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quando o toque do anjo não é uma benção

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Tudo o que cresce também deve murchar e morrer. Tudo morre e apodrece, e então nutrirá os vivos. Este é o Grande Ciclo da Criação, e nós, Sacerdotes de Rathma, usamos nossa arte sombria para protegê-lo.

 

 

O beco estava muito quieto para aquela noite.

O que os soldados de Hespéria haviam ouvido nas incessantes batalhas nas ruas não era comparado aquele silencio aterrorizante. Encurralados entre duas partes do local onde havia a feira de artesanato (agora jazigo aberto com as dezenas de corpos que eram trazidos para ali para evitar a contaminação dos poços nas vielas principais), as duas partes estavam seladas. A única porta para escape era a da biblioteca da cidade, uma janela enorme quebrada em uma parte, para abrigar os poucos sobreviventes do massacre vindo dos céus. Um pequeno grupo de aventureiros cansados guardava a janela, adultos maltrapilhos, outros feridos com suas ferramentas de trabalho, enxadas, espadas sem fio, pedaços de pau e ferro retorcido nas mãos. Qualquer coisa para proteger os mais novos de um destino pior que a Morte.

As instruções eram bem precisas: o que passasse pela entrada principal da Travessa do Gideão enfrentaria a fúria de humanos temerosos demais.

 - Está tudo certo aí dentro? - perguntou o jovem templário da Ordem de Zakarun, Kormac, abrindo espaço entre os combatentes enfraquecidos pelos 2 dias de matança e destruição das esperança de dias melhores. - O que estão fazendo?

 - Nada que te interesse Zakarun. Não tem coisa melhor para fazer? - ralhou um senhor mais idoso cuspindo na bota cheia de riscos e falhas do templário iniciante.

 - Vim para defender minha cidade! Hespéria é meu lar! - ele respondeu levantando o imenso escudo que ocupava seu torso e buscando manter a lança de aspecto questionável em riste.

 - Papai eu não quero ir!! - gritou uma criança dentro do prédio da biblioteca. Kormac tentou ver o que faziam as vozes lá dentro, mas um soldado de elite o empurrou para fora do alcance da janela.

 - Fique no seu maldito lugar, Zakarun! Se quer nos ajudar, guarde a entrada da Travessa.

 - O que estão fazendo com as pessoas lá dentro?! - ele recebeu um empurrão violento de aviso e pesaroso tomou seu lugar na entrada da Travessa, junto aos soldados mais sagazes da guarda do Rei Justiniano.

    O alçapão abriu sem muito esforço, tirar a estante do lugar que foi o mais difícil. A bárbara Cássia limpava o suor da testa e sorriu para a primeira fileira que se formava nas escadas para um andar secreto abaixo da biblioteca. Uma longa escada em caracol que descia por muitos metros até chegar a uma galeria abandonada. Lá embaixo estava seu companheiro de aventuras, Kal-Oher, purificando o ar do local esquecido por séculos com sua magia de cura e natureza. Se tivessem sorte e tempo, conseguiriam chegar até onde a arcanista Jia-hai esperava com o portal aberto para o Enclave dos Sobreviventes. Muitos contrabandistas e outros criminosos menores usaram as galerias para fugirem da guarda décadas atrás, e graças a esperteza de um deles, os menos afortunados de Hespéria teriam uma chance.

 - Mulheres e crianças primeiro! - sussurrava quem ajudava a colocar as crianças nos degraus da escada, formando a fila para os pequenos passarem, eles tão obedientes, muitos sem saber o que acontecia nas ruas lá fora. As poucas mulheres chorosas colocavam os recém-nascidos nos braços dos mais velhos que não haviam chegado a puberdade. palavras murmuradas, bençãos, promessas de uma nova vida infinitamente melhor que aquela ali, lágrimas e soluços que eram abafados por mãos sujas e sangrias. Qualquer barulho que fosse poderia chamar atenção dos monstros alados dos céus.

- Vamos com isso! - sussurrou quem coordenava a ação, um necromante idoso, com metade do braço esquerdo estraçalhado em vários pontos, tentando ajeitar o membro com ataduras velhas demais para afixarem os ossos que saíam e a carne rasgada. - Não temos mais tempo!

