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S01E01 - Ato I: Os Caça-Quimeras.

Chapter Text

[cenário: alguma lojinha de penhores entranhada em algum prédio caindo aos pedaços na Metrópole. É dia, mas a chuva que cai traz um ar de melancolia na cidade.]

 

A vida é mais ou menos assim, sabe? A gente procura, procura, procura, acha e vai lá caçar. Bem facinho, sem surpresas. É até um bom ramo de trabalho se for pensar nos ganhos: a patroa não chia tanto, os colegas não são chatos (Tá, tirando o seu Smithens, ele é um porre!), a remuneração vai de boa, tenho sempre dimdim pra comer o que quiser. O grande problema é a barganha. Sempre mia.

 

Madame Fabulária é o ser vivo mais velho dessa cidade (Arrãm, podicrê maluco que a véia é antiga!), viu uma pancada de coisa, vendeu boa parte delas e não se surpreende com o que acaba caindo nas nossas mãos. Semana passada deu um preço mixaria pra uma parte da armadura de Leopoldo, o Bravo. A coisa ficou séria quando ela nos acusou de roubar propriedade alheia, dignamente a Chefia respondeu à altura e disse que continua sendo um direito dela de nascimento em fazer o que raios quiser fazer com qualquer um de nosso povo.

Macaquinhos amestrados com polenta frita: a coisa ficou REALMENTE séria.

Meus colegas de trabalho consentem com esse poder invejável, Raine da Floresta do Inverno Profundo é irresistível em fazer qualquer um obedecer suas ordens. Ela não faz por mal, a Chefia quer se manter na dela sempre, mas esse povo com complexo de procurar salvadores da pátria... Pffff...

 

- Oh Filha dos Ventos, não tinha uma roupinha melhor pra se vestir não? - e lá se foi minha raríssima paciência para tratar Prince com educação. Apontei o dedo do meio pro babaca e esperei o nosso convidado de honra chegar de táxi. A missão hoje era convencer a velha a pegar leve na troca, nada de alardes, nada de respostas ferinas, apenas falar o que ela queria ouvir... Nada melhor do que chamar o Prince pra fazer o trabalho, ahn... delicado... (Ele tem mais jeito com mulheres do que eu). Tudo seria perfeito se não estivéssemos com o senhor-eu-sei-de-tudo-sobre-fadinhas Nakamori, o menino-inseto.

 

- É um belo espécime... - murmurou menino-inseto. Todo mundo chamava o camarada assim porque ele era diferente do que a gente tava habituado, sabe? Os Feéricos do Oriente jamais botam o pé aqui nessas quebrada, tanto por rancor como por nojinho. Menino-inseto rodava meio mundo atrás das coisas que ele pesquisava, não ia ser a família que ia impedir ele de vir pra cá saber sobre nós. Com aqueles óculos fundo de garrafa, espiava minuciosamente um jarro de conserva (Era picles, cebolinha ou tomates secos? Hmmmmm deu fome agora...) cheio de larvas em uma cor azul doentia. Parecia que as praguinhas tinham umas inscrições em cada corpinho de menos de uma ponta do meu polegar com o menor sinal de luz. O pouco que conseguia captar da vibe: eram farejadoras e das boas.

 

Sim, porque o Toby não consegue fazer o trabalho de cheirador sozinho: precisamos de mais narizes nos esquemas.

 

Madame Fabulária era dura na queda pra negociar mercadoria, mas justa quando via que o cliente precisava realmente do item. Mercenarismo não era a cara dela, apenas o saber que não está

 

- 3 mil cada uma... - menino-inseto endireitou a postura pra parecer mais homem e fez uma expressão de escândalo em seguida. Falhou na primeira tentativa, rapaz...

- 3 mil?! Tá maluca?! - foi a minha vez de falar. - Tá doida a gente gastar esse dinheiro todo?! - O galã aqui do meu lado nem piscou pelo preço.

- Maluca estaria se te ofertasse pelo preço que você sugeriu... Esses são preciosos, menino-inseto. E se quiser um deles, é dinheiro pra cá, larvinha asquerosa para aí...

- V-você não tem idéia do que está falando!! 3 mil por larvas da Componésia?! - realmente o menino-inseto tá abalado. Quem mandou mexer com a velhaca?

- Matar o ninho foi um perrengue, o caçador anterior me disse isso... - o oriental andou um pouco em círculos, coçou a cabeça e me olhou com dúvida.

