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O Elixir de Boas Memórias

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     Kormac aparentava estar profundamente perturbado desde a queda de Maltael, quando ele descobriu a verdade sobre sua amada Ordem. O templário andava cabisbaixo, quieto e do pouco que conseguia dormir, passava se revirando na cama, sendo consumido por pesadelos. O semblante alegre e inocente sumira como se levado pelo vento e uma nuvem negra pairava sobre ele.

     A Nefalem, Valla, percebeu que o comportamento do templário havia mudado. Inicialmente, ela achava que fosse apenas uma reação aos últimos dias. Lutar contra os mortos, invadir o Inferno para destruir o Mal incarnado e pouco tempo depois ter de matar a própria Morte era demais para assimilar de uma vez só. A caçadora lhe deu espaço para colocar as coisas no lugar em sua cabeça. Ela havia sido treinada para aceitar os horrores do mundo como parte dele. As trevas sempre seriam necessárias para que pudesse haver luz. No entanto, isso não era tão simples para Kormac. Para eles, a Ordem, o mal devia ser erradicado de qualquer maneira e quando o templário percebeu que eles eram tão semelhantes quanto aquilo contra que lutavam, foi impossível não ser arrastado por uma onda de desesperança diante de tamanha desilusão.

     Valla comenta da batalha interior de Kormac com Miriam. Ela esperava que a vecina tivesse algum conselho que pudesse ajudar o homem antes que ele se perdesse sem volta nas águas da culpa. A mística, que infelizmente entendia mais da magia do que da alma humana, sugeriu um elixir de boas memórias, que seria capaz de recuperar um bom momento da vida dele e tirá-lo temporariamente daquele espírito de tristeza. A poção tinha um efeito bem simples, levava quem a bebia a um estado de delírio no qual ela veria a última lembrança agradável que tivesse tido. A caçadora de demônios revirou os olhos. A semelhança daquele efeito com a de qualquer droga ou elixir maléfico era digna de suspeita.

        – Que nada, Celsa, isso aliviara a dor do coração dele por algumas horas. Depois disso, será mais fácil para ele encarar a realidade, sabendo que a vida é pontilhada por altos e baixos.

      Com um grunhido incrédulo, a caçadora vai atrás dos ingredientes. Cogumelo Negro e pó de chifre de Khazra. Valla sentia que algo estava prestes a dar errado. O elixir parecia milagroso demais. Talvez eu esteja errada. Ela vira as portas do inferno se abrirem e as abominações andarem sobre a terra diversas vezes. O que custava dar um pouco de crédito a uma poçãozinha? No pior dos cenários, o placebo se provaria fajuto. Sem dúvida, Kormac não morreria por beber aquela mistura. Um pouco de fé e ódio nunca fez mal a ninguém, né?

     A caçadora viu uma mistura verde borbulhar no caldeirão da mística. Aquilo, de modo algum, parecia algo com a função de lembrar momentos alegres. Mais parecia um veneno ou elixir de ressurreição para necromantes. Novamente, aquela sensação de que algo ruim estava para acontecer corre pela sua espinha. Porém, jogou esse sentimento de lado quando Miriam lhe entrega um frasco fechado.

     – Aviso desde já que o gosto não é lá dos melhores.

     Tyrael estava sentado no balcão da taverna do Novilho Esquartejado quando Valla cruza seu caminho. Ele marcavam as novas caçadas que surgiram em um mapa da região de Nova Tristam. Ele se vira para anunciar o alarmante número de monstros que ainda sobraram e que precisavam da “atenção” dela, mas o vidro nas mãos da caçadora atrai sua curiosidade.

     – O que é isto?

     – É uma poção de boas memórias. Para o Kormac.

     – Nunca ouvi falar de uma poção assim. O que ele quer com isso?

     – O templário não parece bem desde o fim de nossa jornada. Acho que algo está o afetando profundamente.

     – Ele está machucado?

– Não, Tyrael, fisicamente ele está perfeito, mas algo o incomodando aqui – aponta para o coração – Não sei se vocês anjos já sentiram algo assim.

     – Tipo… uma angústia? Bem, realmente não sentimos, mas sabemos como ela pode virar a mente de uma pessoa. Se você não se importa, gostaria de conversar com Kormac.

     O templário estava apoiado na janela. Seu olhar estava perdido no horizonte, refletindo a melancolia que o devorava a cada dia. A entrada dos dois visitantes não o arrancou de seu estado absorto. Apenas quando a Nefalem chamou-o pelo nome que Kormac percebeu a presença dela e de Tyrael. O rosto cansado de Kormac exibia olheiras escuras e um breve sorriso se formou nos lábios deles, desvanecendo para a mesma expressão deprimida em que estava antes. Tyrael se aproxima e pousa a mão sobre o ombro dele.

     – Viemos ver o que se passa com você, templário.

     – Não é nada. Só estou cansado.

     – Kormac… sabemos que não é só isso – Interrompe a caçadora.

     Tyrael olha para Valla como se pedisse para que ela deixasse que o templário tomasse a iniciativa.

     – Estamos preocupados contigo por causa de seu espírito nos últimos dias. Você pode desabafar conosco qualquer coisa que estiver pesando no seu coração. – Eu… eu não consigo tirar a minha Ordem dos meus pensamentos. Não paro de pensar em todas as coisas horríveis que eles fizeram com os iniciados. E que, talvez, tenham feito comigo. Estou me sentindo sem um norte.

