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S01E01 - Ato I: Os Caça-Quimeras.

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É noite na Metrópole e há traços de chuva torrencial por todos os lados.
O cenário é debaixo de um viaduto de concreto, uma aglomeração de poucas pessoas em um trailer de cachorro quente ao lado de uma construção não-acabada de um edifício de muitos andares. Mesinhas amarelas de plástico com cadeiras e banquinhos de diversos formatos estão espalhados uniformemente perto do trailer, alguns clientes estão ali, aproveitando o final da noite para lancharem, um grupo de trabalhadores está em uma mesa dupla. O barulho da chapa fritando ovos e bacon é o som que mais se ouve, um homem alto de aproximados 30 anos, impecavelmente vestido encara seu smartphone com certa adoração e recita:


"A chuva da noite caía implacável no grosso teto de ferro escuro, uma dessas maravilhas da Humanidade depois que descobriram que podem moldar aço com fogo e martelo. As cristalinas gotas que se turvam com o cinzento de uma cidade que nunca dorme, turbulenta por sua ferocidade de concreto e óleo, como uma grande máquina alimentada por esperanças, emoções e sonhos. Pobre és chuva da noite por tocar chão tão..."

 - Quer parar de filosofar sobre a chuva? - disse o mais baixinho, cara emburrada e enfurnado na capa de chuva amarela berrante que cobria seu corpo atarracado.

 - Atrapalhas o dom de um poeta? Como ousas...? - respondeu o que segurava o celular novo, reluzindo a capa de prata e uma correntinha de ouro maciço no pulso. Ele desligou o aplicativo de gravação de voz e certificou-se de que não havia mensagens ou ligações novas na telinha de pura tecnologia.

 - Desde quando trambiqueiro é ser poeta? - respondeu o mais alto batendo de leve na tábua envelhecida e enferrujada do trailer de cachorro quente que comandava - Dois dogão com extra de bacon...? - anunciou para os clientes que esperavam seus pedidos.

 - Opa, esse é o meu! - exclamou a menina mirrada que parecia ter saído de uma festa barra pesada, pulando para alcançar o banco alto do espaço para lanches do trailer localizado debaixo de um viaduto qualquer de qualquer rua de alguma Metrópole.

 - Cuidado no chilli, chica... - se preocupou o grandalhão que mal cabia no trailer diminuto, cabeça encostando no teto e o suor aparado por um pano de prato decorado com bordados de nós entrelaçados. - Pode fazer mal aí pro teu estômago fraco...

 - Estômago fraco aonde? Ela poderia devorar uma sopa de pedras com catchup e se sentiria bem com isso! - esganiçou o menino garçom que apareceu subitamente atrás do trailer. Era quase da mesma idade da menina e pelas marcas no rosto, a vida havia já havia feito bastante dele.

 - Nem é... - disse a menina apontando para o sanduíche recheado exageradamente - Meu prazer é comer essas porcarias com todo o gosto que tiver ao meu dispor...

 - Esse trabalho não vai dar certo... - recomendou o baixinho carrancudo para o muito bem vestido.

 - Alguém que conhecemos adoraria ouvir isso... - comentou o pomposo, digitando rapidamente uma mensagem de texto.

 - Que se ferre esse alguém também... - a troca de olhares entre o grandalhão e o que segurava o celular tão pomposamente foi acertado: Ninguém falaria mais do certo alguém. - Que vá pro Inferno essa palhaçada toda... - devorando o seu sanduíche meio comido sem educação alguma. A menina ao seu lado acompanhava a voracidade do baixinho.

 - E o argumento morre sob o belo som do gotejar da chuva torrencial da noite... - o dedo do meio apontado pelo atarracado fez o poeta se calar no meio de sua composição.

 - Larga essa mania de fazer poesia no meio dessa cidade, cara... Não há nada bonito aqui para se cantar... - disse o atarracado entre uma mordida e outra.

 - Por que raios irei calar-me quando há tanto o que Sonhar? Mesmo nessa cidade fétida e cheia de... coisas ruins há o que se cantar... O belo raiar do dia, a bela chuva que assola o asfalto, as magníficas donzelas que...

 - Corta o papo, Prince. Tou a fim de gracinha não... - anunciou a que chegava debaixo da chuva, completamente encharcada e com um meio sorriso no rosto cansado. 

 - Tá beleza pra mim, Prince... - disse a garota mais nova limpando a mostarda escura espalhada em seu queixo, um dos garçons/ajudantes do trailer, um garoto que mancava a cada passo e pisava com força no solo a cutucou para dar a caixinha com guardanapos de papel.

