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mapa astral

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iv. al tarf (beta cancri)

#estima, valor ou consideração em que é tida alguma pessoa ou coisa
#julho de 2010
#your face is like a melody: it won't leave my head

está chovendo quando ela acorda; e antes mesmo de abrir os olhos, ela tateia a cama, até encontrar o que procurava. sente a forma do crucifixo sob a mão e o segura. não é nada com religião. escuta o som da chuva, segura o crucifixo, olhos fechados. não é nada com religião, mas poderia ser. se ela acreditasse em qualquer coisa, haveria uma prece saindo dos lábios. ele provavelmente acharia graça disso.

(por que você teve que morrer?)

existe algo no silêncio. ele não entrava em contato com ela, e havia esse silêncio: incômodo e desconfortável e dolorido, mas ela sabia que ele estava lá. em algum lugar do mundo, existia mello. mesmo que para ela só houvesse silêncio, sabia que alguém ouvia a voz dele, encontrava-se com ele, sabia que alguém poderia ter pensado que ele tinha cabelos amarelos demais ou olhos grandes e expressivos demais. não importava tanto que para ela não houvesse som nenhum. ele ainda existia.

(a primeira vez que segurou o crucifixo foi no meio de um beijo. sua mão ia para o peito dele e esbarrou naquela cruz enorme, com um jesus muito pequeno entalhado nela. mello explicou depois que era o único pertece que tinha da vida anterior. anterior ao orfanato; a ser o segundo lugar; anterior ao terror de ser um órfão. ela achou que era pesado demais.)

agora o silêncio dói. ainda com os olhos fortemente fechados, ela puxa o crucifixo pra junto do peito. apertando. só há silêncio. tudo o que mello um dia foi e um dia pensou e sentiu não existe mais. o mundo continuou a rodar, e nunca iria lembrar-se dele.

(só eu)

ela se impôs algo que poderia ser considerado uma tortura: lembrar. porque só ela poderia lembrar. e então segurar o crucifixo assim que acordasse se transformou no seu ritual de flagelo diário. precisava lembrar de mello, e chocolates e explosões de raiva. mello e suas expressões que sempre denunciavam o que sentia. mello e a quentura da pele dele. corredores do orfanato e campo de futebol e hematomas arroxeados e voz estridente. mello e os sacrifícios dele.

(ele entregou o crucifixo para ela quando foi embora. no fundo, ambos sabiam que aquilo era quase uma maldição.)

poderia haver algum consolo em near ter permanecido vivo. assim, não seria apenas ela. near também tinha que lembrar. ela sabia que near lembrava, mas talvez se esforçasse para não. ainda assim, fora near que arranjara um túmulo para ele, num cemitério próximo da wammy's house. e naquele dia horrível, ela viu que near comia chocolate. mello veria aquilo como uma vitória.

(mas não existe vitória nenhuma em ter morrido pelo que deveria ter sido a mera resolução de um caso. não existe vitória nem doçura nem honra nisso. mello e mat watari mortos. e quase ninguém para chorar por isso.)

quando serena enfim abre os olhos ainda chove. ela olha para a chuva batendo no vidro da janela. poderia tudo ser poesia: existe serena e o crucifixo entre suas mãos, e existe a prece não dita, e existe a morte e a chuva. mas não há poesia alguma. só olhos voltados para trás e para dentro, e o silêncio mais vazio do mundo, e o universo se movendo independente das dores sentidas.

(o crucifixo é, ao mesmo tempo, seu bem mais precioso e a única coisa que ela gostaria de poder se livrar. mas não pode, nem nunca poderá)