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Pequenos deslizes (Lackfin)

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Estrada deserta, pouca iluminação, o vapor de uma maquinaria subindo pelo ar, cheiro de óleo e gasolina vazando empesteando o asfalto sem muita manutenção. Um cervo abatido no meio da pista, um rastro enorme de sangue acompanhando o rastro de borracha derretida de pneus.

 

Um gemido de dor. Uma mão parcialmente suja de dedos quebrados aparece no matagal que esconde um brutal acidente de carro.

 

Um gemido de dor.

Um último suspiro.

 

Um gemido de horror.

 

----

[horas depois]

 

 - Como isso foi acontecer?

 - Ainda não sei, okay? - o médico franzino falava, estudante mediano da faculdade da cidade grande, preso ali para sua grande revelação na residência. - Um momento eu estava prestes a terminar de fechar a incisão e então... então...

 - Hey! Sem pânico, falou? Sem essa merda de pânico! - alertou o xerife agarrando o jovem pela lapela do macacão sujo ainda de sangue. Se arrependeu de fazer isso e limpou a mão no jaleco do rapaz que estava pendurado lai perto da maca do necrotério. - Como é que vou dar essa notícia a família?

 - Que notícia? Porque literalmente eu não morri...

 - Okay, você aí, calado, calada! Seja lá o que for! - o corpo nu na maca principal tateava os pontos em seu peitoral, verificando os nós da linha, as pregas entre os pontos mais duros da carne e músculos.

 - Oh ótimo! - o sotaque era visível, estranhamente perturbador e estrangeiro - Eu acordo aqui, com vocês gritando um com o outro e quando peço explicações...

 - Eu não sei o que tá acontecendo xerife, mas... mas... aquilo ali não é...

 - Eu sei que não é! - sussurrou o policial tremendo da cabeça aos pés, sua barba para fazer e grossos bigodes seguiam o mesmo padrão. - Ele... ela... Tem como você manter a oficial Dodson aqui por algum tempo...

 - No necrotério?

 - Longe dos olhos dos outros! A viatura já foi para o ferro velho, muita gente viu o estrago lá na rodovia. Não tem como negar que...

 - Há sempre o apelo religioso para o milagre... - disse a voz que era familiar naquela boca, mas alienígena por conter outro ser - Ou pelo menos é isso que podemos nos prender por ora. Ainda é um mundo voltado a crença dos grandes panteões ou pioraram em suas maneiras de adoração? - perguntou para o jovem doutor que coçava a cabeça com apreensão.  - Você parece nervoso, meu jovem. Sente-se e vamos colocar tudo em... como se fala? "Pratos limpos", é isso?

 - S-sim...

 - A árvore germânica nunca foi a minha favorita, mas salve as obras poéticas dos mais velhos, hehe. Ahn... Caro senhor, estás chorando?

 - Você estava morta...! - desesperou-se o xerife caindo no choro. O corpo nu olhou ao redor e para si. Pegou o jaleco agora sujo e se cobriu com certo cuidado. - Eu vi você morrendo, por Deus... Por Deus, Dodson... Você morreu nos meus braços...

 - E eu sinto muito por isso, caro senhor... É realmente trágico a forma como essa essência fugaz se esvaiu em poucos instantes de um eterno sofrimento para os demais... Gostaria que isso não te abalasse tanto quanto a mim, devo dizer. - e tocando o ombro do xerife, o corpo de Margaret Dodson virou-se para o jovem doutor igualmente abalado e trêmulo. - Um excelente trabalho, jovem curandeiro. Firme nos pontos, boa tecelagem, apesar de não gostar de ser o retalho que costuravas. Meus cumprimentos a sua destreza.

 - O-o-o quê é você...?!

 - Essa é uma pergunta deveras filosófica, meu caro jovem...

 - Estou falando com a Doddie agora?

 - Doddie? - o corpo franziu a testa em longo rememoramento. - Doddie, você disse?

 - Margaret Dodson, oficial da cidade. Filha de... Oh por Deus, o que irei falar para Gwen?

 - Oh esse era o nome dela? Doddie? Ou Gwen?

 - Seu nome Doddie ,é Margaret... - explicou o doutor. - A gente te chamava de Doddie, porque você... bem... você... - e se virando para o xerife em prantos. - Por que a gente chamava ela de Doddie?

 - Era um apelido... - e voltou a chorar, o corpo ainda estava confuso olhando para os dois homens na pouca iluminação da sala de necrópsia.

 - Um alepido?

 - Apelido. - corrigiu o doutor. - Um nome carinhoso que dão para as pessoas por algo que... Ah não peraê que o meu era "frangotestein" e eu não gostava nada dele...

 - Oh parece desonroso ter um apelido.

 - Doddie amava esse apelido!! - gritou o xerife e sem outra palavra saiu andando em passos pesados para fora da estação hospitalar onde ficava o necrotério da cidade.

