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A Viagem

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Assim que Tweek botou os pés para fora do banheiro, sentiu todo o vento gelado acompanhado dos flocos de gelo chocar-se contra o seu rosto. A temperatura externa havia baixado muito com os minutos que passaram lá dentro, assim como a neve caía em maior quantidade. No entanto, o silêncio do local ainda era o mesmo, exceto pelos seus pensamentos sobre o momento que tivera a pouco com Donovan.

          O loiro jamais imaginara que seu amigo se sucumbiria a tal atividade com ele. Afinal, Clyde sempre se mostrou indiferente com ele. Claro, isso antes das férias de verão, onde sem querer o provocou. Tweak nunca planejara algo assim com Donovan, já que o rapaz sempre se mostrou alguém tão interessado nas mulheres como o loiro era interessado em boxe. Mesmo com as evidentes encaradas que o moreno lhe dava, Tweek jamais imaginou que o ato chegaria a ser feito, quer dizer, não era o sexo convencional, mas mesmo assim era surpreendente. E ainda por cima acabar gostando do que estava fazendo.

          Clyde havia se mostrado retraído, coisa muito comum para quem nunca fizera nada para um cara, mas o moreno era incrivelmente curioso sobre qualquer coisa e ele sempre iria até o fim em suas ideias mirabolantes, principalmente quando o assunto é provar aos outros que ele tem a razão. Quantas vezes Tweek não viu o menor fazendo idiotices por causa disso? Muitas, mas eram engraçadas. Entretanto, ainda não lhe tirava um pouco da surpresa ao ver Donovan tão entregue a uma curiosidade.

          Mas Tweak não tinha do que reclamar, mesmo que sem experiência alguma sobre como chupar um cara, o moreno havia se saído bem, provavelmente fez o que as garotas faziam nele. Bem, faltava apenas saber como seria a segunda parte. Entretanto, Tweek não contava tanto com isso, de jeito nenhum, afinal, a curiosidade de Clyde poderia acabar ali e o loiro não insistiria em nada... Talvez o provocaria algumas vezes, mas respeitaria a posição que o menor viria a ter.

          O sardento deu uns passos, já virando a esquina da construção, quando se deparou com diversos ônibus parados no estacionamento, muito deles igual ao que estavam e devido à má luminosidade do local, nem dava para enxergar a placa ou a logomarca na lateral do veículo.

          Seguiu mais um pouco até entrar na loja de conveniência do posto, onde uma música calma tocava ao fundo, enquanto o interior se encontrava vazio, apenas com as prateleiras e os produtos. Claro, um atendente mexia em seu celular atrás do balcão ao seu lado, porém, o loiro estranhou completamente o quão silencioso tudo estava.

          Virou seu rosto para trás, para olhar mais uma vez a frota de ônibus lá fora e então mais uma vez analisou o interior da loja. Seu peito apertou levemente com o incômodo pensamento que invadiu sua mente.

          Foi até a bancada onde o atendente mantinha sua expressão de tédio atrás da tela do aparelho.

          — Oi, eu gostaria de um expresso. — Pediu. O rapaz levantou o olhar, ainda mantendo o tédio estampado em sua face.

          O jovem se levantou de sua banqueta e seguiu mais ao fundo onde ficava as máquinas de bebida e a de expresso. Tweek o viu pegar um pote com o pó já moído, onde não deixou de conter uma careta em desgostos, e observou o atendente fazer tudo numa lerdeza absurda. Ele despejou água mineral, sobre a máquina de expresso, jogou o pó de qualquer jeito no porta-filter, achatando todo o pó com o tamber e levou até a saída da água.

          Foram pouquíssimos minutos e seu café estava pronto, em seu copo descartável de isopor para mantê-lo quente.

No mesmo instante, Clyde entrou no local e seguiu até Tweek, que já pegava o dinheiro de sua carteira.

          — Eu quero um chocolate quente. — Pediu Clyde, atraindo o olhar do maior para si, que sorriu disfarçadamente.

          Assim que o atendente pegou o dinheiro do expresso e devolveu o troco ao sardento, voltou a área das máquinas para preparar a outra bebida, mantendo sua mesma moleza.

          — Você se limpou? — Tweek assoprava o copo em frente a sua boca, com seu olhar brincalhão. Donovan demorou alguns segundos para compreender o que Tweek dissera e então lançou um olhar ao atendente preguiçoso e depois voltou a encarar o amigo, com um sorriso.

          — Fiz o que pode. — Respondeu baixo — Mas terei que trocar de cueca no banheiro do ônibus. Está tudo melado.

