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Recollection & Foreboding

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"Aquilo que no exercício ou fora do exercício da profissão e no convívio da sociedade, eu tiver visto ou ouvido, que não seja preciso divulgar, eu conservarei inteiramente secreto. Respeitarei os segredos que me forem confiados."

Tae se encontrava diante de um dilema. Se contava ou não para elas o que sabia. O que o detetive valorizaria mais? A verdade sobre suas ações, ou o sucesso delas? As palavras ditas por ele vieram com força à sua mente, a lembrança daquele dia fatídico... Saber da verdade poderia ser bem perigoso.

 

 

-- DOMINGO, 13 de novembro. Manhã cedo. Céu claro (Alerta de surto de gripe). --

 

O dia ainda amanhecia nas ruas de Yogen-Jaga quando Tae abriu a clínica. Tudo estava exatamente como deixara, incluindo um artigo sobre Reumatologia largado em cima do balcão. A sala de espera era um pouco apertada e estreita demais, não que recebesse tantos pacientes para isso se configurar um problema.

Estava destrancando a porta do consultório quando um paciente adentrou silenciosamente, sem anunciar sua presença. O indivíduo usava um casaco preto com capuz, ocultando sua identidade, o que levou a doutora a inferir que se tratava de um de seus clientes não-regulares. Pessoas que, por uma razão ou outra, não queriam ir para um hospital.

"Olá, Takemi-san. Bom-dia."

A voz contrastava com a aparência furtiva, era educada, suave, agradável. De qualquer forma, Tae não era uma pessoa que se deixava levar por aparências.

"Bom-dia, Akechi-san. Precisa de mais alguma coisa? Achei que o estoque que lhe forneci seria o bastante para o mês..."

O detetive era um de seus clientes assíduos, e pagava muito bem, tanto pelo serviço quanto pelo sigilo.

"Na verdade se trata de outra coisa. Algo mais sério. Será que poderíamos falar disso em particular?" o garoto se manifestou, um tanto hesitante e também temeroso.

"Como queira. Vou destrancar a sala de exames."

A dita sala compartilhava do ar meio atulhado do restante da clínica, com diversos folhetos e cartazes de cunho informativo colados nas paredes. A médica fechou a porta assim que o detetive entrou.

"Você parece bem de saúde." Tae comentou, iniciando a conversa.

"Fisicamente, sim."

Bem, ela podia adivinhar o nível de estresse que o detetive estava sendo submetido. Tanto o público quanto as autoridades ansiavam pela captura dos Phantom Thieves, e ele era um dos responsáveis pelo caso. Depois de uma breve pausa, o detetive tornou a se manifestar, retirando o capuz para que a médica pudesse ver sua expressão.

"Preciso de um favor seu. Preciso de uma droga capaz de simular a morte de alguém."

O olhar lânguido e sonolento da doutora se tornou subitamente incisivo, expressando surpresa e também repulsa.

"Francamente, detetive, é assim que espera resolver seu caso? Você sabe que provas obtidas por meios ilícitos são igualmente ilícitas. Eu não irei lhe ajudar nisso. É contra minha moral."

"Hm?" Akechi parecia surpreso com a reação dela. "Desde quando você se preocupa com a legalidade?"

"Eu disse contra moral, não contra a lei. Todo medicamento ou tratamento que eu prescrevo precisa ser justificado. A pessoa que me procura precisa estar doente. Não trato terceiros, nem compactuo com falsidade."

"Não estou tentando enganar ninguém, Takemi-san. A verdade cedo ou tarde vem à tona. Não pretendo forçar um testemunho usando essa droga. Pretendo justamente salvar a testemunha." Akechi tentou se justificar, calmo mas exasperado.

"Não posso lhe ajudar nisso."

"Você tem um compromisso com vida. Se nada for feito, pessoas irão sofrer. Pessoas irão morrer."

"Não está me convencendo, detetive. Vai precisar de mais se quiser me ameaçar ou me assustar. Por que você precisaria daquela medicação?" Tae o questionou, confrontando-o com os fatos. "Aquelas lesões não são resultantes de falhas numa investigação, e sim de confrontos diretos. Não é o seu orgulho que o impede de procurar tratamento num hospital --- é o fato de suas ações não serem exatamente legais, e por consequência não poderem vir a público. Estou certa em minhas afirmativas?"

