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In Nomine Patris

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Tu és o anjo mais próximo de Deus, mas tu não sabes. Não ainda.

Falam isso de Lucifel, dos cabelos negros e da expressão sempre entediada. Falam isso de Lucifel, o anjo mais adorado, aquele que se curvam perante ele quando ele passa. Falam isso de Lucifel e pedem-lhe que diga a Deus, o Criador, suas preces. Preces de anjos, mil vezes mais sagradas que qualquer outra criatura dos três Reinos, tu costumas pensar, porque ainda não sabes que Deus criou seus filhos mais próximos apenas para observar mais de perto a queda (no fim os demônios são os mais livres).

Lucifel, teu irmão, que tu quase não vês. Ser o preferido tem sempre seus deveres e tu te perguntas se, se tu foste O Mais Próximo, se tu terias de fazer a mesma coisa. A resposta é simples: não, porque tu és O Escolhido, O Preferido, O Mais Próximo do Criador porque tua presença é imaculada, o fogo dos teus cabelos queimando qualquer pecado e qualquer tentação que possam atravessar teu caminho alado. E Deus te amas o suficiente para não te dizer, para não dizer a ninguém, apenas apontar a família, apontar dois anjos completamente diferentes e chamar de irmãos, Lucifel e ti, e todos os anjos, famintos, olham o mais alto, o ponto mais negro entre vós, e decidem por eles mesmos que Luficel é a Luz, quando tu és aquele que queima mais forte.

Deus te amou desde o momento que te vistes, mas Deus está morto e tu foste sua última e única criação bem-sucedida. Ele te deixaste com teus cabelos à prova de pecado e teus olhos como o céu que os humanos tanto gostam de chamar com o ‘c’ maiúsculo, tua morada, de teu irmão, de teus semelhantes, aos olhos dos pequeninos.

Tu irás perguntar, num futuro em que tu és vício e violência, mas ainda pureza, sempre pureza, como ninguém notou que Pai sempre soube que Lucifel iria traí-lo por uma mulher. A mulher. A Cobra e Lilith e Eva em uma só. Tu só irás conhecer uma de suas reencarnações e tu irás respeitá-la porque ela será um homem. Tu és misógino, mas todos os anjos são. Cada pecado e cada erro possui o rosto único, feminino, dissimulador. Ninguém que tem uma fenda entre as pernas foi feito para voar, apenas para cair e levar qualquer um disposto a desejar aquele abismo consigo. Até mesmo os humanos perceberam isso.

Mas isto é correr muito além da tua história, desta que conto aos demais, e tu perderás muito antes de encontrar as respostas que nunca quis. Por enquanto, no teu presente, Lucifel ainda não deixou cair o ‘l’ em seu nome, porque ainda não achou razão para tal. Ele tenta, no entanto, claro que tenta, o negro dos cabelos um sinal de rebeldia, e tenta contigo, filho preferido do Pai, filho preferido que ele sempre notou. Não tem como alguém tão negro até mesmo sob seus próprios olhos ver que uma cultura, uma sociedade inteira está errada. Basta olhar-se no espelho e ver em seu corpo e em seus olhos todos os erros que o Pai cometeu e colocou nele como um aviso, uma moral da história. E ele poderia dizer a verdade sobre ti, mas isso significaria perder-te para a luz. E Lucifel demorou tanto tempo para colocar-te nas sombras de sua própria existência, tu não podes culpa-lo. Tu farias a mesma coisa, se tu foste como ele e ele foste tu.

(tu nunca o culparias, porque tu és, mais que tudo, irmão daquele que terá muitos nomes, mas que para ti sempre teve apenas um. Tu o amas como nunca amaria nem teu próprio Criador e talvez teu Pai sentisse inveja de teu irmão por isso)

Às vezes ele vem até teu quarto quando todos estão dormindo e te toca. Não como tocaria uma mulher (como viria a tentar em vão e em vão e em vão tocá-La, mas Ela nunca o permitiu de fazê-lo), mas para entrelaçar teus dedos nos dele. E tu nunca entendeste por quê ele apenas fazia isto quando estavam isolados do mundo, mas tu sempre esqueces da dor porque ela é sempre tão breve.

