Actions

Work Header

Recollection & Foreboding

Chapter Text

"É preferível conviver com os que mentem conscientemente, porque esses também sabem ser verdadeiros conscientemente."

 

-- DOMINGO, 20 de novembro. Tarde. Tempo nublado. --

 

Akira abriu os olhos, subitamente, estando de volta ao Salão de Veludo. Ela franziu os olhos por um momento, aquele vai e vem estava lhe deixando tonta. Houve momentos durante o interrogatório de Sae que ela temeu fechar os olhos e não conseguir mais ficar desperta...

Que raios de droga era aquela? Até as guardas do Salão de Veludo sabiam que ela afetava a consciência de uma forma brutal.

Ela tentou levantar, aos poucos, a cabeça ainda pesada. Ela segurou as barras de sua prisão, não num gesto de protesto, de sinalizar que queria sair dali, mas só para ter algo em que segurar caso perdesse o equilíbrio.

As guardas da prisão estavam em seus postos, ladeando sua cela, e a sua frente estava o misterioso mestre do Salão de Veludo, Igor.

"... Parece que você foi morta. Mas por que você foi morta? Por que você tinha que morrer?" Igor a questionou, indagando novamente. "Você se lembra? Parece que você se esqueceu de um fato importante enquanto sua mente estava nublada."

Era para eu ter sido morta...

"De fato. Essa 'fatalidade' foi uma necessidade para que você escapasse de uma morte certa." e Igor riu antes de continuar. "Que plano formidável. Como vocês foram capazes de realizar tal feito...? Bem, vamos despertar as memórias que estão faltando..."

Akira tentou pedir uma pausa, mas seus lábios mal se moveram, Igor não a ouviu, as memórias surgiram com força em sua mente.

Indícios que ela mal prestou atenção, que preferia ignorar, que fazia força para ignorar... ela não queria ver o detetive dessa forma... não quando...

As lembranças surgiram e ela foi forçada a se lembrar, mas foi breve dessa vez.

Uma memória fugaz, do festival escolar de Shujin... Morgana argumentando que era estranho Akechi só ter percebido ali que ele podia falar, sendo que o detetive já havia o escutado antes, se fez aquele comentário sobre panquecas durante a visita deles ao estúdio, lá em junho... Morgana desconfiava do detetive, e mais do que comentar suas suspeitas com ela, ele quis que o grupo todo ficasse sabendo, que aquele detalhe era importante demais para passar em branco, poderia ser o indício que algo ali estava mesmo estranho, fora do esperado...

E Mona também conseguiu arrastar Futaba para sua paranoia, solicitando para que ela os ajudasse a grampear o celular de Akechi. Ela comentou que seria difícil, que teria que ter o aparelho dele em mãos, mas que não era impossível. Futaba disse que ela mesma iria agir, disse que mal podia esperar, rindo de forma conspiratória.

E foi a partir daquilo, de uma desconfiança meio implicante e quase inoportuna, que eles descobriram todos os planos do detetive... planos que até agora ela não conseguia acreditar, não queria admitir.

"Parece que finalmente você se lembrou. Esse 'jogo' ainda não terminou."

Sim. Eu ainda estou viva. E eu preciso tirar satisfação com certas pessoas...

"Ainda há muito a ser feito."

Diante da afirmação de Igor, algo mais veio à tona. Diante da pausa do mestre do Salão de Veludo, ela finalmente pôde concluir o que ocorreu.

Minhas lembranças estão ficando um pouco mais claras... É isso mesmo. Isso foi o que realmente aconteceu comigo naquele momento... Quem morreu não foi exatamente eu... foi minha imagem cognitiva. Eu não morri... embora minha cabeça ainda esteja rodando.

Ela piscou os olhos, despertando, quase batendo a cabeça na mesa do interrogatório. Akira ajeitou sua postura, cruzando as pernas para ver se melhorava aquela tontura. A jovem respirou fundo, calmamente, e um sorriso de ironia surgiu em seu rosto, um sorriso de desafio.

Eu estou viva.

Claro que sua visão tinha que estar borrada... e não era só por conta da falta dos óculos. Akira mordeu o lábio, não queria desmaiar e fazer mais uma visita ao Salão de Veludo... queria só descansar de verdade...

Ela ouviu a porta sendo aberta, e um vulto levemente difuso se aproximar, logo entrando em foco assim que a distância foi reduzida.

"Akira!"