          Tweak riu.

          — Sabe, se quiser ajuda posso limpar pra você. — O maior piscou e Clyde corou.

          O momento fora interrompido quando o atendente apareceu com o chocolate-quente que mais parecia um achocolatado. O moreno disfarçou rapidamente, pegando o dinheiro e pagando o rapaz. Assim que pegou sua bebida, ambos se dirigiram para fora do estabelecimento.

          Clyde tinha todo seu corpo relaxado devido a atividade no banheiro, sentindo o cansaço surgir, no entanto, sentia-se levemente incomodado com o sêmen que começava a gelar por dentro de suas roupas devido à baixa temperatura e também com o próprio momento que tiveram. Provavelmente o moreno sonharia com aquilo, com o pênis de Tweek em sua boca e talvez indo mais além que isso, se concretizando o convite que o loiro fizera no local, sobre fazer algo muito melhor.

          O menor estremeceu, sem saber se era devido as imagens provocativas em sua mente ou o frio.

          O sardento parou em frente a frota de ônibus e buscou com o olhar onde estaria o veículo deles. Apesar de ter uma boa memória, Tweek simplesmente sentia-se confuso no momento devido as questões que voltavam a invadir sua mente.

          — Cara, quanto ônibus aqui... — Comentou Clyde, chamando a atenção de Tweek.

          — Pois é... — Respondeu o sardento, pensativo.

          Não que fosse uma coisa anormal, porém, o loiro achava que pelo menos as pessoas deveriam ter saído do veículo para ir ao banheiro ou na loja, no entanto, ninguém saiu.

          Já Clyde sequer pensava naquilo ou em qualquer coisa do tipo. Na verdade, sua preocupação maior era como se controlaria com o Tweak. Ambos tinham feito algo interessante no banheiro, ele chupou o pau do próprio amigo! Ele ainda podia sentir o calor daquele membro em sua boca, a textura, o gosto e até o cheiro tão interessante do loiro...

          Donovan bebericou sua bebida, tentando se distrair com outras coisas, que não fora nem um pouco difícil assim que uma rajada de vento o atingiu, fazendo os pelos de seu corpo se arrepiarem.

          Tweek olhava atentamente os veículos a sua frente, tentando encontrar o certo. Todas as luzes dos ônibus estavam apagadas, até mesmo em seu interior, sem mostrar os passageiros enquanto aqueles veículos que estavam próximos aos postes de luz, tinham as janelas com cortinas esticadas. Por que isso me parece estranho, indagou consigo mesmo sem entender o motivo de se sentir tão apreensivo.

          Talvez fosse sem sentido o que lhe ocorria, porém, para ele era uma situação bizarra. As empreses tinham horário a cumprir com as viagens, para chegarem na hora marcada nas passagens dos passageiros. Parar num posto de gasolina para simplesmente dormir e seguir viagem no dia seguinte não fazia sentido. Se pelo menos os motoristas estivessem dentro da loja ou no banheiro, ele entenderia, mas o tempo que ficou por lá, ninguém entrou. Mesmo que o sardento estivesse tão absorto no prazer que Clyde estava lhe proporcionando, ainda mantinha a atenção para caso alguém adentrasse no banheiro, como seus amigos, por exemplo.

          Porém, nada.

Claro, os motoristas poderiam estar apenas esticando suas pernas, mas algo ainda não fazia sentido. Os faróis estavam apagados e as portas fechadas, portas esses que o loiro sabia que só se abriam pelo lado de dentro.

Então eles estão lá dentro, pensou enquanto mais perguntas surgiam em sua mente.

          O loiro estremeceu quando outra rajada de vento veio, tornando o momento um pouco mais apreensivo que antes, causando um calafrio violento que o quase fez derramar um pouco de café em sua mão.

          — Algum problema? — Clyde se preocupou.

          O moreno observou o amigo ficar quieto de repente, olhando atentamente a frota na frente deles, sem compreender o porquê. Bebericou mais um gole de seu achocolatado após Tweek o encarar.

          — Nada não... — respondeu — Só estava pensando em uma coisa aqui, mas talvez eu esteja sendo idiota demais.

          Tweak decidiu não contar o que se passava em sua cabeça. Talvez fosse apenas paranoia dele, pois não conhecia bem os sistemas das companhias de viagem. Afinal, viajar a noite enquanto neva não é uma das opções mais seguras, ainda mais quando a previsão do tempo alertara uma nevasca. Bom, era uma tempestade que deveria vir no dia seguinte, porém, poderia chegar adiantada. Talvez os motoristas estariam apenas se prevenindo.