 - Dá até pra rolar umas músicas, não? Tipo, composições? - o ar jovial e empolgado do garoto trouxe um sorriso completo para a de rosto cansado. - Cara, tou pra tirar umas músicas naquela batera do Bishop, cês vão ver...

 - Batendo em panela, filhote? - perguntou a garota com metade do sanduíche de recheio exagerado na mão e a outra metade dentro da boca.

 - As minhas canções foram silenciadas por um silêncio maior que eu poderia resgatar, garoto... - murmurou o do celular - Mas é uma boa idéia... Bateria? Não quer tentar algo mais melodioso, não?

 - Pra quê? Barulho é mais legal! - respondeu o garoto mancando até a cadeira onde a de rosto cansado sempre se sentava e colocou uma porção de batatas sorriso na frente dela. Ela o encarou confusa, o garoto piscou com cumplicidade, logo o olhar foi para o grandalhão que fritava mais um hambúrguer enquanto assoviava uma velha canção que apenas eles conheciam.

 - Tu nem sabe andar direito, filhote. Como é que vai tocar bateria com esse pé podre aí? - replicou a garota clubber limpando o molho dos lábios e certificando se não havia restos de cachorro quente entre os dentes com a lingua. Os ombros do garoto baixaram e o sorriso morreu para uma expressão de decepção, a de rosto cansado deu o melhor sorriso de gentileza e o segurou no ombro com firmeza. Os dois se olharam e ela apenas murmurou uma palavra para ele, o resultado foi a volta da animação de sempre do garoto que mancava.

 - Tão bela és tu, nas ruínas de pedra, ó donzela que me foges... Tão belas és... - prosseguiu o pomposo.

 - Tão belas és, carne grelhada com pãozinho quente... - zombou a garota indo para o segundo sanduíche - Untada pela glória da mostarda gloriosa, teu gosto é como uma festa de...

 - Cala essa maldita boca vocês dois, mas que droga! - vociferou o baixinho quase se desequilibrando do banquinho alto, quem o protegeu de cair foi a de rosto cansado com um rápido movimento puxando o encosto da cadeira para trás e recuperando o equilíbrio. - O-obrigado chefia... - o baixinho se retraiu ao ver que fora salvo de um tombo vergonhoso, o olhar dela foi para a batata sorriso e com um suspiro, pegou uma e mastigou sem vontade.

 - Quantas horas era pra ele chegar? - perguntou o atarracado.

 - Era pra já estar aqui... - respondeu a moça mastigando a batata sorriso com mais vontade agora. Colocou um pouco do molho deixado ali no balcão pelo grandalhão e agradeceu com outro sorriso cheio.

 - Se ele cumpre os horários quanto se dá bem nas mesas de pôquer, estamos ferrados... - suspirou o pomposo vendo seu próprio reflexo no case do celular. A garota de roupas de festa e maquiagem borrada deu meia volta e entrou no trailer, mexendo em caixas abaixo do balcão.

 - Angela, fora do trailer, sim? - disse gentilmente o dono do estabelecimento.

 - M-mas...!! Não fiz nada!

 - Por isso mesmo. Fora? - a voz calma do grandalhão fez a garota dar meia volta nos calcanhares e suspirar desapontada.

 - A fama dele é tão ruim assim? - perguntou o garoto que mancava de volta para dentro do trailer para pegar condimentos, 

 - Desde Inverno passado... - todos ali naquele trailer improvisado debaixo de um viaduto qualquer fizeram cara de sofrimento.

 - Mais outro?! - esganiçou o garoto com a cara mais apavorada, o pomposo concordou.

 - E pelo jeito o azar dele veio em outros âmbitos, se é que você me entende... - fazendo um gesto mais malicioso com a cintura.

 - Nada pior que um bacante impotente... - cuspiu o atarracado antes de colocar o cachorro quente todo na boca e mastigar vorazmente. Mais um cliente chegava ali no trailer e o comportamento de todos os presentes mudou drasticamente. Um silêncio se instalou, enquanto olhares cúmplices se cruzaram em poucos segundos. 

 - Que manda hoje, camarada? - perguntou o dono do trailer.

 - Vai dois prensados, valeu? - disse o senhor de meia idade, roupas sujas de cimento seco, botas de construção e ainda com o capacete de segurança de obras na cabeça. - Chuva cretina essa, viu?

 - Tá osso mesmo... - comentou o rapaz mancando levando um pote de picles para a mesa de plástico resistente que colocavam para atender alguns clientes a mais.

