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Reminiscente

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Ele se levantara a muito custo do sofá, afastando de si o cobertor fino de lã sintética, deixando-o de lado com indiferença, calçou as sandálias e vestiu o casaco de moletom cinza que estava jogado sobre um dos braços do sofá. No caminho para a cozinha, parou em frente à única janela da sala. Gotículas de gelo formavam-se nas beiradas e uma neve tênue caía lá fora, uma neve escura manchada de fuligem e, assim como ela, via seu próprio rosto também estampado naqueles tons frios da vidraça; uma barba rala, pálpebras caídas, um olhar turvo como o lodo depois de uma tarde chuvosa, e em sua cabeça um gorro de um azul berrante com uma estampa em rosa choque que grafava: P a P a.

Com um suspiro, deixou a imagem de lado e foi até a pequena geladeira do que seria a cozinha – um balcão com um armário de duas portas no alto, um micro-ondas e um fogão de duas bocas –, e de dentro dela retirou uma garrafa de vinho tinto, sem a menor discrição, tomou um bom gole direto do gargalo, limpou a boca com a manga do casaco, depois tampou a garrafa e a devolveu para a geladeira. Em seguida, foi até o banheiro, abriu a torneira da pia e jogou água no rosto, por fim passou um desodorante barato por todo o corpo.

Antes de sair de casa, olhou novamente pela janela, contemplando a paisagem composta por prédios baixos e além deles, trilhos de trem, a fumaça recente desaparecendo como um esfumaçar de um quadro a óleo. A vidraça o mirava de volta com o cenho franzido, mas ao invés do gorro tinha na cabeça uma cartola vermelha.

— Achei que tinha ido trabalhar. — Perguntou para o reflexo na janela.

— Você faz ideia de que horas são? Por quantas horas esteve dormindo?

— Vejamos agora... — Fez uma pausa, pensativo. — Eu sei?

Atrás de si escutou um grunhir impaciente, e então, dando um sorriso fraco, virou-se para o rapaz.

— Vamos, Polly, foi só uma brincadeira.

— Já disse, não gosto de que me chame assim, senhor Wright. — Ele massageou a têmpora. — E eu vim aqui avisá-lo que já está na hora do seu turno.

— E eu já estava de saída. — Respondeu com tranquilidade. — Aliás, antes que eu me esqueça, pode buscar a minha filha na escola? Eu não vou ter como buscá-la, hoje é sexta, e sabe como são as sextas. — Passou pelo rapaz em direção à saída, levantando uma mão em aceno. — Valeu.

— Ei! Eu também não sou seu chofer, senhor W—

Antes que o rapaz pudesse terminar de falar, fechou a porta atrás de si.

A estrutura do prédio onde morava parecia esquecida no tempo, mofo subia pelas paredes como teias de aranha, as enegrecendo, um cheiro azedo de amônia transpirava do rodapé evaporando no ar úmido, as tábuas de madeira das escadas rangiam a cada passo que dava. Até mesmo os portões que davam para a rua pareciam esquecidos pelo vigia que se achasse de plantão, geralmente tão embriagado para sequer lembrar que tinha um trabalho a fazer.

Phoenix tão pouco ligava para a espera, as mãos bem fundo nos bolsos do moletom, assistia aos flocos caírem do outro lado em câmera lenta, os poucos transeuntes, todos bem agasalhados, sempre olhando para frente. Quando finalmente foi notado e o portão se abriu, ele mesmo só pode seguir adiante, virando à direita e caminhando sem pressa por aquelas ruas que àquelas horas já iam ficando menos movimentadas. Do outro lado passava os trilhos de trem, os mesmos que via pela janela de seu escritório, como também chamava sua casa, um excêntrico local de trabalho para artistas independentes que não podiam se sustentar sozinhos, assim como o rapaz de a pouco.

O seu nome era Apollo, vinte e dois anos, fazia shows de mágica no bar Maravilha, duas quadras do apartamento. Recebera-o ainda jovem, criava o rapaz como criava a sua própria filha, ela também chegou a mostrar interesse pelo trabalho de seu meio-irmão, muitas vezes pediu que a deixasse ficar no bar durante os espetáculos e Phoenix não protestava, não quando Apollo estava lá, talvez não gostasse de admitir, mas ele era uma figura mais responsável do que a si próprio para olhar pela pequena Trucy.

