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In my dreams

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Kohona era uma cidade do interior do Japão com uma promissora ascensão de cidade pequena a grande cidade. Era o melhor dos dois mundos, por assim dizer, vez que tinha as vantagens dos dois tipos de cidade. O centro era aquela correria de cidade grande. Era a parte da cidade que nunca dormia cercado de bares, baladas, grandes eventos, centro de indústrias e comércios. Já os subúrbios eram pacatos, com casas amplas e interioranas, com terrenos grandes. Eram bairros que morriam depois das 18 horas da tarde. Dentro desses subúrbios, havia grandes casas imperiais, onde há gerações moravam as famílias mais tradicionais, como os Uzumaki’s, os Hyuuga’s, o Uchiha’s, os Haruno’s ,entre outras famílias que ajudaram a fundar e desenvolver Kohona.

Naquele dia, o buffett elegante na divisa centro/subúrbio realizava uma grande festa de casamento. A união de Uchiha’s e Haruno’s. Já passava das duas da madrugada, mas as pessoas ainda dançavam animadas pela pista de dança, sem a menor intenção de acabar com a festa cedo.

No canto mais afastado sentado no bar estava Sasuke Uchiha. O mais novo dos Uchiha’s, neto do patriarca da família e segundo filho do herdeiro da Uchiha’s Company. Segurava seu copo de whisky enquanto olhava para a noiva no seu canto. Sem dúvida ela era a noiva mais bonita que já tinha visto na vida. Os cabelos róseos presos em um elegante coque e o vestido branco delimitando suas curvas sem vulgaridade. O que mais chamavam a atenção eram os olhos verdes, que naquela noite brilhavam com mais intensidade e frequentemente escorregavam para o anel dourado na mão esquerda. Ao lado dela dançando estava Itachi Uchiha, o seu irmão mais velho, e agora o marido de Sakura, a noiva.

Ele estava tão feliz quanto ela, e seus olhos também não se desgrudavam da noiva. Mas não podia culpá-lo. Sakura já era linda naturalmente, mas aquela noite estava deslumbrante.

Sakura era sua melhor amiga desde os seus parcos 6 anos de idade, quando ingressaram juntos na primeira série. Tudo tinha começado com a formação de um grupo para todas as aulas daquele ano, desde matemática até educação física. Ela, Naruto e ele então se tornaram o Time 7. No começo demorou para um se acostumar com o jeito do outro, mas quando fizeram, parecia que se uniam em uma só pessoa e a ideia do Time 7 ficou materializada neles três. Logo, por conta da amizade entre as famílias, que eram vizinhas, e a amizade deles, os três se tornaram inseparáveis.

Nesse começo de amizade, Sakura era só sua amiga. A única menina legal, que preferia correr e brigar junto com ele e Naruto do que brincar de boneca. Talvez tenha sido por isso que ficou tão amiga de Sasuke e Naruto. Os dois eram imãs para confusão e brigas e por isso não dava para andarem com meninas frescas, que gostavam de ficar limpas e não suportavam correr.

Conforme os anos foram se passando, Sakura deixou de ser tão moleca e começou a se desenvolver e quando ficou amiga de Ino, deixou a feminilidade aflorar, foi nesse tempo que Sasuke olhou para ela com outros olhos e desde os seus 16 anos começou a nutrir sentimentos que ia além da amizade por ela, mas ele na época não admitia o que sentia nem para ele mesmo e quando admitiu, não contou para ninguém, nem para o Naruto.

Outro que havia se rendido aos males do amor havia sido Naruto, que encontrou em Hyuuga Hinata a personificação dos seus sonhos. Começaram a namorar na época do ensino médio. A menina era muito tímida e por isso não tinha muitos amigos, mas seu jeito calmo e bondoso, conquistou Sakura logo, e apesar de não ter a entrosação que Naruto, Sakura e Sasuke tinham, passou a ser considerada do Time 7 também. Quando entraram na faculdade Naruto e Hinata, ficaram noivos e a família de ambos aproveitaram para juntar os negócios para prosperar ainda mais.

As famílias Uchiha e Haruno tomaram como exemplo e organizaram um acordo de matrimônio para juntar as franquias. Assim Sakura que era a única herdeira foi prometida em casamento a Itachi, que era o mais velho e oficialmente o herdeiro de Fugaku quando este morresse. Sakura gostou do acordo, já que tinha uma paixonite pelo irmão mais velho do amigo, enquanto Itachi também concordou, afinal não tinha nada a perder com o acordo, mas admitia que a achava interessante.

Com o objetivo de dar mais veracidade a história do casamento, logo após o noivado Sakura passou a morar na mansão Uchiha com todos e isso acabou unindo ela e Itachi e com o tempo ele também se apaixonou por ela. Ficaram oito anos noivos, para dar tempo de Sakura se formar em medicina e concluir sua residência. Para Sasuke esse noivado era o mesmo que a morte. Não havia como fugir do casal nem dentro de casa, e embora Sakura e Naruto fossem mais extrovertidos e tinham mais amigos além dele, ele não tinha esse luxo, por isso era sempre obrigado a presenciar conversas melosas dos casais, beijos trocados entre eles.

A integralização de Hinata se estendeu a Itachi e filho mais velho de Fugaku e Mikoto, passou a andar com o grupo, fazendo parte dele. Então via o casal apaixonada em casa, nos happy hour nas sextas a noites, nos cinemas e baladas nos sábados, nos almoços de domingo. O único local que de fato que tinha sossego deles era no seu escritório na empresa. Mas também não era um ambiente saudável, vez que seu pai e seu avô sempre lhe cobravam mais e mais trabalho. As pilhas de papeis em sua mesa estavam sempre cheias e querendo juntar o útil ao agradável de não ter que conviver com o casal, se isolava na sua sala e ficava trabalhando até suas forças se esgotarem. Descobriu que o cigarro e o whisky eram ótimos para desestressar e aumentar o rendimento, então as vezes quando sentia que suas forças se esvaiam, ele fumava alguns cigarros e tomava dois copos da bebida âmbar. As vezes comia alguma bolacha que comprava na máquina que tinha no corredor para os funcionários para enganar o estomago e voltava a trabalhar.

Sentia uma tola esperança todas as vezes que Itachi e Sakura brigavam, desejando o término dos dois, mas isso nunca aconteceu, não importando as proporções das brigas eles sempre se reconciliavam e quando finalmente marcaram a data do casamento, quatro meses atrás, toda e qualquer esperança que tinha deles desistirem desse noivado foi por água a baixo.