Akechi cerrou os dentes, não tinha outra escolha a não ser confirmar.

"Sim. Você está certa. Um detetive novato, alguém tão novo ainda por cima, não pegaria casos assim tão perigosos. Mas eu sim. Peguei mais do que poderia carregar, de fato. Para ser sincero, eu não queria lhe contar a verdade. Pois saber da verdade pode ser bem perigoso. O fato é que a trama que estou investigando se provou muito mais sórdida do que eu imaginava. Uma trama composta por pessoas poderosas, de alto a baixo. Integrantes da máfia, do governo, e até da polícia. Entende agora o motivo de'u recorrer a métodos tão duvidosos?"

"Não. Ainda não."

Tae comentou, impertinente, convencer a doutora estava sendo uma tarefa muito mais difícil do que Akechi previra. Tudo bem se não conseguia convencê-la com suas palavras agora. Bastaria manipular sua Shadow no Metaverso, Loki poderia reforçar seus laços ao invés de cortá-los, tornando a médica mais receptiva a sua sugestão.

"Estou agindo como agente duplo durante todo esse tempo. Consegui coletar provas, mas não o bastante. O depoimento dessa testemunha é vital para expor o caso. E essa pessoa sabe disso. Só não sabe do tamanho do risco que corre. É questão de tempo até que ela seja silenciada."

O detetive argumentava, sem ver a figura à suas costas, uma figura quase que translúcida, etérea, sem condições de assumir uma forma concreta no mundo real. Tae também não conseguia ver a entidade, mesmo que ela estivesse logo a sua frente. A figura de Loki poderia estar intangível, mas seu poder ainda era presente. O poder de manipular os laços que moldavam e prendiam os demais.

Tae ainda encarava o garoto de forma incisiva, desconfiada, como se questionasse as palavras do detetive. Akechi não se moveu, devolvia-lhe seu olhar, obstinado e crente de que estava fazendo o certo, mesmo que por meios inadequados. Foi o que a convenceu. Sua expressão subitamente se tornou deprimida, abatida.

"Até que ponto as coisas chegaram..." a doutora suspirou. "Há uma droga capaz de suprimir os sinais vitais do paciente, mas ela é aplicada via intravenosa. Creio eu que você não tem a habilidade necessária para aplicá-la... e que talvez isso seja difícil dada às circunstâncias." Akechi assentiu. "Posso elaborar uma versão para ser ministrada oralmente... mas não vou poder ocultar a cor, o cheiro ou o gosto do medicamento. Você não conseguirá ministrar essa droga sem o consentimento da vítima."

"Certo. Quanto fica?"

"Um a dois milhões de ienes, dependendo da quantidade."

"Certo. Pago quatro milhões e meio."

"Hn??!" Tae não conseguiu ocultar sua surpresa diante da prontidão do detetive.

"Vou precisar de duas doses. Essa testemunha tem idade, peso e altura bem próximos dos meus. Não se sinta ofendida, Takemi-san... mas gostaria de testar isso primeiro."

"Que seja. A vida é sua."

"Quanto tempo demoraria?"

"Fica pronto na segunda, se não tiver nenhum movimento fora do comum hoje. Você pode vir testá-la segunda à tarde, se quiser... só se certifique de não ter nenhum compromisso no dia. Uma dose lhe deixará fora do ar durante umas seis horas no mínimo."

"Perfeito." ele sorriu, era exatamente que precisava. "Até então, Takemi-san."

O detetive se despediu, saindo da clínica, parando só para colocar o capuz antes de ir. Tae o observou ir embora,  demorou algum tempo até que fosse verificar seu estoque de medicamentos.

Ela abriu o armário, trancado com uma chave multiponto que não saía de sua vista. Tae sabia quais compostos utilizar, um deles estava logo ali a sua frente, inócuo no frasco. A substância tinha uma estrutura tão complexa que o nome ocupava várias e várias linhas, até mesmo o criador do composto decidiu se referir a ele por um nome mais sucinto. Ácido meta-ansiolítico*.