 - Para onde os levarão?! - perguntou uma voz atrás dele, incorpórea, permeada de energia lilás e de aroma de flores.

- Caldeum e Skovos. Há pessoas lá que irão cuidar deles, não se preocupe mais. O seu trabalho está feito, não precisa mais se preocupar.

 - Que os bons ventos levem essas preciosas joias do Mundo, caro Derrick...

 - E que os diabos levem esses ceifadores traidores... - resmungou o necromante arrepiando-se ao passar pela crianças e abrindo caminho para sair pela janela quebrada. - Atenção seus molengas: eles estão vindo! E com artilharia pesada!

 - Arqueiros?! - perguntou Capitão Hansen Haile segurando bem a filha Kyla em um abraço desajeitado, o seu amiguinho Ryan estava sendo colocado na fila.

 - Quem dera...

 - Derrick você não vai lutar. Vai é descer com a criançada! - apelou a amazona Cássia o impedindo de sair pela janela. - Precisamos de você vivo, você sabe disso!

 - E vocês sabiam o porquê eu vim aqui, não? Não irei sair desse beco até ter o que vim buscar! - disse o necromante entredentes. Ele não parecia sentir dor com a fratura exposta do cotovelo para baixo. O que restara de sua mão esquerda era um emaranhado de ossos, músculos e ferro retorcido. Um estranho emanar azul brotava de um pedaço minúsculo de vidro cravado no meio da palma irreconhecível.

 - Você é um maluco, velhote! Simplesmente maluco! - a amazona o empurrou escada abaixo quando viu a oportunidade no final da primeira fileira de crianças que descia. - Kal-Oher, de olho no velhote!

 - Sim, minha senhora! - o druida sussurrou para ser ouvido. Ele pegava as crianças com cuidado e colocava em uma tapeçaria magicamente encantada para abrigar os mais leves a atravessarem a galeria abandonada.

 - Seus idiotas!! - devolveu Derrick, o Malvado, tentando se equilibrar na escada e trombando com uma criança mais velha, aterrorizada e visivelmente abalada psicologicamente. A troca de olhares foi em segundos, mas Derrick viu a oportunidade. Tirou o caco de vidro de sua mão destroçada e com rudeza pegou a mão esquerda da criança, colocando a peça ensanguentada ali.

 

 - Como tem certeza que isso vai funcionar? Está chovendo há 7 dias tenente... - comentou um soldado arrastando o passo junto ao seu colega, ambos carregando um caixote de madeira cheio de feno e palha.

 - Cuidado com esse pacote aí... - disse Haile observando a marca deixada no caixote. Aquele era a distração que precisavam. Uma criança veio correndo entre os soldados e por pouco não bateu com a cabeça no caixote ainda erguido. - Menino, vá para a fila!! - gritou o capitão desesperado, vendo que a pequena colisão atormentara os seus soldados.

 - Não sou menino! - ralhou a criança chutando a canela de um dos soldados com sucesso.

 - Seu desgraçado, bastardo! Eu vou! - e um dos soldados saiu correndo atrás da criança que ziguezagueava o beco escapando dos avanços.

 - Próxima fileira, por favor!! - desta vez mulheres e enfermos, entrando pela janela e descendo aos poucos. Um outro contingente de sobreviventes chegou atrapalhando a divisão.

 - Um portal foi aberto mais a frente!! Prontidão arqueiros!! - gritou o guarda entocado no telhado em uma das casas do beco.

 - Kal-Oher, eu preciso de você agora!! - gritou Cássia para as escadas, a última leva de crianças ia em direção a maga de Xiansai.

 - Maldição, Capitão, não vai dar tempo para todo mundo passar!! - o contingente agora se aglomerava na frente da janela para a biblioteca em uma pequena disputa de quem entraria ou não.

 - Calados, seus tolos! Vão chamar atenção!! - uma briga irrompeu entre dois sobreviventes, agarrados em socos e pontapés furiosos. Capitão Haile tentou apartar com seu corpo coberto de armadura de elite e não percebeu na movimentação perto do caixote que recebera minutos antes.

