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Estrada para o Éden

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A mão estendida em sua direção atrapalhou a visão de quem estava a ajudando levantar do chão. O sol de meio-dia abafado pelos vapores do pântano castigando os corpos ali caídos.

Todo começo de verão a mesma rotina.

O vilarejo era um desses lugares parados no tempo, em que qualquer entidade divina havia esquecido que existia, ali tudo se transitava e nada se mantinha. Apenas os mais fortes e a escória impossível do plano material. Quem estendia a mão era de carne e osso, mas a ausência de uma voz chamou atenção, aceitou o impulso para se colocar de volta em pé, roupas de domingo arruinadas pelo charco, a grama alta, a natureza tão abundante em sua decomposição em um lugar como aquele.

- Disseram que uma bruxa do pântano precisava de uma mãozinha... - o corpo tinha voz, familiar, distante, medida nas palavras, o sotaque não era do continente.
- Informaram errado. Não preciso de ninguém! - respondeu petulante em sua defesa. O território estava livre de alguém mais velho para comandar o Covenant.
- Então estavam certos, você é mesmo a bruxa do pântano...
- Como ousa se dirigir a mim dessa forma?
- Raelsin, Jordana ao seu dispor. - os grunhidos vindos do fundo do charco que a alertaram que seu feitiço mais poderoso de dispersão não adiantara contra os concorrentes. - É um prazer colocar um rosto em todas as lendas.

A virada brusca de posição, o movimento rápido e o clique inconfundível, sua pele arrepiou em um espasmo que a fez se encolher no lugar onde estava. A velocidade usada pela pessoa era oportuna para seus poderes tão bem conservados durante os séculos de aprendizado com a real bruxa dali. Entropia.

Dois zunidos atravessaram o ar, quebrando a barreira entre os dois mundos, a película invisível que a Mortalha separava para os incrédulos não verem, pequenos projéteis que a cada clique atingiam aqueles seres fedorentos que a atacaram após o funeral da matriarca e continuavam a incomodar mesmo depois de estabelecerem uma trégua entre os grupos do Covenant. Dois, cinco, mais quatro, dois ao seu lado...

Levantou a barra da saia e preparou as pernas para correr na direção oposta, distrair um dos monstrengos e fugir o mais rápido que podia. Raelsin era um nome não muito bom para se escutar no meio de uma batalha sobrenatural em um lugar inóspito como aquele. Raelsin não era nem para ser um nome para se ouvir em tempos como aquele.

Abriu caminho entre os arbustos, fez ziguezague pelas árvores mais frondosas e velhas, seu par de tênis afundando em lama, lodo e raízes, se atreveu a dar uma última olhada para trás, verificar se estava tudo limpo para sair daquele charco maldito. Virou a cabeça em um instante para voltar seu olhar para frente. Um cano duplo e quente de uma arma enferrujada encostou em sua bochecha.

- Disseram que uma bruxa do pântano precisava de uma mãozinha... - repetiu a mesma voz vinda do objeto mágico e extremamente perigoso.

Ouviu o estampido ensurdecedor e o calor imenso da bala atingindo os ossos de seu rosto.