Aceitou pela primeira vez o amor que nasceu entre os dois e a obrigação deixou de ser obrigação e virou vontade. Essa constatação acabou destruindo o pouco que sobrou do mais novo dos Uchiha. De ranzinza e mau humorado, Sasuke ficou também depressivo. Uma campainha extremamente desagradável e foi afastando aos poucos as pessoas que viviam com ele, como Naruto por exemplo.

Ninguém pareceu realmente preocupado com seus novos hábitos de workholic. Quanto a seu pai e seu avô Madara, eles se importavam apenas com Itachi. Foi assim a vida toda. Itachi era o filho planejado e moldado deste sempre para ser perfeito, era o prodígio e herdeiro oficial das Companhias Uchiha. Ele foi só a gravidez acidental. Nunca seria bom o suficiente e estava sempre na sombra do irmão. Quando mais novo se importava com isso, fazia sempre o melhor para tentar impressionar o pai, mas todo seu esforço era ignorado, porque este só tinha olhos para o primogênito. Cresceu e aprendeu a lidar melhor. Só que mais uma vez, Itachi estava no seu caminho e não havia nada que pudesse fazer. Sakura gostava mesmo de Itachi e ele aprendeu a gostar dela. Apesar dos pesares nunca desejou mal ao irmão. Ele era uma boa pessoa e havia sido um bom irmão, não podia culpá-lo pelo que era naturalmente e como seus familiares lidavam com as diferenças entre os dois.

Talvez a única pessoa que realmente se importou com seus novos hábitos tinha sido sua mãe, pelo menos a única que estava expresso o descontentamento, pois torcia o nariz toda vez que via ele com cigarro, pedindo todas as vezes para ele parar de fumar e um belo dia, entrou no seu escritório furiosa, pegou todas as suas garrafas de whisky que tinha no armário e jogou pela pia do banheiro. Tinha cismado que ele estava virando um alcoólatra. Foi a pior briga que tiveram e ele ficou um mês sem aparecer em casa. Às vezes ele dormia na casa do Naruto e às vezes ele levava uma roupa extra e dormia na empresa mesmo. Usando o vestiário para tomar banho e se trocar. Só voltou quando ela retornou ao seu escritório e pediu desculpas pelo seu comportamento escandaloso, mas que continuava com a mesma opinião. Sasuke deu um suspiro e fingiu concordar com ela para evitar outra discussão.

Mas não parou com seus vícios, apenas continuou escondido da mãe e de Sakura, porque com certeza a amiga ia dedurá-lo. Aquela dia havia sido o primeiro em semanas que exagerava na quantidade na frente das pessoas, mas era dias de festa, então tinha uma desculpa. Esfarrapada era verdade, mas ainda uma desculpa.

Terminou de beber sua bebida e se levantou. Precisava de ar puro e de um cigarro. Não importava que fazia 15 minutos que tinha fumado. O jardim do buffett estava vazio, já que todos os convidados se divertiam na pista de dança. Gostou da sua solidão, ela tinha sido sua companheira ao longo dos últimos anos. Longe dos olhares de critica e longe dos olhares censurados, ele tirou o maço de cigarro do bolso do terno. Estava quase acabando, sorte sua que ele tinha um pacote fechado no porta luvas do carro. Sentou em um banco de pedra e acendeu o cigarro que havia separado. O alivio da tragada foi imediato. Olhava para as estrelas, sem se incomodar com o vento gelado que batia. Era inicio da primavera, os dias costumavam ser quentes e as noites frias, mas ele não sentia mais frio. Há muitos anos ele não parecia mais atento às vontades do corpo.

Passou vários minutos apreciando sua solidão e pensando como seria sua vida ali para frente. Como conseguiria olhar para Sakura e para o irmão vendo-os felizes? Naturalmente eles formariam uma família e não sentia que iria aguentar. Talvez fosse melhor se mudar. Seu pai e seu avô queriam abrir uma filial para a Europa, quem sabe não se candidatava para a vaga de lá.

Sua atenção foi desviada das estrelas quando viu Itachi caminhando ao seu encontro.

- Finalmente te achei. Queria falar com você. – Disse Itachi, antes de sentar. Viu a sobrancelha do irmão se erguer, lhe dando permissão para continuar. – Sakura viu você vindo pra fora para fumar e pelas contagens dela, você deve estar no vigésimo cigarro. Daí eu lembrei que ela e Naruto reclamaram de você esses dias. Sakura reclamou que você está fumando muito e Naruto que você quase não saí mais do escritório e que ele está perdendo sua companhia masculina.

- Vocês são um casal agora, eu lá só vou empatar a foda de vocês. - Disse o mais novo dando de ombros, enquanto dava uma tragada no cigarro. Fingiu que não viu a careta do irmão.

- Não seja dramático Sasuke, você bem que podia ter uma companhia feminina para nos acompanhar. Olha, sabe que eu não sou de ficar me metendo na sua vida, mas eu sou obrigado a concordar com eles. - Disse Itachi com a expressão séria. - Você se atrasou pro meu casamento porque ficou até nove e meia na empresa trabalhando. Hoje é sábado e você era o meu padrinho. - Havia um leve tom de rancor em sua voz que Sasuke ignorou.

Fingiu que havia se distraído com o tempo e perdeu a hora, mas na verdade só não queria ir. Ver a mulher que amava casando com seu irmão não estava na lista das 10 coisas que queria fazer. Viu que seu irmão realmente esperava por uma explicação.

- Se eu sou viciado em trabalho porque fico até nove horas da noite trabalhando você também é. – Resmungou ele de mal humor. Fora ele, o último a deixar a empresa era Itachi. Embora soubesse que ele chegava mais tarde e ia embora mais tarde também para fugir do trânsito, mas ignorou esse fato.

- Esse é o problema Sasuke, você não fica só até nove horas da noite. Fica até às três horas da madrugada, quando não vira a noite. De domingo a domingo. Só saiu de lá hoje, porque o Shishui ligou furioso e não sei que merda ele falou pra você, mas ajudou você apelo menos vir para a festa. - Itachi aumentou um pouco o tom de voz para dar mais seriedade. - Eu deveria estar chateado por você ter perdido a hora e eu ter que arranjar um padrinho de última hora, mas na verdade estou preocupado, porque meu casamento não é o único evento que você perdeu. Você não fica mais em casa pra nada, nem pra jantar, nem nos finais de semana. O único lugar que eu consigo ver você é na empresa. A mãe então! Quanto tempo faz que você não via ela? Ela sente a sua falta e você fez a babaquice de ordenar para sua secretária não permitir a entrada de ninguém na sua sala que não seja para tratar de trabalho. Ela precisou, literalmente, invadir a sua sala para te desejar um feliz aniversário. Ela e o pai têm discutido todo dia por isso. Ela acha que ele e o vô obrigam você a trabalhar tanto. – Itachi desabafou tudo de uma vez. Aquela atitude do seu irmão tinha que parar antes que ele se matasse.