- Oh, crias da Componésia! - disse o pomposo de forma majestosa e teatral, parecia que tinha acordado de um sonho bom, o safado - Que honra ver que seus negócios sempre prosperam, Madame Fabulária... - se a velha ruiva cair nessa… não me chamo Maria Maricotinha Ângela da Silva Sauro...

- Pelo menos alguém aqui tem que ser sortuda em alguma coisa... -a velhota deu de ombros e logo mudou o tom de voz - E hey hey hey japinha! Nada de pegar mercadoria que não foi paga...

- Mas a senhora precisa entender que… - menino-inseto segurava o jarro de Componésias contra o peito como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Ainda me pergunto por que raios querem uma coisa dessas.

- Não me venha com o sermão novamente! - disse ela pegando o jarro de conserva e escondendo debaixo do balcão. - 3 mil e nada mais.

- Poxa vida, tá aí uma negociação que eu não perderia... - disse o pomposo, não estávamos indo a lugar nenhum assim. Olhei para trás, pela vitrine principal dava para ver o porquê da Chefia demorar, tava sentada no ponto de ônibus, pegando toda a chuva que poderia. Nunca entendi a dela com chuva.

- Ela vai pegar um resfriado assim... - pontuou a velha ruiva.

- Náh, ela nasceu pra isso... - respondi com certa preocupação. Chefia não era de se manter muito tempo no modo "estou pensando em coisas mais profundas que o usual", isso tava ficando rotineiro.

- Cara Madame Fab... Sempre um prazer estar em sua presença... - o galã foi beijar a mãozinha envelhecida e enrugada da vó. Oh ótimo...

- Pode tentar o quanto quiser, rapazinho bem nascido, mas não vai conseguir me convencer com essa conversinha. - tirando a mão do alcance dos lábios de veludo do pomposo - Estou velha demais para ficar me preocupando com bebês como você... - a risada do menino-inseto foi alta e debochada, o pomposo se sentiu ligeiramente e fingidamente ofendido. Eu roía as unhas. - Agora poderia me fazer um favorzinho, meu lindinho?

- Oh, oh tudo que a senhora me pedir, Madame! - ele respondeu prontamente, se recuperando do golpe no orgulho galanteador.

- Tire o seu amiguinho dos insetos da minha loja, sim? Se ele não cobrir a oferta de 3 mil por cada larva, nada feito.

- O que você ofereceu em troca? - perguntou o pomposo de modo natural, o oriental deu de ombros.

- Tentei a adaga de Xian, o lustre de Batavious e até aquele baú bizarro que conserta roupas e armaduras... - o pomposo fez um barulho com a boca e deliberou por um instante, abriu a boca para falar com o rapaz a sua frente, mas preferiu dar um olhar intenso e sedutor para a dona da lojinha. Maldito galã...

- Tivemos um novo trabalho...

- Arram, e eu com isso...?

- Envolvia quimeras gêmeas... - o olhar zombador da velha mudou de foco, um estranho brilho apareceu e isso fez o pomposo dar um meio sorriso galanteador, segurando a mão livre da velha, ele a alisou por alguns segundos. - Um bacante queria uma resolução rápida para a falta de sorte... E bem... Houve os espólios do Lorde Túr-Dalyen...

- Hmmmm... - a velha coçou o pescoço em dúvida. Estamos ganhando os ouvidos dela?

- Pelo que as más linguas dizem, muitas quimeras falsas, mas essa peça gêmea em especial é a verdadeira... A armadilha de Fenrir...? Pode ser sua...

- E por que vocês caçariam ela para mim...? - o tom da velha era de puro cinismo, já o pomposo não deixou a guarda cair.

- A armadilha de Fenrir pelo jarro de Componésia...?

- Nem em seus sonhos mais secretos, bebêzinho... - o oriental se sacudiu para falar, mas o pomposo calou sua boca com a mão livre.

- Armadilha e a corrente? São as peças gêmeas, é pegar ou largar...

- Vocês nem conseguiriam chegar ao Fenrir, por que acha que vou acreditar que pegaram as gêmeas?

- Porque já temos ela... - okay, não recebi relatório, nem memorando sobre esse fato. Como assim temos as relíquias mais hardcore?!

- Estás blefando, menininho... - até eu acreditei que o Prince tava de lorota, de jeito nenhum alguém conseguir pegar as quimeras gêmeas!

- Imagine como seria glorioso... Na vitrine de sua linda e bem decorada loja, as peças gêmeas, finalmente reunidas após dezenas de séculos? Imagina o quanto furor de clientes viriam aqui para vê-la e consultarem o seu Oráculo? Imagina o quanto de ouro poderia ganhar...

