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To Good At Goodbyes

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            Meu indicador deslizou pela borda da única taça que era usada sobre a mesa, observei atentamente o vinho tinto que esquentava mais a cada segundo da espera. Na realidade, não era um reflexão sobre isso, é o ato de quando fixamos o olhar em algo especifico e o cérebro trabalha ao redor de qualquer outra coisa além.

            Eu descruzei as pernas e apoiei os dois pés descalços no chão, permitindo-me sentir o frio do piso incrivelmente limpo, desfazendo a postura ansiosa e dando lugar àquela que se encaixava perfeitamente ao meu papel nessa história. Minha mão trêmula agarrou a taça e eu bebi o vinho em dois goles quase dolorosos, deixando o álcool doce queimar mais que os meus olhos queimavam pelas lágrimas que borravam a minha visão.

            A mesa estava posta, dois lugares, velas acesas e a porcelana combinava com cada talher de prata. Mas, o jantar estava frio como tudo o que rodeia a minha expectativa. Não era primeira promessa quebrada, não seria a última se o meu amor próprio permanecesse coagido morrendo de medo de ser esmagado pelo o amor por outra pessoa que se alimentava de pura desilusão.

            Servi mais uma taça quase cheia, eu usei o garfo para capturar um pequeno tomate que se perdia em uma salada fresca e bonita, mesmo que as folhas estivessem murchando. E enquanto isso, eu também chorei.

            No fundo eu quis que ainda doesse como antes, que ainda fizesse cada músculo do meu corpo tremer pela raiva, queria andar pela casa jurando a mim mesma que era a última vez até que teus passos fossem ouvidos e bastasse só te olhar para que voltasse a estaca zero. De vez em quando os meus olhos ainda te enxergam como o garotinho arrogante e bonito do colégio, outra vezes eles te assistem como o homem que tinha o meu coração na palma da mão. E você sempre soube disso.

            De repente, a taça parecia pouco demais, eu empurrei para longe e bebi direto da garrafa, talvez se me embriagasse seria mais fácil ligar a lareira e colocar pra queimar todas as tuas roupas, principalmente aquelas em que o perfume de outra pessoa estava impregnado. Eu queimaria tudo e você teria de andar nu e se envergonhar pela traição, mas no fundo, você se sentia culpado?

            O jantar estava frio, as velas derretiam e a cera escorria para a mesa, eu fiquei de pé e peguei prato por prato, os deixando cair no chão e quebrar em menos pedaços do que você costumava me quebrar todos os dias. Foda-se a porcelana chinesa dos teus pais, eu só queria que alguma coisa na casa fizesse barulho para encobrir o meu choro, os meus ofegos e soluços. Eu havia me tornado uma bagunça que você sempre escondia para baixo do tapete.

            Sorrindo do teu lado no porta-retratos sobre a estante da sala de estar, dando o necessário para que o relacionamento fosse classificado como perfeito, demonstrando um amor escondido nas pequenas coisas que todos ao redor aceitavam e repetiam pra mim. Você é tão sortuda, Sakura. Oh, ele demonstra amor de uma forma diferente. Sasuke não é do tipo que se declara. Não, não é isso. Você não é do tipo que me ama.

            Enquanto eu passeio pela casa, borrando a maquiagem bem feita e acabando com a garrafa mais cara da sua maldita adega, penso que foram necessários cinco anos até que tudo ruísse. Sabe, eu poderia suportar um pouco mais se não tentasse sozinha, mas a pior coisa sobre a sua displicência é que sequer consigo te odiar e talvez isso seja o motivo da minha perda de sensibilidade quando se trata da decepção. Talvez eu nunca tenha esperado muito. Talvez você não seja capaz de me dar ao menos um pouco.

            Sentada na cama que compartilhamos me perguntei os motivos de você nunca ter apenas parado de fingir. Deve me abaixar estúpida, deve me achar burra... Ou apenas manteve o carinho infantil e a responsabilidade de perpetuar o meu conto de fadas intacto. Não acho que preciso ser salva de uma torre, eu acho que prefiro continuar nela.