"Sae-san..."

"Você está bem?"

"Não... eu me sinto tonta, na verdade... a droga deve ter algum efeito colateral... foi uma dose muito alta."

Não foi isso o que disseram? Que a droga era forte demais?

"Aguente firme. Eu vou te tirar daqui."

Sim, mas...

"Sae. Era para eu estar morta."

"Sim, mas ----"

"Eles precisam acreditar nisso. Eu morri. Ok?"

"Sim, mas como?!!!!"

"Overdose." ela disse de forma arrastada, com os últimos vestígios de consciência.

"Akira!!!"

 

 

 

A jovem fechou os olhos, desmaiando de novo. Podia sentir que estava voltando outra vez ao Salão de Veludo.

"Ainda há muito a ser feito. Mas as coisas estão indo bem, na verdade. Você tem ajuda externa. Mas só por precaução..."

Igor mencionou, e depois ela realmente apagou. A sensação foi similar a de fazer uma fusão de Personas --- há um momento, uma fração de segundo, em que se sente um vazio, a ausência das Personas sacrificadas, sem que haja a presença da nova Persona. Mas não foi só um momento. Uma eternidade se arrastou junto de sua consciência que esvanecia.

Era como se ela não estivesse com Persona alguma.

 

 

 

-- DOMINGO, 20 de novembro. Começo de noite. Tempo nublado. --

 

As trevas dominavam tudo, e ela mal ousou se mover. Havia a estranha sensação de seu corpo estar doendo e ao mesmo tempo não estar sentindo nada.

Estou exausta... Parece que minha consciência está prestes a apagar... ou seria acender? Meus olhos estão pesados...

"Hrrmnn..."

Ela resmungou, sentiu que estava em movimento, com um som baixo e constante, e esse movimento foi reduzindo até parar. Lá fora, os carros passavam pela janela, enquanto a motorista ficou parada no acostamento.

"Ei, você está bem?" Sae lhe perguntou, e ela resmungou.

"Não sei..."

A procuradora suspirou, exausta.

"Achei que você tivesse morrido mesmo." ela admitiu, aterrorizada com a ideia. "O legista nem fez muita questão de verificar, mas você estava praticamente sem pulso. Sei que você precisa passar despercebida, mas se seu estado piorar..."

"Preciso... ir ao médico, não... é? Tudo bem. Takemi. Clínica... Takemi. Fica em... Yogen... Jaya. Perto do..." ela fez uma pausa, suspirando, estava tão cansada, até algo tão simples como falar era difícil... "ah, fica perto do... do antigo cinema..."

"Por favor. Não durma até chegarmos ao nosso destino." Sae lhe pediu, ligeiramente alarmada. "Estamos de carro. Tem como você aguentar uns quinze minutos?"

"Hm...?" a jovem resmungou, confusa.

"...Você está me ouvindo?"

"Mais... ou menos..."

Sae não voltou a fazer perguntas, ela sentiu um movimento lateral, um barulho de seta, e o carro acelerando. E um pouco de tontura. Ou enjoo, ela não sabia ao certo.

Será que o efeito da droga já está passando...?

Eu estou me esquecendo de alguma coisa... sinto que esqueci algo importante... mas acho que estou lembrando agora. As memórias que eu pensei que tinham sumido agora estão começando a voltar... Memórias do que aconteceu há pouco tempo...

Ela lembrava de quando descobriu todo aquele esquema... de que na verdade, Akechi era um assassino... estava cooperando com um assassino... com alguém que queria que o grupo fosse eliminado e que ela fosse morta...

Mas...

 

Será que era isso mesmo? Akechi seria tão frio e tão cínico a ponto de fingir uma amizade? Ela podia sentir --- podia jurar --- que as ações e comentários dele, enquanto estavam juntos, eram sinceros...

Ele era mesmo parte daquela Conspiração? Ou estava sendo forçado a tal? O que ele falou no hotel... o que ele comentou durante a invasão do Palácio de Niijima... tudo mostrava que ele carregava um profundo arrependimento, ela só não sabia do quê...

Qual foi a última coisa que ele disse?

'Joker… Caso ocorra o pior… saiba que eu faço parte da equipe de investigação, ainda que por trás dos bastidores. Eu posso te tirar dessa'.

Ele fazia parte da equipe de investigação, ele estava certamente envolvido naquela Conspiração... E sabia que algo ruim iria acontecer... bem, ele mesmo sugeriu isso, o seu assassinato dissimulado como suicídio. Mas...