          No entanto, Clyde sentiu-se nervoso com a fala do amigo, imaginando que Tweek poderia estar arrependido do que fizeram a pouco, voltado a atrás e percebido que fora algo estúpido de se fazer. O moreno ficaria incomodado com isso, talvez triste, porque, bem, fora divertido e... gostoso. Claro, isso não significava que fosse gay e que faria com outros caras, mas imaginar que seu amigo estaria insatisfeito com a pequena brincadeira que tiveram, o deixava magoado.

          — Você está pensando no que... fizemos? — Sua voz saiu baixa para que não ecoasse no estacionamento, porém, com certo ressentimento.

          O sardento sorriu serenamente, levando o copo descartável em sua boca e ingerindo o café, agora já não tão quente.

          — Você está preocupado que eu não tenha gostado ou algo assim? — O loiro olhou para o menor, enquanto virava mais um pouco da bebida em sua boca.

          Clyde apenas riu ligeiramente ao mesmo tempo que se xingava mentalmente. Havia transparecido o quanto temia a ideia do amigo se arrepender. Parecia algo extremamente idiota de se pensar ou de se preocupar, afinal, não havia motivos. Se Tweek tivesse se arrependido não haveria o que fazer e Donovan deveria aceitar. Porém, não lhe parecia o caso, por isso apenas sentiu-se alegre.

          — Não tem porque se preocupar, cara. — Começou o loiro — Ainda quero fazer várias coisas com você... É claro, se você quiser. — Piscou, sorrindo lascivamente.

          Donovan riu mais uma vez, desviando seu olhar para o lado, sentindo o calor invadir seu corpo novamente, incomodando sua virilha.

          O loiro começou a avançar, ainda com um sorriso nos lábios, em frente aos ônibus, em busca da linha em que estavam minutos antes. Porém, era um pouco complicado reconhecer os rostos pela janela devido à falta de luz. A única coisa que ele via era as silhuetas das pessoas, que pareciam cabisbaixas.

          Nada demais, era isso que ele deveria pensar naquele momento.

          Entretanto, a alegria que sentira a pouco de tempo ao provocar o amigo, que chegou de forma súbita, se foi da mesma maneira ao perceber que havia, de fato, algo bizarro por ali, causando-lhe outro tremor no corpo.

          Conforme avançou em frente aos veículos, Tweek podia jurar que as silhuetas os seguiam com suas cabeças cabisbaixas.

          — Que porra eles estão fazendo? — Tweak deixou escapar, em uma voz cuidadosa, enquanto seu olhar passava de um veículo a outro de maneira rápida, absorvendo os detalhes enquanto a apreensão começava a tomar conta de si.

          Clyde, que ainda estava seduzido pelas palavras do amigo, saiu de seu transe assim que a voz do amigo foi ouvida. Donovan o observou andando lentamente em frente aos ônibus, analisando o interior de cada um. Não entendia o que estava acontecendo.

          O moreno se aproximou do amigo, também encarando as janelas dos veículos para então seu sangue gelar de vez, como se o vento tivesse soprado novamente. As pessoas no interior dos veículos tinham suas cabeças viradas em sua direção, todas, sem exceção. Sua respiração se acelerou enquanto um aperto em seu peito surgiu.

          — C-c-cara por que eles e-estão olhando p-pra cá? — Sua voz era um mero sussurro, cheio de medo.

          Tweek deu salto no lugar ao ouvir a pergunta do amigo, que fora inesperada naquele momento. Sequer percebera que Clyde se aproximou dele já que sua intenção estava inteiramente nas pessoas nas janelas, enquanto tentava pensar como Craig, seu amigo com o raciocínio mais lógico que já vira. Contudo, aquilo já não lhe fazia mais sentindo algum, principalmente o fato as pessoas de todos os ônibus, em que passara em frente, olharem para eles da mesma maneira. Escondido entre a escuridão do veículo enquanto seguiam com suas cabeças — e olhares — os seus passos.

          Mais alguns passos e então um clarão os atingiu e logo sumiu, voltando a acender e apagar. Os dois rapazes levaram um susto, dando um pequeno pulo para trás assim que a luz os iluminou. Foram alguns minutos até a dupla perceber o que era aquilo.

          O jogador tinha seu corpo petrificado de medo, enquanto sua mão, já molhada com o falso chocolate quente, agora frio, suava, fazendo o copo deslizar. Seu coração estava acelerado demais, assim como sua respiração. O moreno não conseguia se mover, enquanto encarava o feixe de luz acender e apagar constantemente, até que após um minuto, que lhe pareceu uma eternidade, compreendeu o que estava acontecendo ali.