            Derrubei uma gota de vinho nos lençóis brancos, arranhei com unhas afiadas o tecido macio, eu queria tanto rasgá-los e queria tanto que isso me fizesse esquecer todas as vezes que afundei perdida no prazer do teu corpo. Das mãos frias, do aperto dos braços, dos gemidos contidos e a satisfação que eu nunca conseguia ler nos teus olhos. Por um tempo eu me culpei por isso, o resto dele eu culpei você pelo silêncio gélido depois do orgasmo raso.

            Eu amei tanto amar você e agora eu odeio que o meu coração reaja tão submisso a sua existência. Eu amei precisar de você, amei a necessidade pulsante pela tua atenção e esqueci que isso não incumbia à reciprocidade. Estava tudo bem enquanto os meus sentimentos fossem o suficiente para nós dois, o meu castelo de areia parecia tão seguro.

            Amo você Sasuke e por isso você deve estar comigo.

            Longe de mim, bêbada ou sóbria, pedir desculpas pelo egoísmo, eu não acho que deveria se você não faz o mesmo. Você não vai fazer.

            Passou da meia noite, meu lingerie não está mais tão bonito como antes e eu encaro o meu reflexo inteiro em um espelho. Não há absolutamente nada que eu não adore sobre mim, sobre o meu corpo. Eu ainda estou quente, eu ainda estou queimando e talvez eu apenas seja demais para a sua frieza. Derreter no mal sentido. Ainda há curvas que traçam um rumo agradável. O cara do banco me canta sempre que vou lá e eu flertei com Ino mais vezes do que posso contar, mas eu não posso estar arrependida, não me permito estar. Não quero. Acho que faço por despeito e isso não é baixo, é apenas a minha humanidade gritando por cima da discrição de uma mulher casada.

            Por que cada vez que você me machucava, menos eu chorava. Mais baixo eu queria ir.

            Se eu choro agora é pela decisão tomada porque dói como um inferno abrir mão do que mais se ama ou amou por tantos anos e no meu caso, por todos os anos da minha vida. Vez em quando tenho a impressão que nasci amando o que você representava e eu ainda amo. Olhem para mim agora; eu tenho Sasuke Uchiha atado a uma aliança de ouro branco, eu o tenho sobre a mesma a cama e suas roupas se misturam as minhas no closet organizado.

            Eu tenho tudo que objetivei, mas não me cabe à felicidade, então eu a fingia.

            Não há chances para ela entre nós dois enquanto formos dois, a individualidade aguarda pelo final feliz do que nunca deveria ter começado.

            Tudo em mim queria desabafar quando a porta da frente foi aberta, quando seus passos suaves anunciavam a aproximação e eu vesti o primeiro roupão que achei como se estivesse assustada, como se você fosse um estranho e provavelmente a minha decisão tenha mudado à pintura, reescrito o teu personagem no roteiro.

            Você é como um estranho agora.

            — Sakura?

            Daí, então, eu sorri para o meu reflexo como se o mundo todo tivesse sido revirado no eixo, eu sorri e chorei enquanto ainda encarava-me no espelho. Mais uma vez eu me via aguardando a virada final em que apenas o meu nome na tua voz mudasse toda a minha cena dramática, mas o roteiro deveria seguir diferente.

            — Aqui.

            E o closet ficou menor com a sua presença, com os teus passos cansados e as roupas quentes que uma a uma foram separadas para lavagem. Sequer olhou pra mim, mantendo a cabeça baixa e eu implorei aos céus que fosse pela culpa, pela vergonha. Nada disso cabia em você.

            — Eu quero o divórcio, Sasuke.

            A primeira reação em cinco anos, o teu corpo alto e bonito se virou para mim, os teus olhos escuros me pescaram com facilidade pelo reflexo do espelho, mas eu continuava sufocando o meu coração estúpido que clamava para que eu voltasse atrás.

            — O que disse?

            — Eu quero o divórcio. – repeti mais para mim do que para você.

            — Sakura. – observei você se recostar as portas de um dos armários, a ausência da camisa de linho negro estava expondo a pele alva, os braços fortes e atentando a minha certeza do fim. – Por que isso agora?

            — Essa pergunta é tão retórica.

            — Sei que deveria ter chegado as nove para o jantar, eu fiquei preso no trabalho, mas podemos recompensar isso amanhã...