A substância era similar ao ácido acetilsalicílico, mas com efeitos bem mais intensos. Um analgésico poderoso, capaz de mitigar as piores dores de cabeça e enxaquecas, e também muito eficiente contra febre e dores musculares, agindo em poucos minutos. Porém, a droga deixava o paciente sonolento, desorientado e desinibido.

Takemi adquiriu a substância a muito custo, pensando em usar uma dose extremamente baixa na sua própria versão de um coquetel antiviral (Projeto Mata-gripe). A doutora sabia que havia um analgésico vendido sob receita médica que também empregava o composto, numa dosagem quase que homeopática.

Mas ela também sabia do lado mais obscuro do medicamento. Desde que o composto foi isolado, vinha sido empregado em soros da verdade, dado o efeito desinibidor do medicamento. Em quantidades maiores, o efeito tranquilizante do ácido meta-ansiolítico reduzia os sinais vitais do paciente, sendo utilizado em casos de coma induzido. Combinado com outras drogas, o efeito era tão intenso que o paciente poderia ser confundido como morto.

Exatamente como lhe pediram.

O menor erro na dosagem poderia ser fatal. Mais uma vez, ela lembrou o que tanto viu durante o curso de Farmácia. A única diferença entre remédio e veneno está na quantidade. A doutora respirou fundo, pegando o frasco e mais outros medicamentos, rumando a seu laboratório pessoal.

 

 

 

-- DOMINGO, 13 de novembro. Manhã. Tarde. Noite. Céu claro (Alerta de surto de gripe). --

-- SEGUNDA, 14 de novembro. Manhã. Tarde. Céu claro (Alerta de surto de gripe continua). --

 

O movimento na clínica estava dentro dos padrões normais para segunda-feira: absolutamente vazio. Enquanto não chegava nenhum paciente, Tae aproveitava para terminar a leitura de seus artigos. Já estava no terceiro artigo impresso quando ouviu um paciente entrar, um sujeito de moletom cinza, num disfarce discreto.

"Olá, Takemi-san."

"Chegou cedo." a doutora suspirou, deixando seus papeis de lado. "Venha comigo."

Tae foi até a sala de exames, abrindo uma porta oculta no canto e acendendo o interruptor da outra sala. Era uma unidade de terapia semi-intensiva, com um único leito somente. Apesar de limpo, o local estava claramente abandonado. Para Tae, era quase uma benção a sala não ter uso.

"Pode se sentar aqui. Volto já."

Ao retornar com a droga, a doutora viu que Akechi estava esperando calmamente, o que lhe causou estranheza. A maioria das pessoas teria algum receio diante daquela situação.

"A droga age em três minutos, reduzindo os sinais vitais. A supressão ocorre em dez minutos e dura cerca de seis horas. Não é necessária estabilização externa durante o período."

"Não há o risco de sequelas, já que não há acompanhamento?"

"Não. É por isso que essa droga é tão usada em coma induzido, desde que foi descoberta. O retorno sim pode ser problemático. É muito gradual." um frasco transparente girava na mão dela, um líquido negro e espesso balançando nele. "Também manipulei um antídoto, para agilizar isso. Porém ---"

"Terei que trazer a testemunha aqui."

"Sim."

"Tudo bem. Confio em você, Takemi-san. Sei que irá manter sigilo sobre isso."

"Eu coloquei a droga num frasco de acrílico. Para prevenir acidentes. Também coloquei as doses em frascos separados."

"Também para evitar acidentes?" o detetive comentou com sarcasmo.

"Não me faça mudar de ideia. Tome."

Para a surpresa de Tae, Akechi removeu a tampa do frasco e tomou a droga de um gole só. O gosto era estranho: amargo, azedo e ao mesmo tempo enjoativamente doce. Quase que de imediato ele se sentiu tonto. A médica o segurou com os braços antes que ele caísse do leito, o frasco já tinha escorregado dos dedos do detetive e caído no chão.

