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o mundo bem diante do nariz

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Era um rádio com fita cassete antigo, mas bem conservado, pertencente ao pai de Momoi, uma relíquia de tempos cada dia mais distantes. Ele o tinha emprestado à filha com a condição de que ela o retornasse inteiro no fim do dia, e ela se apressara a gravar várias músicas favoritas em fitas virgens antes de levá-lo até a quadra onde tinha certeza que encontraria Aomine. 

Aomine não tinha se interessado muito pelo aparelho a princípio - há algum tempo havia parado de se interessar pela maior parte das coisas que via -, mas estava pronta para admitir que havia algo de legal na diferença entre a suave distorção do áudio nas fitas e os sons limpos das músicas que escutava diariamente em seus fones de ouvido.

Os outros jogadores já haviam ido embora há algum tempo, não tendo durado muito contra os dribles e a aura monstruosa de Aomine, e apenas elas restavam, sentadas na arquibancada com o rádio perto dos pés. Momoi dançava sentada uma música estridente qualquer - provavelmente vinda daquele jogo de idols do qual ela vinha falando por semanas - e Aomine encarava o céu azul, mexendo a cabeça de leve no ritmo da canção.

Havia todo um mundo aberto ao redor delas, e a quietude tornava fácil imaginar que as duas fossem as únicas a habitá-lo.

Aomine sorriu.

Outra música, tão estridente quanto a anterior, começou a tocar, e Momoi deu uma risadinha baixa antes de comentar que as músicas nem pareciam as mesmas quando somadas aos chiadinhos da fita cassete. Aomine revirou os olhos e replicou que ainda assim continuavam chatas. Momoi a encarou com um olhar que deixava claro que tinha reparado que a jogadora tinha gostado da melodia de pelo menos algumas das músicas. Aomine apenas deu de ombros.

Ela sabia que Momoi continuava a encará-la, talvez procurando por uma abertura para dizer algo. alguma platitude sobre ela finalmente estar expressando interesse em algo, algum comentário sobre o último semestre em Teiko, algo para quebrar o equilíbrio de silêncio e sons da tarde.

Ignorando o pedido mudo, Aomine apoiou os braços no nível superior da arquibancada, novamente voltou o rosto para o céu e fechou os olhos.

Alguns momentos depois, ouviu um suspiro exasperado - Momoi tinha desistido. As suaves batidas que se seguiram indicavam que ela voltara a prestar atenção na música e marcava o ritmo com os pés.

Aomine abriu de leve um dos olhos, e observou a outra moça - seus cabelos compridos, seus cílios claros tocando as maçãs de seu rosto, seus ombros por baixo da blusa, sua saia, sua dança desengonçada.

Respirou fundo - inala, exala, inala, exala, duas, três, seis, dez vezes - e, esticando o braço, pousou sua mão sobre a dela.

Momoi a encarou, surpresa.

Aomine sentiu o ímpeto de se retrair, de fingir que queria ter feito qualquer outra coisa que não fosse tocar nela, mas o mundo em volta permanecia quieto e ela sentia que não teria outra chance.

Então percebeu que, apesar de ter corado, suas bochechas assumindo um tom rosa mais pálido que o de seus cabelos, Momoi havia entrelaçado seus dedos aos dela em vez de retirar a mão ou se afastar. Aomine não pode segurar o sorriso que surgiu em seus lábios.

A tarde estava fresca, e tudo estava em paz.

Mas a brisa que agitava seus cabelos também trouxe consigo o som de vozes desconhecidas, e a pequena bolha se desfez.

Endireitou-se no lugar, irritada, e perguntou do horário. Momoi olhou o celular e disse que ainda era cedo, mas Aomine insistiu que já era hora de devolver o rádio para o pai dela, antes que as pessoas que se reuniam para usar a quadra acertassem uma bola nele.

Momoi fez bico, mas não retrucou. abaixou-se e apertou o botão de stop do aparelho, interrompendo a quinta ou sexta repetição de uma das músicas de que Aomine tinha gostado. A jogadora pensou em pedir que ela deixasse pelo menos aquela canção terminar, mas ficou calada. O momento havia passado.

Ambas se levantaram, limpando a poeira das roupas, e Aomine jogou sua bolsa esportiva sobre o ombro, pronta para balbuciar uma despedida quase educada e ir embora.

E dessa vez, foi Momoi quem a surpreeendeu, subindo no degrau superior da arquibancada e beijando-lhe a bochecha.

- Até quarta-feira, Dai-chan. - disse ela, descendo os degraus e indo embora antes que Aomine conseguisse reagir. E ela jurava que ainda podia sentir a moça sorrindo contra seu rosto.

Foi com o passo leve e muito mais borboletas no estômago do que o esperado que Aomine procurou o caminho de casa.