- Uma peça gêmea dessas não se vende, seu tolo. - disse a velha perdida em pensamentos, mão no jarro de conserva e colocando devagar no balcão. Yep, a vibe dela tá melhorando - O que me garantem que terei a armadilha e a corrente? - respirei fundo, criei coragem e lancei os dados, tá na hora de ousar. Bati nas costas do menino-inseto e dei meu melhor sorriso de derrubar qualquer muralha, a velhota arregalou os olhos e sorriu abertamente ao me perceber ali. - Oh Ângela Filha dos ventos, diga… Desembuche.

- O Aemilius me mandou te dizer que a encomenda chegou. - o silêncio ficou entre todos ali, pomposo nem piscou em surpresa (O cara sabe blefar, viu?).

- C-chegou...? - ouvi que a voz da senhora falhou, embargada de emoções. odeio ser garota de recados por conta disso, as pessoas ficam felizes, assustadas, surpresas pelos recados, mas não dizem o porquê. Tudo ao seu tempo, logo descubro o que é.

- Arrãm, e ele te espera lá no Bingo da 25 amanhã de manhã pra fazerem a troca.

- Certo... - pigarreando para voltar ao modo chatonilda de sempre, virou-se para o pomposo.  -  E quanto as gêmeas?

- Temos a Prodígio conosco. Ela vai trazer para você em alguns dias.

- Alguns dias…? - a velhota olhou por cima dos óculos enormes e me perfurou com um dedo nodoso apontado pro meu nariz.

- Isso quer dizer que não conseguiram pegar as gêmeas ainda? - o pomposo aprumou o jeitão e beijou a mão da velha novamente.

- Não seria isso, milady! É que as gêmeas são muito voláteis... - acalmou ele e a velha atenuou o olhar desconfiado para o cínico.

- Extremamente bagunceiras… - assegurei com toda a certeza do mundo, sei que tou fazendo a coisa certa através da errada. A chuva apertou lá fora, trovões, porcaria, odeio essas coisas. Chefia não se moveu do lugar, parada como uma estátua no ponto de ônibus. - Traremos assim que a Prodígio acordar do soninho de beleza dela…

- É aquela guria da tempestade, não é? Não vou com a cara dela… - resmungou a velhota pegando de volta o jarro, iscando devagar uma larva gosmenta azulada para dentro de um vidrinho de poção oco. Tapou-o com uma rolha pequenina e me entregou, antes que Prince tomasse de mim, o menino-inseto pediu primeiro.

- Guarde com sua vida. - debochei com um sinal de juramento, ele franziu a testa seriamente.

- Não brinque com isso, Angie… - dei de ombros e virei pra velhinha a nos encarar. Pomposo já estava se afastando do balcão e examinando um rank de espadas ali perto.

- Menina, quero as gêmeas aqui na loja na sexta.

- Domingo. - repliquei.

- Sexta e nenhum dia a mais.

- Domingo porque atendemos 24 horas todos os dias. - insisti com uma ginga para conquistar a afeição dela.

- Sábado à noite.

- Sábado à noite. - concordei com a barganha e bati no ombro do menino-inseto para irmos embora.

- E se esse trato for quebrado, vocês sabem a consequência! - ralhou a velhota atrás do balcão, contando notas de dinheiro e abrindo a registradora com um tapa forte.

 

O menino-inseto parecia estar extasiado com o vidrinho dentro de seu bolso interno. Sorria, ria, falava coisas fofas… Nunca vou entender esses entusiastas. Pomposo abriu o guarda-chuva e me puxou para me abrigar ali. Menino-inseto tinha sua capa de chuva e foi confortavelmente seguindo pela rua para o nosso quartel-general.

 -  O que ela quis dizer das consequências? - perguntou Prince pela primeira vez interessado nesse papo. Bufei impacientemente e cutuquei a Chefia para sair do transe da chuva.

 -  Se tudo der errado, o fiotim de cruz credo fica como garantia…

 -  Não concordei com esse tipo de troca.  -  disse a Chefia se levantando do banco de pedra completamente ensopada.  -  E não deixarei Tobby cair nas mãos daquela…  -  o seu gesto amplo para a fachada da loja nos explicou tudo: Chefia odiava mágica e quem a praticava.

