o toque firme de seus músculos sob minhas palmas antes de alcançar seu quadril e deslizá-las para trás, até pressionar sua nádega.

Sem reprovar meu toque, Jungkook suspirou com sua boca na minha e intensificou seu abraço em minha cintura, até fazer seu quadril pressionar a base de minha barriga com ainda mais força, o que me faz perceber que não sou o único a endurecer a cada segundo.

Um pouco mais ousado, eu interrompo nosso beijo quase com brusquidão, olhando-o nos olhos quando arrasto minha mão outra vez, tirando-a de sua bunda para guiá-la até a parte frontal nua de seu corpo, onde toco suavemente em sua ereção quase formada, sentindo minhas digitais percorrerem a pele fina de seu membro enquanto meus olhos, agora, acompanham cada movimento.

E isso me faz salivar a ponto de não entender como, nas experiências anteriores, essa parte de seu corpo me causou tanto pavor.

É deliciosa, meu deus, como cada mínima parte de Jeon Jungkook.

Sem mais receios funcionando como amarras, ao menos nesse instante específico, eu volto a erguer meus olhos até os seus e, com a inexperiência que ainda existe em mim sobre como tocá-lo da forma certa, eu massageio sua glande cuidadosamente com meus dedos e pareço acertar. Ao menos, é o que seu suspiro rendido me faz pensar.

— Jungkook... — Eu o chamo, sem parar de tocá-lo. Com os olhos desfocados em mim e suas unhas se enterrando lentamente em minhas costas, ele não diz nada, mas eu continuo mesmo assim. — Quando eu me afastei para preparar uma surpresa para você, eu disse que ia fazer uma coisa só.

— O boquete... — Ele diz em tom de dúvida, mas também esperança.

Eu faço que sim, descendo minha mão até a base, antes de retomá-la ao topo e repetir o movimento lentamente, como faço em meu próprio corpo quando me toco.

— Sim... — Respondo, usando minha mão livre para guiá-lo até pressionar seu corpo contra a parede, em seguida interrompi o fluxo de água e acariciei sua cintura quando, ainda masturbando-o beijei seu pescoço. — Eu vivo contando mentiras inofensivas para você, Jungkook... porque minha surpresa também envolvia fazer aquele pão para você. E eu fiz, então só falta uma coisa...

Jungkook está com os cabelos molhados grudados em sua testa, sei que os meus também estão assim, e seus olhos parecem esboçar toda surpresa quando, depois de mais um beijo em seu pescoço e em seu ombro, eu lentamente me ajoelho em sua frente.

— Hyung... meu deus... — Ele diz, ainda desacreditado sobre o que estou prestes a fazer.

Com um sorriso oblíquo que prova que eu desejo fazer isso tanto quanto ele deseja receber, eu reúno em meus movimentos seguintes o que li nas dicas online, além de tentar reproduzir também a forma como eu gosto que façam em mim.

Por isso, não vou direto ao seu pênis. Minha mão continua estimulando-o, mas minha boca se ocupa primeiramente com suas coxas, beijando-as nas partes internas, por onde deslizo minha língua e lábios antes de chupá-las forte o suficiente para deixar uma marca.

Torturando-o um pouco mais com a demora, eu olho para Jungkook daqui de baixo, ajoelhado no chão úmido, e percorro meus olhos por toda sua pele molhada antes de encontrar seu olhar ainda surpreso e cheio de expectativa, enquanto ele parece mal respirar.

Vê-lo tão afetado assim, como se as posições finalmente se invertessem, me faz sorrir, e eu continuo olhando-o nos olhos quando volto a aproximar minha boca e beijo seu quadril, até deslizar minha língua pela união de sua coxa com a virilha, e seu gemido ecoa na acústica do banheiro fechado.

— Hyung... — Ele me chama novamente, como se fosse incapaz de dizer qualquer outra coisa. Não que eu esteja reclamando.

Sem parar, eu deixo mais uma trilha de beijos por sua virilha, masturbando-o continuamente quando deslizo meu nariz do caminho de pêlos aparados até seu umbigo e mordo a pele logo abaixo num movimento arriscado, mas que se prova certeiro quando Jungkook resfolega novamente e suas mãos repousam em minha cabeça, empurrando minha boca contra seu corpo como num pedido para que eu continue.

Em alternativa ao que ele me pede, eu pouso minha mão em sua glande, concentrando meus estímulos nela enquanto a mão livre apalpa o interior da coxa esquerda de Jungkook, então eu a empurro para o lado, forçando-o a abrir as pernas um pouco mais, e me sinto quase retesar de nervosismo antes de ir em frente. Não porque não quero fazer, mas porque tenho medo de errar.

Mesmo assim, eu não recuo. Meus dedos agarram sua coxa com força, mantendo-a afastada da outra, e eu inclino minha cabeça na direção de sua virilha, deixando a ponta de meu nariz ser pressionada contra a base de sua ereção quando capturo suas bolas com minha boca, chupando-lhe um dos lados.

Jungkook geme de novo, dessa vez um pouco mais sôfrego, e entendo o motivo quando escuto sua voz:

— Mais devagar, hyung...

Eu alivio a pressão de meus lábios ao ouvir seu pedido manhoso, succionando com mais cuidado que da primeira vez, mas ainda me atrapalhando um pouco até que sinto seus dedos pressionarem meu couro cabeludo e Jungkook geme, dessa vez inteiramente de prazer.

— Assim... hyung...

Eu sorriria com satisfação se minha boca não estivesse tão ocupada, e mantenho-a na mesma função até que decido arriscar um pouco mais.

Interrompendo o estímulo de minha mão em seu pênis, eu seguro-o pela base e subo minha boca de encontro à sua ereção, sentindo a minha ainda mais rígida quando meus olhos recaem no comprimento coberto com as veias inchadas marcando caminhos irregulares sob a pele acastanhada, em seguida no pré-gozo manchando a pequena fenda em sua glande.

Falhando em me conter, é por puro desejo que eu mordisco meu lábio antes de tocar minha boca em seu pau, entreabrindo-a para deixar minha língua tocá-lo também, então deixo uma lambida lenta antes de beijá-lo dali em direção à glande, que é quando a respiração dele se torna ainda mais atrapalhada e minha mão se enterra ainda mais em sua coxa.

Então, eu chupo Jungkook.

Com devoção e vontade, do jeito que ele merece.

Mas também com um pouco de medo. Concentrado para não cometer nenhum deslize que possa machucá-lo, eu me contento em chupar somente a cabeça, estimulando todo o resto com minha mão enquanto seus suspiros arrastados se misturam ao som de gotas caindo vagarosamente do chuveiro fechado e se chocando ao chão.

Depois de muito me prender à zona de segurança, eu decido ir ainda mais além e forço minha língua para baixo, dando espaço para acomodar ainda mais de seu pênis em sua boca, mas ele mal precisa se aproximar de minha garganta para que eu sinta o reflexo da ânsia.

— Não... — Ele tenta dizer quando eu fecho meus olhos com força, sentindo-os arder com as lágrimas involuntárias do enjoo rápido enquanto tento me acostumar com a sensação. — Não precisa forçar... hyung...

Suas palavras saem entrecortadas pela respiração ofegante e eu aceito seu pedido quando o coloco um pouco mais para fora e abro os olhos outra vez, encontrando os seus atentos aos meus, com suas bochechas vermelhas mesmo que seu corpo ainda esteja molhado.

Ele é tão lindo. Meu deus.

Incapaz de parar de olhá-lo, eu continuo mirando seu rosto com os resquícios de lágrimas nos cantos dos meus olhos e continuo a chupá-lo da maneira que consigo, a masturbá-lo e a pressionar sua coxa tão deliciosa.

Quando sinto minha boca cansar, eu a afasto por algum tempo, voltando a descer e subir minha mão por toda sua ereção enquanto minha própria saliva facilita os movimentos. Ao me recuperar, ainda com minha respiração um pouco descompassada, eu volto a aproximar meus lábios e circundo a glande com minha língua antes de chupá-la novamente, o que faz Jungkook gemer ainda mais alto que antes e quase perder a força quando tirou uma de suas mãos de minha cabeça para apoiá-la na parede de vidro do box em sua frente e seu quadril se moveu em reflexo, penetrando devagar contra minha boca.

Sem impedi-lo, eu matenho minha cabeça parada e permito que ele continue movimentando seu quadril para a frente e para trás.

Mesmo sem poder ir fundo, o corpo curvado de Jungkook sobre o meu parece cada vez mais rendido às sensações, até que seus gemidos denunciam o mesmo e, enfim, ele anuncia:

— Hyung...

Ele não precisa terminar para que eu entenda, e seu corpo parece entrar em conflito quando ele tenta ir ainda mais fundo, mas seus dedos fazem o contrário e agarram meus cabelos, afastando minha cabeça até que, com os últimos estímulos de minha mão, Jungkook resfolega sofregamente ao gozar em meu lábio inferior e queixo em jatos espaçados, quentes e viscosos.

Eu sequer gozei, mas meu corpo parece ser preenchido por uma sensação semelhante ao orgasmo ao ver Jungkook atingir o seu tão intensamente a ponto de suas pernas fraquejarem e suas costas escorregarem pela parede até que ele acabe sentado em minha frente, olhando-me ainda de um jeito distraído, corrompido pelas sensações que seguem seu ápice.

Mesmo ainda amolecido, Jungkook me segura sem força e nossos corpos se movem até que eu sente em seu quadril, com suas pernas dobradas funcionando como encosto para mim, e ele toca em meu rosto lentamente antes de descer seu polegar até capturar seu próprio gozo em meu queixo. Então, sua outra mão segura minha nuca e ele puxa minha cabeça até fazer minha boca chegar à sua.