O cheiro de queimado se alastra por teu quarto, o único resquício que teu irmão esteve ali. Pele queimada, mas não a tua. A dele. A do mais Próximo de Deus, em teus olhos, aos olhos de todos e talvez essa fosse a razão pela qual tu vives isolado, rodeado de empregadas e nenhuma outra companhia falante, pensante, tão forte quanto teu irmão. Teu irmão, tua queda, teu único admirador quando ele pensa que tu não estas vendo (tu sempre vês porque tu sempre estás a observá-lo). A dor que atravessa tua pele, tua carne e entra em teus vasos sanguíneos causa espasmos em teu corpo e quando tu vês, tu estás no chão pedindo perdão a teu próprio irmão por não ser digno de um toque. Não demora nem quinze segundos, o contato, a aproximação de peles, os dedos dele nos teus, uma promessa de algo mais, e tua vida se acaba e tu derramas tuas lágrimas, as esperanças que dessa vez seria diferente todas caídas como um dia acontecerá com teu irmão.

“Está tudo bem.” Ele sempre te dizes, os olhos sempre pálidos de expressão, a voz sempre mascarando uma raiva que tu ouves quando ele bate a porta do teu quarto e te deixa sozinho com teu próprio calor.

Deus sempre tem um plano, é o que os anjos dizem também e é o que te faz ficar acordado por noites e noites. Deus sempre tem um plano, e se teu irmão és o Escolhido, o que tu és? Tu foste feito para cair, tu sempre decides no fim, mas tu não sabes que tu foste feito para voar, porque este segredo só pertence à Lucifel e ao Pai. Tu és a câmara secreta do Barba Azul, tu és cada uma das esposas mortas, tu és o segredo mais bem guardado de teu irmão, que no fim te esconde porque tem medo, tem inveja de que qualquer outra pessoa, qualquer outro anjo, bom ou mal, possa te tocar como ele não consegue.

E um dia tu saberás, quando Lucifel cair junto com todos os teus empregados (aconselhados desde sempre a não tocar teu corpo por teu próprio irmão, uma ameaça em forma de ordem, porque tu sempre pertencerás a ele, como um assassino que mata de novo e de novo para tentar retornar o que sentiu por sua primeira vítima), sangue manchando cada pedaço da tua casa imaculada, até mesmo no lençol do teu quarto, como se outros pecados houvessem ocorrido no lugar e tu passarás horas só observando a mancha escura, o cheiro forte, fascinado com os desejos mais íntimos teus e de teu irmão. Tu um dia saberás e tu odiarás a traição, por uma mulher, e entenderás que tu sempre fostes o Protegido e Lucife(r) sempre a cobra tentadora. Tu foste feito para ser louvado, mas teu irmão te tornaste uma piada.

(Mas por enquanto Deus está morto, Lucifel ainda finge, a Mulher ainda não entrara em cena e tu, tu, pobre criança, pobre Michael, rezas todas as noites para teu Pai e Criador para que ele te perdoe por teus pecados não cometidos)

Tu então te tornarás a Guerra, um dragão na tua face e a explosão em cada um dos teus passos. Lúcifer se tornará um inimigo, amante Dela, sua Deusa e Demônio particular. E Deus, o Pai Eterno, o Pai, o Filho e o Espírito Santo em um, se tornará uma desculpa para toda a tua espécie.

Para ti, Deus será nada. Tu pararás de pensar nele depois de tua elevação. Tu pararás de pedir perdão para amaldiçoa-Lo. No fim, tudo o que tu querias não era ser bom, mas apenas ser capaz de tocá-lo. Lo. Lúcifer, pois o ‘r’ ao fim sempre esteve lá, e por isso a pronúncia do primeiro nome do teu irmão sempre soou tão errada, assim como seu desejo de declínio. Teu também. Tu querias o toque de teu irmão, não a alma imaculada, protegida de pecados.

(o único desejo do Pai que se realizou, Seu único acerto antes da morte, Seu único anjo perfeito em toda aquela corrupção. O filho imaculado que passará o resto da vida tentando, em vão, manchar-se no sangue de suas vítimas, mas o Pai deu a tu, Michael, tua personalidade gauche. É em toda a tua matança que tu irás continuar a ser o mais próximo Dele, pois Ele te criou em Sua imagem. E Ele está morto, mas tu continuas a respirar e, assim, Ele também)

Tu querias sentir o calor que tu entregarás um dia a teus inimigos, mas de outra maneira, daquela maneira, pela única pessoa que olhou para ti desde pequeno e viu em teu corpo sempre menor que o dele, em teus cabelos vermelhos e em teus olhos azuis, a salvação.