'Eu posso te tirar dessa.'

Era o que ele realmente queria? Pelo o que ele disse... Akechi poderia salvá-la do destino que ele mesmo determinou. Talvez... fosse justamente o contrário? Talvez... ele também estivesse procurando uma forma de enganar aquele demônio, aquele assassino que queria que todos ali fossem eliminados?

Talvez...

"Ei. Chegamos. Akira... Você está bem? Precisa de ajuda para sair, ou é melhor eu chamar..."

"Não." Akira a interrompeu. "Eu... eu consigo... sair sozinha."

Ela abriu os olhos, as mãos tremendo mas conseguindo tirar o cinto e se deslocar para fora do carro, Sae mantinha a porta aberta. Ela aceitou a mão oferecida pela promotora, ela não confiava muito no seu equilíbrio no momento.

As duas adentraram na clínica, a médica estava calmamente lendo um artigo atrás do balcão, mas quando viu as duas ali, se levantou num salto.

"Akira?!!!!" A médica saiu correndo, logo estando no mesmo lugar do que elas, encarando a dupla de forma atônita e alarmada. "O que aconteceu?!!!"

"Oi Tae... eu... me machuquei... um pouco..."

"Um pouco?" Tae sibilou, contestando. "Não quero saber. Vai direto para a sala de exames."

 


 

Sae já tinha visto a tal médica antes. Ao menos era o que ela achava. Achava que a tinha visto no Leblanc, sem o jaleco é claro. Mas ela lhe pareceu muito calma, até morbidamente calma para falar a verdade. Essa impetuosidade contida de agora era um grande contraste com aquela lembrança.

A médica ajudou Akira a se sentar na maca, a jovem não parecia bem, ainda continuava pálida. Era como se a qualquer momento a garota fosse desmaiar.

"O que você está sentido?"

"Tontura."

"E?"

"Só... tontura, na verdade. Muito... forte." A doutora franziu a testa diante da resposta.

"Da onde vieram essas lesões, Akira?" a médica gesticulou, indicando os hematomas e vergões no rosto, nas mãos e nos pulsos da garota. "Você está se sentindo tonta, mas elas não estão doendo?"

"Não. É estranho... mas não."

Sae viu a médica franzir o cenho, seus olhos num alarde silencioso. Ela examinou Akira, procurando atentamente algum sinal de pancada na cabeça. Foi quando ela viu as marcas de agulha no pescoço.

"Ah! O qu--- o quê houve com você?!!!!!"

"Eu..."

"Akira, seja honesta, por favor..."

"Fui capturada... mas consegui fugir. Sae... me ajudou."

"Akira! Você não deveria ----"

"Tudo bem... ela...também... sabe."

"Meu Deus..." Tae arfou. "Você... você foi capturada e interrogada?"

"Sim. Não que... eu tenha falado... alguma coisa."

"Maldição!!!!"

Akira ainda continuava com aquela fala arrastada, como se cada palavra lhe custasse a sair, como se faltasse ar a cada minuto. E Tae subitamente exclamou, vociferando, se dirigindo impetuosamente para um armário trancando, rapidamente o destrancando e pegando um de seus conteúdos. A médica também estava com uma seringa na mão, preparando-a para aplicar o medicamento.

"Sae-san, você também esteve na sala de interrogatório?" a médica perguntou, apressadamente.

"Sim."

"Viu quantas seringas por lá?"

"Cinco, se não me engano. Praticamente do mesmo tamanho dessa."

"A mesma dose... exatamente a mesma..."

Tae murmurou, colocando a medicação na seringa, preparando para injetar o líquido. Akira estendeu o braço, mas olhou para o lado enquanto ela aplicava a medicação.

"O que é isso?" Sae questionou.

"Antídoto."

"Para?"

"Coma meta-ansiolítico."

"Quê?!!"

"Nghh..."

"O que está doendo agora, Akira?"

"Uma porção de coisas... Minha perna, principalmente. Mas eu consigo ficar de pé."

"Não force muito." Tae a deteve quando Akira tentou demostrar, mas logo virou para o lado, dirigindo-se a promotora. "Sae-san, vou precisar que a senhorita se retire por um momento. Preciso fazer alguns exames um pouco mais... delicados."

"Como?"

"Corpo de delito. E também tratar essas lesões."

