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Personal Jesus

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Acordar era a pior sensação que poderia lembrar em seus músculos quando voltava a habitar o mundo dos vivos.
Asas que se retraiam em braços frágeis, comprimidas em costelas fragilizadas, órgãos tão grudados uns aos outros, mal dava para respirar direito. Compactado nesse corpo minúsculo, retraído, cheio de limitações e proibições. Seus dedos apertavam algo poroso, enraizado, úmido, difícil de relembrar a textura em sua definição natural. Estava quente, conseguia ouvir aquele órgão maldito palpitando em seu pescoço, agora segurando uma cabeça disforme, grande, pesada, quebradiça.
Desesperada e faminta.
Tão fraca e impotente.

 

Os ouvidos atentos a pequenos ruídos de arranhaduras, revolvendo a terra aos poucos, centímetro a centímetro, pequenas vidas insignificantes se alimentando dos cadáveres que disputavam o lugar com ela. O ar que precisava foi preenchido com um odor pestilento de chuva carregada, destroços, madeira queimada, corpos a apodrecer. Precisava respirar, não engolir aquele veneno que era oxigênio.

 

- Anjinho vá embora, venha conversar comigo outro dia. O Diabo tem meus ouvidos por hoje, não vou conseguir ouvir nada que você tem a dizer. Ele me disse que posso ter finalmente meu descanso e paz de mente, seja lá o que se isso possa existir.

 

O grito foi para dentro em uma boca aberta afundada com terra úmida e amarga em ocre paladar. Tentou cuspir tudo ao mesmo tempo, em respirar ruidosamente, em se mover daquele inferno particular. A rudeza de seus movimentos produziam as primeiras cicatrizes de uma nova vida, aprisionada em um corpo mortal para toda eternidade, em voltas e revoltas de um ritual feito com a pessoa errada. Um mero teste para o aperfeiçoamento.

 

Uma cobaia.

Um erro de percurso.

 

Um de seus ossos estalou assustadoramente, causando uma dor que lembrava que estava acostumada a sentir sempre. Outro grito, esse para fora, cortando a noite inteiramente escura, silenciosa e amaldiçoada pela neblina. O pescoço forçando a cabeça quebradiça para fora de seu túmulo natural. A friagem da madrugada agredindo seu rosto banhado de suor, sangue coagulado e terra. O braço estourado pelo esforço de cavar desesperadamente para fora daquele útero infecto da mãe tão bondosa em sua graça de dar vida aos vivos, mas maltratar os mortos.

 

E ela no meio. 
Entre um limiar e outro.

Viajante temporário de vidas passadas aglomerada em um conjunto disforme de carne e ossos.

Onde acordara dessa vez?

 

Os olhos que abriram captaram nenhuma luz, mas sombras de muitos que pereceram junto a ela. Quando fora aquilo?! Os ouvidos agora apurados com as pequenas mudanças na atmosfera. Alguém que vira a oportunidade de atravessar o Véu, outro lamúrio ao longe, uma blasfêmia, um choro, um canto, baixo, melodioso, ao seu lado. A canção encostando em sua mão dilacerada pelo esforço de levantar dos mortos. A aproximação era como uma mariposa atraída pela luz cegante. A neblina confundia seus sentidos, mas a presença ali, ao lado, inevitável, imprevisível, irresistível.

 

Com um impulso violento fez seu corpo escapar do invólucro de terra, raízes e grama. As mãos tateavam a grama verdejante e escorregadia pelo orvalho da madrugada, buscando conforto para as primeiras perguntas.

 

Por quê?
Por que agora?
Por que novamente?

 

A escuridão e o silêncio subiam por seus poros, invadindo seu ventre e músculos e ossos, esgasgando sua garganta dolorida, cuspindo muco podre e parte do solo agora fértil. O próximo grito foi silencioso, uma ode ao silêncio dos mortos que ali pairavam, perdidos em suas próprias trilhas para o Além. O choro esmagador tomou conta em segundos, todas as dores do mundo em um único singelo momento de verdade disfarçada.

 

- Anjinho, você levantou agora? Não, não é seu tempo ainda. Há muito a ser feito. Muito a ser construído? O que farei com meu celeiro de boas almas? Não, não, durma novamente e fique nos braços daquela que protege, mas também castiga com sadismo quem se atreve a acordar cedo demais. Fique, fique minha criança.

