Actions

Work Header

e quando a hora chegar, volta

Work Text:

A princípio não o viu, mas Killua podia senti-lo como se estivesse a seu lado.

- Você tá bem, maninho? - perguntou Alluka, cutucando-o e fazendo-o perceber que o vendedor de frutas estava esperando sua resposta para uma pergunta que ele não tinha ouvido. Sorriu para a irmã.

- To sim, Alluka. - respondeu, antes de se voltar para o vendedor e pedir desculpas pela desatenção. O suave fluxo de aura continuou tocando seus sentidos enquanto barganhava pelas maçãs e pêssegos, e depois, enquanto procurava um lugar vazio e razoavelmente limpo para se sentarem e poderem comer.

Quando tinha se despedido de Gon, meses antes - quase metade de um ano se passara desde então, talvez um pouco mais -, tinha sido com a certeza de que ele não poderia voltar a usar seu Nen. Mesmo que não tivesse ouvido a especulação dos médicos, Killua sabia que essa seria a consequência da última luta com Neferpitou. Gon tinha ido esperando a morte como paga - a de Pitou e a dele -, sabendo que todo uso excepcional de Nen exigia um preço. Alluka e Nanika haviam apenas amenizado a sentença, não a anulado por completo.

Mas naquele momento, sentado no porto de uma cidade cujo nome não se lembrava mas era próxima à Ilha da Baleia, ele sentia aquela presença novamente. Era só um fantasma da antiga aura de Gon - o vapor emanando de um banho tépido em vez das fortes ondas de antes, mas impossível de confundir com a de outra pessoa.

Killua reconheceria aquele toque onde quer que estivesse - em tempos de paz, em batalha, às portas do inferno.

- Você sentiu alguma coisa quando a gente comprando as frutas lá atrás, não foi, mano? - perguntou Alluka, tentando limpar o sumo de pêssego que havia escorrido por seu braço enquanto comia. Com um suspiro, Killua tirou um lenço do bolso - nunca tinha notado o quão úteis lenços podiam ser antes de viajar com a irmã - para ajudá-la. Alluka, sempre perceptiva.

- Sim.

- E o que foi que você sentiu? Illumi? - a menina quis saber, as pupilas começando a se dilatar.

- Não, não - ele se apressou em dizer. - Papai tirou Illumi do nosso rastro perto de Yorkshin, deve levar uns meses até ele poder voltar.

Alluka suspirou, aliviada, antes de voltar a seu questionamento:

- Quem foi, então?

- Gon.

A menina franziu a testa, surpresa. Killua havia lhe explicado sobre a situação de Gon algumas semanas após terem começado sua viagem.

- Mas você me disse que a condição dele era nunca mais poder usar o Nen…

Killua fez que sim com a cabeça enquanto partia um pedaço da maçã em sua mão e o levava à boca.

- Também não entendo. Mas sei que foi a aura dele que senti no mercado. - Cruzou os braços sobre a mesa, pensativo. - Além disso, o pai dele é um excelente hunter; talvez ele tenha descoberto algum jeito de reverter a situação e não disse pra gente na época. - pelo pouco que Killua tinha visto e ouvido falar sobre o pai de Gon (“Ging sempre esteve quase no nível do Presidente Netero”, dissera alguém da associação que fora visitar Gon na época), a teoria parecia provável.

Alluka ficou quieta, pegando outro pêssego e apertando-o distraidamente. Ele estava a ponto de repreendê-la por estragar a fruta quando ela levantou a cabeça e o foco de seus olhos mudou.

- Killua! Olha ele ali! - ela disse, apontando para algum lugar atrás dele. Killua largou a maçã dentro da sacola e se virou para ver.

A primeira coisa que notou, com surpresa, foi que Gon estava mais alto.

Mas é claro que ele tá mais alto, Killua”, Killua pensou, se repreendendo mentalmente por ter pensado que o reencontro aconteceria em algum momento suspenso no tempo, com Gon e ele ainda sendo os mesmos que se despediram naquela ponte. “Ele deve estar com o que, quase quatorze anos. Nós três estamos ‘em fase de crescimento’, que nem o médico disse pra Alluka antes de a gente vir pra cá.

- Gon! - gritou Alluka, subindo na cadeira e acenando para o rapaz.

- Alluka, desce daí! - disse Killua, tentando puxar a irmã de volta para a cadeira - Não precisa disso!

A menina o ignorou solenemente e continuou acenando e chamando até que Gon se virou para eles.

- Killua! Alluka! - ele gritou, acenando também, antes de sair correndo em direção a eles, por pouco não derrubando outros passantes no caminho.

Killua prendeu a respiração sem perceber, dividido entre a vontade de correr e encontrar o amigo no meio do caminho e a vontade de fazer o chão se abrir e afundar no buraco junto com a caixa onde estava. Nem suas pernas nem o chão lhe obedeceram; ficou paralisado.

Gon finalmente os alcançou.

- Oi, Gon! - disse Alluka, animada.

- Oi, Alluka! E as viagens, como foram?

Killua observou os dois, regularizando o ritmo de sua respiração enquanto Alluka resumia os últimos meses de aventuras para Gon, que ria nas partes certas e demonstrava assombro em momentos impróprios. Ele não parecia ter mudado tanto, olhando de perto.

Então, Gon voltou seus olhos para ele.

- Oi, Killua.

Killua preparara centenas de discursos para aquele dia. Perguntas, acusações, declarações, milhares de palavras que mudavam à medida que ele planejava. Nenhum deles veio - tinha esquecido que os olhos de Gon o deixavam sem palavras.

Parece que também não mudei tanto”, pensou.

- Oi, Gon. - disse, estendendo-lhe a mão.

Ficou surpreso ao ser puxado para um abraço e ao ouvir Gon murmurando “podemos conversar depois. Se você tiver tempo. Se você quiser” em seu ouvido, mas havia felicidade naquela surpresa. Não era apenas ele que estivera imaginando as possibilidades daquele momento, afinal.

Sempre”, respondeu, antes de deixá-lo se soltar do abraço e entrelaçar seus dedos com os dele.

(E fingiu que não notou o sorriso de Alluka de quem tinha entendido tudo que ele ainda não havia contado.)