Ainda ofegante, ele pede:

— Goza pra mim também, hyung...

Incapaz de negar seu pedido, eu quebro a distância mínima entre nosso lábios para voltar a beijá-lo, ainda sentindo seu polegar e sua mão em minha cabeça quando a minha escorrega entre nossos abdomens e captura minha própria ereção, que me faz gemer ainda no primeiro estímulo.

E provando que meu corpo e mente estão alinhados, o prazer que senti ao fazer Jungkook gozar se prolonga até que a masturbação e o beijo que recebo me fazem atingir meu próprio limite e eu perco a força para continuar beijando-o, embora seja incapaz de separar minha boca da sua quando respiro desastrosamente enquanto o gozo é expulso por minha glande.

Eu me sinto atordoado da melhor forma possível, com minha mente explodindo em várias sensações boas quando Jungkook passa os braços ao redor de minha cintura e me abraça, pressionando nossos lábios juntos num selinho antes de afastar seu rosto minimamente e me mostrar esse sorriso, que já escolhi como o mais bonito do mundo.

Ele parece tão feliz, agora. Eu me sinto tão feliz que, quando me dou conta, estamos os dois sorrindo um para o outro como os bobos que somos.

E isso é tão novo para mim que eu percebo que o que sinto por Jungkook supera todas as vezes em que me apaixonei nessa vida. Parece ainda mais intenso, ao ponto de fazer parecer a palavra paixão pequena demais.

Agora eu me pergunto, Jungkook... se não é somente paixão, o que é isso que você me faz sentir?

❥ [Continua...]

Chapter Text

Talvez um boquete no banho, shampoo de camomila para bebês e pão sem glúten sejam a fórmula da felicidade.

Depois que eu e Jungkook terminamos de nos lavar, tomando a liberdade de dar mais uns beijos debaixo do chuveiro antes que ele enchesse meu rosto com espuma de sabonete e passasse uns dois minutos ininterruptos rindo do resultado, nós voltamos a nos vestir e é às dez e meia da noite que finalmente jantamos.

E quando sentamos juntos no chão da sala, com as costas apoiadas no seu sofá pequeno e pratinhos coloridos em nosso colo, eu sinto que toda a frustração por meu primeiro pão ter ido para o lixo já se dissipou no meio das risadas que Jungkook arranca de mim.

— Esse é o primeiro sanduíche que eu faço com um pão tão importante — Ele diz, ainda antes de provarmos nosso jantar. — Espero que esteja à altura.

— Eu quem espero que meu pão esteja à altura do seu dom culinário. — Confesso, usando as mãos para arrancar um primeiro pedaço do sanduíche em meu prato. Quando Jungkook faz o mesmo, nós brindamos com os pedacinhos de comida antes de simultaneamente os levarmos à boca.

Silenciosamente avaliando a combinação de nossos esforços, nós continuamos calados até que eu fecho os olhos e suspiro aliviado.

— Ficou bom! — Ele diz, feliz, ao chegar à mesma conclusão que eu.

— Ficou muito bom. Parece que nós formamos uma boa dupla, Jungkook.

Em resposta, ele orgulhosamente oferece seu punho fechado para mim e eu quase instintivamente choco meu próprio punho contra o seu antes de ser pego de surpresa quando, um segundo depois, ele me roubou um selinho desastrado que me fez rir.

Voltando a atenção para nosso jantar, eu pego mais um pedaço do sanduíche enquanto olho para a tela da TV conectada ao seu notebook, onde busquei um novo filme de comédia romântica para vermos juntos, mas que logo perde minha audiência quando lembro de algo e, de boca cheia, volto a olhar para Jungkook.

— Ei — Eu o chamo depois de forçar o pedaço de comida quase inteiro garganta abaixo.

Também com a boca cheia e as bochechas estufadas de sanduíche, Jungkook apenas dirige seu olhar para mim em silêncio.

— Eu estava bêbado da última vez em que perguntei, então você nem deve lembrar... mas você quer, sei lá, ir acampar comigo?

Eu estava mesmo embriagado, mas nem isso me faz esquecer das coisas que Yoongi listou, revelando os desejos secretos e românticos que Jungkook tem. Por isso, não me surpreendo quando seus olhos se arregalam e, ainda com um tantão de comida na boca, ele pergunta:

— É fério, fyung?

Eu acabo caindo na risada, principalmente quando ele fica envergonhado e cobre a boca com a mão antes de também rir.

É a coisa mais fofa do mundo inteiro.

— Sim. — Eu respondo, então, deixando uma mão livre para meu sanduíche, mas usando a outra para acariciar sua nuca. — Mas... tem um porém. Coisa besta.

Jungkook finalmente engole o bolo alimentar, mas apenas pisca curiosamente enquanto espera que eu esclareça as coisas.

— O acampamento vai ser no aniversário de Nara. Da... minha ex. Nós éramos muito amigos antes mesmo de sermos namorados e eu não queria perder isso agora, sabe? E ela está disposta a me perdoar pelo meu vacilo, me convidou para ir passar o fim de semana com nossos outros amigos e disse que está tudo bem se você for. Então... você quer ir comigo?

A expressão de Jungkook variou ao longo de toda minha explicação ansiosa, mas ao fim ele ainda parece confuso e incerto.

O problema é que eu realmente quero que ele vá comigo, então tento mais um pouco.

— Eu já tenho a barraca. Nós vamos dormir na mesma, só eu e você, e eles provavelmente vão acender uma fogueira à noite... também tem uma cachoeira nas redondezas e é maravilhoso tomar banho nela no verão. E... as estrelas! Nós podemos ver várias de lá, Jungkook-ah...

— Hyung... — Ele me interrompe, a confusão agora alcançando sua voz também. — Você disse que seus outros amigos vão estar lá?

— Sim... é mais o pessoal da universidade. Eu não gosto muito deles, na verdade, mas uns até que são divertidos.

— Seus amigos vão estar lá... e você quer ir comigo? — Ele insiste, como se eu não estivesse entendendo seu ponto. — Você não tem mais vergonha de estar comigo, hyung?

Eu mal percebi, até então, que estava planejando apresentar Jungkook para várias das pessoas de meu convívio sem sequer sentir receio por isso. Agora que estou ciente, sinto um pouco de frio na barriga ao pensar nas consequências, mas antes e depois dessa percepção minha resposta à sua pergunta é a mesma.

— Eu tenho é orgulho. — E digo em voz alta.

Não é raro acontecer, mas eu cedo toda vez que vejo esse seu jeito tímido de reagir a essa nova versão de Park Jimin que tenta ser cada dia melhor para ele e, principalmente, para mim mesmo (porque rejeitar minha sexualidade talvez tenha sido uma das piores coisas que fiz comigo).

— Eu realmente gostaria de te apresentar aos meus outros amigos — Completo, diante de seu silêncio, e pergunto outra vez: — Você vai comigo?

Jungkook move os lábios num gesto desastrado, mas sua resposta vem de forma não-verbal, com um tímido movimento de cabeça para cima e para baixo.

Ele vai.

Dolorosamente feliz por isso, eu não escondo meu sorriso, que deve ter o tamanho do mundo agora, e se torna ainda maior quando Jungkook também sorri para mim, timidamente.

— Não é uma reclamação, mas isso é tão estranho... — Ele diz, ainda com o sorriso pequeno. — Eu nunca imaginei que aquele cara que eu conheci uns meses atrás e que vivia me esnobando chegaria a me tratar como você me trata agora, hyung...

— Considere que a surpresa é de mão dupla. — Devolvo, ainda massageando sua nuca. — Eu também nunca imaginei que aquele safado da calça de couro seria a pessoa mais adorável que eu já conheci.

— Eu não sei por que você vive dizendo isso. Eu não sou fofo.

Eu ergo minhas sobrancelhas no gesto mais desacreditado que consigo personificar, tanto que Jungkook deixa uma risada fraca escapar e se corrige:

— Mas se meu hyung acha que eu sou, então devo ser mesmo.

— Melhor assim. — Digo, ainda olhando-o de forma arisca até que ouço uma nova risada sua, acompanhada de um soquinho brincalhão em meu ombro que finalmente me faz desfazer a careta e rir também.

Então, nós voltamos a comer. E conversamos mais, rimos das poucas partes do filme nas quais prestamos atenção e nos derretemos com a cena clichê de quando o protagonista vai ao aeroporto no último segundo para impedir que seu par romântico vá embora.

— Você consegue imaginar a gente protagonizando uma cena daquela, hyung? — Ele me pergunta quando, depois de arrumarmos a sala e darmos boa noite para Keanu, nos preparamos para dormir.

— A cena clichê do aeroporto? — Questiono, dessa vez sendo eu a ligar o ventiladorzinho para amenizar o calor.

— Essa ou qualquer outra tão clichê — Explica, me acompanhando com seus olhos escuros quando dou a volta até me sentar do outro lado da cama, então abraço meus joelhos, virado para ele.

— Eu acho que nós já somos um clichê. — Respondo, vendo-o sentado também com os braços abraçando as pernas dobradas contra seu abdômen. — Eu te odiava no começo, mas quando quase te perdi, descobri que estava apaixonado por você. Clichê puro.

— Se for assim... minha experiência com clichês me diz que em algum momento nós vamos precisar nos separar mesmo querendo continuar juntos — Ele pondera, com o queixo apoiado sobre os joelhos.

Não posso negar. É assim que acontece.

— Se isso acontecer com a gente, o lado culpado por permitir a separação recebe, do outro, um cascudo. Um muito bem dado. Estamos combinados assim? — Sugiro, já com a mão oferecida para ele.