 -  Bora ir pra casa? Tá frio pra carambolas aqui…

 -  Uma excelente ideia, Filha dos Ventos.  -  comentou o pomposo dando o braço para a Chefia também entrar debaixo do imenso guarda-chuva, ela recusou com um sorriso triste pro chão.

 -  Estou esperando alguém, negócios a se tratar.

 -  Não fique até tarde na rua, docinho…  -  gracejou o pomposo, eu ri alto, mas logo tive que me calar. Os dois tinham essa simbiose estranha de se conversarem por olhares, mesmo com a besteirada de flerte rolando. É difícil saber o que os feéricos do Inverno Profundo estão tramando quando só trocam olhares.

 -  Manda beijocas na Kittie!  -  disse distraidamente, nem sabia se ela iria encontrar a Prodígio (Aliás, essa história tá ficando… muito esquisita!), mas pelo rubor que subiu pelo pescoço dela, arrãm, acertei em cheio novamente.  -  Menino-inseto volta cá!!  -  gritei para o clima não pesar demais, a chuva estava mesmo terrível.

 -  A pequenina vai congelar assim!! Apressem-se seus molengas!

 -  Ele nos chamou de molengas?  -  perguntou o pomposo com um tom ameno.

 -  Tio, cê que tá no comando do guarda-chuva, bora logo…

 -  Vou chutar o traseiro desse...


 

O ônibus parou na frente da loja cerca de meia hora depois, jogando mais água na calçada, atingindo as calças de Raine e retirando o resto de bom humor que ela tinha quando pegava chuva. Toda aquela situação estava ficando fora do controle, do seu controle, é claro. Queria entrar na lojinha e dizer algumas verdades pra feiticeira, mas como sabia deveria manter a boa vizinhança. Ser uma boa ouvinte, ser uma excelente anfitriã, ser a heroína da comunidade. Como odiava essa posição incômoda. Desde o primeiro dia que abrira o Hotel para o exterior essa nuvem de hierarquia pairava sob sua cabeça a lembrando constantemente de quem era e o que deveria fazer para ser quem era. Antes de ser caçadora, filha das Florestas, era Rainha. ou quase isso, filha do Rei, logo Rainha.

A porta abriu e o vapor quente do veículo bateu em seu rosto molhado, ela bufou para tirar uma mecha do cabelo escuro que atrapalhava sua visão e esperou. Arrastando as pernas e curvada em uma mochila maior que as costas vinha uma jovenzinha ruiva, de cabelos bagunçados e cara de sono. As duas trocaram sorrisos amistosos, Raine a ajudou descer o último degrau e nesse exato momento a chuva se dissipou dos céus. as nuvens continuaram ali, nublando os céus, mas o aguaceiro de antes simplesmente evaporou. O ônibus arrancou com um guincho de máquina e pneus, a jovem fungou alto, estava gripada, olhos fundos, garganta arranhando.

 -  Viajou bem?

 -  Algo assim.

 -  Você continua mono-silábica mesmo?

 -  Prefiro não dar ideia para alucinações…  -  Raine riu um pouco e segurou a mão dela, seus dedos escorregaram entre os dela. Por um tempo a garota olhou sua mão sendo tomada pela líder dos Caça-Quimera e depois desviou o olhar para a fachada da lojinha de penhores da Madame Fabulária. Raine a encarava com um olhar misterioso, um breve sorriso vencedor no canto dos lábios.

 -  Venha, vamos comer alguma coisa.

 -  Não tou com fome.

 -  Eu preciso de chá, urgentemente.  -  as duas caminhavam uma ao lado da outra, em silêncio, desviando de poças e saliências entre as calçadas. Viraram mais outra esquina e bem a frente delas estava o Hotel. Uma construção antiga de muitas décadas, erguida imponente entre tantos prédios comerciais, de tijolos em um laranja coberto de limo, trepadeiras e reboco, janelas enormes entalhadas em madeira escurecida pelo tempo e clima. A estrangeira deu um suspiro de surpresa.

 -  Tá aí algo novo.

 -  Não havia visto ainda?  -  perguntou Raine abrindo o portão pesado da propriedade intocada pelo mundo exterior e dando lugar para a garota entrar.

 -  N-não…  -  a ruiva olhou de volta para a rua de onde vieram, tudo parecia tão… normal. Mas ali dentro do pátio da frente, com um jardim tão bem cuidado e uma pequena fonte jorrando água cristalina, duvidou se estava acordada mesmo.  -  Acho que ainda não acordei direito.  -  balbuciou para si mesma, Raine riu um pouco para o chão e abriu a porta pesada com leveza, o cheiro de madeira nova, biscoitos e chá inundou os sentidos das duas.