          O mesmo servia para Tweek, porém, diferente de Clyde, não estava petrificado, apenas assustado pela aparição repentina do clarão em seu rosto. E com uma reação mais rápida de compreensão da cena, o loiro percebeu que se tratava do pisca do veículo, não de um qualquer, mas da companhia na qual viajavam. O sardento suspirou aliviado, por finalmente achar o ônibus.

          — Que puta susto! — Exclamou Clyde, colocando a mão no coração após estar mais calmo — O motorista quer nos matar do coração?

          — Pode ser... — Suspirou, novamente, logo em seguida — Pode ser coisa dos nossos amigos, não? Principalmente porque sabem que você é medroso. — O loiro olhou para o menor, que o encarou indignado.

          De fato, Clyde era medroso, mas não significava que tinha medo de tudo. Porém, ficar sozinho no meio do estacionamento, quase três da manhã, sem ninguém em volta com as luzes dos ônibus todas apagadas era uma situação que pedia seu pavor.

          — Vamos entrar... eles devem estar esperando faz muito tempo. — O maior sorriu ternamente, dando mais um gole em seu café gelado.

          Donovan desviou o olhar, um pouco embaraçado por lembrar de minutos atrás e seguiu para o veículo, que estava com a porta aberta.

          Tweak deu mais uma olhada para os outros veículos, principalmente o do lado, assim que se aproximou da porta de seu ônibus, encarando as janelas. As silhuetas agora tinham rostos, devido aos faróis. As pessoas não lhe olhavam mais, agora estavam viradas para frente, todas acordadas enquanto suas cabeças estavam erguidas.

          Seu corpo estremeceu assim que o vento lhe soprou o rosto, ainda mais gelado.

         

          Após entrar, o motorista fechou a porta do ônibus atrás do rapaz, que não perdeu tempo e se aproximou do homem, pedindo desculpas pelo inconveniente demora. Porém, ao parar ao lado do motorista, Tweek sentiu uma apreensão surgir em seu peito, em sua mente.

          — Desculpe pela demora, senhor... — Disse Tweek, com a voz baixa.

          Esperou que o homem se pronunciasse, porém, ele apenas manteve-se em sua posição, mexendo suas mãos para os botões e então para chave e em seguida, a marcha, fazendo o pesado veículo arrancar silenciosamente. Tweak estranhou a maneira do homem, achando que talvez estivesse estressado com a demora dos dois.

          O loiro deu de ombros, e virou-se em direção ao corredor, para seguir até seu acento. Foi então que percebeu que algo ali não estava certo.

Clyde já avançara pelo apertado corredor, encarando todos os passageiros enquanto seu corpo se enrijecia e estremecia, como se uma janela estivesse aberta para entrar todo o frio do mundo exterior. O rapaz engoliu em seco, sentindo suas mãos suarem cada vez mais. Ali dentro não estava iluminado, porém, não deveria ser nada alarmante — já que boa parte do pessoal dormia antes de descerem —, porém, nas poucas lanternas embutidas acimas de suas cabeças, o moreno pode reparar que agora os passageiros estavam acordados, todos eles, e olhavam para frente, com expressões sérias e talvez... tristes. Clyde se sentou ao lado de Token novamente, agora com as mãos trêmulas, encarando a garota.

Ninguém fazia questão de olhá-los de volta, muito menos comentar algo. Algo havia acontecido, sentia o loiro, porém, algo muito bizarro para a ação anormal de todos ali. Caminhou devagar entre todos, observando um a um e suas expressões. A apreensão tomando conta rapidamente de seu interior, enquanto sua mente fazia as mais diversas questões para a situação.

Assim que alcançou seu assento, vendo a expressão apavorada de Clyde, Tweek sentou-se ao lado de Craig, analisando-o. Ele tinha a mesma feição que os outros, porém, o deixando ainda mais apático que de costume. Donovan, se virou bruscamente para ele, derramando a bebida esquecida no chão.

— C-cara, por que eles estão t-tão estranhos assim? — O sardento percebeu que o amigo tentou se controlar ao máximo para não parecer tão assustado, porém, falhando ao gaguejar em um sussurro.

          O loiro deu de ombros e voltou a fitar Tucker. Ele levantou uma mão, a livre, para tocar no braço do amigo.

          — Não! — Clyde exclamou com a voz baixa. Já estava horrorizado com a situação peculiar naquele ônibus e o que não queria naquele momento era mexer com o pessoal completamente esquisito.

