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Euforia - Fusão de Mundos na Era Meiji

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10 de junho de 1895 – noite

 

A estrangeira

 

                        O estrondo dos trovões no campo de arroz não assusta a sombra que rodeia seus pensamentos. Em um esforço vão de se arrastar para sua arma, tem o pulso quebrado ao ser pisoteado com um chinelo de madeira tão rígido que faria qualquer Monge Calvino chorar como um bebê. Seu grito de agonia é abafado por um mesmo chinelo de madeira enterrado perigosamente em suas costas perto da nuca. Algo saiu do lugar ali, com certeza. Seu rosto ferido pela luta anterior está enterrado em lama fria e pegajosa, seu corpo afundando levemente no charco do campo de arroz, pronto para se decompor sem ser encontrado facilmente. Quando sua visão turva adentrando a água suja do charco, ela pensa: “Como seria bom não voltar para o Hospital, afinal...” e borbulhando o último suspiro, ela se deixa levar pela doce melodia da Morte em seus ouvidos.

 

                        Um bandolim desafinado ao longe, o som da chuva como uma rajada de tiros em sua audição sensível, o grito de horror que atrapalha todo o resto, a lama, a chuva, a Vida. Com a força do desconhecido, virou-se rapidamente para aspirar o ar pesado no campo de arroz, como um recém-nascido faz ao sair de seu ninho, pronto para chorar pela Vida que lhe foi devolvida. E a Dor. Essa era a única sensação que não iria embora nunca. Desde que se conhecia como gente a Dor estaria sempre ali com ela, reafirmando que estava viva, mas igualmente próxima de uma morte prematura. O bandolim, a chuva e o grito se estenderam mais que deveria. Alguém estava seriamente apavorado ali e não era só ela. Arriscou-se a olhar as próprias mãos e tentou gritar em adoração a Dor Eterna. Estavam sujas de lama e sangue. Apenas.

 - Andeddo!! – esperneou um camponês apontando para sua direção. Outro armado com sua ferramenta de trabalho (Uma foice de mão), se aproximou cautelosamente.

 - Não Hajime! Essa coisa vai te morder e te transformar em um deles!

 - Os cartazes na cidade disseram para cortar a cabeça. Fácil! – o diálogo nonsense não se prolongou, estava mais preocupada por estar morrendo de frio, como milhares de pequenas agulhas congeladas estancadas nas costas e busto, pela chuva fina, fria e carregada que castigava sua pele coberta por arranhões, hematomas e ardência em um dos ombros.

 - Deixe isso com o Exército, Hajime!! – alertou um camponês, o mais destemido se aproximou dela e com a foice em riste ao seu rosto ocidental, ele sorriu envergonhado.

 - Essa coisa tem peitos... Parece uma mulher... – o camponês mais assustado e munido com o bandolim desafinado chegou para checar a descoberta.

 - É, parece mulher...

 - Mas olha só os cabelos... – a foice passou pela mecha rala em seu rosto quadrado de cabelos curtos. O frio da lâmina afiada deu certo desconforto em seu interior. Queria se levantar e sair correndo de pavor.

 - Talvez seja um daqueles seres que Takemiko Sensei achou no campo dos Maeda.

 - Você acredita no que aquele maluco disse? E se fosse um deles teria uma daquelas coisas enormes que eles pilotam junto.

 - Vamos ajudar a moça gaijin sim? – disse uma voz poderosa e se destacando pelo tom grave e de autoridade autenticada. Primeiro foi um borrão em sua vista, cinzento escuro, logo estava protegida por uma capa quente e confortável em seu corpo trêmulo e sangrio. Com a mesma destreza o borrão a levantou com um braço apenas e a colocou sob suas costas. Sua perna direita roçou em algo metálico e frio. A guarda de uma das espadas que os samurais daquela região ainda insistiam em usar. Seu queixo deixou-se pousar no ombro do bom camponês e mirou o caminho a ser percorrido como se estivesse na câmera lenta da exaustão e torpor. – Não fiquem aí olhando!! Vão avisar logo a Takemiko Sensei! Ele deve saber o que andam jogando nas plantações dele!

 - Hai! – disseram os dois camponeses ao mesmo tempo.

 - Agüente firme, gaijin... Agüente firme... – o bom camponês repetia a cada passo que dava. Pelo que identificou era um japonês da alta sociedade. Aquele não era um camponês de jeito algum.

 

11 de junho de 1895 – manhã

 

O Correspondente.   