"Entendo. Me avise quando eu puder entrar."

Sae se retirou da sala, pensativa e também desgostosa. Ela se sentou em uma das cadeiras da sala de espera, esperando o tempo passar. Claro que o estado de Akira lhe chamou a atenção, ainda mais ela pelo tempo que precisou atuar na área da Corregedoria da Polícia. Ela sabia que havia algo errado ali. Algo inadmissível.

Mas o que Tae disse...

'A mesma dose... exatamente a mesma...'

O comentário lhe parecia fora do lugar. Não era uma instrução murmurada para si, soava mais como... uma conclusão. Só depois que ela descreveu o número e o tamanho das seringas é que a médica dosou a medicação. Tae poderia deduzir a quantidade pelo número de perfurações na pele de Akira, mas porque o tamanho da seringa importaria? Não havia um padrão para aquilo?

E o termo usado lhe pareceu estranho.... tudo bem, ela não era da área médica, mas ainda assim o termo lhe soou estranho. Incomum. Coma meta-ansiolítico... Akira havia mesmo entrado em coma? Mas por quê? Ela não aparentava ter nenhuma lesão que levasse a tal ponto. Mas a jovem comentou várias vezes a respeito dos efeitos colaterais... da dosagem da droga... disse que era para falar que tinha morrido de overdose...

'A mesma dose... exatamente a mesma...'

Tae foi quem forneceu a tal droga?!!! Por isso ela tinha o antídoto?!?

Por um instante --- por um longo momento --- Sae ficou muito tentada a abrir a porta e cobrar satisfações, temendo que Akira estivesse em risco. Mas foi a própria garota que sugeriu que fossem para lá... será que tudo fazia parte do plano?

A promotora suspirou, exausta. Toda a aquela história do Metaverso era surreal... tudo se ligava de forma assustadora, assustadoramente perigosa. Ainda não sabia se concordava ou não com a atitude dos Phantom Thieves, de certa forma concordava com Akechi no que dizia respeito ao livre-arbítrio, que um testemunho não deveria ser forçado. Mas deixar que um criminoso continuasse a agir, sabendo que algo podia ser feito para detê-lo? Se tivesse aquele poder, não faria o mesmo?

Faria exatamente o mesmo. Talvez até de forma mais incisiva.

Sae sorriu, sem nenhum humor, um sorriso retorcido e amargo. Como era mesmo aquela frase? 'Dê o poder ao homem, e descobrirá quem ele realmente é'. Que moral ela tinha para poder criticar os Phantom Thieves?

Eles tinham sua própria moral, uma moral inabalável e peculiar. Eles nunca puniam ou julgavam seus alvos, simplesmente faziam com que eles confessassem, o restante que julgasse e punisse. Eles só traziam a verdade à tona.

E acabaram descobrindo algo muito mais sórdido escondido nas sombras. Outra pessoa --- outro grupo, provavelmente --- que também estava usando o Metaverso, mas para seus próprios interesses. Os casos de surtos psicóticos e apagões mentais eram resultantes da ação desse grupo, que tentou por a culpa nos Phantom Thieves, já prevendo uma competição, uma oposição.

Ela sabia agora da verdade por trás do caso, mas o que podia fazer? Como obter provas de um mundo que era imaterial, subconsciente? Como deter aqueles malfeitores, sendo que não podia fazer nada, não tinha aquele poder?

O melhor que poderia fazer era colaborar. Cooperar com os Phantom Thieves e vigiá-los de perto para ver se eles impediriam o outro grupo. Não só impedir, mas também expor toda aquela trama.

"Sae-san?"

A doutora a chamou, ela sinceramente perdeu a noção do tempo enquanto ruminava o assunto.

"Hm? Você terminou?"

"Sim. Gostaria de entrar?"

A promotora assentiu, e voltou para a sala de exames, seguindo a médica, que foi por outra porta que ela não tinha reparado que estava ali. O lugar parecia uma ala hospitalar, todo branco; e Akira estava devidamente medicada, deitada numa maca, mas conectada a uma série de fios e plugues, um monitor ali perto registrando seus sinais vitais, o que deixou Sae alarmada. Mas a garota riu da reação da jurista.

"Ei, eu disse que era exagero. Sério, eu tô bem."

"Acho melhor primar pela cautela. A dose que você tomou foi exageradamente alta. Poderia ter lhe matado. Você vai passar a noite aqui em observação e ponto final."