De repente, escutou um som se aproximando com certa velocidade à sua esquerda, levantou a cabeça e pode avistar o trem vindo ao longe, uma máquina imponente, o orgulho da pequena cidade. Parou no meio do caminho para vê-lo passar, a fumaça de agora se juntando ao resquício que ficara, o som agudo e mecânico do ferro contra o ferro, além dos trilhos ficava um campo extenso que agora era coberto pelo manto cinza-esbranquiçado.

Iris

Soava a brisa.

Iris

Cada vez mais alto.

Iris

IRIS!

Phoenix arregalou os olhos em pânico, tirando com pressa as mãos dos bolsos do moletom, suas pernas falhando, mas dobradas como se estivesse pronto a disparar. Ele a vira, uma moça de cabelos compridos e negros, duas mechas trançadas passavam pela sua cabeça e desciam com leveza se juntando ao outros fios, ela segurava um guarda-sol com rendas tão delicadas e sorria para ele, ali, no extenso campo após os trilhos.

Ele sentia vontade de correr até ela, não via mais nada, não pensava em mais nada, seus ouvidos gritavam o seu nome, seus olhos refletiam o seu olhar singelo, seu coração batia mecânico, ferro sobre ferro, um som metálico cada vez mais alto, mais alto, mais–

Sentiu um aperto forte puxando seu pulso para baixo.

— Ei! Você! Tá querendo perder a vida?

Virou-se para trás e deu de cara com a expressão séria, desconfiada, de um dos guardas da estação.

— Perdão, eu pensei ter visto alguém, mas me enganei. — Passou a mão sobre o gorro, sem jeito.

— Vocês são todos iguais, deviam dar mais valor à vida.

O guarda o largou, parecendo não prestar atenção no que falava e foi caminhando de volta para o seu posto com um pouco de relutância, de vez em quando ainda se virava para Phoenix certificando-se de que ele não causaria alguma comoção.

Não tinha intenção de causar nada, não havia se dado conta de que a Iris que vira só estava na sua cabeça, ela não existia mais entre eles, repetira isso para si mesmo incontáveis noites, ela não existia mais entre eles, mesmo a pequena Trucy tinha forças para lidar com a dura realidade, ele sequer conseguia deixá-la descansar em paz, não passava do primeiro estágio, ainda negava e seu único consolo era o trabalho.

Ficava num restaurante conhecido da região, um típico de culinária russa: Clube Tigela de Borscht. Ao entrar, as pessoas eram recebidas pelo clima da Mãe Rússia, mesas com toalhas coloridas, uma lareira sempre acesa ao fundo cheia de bonecas matryoshka e decorações na prateleira, retratos com paisagens locais, era um ambiente simples como a cabana de um mujique e o recebia de braços abertos como uma matrona de família com seu avental bordado e pano na cabeça.

Apenas uma peça destoava de todo o ambiente. Um piano de cauda no centro, dividindo dois espaços, as mesas do restaurante de um lado e o pequeno bar do outro para clientes que queriam apenas petiscos e bebidas para descontrair com os colegas do trabalho.

O horário em que Phoenix chegou ao restaurante era dessa leva de clientes, a parte das mesas ficava fechada por uma faixa e as únicas luzes acesas eram as do bar.

Dobrye notch, novato. Está atrasado.

Uma jovem de volumosos cabelos loiros usando um pano vermelho na cabeça e vestindo-se como um dealer de jogatina toda de preto aproximou-se de Phoenix.

— Como vai o movimento, Olga?

— O usual, os beberrões ainda não chegaram, mas aqueles ali. — Fez um discreto aceno de cabeça para sua direita, onde ficava a bancada do bar. — Aqueles ali querem uma diversão extra.

— Então, melhor não deixá-los esperando. — Phoenix respondeu, se sentando no banco de frente ao piano.

O grupo que se achava no bar parou a conversa e todos viraram as cabeças para trás com um ar de expectativa. O homem que Olga carinhosamente apelidara de “novato”, ainda que estivesse na casa há mais de sete anos, abriu a tampa do instrumento e pôs-se a tocar, no instante seguinte o grupo caía na gargalhada.

— Esse é o novato para vocês. — Dizia a garçonete com as mãos na cintura.

Ele não se importava com a opinião dos clientes, bastava-lhe agradá-los e ganhar sua quantia da noite. O que fazia de seu trabalho um conforto era a distração que tocar o piano dava à sua mente, a total concentração na tarefa, nas teclas, nos sons. Phoenix sentia-se distante e nada mais importava, apenas aquele momento em que suas mãos moviam-se para dar vida às melodias.