          Tweek levara um susto com a súbita voz de Donovan, mais uma vez, fazendo o recolher a mão rapidamente, mirando o amigo com os olhos saltados.

          — Cara, a-acho melhor você não fazer isso. — Alertou o amigo, parecendo mais assustado que antes.

          — O que você acha que ele vai fazer? — Perguntou Tweek. Ele sabia que algo ali dentro estava errado, porém, imaginava que ninguém ali faria algo com eles, pelo menos era o que esperava.

          — Cara... eles estão estranhos demais... — A voz do moreno já começava a falhar, previsão de um choro.

          Tweak suspirou, como uma forma para se acalmar e manter o controle da situação, mesmo que seu coração estivesse batendo as pressas em seu peito e que sua começava a tremer também.

          Isso é brincadeira deles, não?

          Sim, só podia ser isso.

          Enquanto estiveram fora, alguém acordou e não os viu. E com certeza acordou os outros para que lhes pregassem uma peça. Claro, tinha que ser. Clyde era tão medroso e Tweek poderia perder a compostura de maneira rápida em situação sob muito estresse. Uma pegadinha perfeita para ambos ficarem com medo. Porém, quem teria sido o idiota?

          Josh? Carl? Augustus?

          Entretanto, se fosse apenas uma brincadeira idiota, porque raios os ônibus dos estacionamentos tinham a mesma áurea negra e pesada? Talvez apenas imaginação sua?

          Devo estar cansado demais.

          Já Clyde estava começando a perder o controle de tudo. Mesmo que nada tivesse realmente acontecido, seu medo começava a crescer em seu peito e invadir sua mente, afetando todos os possíveis pensamentos lógicos.

          Ele odiava momentos tensos, carregados de suspense porque aquilo só lhe fazia mal, a ponto de suar frio por toda parte de seu corpo enquanto pânico surgia mais e mais até que começasse a chorar feito um bebê. Simplesmente sem ter acontecido coisa alguma, apenas com sua imaginação fértil. No entanto, neste momento, aquilo não era imaginação sua. Ele podia ver Black ao seu lado, com a expressão apática, olhos vidrados em direção a nada, sem nem se mover... Ele sequer parecia respirar!

          Tweak notou o olhar de horror de seu amigo, que ia de Stevens, ao lado dele, até Craig ao seu lado. O loiro sabia que ele estava cada vez mais desesperado e ele não queria que isso acontecesse com Clyde. Principalmente porque sabia que uma vez em pânico, seria difícil acalmá-lo e Tweek não era a melhor opção.

          Entretanto, antes mesmo de dizer qualquer coisa para tranquilizar o amigo, o loiro sentiu seu celular vibrar em seu casaco, assustando-o.

          Devido ao silêncio no interior do veículo, o moreno pode ouvir com clareza o aparelho de Tweak vibrar, surpreendendo-o também e fazendo soltar o copo descartável em sua mão, derramando todo o líquido no carpete.

          O sardento colocou sua mão no bolso rapidamente, retirando o aparelho e involuntariamente encarando o amigo mais alto do lado, torcendo para que não estivesse notado aquilo. Porém, Tucker ainda mantinha seu olhar fixo a sua frente e Tweek não sabia se poderia sentir-se exatamente aliviado com aquilo.

          O loiro lançou um olhar para a tela do aparelho, identificando a pessoa que estava ligando no momento, motivo que o deixou completamente petrificado. Seu sangue gelara e seu corpo estremeceu. Suas mãos se encharcaram de suor.

          Clyde não conseguia ver a foto de contato do celular de Tweek, porém, ficou muito incomodado ao perceber como seu amigo estava agindo naquele momento. Mesmo com a fraca luz do aparelho, o moreno podia ver Tweak ficar tenso. O que havia na tela não poderia ser nada bom e a ideia começava a deixá-lo ainda mais nervoso.

          Tweak apenas virou sua cabeça devagar em direção a Craig, com os olhos saltados, com a expressão tão horrorizada que Clyde parou de respirar por um momento, sem sequer entender o que acontecia ali.

          O sardento vasculhou o olhar por todo o corpo de Tucker, a procura de algo que pudesse explicar o motivo de seu amigo estar ligando para ele, mesmo estando ao seu lado.

          O celular continuou tocando, enquanto o rapaz ainda continuava a encarar seu amigo apático ao lado. Foram alguns segundos nesta cena, com Tweek imóvel, analisando o moreno.