- Eles não obrigam, mas tenho trabalho pra fazer sabe? – Disse ele dando mais uma tragada no cigarro. Seu cigarro ainda estava na metade, mas já sentia que precisaria de outro logo após aquele acabar.

- Sasuke, você nunca trabalhou tanto assim. Nem almoça que eu sei.

- Não tem como você saber. – Disse o mais novo revirando os olhos.

- Tenho sim, eu converso com os funcionários sabe, o segurança da noite me fala o horário que você vai embora e Karin já me falou que você nunca saí para almoçar. Você nem fumava há alguns meses atrás e agora acaba com um maço todo dia.

Sasuke deu de ombros e disse:

- Gosto de fumar.

Itachi suspirou. Ás vezes Sasuke era tão parecido com Fugaku e Madara. De tudo de bom que ele podia herdar, herdou logo a teimosia Uchiha.

- Sasuke, a gente tá preocupado com você, até o pai. – Foi interrompido pela risada de Sasuke. – Que foi? Do que tá rindo?

- De você. Acho que exagerou um pouco quando disse que até o pai está preocupado. Que piada! – Disse Sasuke, enquanto soltava a fumaça pelo nariz no meio da risada. – Fugaku deve estar gostando de ter alguém que está trabalhando mais pra dar mais lucro pra ele.

Itachi fez careta.

- Essa é a imagem que você tem do pai? Ele se preocupa com você Sasuke. Acredite em mim, ele coloca o nosso bem estar na frente do dinheiro.

- Desculpe, ele se preocupa com o seu bem estar e coloca o seu bem estar na frente do dinheiro. Ele nem repara em mim. - O mais novo deu ênfase no “seu”, para mostrar ao irmão que o bem estar dele estava acima do seu.

- Você está sendo injusto. Pode não parecer, mas ele se preocupa com você. Ele reparou que você está mais magro e mais abatido. Ele convocou uma reunião entre eu e o vô na quarta, para discutirmos a hipótese de você sair de férias junto comigo na semana que vem, ele disse que achava você está muito abatido e que tá preocupado de você ter um pire paque a qualquer hora. Ele viu a quantidade de remédio pra dor de cabeça que você tem comprado. É o dia todo tomando um monte de remédio, misturando com álcool e nicotina. Não surpreenderia se um dia encontrássemos você morto por overdose.

- Que ótimo, ele decidiu me dar férias em vez de me internar em uma clinica de reabilitação. Porque é isso que vocês estão fazendo parecer, que eu sou um drogado. – Sasuke começou a elevar o tom de voz. – Eu tenho 28 anos, sou adulto, sei o que estou fazendo.

- Sasuke... – Itachi foi interrompido novamente pelo irmão mais novo, que jogou o cigarro no chão e se levantou.

- Olha, eu sei que tá todo mundo preocupado, mas eu estou bem. Só estou cuidando da minha carreira. Só isso. Gosto do que faço. Agora se me der licença eu vou embora, amanhã eu tenho que sair cedo, que já que sai às pressas não terminei o que tinha começado. – Irritado, ele saiu pelo portão grande e atravessando a rua para ir até o estacionamento, sem se importar em se despedir de ninguém. Nem dos pais.

O mais velho deu um suspiro e voltou para dentro. Em uma roda estava Sakura, Naruto e seus pais aguardando por ele. Sentiu um aperto no peito quando viu o olhar esperançoso da sua mãe. Mas balançou a cabeça negativamente. O sorriso da sua mãe morreu e seu pai achatou os lábios.

- Acho que ele ficou mais zangado ainda. Ele foi embora. - Disse Itachi.

- Eu vou tentar conversar com ele. – Disse Naruto.

- Honestamente, não sei se vai funcionar. Vocês conhecem o Sasuke, se ele acha que não tá errado, ninguém vai convencê-lo que está. – Falou Itachi.

- E vamos fazer o que? Deixar que ele se mate? – Disse Sakura.

- Eu e meu pai decidimos dar férias pra ele, mesmo que ele não concorde, ele não vai se opor a nós. Vamos deixar que ele se acalme e depois você tenta uma nova abordagem Naruto. Se isso não funcionar eu mesmo tomo uma atitude. – Decidiu Fugaku.

Mikoto abriu a boca para contestar a ordem do marido. Tudo que se relacionava com Sasuke, se sentia a vilã da história. Mesmo quando não queria suas atitudes sempre fazia parecer que o comparava com Itachi e tinha medo de que a atitude de Fugaku fizesse Sasuke se revoltar mais ainda, porque ele não era Itachi que aceitava tudo o que diziam.

Iria tentar explicar para o marido, porém a discussão foi encerrada quando alguns convidados animados apareceram para cumprimentar os noivos e tirar fotos com eles. O resto da noite transcorreu da mesma forma, e naquele dia não tiveram mais como tocar no assunto “Sasuke”.

No domingo, amanheceu um dia bonito, digno de piquenique, mas por causa do casamento, os membros da Família Uchiha acordaram tarde, mas para variar não viram o carro de Sasuke na garagem e segundo os empregados ele saiu de terno e gravata, provavelmente tinha ido trabalhar. Mais um dia que não veriam ele em casa. A matriarca da família esperou até tarde pelo filho, mas quando deu meia noite, entendeu que Sasuke só voltaria de madrugada, se voltasse. Deixou na cozinha, um lanche pronto em cima do balcão para que Sasuke comece quando chegasse. Foi dormir decidida a acordar mais cedo que Sasuke na manhã seguinte e teria uma conversa séria com ele. Ele podia não ouvir o irmão, mas ela era a mãe dele e ele ia ouvi-la por bem ou por mal. Naquela segunda ele não iria trabalhar nem no escritório nem em casa se dependesse dela. Ia ficar com ela, comer uma comida descente e ter pelo menos doze horas de sono.