Depois de olhar para minha palma paciente, Jungkook assentiu e selou nosso acordo com um apertar de mãos. Em seguida, ele me puxou em sua direção e fez meu corpo se chocar contra o seu, abraçando-me antes de cair para trás e me puxar junto, até deitarmos.

— Hoje eu posso ser a conchinha de fora, hyung?

Eu sorrio diante de seu pedido, tocando seu rosto com cuidado para deixar um beijo em sua boca antes de cuidadosamente me mover em seu abraço e oferecer minhas costas. Então, ele encaixa seu corpo no meu e eu me sinto arrepiar quando ele desliza a ponta do nariz por meu pescoço.

— Vou dormir de conchinha com Park Jimin depois de receber um boquete e um pão dele... — Pondera, com o sorriso se tornando audível a cada palavra dita. — Isso parece um sonho...

Eu não preciso dizer nada, apenas deixo uma risada dar as caras e me aconchego melhor quando ele estica seu corpo na direção contrária ao meu para apagar a luz. Logo em seguida, volta a me abraçar e a deslizar seu nariz por meu couro cabeludo.

— Boa noite, hyung. — Ele diz, apertando seus braços ainda mais um tanto ao meu redor.

— Seus pés estão cobertos?

— Sim...

— Então boa noite, Jungkook-ah.

No calor do seu quarto, com apenas o ventiladorzinho azul-jungkook aliviando a sensação do verão, nós continuamos abraçados por toda a noite.

Na manhã seguinte, nós fizemos torradas com as fatias restantes do meu pão, comemos juntos e ele foi trabalhar. Eu fiquei em seu apartamento, conversei com Keanu, como de costume, arrumei uma planilha com meus compromissos do estúdio e fiz alguns exercícios ali mesmo, na sua sala pequena.

Estar na casa de Jungkook, apesar da temperatura, é ainda mais confortável que estar na minha. Por isso, e por ouvir ele dizer com todas as letras que queria, eu passei outros dois dias seguidos ali com ele.

Apenas na sexta voltei para casa, para poder me preparar para o aniversário de Nara e procurar minha barraca de camping, que ficou esquecida no armário da área de serviço por tempo demais.

Nessa noite, eu dormi sozinho, no conforto da minha cama, com minhas cobertas aconchegantes e o ar condicionado mantendo a temperatura do jeito que gosto. Mas sem Jungkook, nada disso me pareceu tão bom quanto era antes.

Por isso, assim que o dia de sábado amanheceu, eu saí de minha casa e voltei para a sua.

— Hyung, desculpa! — Ele diz assim assim que abre a porta para mim, desesperado a despeito do sorrisão que eu tenho na cara.

— O que foi, bebê? — Pergunto, aliviando o peso em meus braços ao colocar minha mala e a bolsa da barraca no chão para fechar a porta, enquanto ele corre até a cozinha para lavar um punhado de coisas sujas na pia.

— Eu atrasei. Desculpa! — Pede, parecendo a coisa mais linda do mundo inteiro vestindo seu pijama do patolino.

— Está cedo, Jungkook-ah. — Eu o tranquilizo, sem conseguir segurar uma risada, e abraço-o por trás, deixando um beijo em seu ombro. — Deixa que eu lavo. Pode ir se arrumar.

Ele fecha a torneira, seus ombros caem e ele vira até ficar de frente para mim com a expressão ofendida, então colocou as mãos na cintura, sobre seu pijama estampado com patos.

— Eu já estou pronto, hyung. Você acha que eu não estou bonito o suficiente?

Eu pisquei lentamente antes de cair na risada, me jogando suavemente em cima de seu corpo, até ser abraçado por ele.

— Você está lindo. Se quiser ir assim, vou caminhar orgulhosamente ao seu lado — Anuncio, ainda risonho.

— Fofo... — Ele diz, sentido. — Mas é claro que eu não vou assim! Tem certeza que pode lavar pra mim? É muita coisa...

— Eu lavo. — Garanto, empurrando minha boca contra a sua para roubar um selinho. — Mas como você sujou tanta coisa em tão pouco tempo?

— Ah, é que... — Ele parece sem jeito.

— O que? — Insisto, curioso.

— Eu precisei cozinhar de última hora... — É o que ele diz, com um sorriso envergonhado. — Eu posso mesmo ir me arrumar?

— Pode, bebê. — Garanto, sendo brincalhão ao arregaçar as mangas curtas da minha camisa cara. — Eu cuido disso aqui.

Jungkook sorriu levemente tímido, mas não hesitou mais e caminhou até seu quarto. Quando ouvi o barulho do chuveiro ligado, minhas mãos já estavam cheias de espuma de detergente e dali até o fim eu quase quebrei uma travessa de vidro, mas até que me saí bem. Menos quando precisei arrumar toda a louça limpa no escorredor. Equilibrar as coisas ali é uma tarefa difícil.

Enfim, secando minhas mãos num dos panos de prato, eu me certifiquei de deixar a pia brilhando como um brinco, até que minha atenção foi atraída quando ouvi os passos de Jungkook se aproximando e me virei a tempo de vê-lo saindo do quarto.

Já vestido, lindo como sempre, e carregando sua mala como se tentasse escondê-la.

Com uma olhadela um pouco mais cuidadosa, eu entendo o porquê ao perceber que o tecido gasto da bagagem está rasgado em mais de um lugar, enquanto a minha ostenta orgulhosamente o nome da marca Samsonite no centro da parte frontal.

Ciente sobre seu desconforto, eu tento tranquilizá-lo ao fazer um total de zero comentários sobre o estado desgastado de sua mala e me aproximo dele, apoiando minhas mãos secas em sua cintura para segurá-lo antes de beijar sua bochecha.

— Você está lindo. — Digo, com sinceridade. — Você é lindo.

Jungkook não relaxa completamente, mas parece se sentir um pouco mais confortável quando me oferece um sorriso em resposta.

— Você também, hyung...

— Você sabe o que vou dizer... — Pondero, quase rino, e revelo: — Sempre.

Ainda sorridente, eu me afasto e bato palmas duas vezes, num gesto motivacional.

— Ok. Então vamos? Eu vou chamar o carro para nos levar.

— A viagem fica muito cara, hyung? — Ele pergunta, preocupado, antes de concordar com meu convite apressado.

— Eu já disse que você não precisa se preocupar com isso. É por minha conta — Relembro. Agora que já estamos esclarecidos sobre o motivo de seu desconforto toda vez que pago algo para ele, eu espero que Jungkook entenda que não precisa pensar daquela forma. Eu nunca, nunca mesmo, vou ser capaz de vê-lo como uma mercadoria, não importa quanto dinheiro seja usado com ele.

Aliás, se sequer pudesse ser comprado, montante nenhum no mundo seria suficiente para igualar o valor de Jeon Jungkook.

E como se aos poucos tentasse entender isso, ele fez um movimento suave, hesitante, mas condescendente.

— Tá... Obrigado, hyung.

Eu nego, arrumando o cabelo em sua testa antes de sorrir satisfeito e respirar fundo.

— Keanu, — Eu chamo o peludinho, agora abraçando Jungkook pela cintura, ao lado de meu corpo. — eu devolvo seu pai amanhã. Prometo cuidar bem dele.

Jungkook riu e tirou o cacto da janela onde sempre fica para pegar sol, colocando-o no móvel da TV.

— Quando eu voltar, você toma seu solzinho de novo. — Ele diz, acariciando o vasinho onde seu filho está plantado, já que não pode acariciar os gominhos cheios de espinhos. — Cuide bem da nossa casa.

Ah, sinceramente. Eu acho que já morri de amor e quem está aqui é somente meu espírito, porque não é possível.

Erguendo o corpo novamente, Jungkook vai até a geladeira e pega algo envolvido por uma capa de cozinha, depois pega sua mala e nós cuidadosamente trancamos o apartamento quando saímos.

— O que é isso? — Pergunto, curiosamente olhando para a coisa misteriosa que ele carrega.

— Ah, não é nada demais... é o presente de Nara... — Ele diz, parecendo sentir vergonha.

— Não precisava se preocupar, Jungkook-ah. — Eu o tranquilizo. — Meu presente vai ser dado em seu nome também. Mas aposto que ela vai gostar do seu, se foi você quem fez.

Ele sorri ainda intimidado e não toca mais no assunto até que entramos no carro que chamei por um aplicativo. Sentados lado a lado, já no caminho para a casa de veraneio da família de Eunjo, ele parece tenso, com as mãos unidas sobre seu colo e uma das pernas balançando freneticamente.

Cuidadoso, eu apoio minha mão em sua coxa e ofereço um sorriso carinhoso, que ele retribui com um apertar de lábios nervoso, antes de se aconchegar mais ao meu lado e deitar sua cabeça em meu ombro.

— Eu não quero fazer você passar vergonha, hyung, mas eu sou tão...

— Lindo, engraçado, talentoso, fofo, inteligente e carinhoso? — Eu o interrompo, cuidadosamente.

— Pobre... — Corrigiu, envergonhado.

Eu nego, dando um soco nem tão leve assim em sua perna.

— Lindo, engraçado, talentoso, fofo, inteligente e carinhoso. — Repito, agora sem o tom de questionamento. — Então deixe de besteira.

Apesar de não parecer inteiramente convencido, Jungkook não retomou essa conversa. Mas quando uma hora e vinte minutos depois descemos diante da casa luxuosa onde passaremos o fim de semana, eu juro que senti sua mão tremer, entrelaçada à minha.

A parte da frente do terreno extenso já está cheia de carros luxuosos, daqui conseguimos ouvir precariamente a música alta que vem do fundo e a combinação de cada fator parece fazer Jungkook congelar sobre o caminho de paralelepipedos ladeado pela vegetação natural e frondosa, que foi mantida ao passar das gerações da família de Eunjo.