          Ele não fazia ideia do que estava acontecendo no momento. Como Craig podia ligar para ele sendo que sequer segurava algo em mãos. Ele parecia um robô, completamente estático.

          Tweak levou o aparelho cuidadosamente até sua orelha, apertando o local indicado para atender a chamada. E como se não fosse o bastante toda a cena para lhe causar medo, assim que colou o celular no local desejado, seu coração parou.

          — Alô? Tweek, onde você está?

          O loiro tinha a certeza que aquela era a voz de Tucker, o mesmo timbre anasalado e despreocupado. Porém, como que ele poderia estar falando com ele naquele momento? Ele estava parado ao seu lado, admirando a poltrona em sua frente.

          — Tweek? Está ouvindo? — Mesmo que o sardento não estivesse vendo o dono da voz do outro lado da linha, podia sentir uma certa preocupação em sua voz — Cara, você e Clyde sumiram faz um tempo... Onde estão?

          Donovan podia sentir seu corpo se enrijecer ainda mais ao ouvir a voz de Craig, devido ao silêncio no veículo, que ecoava facilmente. E, assim como Tweak, encarava o outro Tucker parado ao lado do amigo, completamente imóvel.

          Como isso é possível?

          Seus olhos já começavam a lacrimejar, enquanto pedia, rezava, aos céus para aquilo ser apenas um sonho.

          — C-C-raig...? — Perguntou aos sussurros — C-cara... é você mesmo? — O loiro tinha medo de elevar sua voz ao lado de Craig, não queria saber o que poderia acontecer se o outro lhe encarasse agora.

          Ele ouviu um suspiro aliviado do outro lado da linha.

          — Onde vocês estão? O motorista disse que já faz quase meia hora que vocês sumiram. Ele procurou vocês por todo o posto!

          Tweak encarou o menor a sua frente, fitando-o completamente transtornado e horrorizado. Ele sabia que Clyde estava ouvindo toda a conversa e já imaginava que uma confusão de perguntas se formava em sua cabeça, assim como a sua própria.

          — Tweek, onde vocês estão? — Craig perguntou novamente.

          O loiro estava prestes a responder novamente, quando subitamente o ônibus freou, impulsionando-o um pouco para frente, assim como Donovan. Tweek devia ter feito algum resmungo no momento da parada um tanto brusca, pois podia ouvir Tucker lhe chamar pelo aparelho novamente.

          Então a porta da frente foi aberta, como se esperasse algum passageiro subir, como nos ônibus normais.

          Clyde sentia todas as emoções crescerem ainda mais em seu coração, com o nervosismo já atingindo seu auge. Suas mãos tremiam e suavam ainda, enquanto sua respiração pesava mais conforme os segundos passavam e seus olhos já estavam encharcados. A freada súbita, a porta se abrindo devagar naquele silêncio assustador e cena completamente bizarra de seus colegas robóticos o faziam temer por sua vida.

          O que ele havia feito de errado para merecer aquilo?

          Sua garganta apertava. Ele queria chorar e estava a quase lá.

          — Tweek? Responda! Cara, onde você está? — A voz anasalada de Craig mais uma vez foi ouvida.

          Tweak, ainda estava mais calmo que Clyde, porém, por pouco tempo. Ele sabia que era questão de surtar e gritar. Ele lembrava que na sua infância, temia algumas coisas assustadoras, chorando em sua cama, debaixo das cobertas, quando imaginava que estava acompanhado de uma presença não-humana. Claro, era apenas a sua imaginação fértil, coisa daquela idade, porém, o que poderia dizer dessa situação atual?

          — Não quero morrer aqui... — Disse a si mesmo.

          Era um pouco exagerado imaginar que morreria ali, porém, o loiro assistira diversos filmes com fantasmas e quase nunca as pessoas saiam vivas daquelas situações. Bem, eram apenas filmes, claro, porém, ainda sim era impossível ver uma saída para aquela situação. Se ao menos fosse um fantasma na sua frente, ele sairia correndo ou fecharia os olhos e cantaria uma canção idiota como fazia na sua infância, contudo, ele estava num local com todos os seus colegas esquisitos.

          — Morrer? Cara... você está me assustando. — A voz de Tucker foi ouvida — Tweek, por favor, me responda ONDE VOCÊS ESTÃO? — O moreno do outro lado linha aumentou o volume de seu timbre, chamando a atenção de Tweak, que finalmente o respondeu.

          — No ônibus, Craig! — Exasperou, um pouco mais alto do que gostaria — Estou aqui do seu lado e com todos os outros...