 - Calem essas bocas, parem de briga!! Vão chamar atenção dos ceifadores!! - a balbúrdia dos sobreviventes mascarou o movimento rápido da abertura do caixote com mágica, e os passos apressados de uma criança de olhos aterrorizados correr em direção a parte mais pútrida, onde o jazigo aberto estava sem proteção.

 - Abominações sem rosto estão passando pela barricada antes da entrada, capitão! - gritou o vigia no telhado. O som de espadas, escudos e brados de luta ecoava agora no beco. Kal-Oher chegava atrás do Capitão e preparava seu melhor feitiço de proteção. Cássia tentava empurrar as pessoas para dentro da biblioteca até ouvirem os gritos desesperados de quem estava na entrada principal.

 - Homens... Está na hora de cumprir nossa missão!! - os guardas de dentro do beco fizeram a formação de combate ofensiva, sacando espadas e armas corpo a corpo. Os arqueiros disfarçados nos telhados desceram igualmente.

 - Oh Haile, você deixou alguém roubar o pacote de Xul debaixo das suas fuças?! - exclamou Kal-Oher olhando com assombro o caixote danificado aos pés do capitão.

 - O quê??? Oh mas que mer...

 


 

    Seguir os ecos do chão, seguir os ecos dos túneis, seguir os passos metros abaixo de si... Um pé atrás do outro, um pé atrás do outro, apertar o poder na mão, o poder na mão, não olhar para trás, não olhar para os lados, seguir os ecos do chão.

    Como uma canção macabra, algo dentro de sua mente infantil ia e voltava, como se estivesse naquele barco para Grovatis novamente, o balançar do mar do norte, as lufadas de água salgada, o ritmo incessante que a tempestade fazia com que o barco de exploradores jogasse para lá e para cá. A canção dizia para continuar seguindo, pular os obstáculos, adentrar em lugares imundos para se esconder, dar a volta entre os prédios para evitar aquelas criaturas asquerosas e frias. A voz na canção era parecida com a de uma matrona que gostava muito antes de voltar para Hésperia, ela era alta, forte, cicatrizes de batalha nos ombros, braços e mãos, usava tintura de guerra nos cabelos grisalhos, a chamavam de Cabelos de Fogo. Gostava muito dela, de suas histórias sobre anjos e demônios, criaturas fantásticas e o mundo Santuário. Gostava da voz dela que acalmava as crianças com medo da tempestade, gostava quando ela cantava para todos dormirem sem medos.

    Os monstros não se aproximavam de Cabelos de Fogo, ela era a campeã dos bárbaros de Arreat. Ela destruíra inimigos tão poderosos que não ousavam dizer seus nomes novamente. Ela era a mais poderosa de todas. Adorava Cabelos de Fogo, mas não entendia porquê estava carregando um pacote pesado no braço direito e perambulando nas ruas perigosas sem um destino. Cabelos de fogo cantava agora para a criança subir pela calha de ferro da velha casa de Prim e jogar um pedaço de telha para o outro lado. 

    Distração.

    Precisava disso.

    Muitos deles no...

    O pulo que conseguiu dar entre o final da calha e uma mureta foi pura sorte. Jamais tinha conseguido se equilibrar tão bem nas pernas naquele jeito. Não chamou atenção alguma, as criaturas cercavam o beco pelos dois lados e algumas surgiam em portais conjurados no chão por uma criatura grotesca e com um longo cajado. Estava tudo certo, era só seguir escondida, em frente, rumo ao portão do cemitério.

    A canção estava ficando baixa, como se a voz estivesse sufocada em algum barril bem longe.

    O que era a completa sensação de alívio e conforto, deu lugar a uma série de barulhos que uma criança não deveria jamais ouvir. Na parte detrás da Travessa do Gideão, após a grande fonte, onde comprava frutas para as crianças mais novas e brincava de pique-pega com os mais velhos, ouvia as histórias dos feirantes e visitava regularmente a barraca da mulher Vecina, a nômade tão carinhosa que a tratava como uma criança normal. Não, não, não era a voz de Cabelos de Fogo, era da Mística, a Vecina. Era a voz dela sim! Mas tão longe!