Dormiu um sono sem sonhos e acordou com o despertador tocando às cinco da manhã. Desligou rápido para não acordar o marido e saiu da cama indo para a cozinha, porém quando chegou na janela do corredor viu o portão da garagem fechando. Sasuke já havia ido. Com um suspiro resignado foi para a cozinha, já que tinha perdido o sono ia começar a preparar o café da manhã. Apesar de ter empregados para tudo, ela mesma gostava de preparar as refeições para a família e na sua cozinha quem mandava era ela. Logo na porta ela viu sob a bancada o lanche intocado que ela havia deixado para Sasuke.

Ela sentou no banquinho e se pôs a chorar. Fugaku e Itachi haviam lhe poupado de saber que Sasuke não andava comendo, mas ela não era burra. Viu o quanto Sasuke havia emagrecido e estava mais pálido que o normal. Ela que já não via mais o filho com frequência percebeu a mudança brusca.

Do jeito que conhecia seu menino, ele provavelmente sentia algumas coisas e não falava para ninguém. Novamente aquela sensação de ser a vilã. Será que havia negligenciado tanto assim o seu caçula para ele não confiar em ninguém e se fechar nele mesmo?

Não demorou muito a começar ouvir movimentação no andar de cima e logo Fugaku apareceu já vestido. Ele se assustou um pouco ao ver a esposa chorosa e ela lhe falou que Sasuke chegou tarde ontem, não comeu o lanche que tinha deixado e já havia ido para a empresa.

Enquanto Fugaku tentava consolar a esposa, Itachi desceu também vestido. Teria aquela semana ainda para adiantar o serviço e como Sakura também tinha algumas cirurgias de emergência para fazer, decidiram adiar a lua de mel. Narrando brevemente a história para o mais velho, Fugaku achou melhor Itachi e ele irem mais cedo para a empresa enfrentar a fera. Sabia que Sasuke não ia ficar nem um pouco contente com as férias, principalmente pelos motivos que alegariam para que não fosse trabalhar, mas seria o melhor para ele. Em seu íntimo desejou que não fosse tarde demais. Assim como Mikoto, sabia que Sasuke provavelmente já estava sentindo alguns sintomas da falta de comida e do estresse e pela primeira vez na vida se arrependeu em não tentar conversar com o filho antes.

Quando finalmente chegou a empresa sua secretária ficou surpresa por vê-lo tão cedo. Informou que ele e Itachi iam estar em uma reunião na sala do Sasuke e não era para serem interrompidos. Os dois entraram na sala de Sasuke sem bater e Fugaku sentiu seu coração perder uma batida ao ver o corpo do mais novo caído de bruços no chão.

- Sasuke! - Berrou Fugaku correndo até o corpo. Desvirou o corpo do mais novo e o ergueu com dificuldade, utilizando um dos braços como apoio. Ele estava anormalmente pálido e frio. Da sua boca saia filetes de sangue. Sua respiração estava fraca como pode ver ao aproximar a palma da mão no nariz dele. Tirou de dentro do bolso um celular e entregou-o para o filho mais velho. – Rápido Itachi, ligue para uma ambulância. – Ordenou de forma urgente, enquanto voltou sua atenção para o rapaz em seu colo e deu uma leve batidinha em seu rosto, sem se importar que sujou sua mão de sangue enquanto o chamava. – Sasuke! Sasuke, vamos acorda! Filho! – Ao longe ouviu a voz de Itachi dando o endereço.

Tentando se lembrar de alguma coisa sobre primeiros socorros, ele deitou o corpo com cuidado no chão e afrouxou a gravata de Sasuke e abriu os primeiros botões da camisa, tendo uma vã esperança de que ele pelo menos começasse a respirar melhor. Viu Itachi desligar o telefone e agachar ao seu lado. Sua expressão estava desesperada, provavelmente igual a sua, mas queria poupar o outro de passar por aquela aflição.

- Avise a portaria, os seguranças e as secretárias daqui que tem uma ambulância vindo, para permitir a entrada. Espere por ela lá embaixo e guie os paramédicos. Quando a ambulância partir, você pega meu carro e vai buscar sua mãe. – Voltou ordenar Fugaku.

O mais velho respirou fundo. Tinha que manter a calma. Não poderia surtar agora. Tinha que ser forte nesse momento para apoiar a família. Pegou uma das mãos dele e apertou no pulso de Sasuke e se concentrou em contar quantas batidas o coração dele fazia por minuto. Fugaku teve a impressão de que a ambulância tinha demorado séculos para aparecer, porém respirou aliviado quando viu os paramédicos entrando na sala com uma maca. O transporte até a ambulância foi turbulento, pois todos os funcionários se amontoavam para verem o que tinha acontecido.

Ele e Itachi ajudaram o resgate para erguer a maca de metal e colocá-la dentro do baú da ambulância. Olhou para Itachi, mandando com o olhar executar a ordem que tinha dado anteriormente, enquanto subia junto na ambulância. Durante o caminho, Fugaku respondia algumas perguntas que o médico fazia enquanto o atendia com eficiência. Ouvia o que ele dizia para o enfermeiro, mas entendeu pouco o que disseram em termos técnicos sobre o estado de Sasuke, mas percebeu que era grave quando ouviu o médico dizer ao motorista para irem rápido para o hospital que o caso do paciente era grave. Permaneceu segurando a mão fria de Sasuke durante todo o caminho, enquanto via os médicos encherem seu filho de tubos para respirar e agulhas nas veias do braço. A camisa foi cortada, para colarem o medidor de batimentos no peito e pela primeira vez viu a magreza do filho, escondida pelos ternos bem alinhados. Ele estava tão magro que dava para contar suas costelas.

O caminho até o hospital mais próximo demorou 10 minutos na velocidade em que estavam e de repente, Fugaku se viu sozinho na sala de espera com uma prancheta na mão que continha um formulário para ser preenchido. Tirou uma caneta do bolso interno do paletó e com as mãos trêmulas preencheu o que lembrava de cabeça. Logo entregou para uma enfermeira que passava, mas com a adrenalina correndo, ele não conseguia ficar parado e passou boa parte do tempo andando de um lado para o outro, enquanto rezava mentalmente. Apesar de parecer sério e frio, era muito preocupado com a família.

Se assustou um pouco quando sentiu o celular vibrar no bolso. Era seu pai telefonando. Atendeu meio de má vontade. Madara queria saber de Sasuke. Chegou na empresa e ouviu as secretárias do andar da Presidência conversando sobre o ocorrido e ligou para saber mais detalhes.

A conversa foi rápida, Fugaku não estava muito interessado em falar, até porque ele não fazia ideia do que estava acontecendo, e Madara também não parecia muito preocupado em saber. Fugaku sabia que seu pai estava no modo chefe e o que quer que tinha acontecido com Sasuke não o afetaria, pois naquele momento de Madara, Sasuke não era seu neto. Era somente um diretor secundário, ou seja, não era peça importante.