Minhas bochechas sentem veludo, assim como a irritação em meu nariz sob o tecido com pelinhos tão sedosos e invisíveis. Meu corpo parece como uma bola de chumbo atirada por um canhão defeituoso. Sinto como se houvesse caído do Céu, pena não ser anjo, apenas um mortal embriagado pela luxúria desse antro chamado “A Casa dos Intermináveis Degraus”. Em um solavanco, levanto sem forças e percebo que esse foi meu primeiro erro de muitos nesse dia. Inteiramente nu como vim ao mundo, aceito a missão de acertar os passos de minhas pernas e conseguir ir até as minhas ceroulas penduradas em um cabide monumental enganchado no teto do quarto de igual cor carmim. Não é um cabide, é um gancho de pendurar carne. Por Odin... Onde devo estar?

                        As pernas me falham novamente e caio com meu peso no chão de madeira escura e encerada. O cheiro do linóleo usado ainda está ali. Esforço duplo para me levantar, o que aconteceu com minhas pernas afinal? Tento me colocar de joelhos, talvez assim não precise fazer mais que a gravidade manda. Estico minhas costas doloridas e percebo no imenso espelho de moldura dourada que me encara. Ou melhor, eu encaro. Maldição! Comandante Krigger não vai gostar nada da minha aparência. E maldição dupla! A audiência com o doutor é hoje? Que dia é? Procuro por relógios, por uma marcação de data qualquer. Não há. Apenas esse quarto luxuoso feito pela fantasia perversa da dona do lugar, todo decorado com um tom de carmim nauseante. Reavalio minhas lembranças da noite passada. Resposta claro? Absinto misturado com saquê não é seguro para nenhum cavalheiro descente e puritano como eu. Jamais perdi minha compostura com álcool, muito menos com mulheres de vida fácil. Nesse caso, mulheres de vida fácil, mas com costumes de sedução intrigantes.

 

A estrangeira

 

                        O primeiro raio de Sol que iluminou seu rosto a fez acordar aos poucos com o calor vago e a iluminação desnecessária. Estava de bruços, assim com lembrava como havia caído naquele campo de arroz. O motivo para estar em um campo de arroz no meio da noite e ser derrubada de bruços no charco enlameado é que era o problema maior. Não havia motivo algum de fazer isso, seja lá qual fosse a razão. O lugar onde estava era confortável. Além de confortável, era extenuante. Uma maca de acupuntura feita de bambu e coberta com lençóis tão brancos quanto as nuvens no céu da Manchúria. Seus braços estendidos para trás, apoiada em um buraco feito estrategicamente na maca para encaixar sua cabeça. O tilintar de uma agulha em um vaso de cerâmica chamou sua atenção. Ela tentou se virar para se proteger de qualquer outra coisa em formato pontiagudo que espetasse seu corpo, mas mãos grandes a forçaram na maca pelos ombros. Uma cabeleira azulada com mechas negras apareceu debaixo da maca e um sorriso largo a recepcionou. As mãos continuavam em suas costas, revitalizando sua tensão com uma massagem esmagadora.

 - Oi! Tudo bem, como vai você? – disse a jovem de cabelos berrantes apertando seu nariz levemente. – Tudo bem aí?

 - Eu diria que sim... – a força empregada na massagem fez um ponto entre seu ombro e nuca estalar sonoramente. – Aaaaaaai! – a mocinha riu da careta de dor que ela fizera e se colocou sentada ao chão, na altura de seu rosto virado para baixo, cutucando uma mecha negra de seu cabelo com fervor. – Seja lá o que queiram, eu não sei de nada!

 - Oh sim... Isso é clássico... – uma voz em alemão veio das mãos prensadas em suas costas. - Não estamos te torturando...

 - Não somos inimigos... – disse a jovem tirando uma credencial avermelhada e laranja do bolso da jaqueta ocidental de camurça que usava. Muitos detalhes para processar ao mesmo tempo sobre essa mocinha em particular. – General Mecker pediu para te dar um descanso. Anda trabalhando demais. – outro estalar de ossos, entre a vértebra lombar. – Ui, isso deve ter doído...

 - Gaaaaah!! – foi a primeira reação ao ter a vértebra comprimida e depois uma sensação de relaxamento completo se apoderou em todo seu corpo. – Aaaaaah...

 - Melhorou né? – sua bochecha foi apertada fortemente pela jovem eclética. – Agora posso explicar a situação...? General Mecker pediu para manter sigilo quanto sua identidade, mas tudo bem, aqui nós vivemos disso...

 - Mova seus ombros para trás, sim? – pediu a voz das mãos poderosas. Ela obedeceu e sentiu-se feliz por ter a mobilidade dos braços restabelecida.