    O desespero foi tomando seu corpo trêmulo, o pacote quase escapando de sua guarda, os joelhos falhando em dar mas um passo. Estava no meio das escadarias para o pátio dos fundos, na direção do grande portão para o cemitério Cravoespinho. Não podia atravessar aquele caminho nem quando eram dias normais. Ir ao cemitério era proibido para as crianças e para os pobres também. Seus olhos turvaram ao sentir o cheiro podre invadir suas narinas, de onde estava conseguia ter a visão do horror vindo dos céus, dezenas de corpos em diversas formas, muitos empilhados nos cantos da praça da fonte, uma gigantesca bolha de energia azulada pairando em cima da fonte e algo que a controlava, escondida pela intensidade daquela energia. Pisando devagar ao tentar voltar com os movimentos das pernas, esmagou o que parecia ser um braço pequeno. O sangue espirrou em seus sapatos, mostrando vermes e insetos oportunistas que se alimentavam da carne morta, naquele cenário de caos, tudo veio em uma única sensação: pânico.

    Seu grito não foi ouvido, pois uma magia silenciadora a colocou pregada na parede que seguia as escadas. Por pouco não fora atingida por uma flecha maligna. Logo uma sucessão de explosões mágicas, gritos de guerra, berros de agonia se ergueu dando lugar a silhueta de um ser que ela nunca tinha visto, mesmo naqueles dois dias intensos de assalto e quarentena na cidade.

    Eram o que chamavam de conjurador dos mortos, uma enorme figura angelical, mas de aparência tenebrosa, com longas asas que bruxuleavam em uma armadura escura. O capuz que delineava o que seria a cabeça estava vazio e uma voz saía dali, ameaçando quem começara a disputa na fonte.

 - Você chamou a Escuridão para si mesmo, mortal!!

 


 

 - Derrick, seu velho maluco!! Não ataque sem uma assistência!! - gritou Cássia lançando sua lança espectral no grupo de esqueletos que vinha na direção de seu companheiro de muitas batalhas.

 - Ah você! Ocupe esses miseráveis aí, sim? Tenho negócios a tratar! - ele cuspiu contra a bolha de energia, um ritual estava a ser feito, pronto para eclodir a qualquer momento. Se aquilo que estava pensando se realizasse, não sobraria mais sobreviventes nenhum. O massacre seria final, ninguém para contar as histórias sobre o domínio de Malthael sob os humanos de Hespéria, sobre a loucura dos anjos em se aliarem a tal desejo macabro, não haveria mais chance alguma de descobrir onde a maldita Morte estava. Seu objetivo de vida viraria pó com uma única falha, por estar velho demais.

    O tilintar de armadura chamou atenção de alguns inimigos e logo uma nova explosão contundente abriu um círculo dourado no pátio ensaguentado.

 - Por que não chamam quando a brincadeira tá ficando séria?! - um borrão vindo dos telhados derrubava inimigos ali empoleirados, uma revoada de corvos grasnou indignada ao ser expulsa. Lyndon, o vigarista pousou graciosamente com sua besta de flechas explosivas no gatilho.

 - Kormac, o templário se apresentando para a incursão! - anunciou o templário atingindo cadáveres reanimados com seu pesado escudo. A cada golpe, a luz se fazia presente no local tão escuro.

 - Que diabos vocês estão fazendo aqui?! - gritou Derrick, preparando seus punhos para conter as consequências da magia das trevas que Drygha iria lançar contra o grupo.

 - Cê acha que a gente ia perder a festa?! Tá caduco, velhote?! - a arcanista Jia-hai trouxe as magias mais atordoantes possíveis para impedir que os reanimados atacassem o grupo corpo-a-corpo. Cássia saía na investida com Kormac, derrubando inimigos maiores.

 - Seus merdinhas imprestáveis, energúmenos de uma figa, estão estragando a minha...!!! - vociferou o necromante com lágrimas nos olhos, a dor estava insuportável em manter o controle sobre a criança invisível dos inimigos lá na parede na escadaria, o de detectar onde estava sua amada e de entrar nos domínios da Morte temporal para descobrir como aquele ritual estava sendo canalizado.