"Francamente...! Saber dos efeitos, e ainda assim assumir o risco..."

A única pessoa que conhecia a cometer tamanha idiotice foi Akira, e a garota tinha se voluntariado sem saber dos efeitos da droga que testaria. Tae deitou o garoto no leito, saindo da sala para pegar alguns equipamentos médicos para medir os sinais vitais do detetive.

Ela resolveu esperar um pouco mais, uns quinze minutos, para verificar até que ponto a droga conseguiria enganar um perito. Cuidadosamente, ela checou a frequência cardíaca e a frequência respiratória, mediu a pressão arterial, a temperatura, só que...

Não havia sinal de vida.

Claro, ela sabia que esse era o efeito da droga. Estava tudo sobre controle, seu lado mais racional tinha certeza disso. Mas, se fosse seguir sua emoção... Não. Não poderia. Não poderia pensar nisso, pensar que algo tinha dado errado, que tinha matado outro paciente...

Tae se retirou dali, as horas custaram a passar. Como não tinha condições de voltar a ler seus artigos, ela repassou cada passo na manipulação daquele medicamento, traçando cada detalhe que convertera aquela substância intravenosa num líquido pronto para ser tomado. Já tinha usado aquela base antes, com Akira, sem maiores efeitos adversos desde que estabilizou a fórmula.

Ela pensou nas atitudes dos dois, e no fato deles requisitarem praticamente os mesmos medicamentos. E Akechi não era o principal responsável na investigação do caso dos Phantom Thieves? Ela sentia que estava deixando algo muito importante passar batido, lhe escapar pelos dedos...

A doutora se alarmou um pouco ao olhar pela janela do consultório e perceber que já havia anoitecido, já era hora de verificar o estado do detetive. Apreensiva, ela pegou o antídoto, rumando para a outra sala, o garoto ainda estava deitado e inconsciente sobre o leito. Tae injetou a medicação, aguardando pelo efeito. Depois de minutos que lhe pareceram uma eternidade, o garoto começou a resmungar, fazendo um esforço para se levantar. Ele levou a mão à cabeça, ainda estonteado, se contentando em ficar sentado ali até que a vertigem passasse.

"Boa noite, Julieta. Como foi a tarde?"

"Hmn?" ele parecia meio tonto, mas seus olhos se fixaram com lucidez nos dela. "Eu... ah, eu... tomei mesmo a medicação? Estranho... eu deveria me lembrar de alguma coisa? De apagar ou coisa assim?"

"Você desmaiou de pronto."

"Hn."

"Esse caso é tão importante assim?" ela decidiu arriscar, jogar verde para ver o que colheria. "Por que se empenhar tanto na captura dos Phantom Thieves?"

"Quem disse que se trata dos Phantom Thieves? Eles mal arranham a ponta do iceberg. Eles estão agindo sem saber disso..."

"Saber do quê?"

"De nada. Eles estão agindo sem saber disso, não tem envolvimento nenhum nesse caso. Eles mal arranjam uma soma mequetrefe."

Mesmo sobre o efeito da droga, o detetive relutava em comentar o tal caso. Será que ela entendeu errado, ou Akechi estava tentando disfarçar o que disse? O ácido meta-ansiolítico deveria deixá-lo mais suscetível a falar sobre o tal incidente, sobre o que levou o detetive a colocar a vida em suspenso daquele jeito.

"Então do que se trata? De quem se trata, afinal?"

"Desculpe, Takemi, mas... não posso. Não posso lhe contar. Sei que manterá sigilo quando descobrir, mas... não posso contar agora."

A resiliência mental dele era impressionante, Akechi não iria revelar nada sobre o caso. Não por orgulho, mas por se dar conta do risco. Quão sinistra era a trama que ele estava investigando?

"Tudo bem. Akechi-san, você vai ter que ficar aqui por meia hora, ok, até o efeito da droga passar por completo."

"Não, eu ainda tenho muita coisa a fazer..."

"Você não está em condições de fazer nada direito no momento. É só meia-hora. É para seu próprio bem."

"Não que eu me importe com isso, mas..." ele suspirou, cansado. "Tudo bem. Eu espero."