— Hyung... — Ele me chama, olhando para cada detalhe abastado que compõe a imagem do lugar onde estamos, enquanto sua mão aperta nervosamente o presente que ele traz consigo.

— Vem, bebê. — Eu o toco carinhosamente, sem pressionar. — Nós vamos entrar, mas todo mundo deve estar lá fora. Nós não precisamos ir falar com eles agora.

Ele hesitou antes de assentir dubiamente, então eu apertei sua mão e o puxei pelos degraus da escada que leva à enorme varanda frontal, ladeada por uma cerca branca unida a pilares largos, com detalhes talhados ao longo de sua superfície. 

Já diante da porta dupla, eu toco a campainha e continuo acariciando a mão de Jungkook presa à minha por todo o tempo, até que finalmente somos recebidos por Nara, com os cabelos longos soltos, os óculos de grau apoiados no topo de sua cabeça e um vestido cheio de cores acompanhando as curvas de seu corpo.

Ao ver Jungkook, ela tentou abrir um sorriso e disse:

— Achei que tinham desistido! Podem entrar!

Nós passamos para dentro e, diante do jeito completamente travado de Jungkook, eu quem tomo a dianteira da situação.

— Feliz aniversário, Nara. — Desejo, mesmo que seu aniversário tenha sido durante a semana, e acaba sendo um pouco desconfortável quando me aproximo para abraçá-la.

— Obrigada, Jimin. — Ela diz educadamente, olha para Jungkook à espera da felicitação, mas ele ainda está tão nervoso que nada diz.

Atrapalhado, eu tento contornar o desconforto ao ofegar, fingindo lembrar de algo que sequer esqueci verdadeiramente, então abri um dos compartimentos pequenos de minha mala e tirei dali uma caixa aveludada da Tiffany&Co cuidadosamente embrulhada, estendendo-a para minha ex-namorada logo depois.

— Seu presente. Espero que goste.

Ela sorriu abertamente e seus olhos se arregalaram quando ela desfez o embrulho e se deparou com um bracelete de ouro branco. Em seguida, ela riu.

— Você é sempre extravagante. — Diz, ainda sorrindo. — Obrigada, de verdade. É lindo.

Ao meu lado, Jungkook se encolhe ainda mais e eu o olho preocupado, porque nesse ritmo parece mesmo que ele vai fugir a qualquer segundo. Então, os olhos atentos de Nara pousaram sobre a travessa envolta pela capa que ele carrega, e ofereceu, atenciosa:

— Quer que eu coloque na cozinha?

Jungkook respirou profundamente, nervoso, e se atrapalhou todo quando curvou o corpo ao estender a bandeja para a mulher em nossa frente e o peso da mala pendurada em seu ombro quase o fez cair.

— Feliz aniversário... eu fiz pra você...

— Que atencioso... — Ela disse, realmente surpresa, e segurou a bandeja antes de recuar com dois passos para deixar meu presente sobre um dos móveis de apoio. — Obrigada, Jungkook. Se importa se eu abrir agora?

— Não... mas não é nada demais, eu... — Ele disse, quase gaguejando. — Eu acho que você não vai gostar, é uma coisa muito simples e...

— Não fale assim. — Ela diz, mansa. Nara dificilmente é cuidadosa assim com o próprio tom, coisa que só comprova o quanto o nervosismo de Jungkook é aparente.

Agora, até eu me sinto nervoso e pisco, medroso, quando vejo que ela tira a travessa plástica de dentro da capa que a protegeu por todo o caminho, finalmente revelando vários bolinhos doces de massa de arroz, cuidadosamente moldados como trouxinhas, de cores diversas.

— Eu não sabia se você gosta do recheio de feijão doce, então fiz alguns com recheio de mel... — Jungkook disse nervosamente, enquanto Nara olha impressionada para as sobremesas que carrega.

— Você quem fez? — Ela pergunta, surpresa mesmo antes de provar porque até a aparência está perfeita. Os detalhes tão delicados e bem feitos quanto só as mãos de Jungkook poderiam fazer.

— Sim... desculpa por não poder dar um presente melhor. — Ele pediu, ainda envergonhado.

Nara, por outro lado, parece verdadeiramente feliz e satisfeita com o que ganhou, principalmente quando pega o primeiro doce e o leva à boca. Então, ela tem a reação que eu já conheço bem, toda vez que experimento algo feito por ele.

— Jesus! — Ela arregalou os olhos, já pegando a segunda trouxinha. — Isso está maravilhoso! Meu deus, se eu soubesse que você faz coisas assim teria encomendado todos os doces da festa com você!

Jungkook parece desacreditado sobre os elogios, a princípio, até que seus olhos surpresos ganham a companhia de um sorriso lindo e crescente.

— Você gostou mesmo?!

— É o melhor tteok que eu já comi! — Ela disse, e eu conheço essa mulher. Ela está mesmo sendo sincera. Então, ela avisa: — Os outros precisam provar isso, mas antes vou esconder alguns na cozinha para comer depois!

Em seguida, ela nos oferece um sorriso e prova mais um bolinho antes de suspirar em êxtase e nos dar as costas, gesticulando para que a acompanhemos.

— Ela cagou pro meu presente. — Eu digo, vendo a caixinha de veludo esquecida no móvel da entrada. Por fim, suspiro conformado. — Mas eu entendo. Não tem como competir com seus doces.

— Eu achei que ela ia debochar de mim...

— Nunca, bebê. Nara é estressada como satanás, mas é uma pessoa maravilhosa. Ela nunca faria algo assim.

— E é muito bonita e mais adequada pra você... e você está comigo...

Eu suspiro arrastado, já fazendo um gesto de negação.

— Não começa, Jungkook. Você sabe que...

— Eu quis dizer que se mesmo assim você está comigo, eu devo mesmo ser muito bom — Ele me interrompe, com um sorriso sacana de lado que me faz revirar os olhos antes de dar um soco no seu ombro.

— Você é o melhor, desgraçado lindo. — Garanto, então.

Jungkook finalmente me mostra um sorriso um pouco mais confiante, e eu seguro minha mala com uma mão e com a outra seguro a sua, entrelaçando nossos dedos.

— Vem. Quero te apresentar aos meus amigos — E digo, aproveitando seu momento de leveza.

Apesar de concordar, eu sei que ele ainda está nervoso. Eu também estou. É a primeira vez que vou apresentar um cara a todas essas pessoas e não posso negar que sinto um pouco de medo das reações, mas eu não solto a mão de Jungkook nem mesmo por um segundo.

Então, nós atravessamos a sala, até chegarmos às portas de vidro abertas que levam ao fundo do terreno extenso.

A imensidão verde se perde no horizonte, de onde a pequena cachoeira faz o som da água alcançar nossos ouvidos sob a música agitada que continua tocando.

Não muito afastado da casa, eu vejo barracas já montadas e vários rostos conhecidos enquanto alguns bebem e outros se aproximam de Nara para provar os doces que ela anuncia como os melhores do mundo.

Jungkook respira fundo com o nervosismo. Eu faço o mesmo.

Então, aperto sua mão com mais força e o puxo suavemente, voltando a caminhar ao seu lado. O que, pouco a pouco, atrai a atenção dos meus antigos colegas. Muitos deles nem conseguem disfarçar a surpresa.

Os sons da natureza e da caixa de música continuam ininterruptos, mas as vozes se calam. Os olhares, permanecem.

Diante do silêncio, da surpresa e do desconforto, Eunjo parece tentar intervir em meu favor e se esgueira entre as pessoas que estavam num círculo com ele, aproximando-se com um sorriso receptivo.

Eu quase me sinto mal por tê-lo chamado de marmota.

— Jimin! — Ele diz, me abraçando pela lateral do corpo, também me dando um tapinha camarada nas costas. — E Jungkook, não é?

— E aí, Eunjo. — Eu respondo, aliviado por sua intervenção bondosa.

— Querem beber alguma coisa? — Oferece. — Tem tudo que vocês possam imaginar!

Eu o olho, curiosamente.

— Tem leite de banana e suco de melancia? — E pergunto.

— Ah, não... quase tudo, então.

Eu rio, devolvendo o tapinha em suas costas.

— Tudo bem. Vou apresentar Jungkook aos outros, depois escolhemos o que beber — Decido, mas então olho para Jungkook, preocupado. — Ou você está com sede?

— Eu tô bem, hyung...

— Ok, então... — Eu aponto para um grupo menor, puxando Jungkook comigo depois de gesticular para Eunjo, que assente com um sorriso preocupado.

É, marmota, eu também estou com o cu na mão.

Diante das primeiras pessoas das quais me aproximo, as três de quem eu era mais próximo na época da faculdade, eu umedeço meu lábio num gesto nervoso e sorrio para elas.

— Ei. Já faz um tempo — É a melhor abordagem na qual consigo pensar.

— Oi, Jimin! — Nayeon é a primeira a abrir um sorriso, mesmo que segundos atrás estivesse tão confusa quanto os outros. — Você sumiu!

— E reapareceu... gay? Você virou gay? — Jeongyeon se manifesta antes que eu diga algo, mas logo leva um beliscão de Nayeon.

— Eu não... eu não virei gay. Ninguém vira, na verdade — Eu digo, já completamente constrangido, e pigarreio, dizendo tão baixo que talvez nem escutem: — E bissexual seria um rótulo mais apropriado. Enfim! — Me apresso em finalizar essa parte constrangedora. — Esse é o Jungkook...

Os olhares das três continuam pousados em mim, como se esperassem curiosamente alguma informação a mais. Elas querem saber se...?

— Ai, fala logo! — Dahyun bate o pé. — Ele é seu namorado, é?

Eu abro a boca para responder, mas então isso é tudo que faço. Abro a boca. E fico com ela aberta. E não digo nada. Por muito tempo.

