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Seguir a corrente

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Abriu os olhos, o mesmo quarto estragado pelo tempo, pelo desastre, pela inundação.

O que raios aconteceu enquanto estava dormindo os sonos dos justos?

Desorientada pelos últimos flashes de sonhos inquietos, sentou na beirada da cama desarrumada, de lençóis já amarelados, uma coberta largada ao chão. Respingos bem perto de seu rosto, o chiado de uma tempestade costumeira lá fora, chuveiro ligado, encanamentos rangindo, uma voz sonolenta ao seu lado.

- Já é de dia? - perguntou a voz sem corpo feito. A bagunça em cima da cama enorme não denunciava nenhum corpo para produzir uma voz como aquela.

- Noite ainda. Descanse mais um pouco... Logo o dia chega. - disse apenas por dizer. Não sabia o que estava falando ou com quem. Parecia tudo tão... Normal.

O chuveiro continuava, a tempestade também, trazendo pedaços de escombros da cidade inundada, algo bateu na vidraça da única janela. Desorientada e cansada de corpo dolorido, levantou-se devagar. Foi até onde a vidraça trincara com a força do objeto lançado. Um peixe. Uma versão enorme de um dourado, ainda a braquear por poucos segundos de vida fora da água, sufocando em seu arfar inexistente. Debatendo barbatanas, escamas lustrosas e os olhos fixos aos seus. O chuveiro parou de funcionar, os encanamentos cessaram os rangidos roucos, a voz na cama agora saía do banheiro com o corpo feito de uma beldade acima de qualquer ser humano.

- Gostaria de verificar a biblioteca hoje. Vamos?

- Sim, sim... - investigando o último debater do peixe dourado amaldiçoado.

- Você conseguiu dormir direito? Parece tão cansada...

- Apenas sonhos embaralhados. Me cansam esses sonhos...

- Café da manhã? - apontando para o peixe em suas mãos, já livido da morte prematura.

- Creio que sim. - abocanhou o primeiro pedaço sem vontade nenhuma, mas levando aqueles olhos fixos nos seus.

Amanhã seria um dia melhor.

Nada mais de noites intermináveis e sonhos cansativos.

 

A cidade devastada pela inundação se tornava mais agitada após certa hora, como se todos que viviam ali fossem convidados secretamente para algo que jamais entenderiam do que participavam. Jovens e velhos. Não havia crianças. Apenas sobreviventes de uma catástrofe que não mais lembravam. Reunidos na praça central, perto da encosta para a descida das ruas imergidas, todos esperavam alguma coisa, qualquer coisa. Alguns moradores estavam em estado eufórico de humor, olhos fundos, rostos macilentos de comida nutritiva escassa, os mais velhos com crostas nos braços e subindo os pescoços enrugados.

A comoção durava alguns minutos até o barulho inconfundível de um rugido abafado por uma imensa parede intransponível. Vindo de muito muito longe. Isso silenciava a todos. O anúncio daquilo que tanto esperavam vinha com o prelúdio de cardumes caindo do céu. Um céu de grossas nuvens azuis-esverdeadas de centenas de milhares de metros acima de suas cabeças, o silêncio e a queda dos peixes, milagrosamente vindos dos céus. Pessoas se acotovelavam pela oferenda, levantando as mãos, pegando os peixes que caiam frescos em seus rostos, ao chão, em redes feitas de cobertas remendada, tambores de ferro, caixas de madeira. Sobrevivendo com o mínimo que o evento dava, essa era a rotina da comoção na praça central.

A praça se enchia de alegria, euforia, gritos e entusiasmo, assim como pequenos focos de violência desmedida, empurrões, disputas desnecessárias. Um empurrão mais forte a levou ao chão, de cara no pavimento de pedras irregulares e lisas como de sua antiga rua. Não havia pego nenhum, barriga cheia pelo dourado da janela, úmida por ter caído em uma poça irregular. O cheiro de algas e animais marinhos em decomposição, ervas finas e hortelã encheu suas narinas, o queixo dolorido além das expectativas. Os peixes ao seu redor, disputados por moradores eufóricos, excitados em seus gritinhos de pura emoção pela oferenda. Pés muito perto de sua cabeça e corpo, tentou se proteger se encolhendo, estabelecendo o equilíbrio aos poucos, nada adiantava. 