— Bonequinha russa, vê para a gente mais uma morena.

— Só uma? As apostas estão baixas, maltchik moy. Não querem uma tigela de borscht e um pedaço de pão para acompanhar? — Olga disse forçando seu melhor sotaque russo e com uma inocência que só garantiu que mais clientes aceitassem a oferta. — Mais uma tigela para os senhores, então.

— Você ficou sabendo do Smith? — Começou um dos homens na bancada, virando-se para os colegas com a boca cheia de pão.

— O que tem ele?

— O Brushel me contou que foi achado morto perto da estação de trem ontem.

— O Smith? Eu conheci o cara, ele não é do tipo que faria uma coisa dessas.

— Escuta bem. Ele foi achado morto como uma pedra de gelo!

— Quantas você já bebeu? — O amigo arqueou uma sobrancelha.

— Eu tô dizendo! Nas palavras do Brushel: “andarilho é achado congelado na neve e choca a polícia”, fecha aspas.

— E tu acredita nesse jornalista sensacionalista? Eles exageram tudo quanto é caso para ganhar leitor.

— Eu tô dizendo! — E nesse momento pedaços de pão com suco de beterraba voavam até o colega. — Shadi Smith foi-

A porta do restaurante se abriu, trazendo o assovio da nevasca, todos pararam o que faziam, inclusive o pianista. Um único freguês adentrou o recinto, sua aparência tornando-se outro elemento que destoava do ambiente do bar. O homem vestia um terno elegante e um par de óculos adornava seu rosto.

Ele não parecia ser da região, pensou Phoenix, se fosse adivinhar chutaria o sul costeiro do país, o cabelo loiro platinado, a tez morena, parecia uma figura vinda de Nova Jersey ou Califórnia. Contudo, sua postura calma e seu leve arquear dos lábios transpareciam a Phoenix uma sobriedade que só acharia pelas redondezas de sua cidade.

O homem parou ao seu lado, puxou uma cadeira com encosto e ficou a encará-lo como quem dissesse: vamos, mostre-me do que é capaz. Phoenix não dissera nada, apenas voltou a tocar a coletânea que conhecia, a partitura que sempre ficava exposta à sua frente, mesmo que no fundo não a usasse, estava lá como todos os enfeites do restaurante.

Ele cruzou as pernas com a mesma elegância com que entrou e ficou a escutar o som disforme que Phoenix produzia pelo teclado do piano. Uma melodia que entrava alta como um harmônio, penetrava em seus ossos e cravava um agudo gélido, que ficava de pontada em pontada a pinicar sua alma. Phoenix olhou de relance para o lado, a mão pausando numa última tecla, um som grave se perpetuando pelo bar. O homem tinha um sorriso cálido, sentia-se perto de uma aconchegante lareira, seu olhar à brasa faiscando em vermelho por detrás das lentes dos óculos. Phoenix tirou a mão do piano, puxando o gorro por cima dos olhos e abaixando a cabeça com ares espertos.

— Algum pedido, senhor?

— Por favor, não dê importância a minha presença, muito me agrada a vida que sua música dá a este ambiente. Um homem de talento não devia estar num lugar tão distante como este. — Ele inclinou a cabeça ligeiramente para a esquerda, os cachos trançados acompanhando o movimento.

— O senhor sabe, minha música não é de graça.

— Eu sei. — Ele respondeu, abrindo ainda mais um sorriso e com toda tranquilidade retirou um envelope de dentro do bolso do paletó, inclinando-se sobre o pianista, colocou-o em seu colo.

— Não tenho pressa, estarei a noite toda aqui. — Sussurrou ao pé de seu ouvido, o hálito quente tingindo a ponta de sua orelha de carmim. — Toque-me sua melhor canção, Phoenix Wright.

Deveria ter perguntado como o homem sabia seu nome, todos no bar só o chamavam pelo apelido que Olga lhe dera, apenas em uma ocasião ela o chamara de Phoenix, e isso foi em seu primeiro dia como pianista no restaurante, fora isso nem os que apareciam com frequência sabiam como se chamava. Mas ele não perguntou, voltou a tocar como se nada tivesse acontecido.

Voltou a tocar como se não tivesse visto Olga dirigindo a ele um semblante preocupado.

 

X X X

 

Aos poucos o movimento foi diminuindo, grupos saíam em algazarra gritando, alguns se segurando nos amigos para não caírem, poucos ainda restavam, e desses, os que já estavam tão alcoolizados que dormiam ali mesmo em cima da bancada.

