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Pedido de Natal

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PEDIDO DE NATAL

Capítulo 1

 

Durante os últimos cinco anos, o relacionamento de Ran e Omi floresceu, desabrochou, teve altos e baixos e culminou numa união estável. Nesse meio de tempo, Aya-chan também arrumou alguém e se casou. Ran não era mais o poço de gelo indecifrável após todo esse tempo, mas anos do mesmo comportamento o tornaram uma pessoa extremamente discreta. Ainda agora, para acariciar a barriga estufada da irmã e sentir o sobrinho pulando irrequieto lá dentro, ele preferia fazer isso quando não tinha ninguém olhando. Os olhos plácidos de Aya-chan observavam o brilho das orbes violetas ao levar um chute ou outro.

-Ele é bem ativo, não?

-Hai.

-Você gosta de crianças, oni-san. Mesmo que não queira admitir, debaixo dessa fachada de seriedade, você quer mais é rolar pelo chão com um chibi...

Ran Fujimiya sorriu levemente e encarou a jovem futura mãe:

-Hn... você sabe o que dizem dos sobrinhos? Que são melhores que filhos porque quando enchem o saco, você pode devolver para os pais levarem embora...

-ONII-CHAN!! Não acredito que você crê nisso... – Aya disse com um olhar chocado. Como o sorriso do ruivo apenas aumentou um pouco, ela riu, reconhecendo que caiu novamente nas implicâncias do irmão.

Foi quando ouviram Omi voltar das compras e Ran se levantou para ajuda-lo. Aya ficou no mesmo lugar, perdida em pensamentos...

“Talvez essa seja a maneira dele diminuir o incômodo de pensar que ele teve que fazer uma escolha ao se decidir por ficar com o Omiitchi... Ou o amor ou filhos. Que injustiça! Todos que se amam deviam poder frutificar esse amor... Nossa, os hormônios da gravidez estão me deixando maluca... Onde já se viu, homens grávidos?”

Depois do lanche da tarde, o marido de Aya-chan veio busca-la e Omi viu, com uma ponta de tristeza, o seu amado ruivo ser cuidadoso com a gravidinha ao acomoda-la no carro. Suspirou, passando a mão inconscientemente no abdômen definido por anos de academia. “Não se pode ter tudo neste mundo”.

Omi já não era apenas um chibi loirinho, kawaii e chorão. Já era um jovem de vinte e dois anos, os cabelos loiros nos ombros, um pouco mais alto e forte, que fazia as meninas na rua virarem para acompanharem sua passagem.

Estava na cozinha, colocando a louça suja no lava-louças quando sentiu os braços de Ran puxarem seu corpo ao encontro do dele. Se encaixou, encostando a cabeça no ombro e já expondo o pescoço, na rotina da carícia conhecida. O ruivo também conhecia a rotina e esfregou o nariz naquela pele clara, depois cobrindo a extensão com beijos até morder e lamber, sentindo os pelos se eriçarem...

-Ah, os sábados à tarde... – suspirou Omi...

-Espero a semana toda por eles... – sussurrou Ran, deslizando uma das mãos pelo corpo do esposo, enquanto apertava o tórax dele e enfiava a língua na orelha indefesa.

Omi não tinha como não gemer e tentar escapar, o roçar do protesto apenas excitando mais o parceiro, que acabava agarrando-o para mante-lo no abraço, roçando um corpo no outro até Omi se virar para beija-lo e pedir para ser despido logo, por tudo que era mais sagrado, e o pedido ser atendido, o loiro tentando escapar para o quarto, o ruivo seguindo-o tirando a roupa dele e a própria, sem deixar de toca-lo, quebrando os beijos o mínimo possível... Às vezes conseguiam chegar ao quarto, na maioria das vezes fazendo amor na cozinha, na sala ou nas escadas, conforme a urgência de Ran ou a agilidade de Omi.  

Naquele domingo de manhã em questão, Ran despertou com um som que não era comum, mas familiar. O som de alguém com náusea. Passou a mão pela outra extremidade da cama, confirmando: era Omi no banheiro. (Podia ser alguém lá fora...^^) Levantou-se se espreguiçando e molhou uma toalha de mão na água fria. Depois passou na nuca, na testa e no rosto do amado:

-Que foi? Alguma coisa que comemos no restaurante tailandês não te caiu bem? Volte pra cama, você está tão pálido...

