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o que há pra se ver

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Morrigan não conhecia direito a face que a encarava do outro lado daquele vidro.

Já a havia visto antes, claro, em poças d’água após as chuvas e laguinhos em cantos remotos da floresta, mas a imagem nunca era tão clara. Sempre vira uma reconstrução amarronzada de seu rosto, seu cabelo, e dois olhos muito abertos e alertas, mas era a primeira vez que via as pintinhas em suas bochechas e a cor de seus olhos - tão dourados quanto a moldura do espelho.

Flemeth já a explicara que não era de seu próprio reflexo na água que Morrigan deveria ter medo, mas a menina não tinha certeza se a lição valia para algo que olhava de volta para ela com tanta riqueza de detalhes. Ela conhecia magia - certamente um objeto como aquele podia ser usado para atingir alguém, não podia? Flemeth com certeza conhecia centenas de maneiras de fazê-lo.

Ainda assim, Morrigan não conseguia deixar de olhar.

Os fios escuros subindo cada vez que ela os soprava pra longe dos olhos, só pra cair de novo alguns segundos depois. O nariz pequeno e franzido. A língua rosada surgindo de trás dos lábios e deixando-a com uma expressão engraçada. Tantos detalhes… Será que outras pessoas também notavam tudo aquilo quando a viam?

Um galho de árvore se partiu com um estalido alto em algum lugar acima de sua cabeça, fazendo-a despertar de seus devaneios. Olhou para cima - nenhum sinal do galho, mas viu que o céu começava a escurecer. Já devia estar na hora de correr para casa, antes que Flemeth saísse à procura dela. Era sempre pior quando Flemeth a buscava.

Segurou o espelho com firmeza na mão pequena enquanto corria, pensando em todos os cantos da cabana onde poderia guardá-lo. Ou talvez o enrolasse num pedacinho de pele e o deixasse numa das árvores ocas do lado de fora.

Voltaria a investigar aquele espelho assim que o sol surgisse no céu no dia seguinte.