Fugaku sabia que seu pai gostava de Sasuke. Era neto dele de qualquer forma, mas quando o assunto era a empresa e ele estava lá, Madara se transformava em outra pessoa e toda a sua atenção ia para quem lhe dava mais lucro, mais contato, mais serviços. Pensou se com Itachi seria diferente. Se Madara ficaria preocupado como chefe e como avô e no fundo sabia qual seria a resposta. Lamentou um pouco por Sasuke pelo descaso de Madara.

A diferença entre o tratamento dos dois irmãos era gritante. Itachi tinha sido planejado. Escolheram uma época boa financeiramente para ele e Mikoto terem filhos. A gravidez andou como o esperado e Mikoto quase não teve enjoos, o parto foi rápido e quase indolor. Ele foi um bebê tranquilo e risonho. Não erguia a voz para os pais e era obediente.

Itachi tinha desde criança uma simpatia e um carisma que fazia as pessoas gostarem dele quase imediatamente. A inteligência dele era apenas um aditivo do todo que ele era. Bom filho, bom aluno, bom irmão, bom funcionário. Durante toda sua vida escolar foi cercado de amigos, de namoradas. Nunca o via sozinho, sempre era acompanhado por várias pessoas. Era o preferido entre os professores. As festas em família era sempre ele que animava todo mundo e por isso era tão bem cotado. Na empresa, ele era praticamente o relações públicas. Deixava os acionistas a vontade, convencia todo mundo, era ele que sempre resolvia problemas graças a sua criatividade.

Já Sasuke não. Ele e Mikoto não esperaram que ela fosse ficar grávida novamente e essa gravidez havia sido problemática. A placenta estava muito fina e Mikoto tinha que permanecer quieta e tranquila a gestação toda, pois qualquer coisa poderia romper a placenta e ela sofrer um aborto. A hora do parto havia sido terrível, o bebê estava com o cordão umbilical em volta do pescoço e tiveram que fazer uma cesárea de emergência. Foram longas 26 horas. A própria personalidade do mais novo dos Uchiha era difícil. Ele sempre foi estressadinho e emburrado. Quando criança andava sempre com cara fechada e era mal criado. Não sabia levar bronca e ficar quieto, sempre foi respondão e vivia arranjando confusão. Com professores, com os coleguinhas da escola, com os primos, os avós. Não teve muitos amigos. Era só Naruto e Sakura. No fundo era só excesso de timidez, mas ele cresceu acostumado a ficar sozinho e os poucos amigos sabiam que ele falava pouco. Era tão inteligente como Itachi, mas lhe faltava o carisma do irmão mais velho. Era até um pouco metódico e perfeccionista. Gostava das coisas do seu jeito e por isso era bem criticado e era constantemente comparado com o mais velho.

E assim cresceu um menino que vivia a sombra do irmão. Estudou nas mesmas escolas do mais velho e sempre esperavam alguém igual a Itachi. Até na empresa não dava para comparar Sasuke com Itachi e seu pai também sabia disso. Surgia até certo favoritismo em favor de Itachi.

Fugaku sabia também que quando acabasse todas as reuniões que tinha, todos os papéis assinados e todas as ordens dadas Madara voltaria a se transformar em avô e ligaria novamente, dessa vez mais preocupado.

Ouviu passos apressados e em segundos Mikoto apareceu com o rosto transtornado, sendo seguido por Itachi e Sakura.

- Fugaku, meu bebê, cadê meu bebê? - Perguntou Mikoto, meio desesperada.

- Eu não sei, os médicos não deram notícias ainda. - O patriarca da família abraçou a esposa e esta começou a chorar no seu peito.

- Sabia que isso ia acontecer. Eu tinha que ter acordado mais cedo e falado com ele, feito ele ficar em casa. Eu sabia. - Disse a mulher aos soluços.

- Não mãe, não diz isso, você não sabe. Ele tá acumulando coisa há muito tempo. Hoje deve ter sido só o estopim. - Disse Itachi, acariciando as costas da mãe, enquanto tentava consolá-la. - Sakura, você trabalha aqui, será que não tem como saber o que está acontecendo? - Pediu ele suplicante para a esposa.

- Vou ver se encontro a Tsunade e ela me dá uma autorização para entrar. - Disse a rosada. Assim como todos, ela também sofria. Sasuke era um dos seus melhores amigos, seu irmão praticamente.

Foi em passos rápidos até a sala da diretora do hospital, que para sua sorte era sua madrinha e que não tinha o costume de lhe negar nada.

Eles ficaram em silêncio por vários minutos, até Sakura voltar. Ela vinha já vestindo um jaleco e prendendo os cabelos róseos em um coque firme.

- Tsunade me autorizou a entrar somente para ver o estado em que o Sasuke está e depois sair.

- É melhor do que ficar aqui sem saber de nada. - Disse Itachi. Deu um selinho na esposa e depois a viu entrar pela porta que Sasuke entrou com os médicos e enfermeiros.

Dessa vez não foi necessário esperar muito. Logo Sakura saiu. Sua expressão estava séria. Olhando para a cara agoniada do marido e dos sogros ela começou a falar:

- Os médicos me falaram que eles suspeitam que o Sasuke está com uma anemia profunda. Colheram o sangue dele o resultado vai sair daqui à uma hora, mas eles suspeitam que pode ter outra coisa além da anemia, pois os sintomas dele estão agravados.

- Como o que, por exemplo? - Perguntou Mikoto aflita.

- Se for mesmo anemia, temos que investigar a causa. A maioria das vezes é por má alimentação mesmo, e como sabemos que o Sasuke não anda comendo não descarto que seja anemia. Mas, ele está com insuficiência cardíaca, isso é um sintoma de anemia agravada e só falta de alimentação não causa isso. Ele está passando por mais exames. - Disse a rosada.

- E quanto tempo mais nós teremos que esperar? - Disse Itachi, preocupado.

- Eles não me falaram que exames que iriam fazer nele então não tem como eu saber. O médico chefe não acha prudente eu acompanhar e nem ficar entrando na emergência toda hora. - Esclareceu Sakura com um suspiro. Queria estar lá dentro para acompanhar o caso do amigo, mas sabia que o médico tinha razão. Ela estava muito envolvida e se desse alguma coisa errada ela surtaria.

- Só nos resta esperar então. - Suspirou Itachi. - Vem mãe é melhor você sentar agora. - O filho, tirou gentilmente a mãe do abraço do pai e a levou para as cadeiras da sala de espera.