 - Agradecemos as palavras de encorajamento, Malvado, mas a vida não tá fácil nessas quebrada não! - Lyndon escapou de um golpe de foice de Drygha, que atingiu o escudo de Kormac em cheio. O templário foi obrigado a jogar o aparelho no chão e correr na direção oposta, tinha sido enfeitiçado com a terrível voz da senhora da morte. - Cássia segura o boi! Ele vai nos derrubar assim!!

 - Deixa comigo! - respondeu Jia-hai imediatamente, lançando um feitiço restaurador de mentes no templário, ele havia colidido com uma das cercas de concreto que separava a praça dos edifícios. - Grandão, temos uma luta pra esse lado, tudo bem aí? - o templário apenas levantou a mão.

 - Você chamou a Escuridão para si mesmo, mortal!! - anunciou Drygha, se aproximando ferozmente de Derrick, e com sua foice revoando em círculos, por pouco não o decapitou. Alguém havia o tirado da mira ao dar uma rasteira.

 - Necromante! Foco! - disse Capitão Haile vindo com dois de seus melhores guardas, um deles carregava no peito o tabardo da Igreja de Zakarum.

 - Preciso... de tempo... - arquejou o necromante, abrindo sua mão dilacerada para tocar a orbe de energia. O grupo de heróis lutava contra Drygha com todas as forças. O ex-paladino de Zakarum, Danrriel, se aproximou do velho pai e o manteve em pé para realizar o feitiço. - Fique longe, seu pestinha. Isso vai te machucar.

 - Suas ordens não irão me tirar do lugar, teimoso. - o necromante o puxou pelo colarinho da armadura cinzenta maltratada do único filho.

 - Nas escadarias... Vá! Agora! - o ex-paladino apurou os olhos treinados e constatou com surpresa a movimentação trêmula de uma criança indo em direção a uma pilha de corpos. Não hesitou e largou o pai para salvar a criança. Não antes de perceber que Drygha estava indo naquela mesma direção.

 


 

     A senhora da morte tinha um belo rosto, bonito de se olhar. A armadura tão reluzente e imaculada, as asas tão longas e de penas douradas, como veludo em suas mãos. A voz mudara, para algo que não conhecia, algo maternal. Como alguém que você deve obedecer porque é o certo a fazer. Não sentiu seu braço esquerdo sendo rasgado pela lâmina da ceifadora e sua mão decepada. O pedaço de vidro que estava ali foi encontrado pela ceifadora.

 - Então era isso que escondia de mim, nefalem? - a ceifadora sussurrou para a criança, leve em suas asas translúcidas, enfeitiçada em um outro mundo que apenas os anjos poderiam oferecer aos mortais. - O pequeno fruto proibido dos demônios? Venha, chegue mais perto... Deixe-me ver sua verdadeira...

Toda a admiração tomou lugar a uma explosão de fumaça, fedor e podridão. A dor lacerante no braço fez a criança vergar as costas e cair nos degraus das escadas em um grito horroroso, acima da batalha que estava sendo travada há poucos metros. Um escudo enorme com ranhuras de muitas brigas, pendendo dois crânios de aves em cada lado atingiu a criatura que estava segurando seu rosto com ferocidade.

 - Deixe-a em paz, maldita ceifadora!! - urrou o guerreiro que se colocava a frente entre as duas criaturas antagonistas. A criança rolou alguns degraus abaixo, rosto queimando de dor, braço em espasmos que nunca sentira antes, sentiu o gosto do sangue, da poeira, da lama e da Morte.

 - Jamais interrompa a Senhora da Morte, humano miserável! - a criatura alada se lançou contra o guerreiro de Zakarun, atingindo o escudo em cheio e fazendo com que sangue, ossos e pedaços de ferro do escudo e armadura voassem por metros. O guerreiro gorgolejou seus últimos suspiros e levantando sua maça estrela, uma magia potente e de força divina iluminou o canto do campo de batalha, chamando atenção dos combatentes.