 - Então ele pediu para que cuidássemos de sua estada aqui em Shimonoseki... A vida pode ser bem difícil aqui por esses lados... – a mocinha disse pegando um palito de dente e colocando entre os lábios. – Sabe, você é bem legal... Sinto que seremos grandes amigas... E trocar idéias, essas coisas que pessoas normais fazem quando tem amigos... 

 - Pode se levantar, gaijin... – disse a voz poderosa. Logo ela sentiu o torpor dar lugar a uma serenidade incrível, dentro de seu corpo machucado e em sua mente. – Como se sente?

 - Viva...

 - Bom saber! – disse a garota de cabelos azulados ficando ao seu lado. O silêncio ficou entre os três ali.
O homenzarrão loiro e marcado por queimaduras no pescoço e parte do rosto usava um kimono todo branco com um avental com um ideograma dizendo: “Cozinheiro”, a estrangeira olhou para seus pés e viu-se vestida como uma daquelas mocinhas japonesas, um vestido floral que confundia com o kimono básico por cima. Sapatilhas fechadas em seus pés não mais doloridos, mãos limpas e sem cortes.

O pulso que sentira vagamente que se desligara de seu corpo, estava ali, intacto.
– Vamos aos negócios? – a mocinha de cabelos azulados a puxou rapidamente pelo braço e a arrastou da salinha onde estavam (Que na verdade era uma parte da cozinha de algum lugar, já que havia panelas, potes de tempero de cheiro forte e pedaços de carne de porco esperando para serem salgados e servidos) para um suntuoso restaurante de iluminação baixa e ricamente decorado com parafusos. Sim, parafusos por todos os lados. E grandes rodas de mecanismos que giravam lentamente em ruídos baixos e bem coordenados por outros mecanismos reluzindo em bronze na pouca iluminação do lugar.

Senhores trajados em smoking e trajes de gala circulavam por ali e por aqui na companhia de gueixas bem arrumadas, todas com um sincero sorriso em seus lábios e ouvidos atentos ao desejo do cliente.
 
– Seguinte: Sua missão ainda não terminou, sabe? Temos muita coisa a fazer agora. As pistas podem ter esfriado, mas não quer dizer que estão perdidas. E eu sei que você tem o faro para isso não? Hey? – seu olhar parara perdidamente em uma gueixa em particular, em um kimono inusitado de cores berrantes e cabelos elevados com uma armação de arame. As meias debaixo eram em um azul turquesa tão penetrante que seria difícil arranjar um cliente com essa escolha de vestimenta. – Heeeeey? Tá me escutando? – a gueixa era estrangeira, assim como ela. Rosto quadrado, traços dos povos vindos do norte da Rússia, maquiagem tão bem colocada que parecia uma máscara de porcelana sob o rosto. Teve seu queixo esmagado por dois dedos que buscavam atenção. – Pode prestar atenção em mim, faz favor? – ela concordou com os lábios prensados pela mão da mocinha de cabelos revoltos. – Bom saber! – soltando seu rosto e voltando a pauta da conversa. – Sei que você não se dá bem com esses samurais por aí, mas temos que colaborar com os Maeda. São eles que pagam nossa comida, sabe? E eu não quero ficar sem comida, se é que me entende... Sensei Naki disse que podemos dar uma segunda olhada na cena do crime lá no Rochedo No Karasu... Você nem tá aí pra o que eu tou falando né?

 - Minha cabeça... – ela resmungou segurando fortemente sua cabeça com uma das mãos. Notou que seus cabelos estavam tão curtos quanto se lembrava.

 - É, costuma doer. Você já reclamou disso... Vamos... Tenho que te levar ao Distrito, dar parte no seu sumiço, te arrumar apropriadamente... – olhou para a mão que passara pelos cabelos. Por que tinha essa sensação que o simples gesto de passar a mão entre os cabelos traria algum tipo de revelação?

Ganharam a porta da rua e a placa entalhada em madeira na fachada era: “A Casa dos Degraus Intermináveis” ou “Maison de l'escalier sans fin” no original.
Soltou do braço apertado da garota de cabelos azuis e olhou de volta para a fachada do prédio desgastado e velho por fora.
Passou as mãos novamente nos cabelos e as mirou com dúvida. Alguma coisa deveria acontecer após isso.

Qualquer coisa.
Então viu o que deveria ser uma pista: Um dos fios que vieram entre os dedos acusava claramente, debaixo daqueles cabelos curtos e negros havia uma raiz de cor indefinida.
Um acobreado escuro.