Como prometera, o homem permaneceu ao lado do pianista durante todo esse tempo, quieto, apreciando a companhia. Ele não parecia fazer o pouco caso que sua clientela costumava fazer, estava genuinamente ali, escutando com atenção, toda sua atenção.

— Como se chama? — Perguntou mais tarde, na saída, quando estavam só os dois na ruela dos fundos do restaurante.

— Vê mesmo necessário essas formalidades? Não basta saber o que está no envelope que lhe dei?

Phoenix levantou as mãos para o alto.

— Calma lá, senhor importante. — E deu um riso fraco.

Ele havia guardado o envelope no bolso do moletom, pensava em abrir quando estivesse em seu escritório. Não teria sido a curiosidade momentânea, mas o jeito como o homem dirigiu-se a si, e só por isso rasgou a parte de cima sem nenhum cuidado.

Em seus pés caíram maços de cédulas, notas altas.

— O quê? — Estava confuso.

— O pagamento pela noite. Pensei que tivesse dito que sua música não era de graça.

— Como se chama? — Perguntou uma vez mais, o gorro cobrindo seus olhos.

— Se insiste. — O homem fez uma breve pausa, ajeitando os óculos no rosto. — Eu me chamo-

Iris

— Como? — Sua voz tremia.

— Kristoph Gavin. — Respondeu com um sorriso.

E, por um momento, Phoenix achou ter visto um fantasma.

— Eu tenho que ir, foi um prazer conhecê-lo, o senhor será sempre bem-vindo no Clube.

Ele virou-se sem ao menos esperar uma resposta, caminhando a passos apressados nas ruas pouco iluminadas. Não tinha consumido nenhuma garrafa de vinho durante o serviço, ainda assim sentia-se tonto, o piso úmido de neve também não ajudava, as luzes passaram como um flash rápido por si e, então, algo reconfortante segurava em sua cintura e nuca.

— O prazer é todo meu, Phoenix Wright.

Como sabe o meu nome?

Não conseguiu perguntar, a consciência foi o deixando até perder os sentidos.

 

X X X

 

Ela apareceu num tempo de nevasca como aquela, sem nenhuma veste adequada para se proteger do frio, caíra em frente à porta de seu escritório, na época, uma firma de advocacia. Ele a socorrera assim que a avistou, preparou um chá quente e a envolveu em vários cobertores.

Ela agradeceu com o sorriso mais doce que já presenciara, o primeiro nome que lhe dera foi Dahlia. Ele pediu, implorou, que passasse um tempo com eles, ali também era uma moradia, ela precisava se recuperar e não daria nenhum trabalho a mais, ao contrário, seria um prazer tê-la como hóspede.

Dahlia riu como um anjo.

Apesar da insistência, sua chefe não pareceu ser da mesma opinião, ele tentara a convencer com todos os argumentos, mas nada tirava dela a impressão de que a jovem não era o que aparentava.

Com uma dor no peito, ele deu a notícia à Dahlia.

Ela se foi, deixando um vazio imenso no escritório.

Durante meses, só conseguia suspirar pensando em sua Dolly, era patético para quem olhasse de fora, perguntava-se onde estaria, se estava bem, ao mesmo tempo nutria um ressentimento com a decisão de sua chefe.

Até o dia que a confrontou sobre o assunto.

“Me escute, Phoenix. Ela não é daqui. Aquela mulher não quer o seu bem.”

“Por que diz isso? Você não a conheceu como eu a conheci.”

“Ela estava o enganando.”

“E tem provas? Me mostre as provas!”

Mia não tinha nenhuma naquele momento, ela só tinha a intuição, e ela própria sabia que isso era inútil.

A prova veio naquela mesma noite quando a campainha tocou no meio da discussão. Os dois pararam e se viraram para a porta, Phoenix se dispôs a abri-la.

E, assim que o fez, parou atônito.

“Dahlia?”

Ela estava diferente, emitia uma aura estranha, seus olhos faiscavam e seu rosto estava pálido como a neve.

Sem dizer nada, indicou que ele se afastasse, foi até a sua chefe, e com um sopro forte que vinha do lado de fora, Mia Fey caiu no chão, desmaiada.

Phoenix correu ao seu socorro, mas era tarde, ela não tinha mais pulso, sua pele estava azul-arroxeada indicando um estado avançado de hipotermia.