O rugido abafado subia de nota aos poucos, como se viesse em ondas, lento e longe. Como uma trombeta ancestral ecoando por milênios até atingir aquela parte da cidade.

Tentou se levantar sozinha novamente, mas recebeu outro golpe nas costas, seguido por um puxão violento em uma de suas pernas. Algo viscoso pingou de seu casaco para o chão e sujou seu rosto machucado. Algo gosmento e arroxeado com pequenos filamentos vermelhos atraiu sua atenção, olhos semicerrados, braços acima da cabeça para proteção, o líquido viscoso manchando o pavimento e sendo drenado pelas frestas entre as pedras lisas tão cheias de limo, salgadas no odor.

Aquilo nunca havia acontecido antes.

A comoção era ritualística, seguir com a corrente, esperar o rugido, levantar as mãos para os céus, ficar emocionada por razão alguma, pegar os peixes, ouvir novamente o rugido, seguir com a corrente de volta para as casas mofadas e parcialmente destruídas. Repetir a mesma rotina no dia seguinte.

O grito desesperado ecoou na praça central, a comoção agora urrava de horror em pânico generalizado, em um frenesi perigoso para quem estava ainda no chão, atordoada pelo golpe forte nas costas. O gorgolejo foi de um morador ao seu lado, sendo jogado ao chão por força invisível e arrastado pelo pavimento, gritando desesperado, unhando o chão como podia até esfolar dedos e arrancar unhas. Seu corpanzil deslizava como um saco de batatas sem peso, içado por algo invisível. Os gritos aumentaram, o pânico atingiu o nível máximo com moradores arrancando seus próprios cabelos, ferindo olhos e mordendo os próprios lábios em aflição, espanto, loucura. Além de peixes, pedaços de algo caíam por todos os lados. Não saberia dizer o quê com precisão, outra tentativa infrutífera de se levantar e escapar dali, era o que seu corpo dolorido estava gritando para fazer.

Achou forças para virar o corpo para cima e olhar bem para o que acontecia. Sua visão foi tapada por mãos geladas, mas macias. Lábios que chegaram perto dos seus em hálito de hortelã e ervas.

- Não é dia ainda, minha querida. Fique comigo e estarás protegida. - a rima fez com que sua espinha tivesse um espasmo involuntário, como uma reação alérgica instantânea. De olhos ainda cobertos, lábios perto dos seus, recebeu um pequeno afago na cicatriz perto da orelha esquerda, onde a velha pressão da enxaqueca a atingia em cheio desde criança.

Sentiu novamente as sessões de pressão no crânio voltarem como folhas de papel sendo passadas aos poucos para refrescar a memória dolorosa e esquecida. A pressão foi aumentando ao ponto de sentir seus olhos saírem das cavidades oculares, os nervos aflorarem em lugares onde não deveriam se erguer, a eterna agonia de precisos 5 segundos contados por relógio de bolso do enfermeiro chefe do asilo onde passou sua adolescência após o furacão que destruiu sua cidade.

Qual era o nome mesmo?

Do furacão?

Ao longe o rugido deu lugar ao rangido dos encanamentos, o chiado do chuveiro, a tempestade ruidosa lá fora. Abriu os olhos, o mesmo quarto, a mesma desorientação, a cama bagunçada, um corpo ao seu lado, tão abraçado ao seu que por um instante achou que era extensão do seu.

- Já é de dia? - a voz sonolenta, rouca e localizada ao lado de seu pescoço alisou sua pele eriçada pelo sonho cansativo, repetitivo e esquisito. Decidiu não responder, virou devagar na cama de solteiro e se deparou com um rosto redondo, amassado entre o travesseiro e o lençol amarelado de cheiro de ervas finas. Apenas outro sonho esquisito. Apenas mais outro sonho esquisito.

 Sentiu uma de suas pernas sendo presa pela perna da beldade com quem dividia o quarto e os estudos na notória escola preparatória do centro de estudos biológicos da Universidade Miskatonic. Apenas um sonho esquisito. Tinha que se concentrar nisso. Os olhos esverdeados da companheira de quarto se prenderam aos seus, uma pergunta sem resposta ali, fixa e intimidante.

- Outro sonho esquisito? - a companheira murmurou. Fechou os olhos e respirando pausadamente, deixou uma lágrima escapar.

- Mais outro sonho esquisito.