 - Danrriel, seu tolo!! - gritou o pai Derreck indo em direção ao filho, esquecendo completamente da finalização do ritual. A criança recebeu o impacto do golpe final do ex-paladino sendo arrastada na pilha de ossos quebrados e dando de cara em uma pilha de mortos em decomposição. Não chorava, não produzia som algum, apenas o ranger de dentes que o Mestre Necromante tanto conhecia em seus aliados: a vingança despertara no coração puro, corroendo qualquer vestígio de inocência.

- Por Santuário!! - gritou Danrriel se atirando contra a criatura nefasta e trazendo a maça estrela em direção ao seu crânio, esfacelando todo o espectro de Drygha em uma explosão de magia arcana.

 

O campo de batalha ficou em silêncio por alguns segundos, como se o golpe certeiro e poderoso do ex-paladino tivesse parado o tempo. A criança viu nitidamente com um dos olhos ensanguentados o que esses segundos em lentidão traziam para a realidade. Dezenas de espíritos agonizantes fugiam da luz cegante e divina da maça do ex-paladino, agarrando-se em qualquer coisa, inclusive a ela, puxando suas vestes sujas, tateando seus ossos, clamando por piedade em seu nome. Um dos espectros mais horripilantes tinha o rosto de seu pai, furioso e dentes maiores que a boca, ele gritava algo, furioso, imperioso, olhos tomados por uma cor alaranjada, as mãos dele arranhando seus pés. Por segundos pensou que estava sendo arrastada para os Infernos que todos falavam e temiam, junto com aquelas almas amaldiçoadas pela ceifadora, o anjo disfarçado que a tocou com as pontas dos dedos, marcando seu crânio com feridas e retirando seu olho esquerdo sem ela perceber.

Um par de braços a alcançou com força e a arrastou para trás de uma mureta, cobrindo seu rosto com uma mão de dedos roliços e cheio de anéis. Teve seu corpo girado para trás e ter um adulto a prensando bem em um abraço desajeitado e trêmulo.

 - Pelos espíritos, minha criança, não olhe! Não olhe! Feche os olhos e concentre-se na voz da velha Míriam... Não olhe!! - a voz feminina da vecina Míriam a surpreendeu. Estava estática no lugar, sendo abraçada tão carinhosamente, mas logo seu corpo foi sucumbindo as dores que foi alvo minutos atrás. - Tudo vai ficar bem. Tudo vai ficar... Derrick, seu irresponsável!! Deixar uma criança fazer o seu trabalho sujo??? - a voz da mulher fez a criança se afastar bruscamente, foi quando todos perceberam a gravidade das feridas e o desfecho do confronto. A imensa orbe de poder maligno se dissipou quando Drygha se desfez nesse plano existencial, voltando a sua essência no Paraíso corrompido de Malthael.

 - Seu tolo! Por que fez isso?! - o mestre Necromante se ajoelhou nos degraus, perto do filho com o torso dilacerado, segurando o resto de vida que tinha, um sorriso vitorioso por debaixo de tanta sujeira. - O que vou fazer agora sem você, seu idiota?! - o filho puxou o pai para perto de si e cochichou algo em seu ouvido.

 - Preciso de ajuda aqui!! Socorro!! Uma criança ferida!! - gritou Míriam chamando atenção para o grupo. Os inimigos restantes ao comando da ceifadora também evaporaram após sua morte definitiva, poucos corpos cambaleantes vagavam ali, sendo atingidos pelos combatentes humanos e retirados do caminho para a força-tarefa resgatar os feridos.

 


 

O caldeirão fumegava devagar, o aroma inebriante de vinho tinto fervendo com especiarias.

O fogo que bruxuleava debaixo do utensílio de ferro era laranja vivo, algo que chamou atenção de Daehir no mesmo instante. A pessoa sentada perto do fogo tremia de frio pela umidade que o Enclave dos Sobreviventes tinha, mas foi confortada com um grosso cobertor feito de retalhos de lã, e outros tecidos emaranhados. A Vecina tomou a colher de pau do apoio na alça do caldeirão no centro do pequeno espaço onde ela se alojara e mexeu a beberagem com cuidado.

Daehir também percebera nisso, Míriam era cuidadosa com tudo que fazia. Com as coisas que encantava, com os conselhos que dava ao "Escolhido", com a comida que fazia para dar aos sobreviventes de Hespéria.