-Não sei... Eu estava bem até colocar os pés fora da cama. De repente, o quarto virou de ponta cabeça e eu tive esse enjôo horroroso... E só de pensar em fazer o café da manhã, eu... ai, com licença, me desculpe, mas... – correu de volta pro vaso.

Fujimiya franziu a testa, mas colocou um robe e desceu, a fim de fazer um chá que assentasse o estômago rebelde de seu koibito. Quando voltou pro quarto, Omi estava com a toalha molhada em cima dos olhos, pálido mas tranqüilo. Ajudou-o a se sentar e comer algumas torradinhas com o chá, a ternura do cuidado acalmando muito mais o loiro que o chá propriamente dito.

Durante dias, Omi vomitou ao levantar. Mas ele descobriu como sair da cama sem problemas... Trabalhar foi outra dificuldade, já que ele se sentia enjoado com perfumes enjoativos ou outros cheiros muito fortes... Ele mantinha a sua sala na Kritiker com o ar condicionado bem fresquinho, o que diminuía seu desconforto e pedira as secretarias do andar pra usarem pouco perfume ou mudarem para cheiros mais amadeirados. Elas, que viram o seu chefe pálido, com olheiras e vomitando direto, resolveram colaborar (Ran já não trabalhava mais em ações de campo, se voltando para a escolha e o treinamento de recrutas). Os exames normais do aparelho digestivo não acusaram nada de diferente, mas o de urina e sangue detectaram sutis sinais de anormalidade. O médico chamou Omi.

-Tsukiyono-san, temos que discutir sobre os resultados de seus exames de sangue e urina...

Omi mordeu o lábio inferior, sentindo lágrimas há muito contidas se acumularem. “E eu que deixei de chorar à toa há muito tempo...”

-Doutor, seja sincero comigo, mas não deixe meu parceiro saber de nada. Seja o que for, eu preciso poupa-lo de um novo sofrimento com hospitais e gente internada e...

-Calma, meu jovem... Talvez seja apenas o caso de exames trocados... E mesmo que minhas suspeitas se confirmem, não é nada grave, apenas... estranho. Responda às minhas perguntas, por favor...

-Sim...

-Há quanto tempo vem sentindo esse enjôo?

-Há mais de quarenta dias, mas piorou na última semana...

-Tem percebido aumento ou queda brusca de peso?

-Ah, sim, claro. Como eu não consigo manter nada no estômago eu emagreci bastante, aliás, eu fico cansado à toa agora. Devo estar com anemia, não é?

-Ligeiramente... Última pergunta... É extremamente pessoal, por favor, me perdoe invadir sua privacidade assim, mas como seu médico e a fim de descobrir a verdade, eu tenho que saber. Tem tido sangramentos?

Omi ficou roxo até a raiz dos cabelos... Abriu a boca, fechou, fechou os olhos, respirou fundo.

-Sim. Al-al-algumas vezes...

-Sempre na mesma época? Durante um certo período de tempo? Ou apenas pós-coito?

“Céus! Como isto é embaraçoso... Mas pense, Omitchi... É só quando Ran extrapola – como é bom quando ele extrapola... – ou tem uma certa regularidade...”

-Pós-coito, e dura dois dias... – confessou Omi, constrangido.

O médico pensou um pouco e resolveu avançar mais.

-Mas seu... seu amante não é sempre violento, é? Quero dizer, não sangra sempre que ele é um pouco mais abusado...

-NÃO! Ele é um amante terno... mas parece que naquela semana do mês EU estou mais abusado e... –ficou mais vermelho, se possível. – Bem...

-Ok. É suficiente. Pelos resultados nos exames de sangue e urina, há vestígios de progesterona. Essa semana do mês em que você se sente mais, digamos, abusado, são seus hormônios trabalhando... O incrível que o resultado só tenha se dado agora, depois de tanto tempo de tentativas inconscientes...

-Progesterona? Mas esse não é o hormônio feminino?

-Sim. Descobrimos que você tem todo um aparelho reprodutor feminino interno, embora ele não tenha se desenvolvido na mesma época do externo masculino. Ele só ficou maduro agora...

Omi sentiu sua velha conhecida, a vertigem, atingi-lo com tudo... As últimas palavras do médico soaram já no meio do nevoeiro do desmaio...

-Assim sendo, Tsukiyono-kun, há 95% de chances que você esteja grávido...