          Tweek analisou tudo ao seu redor, com os olhos lacrimejando, notando que devido a porta, ao lado do motorista, aberta, uma névoa espessa entrava no interior do veículo, cobrindo a frente do ônibus e os passageiros próximos. No entanto, notou que mais alguma coisa estava errada ali, e Clyde também pareceu reparar, pois o rapaz começou a soluçar baixinho, se encolhendo ainda em seu acento.

          O loiro virou sua cabeça lentamente para o lado, em direção ao outro Craig e então o viu fitando-o seus olhos. Todos os estudantes o encaravam com os olhares opacos e sem vida, mas sem expressão alguma em seus rostos.

         Donovan já não conseguia pensar em mais nada coerente em sua mente, seu corpo tremia devido ao choro. O moreno cobria sua boca com o antebraço, sufocando com sua jaqueta os soluços mais barulhentos. Em sua mente apenas surgiam frases e palavras desconexas, todas em formas de pedido para que não morresse ali, no meio deles. Ele os vira mexendo suas cabeças devagar assim que Tweek quase gritou com Craig no telefone. Fora assustador demais, e o pior fora aqueles que estavam mais a frente, rotacionando suas cabeças em uma meia volta, apenas para encará-los.

          Nunca tinha visto algo desse tipo e o pavor que se intensificava ainda mais em seu corpo fazia sua cabeça girar. Por isso, abraçou seus joelhos com uma das mãos, com a outra abafando seu choro, enquanto apertava seus olhos com força, mantendo-os fechados para não ver mais nada.

          E ainda bem que Donovan fizera aquilo.

          Pois, antes de responder qualquer coisa para Craig no telefone, pedindo por ajuda ou o que quer que fosse, o loiro viu apenas uma sombra surgindo da entrada do ônibus, uma silhueta corpulenta e deformada.

          A névoa avançava devagar, estando apenas a duas fileiras de acentos a frente de Clyde, e com ela, a coisa também vinha em suas direções. Tweak sequer sabia como a podia distinguir no meio daquela escuridão — já que as lanternas sobre suas cabeças eram fracas —, mas ele podia enxergá-lo farejando o ar e caminhando lentamente, sem barulho algum.

          — Tweek? Resp- — Começou Tucker na linha antes dela cair e o barulho irritante do apito invadir seus ouvidos.

          O loiro baixou o telefone assim que a ligação se encerrou e pousou a mão sobre os joelhos, completamente trêmulas e encarou sem reação aquilo a sua frente.

 

          Foram alguns minutos em um silêncio súbito, apenas com os resmungos de Clyde e as batidas de seu coração acompanhado de sua respiração acelerada. A névoa chegava devagar próximo a Donovan enquanto a coisa surgia no mesmo ritmo, fungando cada passageiro no ônibus a procura de alguém. Foram os minutos mais longos de a porra da sua vida, o deixando a beira de um infarte e histeria. Sem saber se conseguiria aguentar o que poderia vir a seguir.

          Tweek queria apenas correr o mais longe possível e chorar muito. Porém, seu corpo não se movia e as lágrimas apenas se acumulavam em seus olhos, mas sem de fato lhe deixar em prantos como Clyde.

          Contudo, a situação ainda não era suficiente o bastante.

         

          Um som estridente fora ouvido a sua frente, uma música contemporânea tocava alegremente, preenchendo o espaço com seu ritmo e melodia, cobrindo qualquer outro barulho que pudesse existir. E claro, Tweek reconheceu o que era aquilo e de onde vinha.

          Já ouvira aquela música diversas, principalmente no acampamento em Hidecate, onde Donovan adorava tocá-la quando ele e os outros quatro da gangue estavam na cabana de madeira nos dias chuvosos. Os cincos adoravam inventar algumas atividades para fazerem quando não podiam aproveitar o dia lá fora, que sempre eram barulhentas demais, fosse pelas músicas que tocavam de seus celulares ou pelas conversas e risadas que davam.

          Um tempo que agora parecia completamente distante.

          Os olhos de Tweak marejaram ainda mais, no entanto, dessa vez as lágrimas escorreram em suas bochechas. Ele finalmente largou o copo que segurava — que nem reparara que ainda o segurava — e a levou para seu rosto, cobrindo sua boca quando finalmente quando apertou seus olhos e começou a chorar.

          Ele sentiria falta de todos os momentos juntos.

          O loiro apenas fechou os olhos e se deixou chorar em seus últimos momentos.

 

          Tweek sentia algo quente respirar em seu pescoço junto ao cheiro forte de algo podre, mas ele já não se importava mais para o que estivesse ali. Também já deixara de ouvir os soluços de Clyde, pois estava mais preocupado com os seus.