A mulher sentou sem relutar e fechou os olhos começando uma oração. Fugaku que ainda sentia a adrenalina correr, não queria se sentar, mas pelo bem dos nervos da esposa achou prudente se sentar e se acalmar. Itachi e Sakura ficaram de pé, abraçados. Ficaram vários minutos em silêncio, de vez em quando ouvindo o suspiro do outro. Lá pelo horário do almoço o celular de Itachi tocou. Era Naruto.

- Vou lá fora falar com ele, daqui a pouco eu volto. - O moreno saiu de perto dos familiares e foi até rua. Explicou a Naruto onde estavam e o loiro do outro lado da linha decidiu que iria encontrá-los no hospital. Itachi não protestou porque tentar convencer Naruto de alguma coisa era quase tão difícil quanto convencer Sasuke.

Esperou pelo loiro onde estava e foram os dois juntos para a sala de espera novamente. Sakura informou que ainda não tinham tido noticias. Foi só pelas três horas da tarde que o médico responsável foi conversar com eles. A cara séria dele fez Sakura perceber que as notícias não eram boas. Mordeu o lábio de nervosismo ao olhar para a sogra.

Os olhos negros de Mikoto estavam vermelhos e marejados e pareciam suplicar ao médico por uma boa notícia, mas que infelizmente não veio. Segundo o médico, Sasuke estava com uma úlcera hemorrágica, causada pelo excesso de álcool e cigarro, e por conta da hemorragia no intestino em conjunto com a falta de alimentação, desenvolveu uma anemia gravíssima, que estava evoluindo para um quadro de leucemia. Ele teria que ser operado urgentemente, para só então tratar por meio de antibióticos fortes a anemia e impedir que virasse de fato uma leucemia. Como seu estado ainda estava bastante debilitado e ele ainda corria risco de vida, o médico ia mantê-lo em coma induzido por duas semanas para evitar o estresse do corpo que dificultaria o tratamento.

Mikoto queria ver o filho, mas o médico não permitiu. Disse que precisava da autorização dos familiares para a realização da cirurgia o mais rápido possível e que ele já estava sendo preparado para entrar na sala de operação. Para acalmá-la o médico disse que após a cirurgia, quando ele fosse levado para um quarto, ele autorizaria a entrada dos pais.

Fugaku assinou os papéis autorizando a intervenção cirúrgica de forma automática, enquanto ouvia o médico explicar o procedimento que seria usado e os riscos que a operação tinha com o estado de saúde de Sasuke. Tudo que ele queria naquele momento é que seu filho ficasse saudável novamente. Após acertarem a documentação, o médico sumiu pela porta que saiu deixando-os.

Sakura tentava convencer os sogros de irem para casa comerem e descansarem enquanto se realizava a cirurgia, mas nenhum dos dois arredou o pé de lá. Nem mesmo Itachi e Naruto. O máximo que conseguiu foi levá-los até a lanchonete e comeram um lanche por lá mesmo.

No meio da tarde Itachi e Fugaku começaram a receber ligações dos tios e primos, pois a notícia do desmaio de Sasuke se espalhou pela empresa e todos queriam saber dele.

O médico apareceu novamente só pelo início da noite, informando que a cirurgia correu como o esperado e que estavam transportando o paciente para a U.T.I para permanecer em observação naquelas duas semanas e somente os pais poderiam entrar para vê-los. Fugaku e Mikoto acompanharam uma enfermeira para se vestirem com roupas esterilizadas e ouviam instruções da enfermeira chefe avisando para tomarem cuidado com os fios e o tempo que era permitido ficarem na sala da U.T.I. Ansiosos eles acompanharam a mulher por um corredor e pararam em frente a cama onde estava o filho.

A imagem que tiveram de Sasuke no leito, jamais sairia de suas cabeças. O corpo dele estava completamente inerte, mal dando para ver a respiração no tórax. Estava mais pálido que nunca, tinha profundas olheiras abaixo dos olhos. Ele estava entubado pela boca por causa do coma e seus lábios estavam sem cor e rachados. Seus braços estavam conectados com alguns fios e tinha agulhas em dois pontos ligados com duas bolsas diferente. Uma delas contendo soro, provavelmente com medicamentos e a outra com sangue. Mikoto se aproximou e segurou delicadamente a mão de Sasuke que não estava com agulhas e a sentiu fria. Com a garganta seca, ela usou a outra mão para tirar a franja de Sasuke do olho, num gesto tipicamente maternal, como um carinho velado. Seu marido foi para o outro lado da cama e em um ato inédito, ele acariciou os cabelos negros de Sasuke no topo da cabeça, tomando cuidado para não se enroscar nos fios que o rodeava.

Seu olhar fixo no filho lhe trouxe a memória do corpo dele no chão de manhã. Por um segundo achou que aconteceu o que temia. Achou que iria se aproximar dele e segurar só um cadáver. Apesar de sentir um alivio agora que via ele vivo, sabia que ainda havia uma possibilidade de perdê-lo, afinal não ia ser só a cirurgia que iria salvá-lo. Estava seriamente doente também.

Sua esposa pareceu adivinhar o que pensava e por cima do filho ela segurou a mão do marido e disse numa voz rouca:

- Vai dar tudo certo. Nosso filho é forte. Lembra quando ele nasceu? Todos nós achávamos que ele não sobreviveria e ele sobreviveu e cresceu forte e saudável. Vai acontecer o mesmo de novo.

Fugaku queria tanto acreditar nas palavras da esposa, mas tinha alguma coisinha lá no fundo que teimava em achar que não veriam mais o filho acordado. Podia ser a culpa o consumindo também. Se tivesse visto os sinais antes. Deveria ter intervindo quando Sasuke começou a fumar. Deveria ter o proibido de trabalhar após o horário. Feito ele almoçar, mas na verdade acreditou no bom senso de Sasuke que ele pararia quando começasse a exagerar. Ficaram em silêncio respeitando os demais pacientes e zelando pelo filho. Mal viram o tempo passar até a mesma enfermeira voltar dizendo que já havia dado o tempo estipulado e que agora Sasuke precisaria descansar. Mikoto achou um absurdo a mulher falar isso. Seu filho ficaria em coma por duas semanas e não ouviria nem o que falavam, como a presença deles atrapalharia o descanso dele? Mas ela estava cansada para brigar, e resolveu que daquela vez acataria a ordem. Beijou a testa do filho com carinho e ajeitou o lençol que o cobria, como se faz com uma criança, como se isso fosse protegê-lo de todo o mal e o manteria aquecido.