 -  Oh alguém andou providenciando o chá perfeito para nós duas.

 -  Não quero chá.  -  a voz da garota estava longe, admirando o jardim e se aproximando da fonte.

 -  Kittie?  - chamou Raine, ela a olhou ternamente.  -  Você sabe que está segura aqui. Ninguém vai te machucar, isso eu te prometo.

 -  E se eu estiver…

 -  Entre e verá que não está.  -  desafiou a líder abrindo a porta totalmente. Alguém passou mancando e rindo alto, enquanto outra pessoa gritava em plenos pulmões:

 -  Devolveeeeee meus biscoooooitos seu fiotim de cruz credoooo!!

 -  Crianças, parem de brincar na hora do chá!!  -  gritou outra voz que fez a jovenzinha se encolher segurando bem as alças da mochila.  -  Oh Raine, entre logo, pelos deuses! Você está encharcada!  -  Raine acenou para a garota se aproximar e ela veio lentamente, testando seus sentidos e suas certezas. Já passeara por tantos lugares enquanto dormia que talvez ali fosse mais outro sonho maluco induzido pela quantidade de remédios que tinha que tomar pra ficar “normal”. Não havia nenhum homem ali na porta, mas continuava a falar com Raine mesmo quando deu os primeiros passos nos degraus.  -  Tive notícias do outro lado, uma comitiva veio pelo Metrô, boas notícias pelo jeito. Oh entre criança, você está pálida como um defunto!  -  disse a voz vinda de algum lugar que a jovenzinha não sabia. Raine tirava o casaco e prendia os cabelos atrás da nuca em um coque improvisado, verificou o quanto suas calças estavam arruinadas e deu uma olhadela por dentro da regata branca que usava. A dupla dos berros passou de novo por elas, era uma menina vestida com as roupas mais espalhafatosas possíveis, em uma versão punk gótica com princesa de contos-de-fada, atrás dela estava um adolescente manco, sardinhas no rosto largo e de cabelos bagunçados como uma juba de leão.

 -  Os biscoitos eram meus, sua larápia!!

 -  Nada disso, zé mané! Primeira fornada é sempre minha!

 -  Lareira, água quente e chuveiro, Raine.  -  disse a voz sem corpo  -  Você se molhou muito, menina Prodígio?  -  uma imensa escada coberta por uma extensa tapeçaria vinho e lustrosa seguia até o primeiro andar do Hotel, a estrutura se desdobrava em outras escadas para os andares superiores.

 -  N-não…?  -  respondeu a ruiva para o nada. Raine subia as escadas em passadas fortes em sua bota de caça e logo sumiu em um corredor do primeiro andar. A garota vestida como um acidente de carro parou na frente da ruiva.

 -  Oh hey, hola, hola hermana! Como vai Kittie?  -  veio apertando a mão da menina efusivamente.

 -  Ela é a Kittie?  -  perguntou o rapaz de cabelos bagunçados.  -  Nossa, pensei que você fosse menor…  -  A morena punk deu um tapão no peito dele.

 -  Ela saca das coisas, okay? Mais respeito!  -  E pegando a mão de Kittie, a levou para a cozinha.  -  Vem, tem chá e biscoitos… Você tá acabada, menina! Andou dormindo além da conta né? Tou sabendo, tou sabendo… Escuta, é de boas dormir e talz, melhor ainda quando se sonha, mas tipo, cê tem que ter mais cuidado. Última vez foi meio difícil da gente descobrir onde raios você tinha se enfiado…  -  a falação da garota de sua idade a atordoou um pouco, mas nada se comparou ao ver um ser azulado, de chifres, de avental e touquinha de rede. Ela arregalou os olhos em terror, mas ao piscar lá estava o cozinheiro do grupo.

 -  Oh convidada especial hoje? Maravilha!  -  ele exclamou batendo as mãos com satisfação. Depois estapeou a mão da garota gótica que tentava pegar bolinhos recém-saídos do forno. _ Estão quentes.

 -  Eu como assim mesmo.

 -  Não, vai esperar esfriar e apreciar depois que eu colocar cobertura.  -  e olhando para a convidada.  -  Oh Kristevá O’Sheara, bem vinda ao nosso humilde lar. Uma vez estivemos em batalha em uma época distante e eis que o Destino nos coloca lado a lado novamente.

 -  Mas sem porradeira épica e… cê sabe…  -  a garota punk rodou a mão como se estivesse brandindo uma arma imaginária.