          A névoa já consumia todo o ônibus, mas o sardento nem olhava para ela, apenas mantinha sua cabeça baixa, seus olhos fechados enquanto mais lágrimas escorriam por sua face.

 

 

          — Tweek? Ei, cara, acorde! — Tweak sentiu alguém tocar seu ombro, reconhecendo também a voz de Craig.

          O sardento abriu os olhos abruptamente, com o rosto molhado e uma expressão de terror em sua face.

          Tucker estava ao seu lado — já que era o seu acento —, encarando-o preocupado, mesmo que não parecesse. O loiro encarou a sua volta, tendo alguns olhares curiosos sobre si.

          Boa parte dos estudantes ainda dormiam, enquanto poucos o observavam, uns cochichando entre si e outros com aflição. Token, no acento ao lado dele, estava a sua frente, conversando com Clyde, com a mesma expressão de Craig, enquanto Bebe, que sentara na fileira ao lado, tentava acalmá-lo também.

          — Está tudo bem? — O moreno ao seu lado chamou sua atenção — Você estava chorando...

          — Não só você, mas Clyde também. — Acrescentou Black.

          O loiro os encarou por um momento, confuso, indagando consigo mesmo o que havia acontecido ali. Não conseguia se lembrar de nada antes de cair no sono junto aos outros passageiros enquanto pensava numa maneira de se aproximar de Donovan.

          Nem mesmo Clyde sabia o que lhe fazia chorar. Em um momento, estava dormindo, lembrando-se de seu último acampamento em Hidecate, onde acabar tendo uma enorme atração por seu amigo Tweek, e simplesmente acorda em um ataque de pânico. Sem ar, chorando e soluçando horrores, todo trêmulo. Nunca que aquilo havia lhe acontecido. Na verdade, uma vez apenas, quando houve uma confusão da faculdade e ele quase fora expulso por ser confundido com uma outra pessoa. Fora a pior sensação de sua vida...

          Talvez ele estivera sonhando com aquilo?

          Provavelmente.

          — Você quer algum calmante, Clyde? — Perguntou Bebe — O motorista deu uma parada no posto, posso pedir pra ele comprar algum chá ou algo assim pra você.

          Donovan levantou sua cabeça, enxugando suas lágrimas e finalmente encarou as pessoas que tiravam sarro dele, o capitão do time de futebol chorão, porém, ele não se importou. Encarou a janela na frente do veículo, vendo o posto logo a frente, pensando se deveria ou não pedir alguma coisa. Porém, seu corpo se arrepiou assim que avistou o local. Por algum motivo o medo voltou a tomar conta de seu corpo, fazendo-o apenas balançar a cabeça em um não.

          O posto de gasolina não lhe passava uma sensação boa, talvez fosse porque nevava e a névoa começava a consumir a paisagem ou fosse porque o pesadelo de antes ainda estivesse o deixando o mal, mesmo sem saber o que sonhara.

          — E-está tudo bem. — Concluiu, encostando-se completamente no acento e fechando os olhos para se acalmar de vez.

          — Você também não quer nada? — Token olhava para Tweek, que observava um ônibus para ao lado de onde estavam, com as janelas cobertas por cortinas — pelo menos era o que parecia —, sentindo um aperto em seu peito.

          — Não, obrigado. Já estou melhor. — Desviou o olhar da janela e fitou Token, sorrindo levemente em um agradecimento.

          — O sonho foi tão ruim assim? — Tweak virou seu rosto para Craig, que parecia um pouco mais aliviado.

          Antes de Tweek dar uma resposta a Tucker, dizer a ele que não se lembrava de nada, o motorista apareceu, com a cabeça cabisbaixa, sem expressão em seu rosto.

          Token se ajeitou em seu lugar, enquanto os outros estudantes, assim como Stevens, se acomodavam para voltarem a dormir o restante da noite. Porém, Tweek sentiu sua espinha se arrepiar também, ao reparar que agora outro ônibus estava estacionado do outro lado deles, sem nem mesmo fazer algum barulho, onde os passageiros mantinham suas cabeças cabisbaixas no interior escuro do veículo.

          O ônibus deu a partida, deixando o posto já coberto pelo orvalho da madrugada, enquanto isso, o motorista — que saíra para comprar algum lanchinho — procurava seu veículo, com os alunos da universidade South Redwood, em meio à frota que se formou no estacionamento e aos poucos era coberta pela neblina prateada e espessa, desparecendo, sob manto amortalhado.