- Você observa demais em seu silêncio. Guardar as coisas para si nunca fez bem a ninguém... - disse a mística colocando uma boa porção de vinho quente em uma caneca de madeira para a adolescente. Antes que a caneca chegasse as mãos trêmulas, uma grossa mão coberta com luva negra entalhada de pequenos ossos tomou a frente.

- Peço encarecidamente, novamente, caríssima Vecina: sem álcool para as crianças. - comentou gravemente o necromante Derrick, antigo aprendiz de Ordan, o mestre da Necrópole morto em batalha contra os anjos meses atrás.

- Não sou criança. - respondeu secamente a pessoa puxando mais do cobertor para si.

- Não pedi sua opinião, pelo que me recordo. - respondeu ele tomando o vinho quente em um gole só. Logo seu corpo tremelicou com a sensação quente que o acometeu. - O que você colocou nessa bebida, vecina? - a mística sorriu desdenhosamente para ele e ofereceu outra porção de vinho para a adolescente. O necromante ia protestar, mas foi tomado de surpresa por mais outro tremelique.

- Eu diria qual é o segredo, mas você não iria gostar. - Daehir recusou o cálice ofertado em sua direção. - Não se preocupe, meu docinho, é remédio dos bons. Para sua dor diminuir. - colocando a caneca não mão direita da adolescente.

- Dor, que dor? - tossiu fortemente Derrick soltando alguns vapores coloridos de suas narinas e boca. - Mas que maldição...?! Mulher, explique-se?!

- Para um sacerdote de Rathma, você é terrivelmente estúpido Derrick. Não se meta no tratamento da mística Míriam com quem a ajudou no beco do Gideão. - E forçando um pouco a mão na caneca para que Daehir tomasse a beberagem, ela ajeitou o cobertor no corpo curvado de sua salvadora.

- Fui eu que a salvei daquele beco, lembra? - respondeu o necromante tomando grandes goladas de água que estava em um jarro enorme ali perto.

- Não, você usou a "criança" aqui para atrair a atenção do monstro, enquanto estava tentando fazer o que era de sua obrigação. - respondeu a mulher de vestes coloridas e cheia de adornos. Mesmo após o confronto na Travessa do Gideão, ela conservara o bom humor e a vitalidade de sempre.

- Ora, ora, ora, mais outra discussão sobre quem salvou quem? Porque por experiência sabemos quem foi que a salvou de um destino cruel... - intrometeu-se o vigarista Lyndon dando tapinhas na pança pós-janta e verificando o caldeirão cheiroso. - Hmmmmm essência de lorna... É um intensivão de cura, cara Míriam? - Lyndon olhou para a adolescente encolhida com pena.

- Diga para esse... nefalem... - apontando para o necromante recuperando o fôlego e estalando as costas devido ao esforço de respirar nos últimos segundos. - Para parar de subestimar a juventude. Meu bem, você não irá melhorar se não tomar do cálice, sim? - disse ela para Daehircom um carinho especial. - Não ousaria em te fazer mal, pois o seu coração que me resgatou daquele tormento. Tome, vá aos poucos... Não será como esse bobão intolerante aqui... - Derrick jogou os braços para cima, a mão esquerda atrofiada chamou atenção de Daehir, que se encolheu ainda mais no cobertor, escondendo o braço decepado.

- Intolerante?! Eu sou a pessoa mais tolerante que vocês já encontraram!

- Mentira tem perna curta! - exclamou Lorath, o Horadrinn que passava ali naquele instante, ao seu lado estava Tyrael, o arcanjo da Sabedoria, em sua forma humana e humilde.

- Tolerante, ah tá! Vai nessa! - exclamou de longe Haedrig o ferreiro debruçado em sua bigorna examinando o material de um escudo quebrado.

- Não é correto mentir para as pessoas Derrick, o Profeta nos ensinou a manter nossas palavras tão cristalinas com a Verdade para não cairmos na tentação do inimigo... - opinou Irina, a feiticeira Vizjerei. Kormac, o templário concordou veemente. Derrick grunhiu em desaprovação e com um olhar severo para a pessoa doentia perto do fogo, ditou:

- Não terminamos essa discussão, "nefalem"... - e com passos pesados foi para o outro lado do Enclave, sentou-se na mureta perto de seu baú de recompensas e tirou um tomo grosso e amarelado de uma pilha de outros livros.