Eu queria dizer que sim. Porra, eu queria dizer que esse cara aqui ao meu lado é meu namorado, mas nós não namoramos. No entanto, eu não sei como dizer de forma simplificada que é o homem por quem estou perdidamente apaixonado, que me faz feliz e com quem compartilho horas e horas da minha semana (que nunca parecem suficiente), mas com quem não tenho compromisso firmado.

E eu não quero simplesmente dizer que não, não namoramos.

Por isso, continuo parado como um tonto, até que é Jungkook quem fala pela primeira vez:

— Nós não somos namorados...

Ok.

Certo. Maravilhoso.

E é a verdade, afinal.

— Mas nós estamos juntos. — Eu tomo a liberdade de anunciar, para que não pensem que eu e ele somos só amigos muito íntimos que por acaso andam de mãos dadas, porque sei que é provável de pensarem na possibilidade.

As pessoas têm mesmo esse hábito de procurarem mil justificativas mirabolantes, mas que na cabeça delas parecem mais aceitáveis que um cara estar com outro. Enfim.

— Ok... então, oi, Jungkook-que-não-é-o-namorado-de-Jimin-mas-que-está-com-ele. — Dahyun é a primeira a se manifestar, enquanto Jungkook parece surpreso ao meu lado.

Ele achou que eu aproveitaria sua resposta para despistar e tentar sutilmente preservar minha suposta heterossexualidade diante de meus amigos?

Esse cara ainda vai se surpreender muito.

— Oi, Jungkook. Ela é Dahyun. Eu sou Nayeon e essa aqui é a Jeongyeon. É um prazer conhecer você!

Respeitosa e exageradamente, Jungkook outra vez curva seu corpo quase em noventa graus, cumprimentando-as todas de volta.

— É um prazer! — Ele diz, então, e Jeongyeon balbucia algo, olhando encantada para o cara que me acompanha.

— Gente, que fofo e educado...

Eu poderia passar horas falando para ela que, sim, ele é dolorosamente fofo e educado e várias outras coisas mais, mas nem chego perto de ceder ao impulso e gesticulo novamente, apontando para um dos lugares vazios sobre a grama.

— Nós já voltamos. Vamos montar logo a barraca antes que fiquemos bêbados demais para isso.

— É uma boa ideia. Espero que tenham trazido roupa de banho. Nós vamos para a cachoeira!

Eu sorrio ao fazer que sim, e me despeço com um último aceno antes de caminhar com Jungkook até o local onde deixamos nossas coisas e eu começo a colocar as peças da barraca sobre a grama.

— Hyung... — Jungkook me chama, distraidamente me ajudando a montar a tenda.

— Oi, bebê. — Respondo, sem olhá-lo.

— Quando elas perguntaram se... — Ele começa a dizer, parecendo receoso, mas é interrompido quando uma voz se sobrepõe à sua.

— Amigo!

Pego de surpresa, eu imediatamente olho por cima do ombro e reconheço Sunhye, que parece ter acabado de chegar com uma mochila enorme pendurada nas costas, uma de suas calças folgadas e um top esportivo recobrindo seus seios.

— Sunhye? — Eu a chamo ao mesmo tempo em que fico de pé, recebendo-a num abraço quando ela se lança em mim. — O que você está fazendo aqui?

— O meu problema amoroso? — Ela diz, já se afastando. — O cara com quem estou saindo me chamou pro aniversário de uma amiga dele e eu estava meio hmm, não sei? Enfim, acabei vindo. Não acredito que você está aqui também! E o Jungkook! Oi, Jungkook! Lembra de mim?

— Oi, Sunhye... lembro, sim!

Ela abre um sorrisão e acena energicamente com a mão, mas acaba levando um susto quando um dos caras da minha antiga turma de direito na universidade a abraça por trás.

— Jiyong? — Eu pergunto para minha amiga, surpreso. — Você está saindo com o Jiyong?

— Jimin? — Ele sorri ao me ver. Mal o respondo e ele já lança a pergunta: — Você e Nara voltaram?!

Sunhye parece confusa por um instante, até que sozinha descobre o que está havendo e arregala os olhos. Eu, por outro lado, nego calmamente e estendo a mão para Jungkook, pedindo que ele se levante. Quando ele fica de pé ao meu lado, sob o olhar cheio de estranheza no rosto de Jiyong, eu esclareço:

— Eu e Nara ainda somos amigos. Esse aqui é o Jungkook. Eu estou com ele agora. Jungkook, esse é o Jiyong. Nós estudávamos juntos.

— Oi. É um prazer — Meu bebê lindo cumprimenta, mas eu me preocupo de verdade com o estado de sua coluna depois de tanto se curvar assim.

No entanto, Jiyong não diz nada. Ele olha de mim para Jungkook, então olhou para Sunhye, e sua expressão incrédula se desfez quando ele gargalhou exageradamente.

— É uma brincadeira, não é? — Supõe, ainda rindo como se eu tivesse mesmo contado uma piada. — Quase acreditei! Que susto, Jimin!

Nós três permanecemos sérios, o que pouco a pouco faz sua risada morrer e seus olhos se comprimirem quando ele move as sobrancelhas num gesto desacreditado.

— Isso é sério? — Agora, seu tom é acusatório.

— Por que não seria? — É Sunhye quem questiona, já com o tom desconfiado e as sobrancelhas contraídas.

— Porque o Jimin não é assim. Ele não é gay, Sun...

— É claro que não sou gay. Sou bi. — Esclareço.

Ele ri novamente. Dessa vez, é uma risada de desagrado, que vem acompanhada de um gesto negativo.

— O término do namoro deve ter mexido com você. — Então, ele me dá um tapa no ombro, que me parece uma provocação. — Logo você volta ao normal.

Jiyong nos deu as costas e se afastou em seguida. Sunhye continuou parada no mesmo lugar, olhando-o com a expressão dividida entre choque e decepção, enquanto Jungkook está claramente constrangido.

Com um suspiro, eu busco sua mão com a minha, em seguida trago-a até minha boca e beijo seu dorso.

— Esquece ele. — Eu digo, para que Jungkook não volte a se prender a uma bolha de receio. — Vamos montar logo nossa barraca, depois eu te levo na cachoeira, ok?

Ele faz que sim, mas não é o único incomodado, porque Sunhye continua com sua expressão de desagrado.

— A gente se fala depois — É tudo que ela diz antes de se virar e seguir o mesmo caminho que Jiyong seguiu, com sua irritação visível até mesmo em seu jeito de caminhar.

Sem me prender a esse momento de desconforto, eu sorrio para Jungkook e volto a me agachar para arrumar nossa barraca, processo durante o qual Nara nos traz um copo de suco para cada e Eunjo nos serve um prato com o churrasco recém preparado.

E, principalmente, tempo durante o qual eu vejo Sunhye e Jiyong tendo conversas pouco amistosas, porém discretas, do outro lado do diâmetro do círculo disforme que as barracas formaram.

— Como está sendo acampar pela primeira vez? — Eu pergunto, então, quando finalmente terminamos de erguer a tenda e nos sentamos diante dela, suados, finalizando nossas bebidas.

— Isso cansa... mas é bom — Ele responde, com um sorriso do tamanho do mundo, acompanhado de um rastro de suor na lateral de seu rosto.

— Sim? — Pergunto, deixando meu copo vazio cuidadosamente ao lado. — Quer ir mergulhar?

— No mar da paixão? — Ele devolve, debochando de minha metáfora de tempos atrás.

— Pelo amor de deus, Jungkook... eu já disse que o que eu usei na metáfora era uma piscina. — Corrijo, o que o faz rir e se inclinar para beijar minha bochecha.

Em seguida, ele deixou seu copo vazio junto ao meu e engatinhou para dentro da barraca.

— Já vou trocar de roupa!

Eu olhei ao redor. Alguns dos meus colegas já foram para a cachoeira, Nara inclusive, mas alguns ainda estão por aqui e viram o beijo que Jungkook me deu. E eu não dou uma foda para isso.

Sorridente, eu mesmo passei para dentro da barraca e fechei a porta com o zíper para nos dar privacidade.

— À noite faz calor? — Ele pergunta, revirando sua mala em busca da roupa de banho.

— Não muito. É bem fresco, na verdade. — Respondo, também buscando a minha.

— Ah, — Ele murmura, então vira para mim, com o ventiladorzinho azul-jungkook em mãos e aperta o botão de ligar enquanto aponta-o para meu rosto. — mas eu trouxe nosso ventilador.

Isso é algo que ele anuncia casualmente, mas que me faz perder a reação enquanto a rajada de vento continua a ser soprada em minha direção.

Ele chamou de nosso ventilador. Não o ventilador dele. O nosso.

Em seguida, eu acabo rindo de felicidade e anuo minha cabeça, concordando.

Ele também sorri mais e desliga nosso ventiladorzinho, colocando-o cuidadosamente de volta na bagagem para poder pegar sua bermuda e uma blusa. Eu faço o mesmo, já tirando a blusa que estava vestindo antes para colocar a nova, em seguida fiz a risada de Jungkook preencher toda a barraca quando me atrapalhei todo para tirar a calça, e tive minha vingança quando ele se enganchou na própria camisa ao tentar tirá-la.

Ao fim, nós rimos tanto que saímos daqui ofegantes e vermelhos de calor. Acho que vão acabar pensando que nós estávamos é dando uns amassos, quando só estávamos rindo como dois idiotas.

— Minha barriga está doendo, eu não consigo caminhar agora — Eu digo, quase sem força quando ficamos prontos.

— Quer ir ao banheiro?

— É de tanto rir! — Digo, subitamente envergonhado, e então é ele quem ri ainda mais alto.