 - Ele parecia ressentido.

 - Você é uma morta-viva praticamente.

 - Hmmmmmm... Curioso.

 - Você não vai comer o meu cérebro, vai? - o doutor deu dois passos para trás.

 - Por que eu faria isso? - a cara de nojo do corpo aliviou o jovem.

 - Você sabe... zumbis... comem... cérebros...

 - Se você quer dizer o fluído nada sacramental que corre dentro de sua face e que controla seus movimentos, não. É algo extremamente... pérfido dar valor a tal... desperdício de... - e apontando para a testa do jovem com veemência. - Espaço! Repugnamos qualquer coisa que venha do... dessa... Oh por (e a língua falada era completamente diferente para o jovem doutor entender), nós valorizamos o coração... - colocando as mãos em seu torso - E nossos humores. - uma das mãos no lado esquerdo do corpo.

 - Espere aí um minutinho... "humores"...? Como Hipócrates, humores? - a face do corpo recém-acordado de um longo sono iluminou-se com um sorriso quebrado e viscosidade na língua.

 - Hipócrates!! Hipócrates!! Você o conhece?! Diga-me?

 - Nós juramos pelo Juramento de Hipócrates em nosso... nosso...

 - Você é um discípulo de Asclépio! - e levantando as mãos para os céus e cobrindo o rosto coberto por pequenas incisões e feridas a coagular - Os deuses me enviaram para o lugar certo! - e após esse agradecimento, o jovem doutor pôde trancar a porta do necrotério, sentar em sua cadeira nada ergonômica e desmaiar.

 

 - Doddie, não toque nisso pelo amor...! - o jovem doutor conseguiu recuperar um vidrinho de amostra em particular que guardava para suas experimentações solitárias quando ninguém estava ali. Era algo que descobrira em um "paciente" que enterraram no outro distrito e que surpreendentemente havia aparecido ali, semanas depois, vivo e são, cometendo roubos de carga e assassinado um caminhoneiro. Os quatro tiros no rosto não detiveram o "paciente número zero", como o doutor chamava, mas a foice de um caseiro de uma fazenda afastada da cidadezinha sim.

 - Deixe-me adivinhar? Sangue coagulado, não necrosado pela degradação da morte e ricamente encorpado de hemoglobina?

 - Como você sabe disso?!

 - Eu li em um dos seus... como é o nome daquela coisa ali?

 - Você andou mexendo no meu computador?! Lendo meus arquivos?!

 - Arquivos? Oh por favor! É isso que chamam de arquivos agora?! Que disparate! - o corpo que não era mais um corpo, mas sim um ser humano vivo e se recuperando bem dos ferimentos, dos hematomas e milagrosamente (Se é que poderia dizer dessa forma) dos pontos de incisão em Y no torso, repetiu a palavra várias vezes, até a língua que o jovem doutor não conhecia aparecesse.

 - Doddie, você... Você não pode mexer nessas coisas... Elas são confidenciais...

 - O conhecimento jamais deve ser contido, caro curandeiro...

 - Doutor. - pediu Anthony. - É doutor.

 - Curandeiro não lhe serve bem?

 - Curandeiro é... hmmmm... ofensivo para ahn... quero dizer... é um termo que só usamos para... sociedades, grupos, tribos atrasadas...

 - Você está querendo me dizer que um "doutor" é melhor que um curandeiro...?

 - Basicamente somos, a Medicina moderna...

 - Deixe-me dizer uma coisa, criança e ouça com muita atenção. - a voz de Doddie era diferente nessas horas, Anto percebeu isso na primeira semana em que hospedou a jovem em seu quarto atrás do Hospital, enquanto foi morar em uma pensão ali perto. - Um curandeiro é o mensageiro dos deuses, nascido para curar e honrar os corpos dos guerreiros, servir ao Dom maior da Vida, Equilíbrio na balança da Justiça.

 - Você fala essas coisas e eu não consigo...

 - Você é um bendito curandeiro, tá me ouvindo? - e ao imitar o sotaque da região, o jovem doutor foi obrigado a rir em tristeza, era assim que Doddie falava quando estava viva. - Você me curou, isso já é um ganho na tabela de milagres... - a pessoa se espreguiçou com vontade e estalando as articulações.

 - Como sabe tanto sobre a amostra de sangue da ampola?

 - Houve um tempo em que precisamos pesquisar sobre esse fenômeno em particular. Algo tenebroso estava por vir, e muitos de nós sucumbiram a predação daqueles que vestem essa couraça sanguinolenta.

 - V-vestem?

 - É uma forma mais rebuscada de dizer que são sanguessugas, porque é isso que eles são.

 - Sanguessugas?!

 - Fale-me de seu paciente zero e eu conto o que descobrimos na Biblioteca.

 - Mas qual Biblioteca?!

 - É de onde eu venho, meu caro amigo. E para onde todos nós voltamos quando é nossa hora.