 -  E-eu não saberia…  -  a jovem balbuciou confusa. Só poderia ser um sonho mesmo. Apenas isso explicava a sensação de que já conhecia o grandalhão.

 -  Ora Aemilius, não aborreça a senhorita O’Sheara com isso agora…  -  disse a voz sem corpo.  -  Raine está te chamando no segundo andar, separou o quarto para você.

 -  Uuuuuuh o quartinho especial? Hmmmm agora sim as coisas estão ficando claras aqui…

 -  Angela…  -  Emílio, o cozinheiro, a olhou em reprimenda. Ela levantou as mãos com a boca aberta.

 -  Apenas opinando sobre o assunto… Deixa que eu te levo, mocinha…  -  enlaçando o braço da menina e a levando arrastada escada acima.  -  Tão bom te ver novamente! Aquele teu remendo fez bem pra caramba, nunca mais sangrei aqui do lado, olha…  -  levantando um pouco da blusa presa de caveirinhas rosas e mostrando a cicatriz quase imperceptível que tinha na bacia.

 

O quarto especial para a estrangeira era uma réplica de seu próprio quarto lá do outro lado do mundo. As mesmas paredes, os mesmos pôsteres pregados na parede, a mesma janela apontando para o Sol nascente, a bancada com a pia minúscula, o microondas em cima de uma caixa de madeira, a cama de molas sustentada por livros e mais livros, a mesma roupa de cama. Podia sentir o cheiro de casa ali mesmo, apenas de fungar com mais força (O nariz ainda entupido pela mudança brusca de temperatura), abriu a porta do guarda-roupa pequeno e viu o amontoado de livros, papelada e pequenos objetos abarrotando o interior. Piscando nervosamente, olhou em volta. estava faltando algo muito importante no quarto. Apagou a luz e viu as estrelinhas luminosas pregadas no teto brilharem palidamente, suspirou aliviada.

 -  Creio que acertamos nos mínimos detalhes?  -  a voz de Raine a tirou da sensação de bem estar por estar no lugar onde ela mais se sentia segura no universo.  -  Eu disse que estaria segura comigo…

 -  Conosco.  -  corrigiu Angie espiando os livros empilhados debaixo do colchão. Raine a olhou com certa superioridade.  -  Escuta, chuchu… Cê sabe que não precisa se preocupar enquanto estiver aqui né? Tamos juntas nessa e vamos nos ajudar, beleza?  -  a garota deixou a mochila pesada no chão e abriu a porta do microondas distraidamente. Raine andava lentamente pelo quarto, apreciando todo o Glamour que haviam depositado ali para recriar a ilusão do mesmo quarto.

 -  Isso tudo é de mentira né?

 -  Oi?  -  perguntou Angie desconcertada, Raine coçou a ponta do nariz e sentou na cama da garota, o colchão não afundou com seu peso e isso sempre acontecia quando a jovem ia dormir.

 -  Kittie… É temporário, mas você disse que precisava de um lugar especial para se concentrar nas missões.

 -  S-sim… Mas não pensei que iriam oferecer o meu quarto.

 -  Você gostaria de um lugar diferente?  -  as orelhas da ruiva ficaram como a cor de seus cabelos bagunçados presos em uma trança longa. Angela fez um som de apreciação e beliscou as costelas da garota antes de sair.

 -  O quarto dela é o último ali no quarto andar, se quer saber…

 -  Angela, por favor…?  -  Raine a admoestou com um olhar, a garota apenas levantou as mãos novamente e fez um som de “pop” com a boca.

 -  Pega no flagrante… Prometo não fazer mais…  -  e saindo de fininho, ela lançou olhares para Raine e Kristevá.  -  Não precisam se apressar, se é que me entendem… Ohohohohoho.  -  Raine cobriu o rosto com a mão e deixou um suspiro cansado sair de seus pulmões.

 -  Eu diria que… não precisava ter trazido meu quarto… Só não queria que fosse aquele lugar escuro no Arges.

 -  Eu jamais faria isso com você.  -  disse a líder com seriedade. o silêncio ficou entre as duas, a estrangeira averiguando cada espaço de seu quarto. Tudo era real ao toque e sentidos.

 -  Então o que preciso fazer dessa vez?  -  Raine se aproximou da garota mais baixa e tocou seu ombro tenso. Kristevá quis se esquivar do toque, mas parecia confortável, certo, seguro.

 -  Você só precisa sonhar…