— Eu sei. — Respondeu, então, o safado. Depois, ele virou as costas para mim e me olhou por cima do ombro: — Sobe. Eu te carrego até a cachoeira.

O que disse sobre não conseguir caminhar foi um exagero, mas eu não perco a oportunidade e, ainda com resquícios do riso, me aproximo dele e me encaixo em suas costas, deixando um beijinho na lateral de sua cabeça antes que ele impulsione o corpo para cima e fique de pé, com meus braços agarrados ao seu pescoço e minhas pernas ao redor de sua cintura.

Então, nós seguimos o caminho que tantos outros já seguiram e atravessamos uma pequena trilha entre as árvores nativas até chegarmos ao espaço aberto onde a cachoeira se ergue majestosamente.

— Hyung... — Jungkook me chama, ainda me carregando em suas costas, quando seus olhos encontram a queda d'água cercada por árvores e por um céu azul, quase sem nuvens. — É tão bonito, hyung...

Eu sabia que ele ficaria impressionado. Eu também fiquei, da primeira vez que vim. E, conhecendo esse homem como conheço, sei bem o que ele quer fazer agora, então tiro meu celular do bolso e passo para ele, já com o aplicativo da câmera aberto.

— Isso te faz feliz? — Pergunto antes que ele pegue o telefone, quando desço de suas costas e fico de pé ao seu lado.

Sem me dar uma resposta, Jungkook pareceu entender o motivo de minha pergunta e abriu um sorriso enorme antes de aceitar minha oferta e fazer magia com a câmera, eternizando esse pequeno vislumbre de felicidade em uma nova foto incrível.

Então, ele olhou para mim e posicionou a câmera frontal em nossa direção.

— Você é o que mais me faz feliz, então eu quero uma foto com você.

Ouvir isso me faz dispensar o esforço de fingir um sorriso, porque o meu se torna completamente natural quando Jungkook passa o braço por meu ombro, encosta sua cabeça à minha e captura uma foto nossa.

Quase instintivamente, eu passo meus braços por seu abdômen depois que ele aproxima o celular para ver o resultado, e seu sorriso pequeno parece o mais sincero do mundo quando ele vira para mim e começa a dizer:

— Hyung... eu...

— Ei, Jimin! Jungkook! Venham para cá! — Dahyun grita, interrompendo-o.

Eu sorrio para ela e gesticulo pedindo que espere. Então, olho novamente para Jungkook, mas ele parece perder o impulso do que ia dizer e balança a cabeça para os lados.

— Não era nada. Deixa pra lá. — Diz, depois dá um beijo em minha testa.

Sem pressioná-lo, apesar da ponta de curiosidade que cutuca meu estômago, eu aceito sua mudança de planos e em seguida aceito seu pedido para nos aproximarmos do riacho no qual a cachoeira deságua e onde vários dos meus colegas estão reunidos, alguns tomando banho, outros sentados nas pedras ao redor.

Sunhye já está aqui com Jiyong e eles parecem ter se resolvido, então eu sorrio para ela e deixo meu celular num lugar seco, sem tirar minha blusa e sem esperar que Jungkook o faça antes de puxá-lo comigo em direção à água.

— Hyung, só tem uma coisa... — Ele me chama, então, quando molha os pés. — Eu não sei nadar na metáfora e eu não sei nadar na vida real também...

— É raso. — Garanto, com minhas duas mãos em sua cintura e dando passos para trás, puxando-o comigo. — Mas não vou sair de perto de você.

Ele sorri mais tranquilo, seguindo-me sem hesitação, e o mais fundo que a água chega é em nosso peitoral quando o puxo para o meio da piscina natural.

— Ei! — Nayeon se aproxima pela água gelada, agarrada às costas de Jeongyeon. — Jungkook, foi mesmo você quem fez aqueles doces que Nara estava fazendo todo mundo experimentar?

— Sim. Você gostou? — Ele devolve, cheio de expectativa.

— Você tá brincando? Foi o melhor tteok que já comi!

— Você devia provar os outros doces que ele faz. O bolo de morango, meu deus, é como um pedaço do nirvana alimentando sua alma — Eu anuncio orgulhosamente, com uma expressão deleitada.

— Onde eu posso provar? — Ela perguntou, interessada de verdade.

— Ah, eu trabalho numa cafeteria e sempre faço os bolos de lá... mas fica longe e num bairro bem simples, acho que você não conhece...

— Não é muito longe da casa de Nara. Eu te passo o endereço depois. A viagem vale a pena. — Garanto, percebendo que Jungkook me abraça pelas costas, e eu seguro suas pernas quando elas me envolvem a cintura por baixo da água.

— Passe mesmo. Você sabe que eu não meço esforços para comer comida boa — Ela diz, então aponta com o polegar na direção de uma roda formada por alguns de nossos amigos. — Está todo mundo ali. Querem ir conversar?

Eu olho para Jungkook, apenas esperando sua confirmação antes de aceitar o convite de Nayeon. Com ele em minhas costas e Nayeon ainda pendurada em Jeongyeon, nós nos aproximamos das outras pessoas. Nara, Hera, Eunjo, Dahyun, Sunhye e Jiyong estão entre elas, conversando animadamente.

— Sobre o que estamos falando? — Jeongyeon pergunta, curiosa, ao derrubar Nayeon de suas costas, então recebendo uns tapas por isso.

— Sobre o Professor Lee e aqueles ternos com cotoveleiras de couro que ele usa. — Nara responde, risonha. — Acabamos de descobrir que a universidade de Sunhye tem um professor igualzinho a ele. E nós aqui achando que éramos especiais...

Um sorriso miúdo das as caras assim que lembro do tal Professor Lee. Ele era completamente caricato, usava umas roupas estranhas e ia para a universidade numa bicicleta elétrica, com o capacete de ciclismo combinando com nada em seus ternos quadriculados.

Mas era um puta professor bom.

— E você, Jungkook? — Dahyun pergunta, atenciosa, tentando integrá-lo à conversa. — Onde você faz faculdade?

No entanto, a escolha da pergunta não foi a mais apropriada e eu logo percebi sua expressão mais tensa, agora que ele se posicionou ao meu lado, até que mostrou um sorriso envergonhado e apertou os ombros.

— Eu não faço faculdade...

— Ah, já se formou? — Nayeon pergunta inocentemente.

— Não, eu nunca frequentei uma universidade — Ele responde, ainda mais constrangido.

Eu vejo a expressão dos meus colegas vacilar entre confusão e incredulidade, porque em nosso ciclo é inconcebível a ideia de que um jovem não lute por um diploma universitário, de preferência em alguma universidade renomada da SKY.

Mesmo assim, ninguém fala sobre isso. Na verdade, ninguém diz absolutamente nada, então somos envolvidos pelo silêncio até que Eunjo, a marmota salvadora da pátria, intervém novamente.

— Eu acho que entendo, cada vez mais é comprovado que uma graduação não é indispensável para o sucesso profissional. — Ele pondera, mesmo que esse pensamento ainda não tenha alcançado as mentes de nosso círculo social.

— Isso é verdade. — Nara reforça. — Com o que você trabalha, Jungkook?

A expressão dele, apesar das tentativas de meus amigos, se torna cada vez mais desconfortável, como se ele se sentisse desmoralizado mesmo que a intenção deles seja o exato oposto.

Então, com vergonha em sua voz, ele responde:

— Eu sou garçom.

Novamente, silêncio.

— Ei, agora estou me lembrando — Jiyong diz, com os olhos apertados. — Você era garçom no Black Stone um tempo atrás, não era?

— A comida de lá é ótima! — Alguém diz.

— É muito boa mesmo. — Jeongyeon concorda, olhando curiosamente para Jungkook enquanto tenta desviar do assunto, como se ser garçom fosse alguma vergonha. Entretanto, sei que ela não faz por mal. — Mas e sobre a escola? Onde você se formou?

Dessa vez, ele não responde. Eu vejo seu rosto tomado pelo vermelho da vergonha, e acho que todos percebem o motivo, mas o único que verbaliza é Jiyong.

— Não me diga que nem na escola você se formou?

— Eu quase me formei... só faltou um ano, mas precisei abandonar para trabalhar...

Quando todos se calam novamente, apenas um som se ouve além da cachoeira e da música ao longe, e é um riso de escárnio.

Em resposta a isso, meus olhos quase fuzilam quando pousam em Jiyong, que ainda tem esse sorriso debochado no rosto. Sunhye olha para ele com a mesma reação que eu, repreendendo-o, e ele apenas faz um de seus gestos negativos antes de se calar.

— Ah! — Nayeon diz, de repente, cheia de entusiasmo para desfazer a nova atmosfera. — Vocês sabiam que Jungkook faz bolos para o lugar onde trabalha? Se formos usar o tteok dele como parâmetro, imaginem quão divino deve ser um bolo feito por essas mãos!

— O tteok estava impecável — Surpreendentemente, é Hera quem diz. Surpreendentemente porque é difícil como o inferno agradar essa mulher. — Muito bom mesmo.

— Se minha irmã disse isso, acredite, Jungkook, estava mesmo bom — Nara confirma, abraçando a caçula, que deixa um revirar de olhos acompanhar seu sorriso.

— Aliás, eu sei que você escondeu alguns na cozinha, Nara — Eunjo aponta, olhando-a com desconfiança. — Pois eu vou achar e vou comer todos.

— Não se eu achar primeiro. — Nayeon o desafia.

— Que falta de respeito. É meu aniversário!

— Desculpe, datas comemorativas não são o suficiente para anular a divindade daqueles doces. Se eu precisar brigar com a aniversariante por eles, eu brigo!