 - Os rapazes estão para chegar... - disse o trabalhador apontando para cima, na direção do esqueleto de ferro de um alto edifício. - Teve acidente mais cedo por conta dessa maldita enxurrada... - o grandalhão suspirou de costas para todos, absorto em seu fazer culinário, a menina bagunçada não saíra do trailer e estava misturando os molhos em uma colherzinha de plástico e colocando no resto de seu sanduíche, a de rosto cansado estava longe, olhar distante, de vez em quando comendo uma batata de modo devagar e vendo o vazio no trânsito da madrugada. O atarracado trocava olhares de desprezo para seu cachorro quente semi-mastigado (Já que colocá-lo todo na boca não adiantara).

 - O que houve por lá? Algo grave? - perguntou o garçom amigavelmente e trazendo um refrigerante barato que os trabalhadores braçais das construções de prédios ali perto do viaduto costumavam consumir. O senhor de meia idade aceitou com bom grado e encheu seu copinho de plástico.

 - Toda vez que chove é a mesma coisa... Dá camarada escorregando no material, sacas? Hoje foi o Mestre de Obras, não viu o óleo na betoneira, foi pro chão e ficou pendurado pelo cabo. Se não fosse a maldita corda de segurança, tinha virado pastel aqui no chão...

 - Tenso... - comentou o garçom com papel e caneta nas mãos, o trabalhador entendeu a deixa e deu um pequeno pulo.

 - Oh, o de sempre jovenzinho... O de sempre... Tamos no vermelho por lá, mas acertamos a conta hoje, Emilio!

 - Sem pressa, camarada... Sem pressa... - respondeu o grandalhão terminando de aprontar alguns sanduíches lotados de recheio generoso, dispôs nos saquinhos de papel, ajeitou de forma bonita na cesta de lanches com um sorriso satisfeito e olhou irritado para a garota de cabelos negros que misturava os molhos achando que ninguém iria perceber. - Angela chica... O que eu disse para você antes?

 - Pra não entrar no trailer...?

 - Sim, e você entrou.

 - Por uma causa nobre. - apontando para os molhos misturados - Mostarda com mel é mil vezes melhor que conjunto 3 em 1, catchup, mostarda e maionese. E isso aqui... - dando a colherzinha para ele experimentar, o grandalhão obedeceu - É maionese com curry. Misturar com alçafrão não dá, mas páprica é a perfeição.

 - Desde quando você cozinha, guriazinha? - perguntou o atarracado com a boca cheia.

 - A fina arte de comer também deve ser apreciada na hora do preparo. - a frase soou estranha no sotaque da periferia da garota, a líder levantou uma sobrancelha para interrogá-la - Tá, foi uma raposa que me ensinou a misturar coisas... - ela deu de ombros - É bem legal quando você mistura coisas com pólvora... - o dedo nodoso e grosso de Emilio alcançou o nariz pálido da menina magrela ao seu lado.

 - Sem... pólvora... escutou? - a menina balançou a cabeça em resposta afirmativa. O cozinheiro voltou para a chapa. O vozerio de homens se aproximava do trailer e era hora da refeição dos peões do mundo de concreto e banal de uma metrópole qualquer.

 - Milady... - sussurrou o pomposo em tom preocupado para a de rosto cansado. - Não quer...? - ela apenas sacudiu a cabeça levemente, não se importando com a presença de muitos homens ali. O pomposo não se satisfez com o eminente ataque de cantadas baratas e insinuações em cima da única mulher perceptível do grupo, e ficou ali atrás dela, a postos, como um guarda guardando um valioso tesouro de olhos tão medíocres.

 - Esse pulha tá atrasado... - resmungou o atarracado saindo da cadeira alta e arrotando sonoramente ao terminar sua cerveja nada gelada. - Vamos desistir desse babaca e ir pro próximo...

 - Esse é o problema, Mestre Ferreiro. Não há "próximo"... - disse a Chefia de maneira discreta - Esse é o único trabalho que encontramos desde o Inverno... - a reação do grupo foi a mesma que antes, um gemido mútuo de depreciação. 

Os trabalhadores eram servidos pelo garoto manco com uma agilidade e atenção incrível, a de rosto cansado terminara suas batatas e observava aquele pequeno momento de esforço e gentileza do mais novo do grupo. A maneira como os homens o olhavam de cima abaixo, julgando seu porte frágil e o problema no pé direito disfarçado com um aparelho ortopédico velho e desengonçado, o modo como alguns tinham admiração pela determinação do rapaz em atender todos quase ao mesmo tempo, o de rir das piadas bobas, o de concordar com as opiniões sobre qualquer tipo de assunto (No momento era como o Sindicato não iria ajudar o pobre coitado do Mestre de Obras acidentado), e também como eles ficavam ao ver o garoto mancando rapidamente para entregar aquilo que os supria de uma refeição mal nutrida do almoço. Era uma mistura de surpresa e asco. Todos ali sentados se orgulhavam de seus portes físicos avantajados e invejáveis, seus dotes viris e masculinos, mas era um garoto manco, magrelo e sorridente que os supria da comida tão necessária.

