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Bedtime Stories

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O mordomo caminhava pelos corredores da mansão, ouvindo os suaves sons da noite. O ronco de Bard, os suspiros de Meirin e os sons barulhentos do quarto de Finny, que devia estar se revirando na cama como sempre.

 

Oh, até as risadinhas agradáveis de Tanaka e os uivos ocasionais de Pluto.


Uma noite como qualquer outra, apenas mais quente.

 

O verão havia acabado de chegar ao interior da Inglaterra, o que significava que o tempo úmido e chuvoso havia dado lugar àquele que era deveras quente e abafado.

 

Sebastian fazia seu caminho, apagando todas as fontes de luminosidade dos corredores da casa, quando um grunhido chamou sua atenção.

 

Alguém estava acordado.

 

Com o sorriso malicioso do demônio que era, deslizou em suas belas vestes até o quarto do garoto.

 

Não bateu na porta. Não tinha para quê. Supostamente, Ciel estava dormindo, certo?

 

E quão grande não foi a raiva estampada no rosto avermelhado do menino por isso.

 

- Desde quando tem permissão de entrar sem bater? - grasnou o lorde que estava no meio dos lençóis pesados e revirados, o suor claramente exibido em sua testa e um rubor suspeito em suas bochechas.

 

- Ouvi um barulho, achei que estivesse em perigo, bocchan.

 

Mordomo insolente.

 

Passou a mão pelo rosto, tirando o suor que lhe escorria pela face.

 

- Esta noite está quente como o inferno! - reclamou, tentando sair do casulo de cobertores de tecido grosso. - Como vou conseguir dormir desse jeito?

 

- Se deseja saber, essa temperatura seria algo ameno comparado às profundezas de onde venho. - ele sorriu, mostrando os dentes brancos e ligeiramente afiados. - Não posso fazer nada para mudar o tempo, mas aconselho-o a dormir. Tem muitos compromissos amanhã e não pode parecer indisposto.

 

- Que se danem os compromissos Sebastian! Está quente! Não consigo dormir!

 

Sebastian balançou a cabeça perfeita como se estivesse desapontado.

 

- Parece que o calor tira a calma do jovem mestre. Como um animalzinho pequeno, guinchando estridente por sua gaiola ter ficado muito tempo no sol...

 

Se estivesse mais perto do demônio, teria dado-lhe um tapa.

 

- Cale-se! - o garoto odiava ser provocado. - Certo, eu durmo, que seja.

 

Deitou-se outra vez, mas sem os lençóis. Uma brisa, pro mais suave que fosse, já aliviava a quentura em suas pernas nuas.

 

- Quer alguma ajuda? - o demônio perguntou. - Sei que não vai dormir rapidamente.

 

- Você disse que não pode mudar o clima.

 

- Não.

 

O menino suspirou, olhando para Sebastian de canto com a orbe púrpura e marcada.

 

- Conte uma história.

 

O mais velho sorriu. Uma demonstração gratuita da infantilidade de Ciel sempre era de ser comemorada.

 

Rapidamente buscou um livro e sentou-se na beirada da cama, como um pai amoroso indo contar histórias para sua criança.

 

O conto era Cinderela.

 

Observou as pálpebras róseas que recobriam os olhos antes azuis meia noite resistirem bravamente, mas logo iam perder a batalha para a voz de veludo do mordomo que destrinchava a trama já tão conhecida.

 

Antes que pudesse provar do sapatinho, já havia adormecido. O corpo fora dos lençóis se encolheu em si mesmo, o pijama repuxando-se e exibindo as coxas brancas e magras, mas ainda assim puras e impecáveis. As mãos se juntaram contra o rosto, quase num gesto de oração e ele logo se pôs à ressonar.

 

Ah, doce tentação em forma de criança, a alma tão deliciosa que chegava a fazê-lo salivar...

 

Pegou o livro e passou a mão nos cabelos azulados, acariciando também a delicada nuca.

 

Que dormisse bem. Amanhã era mais um dia de voltar a fingir ser adulto.

 

Saiu do quarto e voltou ao trabalho, olhando de relance para o relógio.

 

Era mais de meia noite. O encanto havia terminado.

 

A Ciel, a criança, havia adormecido.

 

Só para acordar como o adulto borralheiro outra vez.