Ao voltarem para a sala de espera, encontraram Itachi, Sakura e Naruto agora acompanhados de Madara e Shisui. Madara foi porque achava que era sua obrigação acompanhar o filho, e Shisui foi por consideração a Itachi, que era seu melhor amigo. Não gostava muito do primo mais novo, o achava egoísta, mas nunca falou isso para ninguém para não ofender os tios e o primo.

- E então? - Perguntou Madara que havia acabo de chegar e não sabia o que havia acontecido. Só sabia que o filho e a nora entraram para ver o neto.

- Sasuke estava com uma úlcera hemorrágica, causando uma anemia. Ele foi operado e agora vai passar por tratamento. - Simplificou Sakura. Ela havia ouvido o desabafo do amigo durante toda a vida dele de como era crescer sob a pressão de ser igual a Itachi e pode ver com os próprios olhos o descaso da família com o amigo. Eram incapazes de compreender que ele era diferente do irmão e por isso ela não era fã do restante da família. Nem mesmo de Madara. Se queriam distância dele, ela os manteriam longe. Não ia deixar que as atitudes falsas deles prejudicasse a melhora do cunhado.

- Não é tão simples quanto a Sakura ta fazendo parecer vô. - Itachi revirou os olhos para a simplicidade com que Sakura explicou. - Ele exagerava no álcool e no cigarro e aparentemente de um tempo para cá parou de se alimentar direito também, o médico disse que foi isso a causa da úlcera. Mas ele já foi operado, um problema a menos. Estamos mesmo preocupados com a anemia. Está evoluindo para uma leucemia. - Disse Itachi com mais detalhes. Achava que essa desconfiança que a esposa tinha com a família exagerada. Amava o irmão, mas Sasuke também não era nenhum inocente. Ele mesmo se deu a fama que tinha quando era grosseiro com as tias e mal criado com o avô. Ele nem se esforçava para parecer simpático e desde sempre teve o hábito de manter todos afastados.

- Qual é o procedimento agora? - Perguntou o mais velho, depois de ouvir a explicação mais detalhada do neto.

- Ele vai ser tratado com remédios fortes e como a saúde dele está ainda debilitada, vão deixá-lo sedado por duas semanas para evitar complicações durante o tratamento. Até lá, não temos mais o que fazer. - Concluiu Fugaku. Estava feliz por seu pai vim ao invés de ligar. Madara era um homem exigente, mas passava segurança para ele e nesse momento, ele tinha que ser forte pela sua família, seu pai lá, ia acalmá-lo um pouco caso as coisas saíssem do controle.

Concluindo que não haveriam mais o que fazer no hospital, todos foram embora, falando com a enfermeira chefe que entrassem em contato com qualquer noticia de Sasuke.

Shisui foi embora para sua casa avisar seus pais do estado de Sasuke, enquanto Madara preferiu ir para a casa do filho. Tinha alguns detalhes sobre a empresa que queria combinar com ele por conta da ausência do neto.

Foram todos em profundo silêncio. Na mansão Itachi e Sakura acompanharam Mikoto até o quarto, enquanto Fugaku e Madara foram para o escritório. Fugaku se sentou em sua mesa, enquanto o mais velho se sentou na sua frente. Porém, antes que Madara pudesse abrir a boca, Fugaku apoiou o cotovelo na mesa e a cabeça em suas mãos soltando um longo suspiro. De cabeça baixa, permitiu que seus olhos enchessem de lágrimas que estavam a horas querendo sair.

- Olha pai sei o que o senhor quer conversar, mas eu realmente não estou com cabeça para decidir isso agora. Faça o que achar melhor. - Disse Fugaku cansado.

- Sasuke vai ficar bem Fugaku. O que dava para fazer esta feito, como você sabiamente disse no hospital. Agora só depende dele. - Disse Madara.

- Mikoto me falou isso também, mas porque eu sinto que não vai ficar bem pai?

- Porque você está agoniado. Fiquei assim também quando me falaram que você e seu irmão caíram daquela árvore quando eram crianças. Achei que tinha acontecido algo mais grave até chegar ao hospital e ver que Obito tinha só quebrado o braço.

- É diferente. Obito não conseguia passar um mês sem quebrar alguma parte do corpo. Deus sabe o que eu senti quando eu entrei na sala dele e o vi caído no chão. Por um segundo eu achei que ele estava morto. Eu tinha que ter dado férias para ele antes.

- Você está exagerando Fugaku, trabalhar nunca matou ninguém. Eu e você já enfrentamos isso quando mais jovens e sobrevivemos.

Fugaku se lembrou que quando Madara fundou a empresa, ele tinha tanto trabalho que geralmente só comia um lanche na sala, as vezes nem almoçava e só jantava em casa. Ele fez isso também quando começou a participar dos negócios, mas o que o pai não estava entendendo é que Sasuke levou isso muito mais adiante.

- Estou exagerando? - Perguntou incrédulo. - Ele está desenvolvendo uma leucemia pai. Entende isso? Leucemia! - Disse Fugaku irritado. Parecia que ninguém entendia a gravidade da situação de Sasuke. - O médico vai deixá-lo em coma pra aumentar as chances de reverter esse quadro. Se eu ao menos tivesse tomado uma atitude antes. Ter cobrado menos dele. – Ele lamentou. Nunca odiou tanto as Campainhas Uchiha’s como agora.

Madara deu um suspiro. Entendia a agonia do filho. Também ficaria assim, se acontecesse alguma coisa com seus filhos, Fugaku, Kagami e Obito, ou com seu irmão mais novo que ajudou a criar e tinha como um filho Izuna, mas Fugaku estava cego. Sasuke não ficou doente por causa do trabalho, alguma outra coisa que matava seu neto e trabalhar foi só uma válvula de escape.

- Não estou dizendo que o caso dele não é grave. Estou dizendo que não foi o trabalho a causa. Alguma coisa está acontecendo com ele que está fazendo ele trabalhar tanto. Sempre tivemos muito trabalho, mas nunca o vi se empenhar tanto como agora. Alguma coisa aconteceu lá trás Fugaku que começou a deixá-lo doente. Ele pode melhorar, você pode proibi-lo de ir a empresa e trancá-lo em casa, mas ele vai voltar a ficar doente, porque ele vai procurar outro escape que o leve até o limite de novo.

- O que pode ser então? Não consigo imaginar nenhum motivo que o faça querer se matar.