— Não é má ideia! — Jiyong diz, olhando para mim. — Talvez ver duas mulheres brigando de bíquini faça Jimin voltar a ser homem. — E assim, tão fácil, o esforço de meus amigos para aliviar o clima foi jogado no lixo por um único comentário que nos calou novamente.

Quer dizer, eu não me calo.

— Eu deixei de ser homem, por acaso? — Questiono, com hostilidade por trás do tom brincalhão.

— Você entendeu — Ele disse relaxadamente como se não estivesse sendo um babaca preconceituoso, porque na cabeça dele isso é perfeitamente aceitável. — Eu quis dizer... normal. Um homem normal.

— Jiyong? — Sunhye o chama, os olhos arregalados e incrédulos.

— Ah, Sun, você não entende porque não conhecia o Jimin antes. Mas ele era normal. Saía com mulheres e tudo o mais.

— Desculpe, mas nasceu um chifre de unicórnio em minha cabeça? Eu tenho oito braços ou alguma coisa assim? O sol faz minha pele brilhar como um vampiro de Crepúsculo? Porque eu não estou conseguindo entender o que faz você achar que eu não sou normal.

— Jimin, fala sério... Primeiro você largou a universidade para fazer sabe deus o que, meses depois reaparece com um cara? — Ele enfatiza tanto a última palavra que me embrulha ainda mais o estômago.

— Meu deus, Jiyong, se não vai dizer algo que preste então cala a boca que é o melhor que você faz. — Hera pede, impaciente.

Ao redor, todos estão calados, desconfortáveis, mas não tão desconfortáveis quanto Jungkook e eu.

— Não é possível que vocês estejam mesmo bem com um amigo nosso fazendo isso — Mesmo assim, Jiyong não para.

— Você tem razão. — Nayeon diz. O sorriso espontâneo com os dentes avantajados já não existe mais. — Jimin fazer o que bem entender da vida dele sem prejudicar ninguém não me faz mal nenhum. Mas ver você sendo um preconceituoso de merda está mesmo me fazendo querer vomitar.

— Eu não acredito. — Ele insiste, com uma risada incrédula. — Pelo amor de deus, Jimin estava prestes a se formar, tinha um futuro feito com a influência dos pais e namorava Nara. Nara! Uma mulher linda! E agora ele largou tudo isso para ficar com um garçom que nem se formou na escola e ainda quer que eu ache isso bonito?!

Eu sinto o osso do meu maxilar doer quando eu o pressiono com tanta força assim, e meus punhos estão cerrados quando eu vejo a expressão doída de Jungkook, sua respiração atrapalhada e seus olhos vermelhos, enquanto ele parece lutar para não derramar uma lágrima sequer.

E ver alguém diminuí-lo assim me fere ainda mais que ouvir as ofensas que Jiyong disse para mim com esse falso tom de preocupação tentando esconder todo o preconceito que existe dentro dele.

— Sério, Jimin, coloca sua cabeça no lugar... você está precisando. — Por isso, quando sua voz alcança meus ouvidos novamente, meu braço se ergue até alcançar a gola de sua blusa molhada, então eu o puxo violentamente e, tão rápido quanto a resistência da água ao redor de meu corpo permite, avanço em sua direção. No entanto, braços envolvem minha cintura e me impedem de socá-lo como eu gostaria, e me sinto recuar quando sou puxado para trás, até minhas costas tocarem o peitoral de Jungkook.

— Para, hyung...

Eu ainda estou fervendo de ódio, e ouvir sua voz quebradiça ao me abraçar assim só me faz querer ainda mais arrebentar Jiyong em mil pedaços.

— Você não faz ideia da pessoa que Jungkook é. — Eu digo, deixando meu corpo ser contido por seu abraço. — Ele é a melhor que eu já conheci, diferente de você que se acha tão superior, mas na verdade é só um preconceituoso de merda. Mas se te deixa tão orgulhoso, enfia seu diploma no rabo, só não abra sua boca para falar desse cara aqui, porque você não chega nem aos pés dele e nunca vai chegar.

Jiyong está ofendido até a alma, é fácil perceber, e todos os outros continuam constrangidos com toda a situação.

— Já chega disso. — Nara finalmente diz, junto a um suspiro cansado. — É meu aniversário e eu não quero esse tipo de confusão por aqui, então é melhor você ir embora. — Convida, impaciente, quase me fazendo acreditar que sou eu quem estou sendo expulso. No entanto, é para Jiyong que ela está olhando.

— Como é? — Jiyong pergunta, desacreditado.

— Você desrespeitou meus convidados e deixou todos os outros desconfortáveis, Jiyong. Está sendo preconceituoso e maldoso com uma pessoa que não te fez nada, e eu não quero alguém assim comemorando meu aniversário comigo. Então...

— Fala sério...

— Acredite em mim, eu estou falando sério. — Minha ex-namorada, mulher que tanto admiro, me mostra que tenho motivos para admirá-la ainda mais. — E, aliás, Jimin não terminou só com uma mulher bonita, como você diz que eu sou. Ele terminou com uma mulher inteligente, independente e muito bem sucedida, mas agora ele está com alguém tão bom quanto eu e parece feliz assim. E eu? Continuo inteligente, independente e bem sucedida pra caralho. Então não precisa tentar tomar minhas dores, porque eu e ele estamos ótimos do jeito que estamos agora. E nós dois estamos cansados do seu discurso babaca, então faz um favor a todo mundo e vai embora de uma vez.

— Nana, eu te amo tanto... — Hera diz, encantada pela própria irmã.

E quem sou eu para julgá-la? Nara é mesmo uma mulher da porra.

— Eu vou beber desinfetante para apagar os rastros de cada vez que te beijei antes de saber que sua boca faz o que só sua bunda deveria fazer — Sunhye diz, olhando para Jiyong continuamente com desgosto.

— Vocês todas são tão perdidas quanto Jimin e esse garçom de estimação que ele arranjou — Jiyong retruca, furiosamente se afastando de nós, em direção à margem seca.

Suas palavras maldosas perfuram meus ouvidos e parecem principalmente perfurar o coração de Jungkook, porque eu logo sinto seu abraço perder força ao redor de meu corpo. Mas Jiyong ainda não acabou seu show de ódio gratuito e já fora, com água escorrendo pelo corpo e veneno escorrendo pela boca, ele dá o golpe final, com os olhos mirados no cara que não merece ouvir nenhuma dessas coisas ruins. E diz:

— Aproveite enquanto pode, Jungkook. Você sabe que um cara como você nunca vai poder ficar com alguém como Jimin. 

❥ [Continua...]

Chapter Text

— Jungkook! Jungkook, espera! — Eu o chamo enquanto tento alcançá-lo, mas ele está fugindo rápido demais.

Acontece que Jiyong acertou nosso calcanhar de Aquiles. Ele mirou diretamente no nosso elo mais frágil e o golpeou impiedosamente.

Por isso, depois de tanto lutar contra o constrangimento, contra o receio de estar entre meus amigos, de se sentir inferiorizado mesmo quando não tentavam fazer isso, Jungkook chegou ao seu limite e a última provocação foi a gota d'água que faltava para fazê-lo transbordar.

No fim, quem foi convidado a ir embora foi Jiyong. Mas quem fugiu foi Jungkook.

Ele hesitou por um instante. Então, pareceu se fragilizar de vez e se afastou de mim. Recuou pela água, em direção à margem, a roupa molhada se colou completamente ao seu corpo e com os pés nus ele abriu suas passadas desesperançadas pelo caminho de volta, pela trilha entre as árvores que a princípio percorremos juntos, sorridentes, e agora percorremos um distante do outro, porque não consigo alcançá-lo.

— Jungkook, por favor! — Eu peço, desesperado por vê-lo continuar a se distanciar enquanto meus pés molhados fazem folhas mortas e terra se grudarem à minha pele enquanto tento alcançá-lo.

Também descalço, eu piso forte demais num graveto e a dor me faz praguejar baixo, mas eu sigo em frente, até ando mais rápido, quase corro, e finalmente o alcanço. Nesse momento, seguro seu braço, impedindo-o que se agache e entre em nossa barraca.

— Jungkook!

— Para, Jimin! — Ele pede, tentando se soltar, mas o seguro com mais empenho. — Já chega de fingir que a gente é compatível.

— O que você está dizendo? — Pergunto, com os olhos tão arregalados quanto minhas sobrancelhas estão contraídas.

— Ele tem razão, Jimin... olha pra você e olha pra mim. A gente não tem nada em comum e...

— Eu gosto de você e você gosta de mim. Eu te faço feliz e eu sou feliz com você. Essas são as únicas coisas que precisamos ter em comum. Ou você não gosta mais de mim? Você não fica mais feliz quando está comigo?

— Não é isso!

— Então? Você vai deixar um babaca daquele dizer o que eu e você podemos ser um para o outro? Você vai simplesmente jogar no lixo cada esforço meu para ser bom para você e espera que eu jogue no lixo todo o seu esforço para tentar ser bom para mim também? Por causa daquele cara, Jungkook?

Seu corpo finalmente parece ceder. Não voluntariamente, no entanto. É como se ele perdesse a força para tentar fugir de mim, então sua respiração desajeitada complementa o que seus olhos vermelhos e úmidos querem dizer.

— Eu não sou nada perto de você, hyung... eu não sou nada perto das pessoas que você chama de amigos. Eu sou só um garçom que nem conseguiu se formar na escola e que precisou fazer sexo por dinheiro mais de uma vez. Como você acha que eles vão reagir se descobrirem isso?!

— E o que me importa como eles vão reagir? Se algum deles pensar em te diminuir por isso, eu faço questão de nunca mais chamar uma pessoa assim de amigo. E nunca mais diga que você é só um garçom que não conseguiu se formar na escola. Você é muito mais que isso, Jungkook, e eu não vou deixar você pensar tão pouco de você mesmo.