“Como? Como foi quê? Você! Você fez isso!” Virou-se com lágrimas nos olhos.

“Não mencione a ninguém o que aconteceu aqui e pouparei sua vida.”

Foi a resposta de Dahlia antes de desaparecer.

 

X X X

 

Phoenix abriu os olhos com certa dificuldade, levantou-se, afastando o cobertor de lã e foi até a cozinha, passando a mão pelos cabelos bagunçados, sua cabeça ainda latejava.

— Não disse para esperar na sala? A água ainda está fervendo.

— Apollo? É você? A Trucy já voltou da escola?

— Refere-se ao rapaz de capa vermelha? Ele saiu faz alguns minutos.

— Eu pedi para ele mais cedo… espera.

— Alguma coisa de errado? Ah, claro, que modos os meus. Depois que desmaiou perguntei à senhorita Olga Orly que me indicasse onde morava, o rapaz de capa vermelha foi muito receptivo, permitiu que eu entrasse, e assim retribuísse o favor.

— Favor?

— A noite agradável que me proporcionou.

Você já esqueceu, Feenie?

— O piano? É o meu trabalho, não tem nada de mais naquilo.

— Muito pelo contrário, é fascinante a quantidade diversa de emoções que consegue colocar em tantas canções repetitivas.

Eu voltarei, cuide de nossa Trucy.

— Primeira vez que notam.

Kristoph se aproximou, pousando a palma da mão sobre seu ombro. Com a mesma singeleza, deixou um beijo rápido em seus lábios.

Ao fundo, um apito se fez ouvir.

— Deve ser o bule. Quanto de açúcar?

— Você sabe… — Veio a resposta com a hesitação de quando se acaba de ter uma epifania. — Naquela noite, era uma nevasca como essa, Iris, era esse o nome que me deu, mas não era você, a mulher que me roubou tudo…

Phoenix levantou a cabeça, os olhos arregalados dançando de um lado ao outro.

— Sejamos sensatos. Primeiro, nos acalmemos com um pouco de chá, depois escutarei a sua história. Que tal assim?

— Tem razão, onde eu estava com a cabeça? Deve ter sido só impressão minha. — Desabou no sofá, tampando o rosto. — Obrigado por tudo, Kristoph.

— Não tem por que se sentir assim, aqui. — Ele deixou a caneca em cima da mesinha que ficava em frente ao sofá e sentou-se ao lado de Phoenix, cruzando as pernas com elegância.

Phoenix deixou que sua cabeça pendesse até encostar no ombro do outro homem, um suspiro deixando seus lábios.

— Eu era apaixonado por ela, sabe. Eu achava que ela sentia o mesmo. — Um riso vazio. — Eu estava enganado. A única que me amou de verdade me deixou, a mim e a minha filha.

— Sinto muito escutar isso.

Kristoph não se moveu um instante, permaneceu impassível com as mãos sobre o colo. Phoenix notara, mas nada dissera, continuou com sua história.

— Ela se chamava Iris, era linda, tinha um jeito meigo e maternal de lidar com as pessoas. Em um dia de nevasca como esta, ela estava tricotando um casaco para nossa bebê, foi quando lembrei de uma tragédia que aconteceu há anos atrás e resolvi contar a ela. Assim que eu terminei de falar, ela virou o rosto para mim e disse: eu o alertei que não contasse sobre mim a mais ninguém, mas pouparei sua vida em prol de nossa Trucy.

— E, então, ela se levantou e foi embora de nossas vidas.

— Ela não disse quando voltaria?

— Não. Ela não vive mais entre nós. Iris, não, Dahlia era um espírito.

De repente, Phoenix sentiu uma força contra o seu peito o prensando contra o sofá, e novamente lábios pressionando contra os seus, mas dessa vez o beijo não tinha a inocência de antes, era de uma ferocidade luxuriante.

— Krist-

Tentou pará-lo, afastá-lo de si, não parecia o mesmo homem calmo de antes, aquela necessidade quase animalesca.

Arrepiou-se ao sentir um toque frio adentrando o seu casaco, e um alerta de pânico disparou em sua mente.

Os eventos seguintes se passaram como um filme distante. A porta se abrindo, Apollo entrando com a Trucy numa conversa animada, o breve olhar de Kristoph para a pequena, antes de sumir de sua vida uma última vez.

E a caneca fria de chá em suas mãos enquanto presenciava tudo do sofá da sala, enrolado no cobertor fino de lã sintética.