"Isso não conta como sequestro?" Akira tentou apelar para Sae, sem sucesso, e Tae a lembrou do acordo feito entre elas, quase que ameaçando.

"O que foi que combinamos?"

A jovem revirou os olhos.

"Ok..."

"Vocês planejaram tudo isso?"

"Isso o quê?"

"O fato de Akira ter entrado nesse... 'coma meta-ansiolítico' para enganar a polícia."

"Não." Tae lhe respondeu com franqueza. "Na verdade eu não sei se algo foi mesmo como combinado, se fui enganada, ou se estou tirando conclusões precipitadas. De qualquer forma, nenhuma das hipóteses são felizes, por assim dizer."

"Poderia me esclarecer?"

"Você não vai me denunciar, vai?"

"Não. Não tenho moral para isso, se estou colaborando com os Phantom Thieves."

A médica riu diante das palavras de Sae.

"Bem, sou justamente o contrário. Fora da lei mas dentro da moral."

"O Direito também se baseia na moral."

Tae riu de novo.

"Exatamente. O mundo não é preto e branco. São só tons de cinza. E eu valorizo essa honestidade."

"Vai me contar a verdade então?"

Sae perguntou, tentando ser casual; mas a expressão de Tae, que até então evidenciava seu divertimento diante daquela ironia, ficou mais séria. Sorumbática.

"Não sei. Não sei se deveria. Nem sei se é mesmo verdade. Mas o simples fato de falar... quebraria meu juramento."

"Você prometeu ficar em silêncio?"

"Não exatamente. Ao menos no sentido de ter prometido silêncio a uma pessoa em específico. É mais pela profissão."

"O Juramento de Hipócrates?"

Akira se manifestou, e a médica ficou surpresa por ela saber do conceito.

"Hm? Eu não sabia que você tinha conhecimento disso. Está pensando em ser médica, Akira?"

"Não!" ela contestou de imediato. "Mas ele cita várias figuras mitológicas. Eu sou mais da área de literatura, por assim dizer."

"Então você sabe do que eu estou falando no que tange ao sigilo."

"É, eu sei."

"Mas você poderia me esclarecer a respeito dessa droga então? Não creio que ela seja... legal."

"Tudo depende da aplicação. Tenho quase certeza de que se trata do ácido meta-ansiolítico. Um analgésico, relaxante muscular, tranquilizante e também antitérmico." A médica explicou, destacando os aspectos positivos, mas logo fez uma ressalva. "Seria o medicamento ideal para gripe se não fosse um tanto... forte demais. Os efeitos colaterais incluem sonolência e desorientação. Isso se considerarmos uma dosagem pequena, quase homeopática. Há um ou dois analgésicos no mercado que incluem esse composto. O problema está quando você aumenta a dose. Como esse medicamento também deixa o paciente desinibido, ele vem sendo usado em soros da verdade desde que foi isolado. A substância não é ilegal per si, mas...."

"O uso do soro da verdade é." Sae a completou.

"Sim. Ele corresponde a uma dose moderada. Mas se for maior do que isso... bem... o paciente entra em coma. Os sinais vitais são suprimidos. Graças a isso, ele também vem sendo empregado em casos de coma induzido. Como medicamento, o ácido não é ilegal, embora tenha seu uso controlado. Foi bem difícil conseguir uma dose dele."

"Para quê exatamente...?"

"Meu projeto de antiviral."

"Achei que você estava brincando quando sugeriu um medicamento capaz de acabar com a gripe." Akira comentou.

"Se era só um antigripal, por que você tinha um antídoto pronto? Você disse que era um antídoto contra coma."

Tae mordeu o lábio, a promotora havia a cercado, levantando uma acusação da qual ela não teria defesa.

"Foi um pedido de um paciente. Não posso informar detalhes. É segredo médico."

"Tae-san, eu estou investigando esse caso, o caso dos Phantom Thieves. Ou ao menos eu estava. Agora sei que não foi coincidência eu ter sido afastada do caso. Há alguém dentro da Unidade Especial de Investigação que não quer que isso seja verificado."

"Alguém que quer me ver morta."

A médica empalideceu, seus olhos arregalados, chocada com aquela menção.

"Era você!" Tae exclamou. "Era você de quem ele estava falando! Droga, como não percebi isso antes! Agora tudo faz sentido...!"

"O quê?"

Tae levou a mão na boca, certa de que havia falado demais. Justamente do que era para manter segredo.