— Mas é como eu me sinto! — Ele diz. É a primeira vez que levanta a voz assim para mim, em seguida usa sua mão para secar uma lágrima que escorre, orgulhoso demais para deixá-la percorrer todo o caminho. — É assim que eu me sinto e eu tenho vergonha todo dia da minha vida, mas nunca tive tanta vergonha quanto senti perto dos seus amigos, hyung!

Eu não sei o que dizer. Eu tento, mas frase coerente nenhuma se forma, e meu coração se despedaça como aquele graveto se quebrou sob meu pé.

— É melhor a gente parar por aqui, Jimin.

— Para com isso. — Eu peço, com medo de que ele esteja falando sério.

— Você sabe que...

— Eu não sei de nada! — O interrompo. Não é raiva o que sinto agora, mas é frustração do pior tipo. — A única coisa que sei é que você parece gostar mais de se diminuir do que gosta de mim!

Apesar de tentar controlá-lo, o Jimin impulsivo ainda existe aqui dentro e a expressão de Jungkook entrega seu choque ao ouvir o que explosivamente sobe por minha garganta e sai por minha boca carregando o que, no fundo, eu sinto de verdade.

Então ele pisca, e o movimento de suas pálpebras empurra uma segunda lágrima para fora.

— Eu estou constantemente dizendo para mim mesmo que tudo bem se você ainda não gostar de mim na mesma intensidade que gosto de você, mas agora eu nem sei se algum dia isso vai mudar e se você vai se permitir sentir o mesmo que eu sinto, Jungkook.

Ele nega, incrédulo com o que acabei de confessar.

— Você não sabe como é se sentir insuficiente como eu me sinto, Jimin — Então devolve, com gotas de água escorrendo pelos cabelos em sua testa até se encontrarem à sua lágrima solitária.

— Não sei? Eu sinto todo dia que não sou o bastante para você, Jungkook. Todo dia eu me pergunto se aquele Jimin que te magoava no começo deixou de existir. Se eu sou compreensivo o suficiente, se minhas palavras são boas o bastante, se eu sou capaz de fazer você me admirar como eu te admiro, quando no fundo eu sei que sou só um filhinho de papai que aos vinte e três anos não tem nenhuma conquista na vida e não merece a admiração de ninguém!

— Não fale assim de você mesmo. — Ele pede, parecendo completamente magoado ao me ouvir confessar essas coisas ruins.

A essa altura, eu já recuei. Não seguro mais seu braço e meus dedos deslizam com dificuldade por meus cabelos molhados quando empurro os fios para trás, antes de desistir e cobrir meu rosto com a mesma mão, tentando inutilmente me esconder.

Então, é a vez de Jungkook tentar me alcançar. Ele avança em minha direção com um passo inseguro e sua mão segura meu pulso. Eu quase consigo ouvir o que ele vai dizer antes de sua voz sequer se manifestar, mas então um novo timbre sobrepõe o seu.

— Jimin, Jungkook. — A voz feminina nos chama.

É Nara, mas eu não tomo coragem para olhar para ela. Continuo exatamente na mesma posição, com minha palma recobrindo meus olhos fechados, talvez tentando esconder as lágrimas que eu mesmo quero derrubar.

— Jiyong já vai embora. — É uma segunda voz que diz, a de Sunhye, e eu reconheço vergonha em seu tom. — Eu sinto muito pelas coisas que ele disse...

— Eu também. De verdade. Nós nunca tínhamos conhecido esse lado dele, mas eu sinto muito de verdade. — É Nara quem volta a dizer, e eu percebo um ofegar surpreso de Jungkook.

— Não precisa se desculpar! — Ele pede, atrapalhado, e seu jeito de falar me faz instintivamente olhar para minha ex-namorada, que está com o corpo curvado num gesto de quem pede por perdão. Meus olhos se arregalam diante disso, mas minha surpresa só aumenta quando vejo Sunhye olhá-la silenciosamente antes de se posicionar exatamente ao seu lado e repetir seu gesto, curvando seu corpo na mesma intensidade.

— Nós sentimos muito! — Ela repete, tão intensa quanto se realmente carregasse alguma culpa.

— Vocês não precisam se desculpar por nada. — Eu digo, atordoado por ver duas pessoas inocentes se culpando.

— Nós deveríamos ter falado alguma coisa antes, mas nós ficamos caladas — Sunhye contrapôs, erguendo seu corpo para poder me olhar. Em seguida, voltou a se curvar: — Me desculpa!

Eu não acredito que isso está acontecendo. Eu não acredito que Jiyong estragou o dia de tantas pessoas por conta de seu preconceito nojento.

Por isso, quando ele reaparece diante de meus olhos, caminhando furiosamente em direção às suas coisas para pegá-las e ir embora, as reações de Nara e Sunhye se somam às lágrimas que Jungkook derrubou e a todas as outras que sei que ele quer derrubar. Por fim, as coisas ruins que Jiyong disse, rebaixando alguém que não merece nem por um segundo ouvir palavras maldosas como aquelas, perfuram minha consciência mais uma vez e o resultado é desastroso.

A princípio, eu apenas o observo em silêncio, acompanhando cada um de seus movimentos. Depois, os efeitos vão se somando, meu sangue ferve e meu corpo se move sozinho.

Os passos são lentos, a princípio, mas ganham velocidade a cada segundo. Quando dou por mim, eu já estou segurando Jiyong pela camisa, puxando-o pelas costas até fazê-lo cair sentado sobre a grama, então meto um soco em seu queixo tão forte que os nós de meus dedos doem.

— Jimin! — Sunhye, ou talvez seja Nara, grita por mim, mas eu não consigo controlar o reflexo do meu corpo de machucar Jiyong tanto quanto ele machucou Jungkook.

Por isso, percebendo-o desestabilizado pelo golpe, eu o empurro e seu corpo cai deitado na grama no mesmo instante em que eu sento em sua barriga e uso uma mão para segurar a gola de sua camisa, enquanto com o punho fechado da outra acerto um novo soco na maçã do seu rosto.

— Jimin, para com isso! — Novamente, alguém chama. Minha visão está turva, focada no rosto de Jiyong, mas eu consigo perceber as pessoas se aproximando ao redor, sem coragem de intervir diretamente. Os sons se embaralham em minha mente, meu nome é chamado outra vez e alguém tenta me puxar pelo ombro, mas eu faço um gesto brusco para afastar a mão que me toca e dou o terceiro golpe.

— Hyung, por favor... — A terceira voz que me chama sobressai no meio de toda a confusão, novamente alguém tenta me puxar pelo ombro e reconhecer o toque de Jungkook me faz perder o impulso por um instante, tempo que se torna necessário para que Jiyong inverta nossas posições, me agarrando pela blusa antes de impulsionar nossos corpos, me jogar deitado no chão e devolver os três socos que desferi com um só, tão forte que faz minha mandíbula estalar.

Meu orgulho dói tanto quanto meu rosto quando não consigo conter um gemido de dor, e já visualizo um segundo golpe me atingindo. No entanto, Jiyong é agarrado e arrastado para longe de mim antes de acontecer, e eu vejo Jungkook empurrando-o jogado de qualquer jeito sobre a grama antes de se aproximar de mim.

— Viadinho de merda! — Ele brada, escorregando no chão quando tenta se levantar para avançar novamente.

— Já chega! — É Sunhye quem grita numa explosão de raiva, em seguida ouço uns cinco suspiros surpresos ao redor quando ela se aproxima rapidamente de Jiyong e o imobiliza no chão, tão fácil como se estivesse lutando contra uma criança.

— Sun! — Jiyong grita, furioso e surpreso, enquanto tenta inutilmente se soltar.

— Pra você é Bang Sunhye! — Ela diz, ainda segurando-o, mostrando que seus treinos na academia vêm trazendo resultados notáveis. — E é melhor você pegar suas coisas e sair daqui sem olhar e tocar em mais ninguém ou eu te quebro inteirinho! — Jiyong tenta dizer algo, mas ela puxa o braço dele para as costas, o que o faz gemer de dor antes de completar a primeira palavra. — E não me testa, seu preconceituoso nojento!

Mesmo que já tenha visto Sunhye socar vigorosamente um saco de pancadas e fazer sequências monstruosas de abdominais como se não fossem nada, até eu estou surpreso com a cena ao meu lado.

Jungkook, por outro lado, não presta atenção em nada além de mim.

— Hyung... — Ele me chama, cuidadosamente insistindo em me puxar para me colocar sentado. Quando finalmente consegue e eu desvio meu olhar para seu rosto, percebo ainda mais lágrimas acumuladas no canto de seus olhos, e sua mão tremula quando ele aproxima seus dedos de minha mandíbula.

— Merda... — Sem conseguir conter, um novo gemido de dor escapa quando Jungkook toca com cuidado no lugar onde fui golpeado.

Ao lado, uma nova comoção se inicia quando Sunhye solta Jiyong e, completamente possesso, ele tropeça ao levantar para pegar suas coisas antes de me lançar um último olhar furioso e caminhar apressado para longe.

— Eu não acredito que você fez isso. — Nara diz, já ajoelhada ao meu lado.

Ao redor, nossos colegas parecem não saber o que fazer agora que a confusão acabou, então ela gesticula junto a um suspiro.

— Aumentem a música e voltem a beber e a assar mais carne. Não ousem deixar a aniversariante com fome.

Umas risadas aqui e ali foram ouvidas, em seguida todos começaram a se afastar, alguns até me deram uns toques de apoio no ombro ou cabeça, e ao fim a música aumentou.

— Levante. — Com seu objetivo alcançado, minha ex-namorada me segura pelo bra