            — Não quero recompensa nenhuma, eu quero o divórcio.

            — Quer o divórcio porque me atrasei para um jantar?

            A minha risada assustou você.

            Assustou a mim também e me fez curvar o corpo enquanto o riso me tragava o ar, enquanto as lágrimas o acompanhavam como a droga de uma pintura clichê. Eu ria da tua falsidade e chorava pelo mesmo motivo. Eu ria e chorava porque metade de mim te odiava e outra metade odiava te amar na mesma medida.

            — Por que está rindo?

            — É o Naruto, não é?

            Você desviou o olhar, mas eu sempre soube.

            — O que tem o Naruto?

            — Você estava com ele? Você esteve com ele todas as noites que não esteve em casa. Não é uma pergunta, eu não acho que precisamos tratar disso como a descoberta do século. Eu fingia não notar os olhares e fingia que não machucava quando o teu riso era direcionado a ele, quando os toques escancaravam o flerte indiscreto.

            — Sakura...

            — Vai dizer mais uma vez que eu estou ficando louca? Por Deus, Sasuke... Você nem goza quando transa comigo e eu sei que não é em mim que você pensa quando me chama de amor.

            Não houve respostas, nenhum de nós dois as queriam.

            — Eu sinto mu-

            — Não diga que sente muito, no fundo você não sente. Eu não quero que você sinta pena de mim, eu sou boa demais pra isso. Quanto mais você me machuca, menos eu choro, a cada vez que você me deixa pra ir até ele, mais rápido minhas lágrimas secam. E, Sasuke, se você for embora, menos ainda eu vou te amar. Nós dois não temos chance nenhuma, precisei saber do quanto é amargo pra dizer que não quero, não é sequer triste, é só a verdade. Dizer que acabou vai soar clichê porque não acabou agora, não é? Acabou no dia em que ele voltou, acabou quando você o viu. Acabou no exato momento em que começou. – retirei a aliança em que teu nome estava cravado e precisei me aproximar para entregá-la na palma da tua mão. E você aceitou, porque não era contra o fim, só era covarde demais para exigi-lo, então eu seria a corajosa. – A pior parte é não conseguir te odiar.

            — Vou ficar no quarto de hospedes e pela manhã, quando você não estiver bêbada, conversamos melhor.

            — Você vai embora. Eu quero que você saia da minha casa e volte para ele, eu quero que você compreenda que eu sou boa demais até para um adeus, que acabou e essa merda está doendo como um inferno, mas vai passar. Volte para os braços dele, Sasuke. É tarde demais pra qualquer coisa sobre nós dois, pra existir nós dois. Vista a mesma roupa que está impregnada pelo perfume dele e vai embora!

            — Tem certeza?

            — Você me ama?

            E em todos os anos em que compreendi o teu silêncio agonizante, aquela foi a pior.

            — Você o ama? Pelo menos dessa vez, seja sincero. Seja sincero por todos os anos em que estive do teu lado.

            — Amo.

            — Então, não existe motivo nenhum para que você continue nessa casa. Vá embora.

            E você foi embora depois de recolar as roupas que cheiravam ao perfume dele e eu fiquei parada no meio do closet com as luzes acesas, meu olhar outra vez encarava um ponto fixo qualquer entre sapatos seus e meus. Na realidade, não era um reflexão sobre isso, é o ato de quanto fixamos o olhar em algo especifico e o cérebro trabalha ao redor de qualquer outra coisa além. Ia além das batidas rápidas do meu coração desesperado, enjaulado, quebrado.

            Tratava-se de só outro caso de amor morto.

            Quem olhasse de fora me colocaria no papel de quem atrapalha, porque o amor entre eles era recíproco e o meu se contentava em ser unilateral pintado com desculpas incabíveis ou implícitas nas entrelinhas da história.

            Mas, quando o carro saiu e a casa voltou a ficar em silêncio, eu sorri e chorei outra vez. Não havia chances, as lágrimas vão se secar e um dia vão parar de rolar.

            Eu sou boa demais até para despedidas.

            Bebi outra garrafa de vinho enquanto alimentava a lareira com teus ternos de grife.