"Eu não sei. Não sei, ok?!! É só uma hipótese. A mais provável. Porque eu detestaria que as outras estivessem certas."

"Isso é, ter sido enganada?"

"Exatamente. Bem, a última hipótese é perfeitamente plausível diante do que você acabou de mencionar, Sae-san. E também bate com o que ele mencionou. Tem alguém da polícia envolvido nessa trama. E se for mesmo esse o caso, o que os impede de tomarem ações ilegais? De adquirir e usar o medicamento para esse fim?

"Nada. Eles se consideram acima da lei e da ordem." Sae respondeu, e Akira indagou.

"E quanto às outras duas hipóteses?"

"Eu já falei demais." Tae comentou, mas acabou cedendo, derrotada. "Eu... tive um paciente que me pediu um medicamento em específico. Uma droga capaz de simular a morte de alguém. Logicamente eu o indaguei sobre os motivos desse pedido, e ele disse que era para salvar uma testemunha. Ele pode ter sido sincero comigo... ou ter mentido."

"Testemunha? Como a testemunha de um crime?"

"Não exatamente. Ele disse que o depoimento dessa testemunha seria vital para expor o caso, e tal testemunha sabia disso, só não sabia do risco que estava correndo. Ele mencionou que ela poderia muito bem ser silenciada. O que foi mesmo que ele disse...? Que tinha descoberto uma trama sórdida, composta por pessoas poderosas, pessoas da máfia, do governo, e até da polícia.

"E como é que ele sabe sobre os envolvidos? Ele não estaria correndo risco também? Ele também não seria uma testemunha, de certa forma?"

"É aí que está a questão." Tae rebateu o argumento de Sae. "Ele disse que está agindo como agente duplo."

"E obviamente não poderia contar para a polícia do que sabe, depois do que descobriu..."

 


 

"Ei." Akira entrou na discussão, levantando um ponto até então ignorado. "Porque você acha que eu sou essa testemunha?"

"Simples. Porque essa pessoa está investigando os Phantom Thieves. Ele me pareceu bem obstinado. Acredite, ele me pediu duas doses, só para testar uma primeiro. Nunca vi ninguém que se voluntariasse para ficar morto." Tae prosseguiu apesar do espanto das outras duas. "Bem, eu ainda achei toda a situação suspeita, então decidi aproveitar o efeito do ácido. Tentei pedir mais detalhes sobre a investigação, mas não tive muita resposta. Acho que ele percebeu e tentou disfarçar."

"O que ele disse?"

"Disse que vocês não têm nada a ver com o caso. Que mal arranham a ponta do iceberg, estão agindo sem saber dessa trama..."

"Ele estava certo. Não sabíamos... até pouco tempo atrás."

"Espera um momento... essa pessoa também está investigando os Phantom Thieves?"

"Por favor, não me obrigue a falar... eu não posso falar... não deveria ter comentado..." Tae sussurrou entre os dentes, agoniada, se sentindo culpada por ter revelando tal segredo.

"Alguém que sabe que a polícia está envolvida... alguém que está investigando os Phantoms Thieves, e sabe que Akira é a líder deles..."

Sae enunciava tudo o que tinham até agora, e a garota logo chegou a uma conclusão, algo que ela já desconfiava há algum tempo...

"Akechi."

"Sim." Tae admitiu, fechando os punhos e o cenho, ainda questionando sobre a validade de sua atitude. "Eu já desconfiava que ele estivesse indo para o mesmo lado dos Phantom Thieves. Vocês dois pedem os mesmos medicamentos..."

"Mas----!!!!! Ele?!!!" Sae estranhou, contestando, sem acreditar no fato. "Pensei que ele quisesse te matar!" a promotora se virou na direção de Akira, esperando que a garota confirmasse. "Ele mesmo disse isso, vocês captaram o áudio!"

"Não... Era isso. Era isso o que ele realmente era... um agente duplo. Nós é que não o entendemos direito..."

Akira murmurou, aliviada. Mas no fundo sabia que Akechi não era exatamente um agente duplo. Ele estava trabalhando sozinho e para si só. Ele se lembrou das palavras dele no hotel, quando ele estava com febre, e provavelmente sob efeito da medicação citada por Tae.

'Eu sei me virar por conta própria. Sempre foi assim...'

Agora sim ela entendia as palavras dele. Sua intuição estava certa, afinal.