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I must stop time traveling, you're always on my mind

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Aí está uma posição difícil de se levantar.

Mãos amarradas nas costas, grilhões de ferro frio, você sente, raspando e lentamente queimando sua pele, tirando sua paciência, alimentando em pequenas migalhas aquela coisa miserável que você guarda bem no fundo dos ossos. A coisa miserável dá um pulo violento quando o tal intruso na cabana onde vocês se encontram consegue dominar a logo-será-matrona das crianças assustadas que estão lá no andar de cima, olhinhos esbugalhados esperando por um desfecho horrível. Seu peito enche de raiva, rancor, desgosto e malícia, a coisa miserável não descansa, nunca.

 

 

O agressor aponta a arma quente depois do tiro que atingiu seu peito (bala comum, ainda bem.) para ela. Uma das crianças maiores está ali, na ponta das escadas pronta para fazer algo impensado, no instinto de proteger quem a protegeu durante esses meses de fugas, corridas contra o tempo, tentativas e erros de se produzir uma fenda temporal para se habitar em paz. Todos estamos cansados dessa rotina se fugitivos. Todos estamos cansados do mundo dos humanos. Todos menos ela.

 

 

Você tenta se levantar, mas percebe que o seu corpo ficou 10 vezes mais pesado, há sangue escuro empapando sua camiseta favorita (aquela de tecido gostoso de sentir na pele, da mesma cor que os olhos dela), suas pernas falhando em obedecer os desejos do seu cérebro, rabiscando relances de o que está acontecendo. O tiro deve ter arrancado alguma coisa do seu coração. Dá até para ouvir o sangue esvaindo por lugares onde não se deveria.

 

Outro tiro alto no meio da noite, este pega de raspão na lareira, fazendo uma panela cair e assustar mais as crianças. Pelo canto do olho bom, você observa que um deles não está ali. Maldito intrometido, não é assim que se faz as coisas!! Se manter protegido é a lei maior!! A nossa lei maior. As ymbrines protegem vocês, eu protejo as ymbrines. É o que você pensa com a mente se tornando uma lentidão. Bem... Proteger apenas uma, agora... Você não quer pensar nas implicações disso para o futuro...


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As ruas de Tangier estão lotadas de gente de todos os tipos, vivas, peculiares ou mortas, tudo em uma profusão de corpos, cheiros, vozes, ritmos.

As duas semanas de recuperação são tortuosas.

Sentidos voltando em volumes diferentes. Lembranças se perdendo e sendo recuperadas aos poucos. O maldito ser miserável dando pulos mais altos em suas veias, querendo aparecer, querendo tomar conta, querendo ser quem supostamente nasceu para ser. Uma mera formalidade em sua tarefa eterna como membro da Biblioteca Peculiar.

Duas semanas e nenhuma notícia do mundo do outro lado de lá.

O mundo atrás dos portões da cidade antiga.

A cidade que não pertence, pois Marrocos não é sua morada original.

Antimaquia foi onde tudo começou, ou terminou.

A sede da Biblioteca poderia ser fora de qualquer mundo ou estar mesclado a qualquer outra cidade, mas suas estações eram protegidas por peculiares e humanos desde tempos antes da escrita.

(Aquele Stonehenge não estava ainda ali por acaso.)

 

Experimentar a nova vida em Tangiers era desgastante, muitos estímulos, poucos fatos concretos.

Entre uma conversa e outra, um rumor, um comentário, um pacote de pergaminhos ou tomos trocado, uma pista.

Tudo voltava para Gales, 02 de setembro de 1940.

Era a pista redundante de um quebra cabeças que a própria Biblioteca proporcionava para seus associados. A explicação dos tutores era que memórias demais ocupavam tempo demais nas cabeças de seus membros e quanto menos memórias de vidas anteriores, mais tempo eles tinham para cumprir seus papéis como distribuidores do conhecimento.

Mas o pensamento de Gales, naquela data específica, persistia.

Como um comichão atrás da nuca antes de fechar os olhos para a cochilada do dia para continuar trabalhando noite adentro. Como aquela sensação esquisita de familiaridade que sentia ao comer romãs suculentas e apreciar o gosto invadindo seus sentidos, um a um, até não se conter e se enfurnar nas estantes das obras ancestrais, onde som não chegava ou saía e voltava sua atenção para as memórias que estava perdendo.

 

A deportação para Antimaquia aconteceu alguns meses depois, breve contato com o monitor, uma carta de recomendação, um estalar de dedos, uma porta de 6 metros aberta e estava no salão da Biblioteca Grega. Você recebeu um biscoito redondo e com alguns confeitos esquisitos em cima ao entrar no salão. Mordeu um pedaço, gostou do que sentiu. Gales, 1940. Profundos olhos azuis-esverdeados e garras afiadas. Um sorriso tímido e uma voz imperiosa. Cheiro de romã.