- Não dê ouvidos ao exclusivista. - Lyndon disse colocando um pequeno pacote feito com folhas grossas de alguma árvore frutífera perto da mão de Daehir.

 - O resmungão perdeu o filho único, Lyndon... Tenha paciência... - pediu Míriam verificando um pote de conservas e tirou alguns vegetais ali refogados. - Você come carne, minha criança? - perguntou ela e Daehir estranhou a pergunta de imediato. - Não tenho esse hábito, mas posso acrescentar um pouco de carne seca na sopa que farei, o que acha?

 - A... a... e-eu... - a mística acrescentou o naco de carne no tacho de ferro que seria usado para a sopa, sorriu para Daehir e acenou para a caneca ainda em sua mão. A adolescente tomou um gole e quase espirrou parte do conteúdo ao chão. Tossiu com vontade e vapores coloridos escaparam de suas narinas.

 - Intensivão de cura é algo muito bacana de se ver, não acha? Ruim pra quem se toma, é claro! - riu-se Lyndon sentando ao lado da sobrevivente. - Derrick é um resmungão, mas não é um sobrevivente como nós dois... Somos fortes porque sabemos como ultrapassar essas noções bobas de perigo e preocupações... - concluiu dando uma piscadela quando viu que Daehir deixou a caneca perto do pé e abriu desajeitadamente o pacotinho com a mão direita e os dentes, eram tâmaras de Caldeum, conservadas pelas folhas. - Esse é nosso segredo, hein? - o rosto da adolescente abriu em um sorriso genuíno, um que Míriam notou na hora.

- Ag-ag-agradeço muito senhor Ly-ly-lyndon... - a tremedeira da pessoa ainda persistia.

- Quando decidir sair em aventuras, não se esqueça de mim! - pegando a caneca de madeira e colocando mais um pouco do conteúdo para a pessoa beber. Daehir mastigava devagar as tâmaras suculentas e macias, o açúcar contrastando com o pouco amargor do tempo guardado, aliviando a dor de cabeça que sentia desde que acordara depois de 14 dias em profundo sono. - Sou um ótimo guerreiro e um belo amuleto da sorte!

- Lyndon, o que falei sobre mentir para...? - Irina iria começar a falar, mas o vigarista levantou os braços em rendição.

- Tudo bem, tudo bem, um pequeno amuleto da sorte... Apenas... Oras! Eu sempre divido meus espólios com vocês, não?!

- Porque Derrick te ameaça a fazer! Se não, nem isso! - reclamou Kormac.

- E você que ainda não bebeu toda a poção...? - perguntou Míriam verificando a temperatura na testa suada da pessoa. Com uma checada discreta, verificou se a órbita vazia do olho esquerdo de Daehir estava cicatrizada, faltava pouco para o tecido machucado parar de infeccionar.

- É uma poção? - perguntou a mais nova em um sussurro, olhando para a caneca de volta a sua mão, o pacote de tâmaras em seu colo.

- É um coquetel. Um belo e gostoso coquetel... Pense em coisas boas quando engolir... - Daehir olhou para a caneca com o vinho quente, apesar do primeiro gole fazer com que quase vomitasse seus pulmões para fora, o cheiro desta vez estava irresistível, o calor que emanava do copo aquecia sua mão gelada, a dor no braço esquerdo entorpecida pela pasta de ervas aplicada em unguento horas antes. Pegou coragem após trocar um olhar atento com a vecina, bebeu devagar, respirando pausadamente ao sentir o poder de cura adentrar seus órgãos e ossos lentamente, seu olho direito pestanejou várias vezes ao ponto de lacrimejar, era o cansaço finalmente vencendo a batalha que mantinha há dias após sair do sono amaldiçoado que o necromante Mehtan dissera que teria que se submeter. Não sentiu o corpo amolecer e tombar de lado, confortável no cobertor felpudo.