 

O impulso das pernas se projetou dos joelhos para as coxas, voltando com toda força para tendões e tornozelos. O pulo não anunciado foi ouvido por ninguém. Dois corpos - um material, outro necrosado irreal - caíram no chão fofo de um campo de golfe recém inaugurado. O ruído incessante de uma tempestade de areia ecoando como um alarme permanente, a canção que se sobressaía apesar da confusão de sons. Tudo estava tão límpido agora, tão...

 

 - Obedecei-me cria do Arges, ou pagarás caro! Tuas relíquias, jamais encostará novamente! Obedecei-me e vá dormir!

 

Os grilhões que prendiam os desafortunados foram a inauguração de uma nova hierarquia. Correntes que dilaceravam almas para a Grande Tempestade, coletando os perdidos que não encontravam seu fim na Morte. O Ceifeiro era invencível quando sua colheita era farta. Naquele campo de golfe verdejante havia um pasto vasto e coberto por genocídio cainita de décadas atrás. No ranking daqueles que colhiam, um Amenti era um prêmio único, uma joia rara, um fragmento de estrela.

 

Um braço arrancado e sua respectiva arma de colher. A foice tão enferrujada em seu uso nefasto, presa por corrente atreladas ao corpo do ceifador caiu ao chão com som abafado. O outro braço segurando a mão poderosa que esmagava sem dificuldade uma garganta que não produzia voz. A carranca horrenda do ceifador foi tomando forma, devagar em sua transição entre a Mortalha e a Realidade. O mundo dos vivos mesclado ao dos mortos, dois universos completamente diferentes em simbiose. Tinha feições lindas, horrorosamente lindas e angelicais, como um erro divino de ironizar a pena dos pobres mortais ao disfarçar seus piores servidores com a face de seres tão puros e imponentes.

 

- Odeio receber ordens de quem não respeito. E a sua estirpe não me agradou nunca. - seu punho pressionava devagar, saboreando o gorgolejo da criatura definhando em suas mãos. A Morte era algo natural em seu estado de vida, retirar a morte de um ser que ceifava vidas de outros parecia ser mais prazeroso do que sentir a dor de nascer de novo.

 

- Não ousas me assassinar! Eu sou o Pastor dessas terras e nada me faltará! - os dedos afundaram na carne tenra e malcheirosa da criatura do submundo. Como uma mariposa atraída pela luz. Esse era seu legado. Sua Sina. Sua distração.

 

A foice caída no chão atendeu o chamado do novo dono, serpenteando ao chão verdejante e molhado para as mãos pálidas e de dedos longos de unhas impecavelmente pintadas de preto. Um golpe certeiro e rápido, ceifador da Grande Tempestade arruinado em sua existência, uma nova hierarquia selada pelo sangue brotando na mão que segurava a criatura.

 

 - Interrompi algo importante?

 

 - Quem és? - a resposta veio no idioma que nascera sabendo. Algo tão antigo que nem as pedras gravadas de seu povo sobreviveram para contar a História.

 

 - Apenas passando por aqui. Admirando as estrelas. - a foice naquela mão não era nada agradável, sentiu sua espinha contrair rapidamente quando visualizou o movimento rápido da mão girar a arma letal e recolher as correntes que a prendiam no antigo dono.

 

 - Criança, vá. - advertiu apenas, o seu despertar estava próximo, e se com um ceifador havia reagido imediatamente, o que diria de uma cainita?

 

 - Irei ignorar essa sua insolência. Venha, pegue minha mão e vamos sair daqui.

 

 - Eu não sigo ninguém e não aceito ajuda dos mortos vindos da maldição de sangue imundo de Caim.

 

 - Oh, levaria como uma ofensa pessoal, mas compreende sua situação agora? - mostrando a foice com um certo ar cínico. - O meu prêmio é esse e irei reclamá-lo. Você não pode contestar esse fato. Você é minha.

 

 - Se me acordou de longo sono, deve haver um motivo profundo para essa atrocidade. - as palavras no idioma atual vieram automaticamente, como um resíduo de lembrança escorrendo entre as paredes de sua caixa craniana e arrastar em sua língua dolorida. A cainita deu de ombros sarcasticamente e abriu um sorriso de dentes afiados, lábios sobrenaturalmente rubros, olhos escondidos em maquiagem pesada e de cor escura. Os cabelos longos escondiam parte da crueldade em seus olhos refletindo a luz do luar opaco.

 

 - Eu estava entediada. - dando a mão anormalmente pálida para a múmia renascida das distantes areias de Duat. - Vamos?