 

Um grupo de novos associados vinha depressa, arrastando seus pés feridos de um conflito que não cabia para você entender (Não nessa realidade), entre eles um rosto que você percebera que não escapara de sua mente fragmentada: um homem entre os 35 para 40 anos, magrelo e loiríssimo em uma cabeleira desgrenhada e cheia de fuligem. As grossas sobrancelhas te remetiam a uma lembrança em específico:

" - Não ataque com tanta força no punho... Deixe o golpe fluir e encontrar o ponto mais fraco."

" - Nunca que vou conseguir fazer isso!"

" - Para a sua segurança e de seus amigos aqui, vai ter que aprender camarada. É questão de sobrevivência."

 

O garotinho loiro que empunhava um pedaço de madeira lascada como um facão artesanal tentava acertar a carne macia de um cervo recém abatido e pendurado do lado de fora de uma cabana isolada no meio do nada para o posterior jantar. Havia música dentro da casa rústica, crianças cantarolando algo, uma cantiga, e a silhueta esguia de alguém que sua mente não esqueceria por toda eternidade. Você não sabia onde começar a se explicar o que aquela pessoa significava, apenas que era alguém que você deveria manter protegida, como um ciclo de permanência.

 

 - Você está aqui, desgraçad@!! - o homem estragado pelo tempo e pelo conflito armado se atirou em seu pescoço, mãos trêmulas tentando torcer seus tendões, mas escorregando para seus ombros e um soco falido atingindo seu queixo com pouca força. - Você está viv@, imund@!! Como pôde fazer isso conosco??? Como pôde??? - outro membros da Biblioteca apararam a briga, tirando o homem de sua linha de vista (Ainda não recuperara o olho de vidro). - Nós acreditamos em você!! nós queríamos você junto da gente!! Você vai pagar por isso, maldit@!! Maldit@ seja!! Você vai pagar!! - a comoção logo se dissipou quando o grupo foi levado para outra ala da Biblioteca Grega.

 

Você estava paralisad@ no Hall, pés grudados ao chão, cada sentido de seu corpo gritando uma reação após aquela agressão.

Não conseguia lembrar da onde conhecia o maldito intrometido...

 

Ela avança, com um grito horroroso de se ouvir, liberando todo aquele autocontrole que te irrita muitas vezes, deixando a verdadeira face do esplêndido espetáculo: esse cara mexeu com a ymbrine errada. De tantas no mundo, ele decidiu perseguir vocês até aqui, até a essa cabana isolada no meio do nada. Um caçador de recompensas por aberações de circo que se rebelaram lá na Highlands. Jovens escravos do entretenimento doentio dos humanos. Você os despreza mais que a coisa miserável dentro de seu peito. Não mais ali devido ao ferimento de bala. Chumbo. Sim, você consegue sentir o gosto de chumbo no paladar e sangue subindo pela traquéia. Seu coração parou de bater, ótimo. A última coisa que você vê antes de fazer novamente a viagem de volta a Biblioteca é o invasor a pegando pelas vestes de dormir, a dominando com seu corpo avantajado e a força. O desgraçado nem vai saber o que vai o atingir daqui a pouco.

 

Nunca mexa com uma ymbrine enfurecida: diziam os instrutores na Biblioteca (Não deixar uma ymbrine enfurecida é um mandamento sagrado, todos sabem bem o que pode acontecer quando isso ocorre, Cartago e Alexandria que o digam, Bizâncio há rumores e certamente aquele colégio em Bucareste também). 

 

Sua cabeça tomba, o olho bom fixa na cena: como a Ymbrine claramente enfurecida se restabelece do empurrão e do tapa que recebeu, feroz como ela é, as unhas projetadas como garras e os movimentos tão ágeis de sua espécie, ela faz algo que você não pensaria que uma ymbrine faria: em um segundo tudo parece se tornar uma sucessão de micro-fatos acontecendo. Seus olhos não tão mais jovens (E um deles de vidro) para assistir o que acontece tão veloz a sua frente faz com que sua mente projete um borrão entre estar caindo do teto da Biblioteca e o mundo real a sua frente.

 

 

Antes de sentir todos os ossos de seu corpo colidirem com o piso de mármore escuro em detalhados mosaicos da Biblioteca dos Peculiares, você vê.

A ymbrine arrancar os olhos do cara como se fossem confeitos.

O gorgolejo de uma facada fatal nas costas.

O maldito intrometido realmente aprendeu as lições de como se imobilizar adultos?

 

Oh ótimo, poucos metros do chão maciço, corpo colidindo sonoramente ali onde é seu lugar de nascimento e de morte.

O eco da colisão fica no ar por alguns segundos. A coisa miserável volta aos poucos em seus ossos, em seu sangue, tonta e esgotada. A coisa não gosta de morrer, gosta de vida, da vida dos outros. A vida de uma ymbrine sob o cuidado dessa coisa miserável é como um deleite secreto que você mantém apenas para si. Todos sabem muito bem que não se mexe com uma ymbrine enfurecida, a coisa miserável sabe bem disso e morre de medo do dia em que a ymbrine em questão perceberá que a "proteção" não é exatamente assim como deveria ser.