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A Pessoa que zela pelo Hospital

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Eis um corredor extenso de uma instituição qualquer.
Poderia ser de uma escola, universidade, hospital, escritório, o que for.
Antigo é o prédio, velhas são as edificações, enferrujadas são suas portas e janelas, há muita areia acumulada em muitos cantos e rastros por todo chão.
Nesse corredor extenso há uma única porta aberta.

Atrás dessa porta há um armário de limpeza qualquer, com estantes improvisadas com produtos de limpeza, algumas vassouras, esfregões e rodos já desgastados pelo Tempo. Uma enceradeira velha e descascada, galões de desinfetante de cheiro forte de limão, luvas de plástico amarelas penduradas em alguma estante. Sentada ao chão está uma pessoa que podemos identificar como "Visitante".

Do lado de fora desse espaço pequeno, no corredor sem porta alguma a não ser essa, está a Morte, personificada como a famosa ceifadora, vestida de grosso manto escuro, o capuz cobrindo a caveira angular, de protuberantes ossos em alguns lugares da bochecha e mandíbula projetada para frente com grossos caninos, não como uma caveira humana, mas de animal exótico. Sem olhos, ela observa, com sua foice pendurada nas costas, sentadinha em um triciclo infantil de cor rosa choque, encarando a porta como se estivesse ouvindo atentamente a pessoa visitante.
- Você colocando dessa maneira parece bem mais fácil de entender... - continuou a pessoa visitante para a Morte de triciclo. Sua voz estava abafada por estar no fundo do closet de limpeza, mas isso não impedia do diálogo seguir normalmente. - Desculpe-me, mesmo... Tá tudo bem... O importante é que sei agora, né? - a Morte concordou com o seu capuz movendo para cima e para baixo no rosto cadavérico. - Agora sei o que fazer com o restante do meu tempo.
- Apenas não se precipite. - avisou a companheira das últimas horas.
- Não, não irei. Quero fazer direito, eles confiam em mim.
- Não quer nem pensar em uma escapatória?
- E por quê eu faria isso? Tem jeito? - a Morte de triciclo deu de ombros, a foice pendurada em suas costas mexeu um pouco.
- Talvez dê certo. Alguns tentaram.
- E foram felizes?
- Infelizmente não sei. Apenas sei que tentaram.
- Difíceis de pegar?
- Escorregadios.
- Não quero te dar trabalho. - um fio prateado escorregou do cabo da foice e foi serpenteando devagar até o fundo do armário, enlaçando calmamente a perna da pessoa visitante. Ela estremeceu sem entender o porquê ter tal laço frio.
- Nem eu. - estremeceu a pessoa visitante sem saber o que falar. Suas memórias estavam ficando falhas novamente. Tinha pouco tempo agora. A Morte pega impulso em seu triciclo rosa-choque e pneus de plástico desgastados, mas antes que pudesse arrancar, a menina se moveu dentro do armário de limpeza no corredor de extenso de uma única porta.
- O que acontece se um dos escorregadios conseguir?
- Fica difícil de prever. Muitas coisas mudam, novos horários, pouco tempo para adaptar a carga-horária.
- Se precisar de alguém... - a pessoa visitante deu de ombros ao dizer isso.
- Com certeza não irei te chamar. - respondeu a morte de triciclo, apertou bem as mãos no guidão do triciclo, pedalando algumas vezes no extenso corredor de uma única porta. A menina colocou a cabeça para fora da porta, assistindo a ceifadora ir esvoaçante pelo corredor. Suspirou de cansaço, de tristeza, de impaciência.

Olhou para aquela porta que dava acesso ao corredor. Tudo parecia tão diferente agora que sabia o que fazer. Poderia tentar mais uma vez, não é?

Ser um escorregadio não estava nos planos dela.

Fez uma lista mental do que deveria fazer ao acordar:
Encontrar a bruxa solitária.
Conversar com a ninfa das árvores.
Socar o rosto do marinheiro.

Ia colocar algo a mais na lista, muito importante, não poderia esquecer, algo a ver com alguém que vinha das cavernas geladas quando sentiu a fisgada leve. O fio prateado em sua perna era puxado aos poucos, apertando seu tornozelo, aquilo estava certo? Era para ser... assim?

Seu corpo foi derrubado ao chão com violência e bruscamente, o fio prateado estrangulando o que tinha por dentro, levando o que tinha que levar, deixando apenas um invólucro vazio e sem memórias do passado, de sua missão e de seu futuro.

...

Kristevá Todd teve sua admissão no Hospital da Metrópole aos 9 anos de idade com um diagnóstico inconclusivo entre amnésia retrógrada e forte trauma infantil. A dosagem de remédios aumentou quando completou 13 anos de idade.

Esqueceu da lista.
Esqueceu da companheira das últimas horas.
Esqueceu de saber quem era.

Não sonhava mais.