     – Não diga isso, Kormac. Lembre-se que você não é responsável pelos atos dela. Pense em tudo que você fez de bom pela Luz. Você seguiu o caminho do bem mesmo quando sua Ordem se corrompeu.

     – Você está certo, Tyrael, mas sinto que perdi um pedaço de mim quando deixei os corpos daqueles templários para trás – suspira – Às vezes, gostaria de voltar no tempo e voltar em um período bom da minha vida.

     – Talvez você possa – a caçadora entrega o frasco a ele – Não é permanente, mas você poderá revisitar uma lembrança boa de seu passado.

     Kormac chacoalha o vidro, fazendo o líquido viscoso dançar. Seus olhos demonstram desconfiança, mas esta é rapidamente substituída por um dar de ombros desanimado.

     – O que eu tenho a perder, não é mesmo?

     O templário bebe a poção em um gole só. Segundos depois, começa a tossir violentamente e cai de joelhos. Tyrael segura o homem antes que ele desmaiasse. Kormac agarra as roupas do anjo e olha sem expressão e nem reação para o ambiente.

     – Caçadora, o que está acontecendo?!

     – Eu não sei. Não foi isso que a mística prometeu.

     – Kormac, olhe para mim. Está tudo bem?

     Kormac encara Tyrael e começa a sorrir. Recuperado do efeito inicial da poção, abraça o anjo, quase derrubando os dois no chão.

     – Templário, o que você está fazendo?

     – Papai, você está de volta!

     – O que? Kormac, eu não sou seu pai! Me solte… pela Luz. Caçadora, CHAME A MÍSTICA AQUI AGORA!

     Quando a Nefalem voltou com Miriam, o templário ainda estava abraçado com o anjo, com a cabeça encostado na armadura dele. A vecina vê a cena e desata a rir como se não houvesse amanhã. Tyrael fica visivelmente incomodado pela estranheza de toda a situação.

     – Por que ele está fazendo isso?

     – Ora, é bem simples, a memória feliz dele é com os pais dele.

     – Mas você não havia dito que seria a última memória dele? - rosna a caçadora.

     – Parece que ele vêm sofrendo faz bastante tempo. Uma memória tão antiga.

     – Mas por que ele está me chamando de pai?

     – Essa poção altera os sentidos, principalmente, a visão. Logo, ele deve estar vendo o pai dele em você. Talvez ele nem se veja como um homem adulto. Kormac, meu querido, quantos anos você tem?

     Kormac levanta a cabeça do peito de Tyrael, observando Miriam, depois tira um dos braços do pescoço do anjo, mostrando a palma da mão aberta.

     – Cinco anos, hein? Vamos ver, quem é sua mãe, pequeno Kormac?

     A caçadora olha com terror para o templário, rezando para não ser a mamãe dele. O tom descompromissado da mística estava a levando à loucura. Ela havia armado aquele circo e ainda estava se divertindo com o desespero deles. Porém, Kormac desvia o olhar da Nefalem.

     – Sou eu, então? – abrindo os braços – Venha com a mamãe!

     – Você não é a minha mãe!

     Kormac volta a esmagar o anjo com sua força desmedida. Ele está a beira das lágrimas. Seu corpo parecia pedir para que o anjo o protegesse daquelas desconhecidas. Não foi preciso que ninguém articulasse nenhuma pergunta. Eles entendem que muito provavelmente, Kormac sequer a conhecera. Talvez ela tivesse morrido quando o templário ainda era pequeno demais para se lembrar dela.

     – Tudo bem, Kormac, está tudo bem – correndo os dedos sobre o cabelo dele – Mas agora você precisa me soltar para que eu possa… respirar.

     Tyrael se desenlaça dos braços do templário e se levanta rapidamente antes que Kormac decidisse lhe atacar com outro abraço de urso. O templário continua sentado no chão, olhando para o anjo maravilhado. Se alguém entrasse naquele instante, jamais diria que aquele homem era um dos responsáveis pelo fim de Diablo e de Maltael. Este pensamento passou pela cabeça da caçadora naquele mesmo instante. Não poderiam deixá-lo sair naquele estado ou toda Nova Tristam pensaria que o homem havia enlouquecido.

     – Quanto tempo dura essa poção?

     – Até o amanhecer.

     – NÃO É NEM MEIO-DIA! O que faremos com ele todo esse tempo?

     – Vocês complicam tudo! Brinquem com ele, contem-lhe uma história e qualquer coisa que uma criança faria!

     – Oh, ótima dica! Não sei se você percebeu, mas ninguém aqui possuí muito instinto materno ou paterno.

     – Eu ficaria com ele, se não tivesse uma tenda para cuidar e também, infelizmente ele não quer saber de mim.

     – E, “infelizmente”, isso frustra os seus planos de afundar a cabeça dele em seus peitos, não é?

     – QUE? NÃO! Err.. Quero dizer, jamais pensaria em tal coisa – apontando para a porta – Minha Tenda. Preciso voltar para ela.

     Tyrael e a caçadora se entreolham enquanto a mística saía de fininho. O arcanjo era mortal há tão pouco tempo que mal conseguia entender suas próprias necessidades, quem dirá a de uma “criança”. Já a caçadora, que tivera uma irmã menor chamada Halyssa, trabalhava na fazenda quando esta era menor. Logo, os dois não tinham a menor ideia do que fariam pelas próximas horas.