- Sasuke nunca foi muito receptivo a ter pessoas se metendo nos seus problemas. Conhece seu filho mais do que eu Fugaku. Sabe que ele não se abre com ninguém. Vai saber o que se passava naquela cabeça. - Disse Madara.

- Porque ele não pode ser igual a Itachi? - Bufou Fugaku. Itachi não se estressava com nada. Não tinha caraminholas nas cabeça.

- Vá deitar Fugaku, o dia hoje foi longo e sua esposa deve estar precisando de você. - Fugaku foi para o quarto, enquanto Madara voltou para casa.

Nas duas semanas que passaram, Fugaku e Itachi tentavam voltar a rotina mais normal possível, de manhã iam para a empresa e depois do almoço iam para o hospital acompanhar Mikoto, que ficava todo o tempo que lhe era permitido com o filho.

O médico sempre dizia que ele estava estável, mas seu estado não tivera melhoras. Receberam visitas dos parentes próximos e alguns amigos. A secretária de Sasuke uma vez foi ao hospital após o expediente, mas ficou pouco.

As duas semanas que passaram foram torturantes, e Mikoto envelheceu anos durante esses dias. Os cabelos que antes tinham sido muitos negros, agora mostravam vários fios brancos. A expressão triste que ela adquiriu depois de alguns dias a fez ficar com algumas rugas ao redor dos olhos. Ela não havia sido a única a mudar com o estado de Sasuke. Itachi estava menos simpático e mais sério e Fugaku parecia apático.

Eis então, que o tempo dado pelo médico havia passado sem melhora no estado de Sasuke e por bem os médicos decidiram tratá-lo acordado, pois parecia que com o coma seu organismo não reagia com eficiência.

Quando pararam de aplicar o sedativo, Mikoto ficou ansiosa para ver o filho abrir os olhos, mas o médico havia alertado que demoraria ainda algumas horas para o sedativo perder o efeito.

Porém, mesmo depois de 24h Sasuke não acordou, para o desespero da família e dúvidas dos médicos. Ele foi submetido a uma tomografia, mas não resultou em nenhuma lesão que justificasse o coma. Nova colheita de sangue foi feita e de fato não havia mais resíduos do remédio no organismo. Não havia nada que justificasse o coma dele. O cérebro dele simplesmente não mandava o estímulo para acordar.

Naruto, que era o melhor amigo dele, sabia que o melhor amigo provavelmente não queria acordar. Nunca teve uma confirmação do Uchiha, mas sabia que ele era apaixonado desde sempre pela amiga de cabelos róseos, e imaginava a tristeza que Sasuke sentia por todos os acontecimentos.

Quando o amigo não acordou, ele pesquisou muito sobre o coma e perguntou algumas coisas para Tsunade, velha amiga da família e acreditava que de fato era o próprio Sasuke que inconscientemente não queria despertar. Ele havia aberto a mão de viver.

Infelizmente, o coração da gente nos trai e Naruto sentia uma raiva absurda queimar dentro de si quando via Sakura chorar pelo amigo nos ombros de Itachi. Sua consciência sabia que ela não era culpada, mas seu coração insistia em sentir que a culpa era dela. Que se ela tivesse visto os sinais as coisas poderiam ter tomado outro rumo, mesmo que ela casasse de qualquer forma com Itachi. Talvez só o libertado desse amor.

Não teve coragem de revelar esse segredo para Mikoto ou para Fugaku, pois iria destruí-los ainda mais. Nem mesmo para Itachi. Se Sasuke não havia admitido nem para ele sua paixão pela rosada quiçá para o irmão, que também era apaixonado por ela e uma das poucas pessoas que Sasuke mais queria o bem.

Na verdade deveria respeitar o silêncio de Sasuke e não contar para ninguém, mas era sufocante guardar aquilo pra ele. Pensou em contar para Hinata, mas não queria arriscar Sakura ficar sabendo. Não que imaginasse que Hinata fosse fofocar, mas a lealdade de Hinata estava mais com Sakura do que com Sasuke e se ela achasse que isso faria alguma diferença, ela não hesitaria em falar.

Estava mais uma vez na lanchonete do hospital. Nos últimos dias havia virado hábito ele passar lá depois do expediente, ver como andavam as coisas e se havia alguma notícia. Naquele mês que Sasuke havia entrado em coma, seu estado ficou instável, ora melhorava, ora piorava e mesmo após exame depois de exame ainda não descobriram a causa do coma. O loiro andava de cabeça baixa quando sentiu uma mão no seu ombro. Ergueu a cabeça pensando ser Itachi, mas se surpreendeu ao ver que era Kakashi.

Hatake Kakashi havia sido o professor responsável pela junção do Time Sete. Tinha relações estreitas com a família Uchiha, sendo melhor amigo de Obito, irmão mais novo Fugaku e primo de Mikoto, tanto que foi graças a ele, que Fugaku e Mikoto se conheceram.

- Kakashi-sensei! - Se assustou com a presença dele. Estava com a mesma aparência de sempre. Os cabelos cinzas espetados e a estranha mania de usar uma máscara para esconder o rosto. O olhar sempre tão tedioso agora mostrava cansaço e um pouco de tristeza.

- Quanto tempo não é Naruto? Mikoto havia me dito que estaria aqui. - O mais velho puxou uma cadeira da mesa e se sentou em frente ao antigo aluno.

- Quando que voltou?

- Hoje de manhã. Soube de Sasuke na semana passada. Programei algumas aulas para meu substituto e vim assim que pude.

- Já tem lugar para ficar?

- Sim. Obito me ofereceu para ficar na casa dele. Mikoto também havia oferecido, mas acho que nessa situação ela não precisa de um hóspede para se preocupar.

A vinda de Kakashi havia sido em um momento bem oportuno, pois com ele Naruto se sentia à vontade para desabafar sem se sentir culpado. O mais velho ouviu com calma e forneceu conselhos valiosos para o loiro, que o ajudaria a lidar com tudo. Infelizmente ao final daquele dia receberam uma notícia triste. Os órgãos de Sasuke estavam parando de funcionar. Isso significava que o fim dele estava próximo e era para estarem preparados. Por causa disso, Tsunade liberou a entrada para prestarem suas condolências até o fatídico final, que não tardou a chegar.

Cinco dias depois da notícia de que o corpo dele estava desistindo, Sasuke morreu. Foi durante a noite e tão contrário do seu nascimento turbulento, ele se foi com calma. O coração dele apenas foi diminuindo as batidas até que parou completamente no meio da noite sem causar alarde e Sasuke Uchiha parou de existir.

Continua...