 - Oh finalmente... - exclamou o pomposo vendo que um carro preto, de vidros fumê e tão bem limpo estacionava ali perto. O rapaz elegante ajeitou a gola do terninho claro e preparou o melhor sorriso, em poucos passos chegou a porta detrás do carro e esperou. O vidro abriu uma fresta e o pomposo ousou falar por ali, o olhar perdido da de rosto cansado foi para o chão aguçando seus ouvidos bem preparados desde criança para ouvir a conversa oculta. Depois de alguns minutos de troca de palavras, o pomposo virou-se para o grupo e principalmente para a mulher curvada de 20 e poucos anos ali. Ela fez um movimento leve e impaciente com a cabeça, encarou o pequeno pingente que usava em uma correntinha fina em volta do pescoço e concordou sem vontade. - E o preço? - perguntou o pomposo para ela, ela fez um gesto rápido com a mão esquerda e ele compreendeu. A conversa oculta ficou por mais alguns segundos e um pedaço de papel saiu pelo vidro fumê, o pomposo o pegou e dobrou discretamente no bolso de seu terno caro. O carro partiu após isso, deixando a quentura do motor e do asfalto e o vapor da condensação ali, os trabalhadores se empanturravam de sanduíches sem notarem a movimentação e estavam encantados com as ideias de mistura de molhos que a jovenzinha clubber dava.

 - Porra Emilio, esse sanduba tá bom pra caramba! - exclamou um trabalhador com metade do sanduíche na boca, outro na mão. O cozinheiro riu fracamente e agradeceu com um okay para ele. A moça das batatas sorriso endireitou a postura e olhou para os trabalhadores para depois encarar o cozinheiro, ele assobiava a mesma canção e fazia mais uma rodada.

 - Me surpreende o quanto você se empenha nas pequenas coisas, Aemilius...

 - Alguém tem que cuidar dos Filhos-mais-Novos... Mesmo que sejam a maior Fonte do nosso pesar... - o grupo de trabalhadores agora cantarolavam uma música qualquer e riam com suas próprias vozes da cantoria (parte da música fora puxada pela garota clubber). Para quem passasse por ali pareceria que eram apenas um bando de pedreiros alterados pelo consumo de cerveja barata, mas para o grupo era como estar em uma calma e lenta ventania de poder mágico e bem estar. A energia feérica que emanava dos sanduíches tão bem recheados trazia essa sensação eufórica e efusiva aos humanos normais, já os Filhos-mais-Velhos o sentiam de outra forma, uma fonte de inspiração restauradora. O atarracado foi o primeiro a falar:

 - O que estamos esperando, seus maricas? Caçar quimeras! - dando uma gargalhada genuína e confiante, passando pelo rapazinho manco e dando um chute delicado no aparelho ortopédico que o garoto usava para se equilibrar melhor no andar. - Tire essa porcaria, menino. Você não precisa de ferro e pinos para andar livremente... - o sorriso do rapaz foi tão agradecido que um novo fluir de energias se somou a cantoria dos trabalhadores envolvidos pelo sabor magnífico da comida.

 - Okay, rapaz. Não precisa ficar excitado... - gracejou o pomposo dando tapinhas nas costas dele.

 - Hey! - o garoto ficou vermelho levando as mãos para abaixo do umbigo.

 - Tens que ter cuidado, meu chapa... Tua vibe é diferente, sacas? - continuou brincando o pomposo, mas o rapaz não ficou ofendido, na verdade se sentia mais leve pela quantidade de energia feérica que circulava aquele pequeno trailer debaixo de um viaduto qualquer na cidade grande. O grandalhão secou as mãos no pano de prato e pigarreou:

 - Então... Quem mais precisa pro trabalho?

 - Talvez de um Prodígio e o Técnico. - explicou o pomposo se certificando que seu terno estava bem alinhado e os botões da camisa social estavam certos, o atarracado arrotou em resposta.

 - Esse pulha não! Tou cansado da ladainha dele de Saúde e Bem-estar!

 - Ele é o nosso único Técnico, Mestre. - disse a jovem se levantando e indo em direção ao outro lado da rua - E é assim que deve ser...

 - Não se esqueçam de informarem pra Velhota! - exclamou o grandalhão, o pomposo fez um okay meio ressabiado. - Use seu charme, Prince. Talvez convença a senhorinha que está fazendo o negócio certo.